Para celebrar seus 90 anos, 70 de carreira e show no SESC Belenzinho (SP) com tributo a Dalva de Oliveira, estreia nos cinemas A Noite de Alaíde, filme bem recebido no 18º In-Edit Brasil. Combinando ficção, animação e documentário, o longa é dirigido por Liliane Mutti (Miúcha - A Voz da Bossa Nova), uma referência em linguagem híbrida.
Sem muita enrolação e conciso no registro de memórias, o filme narra a trajetória da cantora desde sua infância simples no subúrbio carioca, chega às rodas da zona sul do Rio de Janeiro dos anos 1960, onde esteve ao lado de João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes no auge da Bossa Nova, até ser sumariamente ignorada pelas gravadoras. Junto com Johnny Alf, outro pioneiro negro do gênero, ela é vetada da apresentação no Carnegie Hall, em Nova York. E o filme caminha bem nessa trajetória ao mostrar a dicotomia de uma pessoa ao mesmo tempo modesta em seus hábitos e suas palavras e estrela de palcos internacionais.
Essa escolha estética dissolve fronteiras entre memória, encenação e reconstrução histórica. Como resultado, o espectador se livra daquele ranço documental, em que a monotonia de uma câmera fixa e cortes rígidos dão a palavra ao depoente. Por outro lado, a mistureba cênica dilui um pouco o peso e a notoriedade de quem está sendo retratado. Claro que a leveza é bem-vinda, neste caso. Mas o excesso de liberdades poéticas dá ao longa uma percepção mais difusa, como se estivéssemos contemplando um filme-macramê. Não se trata de um malefício à obra. No máximo, talvez, um risco desnecessário.

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