quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Abraço de Mãe

Muito se tem comentado sobre o padrão de qualidade de filmes e séries produzidos ou lançados pelas principais plataformas de streaming no país. Enquanto um carro-chefe alavanca o interesse maior do público, juntamente são lançados diversos trabalhos pífios, sem qualquer relevância artística, deixando claro que Amazon, Netflix, HBO e quetais são nada mais do que fábricas de produtos em larga escala industrial.

Abraço de Mãe, dirigido pelo argentino Cristian Ponce, é mais um exemplo desse descaso com o cinema e desserviço à arte. Tem em seu elenco Marjorie Estiano no papel principal, além de outros nomes do segundo escalão. Divulgado como um filme de terror, as características do gênero começam a aparecer lá pela metade.

Nem vou entrar no mérito sobre reconstituição de época e verossimilhança. O cinema, como forma de expressão artística, permite aos realizadores uma certa liberdade poética. A história se passa no Rio de Janeiro, em 1973. Mas pouco se observam os pormenores atrelados a esse período histórico. Marjorie, no papel de Ana, trabalha no Corpo de Bombeiros e, num caso de incêndio, fica travada e não consegue salvar mãe e filha. Afasta-se por um tempo da corporação, para tratamento psiquiátrico e, quando volta, é convocada a retirar os moradores de uma casa caindo aos pedaços, com risco de desabamento, num dia de chuva torrencial. Nada, absolutamente nada, traz qualquer verdade que nos faça acreditar que aqueles personagens são de fato bombeiros. Num momento hilário, Ana pede para alguém da casa trazer uma corda (!) para salvar um dos bombeiros que caiu numa fossa. Mas isso é apenas um detalhe. O menor dos males.

Com vários furos de roteiro, sequências mal costuradas, Abraço de Mãe tenta induzir diversos elementos que estão ali presentes somente por estar. São meio que jogados à tela. Ponce parece não entender a diferença entre o clima tenso que se cria com as incógnitas narrativas e o calhamaço de artigos despejados sem qualquer sentido, numa falsa alusão ao "mistério". Os personagens, completamente fora do tom, parece que foram convidados a um baile. Num momento de tormenta, uma tal enfermeira (acho que é isso) anda e fala calmamente, como se estivesse ali recitando uma cantiga de ninar. 

Se a proposta era trazer dúvidas mal esclarecidas, o filme acertou em cheio. Nem mesmo o título se explica direito. Abraço de Mãe se vende como um dilúvio, mas nada mais é do que uma abordagem risível em tempo feio.


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

48ª Mostra

A 48ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, vulgo Mostra, já começa com um pedido oficial de desculpas, publicado no seu perfil das redes sociais, em decorrência da enorme procura por ingressos pelo novo filme do Walter Salles. Teve de se justificar que as parcas duas exibições foram determinadas pela distribuidora, em contrato, o que dificilmente vai a contento das centenas de ansiosos, desesperados cinéfilos ou baladeiros que, com suas manias obsessivo-compulsivas, não aguentam esperar por mais um mês até o momento de sua estreia.

Fez menção também à plataforma de compra de ingressos por aplicativo, Velox, que, como é de se esperar, está muito longe daquela tecnologia perfeita vislumbrada por Fritz Lang ou George Lucas. A Velox é uma espécie de prima da Enel nos quesitos problemas técnicos, falhas na finalização e péssima experiência de usuário. Falando nisso, vale lembrar que essa procura antecipada se deu nos dias em que a cidade ficou sem luz, sem água, sem internet, com shoppings lotados de pessoas espetando carregadores de celular em espaços instagramáveis justamente pra conseguir um fio de carguinha e concluir a compra virtual de uma entrada para o novo filme do Cronenberg.
Além disso, a organização implorou para que os seguidores evitassem usar de xingamentos (!) para expor sua indignação.
É a Mostra sendo a Mostra. Desta vez, o medo da ameaça constante e iminente da perda de patrocínio passou longe (graças ao bom Deus). Estão programados nada menos do que 417 filmes, distribuídos em tudo quanto é canto, desde os cineclubes Bijou e Cortina, circuito baratex Spcine, até o consagrado roteiro da região da Paulista, como Reserva Cultural, Cinesesc e 5 salas do Cinesystem Frei Caneca. Mais uma vez, os icônicos Cine Marquise e Reag Belas Artes ficaram de fora da brincadeira.
Pode parecer acesso a uma ampla possibilidade de escolha. A meu ver, essa nababesca oferta, fruto de uma megalomania inconsciente de quem faz isso tudo acontecer, deixa o espectador mais perdido do que saciado. Afinal, qual vai ser seu foco?
Tentar encaixar quase meio milhar de obras fílmicas em cerca de 20 dias é um trabalho muito mais árduo do que prazeroso. Vale a pena debruças nas retrospectivas, sempre o ponto forte do evento, este ano homenageando o indiano Satyajit Ray. Tem também uma leva de filmes que abordam as questões do Oriente Médio. Várias e várias avant-première de filmes brasileiros. Vencedores de palmas de ouro, ursos, leões e tudo quanto é bicho de festival (analogia usada pela Renata de Almeida na coletiva de imprensa). Mas será mesmo que é sadio disputar a tapa um lugar pra ver esses queridinhos de Cannes, Berlim e Veneza, só pra depois usar uma camiseta escrita "eu fui"? Não seria mais sensato aguardar sua estreia em relativa larga escala?
Entre esses filmes que servem pra influencer engajar seguidor, de Brutalista a Maria Callas, e filme que ninguém ouviu falar, existe uma grande vácuo. E talvez aí resida o campo de maior interesse. Claro, arte é risco. Você pode encontrar uma preciosidade escondida ou uma verdadeira bomba em campo minado. Porém, com internet que funciona, ano após ano a Mostra vem perdendo seu aspecto "garimpo". Quase tudo já foi explorado, dito, criticado, baixado antes mesmo dos arquivos digitais (antigamente, rolos de filme) chegarem ao cloud (antigamente, alfândega).
Os problemas da Mostra se apresentaram, neste ano, antes mesmo de ela se iniciar. Na cabine de imprensa do experimental Why War, de Amos Gitai, o filme estava legendado em italiano (diferentemente da prometida legenda em inglês). Se isso é um prenúncio do que está por vir, ou se "faz parte" de todo o contexto que a caracteriza, não sei. Relaxa e goza, é o que tem pra hoje.
A Mostra é uma ótima oportunidade de rever os amigos. Bater longos papos, quando e se possível. Na maioria dos casos, a saudação não passa de um "oi-oi". Afinal, é o encontro de duas frenéticas locomotivas, entrando e saindo de uma sala pra outra, na tentativa de se assistir ao máximo possível de produtos da Sétima. Mesmo assim, achar esses colegas que você vê uma vez por ano pode ser algo muito saudável - ou uma verdadeira decepção. Divergências políticas e ideológicas, mudanças de hábitos e costumes andaram separando um pouco o clã da velha guarda. A Mostra tanto agrega quanto separa. Não deixa de ser, em última instância, um protagonista do divórcio de amigos. Ainda mais em período eleitoral. E outra: é dolorosamente triste rever cinéfilos que vão envelhecendo, caducando, peregrinando de uma sala pra outra cada vez mais lentos e curvados. A Mostra é também o nosso espelho, que nos "mostra" a nossa própria finitude.
Nesses conluios formados em salas de espera e filas de bilheteria, existem grandes chances de eu me reencontrar por meio do outro. Já estou até prevendo ouvir o famigerado clichê "oi, sumido". Como se, durante 365 dias, eu ficasse hibernando numa câmara de criogenia. Talvez eles tenham razão. Sem perceber, acho mesmo que desapareci daquilo tudo que poderia me transformar numa pessoa melhor. E a Mostra é a grande chance de virar essa chavinha. Ou não. Pegar fila, encarar sessão com 1 hora de atraso, baixar app defeituoso, tentar dormir em poltrona de sala que passa documentário sobre a vida das abelhas da Indonésia... eu, hein?

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Tempestade Ácida

Nem sempre filme-catástrofe é indício de um trabalho de qualidade. Os possíveis exageros, as situações demasiadamente irreais e inverossímeis, as sequências em hipérbole podem afastar um determinado tipo de público.

Tempestade Ácida, dirigido por Just Philippot, evita cair nessa armadilha. Como a maioria dos filmes do gênero, debruça-se no fato da ameaça iminente, o perigo sempre em vias de acontecer. Isso é o que traz o chamado "suspense". Mas, aqui, Philippot vai além. Nas palavras do diretor, "a água é essencial para nossa sobrevivência, e queria explorar essa dualidade – um elemento vital que, de repente, se transforma em uma ameaça".

Tudo começa quando os noticiários alertam para uma chuva ácida no hemisfério sul, ocasionada pelos desequilíbrios ecológicos, avança para o hemisfério norte, especificamente a França. Entre o desastre propriamente dito e as situações no seu devir, o diretor encontra espaço para reflexões sobre as questões climáticas da atualidade, como o aquecimento global.

Mas não se trata de um trabalho panfletário e ideológico. Esse ponto de partida serve de elemento para trazer convulsões sociais e as tensões dramáticas do núcleo da história. Menos histérico e mais conciso do que alguns congêneres, Tempestade Ácida funciona mais do que entretenimento, levando o espectador ao questionamento sobre o mundo em que vivemos.



terça-feira, 1 de outubro de 2024

Golpe de Sorte em Paris

Vamos começar relativizando a tradução do título. Na verdade, não se trata da sorte grande. Não existe a premissa iminente de um "ganhar na loteria" na trama. Aqui o diretor mergulha no acaso, nas coincidências, na probabilidade de algo acontecer.

Isso já diz muito sobre os traços autorais de Woody Allen. Mais do que se debruçar em análises vagas, como o fato de imprimir sua admiração pela Europa, ou o sotaque francês que predomina as caixas acústicas da sala de cinema. Tentar buscar uma lógica para o acaso, enquanto ele simplesmente acontece, é muito mais forte na carreira do octagenário diretor. Em Hannah e Suas Irmãs, Allen usa as religiões para tentar desmistificar e entender o exotérico.

Em Golpe de Sorte em Paris, o encontro fortuito entra a bem-casada Fanny e o ex-colega de faculdade Alain ocorre já nos primeiros minutos, numa calçada da capital francesa. Falam sobre Nova York, onde estudaram, e aí podemos interpretar que existe uma correlação entre autor e obra. É notório o quanto o nova-iorquino diretor vem se desprendendo da cidade mais cosmopolita do mundo devido a inúmeros fatores de sua vida pessoal.

Numa primeira leitura, Golpe de Sorte em Paris parece ser mais do mesmo. Um trabalho requentado de um diretor que vem mostrando sinais de esgotamento criativo. Um filme menor. Claro, existem diversas situações que nos trazem todo o seu repertório fílmico. Encontros fortuitos, diálogos existenciais, traições, casamentos falidos, e por aí vai.

Mas, diferentemente de um passado remoto, o diretor não procura trazer uma nova fórmula para explicar a vida. Se fosse assim, o coreano Hong San-Soo deveria ser considerado um criminoso. Não há nada de errado falar as mesmas coisas de jeitos diferentes. Ou até parecidos. 

Portanto, Golpe de Sorte talvez até posa soar como um trabalho menos inspirado. Menos cômico, inclusive. Mas tem lá seu charme. E ganha vida própria com o desfecho, que sai dessa rotulada mesmice e caminha na exagerada direção ao quase-absurdo. E tudo bem. Afinal, é o acaso.