sexta-feira, 10 de abril de 2026

O Drama

O pouco conhecido diretor e roteirista norueguês Kristoffer Borgli já percorreu com mais frequência em seu país natal o gênero do humor negro e da comédia nonsense. Aqui no Brasil, seu trabalho mais conhecido é O Homem dos Sonhos, do ano retrasado, protagonizado por Nicolas Cage. Não se trata exatamente de um registro cômico, mas mostra uma alternância de estados de espírito que beiram entre a graça comedida e o sadismo escancarado. Como numa onda magnética de grande potência, o filme percorre de um extremo a outro em questão de minutos. Da idolatria cega ao cancelamento injusto, tudo se passa sem transições delicadas. É um vapt-vupt certeiro. E talvez seja justamente essa velocidade (e ferocidade) que nos faz refletir sobre em qual mundo vivemos. Tudo não passa de um sonho. Ou, talvez, de uma metáfora para o não entendimento da nossa doentia sociedade.

Em O Drama, seu mais recente trabalho, esses elementos estruturais continuam sendo percebidos. A cena inicial, um close de uma orelha que não ouve (portanto, acompanhada de alguns segundos de silêncio), causa a mesma estranheza. Estamos dentro de um café, numa situação de paquera, sendo interpretada por dois galãs hollywoodianos em ascensão. Não há lugar para a imperfeição.

Dali em diante, só comercial de margarina. Um se apaixona meteoricamente pelo outro, apesar das inevitáveis diferenças. Marcam a apressada data do casório. Começam os burocráticos preparativos para a vindoura cerimônia matrimonial. E chega a hora de se apresentarem aos amigos. É o casal dos sonhos.

Bem que dizem que o álcool faz mal à saúde. É justamente entre uma birita e outra que Emma (papel de Zendaya) solta uma verdade sobre seu passado. Pronto, é aí que entram as flechadas nas costas de Cage. Da lacração ao sepulcro, em cerca de 3 horas de cena e 10 minutos de filme.

Assim como em seu longa anterior, Borgli não está muito interessado em discutir as questões éticas. Acima do tema propriamente dito, e sua consequente aceitação ou não, coloca-se em jogo a perversidade das relações humanas, talvez mais irracionais do que podemos supor. Se existe por trás uma leitura subliminar sobre o falso moralismo, o diretor faz questão de trabalhar mais a falsidade do que a moralidade.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Tatame

Não espere ver um filme de superação. A tendência, já batida, é que longas-metragens que retratam o universo esportivo se debrucem em dificuldades atléticas dos competidores, provas acirradas, deixando para a batalha final o ápice das emoções.

Em Tatame, a tensão se evidencia logo no início. Leila (Arienne Mandi) é uma judoca iraniana disputando o Campeonato Mundial. A atleta vai muito bem, vence as primeiras lutas, mas é orientada por forças superiores do regime a desistir para evitar o derradeiro confronto com a judoca israelense.

Filmado em preto e branco e com câmera móvel, Tatame usa esses recursos para esticar a corda dramática. Além de Touro Indomável, são raros os filmes sobre esporte que abrem mão do colorido. Essa força estilística coloca a obra em outro patamar. Como se os golpes e contragolpes não fossem tão primordiais quanto o que se vê através deles. Ou fora deles.

Dirigido por Guy Nattiv, Tatame sugere conflitos maiores bem além do ringue. O que está em jogo são relações diplomáticas, guerras em potencial no Oriente Médio. Tudo isso é retratado em off, com vozes de ligações telefônicas de pessoas que a gente não vê. 

Por outro lado, Tatame também não precisa recorrer a paisagens sujas, ambientes precários e pessoas pobres para retratar a difícil realidade do Irã. Existe uma plástica em cada quadro. O que não quer dizer (longe disso) que a equipe tenta colocar a sujeira por debaixo do tatame. Ou passar detergente nas lentes de câmera. Muito pelo contrário.