sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Milonga

As principais características do argentino-uruguaio Milonga são a secura e o mistério. Um deriva do outro. Quanto mais emblemático e menos explicativo, mais a curiosidade atiça o espectador. Afinal, o que levou os personagens àquele ponto? De onde vem essa angústia que ocupa quase a tela inteira? Por que a necessidade incessante de recomeçar tudo?

Rosa é uma viúva que perdeu o marido faz seis meses. Coloca à venda, por meio de anúncio, uma caminhonete do casal. Ela parece pouco se importar com o automóvel. Quer mais é se livrar dele. E isso representa, fazendo-se uma analogia, a sua vontade de se livrar de todo esse passado sombrio. Mas ainda não sabemos qual é.

Um dos interessados é Juan, que faz uma oferta pelo veículo. Como parte do pagamento e da negociação, Juan faz pequenos serviços na casa de Rosa, como por exemplo pintar um muro. Nasce então uma relação, no mínimo, muito estranha. 

O ponto-chave para a aproximação dos dois, entretanto, não é a casa, mas algo fora dela. Juan sugere a Rosa que comece a frequentar uma casa de tango chamada Milonga. Uma espécie de baile da saudade, onde pés-de-valsa batem ponto.

Em tempos de Tinder, o espectador é levado a acreditar que existe ali uma ruptura com os hábitos modernos e a possibilidade do início de um relacionamento à moda antiga. Mas Milonga não é tão cartesiano assim. Seria previsível demais. E o que o filme menos coloca é a obviedade. Sempre há um tropeço que faz a dança entrar em descompasso. Um cano que quebra, um cachorro que late, um passado que atormenta.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Sorry, Baby

Existem várias pessoas, amigos e conhecidos meus, que deixam de apreciar os filmes devido à sensação de que nada acontece. Pois acho isso um dos grandes méritos da obra. Principalmente aqui.

Escrito, dirigido e protagonizado por Eva Victor, indicada ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz, Sorry, Baby mostra um supostamente pacato cotidiano da professora universitária Agnes e seu entorno, como a amizade com  Lydie, uma homossexual prestes a dar à luz.

Somente após alguns bons minutos de cenas iniciais é que se instaura o conflito da trama, que faz Agnes repensar os rumos de sua vida. A sinopse oficial dá conta de se tratar de um evento trágico, a fim de não dar spoiler.

Sem cair em exageros dramáticos, ou levantar bandeiras ideológicas feministas, Sorry, Baby consegue segurar até o fim sua dramaturgia potente, sem ser escabrosa. É o tipo de filme que "nem parece que é filme", dada a naturalidade como as coisas se desenrolam.


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Corações Jovens

Existe uma escala de vários graus para se abordar temas considerados polêmicos. Corações Jovens, filme holandês sobre a descoberta da homossexualidade na adolescência, não passa de um nível mínimo. Existe um cuidado - até excessivo - para que o assunto se apresente de modo bem leve, quase pueril.

Elias é um menino tímido, recatado. Sua vida muda com a chegada de Alexander, um adolescente vizinho e colega de escola. Mais despojado e assumidamente gay, Alexander faz o tipo galã juvenil, com um expressivo semblante rebelde que vagamente lembra Johnny Depp em início de carreira. Isso é bom para o filme.

Daí vem a obviedade do conflito: Elias deve dar vazão a seus sentimentos homoafetivos recém-aflorados ou permanecer se declarando hétero para não sofrer preconceitos dos amigos e da família?

Concomitantemente com o Festival Mix Brasil em diversas capitais do país, com uma larga oferta de filmes que abordam a diversidade dentro da temática LGBTQIA+, a estreia de Corações Jovens neste momento pode ajudar na bilheteria. 

Mas o tom adocicado demais faz com que o longa se distancie da proposta majoritária do festival. É apenas um teenager movie que amansa questões mais delicadas.


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

A Meia-Irmã Feia

Nesta produção da Noruega/Dinamarca/Romênia/Polônia/Suécia, temos uma versão de Cinderela sob o ponto de vista de Elvira, uma das irmãs "malvadas". A gata borralheira em questão assume um papel secundário, recaindo sobre ela não a obrigação dos trabalhos forçados, mas a beleza natural e as escapadas sexuais às escondidas.

Tudo aqui gira em torno da, como o título sugere, meia-irmã complexada que se encanta pelo príncipe. Ela quer se aproximar dele por causa de uma paixão súbita. Já a madrasta vê ali a oportunidade de um casamento entre ambos para adquirir um título de nobreza e salvar a família da miséria por causa de dívidas contraídas após a morte do esposo.

Elvira sofre bullying desde sempre. Acha-se obesa e não se encaixa nos padrões de pulcritude da época. Cria uma obsessão para se transformar em uma formosa e recatada dama e, para isso, submete-se a procedimentos cirúrgicos agressivos e uma dieta pouco convencional.

O filme elabora bem o drama da tirania estética. Mas não é sobre isso. A Meia-Irmã Feia vai além, trazendo a rigidez corporal como ponto de partida para um lugar entre o terror e o bizarro.

Até mesmo nas primeiras cenas, quando o pai da família ainda era vivo, o espectador entra em contato com um universo supostamente feliz, mas com pitadas de humor ácido: tortas na cara durante um jantar. É a indicação do filme-pastelão, que não encontra um lugar certo e confortável dentro de um gênero específico.

À medida que os objetivos de Elvira avançam, o filme traz mais elementos, com uma boa dose de exagero, para mostrar uma sociedade sem caráter. A diretora Emilie Blichfeldt não nos poupa de imagens beirando o sexo explícito dentro de uma história que nasceu conto de fadas. As cenas que trabalham o corpo humano como uma espécie em laboratório flertam até com o mais escatológico de Yorgos Lanthimos. Trata-se de um filme que mistura o pesado, como por exemplo a agulha penetrando a pele do olho para o implante de cílios postiços, com o ligeiramente cômico. E sem final feliz.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Ruídos

A Coreia do Sul já nos trouxe trabalhos de diretores consagrados, como Hong Sang-soo, Park Chan-wook, Kim Ki-duk, o oscarizado Bong Joon-ho, entre outros. Mas, em relação ao gênero terror, ainda precisamos aguardar mais um pouquinho.

Com a atriz Kim Soo-jin fazendo sua estreia na direção, Ruídos é um thriller psicológico pouco diferente daquilo que já conhecemos. Ju-young, uma jovem com deficiência auditiva, decide investigar o desaparecimento de sua irmã, vista pela última vez em seu apartamento. À medida que se aprofunda na busca, começa a perceber sons estranhos ecoando pelo apartamento e a presença de uma pessoa sinistra.

A ideia até que parece interessante. Mesclar barulho com perda de audição, colocar em primeiro plano a estranheza que o som causa às pessoas. Mas o resultado é um tanto genérico, baseado em sustos fáceis. 


Praia do Silêncio

Depois de realizar dois filmes adaptados do teatro, em que a verborragia predomina, o diretor Francisco Garcia optou agora por fazer um trabalho em que a narrativa se constrói na relação entre silêncio e palavra. 

Com poucos elementos cênicos e econômico também no andamento das sequências, o filme se baseia na falta de diálogo entre um professor aposentado, isolado em seu trailer no meio da mata, que se comunica através de cartas com sua filha, surda, após a morte de sua mãe. Ela almeja o reencontro, ele prefere o distanciamento. Por meio da narração em off podemos perceber essa incomunicabilidade entre gerações.

Embora traga um panorama mais sensível e intimista de um microcosmo, simbolizando metaforicamente uma realidade maior, Praia do Silêncio é mais intenção do que resultado. A simplicidade - sem abrir mão da poesia - está em cada detalhe. Tudo foi pensado para ser sucinto. Mas o ritmo vagaroso e a suposta falta de emoção nas declamações textuais tornam o filme relativamente monocórdico. Existe uma tensão dramática, porém, muito mais fora do que dentro do filme.


quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Sr. Blake ao Seu Dispor

Existe um nicho no cinema que poderia receber diversos adjetivos. É aquele tipo de filme inofensivo, despretensioso, que comumente vem ganhando o apelido de "sessão da tarde", em alusão ao horário sem censura em que é exibido, dado seu teor leve e descompromissado de questões mais árduas e potentes.

Sr. Blake ao Seu Dispor encaixa-se perfeitamente nessa categoria. Traz uma bela paisagem de algum recanto turístico da França e a veia cômica afiada de John Malkovich como principais destaques. Ele interpreta Andrew Blake, um empresário inglês de sucesso que cai em depressão após a morte de sua mulher. Decide abrir mão de tudo e passar uma temporada no hotel-castelo onde conheceu sua esposa. Ali, entretanto, encontra uma realidade um pouco diferente: o palacete está abandonado, com poucos funcionários, e a proprietária Madame Beauvillier (Fanny Ardant) se vê atolada em dívidas. Ela pretende reinaugurar o hotel, após a morte do marido, mas precisa de um tempo para isso e, no momento, não está preparada para receber hóspedes. Para contornar a situação, Blake se disfarça de mordomo do hotel no sentido de poder usufruir da estadia.

Com uma direção precisa e pouco inventiva do também roteirista Gilles Legardinier, o filme cumpre o que promete. Não é ousado, não arrisca, mas também não faz feio. É o famoso "filme feito pra agradar". Com um roteiro desprovido de barrigas e seguindo uma lógica cartesiana, mais um elenco de apoio igualmente competente, Sr. Blake é uma saborosa imersão nas atuações e paisagens que não deixam a desejar. Merece até ser brindado com a finalização de resenhas do século passado: diversão garantida.


quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Bambi: Uma Aventura na Floresta

 Um dos pontos a favor desta produção francesa, escrita e dirigida por Michel Fessler, é que Bambi foi totalmente filmado com animais reais, sem o uso de CGI (efeitos de computação gráfica). Isso traz um certo respiro ao cinema, uma espécie de resgate aos alicerces do gênero.

A história já é conhecida: o nascimento e crescimento do cervo Bambi e sua tentativa de sobrevivência na floresta. Aquilo que a Disney já nos contou e que, pelo fato de ter perdido os direitos autorais, não detém mais o monopólio dessa fábula infantil. Mas é bom avisar: não é um filme de terror, ao contrário dos anteriores Cinderela, Mickey, Ursinho Pooh e quetais.

Apesar de uma certa falta de ritmo, o resultado até que é interessante. Cenas captadas do ambiente natural dos animais que, com o esmero de uma montagem precisa, passam a impressão de que os bichos estão "interpretando" personagens.

A grande falha fica por conta, entretanto, da narração dublada. Diferentemente dos igualmente franceses Migração Alada e Oceanos, ambos dirigidos por Jacques Perrin, o filme deixa claro tomar partido da história. Apesar de os comparados serem documentários e Bambi, uma obra de ficção, vale a pena mostrar essa correlação para provar que muito se perde quando é o recurso narrativo que tenta sustentar o roteiro. Aqui, ao contrário da valorização dos silêncios, temos uma quase torcida organizada, que não economiza adjetivos infantiloides para conduzir a trama. 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Atena

Logo de cara dá pra ver que Atena é um filme todo errado. Começa com a morte misteriosa de um suposto magnata e, no peito dele, está tatuada a inscrição "estuprador". No meio das reviravoltas e investigações, entra em cena Carlos, um repórter investigativo vivido pelo canastrão Thiago Fragoso. E, finalmente, aparece a personagem-título, vivida por Mel Lisboa, uma justiceira que recria o visual gótico-futurista de Charlize Theron em Atômica. 

Ostentando uma maquiagem carregada até a retina, de fazer inveja a qualquer Marilyn Manson, e ainda por cima mascando chiclete nas cenas mais "tensas", Lisboa imprime um retrato mais do que hiperbólico e caricato à protagonista. 

Mas o maior problema talvez não recaia na insossa Mel, que de doce não tem nada. O filme é dirigido por Caco Souza, que já nos agraciou com pérolas da ruindade do cinema brasileiro, como 400 Contra 1, Inversão e por aí vai. Bebendo diretamente da fonte de Rubem Fonseca, o diretor parece ter se apaixonado pelo gênero policialesco de folhetim, mas nada aprendeu com o tempo. Embora cuide de assuntos sensíveis, como abuso sexual e violência contra mulheres, Atena não passa de um arremedo de clichês absolutamente esquecíveis. De boas intenções... o resto você já sabe.

Filhos

Difícil imaginar um clima ameno em filme sobre o sistema prisional. Filhos, uma coprodução franco-dinamarquesa, até começa insinuando um ambiente pacífico. Eva, agente penitenciária de uma ala de condenados por crimes de baixa periculosidade, mantém uma rotina digamos, comum. Existe ali uma hierarquia, mas nenhum indício de que algo possa subverter a ordem.

O plot twist acontece quando Eva, pela imagem de uma câmera de segurança, observa a chegada de um jovem truculento entrando no presídio, na ala de segurança máxima. Ela pede ao seu superior que seja transferida para esse setor carcerário, a fim de cuidar do novo delinquente.

Temos, portanto, praticamente um outro filme. Menos romantizado e mais mundo-cão. Mais verossímil para obras que abordam esse tema. Além, é claro, de um tom de mistério no sentido de se matar a curiosidade do espectador: por que Eva optou por sair da zona de conforto e lidar com um suposto crápula?

Esse aspecto de thriller se reforça graças à atuação dramática da atriz Sidse Babett Knudsen. Contida e ao mesmo tempo expressiva, econômica nos gestos e olhares, mas sem deixar escapar todo um sentimento interno de mágoa e rancor. Filhos é um filme que segura a dureza do assunto, sem fazer concessões ou se deixar levar por sentimentalismos.


quarta-feira, 9 de julho de 2025

Nós Contra Eles

Não deu. Tentamos uma medida conciliatória, mas a própria sociedade preferiu manter a polarização. Até nosso presidente da República ressaltou essa diferença antagônica de opinião, percepção e conduta econômica e social.

Tem mais jeito não. É canhoto do lado esquerdo da política, destro do lado direito. Não existe mais o centro. A não ser o das atenções. Até mesmo o Centrão, que nunca foi de ocupar o lado periférico, optou por um lado da esfera. Terceira via, só se for de boleto ou RG.

Em suas redes sociais, o queijo ralado comunicou que não faz mais par com o molho de tomate. Sem entrar em detalhes, finalizou o texto dizendo que não seria mais possível a convivência com quem adota a cor vermelha como bandeira ideológica.

Ferro e fogo também solicitaram, quase que simultaneamente, que a expressão popular que utiliza ambos os sujeitos deixe de existir. A rigidez de caráter de um, ante o esquentamento comportamental de outro, fizeram estremecer uma relação sólida de décadas. Unha e carne ainda não se manifestaram, mas já faz um bom tempo que não são vistos juntos.

Duplas sertanejas cogitam a possibilidade de seguir o mesmo caminho. Embora todas façam parte da mesma segmentação política, desfrutando altos cachês em comícios eleitorais disfarçados de eventos culturais, divergências sobre quem é a primeira e quem faz a voz de fundo aceleraram o desgaste entre elas. Bruno e Marrone, Fernando e Sorocaba, Zezé di Camargo e Luciano agora fazem parte do passado. É comum, em cidades do interior paulista, a população ver os ônibus da turnê com um dos nomes apagados em caráter provisório. Ou até mesmo pedaços de papel colados sobre o elemento que não faz mais parte da excursão. Uma coisa é certa: grande parte desses cantores percebeu que a carreira dos sertanejos decolou somente depois que o parceiro morreu. Como foi o caso de Leonardo e João Paulo, por exemplo. Mas, até o fechamento desta crônica, nenhum caso de tentativa de assassinato foi registrado. 

Essa separação, de acordo com os envolvidos, também serve para cada uma das partes desenvolver e demonstrar seu talento individual, sem se ofuscar atrás do brilho do comparsa. E deixar mais claro, para toda a sociedade, quem é quem. Afinal, Sandy e Júnior são filhos de qual cantor?

Em relação às duplas femininas, esse rompimento já é um caso antigo. São elas que incorporaram o verdadeiro sentido do antagonismo "nós x eles": metade do tempo elas se ocupam com agenda de shows, a outra metade investem atacando a ex na mídia. Sobram ofensas e desaforos sobre quem é a mais feia, a mais gorda e a mais bêbada.

Em nota, a goiabada informou que encerrou o contrato de parceria com o queijo branco. De acordo com a sobremesa, a separação ocorreu de forma justa e amigável. Procurada, a assessoria do queijo não quis se pronunciar.

A ESPM (Escola Superior de Propaganda & Marketing), onde concluí meu curso de graduação, agora se divide em ESP e ESM. Na época em que ali estudei, era comum nossas tias e avós perguntarem se eu estava gostando do curso de "propagandaemarketing", como se fosse uma coisa só. Para evitar esse tipo de confusão, optaram pela separação. Agora, o currículo acadêmico visa à formação de uma especialização totalmente desvinculada da segunda. Em Propaganda, as aulas passaram a ter conteúdo meramente artístico, não se levando em conta o orçamento de campanha, as características do produto ou o posicionamento de mercado do cliente. Ensina-se, basicamente, como criar anúncios, stories ou e-mails marketing (ops, mudou: agora é e-mail propaganda) com os pés sobre a mesa, olhando para o teto, até surgir alguma inspiração. Já o Marketing aboliu de vez as estratégias de comunicação. O importante é vender, vender, vender. 

Afetados diretamente pelo racismo estrutural, o preto e o branco também decidiram pôr fim à conturbada relação. Por questões de segurança, o azeviche solicitou à Justiça medidas cautelares e protetivas de distanciamento social por parte da alva e pálida cor. Faixas de pedestre deixaram de existir nas grandes capitais. Biscoito Oreo, agora somente no sabor de morango. Livros de História foram reeditados e sofreram adequações: o trecho que fala da TV em preto-e-branco foi apagado dos arquivos. 

O meio, ou melhor, 1/2 matematicamente falando, quem diria, foi seguir rumo próprio. Se por acaso precisar perguntar a alguém que horas são, acrescente mentalmente uma margem de erro para evitar atrasos, pois respostas como "duas e meia" não são mais permitidas. Das mesma forma, o Cinema também foi afetado pela ruptura. Filmes como Oito e Meio, ou 9 1/2 Semanas de Amor, foram arredondados para Oito (mais fácil de memorizar, Fellini que me desculpe) e 10 Semanas de Amor, respectivamente.

Continuando, de maneira mais sucinta: Sansão e Dalila anunciaram o divórcio. Litigioso. Lilo e Stitch, sucesso de bilheteria, optaram por seguir carreira-solo. Bonnie e Clyde resolveram se separar depois que um deles descobriu enriquecimento ilícito do outro, sem comprovação da origem dos rendimentos. Os palhaços Atchim e Espirro também se desuniram. Ambos estão tratando uma virose no hospital. 

É isso, minha gente. Acabou o casamento. Agora é cada um por si, defendendo seus próprios direitos e interesses, e um odiando o outro. Até que a vida os separe.


quarta-feira, 18 de junho de 2025

Stella: Vítima e Culpada

Logo no início, o espectador de Stella se vê diante de um espetáculo de luzes, cores e sons. Trata-se de um ensaio de jovens judeus de Berlim, durante a Segunda Guerra. Liderados pela cantora que dá nome ao título, procuram no jazz um pouco de beleza durante os anos mais sombrios da Humanidade.

Sem ser espalhafatoso, o filme sacia essa vontade de nos colocar diante de um show. E o diretor Kilian Riedhof tem mão firme pra isso. Um jogo de cortes ágeis trazem o dinamismo e a velocidade que o filme precisa. É nessa montagem que podemos perceber a permanência do clima caótico do roteiro. Como se estivéssemos diante da exatidão cirúrgica do texto, aliada ao improviso do jazz.

Todo esse aparato visual serve de preâmbulo para o desenvolvimento de uma narrativa que segue o caminho oposto. O medo dos nazistas levarem os judeus da capital alemã para o campo de extermínio de Auschwitz toma conta do longa. Entra em cena, portanto, aquele tom de tela mais acinzentado, característico de boa parte da cinematografia germânica.

Embora tente mostrar na tela os contrários, a estrutura cênica parece ser a mesma. Planos corretos e uma edição certeira provam que o diretor tem domínio sobre o que faz. Stella tem poucos excessos, porém, uma grande visão de cinema. Como o próprio subtítulo colocado aqui no Brasil insinua, é a dissecação de um dilema que ocupa o centro da trama. Para se manter viva, a protagonista acaba dedurando para a Gestapo o esconderijo de alguns judeus. Essa contradição não é somente anafórica. Um espelho manchado que procura extrair beleza da personagem traduz muito bem essa ambiguidade.


terça-feira, 3 de junho de 2025

Vencer ou Morrer

Quando vejo que um filme é lançado no Brasil pela distribuidora Kolbe Arte, especializada em obras religiosas, me dá um certo medinho. Trata-se de um filão muito específico, um nicho de mercado voltado a um tema que não gera a mim muito interesse, dados os propósitos de catequese desses trabalhos.

Entretanto a distribuidora vem ampliando, em pequena escala, seu espectro de atuação, fugindo um pouco da estampa eclesiástica que a caracteriza. E Vencer ou Morrer é um desses exemplos. Com uma breve introdução explicativa, o filme narra a história de François de Charette e do povo da Vendeia, que, na Revolução Francesa, resistiram à perseguição religiosa em defesa da fé católica, da liberdade de consciência e da vida comunitária. 

Filmado nos próprios locais onde a história aconteceu, o longa procura trazer um pouco mais de fidelidade ao registro histórico, adicionando algumas liberdades poéticas. O resultado, entretanto, é de um filme apenas regular, com doses cavalares de maniqueísmo e um exercício artístico convencional.


Memórias de um Caracol

Quando a animação australiana Mary and Max estreou, em 2009, deixou uma marca de saudade e gostinho de quero-mais. São raros os exemplos do gênero que abordam temas sombrios, como a obesidade e a solidão. Não é a Disney que costuma se arriscar e embarcar no tragicômico. São essas características que trouxeram singularidade ao filme.

Memórias de um Caracol, candidato ao Oscar de Animação deste ano, segue na mesma linha. O diretor Adam Elliot trocou o preto-e-branco do supracitado e trouxe cor. Entretanto, manteve a técnica stop-motion, um respiro à parafernália digital que invade as telas. E, principalmente, preservou traços autorias que resultam em reações da plateia entre o riso contido e o choro profundo.

O filme já começa em um leito de morte. Grace Pudel, uma garota solitária que coleciona caracóis ornamentais, assiste à passagem de uma idosa que ficou sua amiga, a Pinky. A partir daí, solta dos vidros os tais moluscos gastrópodes e resolve se abrir com eles. É essa narração em flashback que funciona como o fio condutor da história.

Memórias de um Caracol é uma rara espécie que finge fugir da realidade, mas cada vez mais se aproxima dela. Obrigatório pra quem tem um apreço ao humor negro, sem abrir mão da sensibilidade.


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Do Sul, a Vingança

Exaustivamente propagado como o primeiro filme produzido no Mato Grosso do Sul, chega aos cinemas Do Sul, a Vingança.

Parece que o filme carrega esse preconceito próprio desde o início. Uma breve explicação narra o momento em que o Mato Grosso se separou e deu origem ao novo estado, em 1977. Mas o filme não pretende ser historicamente didático.

A primeira cena propriamente dita mostra o escritor Lauriano numa livraria, em tarde de autógrafos, respondendo algumas perguntas dos leitores curiosos. Para buscar inspiração em seu novo trabalho, Lauriano se infiltra no submundo do tráfico, a fim de investigar uma rede de criminosos.

 Se levarmos em consideração a filmografia brasileira atual, com obras ganhadoras de Oscar e outras concorrendo nos principais festivais mundiais, como Cannes e Berlim, pode-se concluir que Mato Grosso do Sul ainda tem um caminho muito longo a percorrer.

Aqui, o emaranhado de situações e personagens, propositalmente criados para gerar confusão e um processo investigativo mais minucioso, não leva o espectador exatamente a um ambiente policialesco bastante difundido no cinema norte-americano dos anos 80. As referências são meio que jogadas, um nome leva a outro, justamente para trazer essa sensação de folhetim de tramoias. Mas isso não chega a ser um ganho. O escritor-repórter se perde nas buscas, e deixa o espectador igualmente perdido.

Embora pareça filme-denúncia, a violência é atenuada. Situações mais pitorescas roubam a cena para dar um tom mais de leveza.

O resultado, entretanto, deixa a desejar. Como thriller, Do Sul não funciona. Como comédia, também fracassa. 

É apenas... o primeiro filme do Mato Grosso do Sul. Com boas intenções e pouca inspiração.

Aguardemos o próximo.


segunda-feira, 14 de abril de 2025

Bolero, a Melodia Eterna

 A primeira cena de Bolero mostra Maurice Ravel ao lado da coreógrafa Ida Rubinstein dentro de uma fábrica. O compositor explica a ela sobre a cadência rítmica dos sons industriais, num primeiro momento percebidos como barulho ou ruídos, que servem de inspiração ao autor por causa de sua sincronia forte, retumbante.

Corta para os tempos atuais. O famoso "Bolero de Ravel" tocado em diferentes lugares do mundo, em diferentes estilos, Conforme anunciam os créditos finais, a cada 15 minutos essa música é executada em algum canto do planeta.

Diante dessa premissa, cria-se a expectativa de um filme igualmente grandiloquente. Como colocar a mise-en-scène em pé de igualdade com o que a música representa para a história universal? O filme traz, de fato, a busca incessante por aquele andamento frenético fabril, mas também busca um ponto de equilíbrio (ou desequilíbrio) em toda a sensualidade que o ritmo carrega. Como se Ravel estivesse em sua inquietude querendo traduzir a modernidade com a tradição. O mecanismo do corpo com a fluidez das emoções.

Bolero, a Melodia Eterna, contudo, não entrega o peso dramático desse dilema. O ator Raphaël Personnaz faz um papel morno na pele de Ravel. A experiente diretora Anne Fontaine coloca em fogo brando os ápices do roteiro. A perseguida sensualidade musical entra no filme apenas como sugestão. Insinua-se muito e se oferece pouco. A ululante orquestração maquinal do introito se perde de vista no decorrer do filme. Tudo fica meio apático, um tom abaixo do que o Bolero representa para o mundo.


quinta-feira, 20 de março de 2025

O Bom Professor

De um modo geral, os filmes que trabalham o tema do ambiente educacional carregam uma certa consistência. Trata-se de um retrato do microcosmo, a sala de aula, para abrir reflexões sobre um universo maior.

O Bom Professor, dirigido por Teddy Lussi-Modeste, não foge à regra. Desde o início se percebe um clima tenso entre o professor Julien (François Civil) e seus alunos. É aquele momento típico de filmar uma conturbada classe, repleta de adolescentes agitados, com a câmera inquieta, vários cortes de cena, e o propedeuta tentando dar sua aula e acalmar os ânimos juvenis.

Neste contexto, uma explicação teórica dá margem a uma interpretação equivocada por parte de uma aluna, que depois acusa Julien na diretoria de assédio.

Desde o início, o longa toma partido do professor e o coloca como vítima da situação. Não há brechas para possíveis entendimentos de que a aluna esteja com a razão. A partir daí, uma bola de neve se forma, e o foco do filme é muito mais trazer essa aflição ao espectador sobre como Julien vai se sair da enrascada do que discutir o assédio propriamente dito.

Mesmo tendo como tema a difamação no âmbito escolar, o Bom Professor trafega por outras nuances, como a burocracia escolar, o comportamento da Geração Z, a homoafetividade. É um filme denso e conciso, quase não abrindo espaço para o respiro e o descanso do recreio.