Logo no começo o espectador é colocado numa situação de miséria. Em rápidas passagens, o filme conta que uma das exigências de Saddam Hussein, lá nos longínquos 1990, era que todas as casas deveriam fazer um bolo na data de aniversário do ex-ditador iraquiano. Neste contexto hipócrita, que obriga a população demonstrar uma felicidade que não existe, somos confrontados a perceber (e, por que não, se emocionar) a pobreza dominante de uma nação inteira, pouco retratada na época pelos holofotes mundiais.
O Bolo do Presidente, do iraniano Hasan Hadi, vencedor da Camera d'Or em Cannes, nos coloca não apenas diante dessa crua realidade, mas também dentro dela. Lamia, uma menina de nove anos, é "sorteada" pelo professor de sua classe a preparar tal ostensiva sobremesa e levar o feito à escola. Para isso, não basta apenas bater a massa. Como se fosse uma prova pra passar de ano, a garota será submetida e julgada por meio de critérios como apresentação e sabor da prenda. Caso contrário, seria passível de represálias dentro do sistema educacional. Isso já nos traz a metonímia do conflito iraquiano. É dentro desse recorte minúsculo que podemos ter uma noção mais ampla e abrangente de um sistema opressor. Em nenhum momento do filme o "professor" coloca na lousa alguma fórmula matemática ou frase pra reflexão. Fardado e austero (com uma interpretação do ator até um pouco fora do tom), o propedeuta em questão está ali apenas para representar o regime autoritário do país.
A partir daí, o longa opta por um rumo mais calcado no road movie. Não se trata, entretanto, de uma "viagem" em busca de novos horizontes e fronteiras. A peregrinação circunda em torno de si mesma. Lamia busca, dentro de seu próprio reduto e sem conseguir escapar dele, todos os ingredientes necessários para a produção da lição de casa em forma de comida. Claro que a conta não fecha. O pouco dinheiro que ela tem não é suficiente para a aquisição dos itens básicos. Mas essa constatação, meio óbvia demais, não é o cerne do longa. Hadi aqui se aprofunda nas relações humanas, desde a amizade que a protagonista (literalmente) nutre pelo amigo Saeed, como também as rasteiras que ela leva durante esse calvário gastronômico.
Esse formato de realização cinematográfica, em que o olhar de uma criança molda a precariedade estrutural de uma nação, nos lembra um tipo de cinema iraniano que fez sucesso aqui no Brasil em meados dos anos 90. Filmes como O Balão Branco e A Maçã, como os próprios títulos sugerem, também valorizam lutas de classe sob o viés central de um objeto. Em O Bolo do Presidente temos não só um bolo (que nunca se concretiza, talvez uma apologia subliminar a Esperando Godot) como estrela principal, mas também uma galinha que acompanha a jornada infantil dentre os cortiços e as ruínas de uma Bagdá empoeirada e devastada.
