quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Seu Pedro

Natal pra mim sempre foi uma festa que fica meio no limbo. Por motivos religiosos, minha família nunca comemorou. O que existe pra gente no lugar dele é Chanukah. Que até tem uma certa semelhança, embora a motivação da celebração seja completamente outra. Pra quem não sabe, o Natal brasileiro é um compêndio cultural, uma simbiose de tradições diversas. Traz o Papai Noel como protagonista, nada mais do que o garoto-propaganda da Coca-Cola. Usa roupas pesadas, vem do Polo Norte, da Lapônia (onde exatamente fica isso?), usa um trenó e suas renas para praticar esse esqui e entregar os presentes. Inverníssimo, nada a ver com nosso país invadido pelo ciclone extratropical. Mas a questão da iluminação vem do judaísmo. Casas repletas de luzes derivam de alguma história que aprendi e esqueci. Algum perrengue do povo judeu. O judeu é expert em perrengue. Mas sei que é algo relacionado a um óleo especial usado para acender lamparinas. E um chamado divino fez iluminar os caminhos do povo nômade. Algo mais ou menos assim. O judeu se acostumou a viver no escuro. O paulistano também. Não é nada fácil depender da Enel.

De uns quatro anos pra cá, coisa recente, minha mãe tem se dedicado mais à religião. Como as festas judaicas mais ou menos coincidem nas datas com as festividades cristãs equivalentes, é mais ou menos nessa época de fim de ano que o rabino e um de seus filhos vêm aqui em casa à noite nos visitar e acender umas velas. Tudo meio de surpresa, sem avisar com antecedência. Da primeira vez, até me assustei. Parou debaixo da minha casa um Santana, modelo época em que fazia faculdade, com uns faroletes acesos pendurados no teto. Do interior do automóvel saía um som que eu não sabia se era da Rocinha ou da Faixa de Gaza. Mas, claro, a culpa foi minha, por não entender o idioma proferido nas canções. Fechei a cortina, como se aquilo não fosse comigo. Segundos depois, toca a campainha. Juro, achei que era bandido. Olhei de soslaio, pela fresta do pano. Só então constatei que um senhor de longas barbas brancas, terno escuro e um volumoso chapéu preto não iria me fazer mal algum. Pelo contrário. Deixei-o entrar, junto com sua cria. Só que aquilo tudo foi meio que na base do improviso. Antes da cerimônia começar eu precisava vasculhar meu guarda-roupa pra procurar meu kipá. E o rabino estava com uma certa pressa. Tipo Papai Noel. Aquele senhor de barba branca precisava também adentrar outras casas (não pela chaminé) e proferir suas sábias bíblicas palavras a outros indivíduos que fizeram bar-mitzvah. Para cada vela acesa, uma reza. Para todas as velas, um castiçal específico dessa ocasião. E, ao final, lá estava eu, de mãos dadas com o rabino, com o filho dele, fazendo um círculo na sala (somente homens), girando e cantando como se fosse ciranda-cirandinha. Eles, os religiosos, de terno de algodão e camisa de linho puro. Eu, de bermuda, Havaianas e camiseta da Dotz que uso pra dormir.

Eu só fui abduzido pelo Natal mais recentemente. Após namorar cristãs um pouco mais fervorosas, cujas famílias me acolheram muito bem. E sempre acompanhei, mais ou menos como um figurante, toda a agitação da rotina que a ocasião pede. Em alguns anos, era notório meu costumeiro mau-humor. Pelo fato de eu não poder fazer nada pra ajudar, e não saber fazer nada, e ninguém querer que eu fizesse coisa alguma, era completamente ignorado. Me sentia o bombom Caribe da caixa da Garoto. Hoje até entendo. Não dá pra ter toda a atenção máxima do mundo. Os organizadores da festança precisam pensar, em tempo recorde, na comida, na árvore e nos presentes. E não é uma comida qualquer. É um serviço de buffet, com entrada, pratos principais e sobremesa. Tem ave, tem porco, tem tudo. Comilança de carne pra deixar o Ibama preocupado. Também não é qualquer árvore. Tem que pendurar umas bolas da espessura de uma casca de ovo. Tem que amarrar uns fios cujas veias são dispositivos de led. Fios que, quando são retirados da caixa, parecem a Rua Vergueiro: você não sabe onde começa e onde acaba. E jamais, em hipótese alguma, vai conseguir colocar de volta na embalagem. Tem que pensar também onde deixar o botão liga-e-desliga daquela interminável música em versão midi que vem acoplada de brinde a esse iluminado fio. Para deixar o menos visível possível. É um som até simpático... nos primeiros 45 segundos. Depois, aquele pot-pourri de Noite Feliz a noite inteira fica tão insuportável que dá até vontade de botar na vitrola a música da Simone. Além disso, não é só um presente. Você precisa embalar mais de meia-dúzia deles. E, antes de embalar, precisa comprar. É lembrancinha da 25 de Março para a avó, é docinho da Cacau Show para a horda de sobrinhos, é um perfume bacana pra namorada. Isso sem contar os diversos amigos secretos, amigos ocultos, amigos do desapego, amigos da onça organizados pelo tiozão do pavê.

Tudo isso faz parte do jogo. Das estratégias comerciais que deixam o véio da Havan milionário. E são situações relativamente recentes. Mas o verdadeiro espírito do Natal baseia-se na simplicidade. E essa lembrança eu guardo dos tempos remotos lá da minha infância. Em frente à minha casa morava a D. Anita, uma simpática espanhola. Nunca se casou. Junto com ela morou, durante alguns anos, tenho uma vaga recordação, o Seu Pedro. Um pouco mais sério do que ela, mas igualmente simpático. Saía quase todo dia de manhã bem cedinho, carregando uma maleta. Minha mãe me explicou que a profissão dele era afinador de órgãos do Mosteiro São Bento. Não fazia ideia de qual seria seu trabalho, seu job description, suas aptidões e competências, o que ele precisaria preencher ao final do dia no Trello dos anos 70. Era muito pequeno pra entender. Mas só o nome do cargo já trazia uma importância sobrenatural. Algo de uma nobreza embutida, por se definir como um afazer tão clássico, tão específico e tão único. Quantos afinadores de órgão você conhece? Guardadas as proporções, o Seu Pedro era o afinador dos instrumentos do Metallica. E não é só isso. Seu local de trabalho era tipo um Google da época. O Mosteiro de São Bento é uma das igrejas mais disputadas pra se marcar qualquer coisa. Tá pensando em se casar ali? Melhor agendar a data já no primeiro mês de namoro. Se deixar pra mais tarde, capaz do divórcio e dos três filhos chegarem antes. Afinador de órgãos de tal repartição religiosa, portanto, colocava o Seu Pedro mais ou menos como uma espécie de Flávio Dino litúrgico. Tempos depois, quando tentei estudar música no conservatório Marcelo Tupinambá, é que fui descobrir o quão difícil é deixar todas as notas do sofisticado instrumento em dia. Precisa se formar em faculdade de música, fazer especialização em Física Quântica, residência em Yale e voluntariado com os Médicos sem Fronteiras na África. Fico aqui imaginando que, quando o Seu Pedro chegava à catedral, não ouvia um simples bom-dia. Era um canto gregoriano que os padres recitavam a ele.

Assim como a vida do Seu Pedro, tudo um dia acaba. O secular mosteiro continua lá, firme e forte, no Largo São Bento. Mas a região, desnecessário constatar, está toda degradada. Aquele pedaço do centro de São Paulo parece uma ilha: uma porção de paz e sossego, cercada por mijo, mendigos e policiais por todos os lados. Nem a reabertura do gourmetizado Café Girondino, cobrando quase R$ 20 por seu pingado, foi o suficiente para revitalizar as redondezas. 

Depois que o Seu Pedro faleceu, todo dia 25 de dezembro, bem de manhã, por volta das 8 horas, um grupo de jovens vinha ao portão da casa da D. Anita fazer uma seresta natalina. Eram cerca de 6 a 8 rapazes e moças. Não sei se foram alunos do mestre, ou aspirantes a tal, ou se faziam algum tipo de atividade diletante no mosteiro, ou tinham como meta perpetuar a homenagem ao afinador. O fato é que, todo Natal, logo de manhãzinha, eu era agraciado por três ou quatro cantigas, à capela, que saíam melifluamente da garganta daqueles aprendizes. E isso me fazia muito bem.

A D. Anita também faleceu, anos depois, a casa foi vendida, e os jovens nunca mais apareceram. Hoje a data é comemorada ao som de rojões, pancadão e motoqueiros que trafegam com o silenciador do cano de escapamento de seus veículos desabilitado. Onde foi parar a magia do Natal?

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Crônica de uma Relação Passageira

Como o próprio nome sugere, Crônica de uma Relação Passageira aborda um affair supostamente efêmero e fugaz. Durante uma festa, Charlotte, uma mãe solteira, conhece Simon, um homem casado. Este novo casal concorda em se ver ocasionalmente apenas por diversão, sem vivenciar nada sério. Mas, como toda relação, essa falta de compromisso não sugere um final feliz.

Leve sem ser simplório, Crônica nos mostra duas potências antagônicas. De um lado temos Sandrine Kiberlain, cuja evolução dramática o público brasileiro pôde acompanhar. À medida que foi amadurecendo, transformou-se numa atriz de peso, saiu de comédias românticas e investiu em papeis dramáticos, dirigiu seu próprio filme, imprimiu sua marca no cinema francês. Do outro, temos o franzino Vincent Macaigne, que sempre faz o papel de um sujeito tímido e loser. 

Mas isso não é um demérito da produção. O casal manda muito bem, existe uma química entre os atores que faz com que Crônica flua com naturalidade, como se o espectador estivesse espreitando uma cena da vida como ela é.


sexta-feira, 29 de novembro de 2024

A Favorita do Rei

Filme de época parece ser sempre a mesma coisa. O tratamento estético, os diálogos rebuscados, a maneira de se registrar a realeza, tudo nos faz acreditar que estamos assistindo sempre ao mesmo longa-metragem.

A Favorita do Rei não foge muito à regra. Aqui temos Jeanne Vaubernier, uma jovem de origem humilde, determinada a sair da sua condição social usando seus encantos para se tornar uma cortesã do palácio real. Seu amante, o conde Du Barry, que se beneficia muito dos relacionamentos lucrativos de Jeanne, decide apresentá-la ao Rei para um caso extraconjugal. Com a ajuda do influente duque de Richelieu, ele organiza o encontro. Contra todas as expectativas, Luís XV (papel de Johnny Depp marcando sua volta ao cinema) e Jeanne se apaixonam. Com a companhia da cortesã, o Rei não consegue mais ficar sem ela e decide torná-la sua favorita oficial, causando um escândalo para a alta corte.

Mesmo que traga a prostituição como pano de fundo, o filme não mergulha em sua crítica social. Até esbarra em situações irônicas, como a ridicularização dos obrigatórios passinhos pra trás ao se despedir do monarca. Mas é só um esbarrão. A Favorita do Rei não carrega força suficiente para alfinetar os costumes da época e deixa tudo meio sutil. Igual à maioria dos congêneres.


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Mouse Trap - A Diversão Agora É Outra

Desde que a Disney perdeu os direitos autorais sobre suas obras, pelo fato de terem caído em domínio público, diversos estúdios menores se aproveitaram dessa brecha para realizar obras, digamos, pouco ortodoxas. Praticamente todas as historinhas de ninar se transformaram em filmes de terror, usando e abusando do estilo gore ou thrash, como por exemplo Cinderella, Ursinho Pooh, Alice no País das Maravilhas, entre outros.

Por estarem no nosso imaginário coletivo, e por fazerem parte de um bom período de nossa infância, seria de se supor que houvesse filas pra se assistir a esses trágicos contos da carochinha, com ingressos previamente esgotados, como pudemos constatar recentemente na procura por Ainda Estou Aqui. Não é exatamente o caso. Essas sanguinolentas adaptações, aqui no Brasil, amargam divulgações tímidas e lançamentos minúsculos, em pouquíssimas salas e horários, não conseguindo em boa parte de seu repertório aguentar a segunda semana em cartaz.

Mouse Trap - A Diversão Agora É Outra parece ter todos os ingredientes para andar no mesmo caminho. Agora, a bola da vez é o carismático ratinho Mickey, que se transforma num terrível serial killer.

O filme tem em sua introdução (a melhor parte do conjunto) um lettering em movimento no espaço, imitando os créditos iniciais de Star Wars, em que os realizadores se dizem fãs dos estúdios Disney. Mas o filme não fala sobre isso. Fica claro que alguém da produção teve uma ideia de se fazer uma piada, mas não souberam exatamente onde encaixar.

Pula para um grupo de jovens dentro de um fliperama que nos remete aos anos 80. E é nesse contexto que o ratinho do mal aparece (trata-se de um personagem usando uma fantasia, assim como o Ursinho Pooh). Como o personagem está usando máscara e vestimenta temática, igual ao anfitrião da Disneylândia, os demais jovens imaginam se tratar de um comparsa querendo pregar um susto na turma. Bom, aí é que entra o terror slasher.

Mouse Trap segue a fórmula das produções norte-americanas de quatro décadas atrás. Produção de baixo orçamento, roteiro precário, atores péssimos. A melhor parte, portanto, fica por conta de ouvir o tilintar da bolinha de pinball ou outro elemento sonoro que nos leva à máquina Space Invaders.

Como se não bastasse, o filme ainda tenta trazer uma explicação estapafúrdia para justificar a facilidade do Mickey esfaquear pessoas. A boa noticia é que esse desastre tem apenas 80 minutos - e com uma cena pós-créditos finais.


quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Abraço de Mãe

Muito se tem comentado sobre o padrão de qualidade de filmes e séries produzidos ou lançados pelas principais plataformas de streaming no país. Enquanto um carro-chefe alavanca o interesse maior do público, juntamente são lançados diversos trabalhos pífios, sem qualquer relevância artística, deixando claro que Amazon, Netflix, HBO e quetais são nada mais do que fábricas de produtos em larga escala industrial.

Abraço de Mãe, dirigido pelo argentino Cristian Ponce, é mais um exemplo desse descaso com o cinema e desserviço à arte. Tem em seu elenco Marjorie Estiano no papel principal, além de outros nomes do segundo escalão. Divulgado como um filme de terror, as características do gênero começam a aparecer lá pela metade.

Nem vou entrar no mérito sobre reconstituição de época e verossimilhança. O cinema, como forma de expressão artística, permite aos realizadores uma certa liberdade poética. A história se passa no Rio de Janeiro, em 1973. Mas pouco se observam os pormenores atrelados a esse período histórico. Marjorie, no papel de Ana, trabalha no Corpo de Bombeiros e, num caso de incêndio, fica travada e não consegue salvar mãe e filha. Afasta-se por um tempo da corporação, para tratamento psiquiátrico e, quando volta, é convocada a retirar os moradores de uma casa caindo aos pedaços, com risco de desabamento, num dia de chuva torrencial. Nada, absolutamente nada, traz qualquer verdade que nos faça acreditar que aqueles personagens são de fato bombeiros. Num momento hilário, Ana pede para alguém da casa trazer uma corda (!) para salvar um dos bombeiros que caiu numa fossa. Mas isso é apenas um detalhe. O menor dos males.

Com vários furos de roteiro, sequências mal costuradas, Abraço de Mãe tenta induzir diversos elementos que estão ali presentes somente por estar. São meio que jogados à tela. Ponce parece não entender a diferença entre o clima tenso que se cria com as incógnitas narrativas e o calhamaço de artigos despejados sem qualquer sentido, numa falsa alusão ao "mistério". Os personagens, completamente fora do tom, parece que foram convidados a um baile. Num momento de tormenta, uma tal enfermeira (acho que é isso) anda e fala calmamente, como se estivesse ali recitando uma cantiga de ninar. 

Se a proposta era trazer dúvidas mal esclarecidas, o filme acertou em cheio. Nem mesmo o título se explica direito. Abraço de Mãe se vende como um dilúvio, mas nada mais é do que uma abordagem risível em tempo feio.


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

48ª Mostra

A 48ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, vulgo Mostra, já começa com um pedido oficial de desculpas, publicado no seu perfil das redes sociais, em decorrência da enorme procura por ingressos pelo novo filme do Walter Salles. Teve de se justificar que as parcas duas exibições foram determinadas pela distribuidora, em contrato, o que dificilmente vai a contento das centenas de ansiosos, desesperados cinéfilos ou baladeiros que, com suas manias obsessivo-compulsivas, não aguentam esperar por mais um mês até o momento de sua estreia.

Fez menção também à plataforma de compra de ingressos por aplicativo, Velox, que, como é de se esperar, está muito longe daquela tecnologia perfeita vislumbrada por Fritz Lang ou George Lucas. A Velox é uma espécie de prima da Enel nos quesitos problemas técnicos, falhas na finalização e péssima experiência de usuário. Falando nisso, vale lembrar que essa procura antecipada se deu nos dias em que a cidade ficou sem luz, sem água, sem internet, com shoppings lotados de pessoas espetando carregadores de celular em espaços instagramáveis justamente pra conseguir um fio de carguinha e concluir a compra virtual de uma entrada para o novo filme do Cronenberg.
Além disso, a organização implorou para que os seguidores evitassem usar de xingamentos (!) para expor sua indignação.
É a Mostra sendo a Mostra. Desta vez, o medo da ameaça constante e iminente da perda de patrocínio passou longe (graças ao bom Deus). Estão programados nada menos do que 417 filmes, distribuídos em tudo quanto é canto, desde os cineclubes Bijou e Cortina, circuito baratex Spcine, até o consagrado roteiro da região da Paulista, como Reserva Cultural, Cinesesc e 5 salas do Cinesystem Frei Caneca. Mais uma vez, os icônicos Cine Marquise e Reag Belas Artes ficaram de fora da brincadeira.
Pode parecer acesso a uma ampla possibilidade de escolha. A meu ver, essa nababesca oferta, fruto de uma megalomania inconsciente de quem faz isso tudo acontecer, deixa o espectador mais perdido do que saciado. Afinal, qual vai ser seu foco?
Tentar encaixar quase meio milhar de obras fílmicas em cerca de 20 dias é um trabalho muito mais árduo do que prazeroso. Vale a pena debruças nas retrospectivas, sempre o ponto forte do evento, este ano homenageando o indiano Satyajit Ray. Tem também uma leva de filmes que abordam as questões do Oriente Médio. Várias e várias avant-première de filmes brasileiros. Vencedores de palmas de ouro, ursos, leões e tudo quanto é bicho de festival (analogia usada pela Renata de Almeida na coletiva de imprensa). Mas será mesmo que é sadio disputar a tapa um lugar pra ver esses queridinhos de Cannes, Berlim e Veneza, só pra depois usar uma camiseta escrita "eu fui"? Não seria mais sensato aguardar sua estreia em relativa larga escala?
Entre esses filmes que servem pra influencer engajar seguidor, de Brutalista a Maria Callas, e filme que ninguém ouviu falar, existe uma grande vácuo. E talvez aí resida o campo de maior interesse. Claro, arte é risco. Você pode encontrar uma preciosidade escondida ou uma verdadeira bomba em campo minado. Porém, com internet que funciona, ano após ano a Mostra vem perdendo seu aspecto "garimpo". Quase tudo já foi explorado, dito, criticado, baixado antes mesmo dos arquivos digitais (antigamente, rolos de filme) chegarem ao cloud (antigamente, alfândega).
Os problemas da Mostra se apresentaram, neste ano, antes mesmo de ela se iniciar. Na cabine de imprensa do experimental Why War, de Amos Gitai, o filme estava legendado em italiano (diferentemente da prometida legenda em inglês). Se isso é um prenúncio do que está por vir, ou se "faz parte" de todo o contexto que a caracteriza, não sei. Relaxa e goza, é o que tem pra hoje.
A Mostra é uma ótima oportunidade de rever os amigos. Bater longos papos, quando e se possível. Na maioria dos casos, a saudação não passa de um "oi-oi". Afinal, é o encontro de duas frenéticas locomotivas, entrando e saindo de uma sala pra outra, na tentativa de se assistir ao máximo possível de produtos da Sétima. Mesmo assim, achar esses colegas que você vê uma vez por ano pode ser algo muito saudável - ou uma verdadeira decepção. Divergências políticas e ideológicas, mudanças de hábitos e costumes andaram separando um pouco o clã da velha guarda. A Mostra tanto agrega quanto separa. Não deixa de ser, em última instância, um protagonista do divórcio de amigos. Ainda mais em período eleitoral. E outra: é dolorosamente triste rever cinéfilos que vão envelhecendo, caducando, peregrinando de uma sala pra outra cada vez mais lentos e curvados. A Mostra é também o nosso espelho, que nos "mostra" a nossa própria finitude.
Nesses conluios formados em salas de espera e filas de bilheteria, existem grandes chances de eu me reencontrar por meio do outro. Já estou até prevendo ouvir o famigerado clichê "oi, sumido". Como se, durante 365 dias, eu ficasse hibernando numa câmara de criogenia. Talvez eles tenham razão. Sem perceber, acho mesmo que desapareci daquilo tudo que poderia me transformar numa pessoa melhor. E a Mostra é a grande chance de virar essa chavinha. Ou não. Pegar fila, encarar sessão com 1 hora de atraso, baixar app defeituoso, tentar dormir em poltrona de sala que passa documentário sobre a vida das abelhas da Indonésia... eu, hein?

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Tempestade Ácida

Nem sempre filme-catástrofe é indício de um trabalho de qualidade. Os possíveis exageros, as situações demasiadamente irreais e inverossímeis, as sequências em hipérbole podem afastar um determinado tipo de público.

Tempestade Ácida, dirigido por Just Philippot, evita cair nessa armadilha. Como a maioria dos filmes do gênero, debruça-se no fato da ameaça iminente, o perigo sempre em vias de acontecer. Isso é o que traz o chamado "suspense". Mas, aqui, Philippot vai além. Nas palavras do diretor, "a água é essencial para nossa sobrevivência, e queria explorar essa dualidade – um elemento vital que, de repente, se transforma em uma ameaça".

Tudo começa quando os noticiários alertam para uma chuva ácida no hemisfério sul, ocasionada pelos desequilíbrios ecológicos, avança para o hemisfério norte, especificamente a França. Entre o desastre propriamente dito e as situações no seu devir, o diretor encontra espaço para reflexões sobre as questões climáticas da atualidade, como o aquecimento global.

Mas não se trata de um trabalho panfletário e ideológico. Esse ponto de partida serve de elemento para trazer convulsões sociais e as tensões dramáticas do núcleo da história. Menos histérico e mais conciso do que alguns congêneres, Tempestade Ácida funciona mais do que entretenimento, levando o espectador ao questionamento sobre o mundo em que vivemos.



terça-feira, 1 de outubro de 2024

Golpe de Sorte em Paris

Vamos começar relativizando a tradução do título. Na verdade, não se trata da sorte grande. Não existe a premissa iminente de um "ganhar na loteria" na trama. Aqui o diretor mergulha no acaso, nas coincidências, na probabilidade de algo acontecer.

Isso já diz muito sobre os traços autorais de Woody Allen. Mais do que se debruçar em análises vagas, como o fato de imprimir sua admiração pela Europa, ou o sotaque francês que predomina as caixas acústicas da sala de cinema. Tentar buscar uma lógica para o acaso, enquanto ele simplesmente acontece, é muito mais forte na carreira do octagenário diretor. Em Hannah e Suas Irmãs, Allen usa as religiões para tentar desmistificar e entender o exotérico.

Em Golpe de Sorte em Paris, o encontro fortuito entra a bem-casada Fanny e o ex-colega de faculdade Alain ocorre já nos primeiros minutos, numa calçada da capital francesa. Falam sobre Nova York, onde estudaram, e aí podemos interpretar que existe uma correlação entre autor e obra. É notório o quanto o nova-iorquino diretor vem se desprendendo da cidade mais cosmopolita do mundo devido a inúmeros fatores de sua vida pessoal.

Numa primeira leitura, Golpe de Sorte em Paris parece ser mais do mesmo. Um trabalho requentado de um diretor que vem mostrando sinais de esgotamento criativo. Um filme menor. Claro, existem diversas situações que nos trazem todo o seu repertório fílmico. Encontros fortuitos, diálogos existenciais, traições, casamentos falidos, e por aí vai.

Mas, diferentemente de um passado remoto, o diretor não procura trazer uma nova fórmula para explicar a vida. Se fosse assim, o coreano Hong San-Soo deveria ser considerado um criminoso. Não há nada de errado falar as mesmas coisas de jeitos diferentes. Ou até parecidos. 

Portanto, Golpe de Sorte talvez até posa soar como um trabalho menos inspirado. Menos cômico, inclusive. Mas tem lá seu charme. E ganha vida própria com o desfecho, que sai dessa rotulada mesmice e caminha na exagerada direção ao quase-absurdo. E tudo bem. Afinal, é o acaso.


terça-feira, 24 de setembro de 2024

Proibido a Cães e Italianos

Não se deixe enganar. Não é porque se trata de uma animação que o filme é voltado ao público infantil. Proibido a Cães e Italianos, "animassinha" do diretor Alain Ughetto, se passa no início do século XX, no norte da Itália, em Ughettera, berço da família Ughetto. Com a vida muito difícil, os Ughettos sonham em começar tudo de novo no exterior. Mesmo diante das dificuldades enfrentadas na sua terra natal, Luigi (avô do diretor) ousou atravessar os Alpes e começou uma nova vida na França, em busca de uma vida melhor na mítica La Métrica.

O título é uma referência a uma cena que mostra a restrição a frequentadores num bar da cidade. Só esse trecho já resume toda uma sociedade movida a preconceitos, em que cidadãos tornam-se inimigos de guerra. Mas o filme não se prende a dissecar muito sobre os valores do conflito. Apenas mostra.

É essa linguagem sintética e simultaneamente poética que constrói a narrativa. Tudo é muito simples - e ao mesmo tempo, por que não dizer, contundente. Como não se trata de um filme "pra criança", aqui se apresenta a miséria, a pobreza. Mas de uma maneira menos didática e discursiva.

A beleza e sensibilidade de Proibido a Cães e Italianos recai justamente nessa concisão quase minimalista. Esse recurso de animação, que traz a nostalgia de um outro tempo de se fazer filmes, é bem-vindo não para vangloriar o saudosismo, mas para valorizar emoções humanas fora das linhas da computação gráfica.


Sidonie no Japão

Logo no início, a dificuldade de comunicação da protagonista nos faz voltar a Encontros e Desencontros. Trata-se de um deslocamento, no sentido amplo da palavra. Deslocar-se de um lugar para outro, do ponto de vista físico. Mas também percebemos em Isabelle Huppert o sentir-se deslocada, totalmente descontextualizada de sua cultura, suas raízes, suas origens.

Esse estranhamento, contudo, ao invés de ganhar força no filme, vai se diluindo e assumindo formas mais caricatas. O jeito de cumprimentar as pessoas, o ato de carregar as malas, as atribuições masculinas ou femininas num país estranho.

Quando o personagem complementar ganha vida, essa estranheza vai se afugentando de nossos olhos. O editor de livros, interpretado por Tsuyoshi Ihara, no início quase não fala. Aparece de óculos escuros e, quando os tira, mostra um rosto quase disforme e invisível.

É nessa relação que Sidonie no Japão adquire outros contornos, em que os silêncios falam mais alto que as palavras. Talvez traga um pouco do aspecto contemplativo do recente Dias Perfeitos. Uma história que conta muito, sem falar quase nada.

Embora muito viva essa crescente relação de descobertas, um terceiro elemento entra em cena e, ao que tudo parece, deixa o filme ainda mais nebuloso. O "fantasma" do ex-marido de Sidonie nos remete, em pequena escala, a Asas do Desejo. Sai do concreto e flerta com o metafísico.

Um filme com altos e baixos. Cenas memoráveis, em longos planos fechados. E uma certa aura noir de filme de festival totalmente dispensável.


quinta-feira, 5 de setembro de 2024

A Vingança de Cinderela

Logo que a Disney perdeu os direitos autorais de suas histórias infantis clássicas, que caíram em domínio público, uma série de produções independentes aproveitaram essa carta de alforria para despejar nas telas suas versões nem tão convencionais. A maioria delas descambou para o terror. Só no Brasil pudemos constatar Ursinho Pooh, Alice no País das Maravilhas e Cinderela. E outras estão prometidas para serem lançadas em breve.

Grande parte delas carrega elementos em comum. O terror trash, o gore, o desembelezamento dos heróis, a sanguinolência desenfreada. Algo meio tragicômico, sem grandes preocupações estéticas. Uma assumida estampa de filme B.

Mas isso não quer dizer que tudo seja farinha do mesmo saco. Ou carne crua da mesma panela. Existem diferenças, ainda que mínimas. A Maldição de Cinderela, lançado meses atrás pela mesma distribuidora, mostra o príncipe encantado como o verdadeiro vilão da história. A cena de revanche, na festa, traz algo de Carrie, A Estranha. E a fada madrinha pouco aparece. Ou não aparece. Não lembro. Esse tipo de filme dificilmente fica retido na memória.

Já A Vingança de Cinderela prepara o espectador para uma catarse final, como se espera. Mas o começo mostra o pai sendo assassinado por matadores de aluguel contratados pela madrasta. Logo no início, entra uma música bem rock and roll, raivosa, ruidosa, com vocal feminino, na linha de Avril Lavigne ou Demi Lovato. Pelo que pesquisei, composta por uma tal de Jax.

As irmãs são igualmente maléficas, sádicas e perversas. Mas o que muda é que, nesta roupagem da gata borralheira, é a fada madrinha quem ganha protagonismo. Mais do que isso eu não posso revelar.


terça-feira, 23 de abril de 2024

JOSÉ APARECIDO DE OLIVEIRA – O MAIOR MINEIRO DO MUNDO

As cenas iniciais trazem rápidos depoimentos de pessoas, de vários espectros, elogiando José Aparecido. Não sabemos exatamente qual trilha o documentário vai seguir, mas esse introito já nos coloca numa situação de espectador imbuído pela nobreza de caráter e iniciativas de boas causas do documentado.

Como valorização do objeto fílmico, o material cumpre seu papel. José Aparecido é colocado num pedestal, coroado de louros por tudo aquilo que fez ou intencionou fazer em vida. 

Como demonstração de flexibilidade, o filme também cumpre seu papel. Amigos e familiares, políticos, diplomatas, historiadores são entrevistados. Artistas também dão seu elogioso parecer: Fernanda Montenegro e seu conterrâneo Ziraldo, por exemplo. Isso mostra a versatilidade do político, que procurava manter um diálogo com diversos setores da sociedade. Ia pra esquerda e ia pra direita, conforme registrado em fala.

Do ponto de vista histórico e didático, entretanto, o filme apresenta muitas falhas. Já que não se pretende fugir das fórmulas que engessam esse formato, nem mesmo se permitir incursões mais autorais e experimentais (muito pelo contrário), a obra carece de mais esclarecimentos, já que José Aparecido, embora muito importante no campo político, não teve aquela notoriedade semelhante ao Tancredo Neves, só pra contextualizar. Saímos do filme sem aquelas certezas ou aprendizados básicos, típicos de exercícios documentais do gênero. Em sinopse, consta que José Aparecido de Oliveira foi jornalista, Deputado Federal, Secretário de Estado, Ministro de Estado, Governador e Embaixador. Mas em que período histórico? Eleito ou nomeado? Em que contexto político? Fez quais alianças? 

Como resultado, temos uma colcha de retalhos com muito cetim e pouca costura. Trata-se mais de um apanhado de louvações, algo relativamente fácil de se filmar, do que um exercício de se tentar fazer uma relação entre o discurso dos amigos e colegas e a trajetória do documentado. Parece grosseiro, mas torna-se inevitável concluir: é muito puxa-saquismo para pouco cinema.


quarta-feira, 17 de abril de 2024

Névoa Prateada

Franky é uma enfermeira de 23 anos que vive com a família em um bairro no leste de Londres. Obcecada por vingança e com a necessidade de encontrar culpados por um acidente traumático ocorrido há 15 anos, que a deixou com queimaduras pelo corpo, ela é incapaz de se envolver em um relacionamento com alguma profundidade, até que se apaixona por Florence, uma de suas pacientes. As duas fogem para o litoral onde Florence mora com a família. 

Com roteiro e direção de Sacha Polak, Névoa Prateada é mais um filme que se debruça na lógica baixo-astral que permeia parte do cinema contemporâneo europeu. As relações humanas são constantemente tensas, os diálogos carecem de fluidez, algumas cenas trazem um certo desconforto ao espectador. Tudo parece ruidoso o tempo todo, sem aquele respiro que alivia quem assiste ao filme.

Embora carregado nas questões psicológicas, o filme traz um resultado meio cinza. É como se quisesse se aprofundar nas amarguras individuais e nos dilemas sociais, mas não chafurda o suficiente a tal ponto de causar um verdadeiro mal-estar. O extrato disso é um filme morno, mediano.