sexta-feira, 24 de outubro de 2025

A Meia-Irmã Feia

Nesta produção da Noruega/Dinamarca/Romênia/Polônia/Suécia, temos uma versão de Cinderela sob o ponto de vista de Elvira, uma das irmãs "malvadas". A gata borralheira em questão assume um papel secundário, recaindo sobre ela não a obrigação dos trabalhos forçados, mas a beleza natural e as escapadas sexuais às escondidas.

Tudo aqui gira em torno da, como o título sugere, meia-irmã complexada que se encanta pelo príncipe. Ela quer se aproximar dele por causa de uma paixão súbita. Já a madrasta vê ali a oportunidade de um casamento entre ambos para adquirir um título de nobreza e salvar a família da miséria por causa de dívidas contraídas após a morte do esposo.

Elvira sofre bullying desde sempre. Acha-se obesa e não se encaixa nos padrões de pulcritude da época. Cria uma obsessão para se transformar em uma formosa e recatada dama e, para isso, submete-se a procedimentos cirúrgicos agressivos e uma dieta pouco convencional.

O filme elabora bem o drama da tirania estética. Mas não é sobre isso. A Meia-Irmã Feia vai além, trazendo a rigidez corporal como ponto de partida para um lugar entre o terror e o bizarro.

Até mesmo nas primeiras cenas, quando o pai da família ainda era vivo, o espectador entra em contato com um universo supostamente feliz, mas com pitadas de humor ácido: tortas na cara durante um jantar. É a indicação do filme-pastelão, que não encontra um lugar certo e confortável dentro de um gênero específico.

À medida que os objetivos de Elvira avançam, o filme traz mais elementos, com uma boa dose de exagero, para mostrar uma sociedade sem caráter. A diretora Emilie Blichfeldt não nos poupa de imagens beirando o sexo explícito dentro de uma história que nasceu conto de fadas. As cenas que trabalham o corpo humano como uma espécie em laboratório flertam até com o mais escatológico de Yorgos Lanthimos. Trata-se de um filme que mistura o pesado, como por exemplo a agulha penetrando a pele do olho para o implante de cílios postiços, com o ligeiramente cômico. E sem final feliz.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Ruídos

A Coreia do Sul já nos trouxe trabalhos de diretores consagrados, como Hong Sang-soo, Park Chan-wook, Kim Ki-duk, o oscarizado Bong Joon-ho, entre outros. Mas, em relação ao gênero terror, ainda precisamos aguardar mais um pouquinho.

Com a atriz Kim Soo-jin fazendo sua estreia na direção, Ruídos é um thriller psicológico pouco diferente daquilo que já conhecemos. Ju-young, uma jovem com deficiência auditiva, decide investigar o desaparecimento de sua irmã, vista pela última vez em seu apartamento. À medida que se aprofunda na busca, começa a perceber sons estranhos ecoando pelo apartamento e a presença de uma pessoa sinistra.

A ideia até que parece interessante. Mesclar barulho com perda de audição, colocar em primeiro plano a estranheza que o som causa às pessoas. Mas o resultado é um tanto genérico, baseado em sustos fáceis. 


Praia do Silêncio

Depois de realizar dois filmes adaptados do teatro, em que a verborragia predomina, o diretor Francisco Garcia optou agora por fazer um trabalho em que a narrativa se constrói na relação entre silêncio e palavra. 

Com poucos elementos cênicos e econômico também no andamento das sequências, o filme se baseia na falta de diálogo entre um professor aposentado, isolado em seu trailer no meio da mata, que se comunica através de cartas com sua filha, surda, após a morte de sua mãe. Ela almeja o reencontro, ele prefere o distanciamento. Por meio da narração em off podemos perceber essa incomunicabilidade entre gerações.

Embora traga um panorama mais sensível e intimista de um microcosmo, simbolizando metaforicamente uma realidade maior, Praia do Silêncio é mais intenção do que resultado. A simplicidade - sem abrir mão da poesia - está em cada detalhe. Tudo foi pensado para ser sucinto. Mas o ritmo vagaroso e a suposta falta de emoção nas declamações textuais tornam o filme relativamente monocórdico. Existe uma tensão dramática, porém, muito mais fora do que dentro do filme.