sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A Única Saída

Um dos grande méritos de Park Chan-wook (A Criada, trilogia da vingança, entre eles Oldboy) é percorrer por vários gêneros e não estabelecer uma fronteira muito rígida entre eles. E um dos principais defeitos também.

Adaptado do livro O Corte, de Donald E. Westlake, A Única Saída, candidato a Melhor Filme Internacional no Globo de Ouro e preterido no Oscar 2026 na mesma categoria, cria a sensação de vários filmes em um só. Começa com uma crítica social. Depois de trabalhar por 25 anos numa empresa de papel, Man-su é sumariamente demitido, sem grandes explicações. Entra aí o etarismo e o desemprego, um desvio de rota e contraponto de uma Coreia do Sul tão avançada. Para contornar a situação, o protagonista se humilha ao entregar o currículo na própria empresa onde trabalhou, a Moon Paper. Ao ficar sabendo de uma vaga que pode salvar sua recolocação, decide tomar atitudes pouco ortodoxas.

Chan-wook tenta fazer uma saborosa miscelânea entre humor ácido, com pitadas de violência, esbarrando em desvios cômicos mais escrachados. Parece pouco se importar com o nonsense como efeito dessa combinação. Procura diminuir a tensão da distância entre o erudito e o popular, já que é um diretor consagrado tanto pela plateia de seu país quanto pelos júris de festivais.

Com sua estética criativa, que pode trazer resultados entre o primoroso e o patético, Chan-wook mais parece ter domínio de sua arte do que das consequências geradas por ela. Não se trata de desleixo, já que ele é um artífice da técnica. Mas esse deslocamento de eixos gera um produto confuso, caótico. Do ponto de vista cartesiano, essa quebra de paradigmas é muito bem-vinda. Resta saber o quanto dessa proposital ruptura fica retida na memória.


Prazo de validade

Vocês lembram quando postei, poucos dias atrás, que fui sumariamente bloqueado do zap por uma "amiga", sem entender direito o motivo? Pois é, minha gente. Ontem ela me respondeu pela rede social que acessa quase nunca (no caso, esta aqui). Disse que eu não fiz nada a ela, porém, em sua opinião, acha que nove anos tentando bater papo já tá bom demais. Palavras dela.

Pra começo de conversa, essa frase da maneira como foi construída resulta em pura inverdade. Dá-se a entender que, durante quase uma década, eu fiquei insistindo em manter contato. Não foi bem assim. A gente se conheceu de fato há um bom tempo, e fomos mantendo contato regular nos meses seguintes. Com o passar dos anos, a rotina e tal, essa conexão foi diminuindo. Mas as conversas sempre foram muito boas, muito fluidas. Tudo soava naturalmente. As respostas eram quase imediatas. Aí veio a pandemia, etc. etc. No início do ano passado, após longa data de silêncio, me lembrei dela e mandei um lacônico "como vc está?". Curto e sincero. Apenas para manter o laço. Igual eu faço com vários amigos que, no decorrer, a gente vai esquecendo, priorizando outras coisas, enfim...

Vácuo.

Achei estranho. Ela costuma ser comunicativa. BEM comunicativa. "Ah, vai ver foi esquecimento", pensei. E, na virada do ano, mandei um "feliz 2026". Só isso. Sem gifs animados, sem figurinha batida, sem encher o saco.

Vácuo.

Aí a coisa meio que me pegou. Podem até não gostar de mim. Mas me ignorar é assunto que levei pra terapia durante anos. Uma semana depois, mandei um "tá tudo bem com vc?", já querendo saber se havia uma pedra no caminho desse processo. Foi quando chegou o block.

Note bem: desde 2021, foram apenas essas três únicas tentativas de contato.

Lá no comecinho do século, fiz dupla com um diretor de arte numa agência de healthcare (contas do segmento médico e farmacêutico). Um amigão, de verdade. Logo de cara percebemos tamanha afinidade, como se nos conhecêssemos desde outras encarnações. Uma amizade que extrapolou a Propaganda e perdurou por outras áreas e décadas. Fui ver a banda dele tocar. Em troca, ele foi me ver num show de stand up. Vira e mexe a gente marcava uma cerveja. Eu não tomo essa levedura, mas era bem agradável aquele papo de homem. Conversa de bar. Falar de mulher, falar da humanidade, falar da vida. Só que essa amizade, em princípio irretocável, também foi se esvaindo. E culminou mais ou manos como no caso supracitado. Vácuo atrás de vácuo. Certa vez, perguntei a ele a real. Ele alegou problemas no celular, o que fazia com que algumas mensagens sumissem. Só que esse modus operandi foi se perpetuando. Eu insisti (um pouquinho), achando que era coisa da minha cabeça. Entretanto, a impressão que fica é que, quanto mais eu tento me reaproximar, mais a pessoa se afasta.

Teve mais dois outros casos parecidos. Um deles trabalhou remotamente comigo, durante a pandemia. Tinha por mim uma mistura de respeito e admiração. Me chamava de mestre. Toda hora a gente abria um bate-papo paralelo pra falar mal da agência. Me indicou para um freela. Recebeu uma proposta dessa agência do freela e foi pra lá. Disse pros colegas que, assim que se desligasse do lugar onde trabalhávamos, deletaria todos os contatos. Achamos que era brincadeira. Não era.

O outro foi quem me indicou essa vaga. Trabalhamos juntos lá em Alphaville. Pegávamos o mesmo ônibus. E era sobre esse coletivo de luxo que conversávamos. No ano passado, mandei um áudio desejando-lhe feliz aniversário.

Vácuo.

Tem gente que acha que amizade tem prazo de validade. Que, depois de uma certa quantia matemática, ela deixa de funcionar. Igual a impressora. Essas pessoas acham que o desligamento automático é a coisa mais natural do mundo.

Eu discordo.

Claro que desavenças políticas, brigas ideológicas ou a falta de afinidades pode afastar as pessoas. Mas isso é um motivo percebido. Ou então, quando você reencontra uma pessoa que não vê há séculos e, naquele contato frio e constrangedor, falta assunto. Compreensível. A gente vai mudando nossos gostos e estilos. 

Porém, sinceramente, acho esquisitíssimo quando essa ruptura se deve a um fator desconhecido. Simplesmente do nada. Com as redes sociais, é fato que as relações humanas mudaram bastante. Daí o bebê reborn fazer sucesso. Ou a autodeclaração "mãe de pet". O convívio ficou cada vez mais difícil. Mas não é por isso que vou deixar de externar minha indignação com um W cinza do zap. Não custa nada ser pelo menos educado. Mandar um "oi" não é pentelhação. E eu fico muito contente quando percebo alguém se preocupando comigo. Ou, ainda que seja algo protocolar, respondo de maneira direta e simples. Mas respondo. Procurando não perder a elegância. A resposta da minha "amiga" lá de cima foi uma patada. E tenho certeza absoluta de que não mereço isso.

Naquela postagem, alguns amigos meus vieram com "conselhos" do tipo esquece, desencana, deleta, bola pra frente, vida que segue. É uma opção.

Mas não creio que a melhor saída seja descartar o passado. É ele que constrói nosso presente. É a base de tudo. Em algumas redes sociais, copiei e colei a frase "O passado não só não morreu, como também não passou". Uns acham isso depressivo, melancólico, saudosista, fincado no regresso. Nada disso. Foi apenas uma frase que o ator Lima Duarte disse num programa de rádio que minha mãe estava ouvindo. Procurei no Google o autor da frase e não achei. Mas o conteúdo diz tudo.

Não há mal nenhum em venerar o pretérito. Isso não é sinônimo de impedimento, emperramento, estagnação. Estou fazendo curso de teatro com um professor que fazia aulas de judô comigo, há quase meio século. Recebi uma indicação de vaga de emprego de uma ex-namorada de duas décadas atrás. No ano retrasado, criei um podcast junto com amigos do ginásio. Tanto é que uma das ideias iniciais do programa era fazer um levantamento sobre o Bom Retiro. Agora em 2026, é possível que haja uma comemoração em prol dos 40 anos desde que ingressei na ESPM. Vários (vários mesmo!) amigos que interagem comigo fazem parte de um período remoto da minha vida.

Então, por que dizimar esse vinculo? Sem mais nem menos?

Respeito muito quem adota o lema "meu tempo é hoje". Mas acho esquisitíssimo, pra dizer o mínimo, quem simplesmente apaga os gigas de memória armazenada do ontem.




quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Aclamado com o Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz de Drama para Jessie Buckley, Hamnet é uma das grandes apostas da Universal Pictures para o início de ano. Carrega boa parte dos ingredientes que saciam o público em busca de oscarizáveis: trama shakesperiana, elenco afinado, profundidade dramática.

Baseado no livro de Maggie O'Farrell, escrito e dirigido por Chloé Zhao, o longa acompanha Agnes (Buckley), esposa de William Shakespeare (Paul Mescal), enquanto enfrenta a dor da perda de seu filho, Hamnet. É justamente esse luto que revela o pano de fundo para a criação de “Hamlet”, a obra mais famosa do dramaturgo inglês.

O filme faz uma boa transição entre cinema e teatro. Nas cenas de tablado, percebe-se um rigor artístico digno de premiação. Os ensaios valorizam o processo de criação. Já as cenas mais "cinematográficas" valorizam não só o ambiente campestre, mas também a dor, o sofrimento. Tudo é muito carregado, dentro de uma lógica formal acadêmica. Nada parece ter sido construído por acaso.

Apesar da densidade, o filme parece ter prazo curto de validade. Ao contrário dos principais concorrentes de ocasião, como Pecadores e Uma Batalha Após a Outra, Hamnet não nos oferece algum elemento que permita retê-lo na memória. Não por falta de competência, mas talvez por falta de ousadia. É como se estivéssemos à deriva de um buffet self service. Ele nos traz a sensação de fartura, de êxtase. Porém, tudo momentâneo. Passados os instantes de impacto, tudo se evapora.