Um dos grande méritos de Park Chan-wook (A Criada, trilogia da vingança, entre eles Oldboy) é percorrer por vários gêneros e não estabelecer uma fronteira muito rígida entre eles. E um dos principais defeitos também.
Adaptado do livro O Corte, de Donald E. Westlake, A Única Saída, candidato a Melhor Filme Internacional no Globo de Ouro e preterido no Oscar 2026 na mesma categoria, cria a sensação de vários filmes em um só. Começa com uma crítica social. Depois de trabalhar por 25 anos numa empresa de papel, Man-su é sumariamente demitido, sem grandes explicações. Entra aí o etarismo e o desemprego, um desvio de rota e contraponto de uma Coreia do Sul tão avançada. Para contornar a situação, o protagonista se humilha ao entregar o currículo na própria empresa onde trabalhou, a Moon Paper. Ao ficar sabendo de uma vaga que pode salvar sua recolocação, decide tomar atitudes pouco ortodoxas.
Chan-wook tenta fazer uma saborosa miscelânea entre humor ácido, com pitadas de violência, esbarrando em desvios cômicos mais escrachados. Parece pouco se importar com o nonsense como efeito dessa combinação. Procura diminuir a tensão da distância entre o erudito e o popular, já que é um diretor consagrado tanto pela plateia de seu país quanto pelos júris de festivais.
Com sua estética criativa, que pode trazer resultados entre o primoroso e o patético, Chan-wook mais parece ter domínio de sua arte do que das consequências geradas por ela. Não se trata de desleixo, já que ele é um artífice da técnica. Mas esse deslocamento de eixos gera um produto confuso, caótico. Do ponto de vista cartesiano, essa quebra de paradigmas é muito bem-vinda. Resta saber o quanto dessa proposital ruptura fica retida na memória.

Nenhum comentário:
Postar um comentário