Tudo aqui gira em torno da, como o título sugere, meia-irmã complexada que se encanta pelo príncipe. Ela quer se aproximar dele por causa de uma paixão súbita. Já a madrasta vê ali a oportunidade de um casamento entre ambos para adquirir um título de nobreza e salvar a família da miséria por causa de dívidas contraídas após a morte do esposo.
Elvira sofre bullying desde sempre. Acha-se obesa e não se encaixa nos padrões de pulcritude da época. Cria uma obsessão para se transformar em uma formosa e recatada dama e, para isso, submete-se a procedimentos cirúrgicos agressivos e uma dieta pouco convencional.
O filme elabora bem o drama da tirania estética. Mas não é sobre isso. A Meia-Irmã Feia vai além, trazendo a rigidez corporal como ponto de partida para um lugar entre o terror e o bizarro.
Até mesmo nas primeiras cenas, quando o pai da família ainda era vivo, o espectador entra em contato com um universo supostamente feliz, mas com pitadas de humor ácido: tortas na cara durante um jantar. É a indicação do filme-pastelão, que não encontra um lugar certo e confortável dentro de um gênero específico.
À medida que os objetivos de Elvira avançam, o filme traz mais elementos, com uma boa dose de exagero, para mostrar uma sociedade sem caráter. A diretora Emilie Blichfeldt não nos poupa de imagens beirando o sexo explícito dentro de uma história que nasceu conto de fadas. As cenas que trabalham o corpo humano como uma espécie em laboratório flertam até com o mais escatológico de Yorgos Lanthimos. Trata-se de um filme que mistura o pesado, como por exemplo a agulha penetrando a pele do olho para o implante de cílios postiços, com o ligeiramente cômico. E sem final feliz.

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