terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Oscar, a rede social

O cinema não deve acrescentar, deve subtrair. Pelo menos é o que eu penso e espero de um bom filme. Um filme consegue ser definitivo quando eu entro na sala com certezas e saio com dúvidas. Quando ele desconstrói ao invés de revigorar. Filmes que provocam, que incomodam, não são apenas aqueles que tocam em temas polêmicos ou mostram cenas ditas “fortes” sem pudor. São aqueles que, de alguma maneira, me consomem aos poucos com uma certa intensidade e insistência. Como se fossem uma cefaleia. Entro na sala com um organograma mais ou menos encaixadinho e saio dela com o quebra-cabeça todo desmontado. E olha que não é fácil desmontar um quebra-cabeça. Não basta apenas criar um roteiro todo confuso, hermético e onírico, como em A Origem, e sugerir desfechos múltiplos. Às vezes, a complexidade à qual me refiro está na pureza da simplicidade, como é o caso do macaco de olhos vermelhos do Tio Boonme, que Pode Recordar suas Vidas Passadas. O bom cinema não precisa me jogar na cara a minha profunda ignorância em solucionar epílogos mirabolantes. Eu não sou o Sherlock Holmes da Sétima Arte. Claro que o cinema de emboscada pode ser muito bom, às vezes uma obra-prima, como é o caso de boa parte dos trabalhos do Kubrick ou do Lynch. Mas eu me identifico mais com os filmes que me fazem repensar os valores de vida, os conceitos sobre a arte, sobre planos e espaços, sobre a linguagem, sobre o código. Filmes que, ao invés de me edificarem, me mutilam, que fazem me sentir bem pequenininho pra entender esse caótico mundo que nos assola.

Dito isso, volto a reforçar, com uma certa redundância, que a cerimônia do Oscar em nada me atrai ou me empolga. Além da premiação em si ser um porre, de tão demorada e enfadonha que é, já faz alguns anos que me desligo de torcer ou acompanhar a celebração dos favoritos indicados. Primeiro, porque é claro que o Oscar fica muitos passos atrás de outros festivais mais sérios e plurais, como Cannes, Berlim, Veneza. Estes (ainda) conseguem trazer um pouco daquele cinema que eu coloquei no começo do texto, talvez por aceitar melhor o corpo crítico e compor um quadro mais heterogêneo nas fases pré-seletivas. Mas a mediocridade do Oscar está mais em todo esse glamour, essa cafonice de estender tapete vermelho, discutir quem é que tá bem vestido ou não para a entrega da estatueta. Isso não tem nada a ver com cinema. Fora essa babaquice toda, os filmes candidatos ao mais aclamado prêmio mundial até que são razoáveis, bons, assistíveis. O problema deles é que, na maioria dos casos, não são filmes suficientemente fortes para ficar retidos na memória. Passada a euforia, voltam a figurar apenas nos arquivos do imdb.

Creio que a explicação dessa seleção de filmes voláteis, efêmeros, facilmente esquecíveis, esteja no processo como um todo, mas recai principalmente nos nomes. Tirando alguns exemplos raros de diretores queridinhos da América que se inspiram no próprio cinema para fazer sua obra, como Clint Eastwood, os irmãos Coen e mais algum outro caso que não me ocorre no momento, os demais indicam e são indicados pelo coleguismo, tudo na base do QI e da política da boa amizade. O Oscar nada mais é do que uma versão reduzida e estilizada do Facebook, um compêndio cinematográfico de uma rede social. Só falta os integrantes da Academia darem seus votos clicando no botão “curtir”. E os nomes em voga ultimamente têm claros indícios de que frequentaram a mesma escola e foram pré-aprovados pelo mesmo Concílio de Trento: Darren Aronofsky, Christopher Nolan, David Fincher, Sam Mendes, e por aí vai. Assim como a cerimônia, esses diretores abusam de seu cinema-desfile, em que pecar por excesso não é pecado, mas sim uma virtude. Trata-se do novo cinema de firulas, de malabarismos cênicos, câmeras rodopiantes, roteiros vertiginosos. Um tipo de cinema que vangloria o rococó do mise en scéne disfarçado de filme-problema. A Academia tem caído nas armadilhas desses truqueiros e seus filmes afetadinhos, onde tudo parece artisticamente belo e irretocável, onde não há espaço para as impurezas e as imperfeições da arte que imita a vida. Já se foi o tempo do cinema em perspectiva, que usa o próprio cinema como matéria-prima. Hoje parece que todos esses jovens cineastas vieram de uma geração espontânea, com suas regras e seus estilos determinantes. Acabou o cinema-conjunto, pensado como unidade e exercitado como uma somatória. Hoje os filmes que recebem os holofotes do Oscar (até talvez por uma questão de facilitar a premiação) são aqueles divididinhos, filmes pensados e realizados por camadas, onde fica fácil enxergar quando termina o trabalho de um profissional e começa o do outro. Essa celebração por categorias, se não chega a ser criminosa, no mínimo quebra o paradigma estrutural do cinema no que diz respeito à sua coerência. Um ator não está ali nas telas necessariamente para traduzir as intenções do diretor, que conduz sua câmera a serviço de uma ideia. Para um ator levar pra casa o prêmio, ele tem que se entregar fisicamente ao papel, mudar a voz, perder vários quilos, quebrar a unha do dedo do pé, esborcinar-se para exibir a dificuldade e a sofreguidão de estar em cena, ao invés de simplesmente... estar em cena. Entre outras fragilidades, o Oscar contempla meramente o resultado estético, o imediatismo do impacto. Valores menos contemplativos e mais substanciais dificilmente são colocados em questão. Isso pra mim não é simplicidade, é simplismo. Filmes candidatos ao Oscar são bonitinhos, mas ordinários. Nada me acrescentam. E pior: nada me subtraem.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Go home

A vida urbana traz também situações praticamente impossíveis de se conciliar. Tudo é muito rápido, tudo muito ágil. Comida não pode demorar mais que 20 minutos, textos não podem ter mais do que uma lauda, reflexões sobre a vida não podem ter mais do que um link. Com a vida ultrapassando o limite de velocidade, contudo, não sobra mais tempo para, numa jornada enquanto o sol ainda mostra o ar da sua graça, realizar todas as tarefas da sua profissão, levar os filhos pra escola, ir ao banco, fazer um curso extracurricular, academia, etc. Deve haver algum tipo de sacrifício: corta daqui, corta dali, estende-se o horário daquilo, e por aí vai. Vivemos um paradoxo: quanto mais rápido somos no que fazemos, menos tempo temos para fazer o que queremos ou o que precisamos fazer.

Algumas medidas de emergência, no decorrer dos poucos anos deste século, foram pensadas para se tentar diminuir este caos moderno e transferir a propagada agilidade do discurso para a realidade. Uma delas é aproveitar a internet como ferramenta e utilizá-la no sentido que ela proporciona: comunicação à distância. É o que se chama comumente de home office. Uma prática aparentemente boa e viável, já que dispensa horas de congestionamento, a presença física em ambientes de trabalho insuportáveis e pessoas mais insuportáveis ainda. Trabalhando de casa, ganha-se uma flexibilidade de horários relativamente maior, além do fato de que o profissional encontra todo o conforto do seu habitat.

Acabei de ler que a agência de publicidade DM9DDB está pensando em adotar o modelo home office. Não li a matéria, portanto, não fiquei sabendo em que casos e situações esta solução se aplica. A DM9 é uma agência do primeiro escalão, antenada com novidades e tendências. Oferecer esse tipo de mobilidade, para uma agência tão up to date como esta, é algo que veio até tarde. Mas, diante da necessidade, tal medida faz todo sentido.

Aí vem o outro lado da coisa. O mercado publicitário, stricto e lato sensu, conhece a DM9 e seu principal capitão, Nizan Guanaes. Seja por convivência direta, seja pela familiaridade com as lendas urbanas que correm soltas. De preguiçoso, o baiano não tem nada. Entre outros, ele foi um dos responsáveis por mitificar e desmistificar a profissão, com a mesma intensidade, a mesma paixão... e o mesmo desgosto. Para se alcançar o sucesso, os prêmios, a glória, o ápice da inspiração criativa, ou até mesmo para atender a necessidade pontual, imediata e urgente de um cliente esquizofrênico, na DM9 o pessoal passa dias e noites e dias e noites trabalhando. Dizem que o soteropolitano é intolerante com atrasos. Feriados sagrados? Só se for no calendário da sua terra de origem. No final da Brigadeiro Luís Antônio, palpita-se à boca pequena que a labuta é quase ininterrupta. Mas o Nizan não é o único culpado disso tudo. O mercado ficou mais complexo. As agências, como um todo, acostumaram mal o cliente. A DM9 é apenas o porta-voz de que o modelo das atuais normas trabalhistas está ultrapassado.

Por isso me ocorre uma dúvida. Alguma coisa nesta conta não está batendo. Como uma empresa de comunicação, tão vanguarda em suas ideias e tão caxias em seus horários, permite-se conceber o home office? Onde foi parar o rigor semiescravista? Será que a cúpula executiva está pensando em novas fórmulas para apagar esta má impressão no mercado e trazer de volta o estímulo dos grandes profissionais? Será que 8 a 10 horas de trabalho no conforto do lar equivalem a 14 horas (ou mais) no hostil ambiente de escritório, em termos de produtividade? Será que o tal home office nada mais é do que uma mudança de endereço do stress? Ou será que a DM9 soltou essa notícia apenas como forma de estar mais uma vez na mídia, antes que seu nome seja esquecido junto com essa imagem borrada?

Em nome da vil Propaganda, torço para que a notícia seja ampla e verdadeira, e não mais um boato que se transforma em fofoca e que se transforma em maldade na velocidade da internet. Será muito bom para todos nós que a DM9 seja uma das pioneiras a levar a descontração da home para a turbulência do office. E não o contrário.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Entre o Haiti e a Austrália

Detesto essa tal de nomenclatura BRIC. Me dá enjoo até pra pronunciar essa palavra besta. Parece que estou cuspindo. Mas o que eu mais odeio é a razão pela qual algum economista míope e, provavelmente, sem ter mais o que fazer, criou esse status mentiroso de ascensão econômica. Melhor seria continuarmos “emergentes”, igual constava nos obsoletos alfarrábios ginasiais de Geografia. Eterno gerúndio que assume moderadamente a nossa inquestionável condição de pobreza. Mas não. É economicamente correto e poliano fazer com que as nações gigantes pela própria natureza, no que diz respeito aos números e cifras, encostem nos Estados Unidos, na Alemanha, no Japão. É que nem campeonato de futebol, ou liga de boxe, ou algum atributo desportivo similar. Para mascarar um desclassificado no ranking, os mecenas do esporte criam outros parâmetros e fazem com que este subalterno do pódio se considere um campeão. E o que me traz mais aborrecimento não é essa maquiagem produzida para se elevar a auto-estima do subdesenvolvido. Essa sigla dadaísta cria a falsa sensação de que os quatro países fazem parte de um mesmo grupo, homogêneo e planificado, sem levar em conta suas causas e diferenças históricas. A Rússia passou por uma ditadura do proletariado e agora está tirando o atraso de uma demanda reprimida. A China utiliza mão-de-obra escrava para sua linha de produção ser competitiva com a América do Norte e o Japão.

Mas vamos falar de Brasil. Chega de viajar. Brasileiro é bipolar, isso é notório. Durante a ditadura, o período inflacionário, o povo brasileiro se acostumou a conviver com o pessimismo. Com a crise da Argentina, muitos chegaram a acreditar que o efeito da vodka Orloff “eu sou você amanhã” iria aterrissar por aqui. Afinal, o país que vai pra frente puxou o freio de mão e ficou à deriva do FMI e dos mandamentos internacionais. Teve até quem pensasse que vender a Amazônia seria a solução para quitarmos nossas dívidas com o mundo. E aí, de repente, não mais que de repente, surge Luís Inácio da Silva, o cara. Ele, que trouxe sua Bolsa-Esmola para acabar com a pobreza da nação. O homem que sabia de menos. O homem que ganhou os holofotes da imprensa internacional porque, no início de seus discursos, se preocupava mais com o resultado do jogo do Corinthians do que com o repúdio que o mundo exerce sobre Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. O presidente mais popular da história entupiu o povo de Prozac. Fomos dormir pobres e acordamos ricos. Como num passe de mágica. Como nos tempos do overnight. A crise mundial que soterrou a Islândia e quebrou a General Motors soou aqui como uma grande mentira. Crise, que crise? Somos auto-suficientes, temos o Pré-Sal, sediaremos as Olimpíadas e a Copa do Mundo numa tacada só. O Brasil ficou bonito na foto. E o brasileiro continua sedado, ainda sob o efeito do torpor alucinógeno da droga “boa noite Cinderela”, que nos assalta enquanto sonhamos. Com a volta do conforto da classe média, a autoconfiança evoluiu pra arrogância. O caipira da era FHC agora é country. Saímos às compras como quem vai à guerra. Afinal, somos os endinheirados do continente, a bola da vez. Temos orgulho de poder comemorar um Natal por mês. Podemos agora ter ar-condicionado em casa e ir ao exterior. Podemos mostrar no país das Torres Gêmeas como o palhaço Mazzaroppi de Garanhuns prosperou. Estamos confundindo estabilidade temporária com euforia megalomaníaca. Olhamos para o nosso próprio umbigo, mas não fazemos a mínima questão de cuidar da micose dele. Temos os maiores shopping centers e as maiores favelas. Compramos mais carros novos do que os alemães, mas também somos campeões invictos de acidentes de trânsito. Temos mais de um celular por habitante e um médico para cada 600 habitantes, metade do mínimo recomendado pela ONU e pela OMS. Somos um dos países que mais acessa a Internet e que menos lê livros. Falando nisso, temos a pior banda larga (e a mais cara) e o pior serviço de telefonia móvel do mundo. Estamos no G8 da economia, do futebol, da propaganda e da corrupção política. Somos pentacampeões no esporte mais popular do século passado, mas ocupamos o 85º lugar na Educação. Somos imbatíveis na quantidade de processos encalhados. Temos os médicos mais bem qualificados e o pior serviço de saúde pública. Na lista dos melhores países para se viver, ocupamos o modesto 50º lugar. Mas OK. Lula is the man.

Faz um ano que houve os terremotos no Haiti, orifício retal do mundo, um dos piores lugares do planeta pra se viver. Vendo as imagens pela TV, parece que agora a situação tá ainda pior do que nos momentos da catástrofe. É triste ver as ruínas de uma cidade que reconstruiu apenas 5% do necessário, as pessoas na rua passando fome, a malária dominando o visual feio e enrustido de uma população que não sabe mais a quem recorrer. Isso sem falar no exército de prontidão nas ruas, figura de força psicológica bruta e soberana para tentar coibir saques e manifestações. O Haiti é escombro do passado, miséria esquecida da humanidade.

Acabei de ler uma manchete que diz que, devido a uma gestão mais planejada, o número de mortes na Austrália, decorrentes das enchentes, é menor do que no Rio de Janeiro. Não li a matéria, não fiz questão de ler. O próprio título já anunciava uma obviedade. Claro que morte, uma única que seja, é sempre algo a ser lamentado, independentemente das causas e do lugar. É igualmente comovente a situação da Austrália, e também a história do menino que morreu afogado ao tentar salvar seu irmão mais novo. Mas o Rio de Janeiro chora mais de 500 vítimas soterradas. É meio milhar que vem a faltar nessa órbita por causa de São Pedro, da força netuniana das águas e, principalmente, por causa da incompetência administrativa e do descaso político. O Brasil sempre se vangloriou de ser a terra da fartura e da abundância de recursos, do clima favorável, da quase inexistência de acidentes geográficos. Se São Pedro realmente quisesse testar seu rebanho aqui embaixo, não seria tão previsível assim.

Quem percebe que essas sucessivas tragédias no país não são uma anormalidade meteorológica nem uma vontade divina, provavelmente deve concordar que ainda temos um longo caminho a percorrer até sermos reconhecidos como potência. Frente a essas duas realidades apresentadas, ocupamos o largo vácuo da coluna do meio. Não atingimos o nível zero do Haiti, mas estamos bem longe de poder provocar os vizinhos hermanos como se fôssemos reis da cocada preta. O Brasil tem, sim, capacidade de atrair investimentos estrangeiros e de melhorar a qualidade de vida de sua população. Mas os deslizamentos recentes atestam que, por enquanto, devemos nos contentar apenas com o ranking meramente mediano. Somos mornos, somos mais ou menos. Somos emergentes, tal qual a classificação que nos foi dada pelos livros de Geografia de 40 anos atrás.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A arte foi bela

Sonhar é preciso. Sonhar faz bem. Imagine conviver com uma sociedade organizada, numa metrópole-modelo, referência para os padrões internacionais. Encerrar a sua jornada diária num cinema que nada mais é do que a extensão de sua casa ou de seu trabalho e, portanto, localizado na própria rua em que você está acostumado a habitar. Suponha que sejam as ideias que movem e transformam o mundo. Ideias valem mais que dinheiro. E é no cinema que você vai se alimentar delas, pra depois descarregar seu esforço cíclico ao se reunir com seus amigos num bar de esquina em frente ao cinema. Uma taverna famosa por congregar os mais entusiasmados artistas, intelectuais, cientistas e manifestantes políticos. É o cinema que provoca, desconstrói e reformula suas ideias. É o cinema que te traz insumos para travar as discussões homéricas com estes amigos nas rodadas de cerveja. E é neste bar que você irá, por causa do filme que acabou de ver, tentar entender melhor o ser humano ou traçar os rumos pra consertar a desordem deste país.

Diante deste quadro que beira o absurdo, seja pela utopia de sua proposição ou pelo desbotamento descritivo de suas linhas, fica fácil concluir que o cine Belas Artes morreu por causas naturais. Infelizmente, o templo heptagenário da cinefilia paulistana estava praticamente falido depois que perdeu o patrocínio do banco HSBC. O bar de esquina (Riviera) fechou faz tempo, não existe mais. A intelectualidade então, nem se fala. Tirando os eventos de relativo sucesso (Noitão e Sessão Cineclube, dependendo do filme) e os dias da semana com valores dos ingressos mais convidativos (segunda e quarta-feira, R$ 10), foram poucas as vezes que vi o Belas Artes movimentado. Já faz um tempo que o cinema se afastou de seu(s) público(s). A população considerada “média” prefere os blockbusters que não passam ali. Para essas pessoas, o cinema está mais para a diversão do que para a reflexão. Nada mais rentável então do que fazer apostas seguras, considerando-se que filme é como uma bolsa de investimentos e de cotações e não objeto de análise da matéria. Este nicho prefere a segurança dos shoppings, redoma e cárcere do consumismo, e a Sétima Arte ali se mistura ao odor homogêneo das batatas fritas, dos perfumes de marca, ao som irritante dos bipes das senhas e do poperô das lojas, ornada com o visual sinestésico e multicolorido Flicts, amálgama acinzentado do nada. Cinema de shopping não tem cara, não tem gosto, não tem vida. Mas se é ali que se depositam os trocados que fazem a diferença nos relatórios semanais de bilheteria do Filme B, resta pouco a se criticar. Mas o Belas Artes não perdeu a guerra somente em relação a essa cultura rasteira. Os próprios cinéfilos de rua andaram preferindo outros redutos vizinhos. Para eles, o Belas Artes ficou devendo a reforma que nunca houve. Com o patrocínio bancário, realizou apenas uma maquiagem nas suas instalações, mudou o visual, trocou assentos, tirou o mau cheiro e tal. Mas faltou uma reformulação em sua estrutura. Em tempos de dolby surround e 3D, a qualidade de som permaneceu discutível até os últimos dias. E a projeção também deixou a desejar, se comparada à concorrência. Isso sem falar na projeção em formato digital, que nem vou mais entrar nessa seara. Na verdade, as salas que valiam a pena frequentar eram as superiores, numa tentativa de se colocar a arte mais próxima ao culto e à adoração divina.

Verter lágrimas para o Belas Artes é mais um ato simbólico do que uma manifestação sincera de tristeza. No ano passado, o Gemini também fechou suas portas e não conseguiu trazer nenhuma comoção maior do que o caráter saudosista que embalava os farrapos descosturados das salas decadentes. Esse tipo de manifestação em caráter de luto traduz apenas um sintoma de que o cinema de rua, como um todo e não especificamente este ou aquele caso citado, está morrendo aos poucos. Houve uma mudança cultural, uma migração progressiva e inerente de hábitos. O download internético e individualista é um processo irreversível, assim como as fitas VHS também um dia foram uma ameaça ao cinema em película. De um modo geral, 2010 foi festejado com um aumento de bilheteria, mas isso causou pouco impacto à sobrevivência do Belas Artes. A esquina da Paulista com a Consolação (nome de rua bastante apropriado ao momento) vai ficar na memória por causa de sua carga cinematográfica histórica, como a exibição exclusiva de Godard e a confusão que seu Je Vous Salue Marie gerou, a polêmica em torno de O Último Tango em Paris, as intermináveis sessões de O Carteiro e o Poeta, Cinema Paradiso, As Bicicletas de Beleville e, recentemente, Medos Privados em Lugares Públicos, os festivais de cinema russo, a nouvelle vague, o período Gaumont, a Mostra de Cinema, etc. É bom lembrar que o charme dessa esquina nada mais é do que um imóvel para fins comerciais. Seu destino ainda é uma incógnita, mas tudo aponta para um templo do comércio, do pagamento a prazo, do atendimento frio e impessoal que nada lembra o aconchego da sala escura. Não adianta chamar o seu Maluf de mesquinho ou insensível à causa. O prédio do Belas Artes foi colocado em leilão. Ganha quem oferecer mais pelo espaço. No contexto capitalista que permite a proliferação de cultura em shopping, essa atitude é até natural. Se o verdadeiro cinéfilo ama o Belas Artes só que à distância dele, em nada adianta o proprietário amargar prejuízos mensais em nome do luxo de oferecer à cidade um patrimônio da belle époque. A única maneira de manter o Belas Artes vivo, ainda que respirando por aparelhos, seria uma intervenção da Prefeitura ou alguma medida judicial proibindo a mudança de sua trajetória. Amor platônico não é forte o suficiente para manter a arte viva. Numa sociedade em que o cinema é pensado como produto, amor que sustenta a arte é o amor pago. É o amor prostituto.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

À prova de Godard

Detesto projeção digital. Nunca escondi isso. Quem me conhece melhor já sabe o quanto eu reclamo sobre essa aberração. A última Mostra de Cinema, por exemplo entre outros exemplos, foi a prova concreta do quanto esse tipo criminoso de exibição compromete o produto artístico final. Mas eu e meia dúzia de gatos pingados somos voto vencido. Os heróis da resistência simplesmente abandonaram a luta. A resposta da assessoria de imprensa do festival sobre o assunto (por acaso, publicada no Guia da Folha), dentre inúmeras justificativas indefensáveis no decorrer dos tempos “modernos”, funciona como um atestado de óbito. Algo como “é o que temos”. Sabe quando você entra no boteco, pede uma esfiha e uma Coca-Cola, e o atendente mal-humorado avisa que só tem Pepsi e coxinha amanhecida? Pois é. Então você entendeu. Não sou contra avanços tecnológicos ou tendências de formato, pelo contrário. Também não sou a favor. Se o digital veio para democratizar o meio, reduzir custos e trazer o poder de ampliar a arte a um maior público, perfeito. Mas o que me incomoda muito é o jeitinho brasileiro de fazer tudo de qualquer jeito. Do jeito que dá. Do jeito que interessa somente a quem produz, comercializa e detém o monopólio de mercado (pensou em Auwe Digital, ex Rain Network? Acertou!). O cinema dito “de arte” (melhor seria dizer “de pouca bilheteria”) perdeu feio essa batalha. Resta aos felinos aspergidos o deleite de contemplar essa morte lenta e agonizante.
Enfim... sobre essa questão, faço uma reflexão retrospectiva que me chamou a atenção, particularmente em dois casos. Duas boas e duas más notícias, ou quem sabe dois problemas sérios inevitáveis e dois atenuantes. Nem vou entrar no mérito da qualidade de projeção, da fidelidade de cores e de tamanhos, definição e nitidez de imagem, ajuste de contrastes, nada disso. O buraco é mais embaixo. Depois de um tempão de promessas não cumpridas, de um atraso homérico, de vencimento de contratos e burrices estratégicas da distribuidora, eis que o tarantinesco À Prova de Morte é lançado em circuito neste ano. Aleluia. Todavia, a película limitou-se a apenas uma sala. Isso não poderia ter acontecido. O filme não só faz uma homenagem ao cinema de rua e reverência aos gêneros considerados trash de décadas passadas, mas também se vale da forma para fazer este retrato. Exibir em digital as trocas malfeitas de rolo, a bolinha no canto do quadro, as distorções cromáticas que nos fazem embarcar numa viagem ao tempo, os hiatos e delays na sonorização, tudo isso não faz sentido algum no formato citado. É o mesmo que limpar os chiados do vinil, justamente nas músicas que precisam deles para expressar sua arte. À Prova de Morte não foi concebido para ser equalizado ou remasterizado. Fazer por conta própria esse tipo de remixagem é, literalmente, uma prova de morte despejada em Tarantino.

Outro caso que merece particular atenção é o recente lançamento de Filme Socialismo, em homenagem aos 80 anos de Godard. Na melhor interpretação de “não se pode ter tudo”, esse trabalho foi lançado em duas versões: uma em película, porém com uma legendagem especial, a pedido do próprio diretor, que traduz apenas fragmentos do texto original. Para quem não entende lhufas de Francês, essa tradução torna o filme ainda mais incompreensível do que realmente é. A outra versão contempla a legendagem integral, porém, foi lançada em digital. Como muitos sabem, Godard faz a desconstrução do cinema usando o próprio cinema. Suas imagens (independentemente da beleza embutida ou não) não servem apenas para ilustrar o roteiro, mas são o artifício principal para essa conhecida iconoclastia. Godard faz o cinema da reflexão, e a metalinguagem é um dos mecanismos para defender (ou quebrar, ou até mesmo reinventar) suas ideias e proposições. Transformar a imagem originalmente pensada, neste caso, não significa apenas esmaecer seu vigor estético e deturpar sua concepção final. É muito mais que isso. É validar uma incoerência sobre a qual o filme não trabalha. Podemos até não gostar do filme, ou questionar a validade de sua desordem narrativa. Mas pensar em Filme Socialismo no formato digital é levantar a bola de uma ruptura que não existe. Isso é mais do que um descaso. A meu ver, está mais para o deboche.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Hora extra

Tem gente que anda dirigindo na contramão. Inclusive em Propaganda. O último comercial do Honda City é bonitinho, tem um ritmo legal, mas, do ponto de vista social, traz uma mensagem repugnante. A começar pelo tiro no próprio pé: prova-se que o carro é caro pra caramba. Quem quiser ter um vai precisar fazer muitas horas extras. Até aí, nenhuma mentira. O sucesso tem um preço, e este aqui ultrapassa os R$ 50 mil. Mas o pior de tudo é ver que, enquanto se discute uma maneira mais saudável e prazerosa de se encarar a labuta diária, enquanto algumas nações estudam afrouxar a carga horária trabalhista, enquanto as empresas ditas de vanguarda procuram oferecer mecanismos para trazer maior qualidade de vida à sua equipe, o Honda City toca no ponto que os trabalhadores engravatados menos toleram: viver pra trabalhar, e não o contrário. Alguns setores (e muito provavelmente a agência que criou este filme) estipulam como regra a exploração com cara de produtividade. Nelas, sair no horário, deixar “cair o lápis”, como se diz popularmente, enquanto a dia ainda está claro neste horário de verão, é visto como sinal de preguiça, de acomodação, de estopim para uma rebelião sindicalista exigindo direitos rasurados na Carteira de Trabalho. Alguns empreendedores míopes creem que a pessoa que tranca as portas da empresa e apaga as luzes antes de sair é o exemplo de dedicação a ser seguido. Mas, podem acreditar, existe vida inteligente além dos biombos e dos tapumes que acobertam os laptops. Ainda mais nos dias de hoje, em que as referência para a inspiração no trabalho podem surgir no convívio com outros elementos mais divertidos do que uma planilha de Excel ou uma apresentação de Power Point. Torço muito para que os bipolares do ofício executivo comprem um Honda City antes de todo mundo. Mas o que me incomoda é o cinismo do comercial. Concordo que a Publicidade tem o dever de experimentar o novo, dizer coisas que ainda não foram ditas, e para isso valem ideias abomináveis como o riponga que se apaixona por uma ovelha, uma família que se comunica por telepatia, só para ficar em alguns exemplos do segmento. Mas este filme, especificamente, não traz avanço algum. Apenas reitera um modo de produção que até mesmo os donos de Vemaguete pensam em aposentar.

domingo, 24 de outubro de 2010

A culpa é da Nicole

Se você alimenta uma certa admiração ou interesse pelos primeiros filmes de Todd Solondz, Neil Labute, Greg Araki, Darren Aronofsky, Alexander Payne, Paul Thomas Anderson e toda a turminha do fundão do cinema norte-americano, certamente irá apreciar esse Sentimento de Culpa e toda a mesquinhez humana que ele incita. A cena inicial, closes de seios de idosas sendo submetidas a mamografias, com um fundo musical alegrinho que faz uma alegoria ao sul dos Estados Unidos, já denuncia boa parte das intenções da diretora Nicole Holofcener. Não existe, nem com muito boa vontade, um parecer que possa justificar a gratuidade desse registro, pois o que está em questão no filme não é o envelhecimento ou algum tema congênere, e a personagem que acompanha esses exames tem um papel secundário. Esse fetichismo sádico permeia o restante do roteiro e traz muitas semelhanças com a ironia física e leviana evocada pelos ícones da desgraça alheia citados no introito. É certo que a potência estadunidense hoje nada mais é do que um acúmulo de carboidratos e de desajustes sociais e familiares, e discutir a crise dessas relações pós-Obama seria algo bem-vindo. Mas o olhar cínico e superficial de Nicole, maquiado de cinema provocativo, não dá margem a essa leitura. Temos uma adolescente com complexo de peso e de espinhas, um casal acomodado com a rotina, um pai ausente, uma relação extraconjugal envolvendo uma alcoólatra frustrada, uma relação de ódio e de submissão envolvendo uma avó esclerosada, e por aí vai. Ninguém se salva. Apple city está contaminada por maçãs podres. Você acha que estou exagerando? Então tente encontrar uma justificativa plausível para a cena de uma equipe de jovens com Síndrome de Down treinando basquete. Sentimento de Culpa é a condensação frívola dos novos seriados da Warner, que tratam o ser humano como um aperitivo descartável para o talk show do horário nobre da televisão. E se você imagina que o título sugere uma redenção autopiedosa dos personagens, pode incorrer em erro. A única protagonista que se sente culpada pelo status quo da miséria social instaurada é Kate (Catherine Keener, a musa-coringa do cinema independente), que dá generosas esmolas a mendigos porque não consegue conviver harmoniosamente com a parasitose de sua profissão, que é a de comprar móveis e cacarecos das casas das pessoas que acabaram de morrer para revender como objetos de arte. Nesse contexto, tem-se a impressão de que a culpa é mais da Nicole do que de Kate (vocês se lembram da cena final de As Confissões de Schmidt?). No filme, os personagens estão acomodados no conforto de seus conflitos. Não há espaço para suas angústias. Estender a mão ao economicamente excluído, além de mostrar um falso altruísmo que o filme não questiona, talvez seja uma maneira terapêutica da diretora transferir seus remorsos à personagem. Está claro que o cinema low profile de hoje não precisa de donativos. Não é a esmola que vai curar a maneira sórdida e astigmática de Nicole enxergar seu mundo e as fraquezas de suas pessoas.

1 lentilha

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Cala a boca

No meio da mais esquisita Copa do Mundo das últimas décadas, um grito soou mais forte do que qualquer vuvuzela distante dos solos africanos: “Cala a boca, Galvão”. Era mais do que um coro ululante. Era a voz de protesto e de indignação de mais de 150 milhões de pessoas (o novo Censo nos trará um algarismo mais exato) diante da mediocridade dos comentários do jornalista citado. Galvão Bueno e Dunga se merecem. São o fruto colhido de uma autarquia monástica e imperialista do futebol brasileiro, sem a arte e o tempero que caracterizam a beleza de nossa cultura e nossa ginga plural. A Era Dunga, graças ao bom Deus, acabou. Junto com ela, vão-se embora os Zagalos e os Parreiras que preconizaram o ludopédio pragmático, aquele ditame de passes feitos em nome do tão questionado futebol de resultados. Felizmente, esse fast-food insosso da bola não vai mais estar com a gente em 2014. Dunga e os zangados partiram, mas o mala-sem-alça da Rede Globo, campeão das bobagens e dos salários, continua rígido em seu altar.

Mais uma vez, as redes sociais não foram apenas a mídia, mas também o palco dessa passeata virtual. Já que o brasileiro anda tão abúlico quanto à política palhaça que invade nossos lares, pelo menos quando o assunto é paixão nacional alguma coisa se mobiliza neste país. E já que essas redes se beneficiam do marketing viral, do buzz ou de qualquer nomenclatura que defina esse contágio instantâneo, pode-se dizer que o grito de guerra antigalvanizador funcionou muito bem. Tanto é que, tempos depois, uma nova onda inflou os internautas em prol do silêncio de Tadeu Schmidt.

Até aí tudo muito legal. De fato, a alegria dos inflados 140 caracteres é bem mais interessante do que as análises científicas dos filósofos da futebologia. Mas essa irreverência toda, essa descontração típica de um país sacolejante se não é hipócrita, quem sabe esconde algo pior. Hoje um dos tranding topics (pra quem não está acostumado a esse jargão, significa um dos assuntos mais comentados) do Twitter é “Cala a boca, Sabrina”, uma alusão à desastrosa entrevista que a apresentadora do Pânico teve com o teen idol Justin Bieber. Arranhando um Inglês mais torto e truncado que o do Joel Santana, a caipira nipônica não sabia de onde vinha e pra onde ia. E o galã imberbe deixou muito clara a sua impaciência com aquele improviso com cara de pegadinha.

É claro que reagir e manifestar sua opinião é um direito de qualquer cidadão. Mas é bom lembrar que a sociedade brasileira em tempos de individualismo online não se caracteriza por sua atividade contestatória, muito pelo contrário. Mandar alguém calar a boca, mesmo que num tom jocoso e imediato que é a marca registrada do Twitter, reflete um comportamento autoritário que resgata, ainda que em fogo brando, os regimes de governo mais conservadores que já tivemos. Se a massa formadora de opinião se mostra tão indiferente sobre assuntos de máxima importância que poderão nortear os rumos do país, não acho que ela tem o direito de cercear ou travar essas aparições públicas da TV, por mais tacanhos e ingênuos que sejam seus pontos de vista. Ter o Galvão, a Sabrina, o Tiririca e a Pera calados faz bem aos nossos ouvidos, mas faz um mal danado e irrecuperável à democracia. Está certo que vivemos numa sociedade darwinista que só cede lugar aos bem-humorados, aos “espertos”, aos carismáticos que abrigam milhares de seguidores nas redes. É nosso direito de escolha aplaudir o Rafinha Bastos, a Bárbara Gancia, o Léo Jaime, a Rita Lee e tantos outros queridinhos da web. Mas não se esqueçam, retaliadores de plantão, que a melhor arma para combater a ignorância desses emergentes é mudar de canal, dar um unfollow, deletar de suas vidas. Querer angariar público para amordaçar essas pessoas é dar ainda mais força à censura que está louca procurando brechas pra voltar. E vocês entraram no Twitter justamente por causa da “liberdade de expressão” que a ferramenta estimula, correto?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Permanecer correndo

Quem me conhece sabe que eu tô sempre correndo. É normal. Meu passo é naturalmente acelerado e, não sei por que cargas d’água, tô sempre atrasado pra alguma coisa. Não foi diferente da última vez em que pisei no shopping Center 3, na esquina da Paulista com a Augusta. Como não poderia deixar de ser, a grade de programação dos filmes das salas do Bristol foi planejada com horários ingratos e, como é de praxe, eu quis correr atrás do prejuízo imaginando as costumeiras filas que se formam diante da lerdeza das bilheterias. Acelerando um pouco mais o passo, eu conseguiria, talvez, nessa angústia metropolitana no pique de Fórmula 1, ultrapassar uns dois ou três possíveis interessados em ver algum filme. E, como rege a Lei de Murphy, certamente se trataria de pessoas que perguntariam os filmes, o gênero, a duração, não teriam dinheiro trocado ou tentariam passar seus cartões de crédito/débito no sistema congestionado ou inoperante. Sei que a culpa é 100% minha. Eu é que não consegui me livrar dos afazeres em tempo hábil e fui obrigado a fazer essa compensação de minutos na boca do caixa. Quis dar uma de esperto, na tentativa de perder o menor número possível de frações de tempo de um filme previamente começado. Foi durante essa maratona relativamente taquicárdica que ouvi de um daqueles seguranças vestidos de urubu me dirigir a palavra. Aquele tipo de profissional que não faz nada a não ser te proibir de fazer qualquer coisa, sabe? Em tom parcialmente austero, ele me chamou a atenção, dizendo que era proibido correr. Nem dei bola. Fui até o fim da fila, que dobrava a bilheteria e quase encostava o quiosque de alguma marca qualquer de celular. Percebendo a abordagem mal-feita, ele se retratou e voltou a mim dizendo, de uma maneira mais polida e condizente com sua função, mais ou menos isto: “O senhor me desculpe pelo modo como falei com o senhor, mas é proibido permanecer correndo aqui nas dependências do local. Muito obrigado”. Ponto para o segurança. De fato, eu não dei motivo algum para ser tratado como um meliante. E o arrependimento, a retratação, são atitudes louváveis e bem-vindas na nossa cultura cristã. OK, tudo bem, a mudança de comportamento, a abordagem mais branda, o modo educado de falar, tudo isso conta pontos a favor do distinto. Nem vou entrar no mérito linguístico em relação ao erro semântico da frase. Mas me incomoda muito essa confusão de valores que se faz em todas as esferas sociais. Por um lado, temos o faroeste da terra-de-ninguém das metrópoles, a selvageria bandida que nos amedronta. Isso questão de uns 20 passos do ponto onde ele me repreendeu. Mas o descaso policial do lado de fora em nada justifica essas proibições gratuitas em ambientes mais fechados, ou que, pelo menos, procuram causar impacto com uma suposta e falsa imagem de organização. Isso pra mim não é o exercício da cidadania, muito pelo contrário. Seria precipitado de minha parte afirmar que se trata de um ranço da ditadura, mas a atitude do indivíduo de fazer questão de mostrar quem manda em nada condiz com os riscos do ato acelerado em si. É bem provável que o tal funcionário não tem a mínima noção do que faz, e foi treinado por empresas e equipes que não deram a ele o mínimo preparo nesse sentido. Eu não ofereci riscos à segurança de ninguém. Não me foi apresentado nenhum estatuto interno do shopping de rua determinando o que se pode e o que não se pode fazer. Provavelmente essa “lei interna” nem existe. Certamente o guarda me chamou a atenção pelo simples fato de eu fugir dos padrões da maioria circulante. Pessoas como ele, que precisam muito do dinheiro pouco, aceitam empregos, cargos e determinações sem ao menos questionar esses tais valores sociais. Vestidos de farda, sentem-se tão autoridades quanto os milicos do nosso país. E, na cabecinha deles, inventar normas e procedimentos e abusar do poder nada mais é do que valorizar o seu trabalho. Se o Brasil está, do ponto de vista ético, de cabeça pra baixo, não é esse ato arbitrário do nosso soldado raso em questão que vai desentortar as coisas. Muito pelo contrário. São atitudes pequenas como essa que me fazem ter a plena convicção de que vivemos numa nação ridícula.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Violência genuína

Triste do país que tiver como modelo icônico da liberdade de expressão um programa televisivo como o CQC. Mas não tem jeito. Diante de uma programação pífia e medíocre que nos é oferecida como prato principal desse “micro-ondas de informações”, é talvez a melhor opção de um cardápio ralo e repleto de gororobas do entretenimento. Os canais abertos não saíram da década de 70, no pior sentido da comparação. Falar que os discípulos evangélicos e globais do SBT são pura baixaria é algo tão lugar-comum quanto eufêmico. Em compensação, os enlatados da TV a cabo nos dão a sensação de que estamos diante daquelas televisões de cachorro de padaria, todas idênticas no domingo à tarde, em que o frango assado gira ininterruptamente, numa mesma cena, num mesmo eixo. Se programa de TV virou commodities, ao menos o CQC estabelece um mínimo diálogo com a linguagem cibernética, lacônica e infame do público massivo de hoje. Seja pelo imediatismo da matéria, pela suposta irreverência ou pela aproximação com algumas tendências da comunicação, como as redes sociais, por exemplo. Diferentemente dos siberianos, enfadonhos e retrógrados Altas Horas ou Amor e Sexo, por exemplo, que expõem a moçada como figurantes, usam gírias mas não passam de cartoons colorizados da época de Gil Vicente. O Custe o que Custar é palco publicitário para os aspirantes a ator de stand-up comedy. Toca nas feridas políticas de modo tão sintético e limítrofe quanto a capacidade de armazenamento do Twitter. Ainda assim, rende os assuntos mais saborosos das conversas de escritório das manhãs de terça-feira, já que o período matutino de segunda e quinta é monopolizado pelos bocejantes comentários futebolísticos. E, depois de tantas voltas, é sobre ele que eu me proponho a falar. Voltando ao tema: a democracia no Brasil consolidou-se de forma tardia, capenga e burra. Quase todo dia, encontramos provas mais do que evidentes, em todos os níveis possíveis e nas mais diversas esferas sociais, do autoritarismo do poder de expressão, da coibição sobre a pluralidade de pensamento, da restrição ao diálogo aberto. O povo brasileiro, de um modo geral, ainda não está acostumado ao confronto sadio de ideias. Não sei dizer, e seria arrogante da minha parte, atribuir a culpa sobre esse regime social stalinista, obtuso e intestino à política e aos políticos brasileiros. Talvez o problema seja muito maior e a raiz, muito mais profunda do que isso. Mas séculos e séculos de um sistema patriarcal, de sucessivos governos em que o líder de uma nação é considerado o “pai do povo”, aquele que dá pirulito à criança que se comporta direitinho e palmadinha no bumbum dos mais rebeldes, fomentaram esse comportamento patológico pouco flexível ao pluralismo ideológico. Fazemos parte de uma massa sem vontade própria, regida pelos mandos e desmandos de um tutor-coronel da república do café e das capitanias hereditárias da macaxeira. E isso se reflete até mesmo na escala zero da pirâmide hierárquica. Basta entregar a um desdentado uma arma, um coldre e um colete à prova de balas com o bordado “segurança” nas costas que o indivíduo já se sente “toridade”, com poderes atribuídos por ele próprio de tapar com a mão as lentes da câmera e falar pro repórter “vai trabaiá, vagabundo”. Não, não é descrição preconceituosa da minha parte não. É um fato registrado pelo VT da Rede Bandeirantes que, em última instância, é o resíduo podre e caduco dos tempos da ditadura. Se esta atitude milica, muito mais uma vontade de provar a ascensão social do que ter a plena consciência do seu exercício do autoritarismo, ocorre já nas camadas de base, imagina então como se dá esse comportamento numa laia mais graúda. José Sarney, bastião das alianças espúrias que o governo do PT andou fazendo, também foi protagonista de um episódio vexatório que envolveu um entrevistador do referido programa. Ao tentar abordar o ex-Presidente e pedir explicações sobre os escândalos do Senado, o repórter Danilo Gentili foi fisicamente agredido pelo seu segurança pessoal. O bigodudo marimbondo de fogo dos maranhões esquivou-se da saia justa, mas as imagens constrangedoras renderam ao programa uma série de notícias, manifestações de repúdio ao sistema e votos de solidariedade ao apresentador. E, ao jagunço esclarecido do agreste, o delito rendeu, de acordo com o âncora Marcelo Tas, um processo judicial que, espero, não termine em pizza.

Se a história ao menos nos ensinasse que os fatos mais hediondos pudessem servir de escadaria para a maturidade, seria menos mal. Pagaríamos um preço – alto – pela apostila do crescimento e do desenvolvimento. Não é bem o que ocorre. A história se repete justamente pela recorrência de seus erros. No programa CQC do dia 30 de novembro, o repórter Rafael Cortez, novo integrante do quadro Controle de Qualidade, passou por uma situação semelhante e igualmente imperdoável quando foi dirigir uma pergunta a outro José, dessa vez, o Genoíno. Sinceramente, sou novato em matéria de CQC. Não sei se, nos primórdios, houve alguma rusga entre o deputado e a equipe do programa, ou algum tipo de situação mal-esclarecida. O fato é que o nobre constituinte, que já havia caído no meu conceito devido às suas recentes posições políticas, parece que enterrou de vez minha credibilidade depositada sobre ele e sua carreira de guardião da democracia. Um dos mais contumazes lutadores da resistência contra o regime militar, ex-preso político, torturado, participação ativa na questão Araguaia, talvez tenha saboreado o gostinho de estar do outro lado do poder. Em inúmeros programas anteriores, o ilustre parlamentar, no seu legítimo direito, jamais abriu a boca para conceder entrevistas ao CQC. Sempre sisudo, o político escapava das pegadinhas assim como os mensaleiros fogem da CPI. Tudo bem, confundir seriedade profissional com antipatia é perfeitamente perdoável. Sempre imaginei que esse semblante carrancudo fosse a caracterização de um Genoíno personagem de si mesmo. Mas dessa vez seu mau-humor foi longe demais. Em suas próprias palavras, o petista acusou o programa de pregar a violência (!?!), sem especificar com maiores detalhes a chegada a essa leviana conclusão. Até aí, talvez o atarefado e veterano deputado tenha confundido o imberbe repórter com o pessoal do Pânico, um programa semelhante no seu formato, mas muito mais apelativo, invasivo e campeão de piadas de mau-gosto. O quadro Controle de Qualidade é apenas uma espécie de Enem do Congresso, em que são testados rapidamente os conhecimentos mais elementares possíveis do dia-a-dia da política brasileira. Ainda que o gagá congressista tenha se exaltado e se sentido moralmente violentado no calor da situação, o que não passa de uma hipótese bastante precipitada pelo que as imagens indicam, nada justifica sua reação: uma discreta cotovelada em Rafael, daquelas feitas para a câmera não captar. Num país dito democrático, e com um partido que usou essa bandeira panfletária como alicerce para chegar ao poder, uma suposta “violência” não se rebate com violência. Pagar com a mesma moeda, nesse caso, só faz inflacionar o efeito negativo da situação. Ainda que proporcionalmente deselegante, o tal do “te pego na saída” seria mais sincero do que a cotoveladinha lateral, praticada em partidas de futebol por jogadores de mau caráter, que usam do golpe baixo pra levar vantagem e não ser vistos pelo juiz. Nos exames escolares realizados no país, recusar-se a responder a pergunta do professor é digno de nota zero. Fazer uma jogada violenta contra o adversário é algo pra cartão vermelho. Lembre-se disso na próxima vez em que praticar o exercício democrático do voto.