sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Orwell 2+2=5

Na primeira cena, extraída de um filme que o espectador ainda não sabe qual é, pai e filho estão dentro de uma suposta carruagem. O pai pergunta ao filho quantos anos ele tem. "Quatro", responde o garoto. O pai argumenta que, se o Governo declarar que o menino tem cinco anos de idade, assim será. Essa é a premissa de Orwell 2+2=5, novo documentário do aclamado diretor Rauol Peck (Eu Não Sou Seu Negro). Não importa qual seja a verdade. Se o poder impõe uma mentira, é ela que deve ser aceita pela sociedade. Assim se constrói a manipulação da realidade.

Embora rotular o gênero como documentário possa criar estigmas e eventualmente afastar alguns espectadores, o filme vai um pouco além das convenções formais. Não se trata apenas de mostrar convidados sentados em suas cadeiras dando depoimentos - o famoso talking heads. Peck faz um mergulho imersivo na técnica e experimenta outras possibilidades, o que resulta em um multicolorido de sua colcha de retalhos. Além de trechos de outros filmes como base de referência e de sustentação de sua tese, especialmente obras do Ken Loach, um crítico contumaz do capitalismo, o diretor apresenta também imagens de arquivos jornalísticos. São cenas da vida real que se fundem com a vida ficcional. Magnatas do governo, executivos da mídia, CEOs das redes sociais, todos eles lado a lado com personagens de filmes e de livros. Afinal, o que é a verdade?

 Como o título sugere, essa colagem de citações tem como fio condutor o escritor George Orwell, "interpretado" pela narração em off de Damian Lewis. Orwell (ou Lewis) logo de cara abre espaço para um mea culpa, relatando que teve uma juventude fútil. Só depois de adulto criou consciência crítica para questionar os tempos modernos. Ou melhor, tempos futuros, já que sua principal obra, 1984, se passa alguns anos após a publicação do livro. 

Visto que o diretor faz um exercício de ir e vir em suas peças do quebra-cabeça, 1984 não aparece somente com seus principais trechos da escrita. Fragmentos fílmicos das duas principais adaptações para o cinema também estão presente nessa moldura. A presença do ator John Hurt na versão do diretor Michael Radford, lançada exatamente em 1984, traz muito mais verdade do que os depoimentos gaguejantes de Mark Zuckerberg nos tribunais de Justiça norte-americanos, ao tentar explicar sobre a falta de uso de ferramentas digitais de verificação de autenticidade da informação. 

Como era de se esperar, a potência do filme não está apenas no discurso, com suas clarezas e contradições, ou na sequência lógica narrativa. Um dos traços autorais de Peck é se sobressair na montagem. Afinal, cinema é corte. E corte é ritmo, é escolha. Orwell 2+2=5 é, portanto, um brilhante ensaio filosófico de edição. E Peck utiliza essa ferramenta não como truque para impressionar jurados de festival. Essa fragmentação, que, ao invés de criar pulos gera cadência, funciona como o principal apelo audiovisual do diretor para devolver ao público não um amontoado cumulativo de informações, mas um recado simples e direto para estimular a reflexão: se a sociedade não se mobilizar, vai ficar cada vez mais difícil conviver com essa futurologia concretizada.


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