O pouco conhecido diretor e roteirista norueguês Kristoffer Borgli já percorreu com mais frequência em seu país natal o gênero do humor negro e da comédia nonsense. Aqui no Brasil, seu trabalho mais conhecido é O Homem dos Sonhos, do ano retrasado, protagonizado por Nicolas Cage. Não se trata exatamente de um registro cômico, mas mostra uma alternância de estados de espírito que beiram entre a graça comedida e o sadismo escancarado. Como numa onda magnética de grande potência, o filme percorre de um extremo a outro em questão de minutos. Da idolatria cega ao cancelamento injusto, tudo se passa sem transições delicadas. É um vapt-vupt certeiro. E talvez seja justamente essa velocidade (e ferocidade) que nos faz refletir sobre em qual mundo vivemos. Tudo não passa de um sonho. Ou, talvez, de uma metáfora para o não entendimento da nossa doentia sociedade.
Em O Drama, seu mais recente trabalho, esses elementos estruturais continuam sendo percebidos. A cena inicial, um close de uma orelha que não ouve (portanto, acompanhada de alguns segundos de silêncio), causa a mesma estranheza. Estamos dentro de um café, numa situação de paquera, sendo interpretada por dois galãs hollywoodianos em ascensão. Não há lugar para a imperfeição.
Dali em diante, só comercial de margarina. Um se apaixona meteoricamente pelo outro, apesar das inevitáveis diferenças. Marcam a apressada data do casório. Começam os burocráticos preparativos para a vindoura cerimônia matrimonial. E chega a hora de se apresentarem aos amigos. É o casal dos sonhos.
Bem que dizem que o álcool faz mal à saúde. É justamente entre uma birita e outra que Emma (papel de Zendaya) solta uma verdade sobre seu passado. Pronto, é aí que entram as flechadas nas costas de Cage. Da lacração ao sepulcro, em cerca de 3 horas de cena e 10 minutos de filme.
Assim como em seu longa anterior, Borgli não está muito interessado em discutir as questões éticas. Acima do tema propriamente dito, e sua consequente aceitação ou não, coloca-se em jogo a perversidade das relações humanas, talvez mais irracionais do que podemos supor. Se existe por trás uma leitura subliminar sobre o falso moralismo, o diretor faz questão de trabalhar mais a falsidade do que a moralidade.

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