quinta-feira, 14 de junho de 2018

Copa


Não vou torcer contra o Brasil.
Mas também não vou torcer a favor do Brasil.
Simplesmente não vou torcer.
Futebol não é minha língua.
Os 200 milhões de comentaristas que me desculpem, mas não vou falar nada.
A concentração vai ser no meu silêncio.
Podem gritar, podem vibrar. Eu não vou ouvir.
Não faz sentido algum torcer para profissionais que ganham um BMW por hora.
Não torcem para você. Nunca torceram. Aliás, nem sabem quem você é.
Não faz sentido algum torcer para exibicionistas que andam de Armani como se isso fosse exemplo de superação.
Não se envolvem em questões políticas. Não abraçam causas. Não apoiam ONGs. Talvez até o façam, mais por marketing do que por princípios.
Nasceram nas favelas, mas esqueceram o Brasil.
Pegaram a ponte aérea, da Baixada Fluminense para Manchester.
Vêm pra cá como turistas.
Alienígenas que pousam em nosso território a cada década.
Minha torcida é para os médicos, professores, artistas. Caminhoneiros, até.
Não faz sentido pintar o rosto, maquiar a rua, abrir o sorriso desdentado, estampar uma beleza que não existe, num dos piores momentos da nossa história.
E não estou falando só de política.
Falar que somos todos um só, num só coração, que #tamojunto por um ideal maior, é uma atitude no mínimo hipócrita. Ou ingênua.
Nunca se brigou tanto por nada nas redes sociais.
Nunca fomos tão polarizados. Ou bipolares.
Vivemos num tempo do mais alto e execrável individualismo.
Anunciantes, podem continuar vendendo refrigerante pra mim. Me forçando a abrir uma conta. A trocar de shampoo. A comprar um carro. Mas, por favor, não me peçam para torcer. Isso é pedir muito. Dinheiro jogado fora: o grito de gol não vai sair.
Meus caros, vocês pisaram na bola. Pisaram feio.
Estamos num momento de penalidade máxima.
Continuem aí, no jogo do “ame-o ou deixe-o”.
Eu vou fazer o que mais sei fazer: ignorar.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Na feira


- Olhaí, olhaí, freguesa. Pois não, senhora?
- Eu queria um namorado.
- Com espinha ou sem espinha?
- Não não. O senhor não me entendeu. Tô procurando um namorado. Alguém pra sair comigo, pegar um cinema, dar uns beijos, dormir de conchinha...
- Conchinha? Tem ostra aqui. Vai levar, freguesa?
- Não, obrigada. É que...
- Garoupa, quer? Tá bem bonita.
- Obrigada. Acredito que seja bonita mesmo. Olha, eu respeito a diversidade, a comunidade gay, mas meu negócio é homem mesmo.
- GA-ROU-PA. Tem traíra, se a senhora quiser.
- Não, vixe! Chega de traíra na minha vida. Se eu te contar cada roubada que passei, a gente não sai daqui hoje. Na verdade eu procuro um homem sincero, companheiro, que entenda a gente.
- Entender vocês? Kkkk
- Deixa eu terminar. Eu tô a fim de achar o amor definitivo da minha vida. Mas não esses príncipes de contos de fada. Quero alguém de carne e osso.
- Olha, barraca de carne é a terceira pra lá. Pergunta pelo Seu João que ele faz um precinho pra senhora. Fala que você veio do Ademir.

- Bom dia. Eu queria um...
- Pra viagem, freguesa?
- Como o senhor sabe? Eu queria alguém que fosse comigo pros lugares mais exóticos. Alguém pra conhecer o mundo, aprender novos costumes, novas línguas.
- Tem língua aqui, vai querer?
- Ai, credo! Mas deixa eu terminar. Eu sou praia, eu sou campo, eu sou trilha, eu sou cidade, adoro viver a vida...
- Coração?
- Isso é uma cantada?
- Não, senhora... magina... a senhora vai levar coração hoje? Tá bom, bonito e barato.
- Coração barato... tsã... era só o que faltava. Minha vida já tá complicada demais. Ah, os homens são tão vulgares...

- Moça bonita não paga, mas também não leva. Bom dia, freguesa.
- Eu queria um...
- Maduro?
- Com certeza! Um homem, assim, experiente... vivido... bem resolvido... que conhece as mulheres... que sabe agradar uma mulher... entende a mulher...
- Entende a mulher? Kkkk
- Por que todo mundo ri quando eu falo isso? Enfim... quero alguém estabelecido. Cansei de me envolver com moleque, gente imatura, despreparada...
- Chupa aqui.
- O senhor me respeita!
- Tô falando da laranja, senhora. Pode provar, tá bem docinha.
- Ah, tá. Então, como eu tava falando... o mercado tá difícil, sabe? Mas eu procuro alguém divertido, alto-astral, inteligente, que me faça cafuné, que me faça bem...
- Banana?
- E você acha que eu tenho cara de quem tá procurando um banana? Eu, hein?
- Tô falando dessa banana aqui. Tem prata, nanica...

- Bom diiiia, freguesa.
- Bom dia. Eu queria um... achei! É ele! É ELE! Finalmente encontrei o amor da minha vida.
- Muito bem! Quer que embrulhe?
- Não, eu prometo ser bem honesta com ele.
- O fiel aqui...
- Mas é ÓBVIO que ele tem que ser fiel!
- Tô falando do fiel da balança. O ponteiro. Tá marcando...
- Ai, nem me fale em balança. Preciso fazer uma dieta ur-gen-te! E malhar!
- Tá marcando 2 quilos. Tá bom ou quer mais?
- Tá ÓTIMO!
- A senhora não vai se arrepender. Chegando em casa vai ver que é bem fresquinho.
- Não, peraí... para, para tudo! Um pouco meigo, sensível e delicado, até aí tudo bem. Mas... fresquinho... fresquinho definitivamente NÃO! Quer saber? Deixa quieto, não vou levar nada. Já vi que aqui eu não vou encontrar o que procuro. Só tem bagaço! Pra mim chega! Desisto. Só uma última coisa...
- Pois não, senhora.
- Onde tem um supermercado aqui perto?

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Meu futuro primeiro encontro

Não fui eu que pedi. Me incluíram, sem minha autorização, numa comunidade facebookiana de solteiros. Como esse passou a ser recentemente meu status, OK também fazer parte dela e ver o que acontece. Não preciso denunciar o anônimo que me botou lá. É um grupo de poucas interações. Uma balada micada. Com a vantagem de não ter banda cover tocando “parabéns” à meia-noite para os aniversariantes do dia. Passei pela página de modo superficial, rápido e desinteressado como quem lê revista em consultório. Me chamou a atenção um perfil de uma moça com cara de quem fez o papel da Branca de Neve no colégio. Ela deve usar maquiagem à base de porcelanato. Não tem uma espinha, uma ruga. Em lugar nenhum. Deve deixar uma quiromante bem confusa. Seu semblante traz uma sensação boa. Alto-astral. Seu sorriso não é forçado. Ela passa a imagem de segurança. De poder. Deve trabalhar na Berrini. E passar as férias esquiando em Aspen. Eu passo minhas férias no Guarujá. Quando sobra dinheiro. Sei lá, parece que ela tem muitas qualidades. Destacou-se fácil da maioria dos perfis da comunidade. Até porque essa maioria é de homens que tiram selfie fazendo biquinho em frente ao espelho da academia. Ou dentro do Honda Civic. Sim, meu caros. A humanidade não tem mais salvação. É o fim dos tempos. Homem também faz selfie de biquinho na Smart Fit, entre um supino e outro.
Dei um “oi” nos comentários de sua foto e esperei resposta. Que chegou mais ou menos 10 dias depois. Poderia ter ficado puto. Poderia achar que ela trabalha no telemarketing da NET. Mas entendi a situação. Ela foi respondendo por ordem de chegada. Que nem atendimento do SUS. Como eu não agendei horário de chat, fui atendido somente quando chegou minha vez. Minha senha era 637.
Começamos o diálogo com aquelas perguntas protocolares. Formulário-padrão de entrevista de emprego. Como eu previa, ela ocupa uma função foda. Nem lembro direito, mas sei que é alto escalão. Aquilo não é um cargo, é uma oração subordinada. 4 ou 5 palavras e umas iniciais no meio que só servem pra te humilhar. Gestora de Franquias IT Aplicadas ao Pequeno Varejo. Corregedora Master XP em Prevenção a Fraudes e Delitos. Vice-Presidente MHD em Análise de Riscos e Oportunidades. Se colocar todos os cargos de onde ela trabalha no papel, sai a continuação do Harry Potter.
Minha pergunta seguinte foi bem besta. Homem fica meio retardado quando tenta se aproximar de uma mulher. “O que você pretende nesta comunidade?”. Criar um evento #ForaTemer. Vender Cogumelos do Sol. Fazer novas amizades. Claro que não, ô idiota! Amigos a gente faz na sinagoga. No curso de stand-up. Quem entra numa comunidade chamada Solteiros e Solteiras de São Paulo é porque está procurando sua cara-metade. Pode ser um casamento. Um namoro sério. Um namoro divertido. Até uma trepada, quem sabe. Ou, na maioria dos casos, o que de fato acontece é uma sequência de 300 mensagens no WhatsApp e um encontro de um dia só. Uma relação efêmera e casual de 3 horas, que começa no Star Wars e termina no Starbuck’s.
Se ela é uma pessoa bem resolvida, e provavelmente muito seletiva, você deve estar se perguntando: o que ela está fazendo numa comunidade de losers, e ainda por cima virtual, onde só dá maluco? É fácil de responder. Sim, existem aristocratas que além de ricos são bonitões. Ela poderia ficar com qualquer um deles fácil. O problema é que a elite brasileira é uma bosta. Esses Mansur, Garneros da vida, aparecem na coluna da Mônica Bergamo mas todos eles cometeram grandes crimes contra a nação. O mais gritante é que todos namoraram a Adriane Galisteu. Thor Batista, por exemplo. Ele é deus nórdico só no nome. Um babaca. Deve ser muito chato namorar um cara cujo hobby preferido é atropelar ciclista. Então, é possível que ela tenha entrado na rede por uma questão de experimentação. Deixar aflorar o lado insólito da vida. Entrar em contato com o excêntrico. Sei lá.
Na sequência do nosso diálogo virtual... aliás, esqueci de apresentar a pessoa. É Anna, com 2 NN. Não sou besta, né? Claro que esse não é seu nome verdadeiro. Mas eu gosto. Anna é nome de gente rica. Empoderada (odeio essa palavra). Anna Pegova, Anna Hickmann, Anna Karenina. Nome de quem empresta sua imagem a comercial de cosméticos. Portanto, essa pessoa relatada doravante será chamada de Anna. Que continua sendo um mistério. Sabe aquela história de que a música “Parabéns a você” não é de domínio público, mas foi criada por uma velhinha de 90 anos que mora no sul do Texas, e cada vez que alguém canta ou toca essa música tem que depositar uma porcentagem dos royalties na conta dela? Então, eu tô desconfiado de que a Anna é neta dessa velhinha. Disse que tem um casal de filhos adolescentes e me mandou a foto deles. Sei não, mas acho que ela alugou esses pimpolhos num brechó. Duvido que o pirulão de 1,80m tenha saído daquele ventre imaculado.
Mas voltando ao chat. Mencionei o churrasquinho grego, a Galeria do Rock e o Largo do Paissandu. Não se trata de um convite, claro. É mais pra testar seu nível de conhecimentos sobre estudos antropológicos. Ela conhece o Largo do Paissandu. Viu nos noticiários na semana retrasada. Antes disso, achava que era a capital do Bangladesh.
Próximo assunto: cinema. Meu território, meus domínios. Falei que frequentava mais os cinemas da região da Paulista. Pela localização, pela programação, enfim... Ela respondeu que as cadeiras não são confortáveis. Vou repetir: as-cadeiras-não-são-confortáveis. Aquela informação me caiu como uma pedra. Minha vivência cinéfila ruiu. Passei metade da adolescência dentro do Cine Astor. Parte das cadeiras do Itaú Frei Caneca estão mais fofas graças às minhas nádegas. Conheço os funcionários do Belas Artes pelo nome. Se ela estiver se referindo ao Centro Cultural, está coberta da razão. Aquelas cadeiras duras e sem encosto são ótimas... para monges tibetanos que dormem no chão. Nivelam qualquer opulência. E até hoje não entendo por que raios eles quiseram imitar cadeira de balanço de parque infantil.
Para a musa do capitalismo, o cinema preferido é, adivinhem: Cinépolis JK Iguatemi. Vou dar um briefing pra quem não conhece. Lá, um concierge dentro da sala serve pipoca ao azeite trufado com uma taça de cabernet sauvignon. A poltrona é mais confortável que minha cama. Quando você senta nela, a primeira coisa que precisa fazer é pegar o celular e botar pra despertar às 7h. A lateral da cadeira tem mais botão que o painel do carro da minha mãe. Tem botão pra elevar o apoio dos pés. Botão pra inclinar o encosto. Certeza que se você apertar os 2 botões juntos vem uma oriental te fazer shiatsu. Pena que só passa blockbuster. Se passasse algum filme do Lav Diaz (pra quem nunca ouviu falar desse diretor, um curta-metragem dele dura 4 horas) eles não venderiam ingresso. Venderiam uma diária. A bilheteira te entregaria o ticket junto com uma toalha, Havaianas e sabonete líquido. E naquele complexo não existe “sala comum”. A sala VIP É a sala comum. A hierarquia é sala VIP, sala Ultra VIP, sala Mega VIP e Olimpo. Com a grana do ingresso mais R$ 200 dá pra dar a entrada numa kitchenette. Uma vez eu encontrei o Wagner Moura naquele cinema. Estava deixando currículo com a gerente.
Não definimos ainda o local do encontro. O cine-ostentação é uma possibilidade. Não quero fazer que nem todo homem faz. Chegar uma hora antes e dizer pra ela “acabei de chegar, é minha primeira cerveja”. Vamos tentar sincronizar horários. Vamos chegar mais ou menos juntos. Ela de Hilux, eu de Terminal Capelinha. Não tenho carro, não gosto de dirigir. Mas isso ela não precisa saber. Tem muita coisa da minha vida que ela não precisa saber. Pelo menos não no primeiro encontro. Que eu tive lúpus eritematoso subagudo. Durante 2 anos da minha vida, meu rosto parecia um campo minado de varíola. Ou que nas aulas de lambada ninguém queria dançar comigo e eu treinava sozinho em frente ao espelho. Ou que o pessoal da firma acertou a quina da Mega Sena e eu não entrei no bolão. Ela não precisa saber nada disso. Só o básico, o resumo da minha vida: nasci / peguei autógrafo do Pelé / entrei na ESPM / entrevistei o Tarantino / vim aqui te conhecer. É mais do que o suficiente.
Ela também não precisa saber de alguns detalhes programados para o próprio dia. Vocês sabem, hoje em dia tem um Carrefour Express em cada esquina. Compro um sanduíche integral de peito de peru e tá tudo certo. Simulo uma certa indisposição na hora do encontro. Não vou gastar o olho da cara pra comprar pipoca com redução de aceto balsâmico preparada pelo Alex Atala. A única pipoca que conheço vem com redução de milho. Cansei de comprar saquinho pela metade.
Mas vai dar tudo certo. Já pedi o adiantamento do 13º. Segui o protocolo para impressionar pessoas. Entrei no Google. Decorei o nome de todas as espécies de abelhas em extinção. Aprendi as expressões básicas em mandarim. Treinei um monte de coisa que vi em tutorial: saltos de parkour, fazer crepe suzette na mesa, trocar a bateria de iPhone... pensando bem, esse não. É impossível trocar a bateria de iPhone. Tô confiante. Talvez não role nada. Talvez ela dê a desculpa clássica “vou comprar cigarros”. Faz parte da vida. O que importa é a tentativa. No Cinépolis JK Iguatemi. Capaz dela achar que EU seja o concierge. Mas tudo bem. Vamos ver. Mas antes, preciso dizer uma coisa muito séria: se for pedir vinho dentro do cinema, que seja um Merlot chileno, reserva 2012.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A greve da letra Z


Parecia uma reivindicação besta. A categoria que ocupa o 26º lugar no alfabeto fez uma série de solicitações, em virtude das recentes medidas léxicas que só ampliaram as desigualdades e trouxeram ainda mais injustiças ao cenário gramatical vigente.
A lista, encaminhada ao presidente do Acordo Ortográfico, era imensa. A primeira reivindicação, talvez a mais importante, era trazer mais visibilidade à categoria. A letra Z não queria mais ser a última do alfabeto e, portanto, a menos utilizada. Queria ser a 5ª, logo abaixo do D. Isso traria uma valorização à classe. Além disso, os representantes sindicais do Z pleitearam que a letra tivesse, do ponto de vista fonético, um som próprio e exclusivo, reforçando sua identidade própria. O “s” da palavra “casa”, por exemplo, estaria doravante proibido de ter o som de “z”, cabendo-lhe todas as implicações legais caso o descumprimento da determinação permaneça. Dentro da mesma pauta, outra reivindicação foi a renomeação de diversos termos do nosso vocabulário. “Obeso” passaria a ser “obezo”. “Coisa” seria “coiza”. “Exame”, “ezame”. E por aí vai. Como adendo ao parágrafo, a categoria solicitou que o termo importado “WhatsApp” fosse oficialmente incorporado ao nosso idioma na forma de “Zapzap”, conforme pronunciado nas comunidades de baixo poder aquisitivo. Em nota, um dos membros do Conselho da Letra Z alega que esta é a mais limpinha do teclado, o que gera uma terrível discriminação em relação às sujas, gastas e afundadas “a”, “s” e “#”.
No início, as entidades procuradas ignoraram a solicitação. Protocolaram o requerimento e a coisa ficou por isso mesmo. Já que o nosso vernáculo é tão vasto e rico, na abundância de suas 25 companheiras de escrita, todas essas solicitações, se atendidas, poderiam gerar um desequilíbrio nas contas públicas e colocariam em risco a possibilidade de se gerar um efeito cascata. Além disso, nosso delicado momento econômico não seria propício a tais mudanças, já que isso poderia onerar os fabricantes de componentes linguísticos. Todos os teclados e telas touch screen deveriam ser refabricados. O que, pra falar a verdade, não seria problema algum, no país do kit de primeiros socorros, do extintor de incêndio veicular tipo ABC e da tomada de 3 pontos.
Revoltados, os integrantes da letra Z adotaram medidas mais radicais. Da noite para o dia, organizaram um motim de proporção nacional. No início da semana passada, todas as letras “z” desapareceram dos vocábulos, criando um vácuo existencial. A sociedade não se acostumou ao “a_ul” no lugar de “azul”. “Ami_ade” ao invés de “amizade”. Como se não bastasse, os piqueteiros foram além. Bloquearam o acesso a toda e qualquer consulta, impressa ou virtual, aos verbetes iniciados por Z. De repente, não mais do que de repente, o dicionário terminou no Y.
As consequências imediatas foram terríveis. O zinco sumiu das prateleiras. A música ficou mais pobre sem a zabumba e o zouk. As cenas de zumbi tiveram de ser refeitas. O zoológico foi desativado. Zeladores foram pro olho da rua. Zagueiros foram pro banco de reserva. O estoque de zero ficou praticamente zerado. A Operação Zelotes foi interrompida. Teve racionamento de zimogênio, seja lá o que isso possa significar. Houve briga por zíper. A imprensa sensacionalista colocou em suas manchetes: “Se a paralisação continuar, daqui 1 mês as zebras deixarão de existir”.
Quem foi a favor da greve comemorou. A cidade estava vazia. Ou melhor, va_ia. Por alguns dias, nada de zombaria. De zorra. Zoeira. Ninguém zanzando por aí. Zangados na rua eram cada vez mais raros. E o que é melhor: finalmente o país se viu livre do Zika Vírus. E do zunido do seu inseto transmissor.
Em caráter emergencial, o Ministro da Língua Portuguesa solicitou a importação de 20 milhões de letras para que a pane não se agravasse. Apenas como medida cautelar. Porém, com a alta do dólar, foram obrigados a estreitar relações comerciais com a Al Jazeera, o lugar mais abundante do planeta em estoque de letras pouco convencionais. Isso, claro, quebrou protocolos oficiais e gerou um certo mal-estar no Congresso.
O Governo, débil e incompetente, vivendo a maior crise dos últimos tempos, atendeu a maioria das solicitações apenas na tentativa de se manter no cargo até o fim do mandato. Entre diálogos e carreatas, o que sobrou foi uma série de trapalhadas. A mais grave foi o Corregedor dos Neologismos, flagrado dormindo em sessão na plenária que debatia o assunto. O cartunista Ziraldo não perdeu tempo: tacou um balloon escrito “zzzzzzzzzzzzzzzzz” sobre a imagem do perdulário. Um tremendo desperdício, em época de restrição de consumo.
Apesar de boa parte das reivindicações atendidas, a greve continuou. Filas e mais filas nos cartórios. Quilômetros de aglomerações de Zulmiras, Zózimos, Zuleikas e, principalmente, do tal do Zé. Baderneiros incentivaram o quebra-quebra. O “Z” do luminoso da fachada da danceteria Zais foi furtado. Ninguém sabia mais o que os manifestantes queriam. Um dos líderes do movimento declarou: “existe uma clara infiltração política, orquestrada pela elite imperialista e conservadora norte-americana, que colocou títeres das letras estrangeiras “W”, “X” e “Y” se misturando ao grupo, com o único objetivo de atrapalhar as negociações e causar ainda mais repúdio da população”.
Por ora, a situação está relativamente sob controle. O zabaione voltou ao mercado, ainda que com o reabastecimento incerto. Fabricantes de azulejos retiraram o ágio. O Governo reduziu os impostos do azeite, subsidiando sua produção e gerando um rombo bilionário aos cofres públicos.
Não é um final feliz, com “z” no final. Mas é o que temos. A greve do “H” está programada pra semana que vem. Enquanto isso, vamos empurrando nossas palavras com a barriga. E torcendo por um texto mais justo. Seja o que Zeus quiser.


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Quando o Tinder e o Uber se encontram


- Carol?
- Marcos?
- Oi, prazer.
- Como cê tá? (beijinho, beijinho).
- Achei que cê era mais alto... assim, pela foto...
- Jura? Ah, sei lá... essa foto eu tirei na praia, faz tempo, vai ver eu ...
- Não, não me leve a mal. Tá bom assim... homem muito alto também não dá, né? Rs
- E aí? Pra onde a gente vai? Pegar um cineminha?
- Tava pensando num japonês.
- Seu ex? (...) Ah, restaurante... pô, foi mal, desculpa.
- Tem um em Moema que é muito bom.
- Fechou. Posso seguir o caminho do Waze ou você tem alguma preferência?
- Não, de boa.
- Em compensação você é mais gata pessoalmente do que na foto. Tá bom o ar ou quer mais frio?
- Tá bom assim, obrigada...
- Quer uma balinha? Água? Fica à vontade.
(No restaurante)
- Me conta: o que você faz?
- Sou advogada... taurina, ou seja, tenho um gênio meio forte... rs... Separada, tenho um casal de filhos que são o amor da minha vida... ah, tenho outro filho também: meu gato, o Rory. E eu sou assim mesmo, isso que você tá vendo. Sou bem simples, odeio falsidade, odeio homem que enrola a mulher, sabe? Mas e você, quero saber de você.
- Ah, sei lá... não tenho muito o que falar de mim, não. Eu sou engenheiro. Trabalhei 17 anos numa firma que fechou. Aí você sabe... tive que me adaptar à realidade, me reciclar, procurar novos desafios... tô aí, no corre...
- E você gosta?
- Ah, tem dia que o movimento é bom. Pego umas 7, 8 pessoas... mas no geral tá fraco...
- Ah, vários parceiros por dia... rs... E o que fez você entrar no app?
- É que eu saio pouco, sabe? Não tenho tempo. Então eu tô a fim de achar a pessoa certa. Nada de aventura, essas coisas... na noite rola muita besteira, entende? Eu prefiro uma coisa mais sossegada. E você?
- Eu me separei faz um tempinho. Tive uns relacionamentos depois, mas nada sério. Na verdade eu tô procurando novos caminhos, novos horizontes. Em busca de uma nova direção pra minha vida, saca? Não adianta o GPS apontar pra esquerda se eu quero ir pra direita, tipo isso... Eu meio que cansei de ser conduzida de modo convencional. Hoje eu sou mais do caminho alternativo... não vou comer esse sushi, você vai querer?
- Passa pra mim.
- Cansei de ser pressionada, de seguir o que os outros falam.
- Você não faz ideia. Tem cada gente estranha nesse mundo... ontem mesmo, entrou um casal no carro, aparentemente normal. Bem vestidos e tal... Mas dava pra ver que o cara tava cheiradaço... a mulher então, vixe... vomitou no assoalho, acredita? Ah, não dá... cansei também...
- É, pelo menos isso a gente tem em comum... pedir a conta?
(...)
- Então tá. Foi um prazer. (Beijinho, beijinho, e de repente surge um beijinho maior do que um simples beijinho). Não, para... cê tá confundindo as coisas... hoje vamos ficar por aqui. Boa noite. Pode encerrar a corrida.
- Foi mal. A gente se vê novamente?
- Vamos ver. Eu te mando uma mensagem. Ah, é crédito.
- Só me faz um favor. Depois não esquece de me avaliar.


quinta-feira, 26 de abril de 2018

Professor bom é professor sujo


Hoje praticamente tudo se aprende por conta própria no Google. O resto nos é ensinado por professores em auditórios tecnológicos, com recursos multimídia e direito a coffee break. Aquele professor vestindo um impecável Armani, microfone de lapela e caneta laser pra apontar em sua apresentação Power Point os principais tópicos do conteúdo de seus conhecimentos técnicos. Tudo muito bonito, muito clean e muito caro.

Mas bom mesmo era o professor de antigamente. Aquele propedeuta que andava com o cabelo bagunçado e cheio de caspa pra evocar Einstein. Usava a camisa polo de todos os dias, que nunca ornava com o sapato gasto e de cadarço, frequentemente desamarrado num pé. Em seu pescoço, estava pendurado o óculos de grau, utilizado somente para leitura. Professor que urrava com a alma, passava todo o exercício do seu saber na base do gogó e ficava rouco pelo menos 1 vez por semana. Circulava sempre com as mãos sujas de giz, que emporcalhavam o avental branco com uma coloração mista de amarelo, laranja e carmim. Um avental levemente amassado, com os bolsos bem cheios, e a gente não sabia se eram preenchidos por questões da prova, calculadora ou a metade sobrante de um pão com mortadela. Aquele sim, era professor de verdade. Que suava, que sangrava e que fazia a gente aprender.


quarta-feira, 18 de abril de 2018

O fim do mundo


Atendimento: Pessoal, acabei de chegar do cliente e peguei um baita briefing. Campanha grande: o fim do mundo. É concorrência.
Criação: Ah, tá... e qual o prazo?
Atendimento: Urgente. Falaram que o mundo vai acabar no dia 23, então precisamos levar as ideias antes pra eles aprovarem... concorrência gigantesca, são mais de 15 agências envolvidas. Já tava tudo fechado, mas aí eu fui lá entregar o job da Guerra da Síria, eles gostaram e deram pra gente essa oportunidade de participar. Tipo uma exceção.
Criação: Sei... e qual a verba?
Atendimento: Não foi definida. Mas por que vocês precisam saber?
Criação: Faz toda diferença. A gente precisa entender se o cliente vai gastar uma caralhada, aí a gente pode pensar num ataque de mísseis aéreos com todas as potências envolvidas. Ou então, se for campanha custo zero, a gente pode bolar uma queda de meteorito.
Atendimento: A gente precisa impressionar. Ideias do caralho. Essa conta é muito importante pra agência. Se vocês acham melhor apresentar propostas bem caras não tem problema. Depois eu ajusto o orçamento na planilha. (...) Só dando um toque: a gente PRECISA ganhar essa porra dessa conta. Perdemos a conta do aquecimento global e vocês viram, né? Todo o departamento de new business foi mandado embora.
Criação: E qual o target?
Atendimento: Olha, o público que vai ser impactado é meio assim tipo... mundo, sabe? Toda a galera. Mas essa campanha vai ser focada pros líderes, formadores de opinião, decisores... Pensa no Trump. Mas tem que ser algo que agrade também aquele outro lá. Baixar Wallassad... Baixar Wassalab... Wasabi... ah, sei lá. E aquele outro também, aquele chinês: King Kong Jun.
Criação: Ele é norte-coreano.
Atendimento: Ah, vocês entenderam.
Criação: E tem algum policy?
Atendimento: Criação livre. Só não pode falar dos concorrentes. Nada de comparar com Marte ou citar Júpiter nas peças. Viu, Kléber?
Atendimento: Ah, outra coisa. Vamos fazer algo bem up to date. Nada de coisa retrô, nada de extinção dos dinossauros, dilúvio, vulcão, isso que vocês apresentaram no job da semana passada. Ah, e vamos levar opções. Mínimo 3. Vocês marcam uma ideia no layout e as outras só faz o key visual. No final, vocês fazem uma defesinha das ideias, pode ser? Por enquanto deixa data, local e horário com marcação nonono. Depois eu passo as informações direitinho e coloco as referências na rede.
Atendimento (saindo da sala, fala baixinho e com sorriso ao mesmo tempo confiante e sarcástico): A gente vai ganhar.
(...)
Criação 1: Alô, é do consultório do Dr. Rogério? Eu tinha uma consulta hoje, mas vou ter que desmarcar... isso... semana que vem? OK, pode ser. Obrigado, tchau tchau.
Criação 2: Pessoal, vocês vão querer do quê? Tô fazendo o pedido agora. Meia portuguesa, meia calabresa tá bom pra todo mundo?

Dia seguinte. 18h55. Chega na sala o diretor de criação. Um hipster gourmetizado. Camisa branca da Dudalina, calça jeans preta, bota Timberland escura, óculos com armação em casco de tartaruga comprado num brechó em Londres, cabelo espetado com gel, barba aparada e brinco de diamante na orelha esquerda. Tem cara de metidinho, afetadinho, antipático. No fundo, é mesmo. Aquela cara de quem está sempre querendo espirrar, sabe?
Diretor de criação: E aí, pessoal? Cês tão criando aquela campanha do fim do mundo? Posso dar uma olhada?
Criação (preocupada): A gente já entregou uns roughs e alinhou as propostas com o atendimento. Estamos trabalhando em conjunto e o pessoal falou que tá tudo OK, que o caminho criativo é esse. Mas se você quiser olhar...
Diretor de criação olha as peças e não esboça a mínima reação. Não faz cara de surpresa, de agrado, não ensaia uma única risada de canto da boca. Sua cara de espirro fica ainda mais acentuada.
Silêncio sepulcral no ambiente. Sons de teclado lá da outra sala parecem tambores. Estagiário tira o fone de ouvido, começa a falar uma frase gritando empolgado e engole a frase no meio. Criação com o cu na mão.
Diretor de criação: Olha, eu não conheço o cliente, mas se eu fosse Deus eu reprovava tudo. Tá tudo muito flat, muito bife na chapa. Sem brilho, sem emoção. Isso aqui, ó: citar o Apocalipse. Bem déjà vu, né não? Redator, falta um conceito, uma ideia bem amarrada. Tá tudo meio solto. Isso aqui da doença de laboratório é até legal, mas cadê o insight criativo? Cadê as premissas? E você, diretor de arte: botar fundo preto pra falar de fim do mundo é beeem clichê. Batido demais. Pessoal, é sério. Se nós formos os últimos a apresentar, o cliente vai dormir. A gente tem que dar show!  Cadê a ação de ativação? Faltou o viral no Facebook. Inventa um lance que pareça fake news, aí na sequência a gente mostra a campanha de verdade. Senti falta disso, um lance meio teaser. Tipo: “prepare-se: o fim está próximo. Sua última chance de pular de paraquedas e beijar na boca a gostosa da sua vizinha”. Sei lá, tô chutando... só uma ideia... mas o caminho é esse...
(...)
Diretor de criação: Bom, tô indo pra academia. Amanhã de manhã eu tenho uma reunião no cliente e chego mais tarde. Me mandem por e-mail. Qualquer coisa, pode me mandar um áudio no Whats.
(...)
Criação: Pessoal, meia muçarela, meia frango com catupiry todo mundo come?

Dia seguinte. 18h55.
Atendimento (esbaforido e empolgado): Criação, acabei de voltar da apresentação. O cliente a-mou as ideias. Ele CHOROU! Muito do caralho. Cês estão de parabéns. Ele só pediu alguns ajustes, eu vou entrar com o pedido. Coisa pouca, bobagem. Aqui eles querem poupar as crianças, os idosos, a população de baixa renda e os cachorrinhos, pra não correr o risco de ficar politicamente incorreto.
Criação: Ué... mas não é O FIM DO MUNDO?
Atendimento: Então... era pra ser... tava tudo alinhado... mas aí entrou o pica das galáxias e resolveu mudar tudo. Não vai ser um fim do mundo global. Eles querem uma coisa meio catástrofes em alguns pontos do planeta. E não pode ser fim geral total porque o contrato de patrocínio com a Nike só se encerra no ano que vem.
(...)
Atendimento: Outra coisa: não podemos falar em “fim do mundo” pra não ficar tão agressivo. Precisamos suavizar um pouco a mensagem. Deixar algo como “o que vem por aí”. Ah, e não podemos usar armas. Nada de canhões, nem armas químicas. E não mostrar gente morrendo. Nem o planeta escurecendo. Algo mais clean, mais subjetivo. De resto, tá aprovado!

Semana seguinte.
Criação: E aí, já temos a resposta da concorrência?
Atendimento: Então... a cliente ACABOU de me mandar um e-mail. Eles decidiram cancelar o job. A verba foi toda alocada pra Copa do Mundo, que passou a ser prioridade. Mas semestre que vem eles vão voltar com o job e eles já prometeram que a gente vai participar do processo. A cliente adorou a agência, a gente conseguiu botar um pé lá dent...
Diretor de criação: Licença, desculpe interromper. Criação, só lembrando: amanhã a gente apresenta o job de ataque terrorista. Cês já começaram a pensar em alguma coisa?
(...)
Criação: Pessoal, o que acham meia escarola, meia atum?


sexta-feira, 9 de março de 2018

DR de hoje


- Amor. Benzinho...
- Quê? Tô dormindo...
- Acorda. Precisamos entrar no chat.
- Que foi?
- Precisamos atualizar nosso status.
- Como assim?
- Isso que você acabou de ouvir. Precisamos reavaliar o CRM.
- Mas o que tá pegando?
- Nossa relação B2B não é mais a mesma. Cê não me prioriza no seu time sheet. Cê não me dá os inputs necessários. Cê não me dá um tratamento customizado.
- Como assim, meu Candy Crush? Você é 360 pra mim. Você é meu foco inspiracional. Sem você eu sou 0 GB.
- Acho que nossa clusterização chegou ao fim.
- Não faça isso, pelamordedeus! Vamos conversar.
- Nosso user experience não tá legal. E tem mais. Soube que seu programa de fidelização não está otimizado. Você vacilou na estratégia de loyalty comigo.
- Quem te disse isso?
- Minha amiga me disse que você viralizou suas táticas de approach e criou um buzz na social media.
- Esse database não confere! O máximo que fiz ontem foi um casual day no bar com os amigos member-get-member.
- Sei... vai desobedecendo as regras de compliance que você vai ver...
- É sério. Eu juro por tudo quanto é sagrado que por você eu sou full service.
- Ah, sei lá... tá tudo meio esquisito... as planilhas não batem... num tá legal.
- Quer fazer um roadmap? A gente redefine o escopo do business intelligence e dá um restart.
- Mas aí precisamos alinhar o core business. Sei não...
- Amore... para com isso... vem cá... deixa eu te dar um beijo... isso... chega mais... vem pra cá...
- Ai, para... assim você me deixa louca... isso... não para... continua... vem... isso...
- Vem cá, benzinho, vou te...
- Ah, não! De jeito nenhum! Pode parar! Back-end, nem pensar!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Adeus ano novo

Era pra ser como a virada de um mês qualquer. Do dia 31 de julho para 1º de agosto. De 31 de outubro para 1º de novembro, véspera de Finados. De 31 de março para 1º de abril, dia da mentira. Mas, especificamente na virada de 31 de dezembro para 1º de janeiro, Dia da Confraternização Universal, período em que a Terra completa seu movimento de translação ao redor do Sol, somos imbuídos pelo desejo de mudança. Acreditamos no poder extraordinário da transformação. Trata-se, na verdade, da transição de um dia qualquer. Um minuto qualquer. Mas não. Nós, seres humanos esclarecidos, somos levados a crer que, a partir deste minúsculo pulo do ponteiro do relógio, seremos outros. Da noite para o dia, iniciaremos uma dieta, entraremos na academia, plantaremos uma árvore. E o mundo, é claro, será outro também.

E assim nasceu o feliz ano novo de 2018. Com chuvas intermitentes e nenhuma providência tomada pela Prefeitura para combater as enchentes e alagamentos. Assim como em 2017. Assim como em 2016. Ou em 1734. Este mais recente rebento do Século 21 trouxe um aumento no preço da passagem de ônibus. Antecipou aquilo que, infelizmente, já vinha ocorrendo nos anos anteriores, só que nos meses seguintes ao primeiro: o suicídio de uma estrela do rock dos anos 90. 2018 chegou chegando com uma série de notícias e reportagens sobre acidentes e atropelamentos causados por rachas. É verdade, meu caro. O homem do terceiro milênio ainda idolatra Vin Diesel e acha que apostar corrida de carrinho é sua prova mais inconteste de supremacia e evolução. O ano veio com político que come gente e política que mata gente. Quer mais? Tem mais, sim senhor. A Organização Mundial de Saúde colocou o Estado de São Paulo inteiro como zona de risco da febre amarela. Isso mesmo. Nós, índios, corremos o risco de morrer de febre, aquela doença que já foi detectada num dos primos primatas de nossa selva.

O que esperar de fevreiro? Não sei. Tirando o Carnaval, não faço a mínima ideia. Só sei que a ceia do último Réveillon continua posta na mesa, exatamente do jeitinho que você deixou.


domingo, 14 de janeiro de 2018

Gato

"O gato subiu no telhado", dito pelo(a):

- Pessimista: "O gato, que já tava velhinho, subiu no telhado de vidro".
- Otimista: "O gato deve ter feito alguma coisa errada, mas ainda bem que tem 7 vidas".
- Político: "No meu governo eu prometo construir 15 mil lares para animais abandonados e 7 mil moradias com telhados revestidos".
- Atriz norte-americana: "Ele abusou sexualmente de mim. No telhado. Odiei, mesmo ele sendo um gato".
- Juiz da Lava-Jato: "Senhor felino, como o senhor explica a reforma do telhado do seu tríplex no Guarujá?".
- Colecionador de grupos de WhatsApp: "Bom diiiia! Boa segunda-feira pra todossss!!! Miau miau ^^ ^^ ^^
- Facebookiano típico: "É inconcebível a sociedade aceitar o fato de um animal mimado e criado em apartamento escalar uma posição de superioridade e abrigar-se no conforto de um telhado, em relação à população carente, que nem tem teto pra se cobrir".
- Hater: "Gatos, vão tomar no cu".
- Maconheiro: "O gato subiu no... no... no... rsssssss".
- Kim Jong-un: "Gatos, olhem pra cá: BUUUUM!".
- Donald Trump (em seu Twitter): "Gatos são imbecis. Vou expulsar todos eles do meu país".
- Dilma Rousseff: "Eu saúdo os gatos. Eles são animais que bebem leite porque são mamíferos... e comem peixe... embora tenham medo de água... e as listras... dos cachorros... quer dizer, dos gatos...".
- Jair Bolsonaro: "Que porra é essa? Não basta eles vadiarem nas ruas, agora inventaram de subir no telhado? Que palhaçada é essa? No meu governo não vai ter essa bagunça não. Carrocinha pra todos eles".
- Carlos Alberto Sardenberg: "A taxa de elevação do gato nos fundos do telhado ultrapassou os índices previstos pelos economistas em relação à taxa dos cachorros, por exemplo".
- Pabllo Vittar: "Não sou gato. Nem gata. Nem cisgato. Apenas um ser humano em busca de escalar a liberdade sobre o telhado".
- Politicamente correto: "O animal costumeiramente perseguido pelo cachorro escondeu-se nas alturas por meio de sua acessibilidade".
- Professor catedrático: "O Felis catus galgou em direção à cobertura residencial de cerâmica".