quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Adeus ano novo

Era pra ser como a virada de um mês qualquer. Do dia 31 de julho para 1º de agosto. De 31 de outubro para 1º de novembro, véspera de Finados. De 31 de março para 1º de abril, dia da mentira. Mas, especificamente na virada de 31 de dezembro para 1º de janeiro, Dia da Confraternização Universal, período em que a Terra completa seu movimento de translação ao redor do Sol, somos imbuídos pelo desejo de mudança. Acreditamos no poder extraordinário da transformação. Trata-se, na verdade, da transição de um dia qualquer. Um minuto qualquer. Mas não. Nós, seres humanos esclarecidos, somos levados a crer que, a partir deste minúsculo pulo do ponteiro do relógio, seremos outros. Da noite para o dia, iniciaremos uma dieta, entraremos na academia, plantaremos uma árvore. E o mundo, é claro, será outro também.

E assim nasceu o feliz ano novo de 2018. Com chuvas intermitentes e nenhuma providência tomada pela Prefeitura para combater as enchentes e alagamentos. Assim como em 2017. Assim como em 2016. Ou em 1734. Este mais recente rebento do Século 21 trouxe um aumento no preço da passagem de ônibus. Antecipou aquilo que, infelizmente, já vinha ocorrendo nos anos anteriores, só que nos meses seguintes ao primeiro: o suicídio de uma estrela do rock dos anos 90. 2018 chegou chegando com uma série de notícias e reportagens sobre acidentes e atropelamentos causados por rachas. É verdade, meu caro. O homem do terceiro milênio ainda idolatra Vin Diesel e acha que apostar corrida de carrinho é sua prova mais inconteste de supremacia e evolução. O ano veio com político que come gente e política que mata gente. Quer mais? Tem mais, sim senhor. A Organização Mundial de Saúde colocou o Estado de São Paulo inteiro como zona de risco da febre amarela. Isso mesmo. Nós, índios, corremos o risco de morrer de febre, aquela doença que já foi detectada num dos primos primatas de nossa selva.

O que esperar de fevreiro? Não sei. Tirando o Carnaval, não faço a mínima ideia. Só sei que a ceia do último Réveillon continua posta na mesa, exatamente do jeitinho que você deixou.


domingo, 14 de janeiro de 2018

Gato

"O gato subiu no telhado", dito pelo(a):

- Pessimista: "O gato, que já tava velhinho, subiu no telhado de vidro".
- Otimista: "O gato deve ter feito alguma coisa errada, mas ainda bem que tem 7 vidas".
- Político: "No meu governo eu prometo construir 15 mil lares para animais abandonados e 7 mil moradias com telhados revestidos".
- Atriz norte-americana: "Ele abusou sexualmente de mim. No telhado. Odiei, mesmo ele sendo um gato".
- Juiz da Lava-Jato: "Senhor felino, como o senhor explica a reforma do telhado do seu tríplex no Guarujá?".
- Colecionador de grupos de WhatsApp: "Bom diiiia! Boa segunda-feira pra todossss!!! Miau miau ^^ ^^ ^^
- Facebookiano típico: "É inconcebível a sociedade aceitar o fato de um animal mimado e criado em apartamento escalar uma posição de superioridade e abrigar-se no conforto de um telhado, em relação à população carente, que nem tem teto pra se cobrir".
- Hater: "Gatos, vão tomar no cu".
- Maconheiro: "O gato subiu no... no... no... rsssssss".
- Kim Jong-un: "Gatos, olhem pra cá: BUUUUM!".
- Donald Trump (em seu Twitter): "Gatos são imbecis. Vou expulsar todos eles do meu país".
- Dilma Rousseff: "Eu saúdo os gatos. Eles são animais que bebem leite porque são mamíferos... e comem peixe... embora tenham medo de água... e as listras... dos cachorros... quer dizer, dos gatos...".
- Jair Bolsonaro: "Que porra é essa? Não basta eles vadiarem nas ruas, agora inventaram de subir no telhado? Que palhaçada é essa? No meu governo não vai ter essa bagunça não. Carrocinha pra todos eles".
- Carlos Alberto Sardenberg: "A taxa de elevação do gato nos fundos do telhado ultrapassou os índices previstos pelos economistas em relação à taxa dos cachorros, por exemplo".
- Pabllo Vittar: "Não sou gato. Nem gata. Nem cisgato. Apenas um ser humano em busca de escalar a liberdade sobre o telhado".
- Politicamente correto: "O animal costumeiramente perseguido pelo cachorro escondeu-se nas alturas por meio de sua acessibilidade".
- Professor catedrático: "O Felis catus galgou em direção à cobertura residencial de cerâmica".


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Fim de ano

Fim de ano. Época de fazer amiguinhos.

Todo mundo se amando. Todo mundo se abraçando. Mesmo que aquela enorme cesta de Natal que você carrega atrapalhe um pouco a proximidade do movimento.

Confraternização então, nem se fala. Jantar-balada da firma. Almoço da equipe da firma. Happy hour dos amigos do colégio com quem você estudou faz mais de 3 décadas.

Se bobear, teve festa dos vizinhos da rua também. Eu é que não fui convidado.

Falando em rua, é nesse período que começam a pipocar em sua caixa de correios um monte de cartões de Natal. O carteiro deixa o seu naquela caixa. Por motivos óbvios. O entregador de jornal, idem. Sim, ainda somos do tempo em que se lia jornal impresso em papel-jornal. O lixeiro pede sua comissão natalina. Afinal, se não fosse o serviço de sua coleta, estaríamos morando até agora submersos numa montanha de latas de atum e cascas de abacaxi. O funcionário que lê o relógio da luz também quer uma fatia desse bolo. Imagina só: o cara aparece no portão da sua casa uma única vez por mês, faz uma leitura de no máximo 45 segundos, vai embora te deixando um boleto de cobrança de imposto do Governo e ainda quer ganhar caixinha de Natal. O cara da água, idem. Mas não é só de luz, água e lixo que vive o cidadão paulistano. Nessa efeméride, única e tão somente nessa efeméride, brotam os funcionários do recapeamento asfáltico rogando por seu quinhão. Os capinadores da grama da calçada. Acho meio curioso isso: não sabia que minha grama só crescia em dezembro. Melhor mesmo continuar invejando a grama do vizinho, que cresce todos os meses do ano. E os limpadores de bueiro então? Você liga pra Prefeitura na época das enchentes, das festas, nunca tem gente disponível pro serviço. De repente, não mais que de repente, em dezembro aparece uma dúzia deles na sua casa. Certeza que brotaram dos bueiros. Tipo tartarugas ninja multiplicados por 4.

Ainda bem que não teve amigo secreto. Minha torcida para que não houvesse foi quase tão grande quanto minha torcida para ganhar sozinho a Mega da Virada. Não é por nada, não. Respeito quem goste da brincadeira. Mas, única e especificamente no meu caso, não tenho muita sorte com a coisa. Quando tiro alguém que gosto, vou atrás de um presente bem bacana. Ouviram bem, gente? Ir atrás, presente, em pleno mês de dezembro. Shopping mais lotado que o Lollapallooza. Vocês não fazem ideia do sacrifício que é procurar presente bacana nessa época. Entretanto, todavia, a pessoa que me tira não tem lá esse apreço todo por minha pessoa. Na hora de eu desembrulhar os incontáveis lacinhos que circundam a caixa, lá vem um 25 de Março. Que parte do “valor mínimo de 50 reais” a pessoa não entendeu?

Mas voltando. Natal, ano-novo, tudo junto ao mesmo tempo agora. Um monte de mensagens, e-mails, cartões virtuais, posts, gifs. Gente que te adora, ou apenas acha você um cara bacana, ou simplesmente adicionou seu nome numa lista de outras 278 pessoas antes do envio. Mas tudo bem. Houve um esforço, uma dedicação. Tá valendo do mesmo jeito.

Fim de ano. Minha vida recheada de luzes, de cores, estrelas, candelabros, copos de champanhe, feliz ano-novo, chag sameach... ah, mas VOCÊS não comemoram o Natal. Olha, querido, deixa te explicar uma coisa. Você acha que realmente esse negócio de deixar tudo iluminado, as casas e as ruas com luzes brilhantes e piscantes, vem mesmo do Cristianismo?

Fim de ano. Minha vida recheada de panetone, rabanada, nozes, castanhas, lentilhas. Minha vida recheada de peru, que também está recheado. Peru, por sinal, custando quase o mesmo que um iPhone. Na hora em que a moça do caixa pergunta “débito ou crédito?”, dá vontade de responder: “assalto”. E por que falta bacon na cidade, gente? É a nova dieta do Papai Noel? Até no Supermercado Irmãos Dias você encontra bacon. Menos em dezembro. OK, OK, bacon é vida. Mas é o tipo de item que você encontra fácil nos outros meses do ano. Até entendo essa escassez decorrente da lei da oferta e da procura. Mas uma coisa que não entendo é a polêmica que se instaura em relação à uva passa. Nossa, como tem hater de uva passa! Bastou o Afonso Padilha postar um vídeo falando sobre isso que, do mesmo bueiro dos caras da Prefeitura, surgiu essa legião de odiadores da uva passa. Não tem nada de mais com a fruta. É só uma uva que ficou 10 minutos no micro-ondas. Vai me dizer agora que você preferia kiwi dentro do panetone.

Fim de ano. Época de ficar mais gordo. Época de ficar mais pobre. Mas vale muito a pena. Estamos amando a todos.

Em janeiro a gente volta ao normal.


domingo, 15 de outubro de 2017

Parece que foi amanhã

Segundo Albert Einstein, o tempo é uma grandeza relativa. E de acordo com Érico Fuks, é traiçoeira também. Por mais relógios (sim, o relógio voltou a ficar na moda), despertadores e smartphones que a gente tenha, estamos sempre atrasados para alguma coisa. À medida que envelhecemos, o tempo torna-se ainda mais caquético quanto à sua irregularidade. Uma fila de banco que demora uns 40 minutos nos traz a sensação termodinâmica de um semestre. Em compensação, as 24 horas de um feriado mais parecem o tempo de cozimento de um miojo.

Quando acumulamos essa sensação de perdas e de ganhos por um período mais prolongado, aí sim nem parece que o tempo pertence ao nosso planeta. A gente não se conforma quando vê um menino fazer bar-mitzvah, por exemplo. "Nossa, carreguei ele no colo faz uns 5 anos atrás...". Não, não faz. Ele vai completar 13 anos mês que vem. E carregar a Torá no colo também.

Há exatos 6 meses atrás, conheci uma pessoa incrível. Se parece mais, se parece menos, não sei. Ao tempo, eu me refiro. Incrível, com certeza ela é. Vira e mexe a gente relembra alguns momentos marcantes para que eles fiquem guardados em nossa história. Para que não se percam nas nuvens, na cloud, ou fiquem armazenados em algum arquivo morto ou diretório impossível de ser localizado. Essas memórias trazem de volta desde incontidas gargalhadas até aquele sorriso aberto e contemplativo de saudade.

Mas não é só o passado que nos alimenta. Estamos sempre no devir. A gente não pensa só no amanhã, como no depois de amanhã também. Fazemos planos como se o futuro fosse algo muito próximo, uma grandeza iminente que pode desabrochar a qualquer momento.


Obrigado, Paola Raia, por fazer valer a pena cada minutos desses 180 dias passados. Torço muito para que o futuro amanhã seja uma grandeza infinita, onde possam caber todos os nossos planos, as nossas vontades e o nosso amor. Afinal, parece que o mundo ainda não acabou.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Horário de verão

Ainda não se sabe ao certo se neste ano vai haver o horário de verão. Aquele empréstimo compulsório que o povo cede ao Governo. Tiram de nós uma hora do nosso sagrado domingo para devolver só no começo do ano que vem, lá pelos idos de março. Pior: sem juros, sem correção monetária. Descontam da fonte 24 horas e quando devolvem, as mesmas 24 horas, sem um segundinho a mais.

A razão alegada de tal imposição é a economia de energia. Redução do consumo de luz elétrica, ar-condicionado e inseticida de tomada. Motivo justo. Evitemos o desperdício. O problema está na forma como o Governo realiza tal confisco. Adiantam automaticamente todos os computadores, celulares e relógios de rua. Não cabe recurso.

Se esses minutos fossem investidos para melhorias em nosso país, tudo bem. O Governo arrecadaria bilhões de minutos, contabilizados no minutômetro instalado no Centro de São Paulo, e utilizaria a verba para obras públicas de infraestrutura. Investiria esse montante temporal para oferecer agilidade em filas de banco, esperas telefônicas, sinal de wi-fi e filas de caixa de baladas. Na Alemanha é assim. Na Dinamarca é assim. A França está adotando esse modelo. Portugal estuda a implementação dessa prática... pensando bem, não. Na questão de entendimento de piadas, Portugal continua bem devagar.

Não é o que ocorre no Brasil. Aqui é o país do jeitinho. “Só mais um minutinho”, “um minuto de sua atenção”. E continuamos atrasados. Nestas terras tupiniquins, arrecada-se um volume de tempo equivalente à Pré-História para oferecer serviços equivalentes à duração da Semana de Arte Moderna. Isso sem falar nos constantes esquemas de corrupção. Quadrilhas envolvidas no desvio de segundos públicos. Recentemente, foi gravado um vídeo em que um assessor do Governo foi flagrado com 500 mil minutos dentro de um cronômetro, o que acarretou o início da Operação Hora Certa. Todos os dias vemos na TV depoimentos de delação premiada, em que empresários e executivos da Rolex e da Dimep denunciam políticos envolvidos em fraude e lavagem de períodos. Muitos citados foram presos, mas a maioria conseguiu a liberdade porque entrou com recurso de absolvição de banco de horas. Alguns políticos cumprem pena em prisão domiciliar, mas os governos de alguns estados já alegaram que falta relógio de pulso eletrônico para todos os criminosos. Mais recentemente ainda, 51 milhões de centésimos foram encontrados no apartamento de um influente ex-ministro. Se a coisa continuar assim, é provável que nem o Presidente da República escape da punição. Deputados de partidos adversários já falam em impeachment: se comprovada a corrupção, o representante-mor da nação terá de devolver 2 anos e 5 meses de seu mandato aos cofres públicos.

Não sei se o horário de verão vai ser bom ou ruim. Sensação de sair do trabalho com o dia claro, tomar banho gelado sem sofrimento, ver o Jornal Nacional em pleno pôr-do-sol, tudo muito bonito, mas apenas medidas de fachada. Estamos enfrentando uma crise cronológica sem precedentes, como não se via há décadas. Prova disso é que diretor e roteiristas já estão trabalhando numa adaptação para o cinema: A Hora do Pesadelo.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

A bilheteria é para todos

Arte é confronto. É o embate dos contrários. É a forma de expressão que só se intensifica por meio de conflitos e provocações. Nem que sejam meramente internos. Só assim o indivíduo cresce. Só assim a sociedade evolui.

Quem me conhece um pouco melhor sabe que não sou lá muito chegado às terminologias “de esquerda” ou “de direita”. Sob esse ponto de vista, o mundo mudou. Vemos uma série de governos ditos “de um lado” praticando ideologias consideradas “de outro lado”, em todos os territórios do planeta. Políticas conservadoras, práticas ditatoriais, nada têm a ver com essa divisão. Servem tanto para um quanto para outro. Acredito mais na fissão “eficiência de gestão” x “incompetência de gestão”. Esquerda ou direita me parece um julgamento simplista, maniqueísta. Uso raramente, apenas para resumir ou simplificar um conceito de senso comum, quando não quero adentrar em detalhes. Senso comum, diga-se de passagem, que nada tem a ver com bom senso. Procuro observar o mundo, sob a ótica política, mais como um crítico inconformado do que um flanelinha: “mais pra esquerda, vem pra direita, aí tá bom...”.

Dito isso, queria falar um pouco sobre um assunto recente que me chamou a atenção. Não se trata da exposição patrocinada pelo Santander. Que, por sinal, passou pelos mesmos crivos policialescos dos árbitros das redes sociais. Na verdade, trata-se de um boicote feito por parte de uma “elite pensante” em relação ao comparecimento nas salas de cinema para ver “Polícia Federal”. E, posteriormente, a equivocada comemoração para os resultados de bilheteria considerados “pequenos”.

Acho tudo isso uma grande bobagem. Um gesto partidário que beira a infantilidade. Algo tão pueril quanto telefonar para um programa televisivo matinal ou andar na rua carregando um balão vermelho. Em primeiro lugar, pelos números que falam por si. Tá certo que não alcançaram as expectativas megalomaníacas, mas “Polícia Federal” fez, no feriado prolongado, quase meio milhão de pagantes. Foi a maior estreia nacional de 2017.

Mas, aonde quero chegar? Como cinéfilo, apreciador controverso da arte, acho que todo e qualquer filme deve ser visto. Do conservadorismo “direitista” de Clint Eastwood, diretor por sinal muito bem aceito pelos corretores da Sétima Arte, ao panfletarismo proletário “esquerdista” de Ken Loach. Se algumas críticas e publicações anteciparam que Polícia Federal faz um retrato cômico e caricato dos investigadores, coloca o departamento em estado incólume de beatificação, ou peca ao não aprofundar os fatos, a meu ver isso não são argumentos suficientes para a tal greve. Até porque, na miopia de sua raiva, os precursores do “não vou” mal perceberam que, nos últimos anos, vem surgindo uma classe política que não se afirma como “de direita”. São os “ex-esquerda”, que também lutaram contra a ditadura, votaram no Lula lá no começo, mas se decepcionaram com os rumos tomados por algumas lideranças. Talvez não sejam nem de esquerda nem de direita, apenas desnorteados diante de tanta roubalheira e impunidade. O próprio diretor (conforme falado na coletiva de imprensa, eu estava lá) faz parte desse novo nicho.

Cinema é ruptura na forma e no conteúdo mas, na questão dos produtores e realizadores, acredito que eles devem andar bem grudadinhos. Principalmente o cinema brasileiro, que compete com as intensas e covardes estratégias de marketing das majors para que seus blockbusters alcancem o topo das bilheterias. Pensar que meio milhão de brasileiros abriu mão das futilidades e das commodities de consumo dos shoppings para ver o filme, ainda que esta seja a parte ínfima e menos lucrativa de um pacote composto por baldes de pipoca e litros de refrigerante, é um dado que não pode ser desprezado. Estamos assistindo, todos os dias, fora das telonas, à maior investigação político-criminal da história do país. Não podemos nos submeter à arrogância de certos bedéis da arte, que nos orientam a boicotar o filme. Ainda que finalizado de maneira torpe e carregada nas tintas, a Operação Lava Jato provoca um mínimo de interesse a ser discutido.

Por favor, deixem a Paris Filmes lançar seus filmes “de direita”, como o requentado Plano Real. Deixem a Vitrine Filmes lançar seus filmes “de esquerda”. Apesar de suas formas radicais e ideologias obtusas, ou talvez justamente por isso. Fazer campanhas contrárias não é inconformismo, é imbecilidade. Somos bombardeados por quase uma dúzia de estreias toda semana. Ainda que os filmes “de direita” se utilizem das mesmas estratégias comerciais dos filmes de terror ou das franquias de super-heróis, ver um filme brasileiro abraçar seu público não deixa de ser um ato de resistência. Lugar de pessoas é na sala de cinema, desde que não conversem durante a projeção, não usem o celular e não chutem a cadeira da frente. A única pessoa que gosta de sala vazia é o bilheteiro: ele tem menos trabalho para destacar os ingressos. Cinema cheio faz bem, principalmente a nós mesmos, cidadãos contribuintes, pagadores de impostos. Com bilheterias mais gordas, é possível que nosso produto tupiniquim necessite menos da mendicância das leis de incentivo, o atual antibiótico responsável pela sobrevivência da nossa arte.

Se existe hoje o Movimento Brasil Livre, que de liberdade não prega nada, existe também o Movimento Cinema Livre, oculto nas entrelinhas das redes sociais, mas que se vale dos mesmos métodos persuasivos de censura. E é quase tão perigoso quanto. Não é isso que eu quero para o futuro do nosso país. Nem para o presente. Queria mesmo é poder ver abraçados, segurando cartazes ou não, tanto o Kléber Mendonça quanto o Marcelo Antunez, mais o Eugênio, o Adirley, o Bruno, o Caetano, o Marco, os irmãos Salles e muitos outros que, com suas diferenças estéticas e políticas, gritam por suas ideias e fazem sua arte ecoar nas pessoas e não nos vazios. O resto é palhaçada fora das telas.


terça-feira, 25 de julho de 2017

Gestão pública X gestão privada

GESTÃO PRIVADA
A empresa comete uma grande cagada.
Os sócios pensam em 2 saídas.

Plano A:
Abafar o caso, indenizar os possíveis lesados, fazer um recall do produto.
Investir pesado em Propaganda. Comunicação focada em transparência e eficiência.
Modernizar a marca.
Alterar os livros de Contabilidade. Criar operações financeiras fantasmas. Reduzir os prejuízos do livro-caixa.
Valorizar as ações.
Vender a empresa para uma multinacional por uma quantia estratosférica.
Enterrar a marca nacional.
Com a dinheirama da compra, o dono passa o ano em Genebra.

Plano B:
Demitir os funcionários. Deixar de pagar indenizações. Sofrer processos trabalhistas aos montes. Deixar correr esses processos.
Transferir os bens para o nome de outra pessoa.
Sucatear o patrimônio.
Pedir concordata. Tentar o perdão da dívida na Justiça.
Fechar a empresa.
Enquanto o nome da companhia fica sujo na praça, dono foge e passa uma temporada em Genebra.


GESTÃO PÚBLICA
O Governo comete uma grande cagada.
Em discurso, Presidente fala que não existe Plano B.
Deixa a estrutura estatal mastodôntica exatamente como está.
Não corta um centavo dos gastos públicos.
Aumenta as benécies dos parlamentares em troca de favores políticos.
Cria estratégias para abafar as investigações.
Empurra com a barriga as principais reformas legislativas.
Faz um mandato-tampão baseado em emendas.
Troca metade do ministério. A cada 2 meses.
Convoca o melhor Ministro da Economia pra dar um jeito.
Aumento de impostos para cobrir rombos.
Índice de confiança do setor empresarial continua em queda.
Taxa de juros não cai, inflação idem, desemprego sobe. PIB quase zero.
Queda da produção. Queda da produtividade. Mais impostos. Presidente afirma que povo vai entender.
Cai o Ministro da Economia. Cai a Economia.
Em meio à maior crise política do século, Presidente é convocado a participar de conferência mundial sobre sustentabilidade. Em Genebra.


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Mais é menos

Por uns instantes achei que tivéssemos entrado no Século 22. Uma intensa campanha do Pão de Açúcar e do Extra, especificamente seus programas de fidelidade Pão de Açúcar Mais e Clube Extra, totalmente sintonizada com tendências e hábitos de consumo. A comunicação visa chamar o consumidor a baixar os respectivos aplicativos. Com o mote “desconto só pra você, só no aplicativo”, ou algo similar, imaginei se tratar do suprassumo de uma campanha exclusiva e personalizada. Ou seja: o sistema do app se “emparelha” ao sistema da rede, o sistema da rede vasculha o histórico de compras do cliente, detecta as marcas e categorias de produtos mais compradas nos últimos meses/semanas/dias e, a partir desses dados, oferece a ele ofertas e promoções condizentes com esse levantamento. Ou seja: um consumidor de cerveja passaria a receber ofertas de Heineken, Skol, Itaipava, Stella. Uma consumidora de sabonetes e shampoos passaria a receber ofertas de Dove, Palmolive, Nivea. Apenas um exemplo, sem preconceitos. Ou seja: nem o consumidor de cerveja receberia oferta de Nivea, nem a consumidora de sabonetes receberia oferta de Heineken. Ou seja: eu, com meu histórico de consumo inveterado de refrigerantes, energéticos, atuns enlatados, salgadinhos e demais tranqueiras engordativas, achei que, finalmente, pudesse dispensar as páginas e páginas dos encartes e teria, no meu celular, um aplicativo que me entende tão bem, mas tão bem, quase um amigo íntimo, daqueles que dá vontade de adicionar no Facebook. SÓ QUE NÃO.

Em primeiro lugar, veio a maratona que me enlouquece: cadastro. Não sei se também acontece com vocês, mas perco horas tentando decifrar o jeito certo de preencher a porra dos campos e espaços em branco. Neste caso específico, o problema foi o telefone. Não havia um “exemplo de preenchimento”. Então digitei só números com prefixo da cidade. Errado. Depois, só números sem o prefixo da cidade. Errado. Prefixo da cidade entre parênteses, sem espaço do número de telefone. Errado. Com espaço. Errado. Com hífen entre os 4 dígitos. Sem hífen. Enfim, imaginem vocês como estava meu estado de humor após 10 tentativas. Depois dessa, só mesmo um Honda Civic pela metade do preço para fazer do Pão de Açúcar Mais um app de gente feliz. SÓ QUE NÃO.

Segundo passo: “folhear” as ofertas disponíveis, ativar as que te interessam, mostrar seu celular ao caixa na hora da compra. Um processo um pouco mais complicado, que exige alguns passos a mais em relação ao arcaico ler, botar no carrinho e pagar. Mas tudo bem: estamos décadas à frente da concorrência, estamos sendo os protagonistas do big brother do consumo, estamos diante da tecnologia-psiquiatra que te ouve, te entende e te dá um lencinho. SÓ QUE NÃO.

Nesse processo embrionário e empírico de novas funcionalidades para o telefoninho que a gente carrega no bolso, só me apareceram ofertas de banana, tomate, ovo, papel higiênico, frigideira e inseticida. Todo supermercado do mundo faz oferta de inseticida. Ou as indústrias deveriam produzir menos, ou as pessoas deveriam comprar mais. Questão de equilíbrio. E, até onde eu saiba, essas mesmas ofertas padronizadas apareceram pro cervejeiro, pra moça que gosta de tomar banho, pro João, pro José, pra D. Ermelina.

Podem continuar me chamando de obsoleto, old school, retrógrado, cliente de antiquário. Mas vamos combinar: pelo menos no bom e velho encarte de papel, aquela coisa impressa e anti-ecológica que vem dentro do jornal que ninguém mais lê, eu faço a festa com todas as bugigangas em promoção. Alta tecnologia pra me vender banana? Vai se foder!


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Políticos

Sempre quis acreditar que a generalização é um caminho perigoso. Que existem maus políticos e bons políticos. Assim como maus médicos e bons médicos. Maus advogados e bons advogados. Penso duas vezes, ou até mais, antes de tecer comentários derrotistas e colocar tudo como farinha do mesmo saco. Isso em nada contribui para o debate. Ou até mesmo para se mudar a realidade generalizada. Sempre achei que a massificação adjetivada enfraquece o discurso. E justamente os maus modelos poderiam servir de referência para o processo de aceleração das transformações. Para se pensar sobre as mudanças de modo mais coerente. E tentar construir um país melhor.

Mas aí me aparece o motorista de ônibus que ultrapassa o veículo da frente e não para no ponto, conforme ocorreu ontem comigo. Ou um pilantra que inventa desculpas esfarrapadas para dar um calote num amigo meu pelos serviços prestados, como aconteceu nesta semana. Ou um vizinho que joga o lixo no telhado da sua casa, como acontecia há alguns anos. Vizinho, por sinal, político. Ou aquela pessoinha que usa a fila preferencial no supermercado para desovar um carrinho lotado de compras. Ou o sujeito que joga papel na rua. Passa o farol vermelho. Taca fogo em bancas de jornal. Gruda o chiclete nos assentos dos coletivos. Rabisca cédulas. Cospe nos fones dos orelhões, muito embora ninguém mais use essa geringonça.

O que estamos assistindo, no âmbito macro, nada mais é do que o reflexo dessa sociedade podre. Políticos – eleitos diretamente por nós – deitando e rolando nas mamatas do governo. Os políticos são um recorte da sociedade. Eles não só inspiram o conjunto da população a macaquear e proliferar seus gestos ignóbeis, como também nasceram dessa sociedade, e levam esses hábitos sinistros para os mais altos escalões. Uma via de mão dupla. Esburacada, tortuosa e com semáforos quebrados.

Nada mais me assusta. Nada mais me deixa perplexo. Só fico cada vez mais triste com essa corja que nos representa e com esse zé povinho que nos cerca. Um nasceu do outro. Tanto aquele que está na mídia, por ter subornado o silêncio de um colega preso, quanto aquele que emporcalha o país no modo invisível. Tanto aquele que participa de mirabolantes golpes milionários lá longe em Brasília quanto o tal do vizinho que tá cagando pro seu sono e liga o pagode no volume máximo. É por causa desse tipo de cidadão escroto que, voltando ao tópico da generalização, quando mostrei minha relutância em nivelar nossos compadres por baixo e procurei enxergar alguma qualidade na raça que compõe esse Brasil colorido e plural, digo agora: “esqueçam tudo o que falei”.

Assistindo a todo esse transporte de malas de dinheiro, à compra de joias com a grana da Saúde, conversas telefônicas negociando valores e, mais recentemente ao pronunciamento da não-renúncia, fico imaginando que, para o pequeno escroque, fazer uma conversãozinha proibida na esquina da R. Augusta com a Alameda Santos não pega nada. Pois no Brasil a única lei que “pega” é a lei de Gérson. É esse tipo de pulha que escolhe os políticos de hoje. É esse tipo de canalha que se transforma no político de amanhã.

Morram todos vocês, seus filhos de uma puta. De preferência, de câncer no cu.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Tinder

(Mais considerações sobre o Tinder)

Tudo muito rápido. Tudo muito muito. Na nossa sociedade, ninguém tem tempo a perder. Seja lá o que significa o conceito de “perder tempo”. Nos relacionamentos, é a mesma coisa. Aquela ideia de amadurecer a relação amadureceu de podre. Tudo tem que ser muito certeiro. “Assertivo”, palavra-bosta da moda. E o Tinder, como causa ou reflexo desse comportamento, não poderia ser diferente. Basta deslizar o dedo sobre a tela para se desvincular de alguém e partir pra próxima. Com o novo Namoro na TV em formato de app, temos a capciosa sensação de que milhões de pessoas estão solteiras e desesperadas. Milhares são compatíveis com você. Centenas dão like. Em dezenas rola match. E meia-dúzia quer dar pra você. Talvez uma até queira mesmo. Mas só se você for muito gente boa ou se rolar uma descarga elétrica no primeiro encontro a tal ponto de desencadear uma atração mortífera e visceral. Caso contrário, o Tinder funciona mais ou menos como o Uber: milhares de pessoas passeando perto de você, existe a necessidade de abrir o app pra chamar essa pessoa e, se tudo der certo, ela vai te achar. Só que com uma diferença: no Tinder você não ganha balinha nem copinho d’água ao utilizar o serviço. Ao contrário do serviço de táxi, em que há a certeza de que você nunca mais na vida vai ver o motorista novamente, com o Tinder ainda existe uma remota possibilidade de um novo encontro. Mas pra isso você precisa beirar a perfeição no début. Aqui o ditame “a primeira impressão é a que fica” cedeu lugar ao “a ÚNICA impressão é a que fica”. Afinal, ninguém quer perder tempo investindo na relação ou descobrindo os mistérios do outro. Mais fácil perder tempo passando o dedo sobre um tampo de vidro enquanto se escuta o Spotify.
Portanto, diante dessas conclusões absolutamente pessoais, quero finalizar com uma espécie de tributo, homenagem, ou apenas uma derivação da música Construção, de Chico Buarque.

“Armou daquela vez como se fosse a última
Reservou um bistrô para o próximo sábado
Olhou praquela mulher como se fosse a única
Beijinho no rosto como se fosse íntimo
Contou suas vantagens se achando o máximo
Poema sobre poema num momento mágico
Agarrou aquela mulher de um jeito ridículo
Levou um fora como se fosse um bêbado
Pagou aquela conta se sentindo uma lástima
Abriu aquela porta andando trôpego
Entrou no carro do Uber atrapalhando o tráfego”.