segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Cabelo horroroso


Semana passada, o radialista gaúcho Rogério Mendelski foi acusado de racismo ao fazer um comentário sobre o cabelo da ex-vereadora Marielle Franco. Segundo ele, aquele cabelo preso é “horroroso”. Sinceramente, não vejo nada de mais nessa observação. Numa população tão biodiversa como a nossa, com tantas texturas, tons de pele e cores de pantone, é natural gostar de alguma coisa e não gostar de outra. Foi apenas uma opinião do radialista, a meu ver. O que se pode discutir, talvez, seja a pertinência e relevância do comentário, se aquilo realmente foi necessário diante do contexto. Fora isso, é um direito inconteste do acusado. Da mesma forma, é natural aparecer quem discorde dele e ache o cabelo da Marielle lindo. Faz parte do jogo democrático. Só que o problema é que não vivemos um jogo democrático. As tonalidades genéticas são infinitas, entretanto, as discussões são binárias e polarizadas. Dias atrás, joguei um post no Facebook meio que pra alimentar uma polêmica. Falei que não gostava do sotaque carioca. Aliás, tenho vários amigos cariocas, diga-se de passagem. E nem todos os falantes do Rio de Janeiro me incomodam, pra falar a verdade. Mas aquela pronúncia acentuada me irrita um pouco. Assim como não gosto de acarajé, o que em nada significa que deixaria de gostar dos baianos. Uma amiga minha, carioca, respondeu de maneira fina, elegante e sincera: “foda-se”. Achei a melhor resposta. Ou seja, meu gosto em nada importa pra ela. E vida que segue. Por outro lado, uma indivídua que sequer a conheço pessoalmente, e que provavelmente deixou de me seguir desde então, invadiu minha área com seus axiomas, suas certezas, suas verdades absolutas, e concluiu por conta própria que eu sou preconceituoso e racista (talvez regionalista seja a melhor palavra). São os juízes Dredd de plantão, que te observam nas redes sociais, detectam um crime e aplicam suas próprias penas. Dependendo do caso, uma execução sumária, sem direito a julgamento.

Voltemos à Marielle. Se a crítica a seu cabelo é algo condenável, que suscita e faz apologia ao racismo, devemos então estipular os mesmos pesos e medidas. Porque, do jeito que está, de acordo com esse tribunal aí do Facebook, falar que o cabelo do Bolsonaro é horroroso (e de fato é) pode. Falar que o cabelo da ex-vereadora é horroroso não pode. O que está em jogo, portanto, não é o cabelo, tampouco o horroroso. É a Marielle. Ícone da resistência. Vilipendiar sua figura imaculada é algo proibidíssimo. Um pecado que te conduz direto ao Inferno.

Eu tenho o cabelo crespo. Nasci de cabelo liso, mas aos 11 anos teve uma epidemia de piolho na escola e tive de raspar a cabeça. Dizem que o cabelo cresce mais crespo e mais duro depois que se raspa, como foi o caso do Gianecchini. Além disso, o fato ocorreu na minha adolescência, fase de todo um desarranjo genético. Então, imagine você. Desde os meus 11 anos, há cerca de quatro décadas, não só venho ouvindo que meu cabelo é horroroso. Já fui chamado de judeu sarará, pixaim, cabelo frito, cabelo ruim, poodle velho, Valderrama, bombril, se fizer cafuné dá choque. Minha professora de Educação Artística (que também tinha cabelo crespo), durante os cinco anos em que me deu aula, sempre me chamou de Crespinho. Em meia década, ela fazia questão de não decorar meu nome. Mas eu não sou a Marielle. Sou branco. E homem. Para os milicianos das redes sociais, sou um dos culpados e responsáveis por toda essa crise de desigualdades que assola a Humanidade. No entendimento desses ministros do Supremo Tribunal Facebookiano, composto majoritariamente por brancos,  não há como comparar o nível de sofrência entre a pessoa que é discriminada na fila de supermercado e entra pelo elevador de serviço e o semita que estudou em colégio particular do Bom Retiro. Ser chamado de alguns adjetivos, por sinal muito mais peados do que “horroroso”, é sem dúvida uma dívida social que tenho que pagar, um ônus probante da minha culpabilidade por esse hediondo estado das coisas. Assim como as flexões que um soldado tem que pagar a seu general, quando faz algo de errado que ele nem mesmo sabe o que é. Dias atrás, minha mãe comentou com uma amiga ao telefone um fato que eu fiz questão de apagar da memória. Ela disse que um dia eu (ou meu irmão, não entendi ao certo) cheguei da escola mais cedo, chorando, com o cabelo todo sujo de terra. Eu não disse o que era, mas ela logo suspeitou que foi coisa de coleguinha de classe. Pois bem. Radialista da Rádio Guaíba que desagrada seus ouvintes com suas palavras corre o risco de perder o emprego e faz a emissora se retratar em público. Já este hebreu, esta sobra de Holocausto que vos escreve, que não foi assassinado pela família do atual Presidente, deve mais é tocar seu dia a dia. Faz parte da vida. É passado, tá tudo certo. Homem branco tem mais é que voltar pra casa com o cabelo crespo sujo de terra.

Ano passado fiz um curso de stand up comedy. No exercício de se criar e testar novas piadas, comecei meu texto falando justamente sobre essa diferença entre racismo de branco e racismo de negro. Meu professor me recomendou a não entrar muito nessa celeuma. Disse que a plateia branca não iria comprar muito minha ideia. Sugeriu que eu amenizasse o tom e deixasse o texto mais palatável ao grande púbico. Não sei se por ironia, ou talvez para deixar a contradição ainda mais aparente, ele me orientou a usar a técnica cumulativa de punchline e enumerar uma série de adjetivos e metáforas pejorativas que acentuassem ainda mais minha pele alva. Pinscher albino, papel A4, modelo de museu de cera, filhote de Galak, toma banho com Omo, reflete o sol da praia. É isso, minha gente. Comparar um negro a um boneco de piche é algo intolerável em terceira instância em tempos tão racistas como os de hoje. Dá cadeia pela Lei Afonso Arinos. Já se referir a esta pessoa como um sorvete de talco não pega nada. “Ah, ele vai entender. É só uma brincadeirinha”. Chamar um negro de preto é inadmissível. Aí somos obrigados a usar eufemismos quando não sabemos o nome da pessoa: aquele moreninho... aquela mulatinha... o que torna a coisa ainda pior. Já usar o genérico “aquele judeu ali” apontando pra minha direção, isso pode. Da mesma forma, pode chamar aquele japonês ali de “japoronga do pau pequeno”. Porque, como dizem, não existe japonês mendigo. Os nipônicos ocupam os primeiros lugares das faculdades, comem peixe todo dia, fundaram a Toyota. Não têm do que reclamar. Ser xingados de pênis em desvantagem centimétrica é um mal menor.

Isso tudo me lembra uma das cenas finais de Faça a Coisa Certa, filme de exatos 30 anos atrás, dirigido pelo (negro) Spike Lee. Planos fechados em líderes de seus guetos, falando pra câmera. Italiano sendo preconceituoso com o negro, que é preconceituoso com o chinês, que xinga o judeu, que é racista com todos os não-judeus, e corta para o muçulmano, para o ucraniano, para o senegalês, e por aí vai. A conclusão que tiro é que não só não evoluímos um pingo nessas três décadas, como tenho a sensação de que estamos andando pra trás. Essa hipocrisia disfarçada de juízo de valores, essa intolerância disfarçada de piadinha de salão, essa invasividade disfarçada de jeito latino de ser, pra mim tá tudo muito disfarçado, muito xiita usando sua máscara em prenúncio a uma inevitável convulsão social. Como eu já disse em uma postagem/profecia anterior, estamos adubando o campo fértil pra que nossa sociedade reproduza réplicas e mais réplicas de Arthur Fleck. Estou rodeado de inimigos que me dão tapinha nas costas.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Não vá ao Cinemark


Cansei de reclamar com o gerente, usar o Fale Conosco do site, enviar textos para a extinta seção de críticas do Guia da Folha. Cansei. Só me resta então fazer campanha. NÃO VÁ AO CINEMARK. Agora, a “moda” é unificar as bilheterias de compra de ingressos com a bomboniere. Isso só prova que, como eu sempre falo, CINEMARK NÃO É CINEMA. É uma loja de doces em que se passam filmes. A consequência disso? Ontem fiquei mais de 20 minutos agonizando na fila. E a tendência é só piorar. Sou das antigas. Recuso-me terminantemente a comprar por aplicativo, que também gera transtornos na leitura do código e não impede o cliente de enfrentar fila, só que trocando uma por outra. Não compro em sites, eles cobram uma taxa de conveniência pra não oferecer conveniência nenhuma. Minha vida é cheia de imprevistos, eles também não fazem a troca ou devolução do ingresso caso eu não consiga chegar à sessão comprada. As filas nos terminais de autoatendimento são igualmente lerdas e gigantescas, e raramente contam com um funcionário para auxiliar os clientes. Se você não se sente afetado com meus argumentos, tudo bem. Continue indo ao Cinemark. Meu diálogo não é com você. Mas se você é daqueles que também ficam indignados com tamanho descaso da rede pela Sétima Arte, tamo junto. O lucro dos exibidores para cada ingresso vendido não passa de 10%. Já o lucro das gororobas do snack bar, como por exemplo a pipoca, ultrapassa 500%. Então, você já deve ter percebido qual é o foco da empresa. NÃO VÁ AO CINEMARK. Se possível, opte pelos cinemas de rua, que conduzem o ofício de oferecer cinema usando uma lógica menos perversa. Opte pelos circuitos “de arte” que também colocam blockbusters na programação (Arteplex, por exemplo). Com telas boas e poltronas confortáveis, na maioria dos casos. Talvez o movimento de derrocada seja inevitável e essa luta ganhe um efeito nulo. Mas é o máximo que eu posso fazer. Se você chegou até aqui na leitura do texto, é porque em algum aspecto concorda comigo.


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Coisas que me emputecem


Hoje tá um ótimo dia pra reclamar da vida:
1)     Está chovendo forte. Você espera a chuva passar. Ela passa. Até você descer do elevador, se despedir de todo mundo, na hora em que sai pra rua a chuva volta, mais forte ainda. Torrencial. Você se lembra... de que esqueceu o guarda-chuva. Fica ensopado. Entra aonde precisava chegar. Um minuto depois, a chuva para.
2)     Você faz uma pergunta pra alguém. De múltipla escolha. Espera como resposta uma das alternativas apresentadas. Por exemplo: “Você gosta de bife mal passado ou bem passado?”. E a pessoa responde: “Isso mesmo”.
3)     O motorista do Uber acha que você é o psicanalista dele. Ele desabafa, conta toda a sua vida, os seus problemas. Você só ouve. Como um bom psicanalista. Só que, no final, quem paga a consulta é você.
4)     Pessoas que resolvem almoçar juntas. Todas elas, da firma inteira. Forma-se um bloco de 14 indivíduos na calçada. Eles é que determinam a velocidade média dos transeuntes. Não deixam ninguém ultrapassar. Estão todos felizes, rindo muito. E bloqueando a passagem dos demais. Como se fosse um bloco de micareta.
5)     Gente
que
escreve
assim
no WhatsApp
6)     O valor da oferta anunciada na gôndola do produto no supermercado nunca coincide com o valor registrado no caixa.
7)     Ainda no supermercado. A pessoa na sua frente da fila repetiu de ano em Matemática. Puxa um carrinho abarrotado de mercadorias, debaixo da placa onde se lê “máximo 10 volumes”.
8)     Você vai ao banco. Pega a senha. Número 322. Vê no painel a última pessoa que foi atendida: 275. Sabe que vai demorar pa-ra-ca-ra-lho. Dá tempo de ler todos os livros do Tolkien. Aquele vidro fosco que divide os caixas e os clientes foi criado pra você não conseguir enxergar quantos funcionários estão atendendo. Depois desse trajeto Rio-São Paulo de ônibus, avista o número 321 no painel. Pega seus boletos e prepara-se psicologicamente pra ser o próximo. Painel apita o número P014. Preferencial. A velhinha que acabou de chegar, mesmo com seu andador, consegue te ultrapassar.
9)     Loja de roupas campo-minado. Você está do lado de fora, olhando a vitrine. Assim que encosta na primeira lajota do piso interno, explode um vendedor ao seu lado: “Bom dia em que posso ajudar tá procurando algo específico aproveita nossa promoção dá uma olhada nos outros modelos sem compromisso”.
10)  A mesma lógica. Só que ao contrário. Você entra na loja, espera ser atendido, e nada. Procura você mesmo as roupas, consulta você mesmo os preços, revira você mesmo as pilhas de camisetas, e ainda assim nada. Entra no provador, sai de lá, usa seu braço de cabide, dirige-se ao caixa. Sozinho. Do começo ao fim, você é o meme do John Travolta.
11)  Situação parecida. Desta vez, no restaurante. O garçom finge que não te vê. Você levanta a mão e faz um breve aceno. Ele desvia o olhar. Levanta o braço um pouquinho mais, tentando chamar outro garçom. Ele também finge que não te vê. Você estica ainda mais o braço, tentando alcançar o lustre, pra ver se São Pedro consegue te enxergar e providenciar uma atitude divina. Só que a coisa é muito sincronizada lá dentro. Todos os garçons combinam entre si de te ignorar solenemente. A não ser na hora de trazer a conta e cobrar os 10%.
12)  Continuando no restaurante. Por quilo. Você está se servindo. A pessoa atrás de você tem pressa, muita pressa. Parece o Coelho Branco da Alice no País das Maravilhas. Toda hora encosta a bandeja no seu cóccix. Tá bufando. Pega qualquer coisa e joga de qualquer jeito no prato. Em compensação, a pessoa à sua frente tem toda a calma do mundo. Faz todo um processo seletivo para cada folha de alface. Escolhe minuciosamente cada ervilha como se fosse um gemologista. Despeja no prato os grãos de feijão por unidade.
13)  Escada rolante. As pessoas à sua frente acham que o aviso “deixe a esquerda livre” é mera panfletagem política.


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Começa com E


A história de hoje se passou há mais ou menos 10 anos, quando trabalhei no departamento de Comunicação de uma distribuidora de médio porte de filmes. Uma empresa familiar, cuja dona era folclórica no mercado cinematográfico brasileiro. Fiquei pouco tempo ali. Mais ou menos 3 meses, o equivalente ao período de experiência. Quando eu já tinha um bom tempo de casa, pelo menos pra todo mundo dali saber quem eu era e o que eu fazia, a tal proprietária me perguntou:
- Qual o seu nome, mocinho?
- Começa com E.
Ela, um pouquinho mais irritada, respondeu:
- Fala logo, mocinho!

Corria à boca pequena que de vez em quando ela costumava maltratar alguns funcionários. Comigo nunca houve nada nesse sentido. Mas isso não quer dizer que a gente tinha algum tipo de intimidade. Analisando hoje, eu sinceramente não sei onde estava com a cabeça para achar que uma senhora de quase 80 anos, presidente de um renomado selo de distribuição de filmes, ira naquele momento querer brincar de jogo de adivinhação. É a mesma coisa que beliscar o braço do Kim Jong-um e falar “3 marcas de cigarro”. É como falar pro Bolsonaro “sebrãbisdoila” e, na hora em que ele perguntar “o quê?”, você aponta o polegar pra baixo e faz um som com a língua “prrrrr”. Se bem que no caso do Bolsonaro é até capaz de ele rir e gostar da brincadeira.

No fundo, eu queria achar que se tratava de um esquecimento temporário. Não passava pela minha ingênua cabeça de que ela nem fazia ideia de quem eu era. Que a minha importância para o sucesso da empresa era o equivalente ao bebedouro. Que eu era facilmente confundido com um cartaz de filme de terror.

Claro que esse fato ficou notório no nosso departamento. Risadinha aqui, risadinha ali, cada vez que alguém se lembrava do episódio. Até que o assunto morreu. Dias depois, falei para um comparsa da equipe:
- Já salvei na rede o texto do filme.
- Qual filme?
- Começa com E.


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Um dia de Playcenter


A história de hoje se passou no fim da década de 90. Mas, antes de começar o relato, é bom trazer o contexto para quem ainda não era nascido ou não conhece o lugar. O Playcenter foi o maior parque de diversões de São Paulo. Deve ter surgido nos anos 70, bombou nos anos 80, sobreviveu nos 90, começou a dar sinais de cansaço nos anos 2000 e fechou as portas coisa de uns 7 anos atrás. Era gigantesco. Proporcional à quantidade de frequentadores. Creio que um Playcenter lotado equivalia à população de Belo Horizonte. E as filas dos brinquedos eram muito, muito grandes. Intermináveis. Pra dar a sensação de que nem eram tão imensas assim, a organização do parque inventou de fixar aquelas grades que formavam corredores improvisados. E aí as filas rocambolescas faziam aquele caracol. Vistas de cima, pareciam o intestino delgado. E, se fossem esticadas em linha reta, cada fila começaria no bairro do Limão e terminaria na Rodoviária Tietê. Pra você aproveitar bastante, tinha que ir lá numas datas meio atípicas, como véspera de Natal, dia de jogo do Brasil na Copa ou dia de greve dos caminhoneiros, se houvesse. Caso contrário, em dias considerados normais, você passava a tarde inteira no parque pra conseguir entrar em no máximo três atrações. Isso tem uma explicação. A maioria dos frequentadores era galera. Não aqueles grupos de 4 pessoas que resolvem ocupar uma mesa do Outback. Era grupo meeesmo. Parecia aqueles ônibus que desembocam na 25 de Março durante o fim de semana. Ou as caravanas do Sílvio Santos. Quando uma escola resolvia fazer excursão ao Playcenter, era a escola INTEIRA. Se existisse smartphone na época, o pau de selfie teria que ser do tamanho de uma canoa pra fazer caber a turma toda na foto. Se por acaso houvesse alguma briga de gangue, a professora tinha que fazer chamada antes do embate pra conferir se todos os lutadores estavam presentes. Na prática, essa situação era meio bizarra. Já imaginou como seria a divulgação do ultimate fighting entre o Colégio Dom Bosco e a Escola de Primeiro Grau Marista da Glória?

O Playcenter era a opção mais em conta pra quem não tinha grana para ir à Disney. Mesmo assim, o ingresso não era tão barato. Por isso, vira e mexe faziam promoções, sorteios, etc. Era relativamente fácil encontrar o Passaporte da Alegria nas tampinhas das garrafas de Coca-Cola, nos encartes de jornal... se bobear, tinha Passaporte até na caixa de sucrilhos.

Na época, eu tinha uma amizade muito forte com uma moça que trabalhou comigo. Rolava um certo clima no ar. Nunca aconteceu nada, nunca ficamos, nem rolaram beijinhos, nem chegamos a nos declarar, nada. Mas existia na atmosfera aquela coisa que me alimentava as esperanças de que, quem sabe um dia, essa situação poderia evoluir.

Pois foi numa dessas promoções, talvez no jornal, que ganhei o Passaporte da Alegria e chamei essa minha amiga pra me acompanhar. Por três razões: primeiro, porque eu queria impressioná-la. Quem sabe com esse convite eu poderia acelerar o processo daquilo que minha cabeça imaginou que um dia fosse acontecer. Segundo, porque eu não tinha tantos amigos assim. Por mais que eu seja um cara “sociável”, com milhares de amigos, fãs e seguidores nas redes sociais, a lista de pessoas na agenda é bem pequena. Sim, na época eu usava agendinha telefônica, aquela em papel com suas respectivas divisórias por ordem das letras do alfabeto. E terceiro porque eu, como um bom judeu, não poderia desperdiçar a oportunidade e menosprezar a informação constante no verso da filipeta: válido para 2 pessoas.

Marcamos no metrô Barra Funda. Ela chegou pontualmente e estava bem entusiasmada. A chance de cumprir o critério 1 do parágrafo acima era quase certa. Aquela com certeza iria ser a tarde mais divertida da minha vida.

Desculpe interromper novamente a linha de raciocínio, mas preciso acrescentar outra informação relevante. Eu ia bastante ao Playcenter. Quando era pequeno. Acompanhado pelos meus pais. Adorava esse programa. Durante minha infância, saía ileso da casa mal-assombrada. Jamais sofri qualquer tipo de acidente no carrinho de bate-bate. Era o rei da roda-gigante. Só que os anos se passaram. E o parque passou a adotar brinquedos mais radicais.

Chegamos ao parque e nossa primeira escolha foi um brinquedo chamado Samba. Na verdade, de samba ele não tinha nada. A não ser o fato de eu odiar os dois, tanto a música quanto aquela máquina. Parecia um pandeiro desengonçado, e você tinha que se equilibrar segurando em alguns ferros laterais. Quem não conseguisse se segurar, caía. Não vi graça nenhumas, mas precisava cumprir meu objetivo. Saí de lá com um sorriso de fazer inveja ao Coringa.

Nossa segunda escolha foi um tal de Viking. Pra quem não conhece, é um barco que fica subindo e descendo. A cada movimento, ele ganha altura e velocidade. No clímax da brincadeira parece que você atingiu o topo do Edifício Itália. Aí ele começa a descer progressivamente, até parar. Entendi porque o brinquedo ganhou esse nome. Ali dentro o tempo demora tanto pra passar que parece que eu vivi uns 5 séculos em 5 minutos. Voltei pra Idade Média. E uma coisa mais recente que adotaram no Playcenter foi botar DJ. Assim que acabou a brincadeira, o DJ pegou o microfone e perguntou “Vocês querem mais?”. Achei que a maioria fosse responder: “Não, de boa”. Só que, ao invés disso, ouvi um coro uniforme gritar “SIIIIIIM”. Igual àquela cabine de um quadro de perguntas do programa Sílvio Santos. E dá-lhe mais eternidade subindo e descendo pelas nuvens de São Paulo.

Quando saí da máquina, meu conceito de chão era uma grandeza muito relativa. Minha labirintite veio parar no joelho. Até tentei manter a compostura e continuar impressionando minha amiga, mas não teve jeito. No primeiro amontado de jardim, veio a incontrolável vontade de regurgitar. Coloquei pra fora o almoço da semana anterior. Imagine você, meu caro. Usei o Passaporte da ALEGRIA para usufruir de dois brinquedos e passar o resto da tarde deitado num banco e tomando sal de frutas. Minha amiga, em seu trenzinho a 10 km/h recomendado para pessoas de até 5 anos, passou várias vezes por mim. Os periódicos tchauzinhos que me foram acenados a cada volta foram a resposta mais definitiva da tarde: jamais conseguiria impressionar minha amiga naquele estado crítico.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Bacuringa



Até poucos dias atrás, as principais discussões cinematográficas giravam em torno de Bacurau e de Era Uma Vez... em Hollywood. Agora, o anti-Marvel Coringa chega não com a pretensão de encerrar o assunto longe de se esgotar, mas para abrir um próximo parágrafo diante da questão.

Se esse paralelismo faz parte ou não do inconsciente coletivo, ou de uma histeria hegemônica social, ou se trata apenas de uma coincidência, difícil concluir. Nessa tríade, o que chama a atenção é não só o retrato de uma sociedade doente, mas a urgência de se discuti-la. Vale lembrar redundantemente que, nos três casos, o produto é ficcional, em seus diferentes pesos e medidas autorais. No primeiro caso, mergulhamos na psicopatia de um núcleo invasor, que vem de fora, e usa a pobreza nordestina como palco de um sádico paintball reality show. É a própria comunidade invadida que aplica os contragolpes, com os mesmos requintes de crueldade, durante a catártica vendeta do epílogo. Com essa intensidade igualmente raivosa, bem aos moldes da milenar Lei de Talião, podemos entender que o combate à psicopatia só é possível usando a própria psicopatia. No tarantinesco exemplo, a excessiva caricaturização dos psicopatas abranda um pouco o episódio “baseado em fatos reais”. O clima de tensão do devir é muito maior do que a concretização da violência atrapalhada do derradeiro ato propriamente dito. Aqui, não é a sociedade atingida como um todo que faz o revide, mas apenas uma dupla da indústria cinematográfica decadente e colapsada diante de uma nova era. O efeito é, portanto, mais farsesco e menos catártico. A representação icônica por camadas metalinguísticas (um ator e um dublê de ator) dilui a insanidade dos Estados Unidos dos anos 70, ou pelo menos a coloca em outro registro. Já em Coringa, esse rescaldo patológico se apresenta de modo mais confuso. Não se trata exatamente de um grupo que contra-ataca as arbitrariedades doentias de outro grupo, como no primeiro caso; nem de um duo que evita um mal maior a ser causado por um bando de ripongas alucinados pelo satanismo, como no segundo. Aqui, é um único indivíduo que ao mesmo tempo rebate a doideira social e injeta nela outras nuances patológicas dessa mesma loucura. É o eu-sozinho contra o mundo.

Claro, desnecessário dizer que Coringa é um caldeirão de paradoxos. Comédia e tragédia se misturam como se fossem as facetas de outro vilão, o Duas Caras. O bordão “rir para não chorar” poderia se encaixar perfeitamente na sinopse. A chapliniana canção “Smile” sendo executada nas cenas menos engraçadas é um resquício dessa contida ironia. A música é doce em sua melopeia rítmica, e parece bailar junto com o Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa, em que as digressões do poeta lusitano ecoam na cabeça do personagem interpretado pelo irretocável Joaquin Phoenix. No texto em primeira pessoa, encontra-se um fracassado que vive num mundo de vencedores. E Phoenix, em sua ingenuidade do prefácio, parece assimilar esse discurso de uma bondade utópica. Quanto mais ele acredita no ser humano, mais chutes no estômago ele leva. Nesse acúmulo de socos e pontapés é que vem a pergunta: de que forma e em qual intensidade vai surgir a salvadora reversão cômica?

Assim se constrói o universo DC Tragicomics. Os filmes da Marvel, basicamente, são um recheio de efeitos visuais e pirotécnicos reluzentes sobre um palco de guerra. Com pitadas de humor. É o show de stand-up (eu diria talvez Stan-up) num ringue espacial de MMA. A DC procura roer outras camadas. Coloca a risada onde não há graça nenhuma, o que deixa parte de seu legado ainda mais dialético. O pingo de sangue sobre o button smile, na cena de Watchmen em que o primeiro herói morre, traduz um pouco esse sarcasmo contundente. Não há lugar para stand-up em Coringa. Não há plateia disposta a rir. O punchline, fechamento de uma anedota, é muito mais punch. Uma porrada, um soco no fígado.

Do começo ao fim, Coringa tenta provar que a frase mercadológica de lançamento “coloque um sorriso nesse rosto” é algo inatingível. Mas aqui eu me permito, acima de tudo, estabelecer uma relação de tempo e espaço ao filme. Tudo indica se passar em algum lugar dos anos 80. Tem uma secretária eletrônica. E, não por acaso, tem na fachada de um dos cinemas da cidade o letreiro do filme Um Tiro na Noite, a reinterpretação que Brian de Palma faz à obra-prima de Antonioni. Tem Robert de Niro como apresentador de um talk show, fazendo uma alusão ao Rei da Comédia, no qual ele também trabalha. Mas as referências não são apenas herméticas, piadas internas, como se a equipe estivesse lançando um olhar para o próprio umbigo. Coringa se expande ao mostrar uma metrópole violenta e surrupiada quase como um registro documental da maioria das cidades que se desenvolveram rapidamente. Poderia Bacurau ser o retrato do Brasil de Bolsonaro? Sim, perfeitamente. Uma colônia árida atacada por milicianos gringos que tentam aniquilar a pobreza matando sua população nativa. Poderia Coringa ser o registro do Brasil de hoje? Também. Somos 13 milhões de desempregados, fazendo bicos nas ruas, segurando cartazes de lojas de departamentos prestes a falir, num cenário em que a indústria encolheu 15% nos últimos 5 anos. A falta de medicamentos por corte de verbas do governo é um dos elos dessas duas realidades. Protestos de rua numa iminente guerra civil dialogam muito com a nação que se revoltou e se dividiu não por causa dos 20 centavos. Mas Coringa não se pretende abraçar somente a causa terceiro-mundista. Chicuarotes, o novo filme dirigido pelo mexicano Gael Garcia Bernal, que ficou em cartaz no Brasil somente por uma semana, mostra em sua cena inicial uma dupla de palhaços de rua que entra num ônibus e faz algumas piadas antes de anunciar o assalto. A Gotham City de Todd Philips (quem diria, o mesmo que nos divertiu com a trilogia de um grupo de amigos que sofrem de amnésia pós-ressaca), obviamente, é soturna, suja, sorumbática. Poderia ser a síntese de uma Nova York pré-Tolerância Zero, como também a Cidade do México, Bogotá ou até mesmo a Rua Conselheiro Nébias. Existe um convívio forçado entre vencedores e fracassados, mas, do ponto de vista estrutural, as divisas estão muito claras. O diagrama do esqueleto de Gothan é quase tão matemático quanto as fictícias demarcações dogvillianas. Os espaços estão claramente planejados: em Batville, aqui é teatro de rico, ali é beco de pobre. O que ganha potência em Coringa (e aí a sensação é de que quem leva chutes no estômago é o espectador) é justamente quando essa lógica cartesiana se embaralha. O universo trágico não pertence só aos miseráveis. E a vida, que sempre prega suas peripécias divinas ao protagonista, pode ser encarada como uma comédia. Afinal, estamos no registro da ficção. Tudo é espetáculo. Tudo é poesia. Até mesmo a versão nordestina que Kléber Mendonça imprime a seu Mad Max do sertão. Até mesmo, e principalmente, os versos finais de Álvaro de Campos, heterônimo de Pessoa, quando se dá conta de que há pouca salvação para a Humanidade. Phoenix, na pele de Joker, em sua reversão tragicômica, vem sendo vil, literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Ex X ex


Que a sociedade anda cada vez mais polarizada, todo mundo sabe. Petralhas X bolsominions. Flamengo X Fluminense. Biscoito X bolacha.
O que me estranha é que eu, mesmo com minhas críticas ferrenhas a essa categorização maniqueísta, percebi que andei polarizando um certo nicho dos meus vínculos sociais. Mais especificamente, minhas ex-namoradas.
Sei claramente que é muito difícil rotular e encaixotar em pastas de arquivos pessoas de comportamentos, visões de mundo e texturas de pele tão diferentes entre si. Conheci essas pessoas em momentos distintos da minha vida. Cada uma com seu modo idiossincrático e único de se expressar. Foram relacionamentos (namoros, casos, ficações, efêmeros ou longevos, não importa) com suas nuances, suas particularidades, seus 50 tons de cinza.
Mas, fazendo uma retrospectiva dessa diminuta lista de ex, a constatação da polaridade chega a me assustar. Existem aquelas com quem mantenho uma saudável relação de amizade até hoje. Claro, o namoro com nem todas elas acabou de maneira tão pacífica. Mas, depois que a poeira baixou, ou talvez por uma sensação póstuma de arrependimento ou de culpa, de ambas as partes, houve a reconciliação. Por outro lado, existe o grupo nem tão amistoso assim. Nesse arquivo encontram-se as ex que terminantemente me deletaram de suas vidas, como se a separação fosse litigiosa e a convivência posterior pudesse eventualmente ser maléfica. Por mais que eu não queira, acabo tendo que dividir meus antigos amores entre atuais amigas e inimigas. É como se, na hipótese de eu realizar uma festa, teria de dividir a lista entre aqueles que com certeza eu convidaria e as que definitivamente não convidaria.
A gente luta por uma sociedade mais plural, mais diversa, mais ampla e mais profunda. No entanto, a gente não consegue sair desse campo magnético polarizado nem mesmo nos nossos pequenos meios sociais. Doido isso, não?


terça-feira, 17 de setembro de 2019

Anedóticos Anônimos


- Boa noite. Meu nome é Érico...
(Saudação do grupo em coro uníssono) – Ooooi, Érico...
- Tenho 51 anos, sou solteiro... e faz 2 semanas que eu não conto uma piada.
Aplausos coletivos.
(Moderador do grupo) – Quer falar sobre isso? Conta pra gente sua história. No seu tempo.
- No começo eu não gostava de piada. Nem um pouco. Quando vinha aquele cara em festa... aquele tiozinho que você só encontra em casamento e enterro, sabe? Quando começava a contar piada de português, de papagaio, eu fingia que ia pegar uma bebida e caía fora. Pra contar piada eu era muito ruim também. Esquecia o final, começava a rir antes de terminar de contar, repetia o final, dava uma explicação básica do final... como se a pessoa não fosse capaz de entender...
Breve pausa para uma tossida. Prossigo.
- Até que um amigo meu me chamou pra assistir a um show de stand-up. Ele ganhou ingresso VIP e não tinha ninguém com quem ir. No começo é sempre assim, né? A pessoa te introduz no mundo do crime pra você pegar o gostinho pela coisa. Eu até tentei escapar, inventei uma desculpa esfarrapada, falei que não podia perder o último capítulo da novela... não colou. Fomos até o local, um lugar com fachada de bar, numa rua bem escura, sabe? Quando a gente desceu do carro e o segurança da casa revistou a gente, pensei: “Ih, fodeu”. Mas de boa. Entramos na tranquilidade. Eu sinceramente não fui lá pra rir não. Não tava a fim. Mas, cara... quando começou o show... eu quase me mijei nas calças. Foi muuuito bom. Ducaralho.
(Moderador) – É, de vez em quando a vida traz surpresas...
- E aí eu comecei a ter vontade de ir a outros shows. Só que dessa vez eu tive de pagar, né? Sempre assim. A primeira dose de humor vem de mão beijada. Depois, você tem que batalhar. Fui ao Comedians. Mó grana. Fui ao Renaissance, mais caro ainda. E como lá o show só começa à meia-noite, tive de voltar de Uber. Bota mais dinheiro nessa brincadeira. Fui num show aqui, outro ali, e não parei mais.
(Moderador) – É um paradoxo, certo? Primeiro você odiava piada, depois passou a amar o humor. Como você lidou com isso?
- Não sei explicar. Foi algo que me pegou sem eu estar preparado. Coisa de amigo que acaba te influenciando. E você não quer se ver fora da roda. No começo, distância total. Mas aquilo foi me viciando. E a grana foi acabando. Eu sempre quis fazer as coisas honestamente, pra manter a dignidade. Mas chegou uma hora que não dava mais. A vontade de ver os caras arrebentando no palco era incontrolável. A primeira vez que peguei uma grana emprestada... quer dizer, não foi exatamente um empréstimo... mas eu prometo devolver... eu vi a bolsa da minha mãe aberta e peguei umas notas. Usei a grana pra ir ao show do Danilo Gentili. Mas não parou aí. Vendi a bicicleta do meu irmão pra ir ao show do Thiago Ventura. E foi piorando. Até que um dia usei uma arma de brinquedo, quebrei o vidro do carro de uma senhora parada no farol, peguei a bolsa, o celular, a corrente pra comprar ingresso pro show do Whindersson Nunes. Eu estava no fundo do poço. E o pior...
Começo a chorar convulsivamente. Paro. Respiro fundo. Volto a falar.
- O pior de tudo é que eu nem gosto do Whindersson Nunes. Acho ele um mala, só faz piada de mau gosto, sem graça....
- ... Continuando... além de ouvir, eu comecei a gostar de contar piada. Fiz curso e tal. No começo era até saudável. Só que com o tempo eu peguei uma obsessão pela coisa. E ficou doentio o negócio. Só pensava em criar piada, 24 horas por dia. Um vício mesmo. Setup e punchline, setup e punchline, o tempo todo... teve um dia que meu chefe me demitiu porque eu fiz uma piada usando a regra de 3 com ele. Briga de bar, por exemplo. Levei uma porrada porque fiz um call back com um cliente.
Pausa. Soluços. Volto a dar meu relato.
- Eu até pegava leve. Piadoca de salão, sabe? É são-paulino gay, japonês com pinto pequeno, loira burra, judeu mão-de-vaca... Mas, conforme fui pegando gosto, parti para temas mais pesados. Comecei a fazer piada de preto, de cadeirante, de mulher grávida, de doente mental, de fanhoso, de gordo... até fiz uma piada com a Madre Teresa de Calcutá, acredita?
(Moderador) – E como sua família e seus amigos encararam isso?
- A maioria não gostou. Eu comecei a ficar chato, inconveniente. Estava alucinado, fazendo piada infame. Amigos do Facebook me bloquearam. A família começou a me evitar, só porque eu fazia piada com o Bolsonaro. Parentes distantes me silenciaram no Whats. Colegas de trabalho me botaram no modo soneca. Quando fui ver, estava sozinho, totalmente sozinho...
Volto a chorar. Paro.
- Eu estava tão transtornado que fazia piada com qualquer coisa pra saciar meu vício. Quando não vinha uma puta sacada, uma reversão cômica, ia na base do trocadilho mesmo. Pavê ou pacumê, setembro chove, Wim Wenders e aprendenders... o que viesse pela frente.
(Moderador) – E como você fez pra sair desse buraco negro?
- Força de vontade. Fiz uma viagem interior. Uma busca pelo autoconhecimento. E comecei a orar bastante. Quando vinha a tentação, eu logo pensava em alguma coisa trágica pro pensamento fugir. Acidente, desmatamento, incêndio, volta da CPMF, atual ministério... Hoje sou uma pessoa melhor. Ainda não estou curado. Mas sei que estou no caminho certo. Piada, nunca mais.


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Da Igreja para o hospital


Meu #tbt de hoje não é nenhuma foto de rosto com espinhas ou cabelo mullet. Até porque eu nunca tive cabelo mullet. É um textão de uma situação ocorrida há mais ou menos 7 anos. Contextualizando: eu havia acabado de terminar um namoro de 9 anos e achava que tinha perdido a prática da paquera. Sim, paquera. Sete anos atrás, não tinha nada disso de match e crush era apenas a lembrança de um refrigerante de laranja. Combinei de sair com um amigo meu, que, na verdade, eu o conheci porque ele fez um curso junto com minha ex (olha só, que doideira...). Na época ele era muito solícito comigo, pois eu estava passando por uma série de problemas pessoais e ele ali, sempre muito atencioso e prestativo. Ele era daqueles caras antenados, descolados, que conhecem balada hipster, têm uma lista interminável de amigos (e amigas), ficam por dentro de todos os “picos”.

Pois bem. Marcamos de sair num sábado. O objetivo era, sem meias-palavras, “arrumar mulher”. Ao invés de sairmos perambulando pela noite (o que também seria uma boa ideia), preferi me precaver e consultar alguns roteiros mais, digamos, certeiros. Abri a Vejinha, na seção de bares e baladas (ainda existe essa coluna? Aliás, ainda existe a Vejinha?), fui direto ao título “paquera” e lá encontrei como opção o Igrejinha. Um bar perto da Consolação, que mistura os estilos gótico com o multicolorido, o moderno com o retrô, que une a religiosidade e o paganismo num mesmo espaço. A ideia era fazer ali um esquenta e, quem sabe, futuramente, o que der e vier. Entramos, sentamo-nos perto da porta, pedimos o cardápio. Meu amigo, querendo esbanjar conhecimentos etílicos, pediu aquela bebida com os índices mais apropriados de teor alcoólico, que melhor harmoniza com o clima noturno, que traz a fruta com o mais indicado nível de maturação. Eu escolhi o drink pelo nome mesmo. Quanto mais palavras estranhas na descrição, mais a minha cara. Vieram as bebidas. Desnecessário dizer que a minha estava muuuito melhor do que a do meu amigo. Ele deu umas bebericadas no copo dele e, num esquema de puro escambo, acabou com o meu acepipe em questão de minutos.

Como chegamos um pouquinho cedo em relação à média das pessoas que saem à noite, notamos que o bar foi cada vez enchendo mais... de homens. Até aí, tudo bem. Mulheres demoram pra se arrumar e adentram mais tarde aos recintos, sentindo-se as princesas da escuridão. Homens é que se precipitam precocemente, enchem a cara enquanto esperam seus alvos e, no momento da abordagem, já estão bêbados e só falam bobagem. Na verdade, homem nem precisa de álcool pra falar bobagem. Mas, enfim... Igrejinha lotada, e nada de mulher. Desconfiei que o foco do tal templo submerso nos bas-fonds era outro. Nada contra, veja bem. Pelo contrário. Em hipótese alguma quero aqui fazer qualquer tipo de apologia à homofobia. É que, no caso específico, nossos objetivos eram outros. E a diminuta abadia naquela noite não iria satisfazer nossas necessidades. Pedimos a conta, fomos embora.

Meu fiel companheiro então começa a fazer umas ligações e marca um esquema num bar no bom e velho Baixo Augusta. Era um bar de rock, com open bar, em que havia um tipo de rodízio de bandas cover se revezando no palco. Bandas cover. Open bar. Prestou atenção? Não tinha como eu me dar bem num lugar em que eram servidas cerveja quente com tubaína genérica. Mas, pra quem começou a pândega numa capela com cultos à pederastia, tudo o que viesse a seguir era lucro. Entramos na metaleira pocilga.

Fomos recebidos pela amiga do meu amigo. Pessoa do bem, muito simpática, acolhedora. Ela nos apresentou um amigo, um magrela muito gente boa também. Em seguida, chegou outra amiga, uma moça cujas medidas perimétricas estavam um pouquiiinho acima dos padrões estéticos da nossa sociedade. Usava uma camiseta surrada do Slayer. Gente, na boa. Slayer é uma puta banda, talvez uma das melhores do mundo. Mas balada com camiseta da banda, dos tempos em que eles lançaram Show no Mercy, não dá. Mas era o que tinha pra hoje. Quer dizer, pra ontem. Pra sete anos atrás. Meu parça, a amiga anfitriã gente boa, o magrela também gente boa, e aquele barril de chopp venerando Satanás. Parecia um grupo muito bacanas, mas que em nada iria saciar meu lado machista-cafajeste de “pegar mulher”. Eis que de repente, não mais do que de repente, emerge das profundezas do oceano a encantadora beldade da festa. Tipo vinheta antiga do Fantástico, sabe? Apareceu do nada e conseguiu me hipnotizar. Não lembro ao certo, mas acho que a outra ponta do meu sorriso foi parar lá na Caio Prado. Aí sim, eu finalmente tinha ganho a noite. Bastava eu me concentrar nos meus propósitos: falar um pouquinho quase nada de mim, mostrar que conhecia todas as versões originais das músicas que estavam sendo tocadas e enfrentar o suadouro da fila do SUS pra pegar uma cerveja pra ela. Estava tudo certo e eu era a pessoa mais feliz do mundo.

Até que apareceu um homem. Gato, lindo de morrer. Calma, vou explicar. Eu não fiquei a fim dele. E ele não ficou a fim da minha musa imaginária. É que parece que ele era o ex, ou teve um caso com a rechomchudinha. E entrou acompanhado. Tire suas próprias conclusões. Visualize a cena. A pequena obesa trocando ideia com a réplica do Eddie Vedder, que lhe dá um bilhete azul sem mais delongas. Dali pra frente, só show de horror. A colega, que até então parecia empolgada com o festival de música ruim, começa a definhar como se fosse um balão de gás murchando. E senta-se ao chão. E começa a chorar. Você, que um dia já foi jovem, que já frequentou baladas fortes, que já viu de quase tudo nessa vida, sabe qual é o próximo passo de quem chora porque levou um pé nas nádegas: beber. E dá-lhe aguardente.

A partir desse momento, houve uma sucessão de conversas, diálogos, lencinhos, calmantes, ombros amigos. Como um bom samaritano, até meu compadre notívago tentou consolar a rotunda garota. O problema mesmo foi o climão gerado por esse vexatório espetáculo à parte, que exigiu até a moderação do segurança. Minha Vênus calipígia começou a ficar cada vez mais inacessível. Eu e meu amigo convidamos o restante sóbrio do grupo para ir a outro lugar. Pela cara deles, topariam com certeza. Mas alegaram ter de fazer a escolta para aquela ébria bolha de carne. “Eu tô bem”, ela disse, num tom meio alto, meio mole e meio ranzinza. E você sabe, meu caro. Quando bêbado fala “eu tô bem”, é sinal de que ele não está NADA bem.

Conformados com o fracasso, eu e meu amigo nos despedimos da trupe e decidimos encerrar a noite numa hamburgueria próxima. Fizemos o pedido. Fomos até a mesa. No meio da degustação, toca o celular dele. Era a amiga gente boa. Falou que a bebaça começou a dançar ensandecidamente, até que caiu trôpega e bateu a cabeça no chão. Estavam indo pro hospital. E meu amigo, solícito como sempre, resolveu acompanhar o quarteto. Pra mim, aquela noite foi um amontoado de absurdos. Coisa de dar inveja pro Buñuel e pro Dalí. Eu já não sabia mais o que pensar. Até que meu amigo fala algo do tipo:
- Eu sei, foi vacilo... foi mal... a noite foi uma bosta... mas eu não sossego enquanto não te fizer um favor... questão de honra... coisa pessoal, de cavalheiro...
- Já sei. Vai me dar o resto da sua batatinha.
- Não, não. Tá vendo aquela moça ali? Aquela! Eu vou até a mesa dela pegar o telefone dela.
- Boa sorte. Manda ver.
- Não! Eu vou pegar o número dela pra dar PRA VOCÊ!
- Queisso... desencana... precisa não... de boa. Vambora.
- Não. Eu vou lá, pego o telefone, passo pra você e vou pro hospital. Aí você troca uma ideia com ela. Questão de honra.

Vamos recapitular. Drink exótico. Homens se agarrando. Amiga gente boa. Camiseta velha do Slayer. Musa fantástica. Cerveja quente. Sósia do Eddie Vedder. Choro e embriaguez. E mais choro. E mais embriaguez. Hambúrguer com nome de banda. Ligação a caminho do hospital. Diante desse conjunto de improbabilidades, assistir à cena de um casal que não se conhece apontando o tempo todo pra mim não era nada.

Peguei o papelzinho gentilmente cedido pelo meu amigo, antes de partir rumo ao pronto-socorro. Não havia números. Apenas o nome da desconhecida e seu endereço do Facebook. Fui até sua mesa, tentei explicar o inexplicável. Ela disse que já estava de saída. No dia seguinte, acessei a maior rede social mundial. Encontrei o perfil da moça. Em seu último e mais recente post, estava escrito o seguinte: “Migas, cês acreditam? Ontem um tiozinho pediu pro amigo dele pegar meu telefone. Como pode, um cara de mais de 40 anos achar que eu vou querer alguma coisa com ele? Nem teve coragem de vir direto, precisou chamar o amigo. Claro que dei o número errado, né? Eu, hein? Tô fora”.


domingo, 1 de setembro de 2019

Emo again


Ontem vi uma moça com uma camiseta onde estava escrito: “Make Brazil emo again”. Na hora, achei meio ridículo. Aquilo me soou tão patético e tão datado quanto os neo-ripongas e suas batas indianas, ou mesmo quem desfila de coturnos gastos e cabelo moicano tentando imitar o visual dos Sex Pistols. Não é possível, no fim da segunda década do Século 21, venerar um estilo de vida que se ornava de cabelos escorridos pra frente, olhos pintados de preto e uma lagriminha de Hena tatuada perto da bochecha. Nada contra o gênero musical, muito pelo contrário. Ainda hoje, adoro ouvir as bandas que abraçam o emotional hardcore, de onde se abreviou para emocore, até virar essa corruptela, emo. Ou “punk melódico”, como ficou conhecido no mundinho artístico. Aprecio Taking Back Sunday, Rise Agaisnt ou até mesmo os primeiros – e mais viscerais – trabalhos do 30 Seconds to Mars. Gosto mais ainda dos precursores dessa onda, os protozoários chamados Jimmy Eat World, Saves the Day, Get Up Kids, Mineral, Braid, e por aí vai. E respeito as bandas nacionais, como CPM 22 e NX Zero, que ao menos englobam músicos competentes. O que me incomoda mesmo é o esterótipo do gênero, é a ideologia transformada em produto de consumo, é a estética reduzida ao nada, é o ideal de rebeldia juvenil que vira motivo de deboche. Tão piegas e caricato quanto aquela indumentária gótica, encostada no guarda-roupas cheirando a naftalina, que só serve pra ser usada em festa à fantasia.

Mas aí eu fiquei olhando aquela camiseta preta, cobrindo a branquela hipster que provavelmente tinha acabado de sair de alguma mobilização na Paulista, e pensei melhor. Faz todo sentido o Brasil voltar a ser emo. De uns tempos pra cá, vivemos uma truculência tão grande, que nada mais apaziguador do que a emoção pra trazer de volta aquilo que antecipadamente enterramos. Passamos a adotar o discurso hater, excluímos família e amigos dos nossos convívios, transformamos nossas páginas nas redes sociais em outdoors exibidores do ódio e da intolerância. E temos como exemplo, aquele paradigma que vem lá de cima, a bestialidade miliciana, o modus operandi brucutu, o comportamento vil e rasteiro, a apologia às arminhas. O giganrte acordou, de fato. Mas, dessa vez, o gigante é do mal. Despertamos o que há de pior em nós. Hoje somos bestas-feras prontas para devorar o outro.

Ontem fui ver Yesterday. O filme. Calma, não vou dar spoiler. Mas aí lembrei que eu tenho uma camiseta com os dizeres “all you need is love”. Talvez a gente precise de um pouco disso mesmo. Esse tipo de retrocesso. O paz-e-amor que brotou em Liverpool. Não esse retrocesso da ditadura, da terra plana, da volta do sarampo. A gente precisa voltar um pouco atrás e lembrar que um dia, talvez um único dia, fomos felizes.

E hoje faz 80 anos que começou a Segunda Guerra. E tem gente aí, microrganismos toscos desse tal gigante de Brasília, que foi comemorar essa data nefasta. Portanto, vamos voltar a ser emo. Vamos regurgitar menos e amar mais. Vamos resgatar o nosso lado cafona. E por falar em cafona: gratidão.