A estética em preto-e-branco de alto contraste, o ambiente rural e os personagens simplórios já no início do filme nos colocam diante de um tipo de cinema muito específico. Talvez dentro de uma seara de filme pra ganhar festival, ou produções de baixo orçamento longe das amarras dos grandes estúdios. De qualquer forma, é desde o começo deste precioso trabalho argentino que o espectador é impactado por uma semiologia cinematográfica que nada tem a ver com as fábulas urbanas de um Daniel Burman, por exemplo.
A primeira cena mostra um suposto camponês negociando uma tartaruga, na beira da estrada, à noite. Não se sabe ao certo se é a venda de uma mercadoria que mais tarde se transformaria no jantar. Ou o comércio ilegal de animais silvestres. É um pouco adiante que somos contextualizados pela trama propriamente dita. Anika é uma garota que, gerenciada pelos seus avós, vende seus dons paranormais de se comunicar com animais, vivos ou mortos.
Esse poder mediúnico da pré-adolescente é que serve de sustento para a família. Ganham fama pela cidade, fazendo com que sejam entrevistados por um repórter de TV.
Longe de ser um filme de terror, exorcismo, com olhos revirados e momentos de transe. A Mensageira concentra suas forças nas relações humanas que caracterizam aquele pequeno povoado. Os diálogos enxutos traduzem talvez a carência da população por uma forma mais ampla de se comunicar.
O filme também não busca um contexto exotérico, que o aproxime do realismo fantástico. É quase um filme realista, apesar da excessiva carga de tinta negra e alva colocada nas telas.
Baseado na simplicidade, o filme também não coloca em questão o charlatanismo. Não se posiciona diante de um julgamento, procurando verdades sobre as intenções dos personagens. Se existe uma vontade de se lucrar com a miséria, não é o diretor Iván Fund que faz esse tipo de condenação. As crenças estão nos coadjuvantes. As descrenças, possivelmente, na plateia. Só isso.