segunda-feira, 16 de março de 2026

A Mensageira

A estética em preto-e-branco de alto contraste, o ambiente rural e os personagens simplórios já no início do filme nos colocam diante de um tipo de cinema muito específico. Talvez dentro de uma seara de filme pra ganhar festival, ou produções de baixo orçamento longe das amarras dos grandes estúdios. De qualquer forma, é desde o começo deste precioso trabalho argentino que o espectador é impactado por uma semiologia cinematográfica que nada tem a ver com as fábulas urbanas de um Daniel Burman, por exemplo.

A primeira cena mostra um suposto camponês negociando uma tartaruga, na beira da estrada, à noite. Não se sabe ao certo se é a venda de uma mercadoria que mais tarde se transformaria no jantar. Ou o comércio ilegal de animais silvestres. É um pouco adiante que somos contextualizados pela trama propriamente dita. Anika é uma garota que, gerenciada pelos seus avós, vende seus dons paranormais de se comunicar com animais, vivos ou mortos.

Esse poder mediúnico da pré-adolescente é que serve de sustento para a família. Ganham fama pela cidade, fazendo com que sejam entrevistados por um repórter de TV. 

Longe de ser um filme de terror, exorcismo, com olhos revirados e momentos de transe. A Mensageira concentra suas forças nas relações humanas que caracterizam aquele pequeno povoado. Os diálogos enxutos traduzem talvez a carência da população por uma forma mais ampla de se comunicar.

O filme também não busca um contexto exotérico, que o aproxime do realismo fantástico. É quase um filme realista, apesar da excessiva carga de tinta negra e alva colocada nas telas.

Baseado na simplicidade, o filme também não coloca em questão o charlatanismo. Não se posiciona diante de um julgamento, procurando verdades sobre as intenções dos personagens. Se existe uma vontade de se lucrar com a miséria, não é o diretor Iván Fund que faz esse tipo de condenação. As crenças estão nos coadjuvantes. As descrenças, possivelmente, na plateia. Só isso.


Enzo

Abrindo a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes do ano passado, Enzo é um filme que mais paira em dúvidas do que estabelece certezas. O título refere-se ao nome do protagonista, um garoto de 16 anos em busca de respostas para sua vida. Enquanto mergulha numa espécie de crise existencial, traduzida em cena por uma aparente apatia, inicia um trabalho como trainee de assistente de pedreiro.

Não se trata exatamente de descobertas. A vida de Enzo é nitidamente tumultuada. Cada nova situação o coloca em possíveis situações de pânico, que superam o deleite do carpe diem. O convívio mais próximo com Vlad, um ucraniano que também trabalha na mesma empreiteira de obras, é mais contraditório do que pacífico.

Essa inércia do personagem, resultante de seus dilemas, faz o filme parecer imoto. Fica a sensação de que pouca coisa acontece. Não é verdade. Existe uma carga de tensão, seja ela nas relações familiares, na quase-namorada, no trabalho. Enzo apenas personifica os dilemas típicos da idade, sem que o filme pareça uma cartilha da adolescência. Nesse sentido, o diretor Robin Campillo consegue diferenciar muito bem o personagem abúlico da obra em que ele está inserido. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

De Volta à Bahia

Não havia em mim nenhuma esperança de ver um grande filme. O tema não me agrada muito, nunca ouvi falar da equipe técnica, não houve um estrondoso trabalho de divulgação.

E olha que o resultado foi... exatamente aquilo que estava imaginando. Da orla da praia ao fundo do mar, a obra não me fisgou. A vantagem é que, quando as expectativas são baixas, a decepção proporcionalmente diminui.

De Volta à Bahia fala sobre uma ex-surfista profissional, Maya (Bárbara França), que decide retornar ao esporte e, em seu primeiro mergulho, quase se afoga e é salva por Pedro (Lucca Picon). O vídeo do resgate viraliza na internet e, após o fato, uma série de acontecimentos aproxima os dois.

O resto é só ladainha. Uma sucessão de lugares-comuns e um tratamento exageradamente belo do litoral de Salvador, fazendo mais parecer um vídeo de agência de viagens do que um filme propriamente dito.

Com desempenhos de atuação fracos, um roteiro desinteressante e uma forçação de barra para tornar os protagonistas um casal apaixonado, De Volta se resume a um filme morno, enfadonho. Faltou pimenta nesse acarajé.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Orwell 2+2=5

Na primeira cena, extraída de um filme que o espectador ainda não sabe qual é, pai e filho estão dentro de uma suposta carruagem. O pai pergunta ao filho quantos anos ele tem. "Quatro", responde o garoto. O pai argumenta que, se o Governo declarar que o menino tem cinco anos de idade, assim será. Essa é a premissa de Orwell 2+2=5, novo documentário do aclamado diretor Rauol Peck (Eu Não Sou Seu Negro). Não importa qual seja a verdade. Se o poder impõe uma mentira, é ela que deve ser aceita pela sociedade. Assim se constrói a manipulação da realidade.

Embora rotular o gênero como documentário possa criar estigmas e eventualmente afastar alguns espectadores, o filme vai um pouco além das convenções formais. Não se trata apenas de mostrar convidados sentados em suas cadeiras dando depoimentos - o famoso talking heads. Peck faz um mergulho imersivo na técnica e experimenta outras possibilidades, o que resulta em um multicolorido de sua colcha de retalhos. Além de trechos de outros filmes como base de referência e de sustentação de sua tese, especialmente obras do Ken Loach, um crítico contumaz do capitalismo, o diretor apresenta também imagens de arquivos jornalísticos. São cenas da vida real que se fundem com a vida ficcional. Magnatas do governo, executivos da mídia, CEOs das redes sociais, todos eles lado a lado com personagens de filmes e de livros. Afinal, o que é a verdade?

 Como o título sugere, essa colagem de citações tem como fio condutor o escritor George Orwell, "interpretado" pela narração em off de Damian Lewis. Orwell (ou Lewis) logo de cara abre espaço para um mea culpa, relatando que teve uma juventude fútil. Só depois de adulto criou consciência crítica para questionar os tempos modernos. Ou melhor, tempos futuros, já que sua principal obra, 1984, se passa alguns anos após a publicação do livro. 

Visto que o diretor faz um exercício de ir e vir em suas peças do quebra-cabeça, 1984 não aparece somente com seus principais trechos da escrita. Fragmentos fílmicos das duas principais adaptações para o cinema também estão presente nessa moldura. A presença do ator John Hurt na versão do diretor Michael Radford, lançada exatamente em 1984, traz muito mais verdade do que os depoimentos gaguejantes de Mark Zuckerberg nos tribunais de Justiça norte-americanos, ao tentar explicar sobre a falta de uso de ferramentas digitais de verificação de autenticidade da informação. 

Como era de se esperar, a potência do filme não está apenas no discurso, com suas clarezas e contradições, ou na sequência lógica narrativa. Um dos traços autorais de Peck é se sobressair na montagem. Afinal, cinema é corte. E corte é ritmo, é escolha. Orwell 2+2=5 é, portanto, um brilhante ensaio filosófico de edição. E Peck utiliza essa ferramenta não como truque para impressionar jurados de festival. Essa fragmentação, que, ao invés de criar pulos gera cadência, funciona como o principal apelo audiovisual do diretor para devolver ao público não um amontoado cumulativo de informações, mas um recado simples e direto para estimular a reflexão: se a sociedade não se mobilizar, vai ficar cada vez mais difícil conviver com essa futurologia concretizada.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A Única Saída

Um dos grande méritos de Park Chan-wook (A Criada, trilogia da vingança, entre eles Oldboy) é percorrer por vários gêneros e não estabelecer uma fronteira muito rígida entre eles. E um dos principais defeitos também.

Adaptado do livro O Corte, de Donald E. Westlake, A Única Saída, candidato a Melhor Filme Internacional no Globo de Ouro e preterido no Oscar 2026 na mesma categoria, cria a sensação de vários filmes em um só. Começa com uma crítica social. Depois de trabalhar por 25 anos numa empresa de papel, Man-su é sumariamente demitido, sem grandes explicações. Entra aí o etarismo e o desemprego, um desvio de rota e contraponto de uma Coreia do Sul tão avançada. Para contornar a situação, o protagonista se humilha ao entregar o currículo na própria empresa onde trabalhou, a Moon Paper. Ao ficar sabendo de uma vaga que pode salvar sua recolocação, decide tomar atitudes pouco ortodoxas.

Chan-wook tenta fazer uma saborosa miscelânea entre humor ácido, com pitadas de violência, esbarrando em desvios cômicos mais escrachados. Parece pouco se importar com o nonsense como efeito dessa combinação. Procura diminuir a tensão da distância entre o erudito e o popular, já que é um diretor consagrado tanto pela plateia de seu país quanto pelos júris de festivais.

Com sua estética criativa, que pode trazer resultados entre o primoroso e o patético, Chan-wook mais parece ter domínio de sua arte do que das consequências geradas por ela. Não se trata de desleixo, já que ele é um artífice da técnica. Mas esse deslocamento de eixos gera um produto confuso, caótico. Do ponto de vista cartesiano, essa quebra de paradigmas é muito bem-vinda. Resta saber o quanto dessa proposital ruptura fica retida na memória.


Prazo de validade

Vocês lembram quando postei, poucos dias atrás, que fui sumariamente bloqueado do zap por uma "amiga", sem entender direito o motivo? Pois é, minha gente. Ontem ela me respondeu pela rede social que acessa quase nunca (no caso, esta aqui). Disse que eu não fiz nada a ela, porém, em sua opinião, acha que nove anos tentando bater papo já tá bom demais. Palavras dela.

Pra começo de conversa, essa frase da maneira como foi construída resulta em pura inverdade. Dá-se a entender que, durante quase uma década, eu fiquei insistindo em manter contato. Não foi bem assim. A gente se conheceu de fato há um bom tempo, e fomos mantendo contato regular nos meses seguintes. Com o passar dos anos, a rotina e tal, essa conexão foi diminuindo. Mas as conversas sempre foram muito boas, muito fluidas. Tudo soava naturalmente. As respostas eram quase imediatas. Aí veio a pandemia, etc. etc. No início do ano passado, após longa data de silêncio, me lembrei dela e mandei um lacônico "como vc está?". Curto e sincero. Apenas para manter o laço. Igual eu faço com vários amigos que, no decorrer, a gente vai esquecendo, priorizando outras coisas, enfim...

Vácuo.

Achei estranho. Ela costuma ser comunicativa. BEM comunicativa. "Ah, vai ver foi esquecimento", pensei. E, na virada do ano, mandei um "feliz 2026". Só isso. Sem gifs animados, sem figurinha batida, sem encher o saco.

Vácuo.

Aí a coisa meio que me pegou. Podem até não gostar de mim. Mas me ignorar é assunto que levei pra terapia durante anos. Uma semana depois, mandei um "tá tudo bem com vc?", já querendo saber se havia uma pedra no caminho desse processo. Foi quando chegou o block.

Note bem: desde 2021, foram apenas essas três únicas tentativas de contato.

Lá no comecinho do século, fiz dupla com um diretor de arte numa agência de healthcare (contas do segmento médico e farmacêutico). Um amigão, de verdade. Logo de cara percebemos tamanha afinidade, como se nos conhecêssemos desde outras encarnações. Uma amizade que extrapolou a Propaganda e perdurou por outras áreas e décadas. Fui ver a banda dele tocar. Em troca, ele foi me ver num show de stand up. Vira e mexe a gente marcava uma cerveja. Eu não tomo essa levedura, mas era bem agradável aquele papo de homem. Conversa de bar. Falar de mulher, falar da humanidade, falar da vida. Só que essa amizade, em princípio irretocável, também foi se esvaindo. E culminou mais ou manos como no caso supracitado. Vácuo atrás de vácuo. Certa vez, perguntei a ele a real. Ele alegou problemas no celular, o que fazia com que algumas mensagens sumissem. Só que esse modus operandi foi se perpetuando. Eu insisti (um pouquinho), achando que era coisa da minha cabeça. Entretanto, a impressão que fica é que, quanto mais eu tento me reaproximar, mais a pessoa se afasta.

Teve mais dois outros casos parecidos. Um deles trabalhou remotamente comigo, durante a pandemia. Tinha por mim uma mistura de respeito e admiração. Me chamava de mestre. Toda hora a gente abria um bate-papo paralelo pra falar mal da agência. Me indicou para um freela. Recebeu uma proposta dessa agência do freela e foi pra lá. Disse pros colegas que, assim que se desligasse do lugar onde trabalhávamos, deletaria todos os contatos. Achamos que era brincadeira. Não era.

O outro foi quem me indicou essa vaga. Trabalhamos juntos lá em Alphaville. Pegávamos o mesmo ônibus. E era sobre esse coletivo de luxo que conversávamos. No ano passado, mandei um áudio desejando-lhe feliz aniversário.

Vácuo.

Tem gente que acha que amizade tem prazo de validade. Que, depois de uma certa quantia matemática, ela deixa de funcionar. Igual a impressora. Essas pessoas acham que o desligamento automático é a coisa mais natural do mundo.

Eu discordo.

Claro que desavenças políticas, brigas ideológicas ou a falta de afinidades pode afastar as pessoas. Mas isso é um motivo percebido. Ou então, quando você reencontra uma pessoa que não vê há séculos e, naquele contato frio e constrangedor, falta assunto. Compreensível. A gente vai mudando nossos gostos e estilos. 

Porém, sinceramente, acho esquisitíssimo quando essa ruptura se deve a um fator desconhecido. Simplesmente do nada. Com as redes sociais, é fato que as relações humanas mudaram bastante. Daí o bebê reborn fazer sucesso. Ou a autodeclaração "mãe de pet". O convívio ficou cada vez mais difícil. Mas não é por isso que vou deixar de externar minha indignação com um W cinza do zap. Não custa nada ser pelo menos educado. Mandar um "oi" não é pentelhação. E eu fico muito contente quando percebo alguém se preocupando comigo. Ou, ainda que seja algo protocolar, respondo de maneira direta e simples. Mas respondo. Procurando não perder a elegância. A resposta da minha "amiga" lá de cima foi uma patada. E tenho certeza absoluta de que não mereço isso.

Naquela postagem, alguns amigos meus vieram com "conselhos" do tipo esquece, desencana, deleta, bola pra frente, vida que segue. É uma opção.

Mas não creio que a melhor saída seja descartar o passado. É ele que constrói nosso presente. É a base de tudo. Em algumas redes sociais, copiei e colei a frase "O passado não só não morreu, como também não passou". Uns acham isso depressivo, melancólico, saudosista, fincado no regresso. Nada disso. Foi apenas uma frase que o ator Lima Duarte disse num programa de rádio que minha mãe estava ouvindo. Procurei no Google o autor da frase e não achei. Mas o conteúdo diz tudo.

Não há mal nenhum em venerar o pretérito. Isso não é sinônimo de impedimento, emperramento, estagnação. Estou fazendo curso de teatro com um professor que fazia aulas de judô comigo, há quase meio século. Recebi uma indicação de vaga de emprego de uma ex-namorada de duas décadas atrás. No ano retrasado, criei um podcast junto com amigos do ginásio. Tanto é que uma das ideias iniciais do programa era fazer um levantamento sobre o Bom Retiro. Agora em 2026, é possível que haja uma comemoração em prol dos 40 anos desde que ingressei na ESPM. Vários (vários mesmo!) amigos que interagem comigo fazem parte de um período remoto da minha vida.

Então, por que dizimar esse vinculo? Sem mais nem menos?

Respeito muito quem adota o lema "meu tempo é hoje". Mas acho esquisitíssimo, pra dizer o mínimo, quem simplesmente apaga os gigas de memória armazenada do ontem.




quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Aclamado com o Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz de Drama para Jessie Buckley, Hamnet é uma das grandes apostas da Universal Pictures para o início de ano. Carrega boa parte dos ingredientes que saciam o público em busca de oscarizáveis: trama shakesperiana, elenco afinado, profundidade dramática.

Baseado no livro de Maggie O'Farrell, escrito e dirigido por Chloé Zhao, o longa acompanha Agnes (Buckley), esposa de William Shakespeare (Paul Mescal), enquanto enfrenta a dor da perda de seu filho, Hamnet. É justamente esse luto que revela o pano de fundo para a criação de “Hamlet”, a obra mais famosa do dramaturgo inglês.

O filme faz uma boa transição entre cinema e teatro. Nas cenas de tablado, percebe-se um rigor artístico digno de premiação. Os ensaios valorizam o processo de criação. Já as cenas mais "cinematográficas" valorizam não só o ambiente campestre, mas também a dor, o sofrimento. Tudo é muito carregado, dentro de uma lógica formal acadêmica. Nada parece ter sido construído por acaso.

Apesar da densidade, o filme parece ter prazo curto de validade. Ao contrário dos principais concorrentes de ocasião, como Pecadores e Uma Batalha Após a Outra, Hamnet não nos oferece algum elemento que permita retê-lo na memória. Não por falta de competência, mas talvez por falta de ousadia. É como se estivéssemos à deriva de um buffet self service. Ele nos traz a sensação de fartura, de êxtase. Porém, tudo momentâneo. Passados os instantes de impacto, tudo se evapora.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Milonga

As principais características do argentino-uruguaio Milonga são a secura e o mistério. Um deriva do outro. Quanto mais emblemático e menos explicativo, mais a curiosidade atiça o espectador. Afinal, o que levou os personagens àquele ponto? De onde vem essa angústia que ocupa quase a tela inteira? Por que a necessidade incessante de recomeçar tudo?

Rosa é uma viúva que perdeu o marido faz seis meses. Coloca à venda, por meio de anúncio, uma caminhonete do casal. Ela parece pouco se importar com o automóvel. Quer mais é se livrar dele. E isso representa, fazendo-se uma analogia, a sua vontade de se livrar de todo esse passado sombrio. Mas ainda não sabemos qual é.

Um dos interessados é Juan, que faz uma oferta pelo veículo. Como parte do pagamento e da negociação, Juan faz pequenos serviços na casa de Rosa, como por exemplo pintar um muro. Nasce então uma relação, no mínimo, muito estranha. 

O ponto-chave para a aproximação dos dois, entretanto, não é a casa, mas algo fora dela. Juan sugere a Rosa que comece a frequentar uma casa de tango chamada Milonga. Uma espécie de baile da saudade, onde pés-de-valsa batem ponto.

Em tempos de Tinder, o espectador é levado a acreditar que existe ali uma ruptura com os hábitos modernos e a possibilidade do início de um relacionamento à moda antiga. Mas Milonga não é tão cartesiano assim. Seria previsível demais. E o que o filme menos coloca é a obviedade. Sempre há um tropeço que faz a dança entrar em descompasso. Um cano que quebra, um cachorro que late, um passado que atormenta.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Sorry, Baby

Existem várias pessoas, amigos e conhecidos meus, que deixam de apreciar os filmes devido à sensação de que nada acontece. Pois acho isso um dos grandes méritos da obra. Principalmente aqui.

Escrito, dirigido e protagonizado por Eva Victor, indicada ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz, Sorry, Baby mostra um supostamente pacato cotidiano da professora universitária Agnes e seu entorno, como a amizade com  Lydie, uma homossexual prestes a dar à luz.

Somente após alguns bons minutos de cenas iniciais é que se instaura o conflito da trama, que faz Agnes repensar os rumos de sua vida. A sinopse oficial dá conta de se tratar de um evento trágico, a fim de não dar spoiler.

Sem cair em exageros dramáticos, ou levantar bandeiras ideológicas feministas, Sorry, Baby consegue segurar até o fim sua dramaturgia potente, sem ser escabrosa. É o tipo de filme que "nem parece que é filme", dada a naturalidade como as coisas se desenrolam.


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Corações Jovens

Existe uma escala de vários graus para se abordar temas considerados polêmicos. Corações Jovens, filme holandês sobre a descoberta da homossexualidade na adolescência, não passa de um nível mínimo. Existe um cuidado - até excessivo - para que o assunto se apresente de modo bem leve, quase pueril.

Elias é um menino tímido, recatado. Sua vida muda com a chegada de Alexander, um adolescente vizinho e colega de escola. Mais despojado e assumidamente gay, Alexander faz o tipo galã juvenil, com um expressivo semblante rebelde que vagamente lembra Johnny Depp em início de carreira. Isso é bom para o filme.

Daí vem a obviedade do conflito: Elias deve dar vazão a seus sentimentos homoafetivos recém-aflorados ou permanecer se declarando hétero para não sofrer preconceitos dos amigos e da família?

Concomitantemente com o Festival Mix Brasil em diversas capitais do país, com uma larga oferta de filmes que abordam a diversidade dentro da temática LGBTQIA+, a estreia de Corações Jovens neste momento pode ajudar na bilheteria. 

Mas o tom adocicado demais faz com que o longa se distancie da proposta majoritária do festival. É apenas um teenager movie que amansa questões mais delicadas.