quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Piratas da Somália

Vai sonhando que pirata tem a cara e o carisma do Jack Sparrow. Isso é coisa da Disney. Pirata que é pirata anda com metralhadora. Esquece o Capitão Gancho, as garrafas de rum e os baús e tesouros escondidos no fundo do mar. Isso faz parte somente do imaginário coletivo. Pirata de hoje em dia não fica famoso pelo nome ou pela cara de mau, até porque parece que nenhum deles tem cara. O recente saque ao navio de petróleo feito por corsários da Somália é o retrato verdadeiro do mundo de hoje. Grupos terroristas em ações organizadas e ambiciosas. Magricelas do Terceiro Mundo invadindo a redoma naval que determina o preço da gasolina nos cinco continentes. Uma imagem que está mais para o apartheid social do que para aquelas simbólicas lutas de facas. A bandeira da caveira mordendo ossos em cruz não é negra por acaso. Esta apagada flâmula é o reflexo de um mundo raquítico em colapso.

Janela indecente

É urgente que entre para o Código Penal um novo capítulo prevendo crimes por defenestração. Bastou o caso nardônico se tornar midiático para gerar inspiração. A recente tragédia de Guarulhos não conseguiu comover a opinião pública como o acontecimento anterior, mas é tão grave quanto. Mais do que a originalidade do crime em si, este fato revela uma série de fatores por trás disso, como a sensação coletiva de falta de segurança e de impunidade, o sistema penal arcaico, a falta de comando das instâncias, a ausência da Justiça e uma série de questões que não só ajudam a tornar notória uma situação hedionda como esta, mas também corroboram para impregnar a imagem de um país terra-de-ninguém sem soluções específicas enérgicas a curto prazo.

Ocupando a Imprensa

De 21 de novembro a 21 de dezembro, o Centro Cultural Grupo Silvio Santos recebe projetos em artes cênicas para participação em sua terceira edição do Vitrine Cultural 2009, no Teatro Imprensa. Os jornalistas Valmir Santos e Kil Abreu serão os curadores responsáveis pela análise e seleção dos projetos.

Cada proponente poderá inscrever até dois espetáculos, inéditos ou não, compatíveis com os critérios de seleção do projeto: excelência artística, originalidade, currículo dos integrantes e compatibilidade técnica com o teatro e os recursos disponíveis. É uma proposta para dar espaço a artistas e grupos teatrais que desenvolvam trabalhos de pesquisa, com linguagem inovadora, além de fomentar um trabalho de cunho social.

Ao longo de 2009, serão contemplados e subsidiados 9 produções teatrais para a Sala Vitrine e 3 para o Teatro Imprensa. Serão R$ 36 mil para a temporada no Vitrine e R$ 20 mil para as sessões na Sala Imprensa.

O Grupo comprará as sessões dos espetáculos selecionados e, em contrapartida, no primeiro mês de cada temporada, será feita uma campanha (alimentos, agasalhos, livros, etc.) em troca do ingresso. Nos dois meses seguintes a bilheteria vai operar com preços populares (R$10,00 e R$ 5,00).

Os projetos deverão ser postados ou entregues pessoalmente no Teatro Imprensa, na Rua Jaceguai, 400, CEP 01315-901, Bela Vista, São Paulo. Mais informações sobre o regulamento podem ser obtidas no hot site www.projetovitrinecultural.org.br . O resultado será divulgado no dia 27 de janeiro, no Teatro Imprensa. Dúvidas podem ser tiradas pelo e-mail projetovitrine@centroculturalgss.com.br – no campo assunto, especificar Vitrine Cultural/2009.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Machucando as teclas

Que teclado ergonômico, que nada. Meu negócio sempre foi a martelada. Não sei se é porque eu sou da geração das máquinas de escrever portáteis, mas me acostumei a sentir o peso de cada quadradinho do tablado escrito, a ouvir o som que a palavra produz em seu processo de gestação, como se fosse o grito de uma criança nascendo. Pessoas que digitam fazendo cosquinha no teclado certamente não viveram essa época mais suada, e dificilmente sentirão esse gostinho de escrever com os ossos. Soube que, numa agência de propaganda, costumavam chamar os módulos datilográficos de moedores de carne. A sensação era essa mesmo, ainda mais quando a agência em questão sugava até a alma de seus escribas. Imprimir idéias era uma carnificina, um trabalho não somente intelectual como alguns vislumbram. Metaforicamente falando, saía sangue dos dedos. Ser criativo era mais visceral, mais filme gore. Mantenho o hábito de digitar como se estivesse esculpindo o texto. Eu, redivivo da Idade da Pedra Lascada, continuo talhando cada letra das minhas frases mentais. Quando fiz um teste pra dar aulas em cursinho, havia na ante-sala um estoque interminável de giz. Sou marujo de primeira viagem, modestamente achei que um par de três resolveria meu problema. Que nada. Eu tinha me esquecido completamente de que costumo escrever forte, fixando a caneta no papel até quase rasgar. Uma vez, uma professora do ginásio me disse que meu caderno parecia ralador de queijo. E, por não ter sido aprovado pelo comitê que avaliou minha performance, fiquei ainda com mais inveja dos professores. Eu queria passar por esta experiência. Mestres e doutores completamente sujos de giz, como se acabassem de sair da lavoura arcaica. Operários do ensino que deixam as suas impressões digitais na camisa de quem conversa com eles. Aquilo sim é uma imagem prototípica do labor em prol do saber. O giz, calcário mineral que serve para instruir a nação, que faz arder os ouvidos no seu contato com a superfície irregular da lousa, nas mãos destes lavradores do conhecimento. Qualquer semelhança com o redator não é mera coincidência. O giz é a veia do propedeuta. Pulsa a cada matéria e culmina jorrando seu sangue de sabedoria no quadro negro tela pictórica renascentista. Isso sim é o grito primal e ululante do processo criativo. Mas tudo bem, vamos voltar a nos acostumar com aqueles sofisticados, insípidos e inofensivos carpaccios de letrinhas.

Império romano

Parece que o novo investidor de pontos micados é a Vila Romana. Abriu recentemente uma filial no Shopping Paulista, ocupando o lugar da extinta Virtual Music. E, descobri ontem, está construindo mais uma loja, agora no Conjunto Nacional, coincidentemente substituindo outro estabelecimento de som/cine/vídeo, a Love Music. É notório que, com os downloads e a música de bolso, as lojinhas de CDs e DVDs tendem a sumir do mapa. E ainda não inventaram nenhum programinha para baixar roupas (no sentido tecnológico, é claro). Não sei se há uma agressiva estratégia de marketing ou a previsão de uma enxurrada de lançamentos por trás disso. Mas essa invasão romana é a constatação de que, nos tempos do Torrent ou do Lime Wire, não é mais necessário conquistar o mundo vestindo pesadas armaduras metálicas. Basta alguns apetrechos de moda masculina com um custo relativamente modesto e uma dose certa de bom gosto.

Mantendo a linha

Agora que a Mostra de Cinema acabou, é hora de lançar avidamente os filmes acumulados que não encontraram espaço no circuito dividido entre o referido festival e os demais lançamentos comerciais. Nesse bolo, inclui-se a enxurrada de filmes nacionais que, especificamente na sexta passada, veio às pencas: Pan-Air, Orquestra de Meninos, À Margem da Linha, Meu Nome é Dindi, além da pré de Pan-Cinema Permanente. Frente a este cenário, resiste em cartaz dois outros longas, Linha de Montagem e Linha de Passe. O primeiro vai muito na linha (sem querer ser pleonástico) da dobradinha Peões/Entreatos. Documentário que mostra um outro tempo do sindicalismo, quando as reivindicações eram mais justas e menos políticas, as lutas salariais eram verdadeiras, a mobilização operária fazia todo sentido. Impressionante como o Lula, desde aquela época, tinha uma retórica tão convincente que conseguia fazer um número de pessoas equivalente a um estádio de futebol lotado ficar quieto e concentrado. Hoje as greves são coercitivas, motivadas por interesses de classes específicas. O movimento sindical resume-se a piquetezinhos atrapalhando o trânsito da Av. Paulista. Um filme que me incitou a fazer uma comparação histórica. Já o outro me trouxe outras reflexões. Funciona quase que como uma antítese do norte-americano Quatro Irmãos, pois aqui a figura materna não consegue dar conta de ser o elemento conectivo de uma estrutura familiar fragmentada. Um dos finais mais impressionantes do cinema brasileiro. Seja por causa do patriarca Luís Inácio ou da premiada Sandra Corveloni, tente encaixar um horário na sua agenda para qualquer um deles, antes que saiam de cartaz e cedam suas cadeiras para as cópias natalinas.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Kassab Obama

Bem mais interessante o dualismo partidário estadunidense republicanos x democratas do que o enfadonho segundo turno na cidade de São Paulo. Confesso que, se tivesse a chance de optar, escolheria votar em Obama ao invés de ratificar o resultado da eleição chocha do alcaide aqui da minha cidade. Quem votou ontem se sentiu um coadjuvante da História. Venceu a transformação, o inconformismo, o basta-de-guerra. Entra em cena o novo, o sonho de reduzir a crise financeira, a vontade de rever uma economia saudável, a esperança. Obama, por si só, já é a síntese de uma quebra de paradigmas. Com certeza, ele vai fazer mais bem ao mundo do que o herdeiro das batatas fritas transgênicas. Aqui na Terra da Garoa, todavia, tivemos de apertar a tecla da continuidade. Nem tanto pelo legado kassabiano, que até que administrou a cidade com uma certa dignidade. Mas o pleito aqui foi marcado mais pelo anti-martismo. Devo admitir alguns acertos da ex-prefeita, mas ninguém sente saudades da taxa do lixo, das arvorezinhas na Faria Lima, dos CEUs de fachada, do trânsito entupido na Rebouças, do túnel da Cidade Jardim que liga nada a lugar nenhum. Da arrogância, do temperamentalismo, do PT de butique. No que diz respeito às urnas, aqui quase nada se mexeu. Vamos continuar discutindo se o Bilhete Único será válido para 3 horas ou 3 horas e meia. Já nos Estados Unidos, os eleitores vão poder guardar de recordação um tijolo daquele muro-de-berlim chamado Era Bush.

Boa ação

Tava me sentindo meio preguiçoso e acomodado em relação às ações de responsabilidade social, tão em voga hoje em dia no mundo empresarial. Acho muito bonito o voluntariado, mas confesso que nunca me vi suficientemente motivado a tirar as nádegas da cadeira e fazer algo de bom ao próximo. Mas hoje bateu aquela coceira de deixar o individualismo um pouco de lado e ganhar pontos com o divino de lá de riba. Foi a história da Eloá e de sua família que me inspirou e me amoleceu? Não sei. Após o almoço, fiz o cadastro que me habilitou a ser doador de medula óssea. Preenchi um formulário e fiz a pequena coleta de sangue para análise laboratorial. O saguão do prédio estava bem cheio, prova de que a solidariedade ainda é marcante entre os brasileiros. Geralmente não costumo dar esmolas, alegando preferir ajudar uma instituição de caridade. Mas, na prática, isso também nunca faço. Hoje então foi o dia de eu reconsiderar essa postura e deixar meu esporádico altruísmo bater mais forte. Tomara então que ele seja útil.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

De coração

Quando era adolescente, gostava de hardcore. Depois passei a conhecer o metalcore. Hoje, só tenho condições de me ligar no Incor.

Fim do ciclo

Ainda batendo na mesma tecla, mas longe de querer botar uma pá de cal no assunto, me pareceu bastante interessante minha experiência derradeira na Mostra deste ano. Em primeiro lugar, abrindo parênteses, quero reforçar que, para evitar parecer ressentido ou tendencioso, com alegações parciais e julgamentos passionais, a coletiva do júri foi bastante diferente da anterior que abriu o evento. Desta vez, houve um número menor de tietes e um foco maior ao cinema. Ficou mais clara a composição do júri, os critérios não pré-estabelecidos de premiação, a tentativa de se valorizar o documentário ou dar ênfase a este gênero com uma premiação diferenciada, enfim, estávamos lá numa mesma sintonia, falando mais em arte e menos em números. Justiça seja feita. Mas voltando. Em 96, meu primeiro ano de maratona com credencial, escolhi para mim mesmo o filme Kavafis, dirigido pelo desconhecido Yannis Smaragdis, visto no extinto Cine Paulistano, como o melhor da Mostra daquele ano. Foi a partir dali que decidi eleger um número 1, um supra-sumo do festival nos anos seguintes. Isso me motivou a procurar por obras-primas escondidas, a garimpar por trabalhos excelentes sob meu particular ponto de vista, a eleger o Mr. Universo cinematográfico que foge aos padrões previamente estabelecidos nos demais festivais mundiais. Não sou, sob esse aspecto, alguém que faz questão de navegar contra a corrente. Mas entendo que a Mostra serve um pouco pra isso também. Se é Cannes, Veneza ou Berlim que ditam as regras do bom cinema, pra que então freqüentar insanamente as salas da região da Paulista? O fato é que, por razões mais minhas do que da Sétima Arte, eu queria encontrar um outro Kavafis. Um filme no mesmo patamar do inspirador. Foi este trabalho que me motivou a ler os poemas do escritor grego, a criar minha primeira comunidade no Orkut enquanto eu ainda estava cadastrado nele, a me dar o prazer de entrar em contato com uma partícula da literatura grega, tão pouco difundida nos tempos do emoticon e do hai-kai. E eis que, uma dúzia de anos depois, tenho a oportunidade única de assistir a El Greco, do mesmo diretor, pagando a quantia irrisória de R$ 1 (Cine Olido). Pelo que ouvi da representante da distribuidora que compareceu à sessão, o filme fez mais de 1 milhão de pessoas em seu país de origem. Pelo que li, o diretor não produziu mais nada pra cinema nesse ínterim. Um ou outro que viu o filme em cabine não gostou, mas mesmo assim a expectativa era grande. E, infelizmente, El Greco não cumpriu em satisfazer essa ansiedade. Smaragdis envelheceu. Deixou de lado sua força subjetiva de trazer poesia às imagens e cedeu a um aparato eloqüente, de gosto duvidoso, voltado a lições didáticas. Essa roupagem rebuscada pode até ter dado dinheiro aos produtores, mas nada acrescentou ao cinema. E aquela sala apertada do Centrão, que me fez lembrar do Metrópole e do Arouche quando ainda comprava ingressos individuais, a decadência (do ambiente, do diretor, da Mostra), aquela sensação de fim de tarde de sábado quente era o invólucro mais apropriado para sintetizar o encerramento deste ciclo. Seria impossível continuar a cultivar a Mostra diante da angústia do ocaso. Melhor voltar pra casa e acreditar, tristemente, que este evento renascerá renovado no ano que vem.