sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Milonga

As principais características do argentino-uruguaio Milonga são a secura e o mistério. Um deriva do outro. Quanto mais emblemático e menos explicativo, mais a curiosidade atiça o espectador. Afinal, o que levou os personagens àquele ponto? De onde vem essa angústia que ocupa quase a tela inteira? Por que a necessidade incessante de recomeçar tudo?

Rosa é uma viúva que perdeu o marido faz seis meses. Coloca à venda, por meio de anúncio, uma caminhonete do casal. Ela parece pouco se importar com o automóvel. Quer mais é se livrar dele. E isso representa, fazendo-se uma analogia, a sua vontade de se livrar de todo esse passado sombrio. Mas ainda não sabemos qual é.

Um dos interessados é Juan, que faz uma oferta pelo veículo. Como parte do pagamento e da negociação, Juan faz pequenos serviços na casa de Rosa, como por exemplo pintar um muro. Nasce então uma relação, no mínimo, muito estranha. 

O ponto-chave para a aproximação dos dois, entretanto, não é a casa, mas algo fora dela. Juan sugere a Rosa que comece a frequentar uma casa de tango chamada Milonga. Uma espécie de baile da saudade, onde pés-de-valsa batem ponto.

Em tempos de Tinder, o espectador é levado a acreditar que existe ali uma ruptura com os hábitos modernos e a possibilidade do início de um relacionamento à moda antiga. Mas Milonga não é tão cartesiano assim. Seria previsível demais. E o que o filme menos coloca é a obviedade. Sempre há um tropeço que faz a dança entrar em descompasso. Um cano que quebra, um cachorro que late, um passado que atormenta.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Sorry, Baby

Existem várias pessoas, amigos e conhecidos meus, que deixam de apreciar os filmes devido à sensação de que nada acontece. Pois acho isso um dos grandes méritos da obra. Principalmente aqui.

Escrito, dirigido e protagonizado por Eva Victor, indicada ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz, Sorry, Baby mostra um supostamente pacato cotidiano da professora universitária Agnes e seu entorno, como a amizade com  Lydie, uma homossexual prestes a dar à luz.

Somente após alguns bons minutos de cenas iniciais é que se instaura o conflito da trama, que faz Agnes repensar os rumos de sua vida. A sinopse oficial dá conta de se tratar de um evento trágico, a fim de não dar spoiler.

Sem cair em exageros dramáticos, ou levantar bandeiras ideológicas feministas, Sorry, Baby consegue segurar até o fim sua dramaturgia potente, sem ser escabrosa. É o tipo de filme que "nem parece que é filme", dada a naturalidade como as coisas se desenrolam.