quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Made in China
Muito se fala sobre a fragilidade econômica mundial pós-crise, mas o que eu fui constatar hoje é outro tipo de fragilidade. Já fiz isso algumas vezes, todos já fizeram. Entrar numa dessas lojas genéricas que estampam um cartaz feio, onde se lê “tudo a partir de R$ 1,99”, algo assim. Só que o máximo que a gente faz, na maioria das vezes, é bisbilhotar, olhar de longe com aquele olhar periférico sobre tal estabelecimento. Num caso ou outro, comprar algo mais à mão, de preferência numa gôndola próxima a saída e àquele fiscal de plantão, do lado de fora, atento a todos os movimentos. Hoje foi diferente. Fiz uma espécie de pesquisa de campo, de escavação. Entrei numa dessas lojas populares de esquina, pejorativamente apelidadas de “ching-ling”, pra tentar entender um pouco melhor por que o tal BRIC é a pedrinha no sapato da outrora soberana e atualmente desmoronada economia norte-americana. Como se fosse um detetive, fiz uma investigação, uma perícia minuciosa em cada um dos estreitos corredores do estabelecimento comercial. Lá se tem de tudo... de inútil. A não ser que você seja um consumidor inveterado de baralho, copo de plástico ou luminárias decoradas. Difícil imaginar que cada um dos artefatos será utilizado mais do que três vezes. E é curioso como essas lojas não têm cara, não têm identidade alguma. Num mesmo concorrido espaço, você pode encontrar desde um grampeador até uma concha de sopa. Esqueça a durabilidade, a exigência dos padrões técnicos, a obediência às normas métricas e científicas observadas no processo industrial de fabricação. Só de olhar, é bem capaz de você conseguir entortar alguns objetos. É assim que a China vem ganhando o mundo: oferecendo produtos com preços lá embaixo e qualidade mais embaixo ainda. Essas bugigangas são tão efêmeras quanto o estado eufórico de prosperidade dos países ditos emergentes. O próprio desconforto do lugar te obriga a fazer uma visita apressada, no máximo uma investida ao soslaio em algum artigo mais exótico. Tudo é muito amontoado, sem qualquer criério de ordem, organização, gênero ou espécie. Senti-me dentro de um confuso e abarrotado caldeirão de paella, a ser confundido com a paisagem caótica da espelunca. Mas acho saudável esse tipo de peregrinação. De vez em quando me considero um hipócrita ao conversar ou divulgar marcas e produtos de outra realidade social. Entrar numa dessas lojas é como estabelecer aquele contato próximo com o povo, tipo o aperto de mãos e o beijinho na testa das crianças que os políticos fazem em época de campanha eleitoral. A loja em questão em nada lembra aquela arrogância perfumada de shopping center. Tudo é feito e pensado para você entrar, comprar e sair rápido. E nem pense em tropeçar próximo a alguma prateleira. Lá você pode avistar um informe em papel sulfite A4, escrito em caneta hidrocor, bem claro e objetivo, sem a delicadeza das meias-palavras: “quebrou, pagou”.
Do mito à Mostra
Recentemente, escrevi um artigo apostando em uma reciclagem retrô da Mostra, que, por todos os motivos pessoais e pela perda inestimável de seu criador, encontrou campo fértil para se humanizar. Em seu recente texto publicado no blog, o crítico Zanin Oricchio pede essa humanização e o exercício compreensivo da cidadania a todos os cinéfilos que fingem não ver os problemas pelos quais a organização do festival vem passando. Concordo em parte com meu colega e amigo. De fato, a Mostra é muito maior do que o consumo de um produto, representado por um ingresso picotado. Mas, assim como em qualquer segmento de atividade, os profissionais envolvidos (humanizados ou não) precisam se adequar às novas épocas e aos novos processos. E o desfalque do líder do time, por mais comoção que possa gerar, não se justifica por si só para esse congelamento no tempo. De nada adianta, por exemplo, continuar solicitando ao almoxarifado uma fita corretiva, em tempos de tablets e netbooks.
Digo isso porque, salvo exceções, venho encontrando um distanciamento cada vez maior entre as expectativas de começo de maratona e os resultados que ela vem proporcionando. Os fatores são inúmeros, expostos ou não. Chegamos a uma cifra quase infinita de cancelamentos de sessões, alterações sem prévio aviso, atrasos, confusões. Se fizermos um paralelo entre a Mostra e outros festivais congêneres, igualmente nababescos e desengonçados, veremos que ela não é muito diferente do Rock in Rio, da Virada Cultural, das maratonas teatrais ou de qualquer outra olimpíada artística de grande porte. Não estamos ainda preparados para abraçar toda essa grandiosidade, tanto na sua proposta quanto nos seus efeitos.
No caso da Mostra propriamente dita, andei percebendo muitos problemas em relação aos formatos dos filmes. Como alguns já sabem, a esmagadora maioria dos filmes é apresentada em digital. Mas hoje, não basta apenas fazer a divisão dicotômica película/digital. Assim como o filme de rolo comporta diversas bitolas (16mm, 35mm, 70mm), o digital também apresenta diversas espécies, cada uma com sua idiossincrasia e suas limitações específicas. E nem todas as salas estão equipadas com projetores compatíveis com cada formato. Isso também ocorreu no Festival do Rio. E é bom lembrar que recentemente o circuito Arteplex trocou de empresa fornecedora, encerrando seu contrato com a Auwe Digital. Ou seja, todos ainda estão se adaptando às necessidades do momento. Agora há pouco, acabei de receber um e-mail da assessoria de imprensa justificando que o filme do Herzog não será exibido em alguns horários porque a empresa de envio do material não é autorizada pelo festival, o que impede o rastreamento do objeto. Enfim, estamos nos deparando aos poucos com uma gama complexa de restrições e imprevistos, decorrentes da modernidade, da tecnologia, de um modelo econômico que impôs estas regras sem consultar a sociedade.
Tudo isso afeta, é lógico, a correria do dia a dia dos cinéfilos. Numa espécie de efeito-dominó, um probleminha técnico da primeira sessão de uma determinada sala acaba afetando toda a programação corrente da data. Em poucos filmes a que assisti, já presenciei testes de áudio, filme sem legenda, trechos sem som, interrupções, sequências erradas (algo equivalente ao jurássico “rolo trocado”), isso sem falar naquelas tremedeiras de cena típicas de DVD pirata. Vale ressaltar que o filme da Naomi Kawaze está com uma qualidade muito boa, mas ele é um oásis no deserto. Para compensar, outros tantos estão beirando uma experiência sofrível de apreciação.
Não posso ser categórico e falar por todos, mas muitos de meus amigos cinéfilos são suficientemente “humanizados” e sensíveis à causa. E estão condolentes com esta situação e não abrem mão do prazer cinéfilo. Mas certas questões exigem muita paciência. Afinal, vale ou não vale a pena enfrentar o desconforto das filas, o estresse dos horários apertadinhos, a sonolência, a fome, o trânsito, a chuva, e, ao se sentar à poltrona (ou no chão, em alguns casos mais concorridos), deparar-se com tudo isso? Confesso que é da nossa natureza querermos ser os primeiros, os pioneiros das descobertas, e nos dirigimos à Mostra como quem precisasse fincar a bandeira na Lua. Mas muitos filmes aguardados já estão comprados pelas distribuidoras do país, alguns deles com datas previstas de estreia em circuito. Tenho minhas dúvidas da relação custo/benefício que a Mostra nos traz. Embora com outra roupagem, os problemas são antigos. Entretanto, continuamos apostando nela. E sofrendo com nossa ansiedade e com nossas angústias. Esse é o nosso combustível, por mais incoerente que possa parecer.
Digo isso porque, salvo exceções, venho encontrando um distanciamento cada vez maior entre as expectativas de começo de maratona e os resultados que ela vem proporcionando. Os fatores são inúmeros, expostos ou não. Chegamos a uma cifra quase infinita de cancelamentos de sessões, alterações sem prévio aviso, atrasos, confusões. Se fizermos um paralelo entre a Mostra e outros festivais congêneres, igualmente nababescos e desengonçados, veremos que ela não é muito diferente do Rock in Rio, da Virada Cultural, das maratonas teatrais ou de qualquer outra olimpíada artística de grande porte. Não estamos ainda preparados para abraçar toda essa grandiosidade, tanto na sua proposta quanto nos seus efeitos.
No caso da Mostra propriamente dita, andei percebendo muitos problemas em relação aos formatos dos filmes. Como alguns já sabem, a esmagadora maioria dos filmes é apresentada em digital. Mas hoje, não basta apenas fazer a divisão dicotômica película/digital. Assim como o filme de rolo comporta diversas bitolas (16mm, 35mm, 70mm), o digital também apresenta diversas espécies, cada uma com sua idiossincrasia e suas limitações específicas. E nem todas as salas estão equipadas com projetores compatíveis com cada formato. Isso também ocorreu no Festival do Rio. E é bom lembrar que recentemente o circuito Arteplex trocou de empresa fornecedora, encerrando seu contrato com a Auwe Digital. Ou seja, todos ainda estão se adaptando às necessidades do momento. Agora há pouco, acabei de receber um e-mail da assessoria de imprensa justificando que o filme do Herzog não será exibido em alguns horários porque a empresa de envio do material não é autorizada pelo festival, o que impede o rastreamento do objeto. Enfim, estamos nos deparando aos poucos com uma gama complexa de restrições e imprevistos, decorrentes da modernidade, da tecnologia, de um modelo econômico que impôs estas regras sem consultar a sociedade.
Tudo isso afeta, é lógico, a correria do dia a dia dos cinéfilos. Numa espécie de efeito-dominó, um probleminha técnico da primeira sessão de uma determinada sala acaba afetando toda a programação corrente da data. Em poucos filmes a que assisti, já presenciei testes de áudio, filme sem legenda, trechos sem som, interrupções, sequências erradas (algo equivalente ao jurássico “rolo trocado”), isso sem falar naquelas tremedeiras de cena típicas de DVD pirata. Vale ressaltar que o filme da Naomi Kawaze está com uma qualidade muito boa, mas ele é um oásis no deserto. Para compensar, outros tantos estão beirando uma experiência sofrível de apreciação.
Não posso ser categórico e falar por todos, mas muitos de meus amigos cinéfilos são suficientemente “humanizados” e sensíveis à causa. E estão condolentes com esta situação e não abrem mão do prazer cinéfilo. Mas certas questões exigem muita paciência. Afinal, vale ou não vale a pena enfrentar o desconforto das filas, o estresse dos horários apertadinhos, a sonolência, a fome, o trânsito, a chuva, e, ao se sentar à poltrona (ou no chão, em alguns casos mais concorridos), deparar-se com tudo isso? Confesso que é da nossa natureza querermos ser os primeiros, os pioneiros das descobertas, e nos dirigimos à Mostra como quem precisasse fincar a bandeira na Lua. Mas muitos filmes aguardados já estão comprados pelas distribuidoras do país, alguns deles com datas previstas de estreia em circuito. Tenho minhas dúvidas da relação custo/benefício que a Mostra nos traz. Embora com outra roupagem, os problemas são antigos. Entretanto, continuamos apostando nela. E sofrendo com nossa ansiedade e com nossas angústias. Esse é o nosso combustível, por mais incoerente que possa parecer.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Leon e a Mostra
A matéria da Daniela Thomas publicada na Ilustrada do dia 17 de outubro é uma merecida homenagem ao fundador da Mostra de Cinema de São Paulo, Leon Cakoff. Um tributo necessário a quem foi um herói da resistência: lutou contra a censura, a ditadura e, principalmente, ao pensar pequeno da maioria dos distribuidores nacionais, acomodados em suas zonas de conforto para lançar somente filmes mais acessíveis e pouco questionadores, como as aventuras e ações em 3D, as insossas comédias românticas, e por aí vai. Daniela deve ter seus motivos pessoais, talvez tenha nutrido uma relação muito próxima e afetiva com Cakoff. Mas não creio que o óbito do mentor da Mostra seja argumento suficiente para um artigo tão hiperbólico, quase fanático, construído e enaltecido com a descrição de um empurra-empurra mas com a louvação monumental de um obelisco. Prefiro deixar registrado um epitáfio mais justo, passionalmente mais comedido como é de minha natureza, mais calcado na importância da Mostra para a história da Sétima Arte em São Paulo e na qualidade de seus pré-lançamentos e suas retrospectivas.
Como alguns poucos sabem, minha mãe fez uma espécie de voto de protesto e deixou de frequentar a Mostra, questão de uns 3 anos pra cá. Por mais compreensível e justificável que fosse o motivo alegado pelos organizadores, a atitude prepotente de coibir sua presença num determinado tipo de sessão, praticada por um imberbe e incompetente assecla, criou um mal-estar sem precedentes para quem tanto apoiou a causa e ajudou a divulgar o evento. Num misto de adesão ao movimento, aliada à minha falta de tempo, também diminuí consideravelmente minha presença nas sessões da Mostra. Mas não é o momento mais adequado para nos lembrarmos de coisas ruins. A Mostra foi um marco fundamental na quebra de paradigmas em relação às escolhas de filmes a ser lançados. Melhor reter na memória o autógrafo que minha mãe guarda do então garoto Quentin Tarantino, o tagarela hiperativo que carregava debaixo do braço o seu longa de estreia, Cães de Aluguel. Ou o encontro com Alexander Sokurov. Ou o momento em que ela subiu ao palco e entregou o troféu a Marco Tulio Giordana por seu filme Os Cem Passos. Coisas assim. Minha mãe cansou de dar entrevistas e aparecer em alguns veículos de comunicação, mas infelizmente a abordagem do fato, na maioria dos casos, se deu pelo aspecto sensacionalista da cisa. Um equívoco, a meu ver. O motivo da minha mãe ver os filmes da Mostra não é aquela brejeirice de escapar dos afazeres domésticos e se esconder em uma sala de cinema, como se estivesse cabulando aula. Pelo contrário. O que leva minha mãe aos filmes é o encontro. É poder ver, num único dia e em um único lugar, as culturas, as línguas, os costumes e os traços complexos e multifacetários do ser humano. E bons exemplos nunca faltaram. É justo lembrar, a Mostra nos trouxe o prazer de desvirginar Haneke, Kiarostami, Dardenne, Assayas, Gitai, entre tantos outros. Contudo, coincidência ou não, pelos fatores acima enumerados, mais a grandiosidade que o evento adquiriu, a Mostra aos poucos foi deixando de ter a minha cara. Perdi completamente aquela ansiedade, aquele frisson incontido pelos tão aguardados 20 dias de um estado simultâneo de deleite e fadiga. Quanto maior ficou, mais visível ficaram seus sinais de desgaste. No decorrer dos anos a Mostra, é notório dizer, infelizmente sofreu muito com sua desorganização, com suas falhas técnicas, atrasos, retenções na alfândega, cancelamentos, etc. Isso sem falar na péssima qualidade de exibição de alguns filmes, principalmente aqueles que rodam os festivais do mundo inteiro e nos chegam em uma tosca versão “demo”. E, quando um dia foi dito, em coletiva de imprensa, que o público pagante representava uma porcentagem mínima para arcar com os custos totais do festival, ficou claro esse distanciamento cada vez mais acirrado dos cinéfilos e uma preocupação ainda maior em agradar a interesses de patrocinadores e mecenas. A Mostra foi perdendo seu cromossomo genético da vanguarda, do garimpo, da descoberta do inédito. Deu-se a entender, com a calvície e o passar dos anos, que o contestador Leon entrou no sistema. Um sistema mais centro-esquerda, cinematograficamente falando, mas ainda assim um sistema, regido por regras e interesses próprios. O então rebelde da tirania promovida pelo AI-5 passou a ser meramente um viabilizador cultural, um encurtador de distâncias, um mediador de um debate que deixou de existir.
Quer queira quer não, a Mostra estabeleceu um pacto com a cidade, com o circuito dito alternativo, com o cinéfilo paulistano. E, como todo pacto, existe a solidariedade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Não deu para ficar incólume ao texto do Cakoff publicado na Folha no começo do ano, um artigo com cara de despedida, uma espécie de testamento jornalístico-cultural. Ali, o organizador tornou pública sua doença, sabiamente não dissociada da Mostra. Difícil dizer se este câncer foi uma disfunção citológica, uma vontade divina ou a somatização do fardo de se carregar nas costas o maior evento cinematográfico de São Paulo.
Dada a importância deste evento, seus realizadores foram se tornando não menos importantes. Natural, até. Negociar com investidores, posar ao lado de autoridades civis, dar entrevistas, tudo isso ajudou a inflar egos na proporção de suas responsabilidades. Em situações públicas, por exemplo as coletivas de imprensa, a aparição midiática do casal era o reflaxo do brilho e do glamour que o cinema proporciona. Leon e Renata surgiam minutos antes da cerimônia se iniciar, algo que tomava as mesmas dimensões do tapete vermelho do Oscar. Entretanto, por uma obra do destino, na última coletiva, a esposa de Leon e coorganizadora da Mostra, Renata de Almeida, esteve ali, próxima aos jornalistas, durante quase todo o receptivo. Naquele dia, Leon já estava internado e, por conta desse infortúnio, a Renata estava visivelmente abalada, ameaçando o tempo todo despejar sua primeira lágrima em virtude de sua aflição e ansiedade. É a primeira vez em que ela, depois de muitos anos, comanda sozinha este barco. Bem no ano em que o Brasil tem uma mulher à sua frente de governo. E, talvez por uma soma de fatores, senti a Renata muito mais próxima, mais descalça, mais orgânica. Os agradecimentos a toda a equipe foram sinceros e não protocolares. E, provavelmente devido a toda essa vulnerabilidade, a essa fragilidade humana, ouso arriscar um palpite de que a Mostra tem tudo pra ser uma das melhores dos últimos anos. Foi falado que, por uma decisão ainda do Cakoff, que a Mostra iria abandonar um pouco seu gigantismo megalomaníaco. Isso, em termos práticos, diz muita coisa. Afinal, é mais fácil domar 300 leões do que quase meio milhar deles. O risco da coisa fugir do controle cai um pouco. Com um número mais restrito e a opção de se exibir somente filmes inéditos (tirando as retrospectivas), o cinéfilo pode encontrar mais tempo para ver, digerir, depurar e reter os filmes. Que é a principal característica de um festival. Este ano, a Mostra tá mais para um menu degustação do que para um rodízio, o que é melhor e mais saboroso para todos. Mas não é só por isso. Retraindo-se a quantidade de películas e estipulando-se uma seleção mais criteriosa de seus títulos, a Mostra encontra maiores condições de resgatar seus valores mais antigos e mais intrínsecos, preteridos por essa pressa efêmera de correr atrás do próprio rabo. Seria um saudável paradoxo ver nessa Mostra o diálogo com o mundo atual, em sintonia com a reciclagem retrô de posturas das edições passadas. Talvez tenha sido esse o maior legado do Cakoff: fazer com que voltemos a experimentar os filmes na tentativa de descobrirmos a nós mesmos, como fazíamos no começo. O resto é grandiloquência panfletária.
Como alguns poucos sabem, minha mãe fez uma espécie de voto de protesto e deixou de frequentar a Mostra, questão de uns 3 anos pra cá. Por mais compreensível e justificável que fosse o motivo alegado pelos organizadores, a atitude prepotente de coibir sua presença num determinado tipo de sessão, praticada por um imberbe e incompetente assecla, criou um mal-estar sem precedentes para quem tanto apoiou a causa e ajudou a divulgar o evento. Num misto de adesão ao movimento, aliada à minha falta de tempo, também diminuí consideravelmente minha presença nas sessões da Mostra. Mas não é o momento mais adequado para nos lembrarmos de coisas ruins. A Mostra foi um marco fundamental na quebra de paradigmas em relação às escolhas de filmes a ser lançados. Melhor reter na memória o autógrafo que minha mãe guarda do então garoto Quentin Tarantino, o tagarela hiperativo que carregava debaixo do braço o seu longa de estreia, Cães de Aluguel. Ou o encontro com Alexander Sokurov. Ou o momento em que ela subiu ao palco e entregou o troféu a Marco Tulio Giordana por seu filme Os Cem Passos. Coisas assim. Minha mãe cansou de dar entrevistas e aparecer em alguns veículos de comunicação, mas infelizmente a abordagem do fato, na maioria dos casos, se deu pelo aspecto sensacionalista da cisa. Um equívoco, a meu ver. O motivo da minha mãe ver os filmes da Mostra não é aquela brejeirice de escapar dos afazeres domésticos e se esconder em uma sala de cinema, como se estivesse cabulando aula. Pelo contrário. O que leva minha mãe aos filmes é o encontro. É poder ver, num único dia e em um único lugar, as culturas, as línguas, os costumes e os traços complexos e multifacetários do ser humano. E bons exemplos nunca faltaram. É justo lembrar, a Mostra nos trouxe o prazer de desvirginar Haneke, Kiarostami, Dardenne, Assayas, Gitai, entre tantos outros. Contudo, coincidência ou não, pelos fatores acima enumerados, mais a grandiosidade que o evento adquiriu, a Mostra aos poucos foi deixando de ter a minha cara. Perdi completamente aquela ansiedade, aquele frisson incontido pelos tão aguardados 20 dias de um estado simultâneo de deleite e fadiga. Quanto maior ficou, mais visível ficaram seus sinais de desgaste. No decorrer dos anos a Mostra, é notório dizer, infelizmente sofreu muito com sua desorganização, com suas falhas técnicas, atrasos, retenções na alfândega, cancelamentos, etc. Isso sem falar na péssima qualidade de exibição de alguns filmes, principalmente aqueles que rodam os festivais do mundo inteiro e nos chegam em uma tosca versão “demo”. E, quando um dia foi dito, em coletiva de imprensa, que o público pagante representava uma porcentagem mínima para arcar com os custos totais do festival, ficou claro esse distanciamento cada vez mais acirrado dos cinéfilos e uma preocupação ainda maior em agradar a interesses de patrocinadores e mecenas. A Mostra foi perdendo seu cromossomo genético da vanguarda, do garimpo, da descoberta do inédito. Deu-se a entender, com a calvície e o passar dos anos, que o contestador Leon entrou no sistema. Um sistema mais centro-esquerda, cinematograficamente falando, mas ainda assim um sistema, regido por regras e interesses próprios. O então rebelde da tirania promovida pelo AI-5 passou a ser meramente um viabilizador cultural, um encurtador de distâncias, um mediador de um debate que deixou de existir.
Quer queira quer não, a Mostra estabeleceu um pacto com a cidade, com o circuito dito alternativo, com o cinéfilo paulistano. E, como todo pacto, existe a solidariedade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Não deu para ficar incólume ao texto do Cakoff publicado na Folha no começo do ano, um artigo com cara de despedida, uma espécie de testamento jornalístico-cultural. Ali, o organizador tornou pública sua doença, sabiamente não dissociada da Mostra. Difícil dizer se este câncer foi uma disfunção citológica, uma vontade divina ou a somatização do fardo de se carregar nas costas o maior evento cinematográfico de São Paulo.
Dada a importância deste evento, seus realizadores foram se tornando não menos importantes. Natural, até. Negociar com investidores, posar ao lado de autoridades civis, dar entrevistas, tudo isso ajudou a inflar egos na proporção de suas responsabilidades. Em situações públicas, por exemplo as coletivas de imprensa, a aparição midiática do casal era o reflaxo do brilho e do glamour que o cinema proporciona. Leon e Renata surgiam minutos antes da cerimônia se iniciar, algo que tomava as mesmas dimensões do tapete vermelho do Oscar. Entretanto, por uma obra do destino, na última coletiva, a esposa de Leon e coorganizadora da Mostra, Renata de Almeida, esteve ali, próxima aos jornalistas, durante quase todo o receptivo. Naquele dia, Leon já estava internado e, por conta desse infortúnio, a Renata estava visivelmente abalada, ameaçando o tempo todo despejar sua primeira lágrima em virtude de sua aflição e ansiedade. É a primeira vez em que ela, depois de muitos anos, comanda sozinha este barco. Bem no ano em que o Brasil tem uma mulher à sua frente de governo. E, talvez por uma soma de fatores, senti a Renata muito mais próxima, mais descalça, mais orgânica. Os agradecimentos a toda a equipe foram sinceros e não protocolares. E, provavelmente devido a toda essa vulnerabilidade, a essa fragilidade humana, ouso arriscar um palpite de que a Mostra tem tudo pra ser uma das melhores dos últimos anos. Foi falado que, por uma decisão ainda do Cakoff, que a Mostra iria abandonar um pouco seu gigantismo megalomaníaco. Isso, em termos práticos, diz muita coisa. Afinal, é mais fácil domar 300 leões do que quase meio milhar deles. O risco da coisa fugir do controle cai um pouco. Com um número mais restrito e a opção de se exibir somente filmes inéditos (tirando as retrospectivas), o cinéfilo pode encontrar mais tempo para ver, digerir, depurar e reter os filmes. Que é a principal característica de um festival. Este ano, a Mostra tá mais para um menu degustação do que para um rodízio, o que é melhor e mais saboroso para todos. Mas não é só por isso. Retraindo-se a quantidade de películas e estipulando-se uma seleção mais criteriosa de seus títulos, a Mostra encontra maiores condições de resgatar seus valores mais antigos e mais intrínsecos, preteridos por essa pressa efêmera de correr atrás do próprio rabo. Seria um saudável paradoxo ver nessa Mostra o diálogo com o mundo atual, em sintonia com a reciclagem retrô de posturas das edições passadas. Talvez tenha sido esse o maior legado do Cakoff: fazer com que voltemos a experimentar os filmes na tentativa de descobrirmos a nós mesmos, como fazíamos no começo. O resto é grandiloquência panfletária.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Estupro à democracia
“Sabe qual é o cúmulo da mira? Transar com uma grávida e acertar o ânus do feto”. Essa piada eu conheço faz muito tempo. E já ouvi algumas vezes, sem qualquer tipo de represália ou algum esboço de reação adversa. É uma anedota típica de roda de amigos. Um pouco indecente e de gosto duvidoso talvez, mas não se trata de um texto imoral ou proveniente de uma visão de mundo torpe e abjeta. Pra você ter uma ideia, foi MINHA MÃE quem me contou essa piada pela primeira vez. Ou seja, não é propriedade restrita e limitada dos comediantes mais, por assim dizer, transgressores, malditos ou simplesmente boca-suja.
Recentemente, o comediante e apresentador Rafinha Bastos fez uma piada nessa linha ao vivo, durante o programa CQC, e o alvo foi a cantora Wanessa Camargo. Embora com palavras mais polidas do que a piada original existente, o tom “irreverente” foi mais ou menos o mesmo. Mal sabia a pessoa mais influente do Twitter que estaria mexendo num vespeiro. A cantora se ofendeu. Seu marido, empresário de uma agência, e Ronaldo Fenômeno, amigo do empresário e garoto-propaganda de uma operadora de telefonia móvel, também se ofenderam. Marco Luque, companheiro de Rafinha no programa e também garoto-propaganda da mesma operadora do jogador, repudiou o comentário infeliz. Resultado: cedendo às pressões, a Rede Bandeirantes de televisão, numa atitude hipócrita e covarde, decidiu afastar o apresentador por tempo indeterminado. Bastou uma ligação telefônica (de Claro para Claro?). Ele está de molho, está de quarentena, aguardando um parecer de uma escala maior do poder.
Junto com outras notícias que enfatizam a desgraça, como as rebeliões na Síria, a crise na Europa, a alta do dólar, a soltura do atropelador assassino e seu carro de luxo e as contínuas greves, essa também foi uma das mais comentadas. Rafinha, de ídolo dos nerds, passou para o banco dos réus deste mesmo eleitorado. De capa da Info, da RG ou da Rolling Stone, que enalteceram seus atributos físicos e intelectuais, passou a figurar, em questão de semanas, na capa da Vejinha, sob a alcunha de “O rei da baixaria”. Sua piada até pode ter sido um soco no estômago, um chute no ventre da famosa prenha. Mas é certo dizer que Rafinha foi nocauteado, sem nenhuma chance de se defender. Quem saiu perdendo? Ora, todos nós. Esse comentário apressado teria sido uma ótima oportunidade para a sociedade promover debates sobre a ética do humor e sobre seus limites e critérios. O apresentador deveria, no mínimo, ter um espaço condizente com seu maldizer para se retratar publicamente. Que nada. Vivemos no país da censura velada. A atitude da emissora, evidentemente, reflete muito mais a obediência servil a um jogo de interesses de quem tem influências na mídia do que a punição por uma falta de decoro propriamente dita.
Assim que soube da notícia do afastamento dele, no domingo à noite, publiquei a matéria no meu perfil do Facebook. As primeiras reações, talvez as mais imediatas e menos elaboradas, foram de amigos meus (prefiro não cometer a indelicadeza de citar nomes) pelos quais exerço uma profunda e sincera admiração. Pessoas com uma invejável erudição, clareza de raciocínio e capacidade de organizar ideias. Amigos de longa data, que me concedem a liberdade e me deixam suficientemente confortável para eu manifestar opiniões contrárias quando for o caso, se for o caso. Não quero fazer generalizações precipitadas, mas, coincidentemente, ambos regem uma preferência ideológica mais de acordo com o pensamento de esquerda, se é que isso ainda existe com a mesma coerência dos tempos de liberdade e luta. Talvez numa resposta movida mais pela urgência e pela emoção do que pela razão (talvez!), a primeira reação que vejo é a de que, na opinião deste cordial colega, todos os integrantes do CQC poderiam ser expulsos para o programa acabar de vez, e que ele (o CQC) não faria a mínima falta. Não foram exatamente essas as palavras, mas o sentido foi algo assim. Bom, é notória a precária qualidade dos programas de TV, isso ocorre faz muito tempo. Mesmo eu sendo assinante de TV a cabo, a quantidade de programas que vejo não passa de meia dúzia. Da mesma maneira que meu amigo se expressa, eu também não sinto a mínima falta dos humorísticos rasos, dos reality shows, das novelas açucaradas, das mesas-redondas, dos programas matinais, dos noticiários sensacionalistas, dos seriados enlatados. Mas, no meu entender, não vejo que a solução seja a eliminação pura, simples e rápida dessas porcarias que emanam dos eletrodos dos tubos magnéticos e empesteiam nossos indefesos neurônios. Aniquilar a televisão atual com um tiro letal de bazuca pode até erradicar seus efeitos nocivos, mas dificilmente irá chegar à causa do problema. E, mesmo que as intenções do inofensivo comentário madrugal de um post sejam apenas fazer rir ou polemizar sem um grande contexto, elas revelam no fundo uma súbita vontade tirana. Outro comentário que recebi, de uma amiga pela qual nutro uma admiração maior do que nossas afinidades, dizia que, dada a quantidade de merda que o Rafinha fala, a conta até que saiu barato. Algo nessa linha. Ou seja, seu temporário período de carceragem até que é um castigo justo pelo mal que ele faz à humanidade. Respeito ambas as opiniões e tenho certeza de que existe um embasamento lógico e elaborado por trás delas. Mas não posso deixar de ficar indignado ao perceber que o confinamento, a reclusão, a iconoclastia pura e simples, tenham vindo de pessoas com posições ideológicas que, historicamente, derramaram sangue pela democracia e pela liberdade de expressão.
Outro texto que me chamou a atenção, nesse mesmo grupo de comentários do post em questão, foi o link do blog da professora-doutora Lola Aronovich, Escreva Lola Escreva, intitulado “Politicamente incorreto não é transgressor, Rafinha”. No texto, a professora defende o uso do politicamente correto, algo condenado por quem se diz subversivo. A professora tem razão em alguns aspectos do artigo. Não podemos tratar o estupro, por exemplo, um assunto sério e traumático, um crime hediondo, com a leviandade e a expiação de culpa de quem simplesmente conta uma piada e sai andando. Lola cutuca na ferida ao apontar um paradoxo: se o humorista diz que fala “as verdades do cotidiano”, como é que ele pode rapidamente se justificar de uma polêmica saia-justa alegando que o que falou “é apenas uma brincadeira”, encerrando a questão e colocando o assunto no nível utópico e intangível da inverossimilhança? E mais: se a professora optou por trocar o “aleijado” pelo “portador de deficiência física”, o problema é dela. Ou o “mongolóide” pelo “possuidor de síndrome congênita da Trissomia do Par 21”. Ou, ainda, o “burro” pelo “cidadão dotado de reduzidas e obtusas faculdades mentais”. A professora tem plena consciência de que, ao substituir palavras que venham a ter uma conotação pejorativa, possa se distanciar do repertório popular. Não vejo problema algum, é um direito soberano e irrevogável. E se ela acha mais conveniente substituir o “humor negro” pelo “humor afro-descendente”, fique à vontade. Entretanto, como ela bem sabe, o humor ácido, corrosivo e sarcástico não vive às custas dessa boa educação no palavreado. E o que me incomodou no artigo foi a maneira como ela ataca alguns comediantes do CQC, principalmente os mais atingidos pelo mal-estar que geram com seus comentários. De cara, a blogueira confessa que pouco conhece esses personagens. E, ao que me parece, não faz questão alguma de conhecê-los, embora sustente suas críticas a eles mesmo navegando nesse perigoso vazio. No decorrer do texto, ela trata essas figuras públicas como “um tal de Danilo” e, mais pra frente, “Rafinhas e afins”. Não é a ironia do desprezo que dará sustentação ao seu ponto de vista. Eles não são pessoas quaisquer, surgidas no meio de diversos caça-talentos cuja razão social é a falcatrua. Embora o CQC vem demonstrando sinais de desgaste, isso é notório, é bom lembrar que o programa foi um dos pioneiros a invadir gabinetes de deputados, a exigir satisfações dos representantes do povo que ignoram o povo. Num determinado contexto histórico, político e televisivo, o CQC inovou. E recrutou comediantes da melhor espécie. Hoje o programa estampa um tipo de humor osteoporótico, visivelmente corroído, que trocou a irreverência pela caricatura de si próprio. Mas não é por isso que Lola pode afirmar que o humor stand-up é tudo uma coisa só, um balaio de gatos oriundos de uma geração espontânea, como se os “afins” do Rafinha fossem um bando de cordeiros seguindo seu pastor. A única “afinidade” que tenho com o Rafinha é a de subir aos palcos e dar a cara para bater. Entre outras coisas, estou me iniciando no stand-up, nem sei ainda se por hobby, vocação ou como um plano de previdência. Estou para o stand-up, metaforicamente falando, assim como o feto da Wanessa Camergo está para o mundo. E não pretendo, em hipótese alguma, acomodar minha comédia na zona de conforto do clichê ou das saídas fáceis e situações genéricas. Quero, e vou lutar pra isso, me destacar no mercado pela diferenciação. E ficaria muito ofendido se alguém me tratasse como um “afim” a mais de outro comediante, quem quer que seja. Claro que existem tácnicas comuns e estilos que inspiram gerações. Mas Lola dá a entender que os humoristas se reúnem periodicamente, como se estivessem num Concílio de Trento, e lá decidem as piadas que todos vão contar, com os mesmos recursos e as mesmas doses de preconceito.
O Brasil é um país emergente. Sediar uma Copa do Mundo, emprestar dinheiro pra Europa, fazem do Brasil um país emergente. E, da mesma forma, o povo brasileiro também é emergente. O Brasil hoje é um país que “se acha”, e isso, embora refresque nossa auto-estima, cria um problema sério para o desenvolvimento. Somos relativamente estáveis no bolso, mas continuamos pobres de espírito. Ainda temos muito o que aprender no que diz respeito à liberdade de expressão, à luta por direitos, ao debate, ao esclarecimento. O humor stand-up não deixa de ser, ainda em última instância, a nossa forma orgânica de dialogar com o mundo e com esse caos, nem que seja ¡à base do riso. É por meio das mais absurdas mentiras que chegamos às mais contundentes verdades. E quem conhece o Danilo (Gentili) sabe que ele já fez stand-up falando sobre o Sarney e a censura. E quem conhece o Rafinha sabe também que ele não é um moleque intempestivo e inconsequente. Ele já gravou uma série de episódios em que testa piadas novas e pede conselhos aos amigos de profissão. Como se fosse um raio-X, ele mostra no vídeo os bastidores da comédia, um constante exercício de tentativa e erro. É essa a verdadeira função do comediante. Socar, socar, socar. Cair, levantar-se. Pedir desculpas pro adversário? Quem sabe. Mas eu tô meio cansado das lutas mornas, das piadas voláteis, das generalizações. E fico muito triste com a resolução que deram ao caso Rafinha. Já que o Brasil pode virar um credor em relação aos países europeus, poderia pelo menos pegar como moeda de troca a ousadia da Holanda, um país que coloca em prática questões avançadas pra ver depois a reação da sociedade e, se for o caso, retrair um pouco. É desse tipo de irreverência, de preparo e de amadurecimento que precisamos. Podemos até ser a bola da vez mas, em relação à comédia stand-up, ainda somos da época e dos costumes dos talibãs.
Recentemente, o comediante e apresentador Rafinha Bastos fez uma piada nessa linha ao vivo, durante o programa CQC, e o alvo foi a cantora Wanessa Camargo. Embora com palavras mais polidas do que a piada original existente, o tom “irreverente” foi mais ou menos o mesmo. Mal sabia a pessoa mais influente do Twitter que estaria mexendo num vespeiro. A cantora se ofendeu. Seu marido, empresário de uma agência, e Ronaldo Fenômeno, amigo do empresário e garoto-propaganda de uma operadora de telefonia móvel, também se ofenderam. Marco Luque, companheiro de Rafinha no programa e também garoto-propaganda da mesma operadora do jogador, repudiou o comentário infeliz. Resultado: cedendo às pressões, a Rede Bandeirantes de televisão, numa atitude hipócrita e covarde, decidiu afastar o apresentador por tempo indeterminado. Bastou uma ligação telefônica (de Claro para Claro?). Ele está de molho, está de quarentena, aguardando um parecer de uma escala maior do poder.
Junto com outras notícias que enfatizam a desgraça, como as rebeliões na Síria, a crise na Europa, a alta do dólar, a soltura do atropelador assassino e seu carro de luxo e as contínuas greves, essa também foi uma das mais comentadas. Rafinha, de ídolo dos nerds, passou para o banco dos réus deste mesmo eleitorado. De capa da Info, da RG ou da Rolling Stone, que enalteceram seus atributos físicos e intelectuais, passou a figurar, em questão de semanas, na capa da Vejinha, sob a alcunha de “O rei da baixaria”. Sua piada até pode ter sido um soco no estômago, um chute no ventre da famosa prenha. Mas é certo dizer que Rafinha foi nocauteado, sem nenhuma chance de se defender. Quem saiu perdendo? Ora, todos nós. Esse comentário apressado teria sido uma ótima oportunidade para a sociedade promover debates sobre a ética do humor e sobre seus limites e critérios. O apresentador deveria, no mínimo, ter um espaço condizente com seu maldizer para se retratar publicamente. Que nada. Vivemos no país da censura velada. A atitude da emissora, evidentemente, reflete muito mais a obediência servil a um jogo de interesses de quem tem influências na mídia do que a punição por uma falta de decoro propriamente dita.
Assim que soube da notícia do afastamento dele, no domingo à noite, publiquei a matéria no meu perfil do Facebook. As primeiras reações, talvez as mais imediatas e menos elaboradas, foram de amigos meus (prefiro não cometer a indelicadeza de citar nomes) pelos quais exerço uma profunda e sincera admiração. Pessoas com uma invejável erudição, clareza de raciocínio e capacidade de organizar ideias. Amigos de longa data, que me concedem a liberdade e me deixam suficientemente confortável para eu manifestar opiniões contrárias quando for o caso, se for o caso. Não quero fazer generalizações precipitadas, mas, coincidentemente, ambos regem uma preferência ideológica mais de acordo com o pensamento de esquerda, se é que isso ainda existe com a mesma coerência dos tempos de liberdade e luta. Talvez numa resposta movida mais pela urgência e pela emoção do que pela razão (talvez!), a primeira reação que vejo é a de que, na opinião deste cordial colega, todos os integrantes do CQC poderiam ser expulsos para o programa acabar de vez, e que ele (o CQC) não faria a mínima falta. Não foram exatamente essas as palavras, mas o sentido foi algo assim. Bom, é notória a precária qualidade dos programas de TV, isso ocorre faz muito tempo. Mesmo eu sendo assinante de TV a cabo, a quantidade de programas que vejo não passa de meia dúzia. Da mesma maneira que meu amigo se expressa, eu também não sinto a mínima falta dos humorísticos rasos, dos reality shows, das novelas açucaradas, das mesas-redondas, dos programas matinais, dos noticiários sensacionalistas, dos seriados enlatados. Mas, no meu entender, não vejo que a solução seja a eliminação pura, simples e rápida dessas porcarias que emanam dos eletrodos dos tubos magnéticos e empesteiam nossos indefesos neurônios. Aniquilar a televisão atual com um tiro letal de bazuca pode até erradicar seus efeitos nocivos, mas dificilmente irá chegar à causa do problema. E, mesmo que as intenções do inofensivo comentário madrugal de um post sejam apenas fazer rir ou polemizar sem um grande contexto, elas revelam no fundo uma súbita vontade tirana. Outro comentário que recebi, de uma amiga pela qual nutro uma admiração maior do que nossas afinidades, dizia que, dada a quantidade de merda que o Rafinha fala, a conta até que saiu barato. Algo nessa linha. Ou seja, seu temporário período de carceragem até que é um castigo justo pelo mal que ele faz à humanidade. Respeito ambas as opiniões e tenho certeza de que existe um embasamento lógico e elaborado por trás delas. Mas não posso deixar de ficar indignado ao perceber que o confinamento, a reclusão, a iconoclastia pura e simples, tenham vindo de pessoas com posições ideológicas que, historicamente, derramaram sangue pela democracia e pela liberdade de expressão.
Outro texto que me chamou a atenção, nesse mesmo grupo de comentários do post em questão, foi o link do blog da professora-doutora Lola Aronovich, Escreva Lola Escreva, intitulado “Politicamente incorreto não é transgressor, Rafinha”. No texto, a professora defende o uso do politicamente correto, algo condenado por quem se diz subversivo. A professora tem razão em alguns aspectos do artigo. Não podemos tratar o estupro, por exemplo, um assunto sério e traumático, um crime hediondo, com a leviandade e a expiação de culpa de quem simplesmente conta uma piada e sai andando. Lola cutuca na ferida ao apontar um paradoxo: se o humorista diz que fala “as verdades do cotidiano”, como é que ele pode rapidamente se justificar de uma polêmica saia-justa alegando que o que falou “é apenas uma brincadeira”, encerrando a questão e colocando o assunto no nível utópico e intangível da inverossimilhança? E mais: se a professora optou por trocar o “aleijado” pelo “portador de deficiência física”, o problema é dela. Ou o “mongolóide” pelo “possuidor de síndrome congênita da Trissomia do Par 21”. Ou, ainda, o “burro” pelo “cidadão dotado de reduzidas e obtusas faculdades mentais”. A professora tem plena consciência de que, ao substituir palavras que venham a ter uma conotação pejorativa, possa se distanciar do repertório popular. Não vejo problema algum, é um direito soberano e irrevogável. E se ela acha mais conveniente substituir o “humor negro” pelo “humor afro-descendente”, fique à vontade. Entretanto, como ela bem sabe, o humor ácido, corrosivo e sarcástico não vive às custas dessa boa educação no palavreado. E o que me incomodou no artigo foi a maneira como ela ataca alguns comediantes do CQC, principalmente os mais atingidos pelo mal-estar que geram com seus comentários. De cara, a blogueira confessa que pouco conhece esses personagens. E, ao que me parece, não faz questão alguma de conhecê-los, embora sustente suas críticas a eles mesmo navegando nesse perigoso vazio. No decorrer do texto, ela trata essas figuras públicas como “um tal de Danilo” e, mais pra frente, “Rafinhas e afins”. Não é a ironia do desprezo que dará sustentação ao seu ponto de vista. Eles não são pessoas quaisquer, surgidas no meio de diversos caça-talentos cuja razão social é a falcatrua. Embora o CQC vem demonstrando sinais de desgaste, isso é notório, é bom lembrar que o programa foi um dos pioneiros a invadir gabinetes de deputados, a exigir satisfações dos representantes do povo que ignoram o povo. Num determinado contexto histórico, político e televisivo, o CQC inovou. E recrutou comediantes da melhor espécie. Hoje o programa estampa um tipo de humor osteoporótico, visivelmente corroído, que trocou a irreverência pela caricatura de si próprio. Mas não é por isso que Lola pode afirmar que o humor stand-up é tudo uma coisa só, um balaio de gatos oriundos de uma geração espontânea, como se os “afins” do Rafinha fossem um bando de cordeiros seguindo seu pastor. A única “afinidade” que tenho com o Rafinha é a de subir aos palcos e dar a cara para bater. Entre outras coisas, estou me iniciando no stand-up, nem sei ainda se por hobby, vocação ou como um plano de previdência. Estou para o stand-up, metaforicamente falando, assim como o feto da Wanessa Camergo está para o mundo. E não pretendo, em hipótese alguma, acomodar minha comédia na zona de conforto do clichê ou das saídas fáceis e situações genéricas. Quero, e vou lutar pra isso, me destacar no mercado pela diferenciação. E ficaria muito ofendido se alguém me tratasse como um “afim” a mais de outro comediante, quem quer que seja. Claro que existem tácnicas comuns e estilos que inspiram gerações. Mas Lola dá a entender que os humoristas se reúnem periodicamente, como se estivessem num Concílio de Trento, e lá decidem as piadas que todos vão contar, com os mesmos recursos e as mesmas doses de preconceito.
O Brasil é um país emergente. Sediar uma Copa do Mundo, emprestar dinheiro pra Europa, fazem do Brasil um país emergente. E, da mesma forma, o povo brasileiro também é emergente. O Brasil hoje é um país que “se acha”, e isso, embora refresque nossa auto-estima, cria um problema sério para o desenvolvimento. Somos relativamente estáveis no bolso, mas continuamos pobres de espírito. Ainda temos muito o que aprender no que diz respeito à liberdade de expressão, à luta por direitos, ao debate, ao esclarecimento. O humor stand-up não deixa de ser, ainda em última instância, a nossa forma orgânica de dialogar com o mundo e com esse caos, nem que seja ¡à base do riso. É por meio das mais absurdas mentiras que chegamos às mais contundentes verdades. E quem conhece o Danilo (Gentili) sabe que ele já fez stand-up falando sobre o Sarney e a censura. E quem conhece o Rafinha sabe também que ele não é um moleque intempestivo e inconsequente. Ele já gravou uma série de episódios em que testa piadas novas e pede conselhos aos amigos de profissão. Como se fosse um raio-X, ele mostra no vídeo os bastidores da comédia, um constante exercício de tentativa e erro. É essa a verdadeira função do comediante. Socar, socar, socar. Cair, levantar-se. Pedir desculpas pro adversário? Quem sabe. Mas eu tô meio cansado das lutas mornas, das piadas voláteis, das generalizações. E fico muito triste com a resolução que deram ao caso Rafinha. Já que o Brasil pode virar um credor em relação aos países europeus, poderia pelo menos pegar como moeda de troca a ousadia da Holanda, um país que coloca em prática questões avançadas pra ver depois a reação da sociedade e, se for o caso, retrair um pouco. É desse tipo de irreverência, de preparo e de amadurecimento que precisamos. Podemos até ser a bola da vez mas, em relação à comédia stand-up, ainda somos da época e dos costumes dos talibãs.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Cutucada inútil
Tem muita coisa que não entendo, mas também nem sei se quero entender. A velocidade das informações hoje em dia, por exemplo, tá mais com cara de pressa do que rapidez. Pensar que essa agilidade e efemeridade de conteúdo pode gerar transformações sociais e culturais, no entanto, é dar um passo maior do que a perna. Terrível engano. Eu me vejo num contexto social muito mais estanque do que, por exemplo, de 20 anos atrás. A capacidade de proliferação da mensagem é ilimitada, fato. Mas a capacidade de retenção é limítrofe. E não param de espocar paradigmas que desafiam nossa inteligência, nesse sentido. O Youtube, por exemplo, é uma ferramenta dinâmica para compartilhar imagens. Teria tudo para ser, em princípio, uma gigantesca biblioteca de registros do cotidiano ou uma compilação das mais variadas vertentes de exploração das artes visuais. Mas a realidade webcameragráfica não mostra exatamente isso. Até tem um vasto acervo de videoclips, programas de TV, etc. Entretanto, o que se sobressai é algo tão fútil que foge à minha razoável compreensão. Apenas para citar alguns exemplos do que foi recentemente considerado “fenômeno” do Youtube, temos a Banda Mais Chata da Cidade. Temos o travesti Luisa Marilac em uma piscina de hotel, tomando “uns bons drink” e falando que deu a volta por cima. Temos um moleque que se diz “polêmico” ao mostrar seus mamilos. Sim, ele só faz isso. E, ainda mais recentemente, temos uma pérola saindo do forno que já virou febre no que se refere à quantidade de acessos: um bêbado, travado de tão alto seu grau de alcoolismo, tentando achar a chave do carro. Segurando uma latinha de cerveja Cristal, o ébrio motorista fala pro amigo que está filmando a cena que não tem ninguém que o “tucuta” no Facebook. Nada demais nesse vídeo. Nada demais mesmo. Esse moço é apenas um em um milhão, um caso típico de um bêbado chato, que troca algumas letras e entra naquela fase deprê quando toma umas a mais. E o Youtube parece que virou isso mesmo. Não sei por qual motivo, elege como se fosse um sorteio de loteria aqueles vídeos que entram pra história ou amargam o fracasso do esquecimento, sem critério algum de diferenciação. Como sintoma sociológico, merece até uma certa atenção, mas sem muito interesse. Saiu da moda a grande produção do videoclipe, bem como as trapalhadas flagrantes tipo videocassetadas. O que funciona nessa rede é o registro das coisas mais banais do planeta. Culturalmente falando, trata-se de um fenômeno nulo, irrelevante. É deprimente acompanhar esses rumos culturais. Depois do pós-Modernismo, assistimos à sociedade caminhando pra era pré-Antiga. Compartilhar esses vídeos que propagam o niilismo cibernético é alimentar um paradoxo: quanto maior o acesso à tecnologia de gravar e de filmar, pior é a peneira que filtra a baixa qualidade. Esses vídeos-coqueluche até promovem um ou outro gracejo, mas são infames demais no quesito comicidade. A maioria já nasce com o intuito de se tornar celebridade virtual, pois mostra o protagonista olhando pra câmera, tratando o interlocutor desconhecido como se fosse um amigo íntimo. Já o último, o do bêbado solitário, é feito de uma maneira bem cruel e que fere a ética: o personagem pergunta se está sendo filmado e o iphoneman diz que não. Se as redes sociais nada mais são do que glorificar a mediocridade, fico então com a desaceleração que não leva a lugar algum, na espera e na inerte espreita de que daqui a alguns anos iremos encontrar o verdadeiro sentido do maior site de imagens do mundo.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
O Eduardo, a Mônica e a África
Particularmente, tenho algumas ressalvas em relação ao comercial da Vivo, criado pela agência África, produzido pela O2 e dirigido por Nando Olival. Aquele que mostra cenas de um casal jovem nos dias de hoje, com a música Eduardo e Mônica, do Legião Urbana, ao fundo e na íntegra, em homenagem aos 25 anos da canção que marcou uma geração. Essa homenagem de oportunidade, produzida especialmente para o Dia dos Namorados, estendia a mensagem para outros casais, aos tantos outros Eduardos e Mônicas espalhados pelo país que precisam de um celular para comunicar suas afinidades e suas diferenças. O filme até que é bonitinho, com boa fotografia, um jogo de luzes e contrastes legal, muito bem editado. Mostra que o povo discípulo de Fernando Meirelles entende do riscado. Mas eu acho que, se por um lado sobra beleza, por outro falta inteligência. A música que a gente ouvia no rádio ou no disco de vinil sugere situações que cabe à nossa fértil imaginação enriquecê-las. Cada ouvinte construiu o seu Eduardo e a sua Mônica de acordo com sua vivência e seu repertório. Traduzir em imagens o ritmo e a ginga de uma música que mais parece letra cantada faz perder um pouco desse encanto imaginário. Como se não bastasse, o clipe se pauta única e tão somente pelo significado dessas imagens. Ou seja, é nada mais do que uma decupagem traduzida de cada verso, como se fosse uma fotolegenda em constante processo de animação. Eduardo e Mônica, by O2, reduz o sentido da música ao invés de ampliá-la. Mas tudo bem, opinião minha. O fato é que o clipe foi um fenômeno da internet, com milhares de “curtir” e encaminhar, além de depoimentos emocionados que corroboraram esse repasse viral.
No dia seguinte, alguém não sei quem espalhou um outro comercial em formato de videoclipe, de uns 10 anos atrás, com a mesma música do Legião ao fundo dando ritmo às situações cotidianas de um casal de jovens. E o que é pior, a venda anunciada também era de um serviço de telefonia móvel. A agência África é, indiscutivelmente, uma das maiores, melhores e mais respeitadas do país. A Vivo, uma das principais operadoras. Não é o caso de se fazer um filme, que custa milhões de reais entre produção e veiculação, de qualquer jeito. Mas, assim como outros tantos exemplos de propaganda parecida, fica difícil dizer se a réplica é o resultado de uma simples e infeliz coincidência ou de plágio. Claro que a “vítima” poderia se defender dizendo que os contextos são diferentes. Enquanto na referência mais antiga a música servia apenas para ilustrar um conjunto de situações, nessa versão remodelada a música é o protagonista, e as imagens giram e funcionam em torno dela. Mas mesmo assim, a coisa tá muito descarada.
Esse episódio, um em um milhão, reitera um achismo meu, mas que pode dar margem a estudos e debates mais sérios, quem sabe talvez. Com internet não se brinca. Hoje, é o fenômeno mais midiático no que diz respeito à opinião pública. Aquele que um dia causou comoção virtual transformou-se, em menos de 24 horas, num dos agentes mais odiados da comunicação, justamente por uma suposta ação de má-fé. Se a internet não tem dono, se o meio virtual virou um mercado de putas, onde tudo aquilo é de todos e ao mesmo tempo não é de ninguém, por outro lado esse xerox visual deveria ter tomado certas precauções. É muito perigoso, e agora ficou provado, exibir algo com cara de quem quer ser original. Se a intenção de se fazer referência ao passado é clara, aí tudo bem. Não foi o que ocorreu com a África nesse caso específico. A rede mundial de relacionamentos tem esse poder de gerar amor e ódio com a mesma velocidade e intensidade. O problema é essa história toda depois de tudo isso cair no esquecimento, maculada pelo copy-paste que não passou despercebido. Quem irá dizer que não existe razão...
No dia seguinte, alguém não sei quem espalhou um outro comercial em formato de videoclipe, de uns 10 anos atrás, com a mesma música do Legião ao fundo dando ritmo às situações cotidianas de um casal de jovens. E o que é pior, a venda anunciada também era de um serviço de telefonia móvel. A agência África é, indiscutivelmente, uma das maiores, melhores e mais respeitadas do país. A Vivo, uma das principais operadoras. Não é o caso de se fazer um filme, que custa milhões de reais entre produção e veiculação, de qualquer jeito. Mas, assim como outros tantos exemplos de propaganda parecida, fica difícil dizer se a réplica é o resultado de uma simples e infeliz coincidência ou de plágio. Claro que a “vítima” poderia se defender dizendo que os contextos são diferentes. Enquanto na referência mais antiga a música servia apenas para ilustrar um conjunto de situações, nessa versão remodelada a música é o protagonista, e as imagens giram e funcionam em torno dela. Mas mesmo assim, a coisa tá muito descarada.
Esse episódio, um em um milhão, reitera um achismo meu, mas que pode dar margem a estudos e debates mais sérios, quem sabe talvez. Com internet não se brinca. Hoje, é o fenômeno mais midiático no que diz respeito à opinião pública. Aquele que um dia causou comoção virtual transformou-se, em menos de 24 horas, num dos agentes mais odiados da comunicação, justamente por uma suposta ação de má-fé. Se a internet não tem dono, se o meio virtual virou um mercado de putas, onde tudo aquilo é de todos e ao mesmo tempo não é de ninguém, por outro lado esse xerox visual deveria ter tomado certas precauções. É muito perigoso, e agora ficou provado, exibir algo com cara de quem quer ser original. Se a intenção de se fazer referência ao passado é clara, aí tudo bem. Não foi o que ocorreu com a África nesse caso específico. A rede mundial de relacionamentos tem esse poder de gerar amor e ódio com a mesma velocidade e intensidade. O problema é essa história toda depois de tudo isso cair no esquecimento, maculada pelo copy-paste que não passou despercebido. Quem irá dizer que não existe razão...
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Que saco!
Alarmistas de plantão: o mundo não vai acabar em 2012. Tá certo que o ser humano já fez muita merda e a natureza está revidando. Tá certo que as maiores potências mundiais são as que mais poluíram o ambiente no decorrer da história. Isso sem falar na extração clandestina de madeira na Amazônia, extinção de espécies de animais, etc. Tem também a questão do aquecimento global, mas é sabido que esse trágico fenômeno ocorre de tempos em tempos, independentemente da ação do homem. Não sou exatamente um entusiasta dos assuntos ecológicos. Mas noto que existe uma onde de discursos em prol da sustentabilidade, que mais parecem modismo do que abraço à causa. Cuidar do nosso jardim chamado planeta Terra é um dever, uma obrigação. Todo mundo de bom senso sabe disso. Mas essa coisa toda ficou muito chata e demagógica. As instituições que mais prejudicam o meio ambiente são as que menos fazem para reverter a situação. Eu acredito na força individual, como é o caso do voto. Mas duvido que, se sair plantando uma mudinha de pé de feijão, vou contribuir para um mundo mais verde.
Entretanto, essa é a lógica que reina na cabecinha das pessoas. Pra variar, tudo muito na base do improviso, do fazer de qualquer jeito. Cada minuto conta em relação ao relógio do planeta? Começamos a nos mobilizar tarde demais? Talvez sim, talvez não. O resultado concreto disso tudo são atitudes e iniciativas inócuas. De repente, não mais que de repente, as impressoras passaram a ser o inimigo número 1 da ecologia. Nunca fui a favor do desperdício. Na minha casa, separávamos material reciclado muito antes de existir o serviço de coleta seletiva de lixo. Mas não acho que, da noite pro dia, eu tenha que ficar contabilizando o número de folhas que meu texto exige pra existir, tudo em prol de uma irrisória economia de recursos que poderá, quiçá, contribuir para uma improvável melhoria do meio ambiente.
A Prefeitura de São Paulo acaba de sancionar uma lei que proíbe os supermercados de distribuírem sacolas plásticas a seus clientes. Sim, o plástico é um elemento de altíssima periculosidade para a nação. E os administradores da cidade tomaram esta ríspida decisão provavelmente motivados por um arquivo de Power Point que circula na internet há mais de uma década. E eles provavelmente foram implacáveis na atitude por se sensibilizarem com aquela imagem, descaradamente montada em Photoshop, que mostra um saquinho do Pão de Açúcar no focinho de um urso polar, como se isso fosse a coisa mais plausível de acontecer num mundo globalizado como o nosso. Sim, é claro que o plástico, vindo da principal fonte de renda do Oriente Médio, boa coisa não deve ser. Pelo cheiro que solta quando é queimado dá para ser ter uma noção de seus estragos à pureza do ar. Se pegarmos aquela ampulheta da natureza, aquela tabela de contagem regressiva que indica quantos anos cada matéria-prima demora para se decompor, o plástico certamente é um vilão, já que ocupa uma das posições de lanterninha nessa corrida contra o tempo.
A restrição é claríssima, mas as opções são poucas. Primeiro, a mais dolorosa: as sacolas alternativas, aquelas produzidas em tecido cru e docemente chamadas de “ecobags”, são cobradas à parte. Ainda que existam alguns modelos graficamente artísticos, não vou andar por aí com uma sacola dessas, como se eu fosse um eterno cliente de supermercado. E, mesmo que suas estampas sejam muito mais fashion do que propaganda de oculista ou de candidato político, elas suprem somente a necessidade de carregar as compras. Eu, particularmente, costumo atribuir uma outra utilidade para as sacolas plásticas, que é a de embalar lixo. Não me enquadro exatamente no modelo de desperdício. E, com essa nova norma, não sei mais como improvisar. Como se trata de uma medida pública, isso tá me parecendo conchavo com alguns setores industriais, aos moldes da obrigatoriedade (que deixou de ser obrigatória logo em seguida) do kit de primeiros-socorros nos carros, das cadeiras infantis e de qualquer outro utensílio compulsório que possa mover determinados segmentos da economia. Respeitar a natureza, faço com o maior gosto. Respeitar a hipocrisia, de jeito nenhum. Enquanto eu puder burlar essa regra pseudoecológica, farei com todas as minhas forças.
Entretanto, essa é a lógica que reina na cabecinha das pessoas. Pra variar, tudo muito na base do improviso, do fazer de qualquer jeito. Cada minuto conta em relação ao relógio do planeta? Começamos a nos mobilizar tarde demais? Talvez sim, talvez não. O resultado concreto disso tudo são atitudes e iniciativas inócuas. De repente, não mais que de repente, as impressoras passaram a ser o inimigo número 1 da ecologia. Nunca fui a favor do desperdício. Na minha casa, separávamos material reciclado muito antes de existir o serviço de coleta seletiva de lixo. Mas não acho que, da noite pro dia, eu tenha que ficar contabilizando o número de folhas que meu texto exige pra existir, tudo em prol de uma irrisória economia de recursos que poderá, quiçá, contribuir para uma improvável melhoria do meio ambiente.
A Prefeitura de São Paulo acaba de sancionar uma lei que proíbe os supermercados de distribuírem sacolas plásticas a seus clientes. Sim, o plástico é um elemento de altíssima periculosidade para a nação. E os administradores da cidade tomaram esta ríspida decisão provavelmente motivados por um arquivo de Power Point que circula na internet há mais de uma década. E eles provavelmente foram implacáveis na atitude por se sensibilizarem com aquela imagem, descaradamente montada em Photoshop, que mostra um saquinho do Pão de Açúcar no focinho de um urso polar, como se isso fosse a coisa mais plausível de acontecer num mundo globalizado como o nosso. Sim, é claro que o plástico, vindo da principal fonte de renda do Oriente Médio, boa coisa não deve ser. Pelo cheiro que solta quando é queimado dá para ser ter uma noção de seus estragos à pureza do ar. Se pegarmos aquela ampulheta da natureza, aquela tabela de contagem regressiva que indica quantos anos cada matéria-prima demora para se decompor, o plástico certamente é um vilão, já que ocupa uma das posições de lanterninha nessa corrida contra o tempo.
A restrição é claríssima, mas as opções são poucas. Primeiro, a mais dolorosa: as sacolas alternativas, aquelas produzidas em tecido cru e docemente chamadas de “ecobags”, são cobradas à parte. Ainda que existam alguns modelos graficamente artísticos, não vou andar por aí com uma sacola dessas, como se eu fosse um eterno cliente de supermercado. E, mesmo que suas estampas sejam muito mais fashion do que propaganda de oculista ou de candidato político, elas suprem somente a necessidade de carregar as compras. Eu, particularmente, costumo atribuir uma outra utilidade para as sacolas plásticas, que é a de embalar lixo. Não me enquadro exatamente no modelo de desperdício. E, com essa nova norma, não sei mais como improvisar. Como se trata de uma medida pública, isso tá me parecendo conchavo com alguns setores industriais, aos moldes da obrigatoriedade (que deixou de ser obrigatória logo em seguida) do kit de primeiros-socorros nos carros, das cadeiras infantis e de qualquer outro utensílio compulsório que possa mover determinados segmentos da economia. Respeitar a natureza, faço com o maior gosto. Respeitar a hipocrisia, de jeito nenhum. Enquanto eu puder burlar essa regra pseudoecológica, farei com todas as minhas forças.
Boa Reserva
Tenho que confessar um heresia: não gosto do Reserva Cultural. Quer dizer, ele dá de 10 a 0 nos Cinemarks da vida. A programação é muito boa, a região é ótima e tudo. Claro que é melhor ter um cinema em atividade em plena Av. Paulista do que remoer as saudades das salas que já se foram, cada vez mais numerosas. Conheço o Jean Thomaz, cumprimento sempre que o vejo. Mas, apesar de tudo isso, lá eu não me sinto exatamente “em casa”. Talvez por causa dessa coisa de ficar no meio-termo: tem pães e doces mas não é boulangerie, tem restaurante mas não é restaurante, apenas fica na tentativa de ser bistrô. Se eu tenho vontade de ir a um bistrô, vou a um bistrô. Lá, tenho a impressão de que a coisa fica apenas na degustação, no modelo “demo”. Se eles oferecem essas opções, ótimo. Melhor do que não tê-las. Mas acho que lá as coisas são um pouco caras, a relação custo X benefício não é das mais vantajosas. Por isso, vou ao Reserva apenas para ver filmes. E o valor do ingresso lá também é alto. R$ 22 a inteira, inclusive durante a semana, é nível Shopping Iguatemi. Ou seja, lá eu vejo filmes que são lançados com exclusividade e, em alguns casos, por uma questão de conveniência da localização. Não é exatamente um ícone do conforto, já que a maioria dos filmes lançados por eles são em digital, e aquela projeção com nível máximo de saturação me dá dor de cabeça. Os banheiros muitas vezes estão fechados, em reforma, em fase provisória de transição. Enfim, o Reserva é uma ótima solução para se salvar o cinema de rua e oferecer uma programação diferenciada, mas longe de ser o paraíso da arte. E, mesmo que o espaço finge que te faz se sentir em Paris, alguns senões te mostram claramente que você está nada mais do que em São Paulo, ao lado da muvuca do Objetivo. As salas 3 e 4, por exemplo, nos porões do estabelecimento, parece que caíram no esquecimento. Você nunca sabe se pode entrar, se a sala está aberta ou não, se a fila que se forma no corredor condiz com a do filme que você pretende ver. Como as portas destas salas são liberadas no último minuto de intervalo (os últimos da fila, inclusive, só conseguem entrar com a projeção dos comerciais já iniciada), tem-se a sensação de vãos perdidos, monumentos precocemente abandonados. E, tirando um ou outro profissional exemplar (como o antológico senhor negro de cabelos grisalhos), sinto que a maioria está ali única e exclusivamente pela necessidade de salário no fim do mês. Diferente de outras salas da região, mais calorosas no corpo a corpo, lá no Reserva o tratamento tem um quê de arrogância e frieza, atendimento protocolar, lacônico. Talvez eu seja exigente demais, ou não esteja num bom dia, ou esteja sendo preconceituoso com o lugar que cheira a café do introito ao cabo. Mas é o que sinto. Ou sentia, até semana passada, quando uma situação me chamou a atenção. Ao assistir ao documentário VIPs, numa dessas recônditas salas, fui abordado por um funcionário que parece ser novo da casa. Seu visual era nada convidativo: cabeça raspada, barba mal-feita, cavanhaque embrionário. Visualmente, parecia ser um dos integrantes do Ratos de Porão. Mas as aparências enganam. O cara é superatencioso e simpaticíssimo. Faz as boas-vindas para cada espectador, abre as portas da sala num delicado e apoteótico gesto, reitera a exata localização das cadeiras numeradas. Parecia mais um comissário de bordo, um conciérge. Ali eu não me sentia entrando no cinema. Parecia o início de uma ópera. Amor pela arte? Vontade e necessidade de se manter no emprego? Ou o Reserva vem apostando e investindo num outro tipo de marketing? Não sei, não sei. Mas se esse profissional se configurar a partir de agora como regra e não como exceção, o Reserva tem tudo para mudar a imagem que alimento por ele.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
A última estação
Na quarta-feira 11 de maio, ao abrir a Folha de São Paulo e procurar a Ilustrada no meio daquele monte de cadernos amontoados, como costumo fazer toda manhã, passei pelo caderno Cidades e vi uma nota de página sobre a desistência do Governo de São Paulo de se construir uma estação de metrô na Av. Angélica. Embora o mapinha desenhado da futura Linha Laranja (Brasilândia - São Joaquim) tivesse me chamado a atenção, não dei muita importância à notícia. Preferi continuar minha busca pelas críticas de filmes, discos e restaurantes, ou me orientar com a programação do circuito de cinemas. Na minha modesta opinião, o Centro de São Paulo já está suficientemente bem abastecido de metrô. O que precisa se resolver com urgência é o caos do que já existe no dia a dia. Situações que aos poucos desgastam a imagem daquele transporte que um dia já foi referência na América Latina. O que precisa se pensar, de imediato, é como voltar a oferecer transporte de qualidade a uma população de usuários que triplica a cada década. Como atender à crescente demanda de maneira satisfatória, ao invés de se improvisar soluções paliativas, como aqueles cordões de isolamento nas estações de maior fluxo, desligamento de escadas rolantes e filas nas catracas para segurar o contingente. Acho mais sensato, por exemplo, trazer de volta a pontualidade e eficiência de um transporte que hoje mais para do que anda, com justificativas nos alto-falantes dando conta de que o veículo inerte está aguardando a movimentação dos comboios à frente. A meu ver, é muito mais deprimente ver um mapa adesivado nas estações em que a maior parte dos traços coloridos está pontilhada, indicando que as obras não estão concluídas ou sequer saíram do papel. É mais vergonhoso tomar conhecimento de que as obras na Zona Sul, notadamente carente de transporte público decente, estão interrompidas por causa de descoberta de fraudes em licitações. É mais triste ainda lembrar que a Linha Amarela, construída às pressas em um determinado período, fez uma van chafurdar em suas areias movediças, na região de Pinheiros, com quase uma dezena de pessoas a bordo. Causa-me ainda mais espanto tentar entender por que a citada Linha Amarela e as estações Tamanduateí e Vila Prudente operam em uma reduzida jornada, diferenciando-se do conjunto. Pra mim, a ordem de prioridades é pensar no metrô como um projeto de extensão para chegar à periferia e bairros desprovidos de acesso, ao invés de tumultuar o meio-de-campo, transbordar a malha e oferecer ainda mais alternativas numa região suficientemente abastecida de trilhos. Mas tudo bem. Em se tratando de iniciativa pública, é melhor pecar por excesso do que pela falta.
Minha surpresa maior foi acompanhar, pelas mídias eletrônicas, a repercussão da amarelada do Governo, mais pelo efeito do que pelo conteúdo da matéria da Folha. Vasculhei um link ou outro e, haja visto que eu não tinha uma opinião formada sobre o assunto até o momento, alguns textos me pareceram bem convincentes e estruturados. Um deles apresenta, com argumentos e uma certa ironia, mas deixa de lado as ofensas, alguns motivos razoáveis: o alto custo de desapropriação dos imóveis no entorno do supermercado Pão de Açúcar (coração da ex-futura estação), a relativa fartura de estações de outros ramais nas imediações, a curta distância entre a proferida avenida e o futuro escoadouro ferroviário Higienópolis-Mackenzie. O internauta ressalta também que a polêmica estação, caso seja sediada perto do estádio do Pacaembu, atenderia ao projeto como foi inicialmente concebido. E, principalmente, o autor do comentário reitera que as manifestações de associações de bairro são um direito legítimo. Pra mim, pareceu tudo muito lógico. Em breve, teremos uma Consolação atendida pelo Metrô, e a Consolação tem um fluxo maior do que a Angélica. Melhor então deslocar uma estação para o vazio do estádio, da FAAP e dos piscinões, região precária de transporte.
Como o assunto é embrionário e o registro do jornal foi pontual e não estrutural, o assunto merece, de fato, um debate mais amplo e com uma parcela maior da sociedade, já que mostrou-se ser tão suscetível a divergências ideológicas e pragmáticas. Não foi exatamente o que aconteceu. Infelizmente, o brasileiro ainda está um pouco cru em relação ao exercício da democracia. Em vez de se mergulhar no tema, optou-se por ampliar e alardear a superficialidade e o sensacionalismo de seu apêndice: uma declaração infeliz e descontextualizada de uma moradora do bairro, extraída de uma matéria do meio do ano passado, que diz que a construção de uma linha do metrô na região pode trazer mendigos, drogados, “gente diferenciada”. Foi o estopim. No dia a dia, eu me deparo com muitas pessoas insatisfeitas com as gestões administrativas de Alckimin e Kassab. Trazer uma notícia que desfavoreça seus governos, qualquer que seja, é motivo suficiente para essa galera entrar na onda de protestos. Algumas pessoas do meu círculo próximo, confessos desconhecedores do teor da matéria, foram as primeiras a aderir à campanha no sentido de se ridicularizar essas gestões executivas. E aí, na pressa de se expressar comentários tão indignados quanto rasteiros, sobrou para os moradores de Higienópolis. Um dos trending topics do Twitter dos últimos dias, a questão gerou manifestações de diversos tipos, das mais razoáveis às mais preconceituosas. Pagaram com a mesma moeda. A discriminação aos imigrantes nordestinos provou de seu próprio veneno e recebeu outra discriminação, com o mesmo tom de baixaria. O povo judeu, predominante na região, também foi alvo de acusações. E tão predominante quanto os semitas foi a falta de conhecimento sobre o assunto. Aos desavisados, que mais conhecem a lenda do que o bairro, ficou parecendo que os rabinos, com suas malas cheias de diamantes contrabandeados, tocaram a campainha do amigo e vizinho FHC exigindo a proibição de transporte público em suas cercanias, a fim de se evitar a contaminação virótica da presença diferenciada. Aos olhos desses twitteiros, a elite cafeicultora paulista, que manda e desmanda nas leis e na ordem, desenhou a cidade trancafiando suas disneylândias e afastando a população de suas redomas.
Como o Brasil é o país do pão e circo, exemplo de governança secular de todas as instâncias, a transformação de um potencial debate sério em uma festança alegórica e ridicularizada foi um processo natural. Afinal de contas, quem faz parte do Facebook já está se acostumando a “participar” de eventos fictícios, como foi o caso dos recentes casamento do príncipe William, velório do Bin Laden e chá de bebê do filho do Neymar. Nesse sentido, a criação bem-humorada de um churrasco em frente ao Shopping Higienópolis (que outrora também foi alvo de manifestações dos moradores... mas ninguém se lembra disso) foi interpretada como uma atitude saudável de protesto. Criticar o governo com beberranças e patuscadas é mais simpático do que fazer greve ou parar o trânsito da Av. Paulista, por exemplo. E já que a politização cedeu lugar à farra, a divulgação de uma festa regada a quitutes e adereços considerados populares soou até engraçada. Mas nem mesmo os organizadores, que criaram o evento em tom de brincadeira, esperavam adesão tão expressiva. Foram quase 50 mil possíveis confirmações de presença. E aí, temendo que o tiro saísse pela culatra e que a marcha carnavalesca tivesse um efeito negativo contrário, o pessoal declinou da ideia e trocou a farra do churrasquinho de gato por um ato simbólico mais contido e mais consistente. Também, pudera. Colocar a população de um estádio lotado do Pacaembu nas ruas do shopping seria o mesmo que fazer uma Virada Cultural dentro de seus banheiros químicos. Melhor desistir da iniciativa. No blog do Luís Nassif, ele finaliza seu texto dizendo que a elite paulistana venceu. Eu sou mais cético. Tivemos um churrasco cancelado, uma chuva de xingamentos na internet, um decide-não-decide das autoridades e uma obra absolutamente estagnada. A meu ver, perdemos todos nós.
Minha surpresa maior foi acompanhar, pelas mídias eletrônicas, a repercussão da amarelada do Governo, mais pelo efeito do que pelo conteúdo da matéria da Folha. Vasculhei um link ou outro e, haja visto que eu não tinha uma opinião formada sobre o assunto até o momento, alguns textos me pareceram bem convincentes e estruturados. Um deles apresenta, com argumentos e uma certa ironia, mas deixa de lado as ofensas, alguns motivos razoáveis: o alto custo de desapropriação dos imóveis no entorno do supermercado Pão de Açúcar (coração da ex-futura estação), a relativa fartura de estações de outros ramais nas imediações, a curta distância entre a proferida avenida e o futuro escoadouro ferroviário Higienópolis-Mackenzie. O internauta ressalta também que a polêmica estação, caso seja sediada perto do estádio do Pacaembu, atenderia ao projeto como foi inicialmente concebido. E, principalmente, o autor do comentário reitera que as manifestações de associações de bairro são um direito legítimo. Pra mim, pareceu tudo muito lógico. Em breve, teremos uma Consolação atendida pelo Metrô, e a Consolação tem um fluxo maior do que a Angélica. Melhor então deslocar uma estação para o vazio do estádio, da FAAP e dos piscinões, região precária de transporte.
Como o assunto é embrionário e o registro do jornal foi pontual e não estrutural, o assunto merece, de fato, um debate mais amplo e com uma parcela maior da sociedade, já que mostrou-se ser tão suscetível a divergências ideológicas e pragmáticas. Não foi exatamente o que aconteceu. Infelizmente, o brasileiro ainda está um pouco cru em relação ao exercício da democracia. Em vez de se mergulhar no tema, optou-se por ampliar e alardear a superficialidade e o sensacionalismo de seu apêndice: uma declaração infeliz e descontextualizada de uma moradora do bairro, extraída de uma matéria do meio do ano passado, que diz que a construção de uma linha do metrô na região pode trazer mendigos, drogados, “gente diferenciada”. Foi o estopim. No dia a dia, eu me deparo com muitas pessoas insatisfeitas com as gestões administrativas de Alckimin e Kassab. Trazer uma notícia que desfavoreça seus governos, qualquer que seja, é motivo suficiente para essa galera entrar na onda de protestos. Algumas pessoas do meu círculo próximo, confessos desconhecedores do teor da matéria, foram as primeiras a aderir à campanha no sentido de se ridicularizar essas gestões executivas. E aí, na pressa de se expressar comentários tão indignados quanto rasteiros, sobrou para os moradores de Higienópolis. Um dos trending topics do Twitter dos últimos dias, a questão gerou manifestações de diversos tipos, das mais razoáveis às mais preconceituosas. Pagaram com a mesma moeda. A discriminação aos imigrantes nordestinos provou de seu próprio veneno e recebeu outra discriminação, com o mesmo tom de baixaria. O povo judeu, predominante na região, também foi alvo de acusações. E tão predominante quanto os semitas foi a falta de conhecimento sobre o assunto. Aos desavisados, que mais conhecem a lenda do que o bairro, ficou parecendo que os rabinos, com suas malas cheias de diamantes contrabandeados, tocaram a campainha do amigo e vizinho FHC exigindo a proibição de transporte público em suas cercanias, a fim de se evitar a contaminação virótica da presença diferenciada. Aos olhos desses twitteiros, a elite cafeicultora paulista, que manda e desmanda nas leis e na ordem, desenhou a cidade trancafiando suas disneylândias e afastando a população de suas redomas.
Como o Brasil é o país do pão e circo, exemplo de governança secular de todas as instâncias, a transformação de um potencial debate sério em uma festança alegórica e ridicularizada foi um processo natural. Afinal de contas, quem faz parte do Facebook já está se acostumando a “participar” de eventos fictícios, como foi o caso dos recentes casamento do príncipe William, velório do Bin Laden e chá de bebê do filho do Neymar. Nesse sentido, a criação bem-humorada de um churrasco em frente ao Shopping Higienópolis (que outrora também foi alvo de manifestações dos moradores... mas ninguém se lembra disso) foi interpretada como uma atitude saudável de protesto. Criticar o governo com beberranças e patuscadas é mais simpático do que fazer greve ou parar o trânsito da Av. Paulista, por exemplo. E já que a politização cedeu lugar à farra, a divulgação de uma festa regada a quitutes e adereços considerados populares soou até engraçada. Mas nem mesmo os organizadores, que criaram o evento em tom de brincadeira, esperavam adesão tão expressiva. Foram quase 50 mil possíveis confirmações de presença. E aí, temendo que o tiro saísse pela culatra e que a marcha carnavalesca tivesse um efeito negativo contrário, o pessoal declinou da ideia e trocou a farra do churrasquinho de gato por um ato simbólico mais contido e mais consistente. Também, pudera. Colocar a população de um estádio lotado do Pacaembu nas ruas do shopping seria o mesmo que fazer uma Virada Cultural dentro de seus banheiros químicos. Melhor desistir da iniciativa. No blog do Luís Nassif, ele finaliza seu texto dizendo que a elite paulistana venceu. Eu sou mais cético. Tivemos um churrasco cancelado, uma chuva de xingamentos na internet, um decide-não-decide das autoridades e uma obra absolutamente estagnada. A meu ver, perdemos todos nós.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Restaurant Weak
O poder de compra do brasileiro aumentou. Os preços estão congelados desde a primeira edição. A cobertura e a divulgação do evento foram ampliadas, bem como a quantidade de estabelecimentos participantes. Tudo isso contribuiu para popularizar o Restaurant Week, que contou com quase 1 milhão de pessoas em suas 300 casas, e fazer com que essa iniciativa passasse a fazer parte do calendário da cidade. Mas, junto com essa febre toda, vieram também os senões típicos dos festivais concorridos e muvucados, fazendo com que o resultado geral final fosse apenas mediano, inferior a algumas edições anteriores.
Abaixo está minha avaliação sobre o recorte que fiz desta edição. Os restaurantes estão por ordem cronológica de visita. E, pra lembrar você, aqui vai a legenda de cotações que costumo fazer no blog:
Caldo = péssimo; 1 lentilha = ruim; 2 lentilhas = fraco/regular; 3 lentilhas = bom; 4 lentilhas = ótimo; mjadra = excelente.
Becco 388
Lugar agradável, que tem potencial.
Ambiente: aconchegante, porém pequeno e pouco funcional. Lembra os casarões antigos, o que dá um clima de intimidade. A arandela com velas já foi destaque da Vejinha, mas os corredores são estreitos, o banheiro é minúsculo e a área para a fila de espera é concorrida. 2,5 lentilhas.
Serviço: os garçons são simpáticos e atenciosos, mas o serviço ainda está um pouco atrapalhado. Era comum vê-los se esbarrando nos corredores, o que mostra que a coisa não flui. A dona chamou a atenção de um deles ao nosso lado. Foi servida uma sobremesa com um intervalo de mais de 15 minutos em relação à outra. Destaque para a hostess, simpática, prestativa e eficiente para organizar a fila e conduzir as pessoas às mesas. 2 lentilhas.
Comida: o melhor da casa. Entradinha honesta, que serve como um bom tiragosto. O prato principal (linguini com lascas de salmão) muito bem preparado. A sobremesa nada deixou a desejar. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 2,5 lentilhas.
Per Paolo - Vila Mariana
Fui conhecer essa casa num esquema meio diferente, com um grupo de pessoas da agência onde trabalho. Então o clima era outro, mais despojado, mais “bagunça”. A casa vende massas prontas e frascas, molhos, compotas, patês, etc. Transformá-la em restaurante parece ter sido uma adaptação de espaço. O lugar, ao lado de uma Lojas Americanas Express, num minicomplexo de lojas de um conjunto de prédios, nem parece fazer parte de tão badalado roteiro.
Ambiente: nada de especial. Parece um café com mesinhas um pouco mais arrumadas. Não havia um banheiro para homens e outro para mulheres, apenas um aposento único para as necessidades, com porta sanfonada. Faltou charme e estilo. 1,5 lentilhas.
Serviço: de boteco. Os garçons apenas anotavam os pedidos, sem tomar qualquer iniciativa fora dos padrões. Um deles não sei dizer se estava mal-humorado ou se é lacônico mesmo. Só faltou a caneta atrás da orelha e o bloquinho de anotações em papel cor-de-rosa. O couvert foi colocado à mesa sem nos consultarem se queríamos ou não. 1 lentilha.
Comida: honesta, apenas honesta. A saladinha de entrada não disse a que veio. Pedi um gnocchi de tomate seco ao molho ementhal. A porção estava satisfatória, relativamente farta até, mas fiquei procurando por muito tempo onde estava o sabor diferenciado do prometido queijo. 2,5 lentilhas.
Avaliação geral: 2 lentilhas.
Fillipa
É a segunda vez que vou ao lugar, que mantém sua proposta de cozinha contemporânea, misturando estilos e origens culinárias. As receitas são bem criativas e elaboradas, mas faltou diversificar um pouco mais em relação à edição anterior.
Ambiente: clean, organizado, correto. Sem muito luxo. O Fillipa é mais objetivo, mas não deixa de ser convidativo para um bate-papo um pouco mais longo. 3 lentilhas.
Serviço: mais prestativo e atencioso em relação à visita anterior. Rápido e eficiente, os garçons mostram que estão preparados para atender à demanda extra do evento. 4 lentilhas.
Comida: muito bem preparada. A entradinha seguiu a linha exótica. Como eu já tinha pedido o salmão ao curry na outra visita, optei desta vez pelo filé com penne feito com vodca, um prato mais conservador. Apesar de tradicional e simples, o sabor residual acentuado fez a diferença. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Dui
Fomos conhecer a badalada casa da chef Bel Coelho. Eles não fazem reservas e as pessoas se acomodam por ordem de chegada.
Ambiente: a casa é bem espaçosa, acomoda bem os frequentadores. Tudo muito confortável. Os toilettes são pequenos. Tem uma área verde que traz um respiro a mais e contrasta com os tons da estética moderna da casa. 4 lentilhas.
Serviço: equipe muito bem preparada para atender essa demanda. O atendimento flui. Não existem aquelas esperas desnecessárias, nem garçons que fingem que não te veem. 4 lentilhas.
Comida: de entrada, uma saladinha simples, mas muito bem preparada. O prato principal gerou opiniões opostas. Eu pedi um filé de St. Peter com tabule, que estava irretocável. Minha namorada pediu um risoto (muito bom) com steak de fraldinha, mas a carne estava dura, algo inadmissível para um restaurante deste calibre. Pela média, 2,5 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Félix Bistrô
Somos frequentadores deste restaurante e seu ambiente rústico. Eles sempre capricham nas escolhas do SPRW. Dentro da casa, o ambiente é mais familiar. Do lado de fora, à beira da piscina, o ambiente é mais romântico ou próprio para um bate-papo com amigos contemplando a natureza selvagem. Fomos lá no sábado da “hora do planeta”. Durante o período, o local funcionou à luz de velas, o que deu um aspecto visual bem agradável. Mas, infelizmente, nesse mesmo dia um grupo enorme reservou várias mesas para a comemoração de um aniversário, e essa farra de bebedeira e de cantar parabéns, além de destoar completamente do clima intimista do local, comprometeu a qualidade dos serviços.
Ambiente: um atrativo à parte. Você não sabe se está num sítio ou num patrimônio tombado, e essa dúvida é saudável. No inverno ou em dias de baixa temperatura, uns algodões nas escadas aumentam a sensação de cortejo. Mjadra.
Serviço: sempre muito rápido e prestativo, mas desta vez, por causa da pândega vizinha, deixou a desejar. Foi mais lacônico do que de costume, e os garçons estavam visivelmente incomodados com a imprevista baderna. Faltaram pães na entrada de um casal de amigos nossos. 2 lentilhas.
Comida: também ficou abaixo da média. O Félix costuma ser impecável, mas, desta vez, cometeu um deslize. Estávamos em 4 pessoas, e todos pediram o entrecôte com puré de mandioquinha. O purê estava especial, mas 2 filés do conjunto de pedidos apresentavam excesso de nervos e de gordura. 2 lentilhas.
Avaliação geral: 2,5 lentilhas.
Govinda
Fomos conhecer essa famosa casa de comida indiana, já que a gente costuma frequentar uma outra, o Tandoor. Como existem pouquíssimos restaurantes do gênero, fica mais fácil fazer a comparação. Aqui eles não são tão ortodoxos, pois fogem do trivial cordeiro e frango e colocam no cardápio opções com frutos do mar e até cometem a heresia de oferecer pratos de carne bovina.
Ambiente: o paraíso das novelas. O lugar é enorme e não faltam objetos e ornamentos da região. Exótico é pouco para descrever o complexo de restaurante, loja, sala de estar e uma vasta área desativada que deve funcionar apenas para eventos. Dá para se sentir um coadjuvante de uma produção bollywood. Mjadra.
Serviço: o mâitre foi bem receptivo e nos acomodou num ambiente com ar condicionado, no meio do salão. O serviço, de um modo geral, foi correto. O garçom que fez o pedido da sobremesa estava muito mal-humorado e nos atendeu de um modo destoante do restante da equipe. 2 lentilhas.
Comida: a entrada vale a visita. uma vasta roda de temperos e potinhos com condimentos típicos. Deixa pra trás os concorrentes. O único senão é que a cesta de pães era bem pequena. O prato principal era um combinado mais pra linha fast-food, sem a mesma apresentação colossal da entrada. A sobremesa é bem pequena e sem-gracinha. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Vintage
Fomos conhecer essa casa anexa à loja Ville Du Vin. Foi nossa melhor experiência do SPRW.
Ambiente: a casa de vinhos é um espetáculo, com aquele ar sombrio e cheiro de madeira. O restaurante segue a linha tradicional. Uma janela acima das escadas deixa à mostra a cozinha e os bem-humorados cozinheiros. O mâitre nos reservou uma mesa na varanda, longe do movimento da sala principal, e isso trouxe uma harmonia e tranquilidade quase zen-budista. Mjadra.
Serviço: excelente. O mâitre tinha um sotaque levemente carregado e parecia conhecer muito sobre os pratos, os vinhos e as harmonizações. Me senti num bistrô de Paris. Logo nos perguntou que tipo de água gostaríamos de beber, a fim de evitar qualquer tipo de leviandade como, por exemplo, pedir cerveja ou Coca-Cola. Mjadra.
Comida: de primeiríssima qualidade. O restaurante segue a linha tradicional, mas resolveu trazer ao cardápio promocional as receitas mais criativas. O filé de peixe ao molho de capim estava excelente. Só não leva a nota máxima porque a entrada, o prato principal e a sobremesa vieram em diminutas e contidas porções. Entre as sobremesas, a gelatina de mel com sorvete foi superior à mousse de chocolate. 4,5 lentilhas.
Avaliação geral: 4,5 lentilhas.
Bassi
Fazia muito tempo que eu não visitava essa churrascaria. Da última vez, ainda era em outra casa, menor, um pouco pra baixo da 13 de Maio. Por indicação, fugimos um pouco da rota bistrô/cozinha contemporânea e fomos comprovar se esse resgate conservador à marca que já foi patrocinadora do Maguila valeu a pena.
Ambiente: como chegamos bem cedo, antes de abrir, a sala de espera parecia só nossa, o que trouxe a sensação de conforto e bem-estar. O espaço é amplo e as mesas se acomodam bem, o que a faz se distinguir das churrascarias comuns. A decoração fica no meio-termo entre o cafona e o sofisticado. 3 lentilhas.
Serviço: atencioso, politicamente correto. O mâitre foi bem prestativo. O garçom demorou um pouco para nos servir as bebidas. 3 lentilhas.
Comida: cumpre o que promete. Indo na direção oposta da maioria dos estabelecimentos participantes, o Bassi não investe na variedade nem na criatividade dos pratos mas, em compensação, abusa da fartura. Aqui não tem essa de menos é mais. A entrada é o couvert da casa, um mix de pães, pimentão, berinjela, abobrinha, cenoura. O prato (único) é um caprichado bombom de alcatra com arroz carreteiro e farofa. De sobremesa, um protocolar sorvete crocante. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Crêpe de Paris
Estávamos em dúvida sobre qual restaurante iria nos fazer fechar a maratona com chave de ouro. O Voilá foi cotado, mas optamos por este pela descrição do cardápio e pela localização. Aos poucos, pudemos perceber que o lugar deixa clara sua opção de bistrô light, indo num caminho mais econômico que alguns similares: guardanapo de papel, talheres que não são trocados entre a entrada e o prato principal, e por aí vai.
Ambiente: o bistrô fica ao fundo de uma charmosa galeria a céu aberto e tem todo aquele charme sugerido pelas fotos. Apesar da viela ser estreia, o lugar é relativamente amplo. Um belo convite a um almoço ou jantar agradável. Portanto, esse clima mais intimista dispensa a música ao vivo, totalmente desnecessária para um ambiente que pede aquela conversinha ao pé do ouvido. 3 lentilhas.
Serviço: a hostess foi bem atenciosa e os garçons foram receptivos, mas o serviço ainda precisa de ajustes. Na mesa de trás, percebi que o garçom foi claro ao explicar ao cliente que, durante o SPRW, o bistrô não estava preparando outros pratos. Na hora de pedirmos a sobremesa, a garçonete não nos trouxe novamente o cardápio, tampouco soube explicar as opções. Quando pedimos a conta, a mesma garçonete nos explicou item por item cobrado, pois a máquina estava com defeito, mas foi meio grossa nesta explanação. O couvert artístico (opcional) foi cobrado, mas optamos por não pagar. 2 lentilhas.
Comida: a grande decepção. A entradinha, simples, prometia. Mas quando veio o prato principal, todas as expectativas foram por água abaixo. O filé de peixe estava insípido, frio e semicru por dentro. Imperdoável. Nem a sobremesa (um trivial crepe de doce de leite) salvou este fiasco. 1,5 lentilha.
Avaliação geral: 2 lentilhas.
Abaixo está minha avaliação sobre o recorte que fiz desta edição. Os restaurantes estão por ordem cronológica de visita. E, pra lembrar você, aqui vai a legenda de cotações que costumo fazer no blog:
Caldo = péssimo; 1 lentilha = ruim; 2 lentilhas = fraco/regular; 3 lentilhas = bom; 4 lentilhas = ótimo; mjadra = excelente.
Becco 388
Lugar agradável, que tem potencial.
Ambiente: aconchegante, porém pequeno e pouco funcional. Lembra os casarões antigos, o que dá um clima de intimidade. A arandela com velas já foi destaque da Vejinha, mas os corredores são estreitos, o banheiro é minúsculo e a área para a fila de espera é concorrida. 2,5 lentilhas.
Serviço: os garçons são simpáticos e atenciosos, mas o serviço ainda está um pouco atrapalhado. Era comum vê-los se esbarrando nos corredores, o que mostra que a coisa não flui. A dona chamou a atenção de um deles ao nosso lado. Foi servida uma sobremesa com um intervalo de mais de 15 minutos em relação à outra. Destaque para a hostess, simpática, prestativa e eficiente para organizar a fila e conduzir as pessoas às mesas. 2 lentilhas.
Comida: o melhor da casa. Entradinha honesta, que serve como um bom tiragosto. O prato principal (linguini com lascas de salmão) muito bem preparado. A sobremesa nada deixou a desejar. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 2,5 lentilhas.
Per Paolo - Vila Mariana
Fui conhecer essa casa num esquema meio diferente, com um grupo de pessoas da agência onde trabalho. Então o clima era outro, mais despojado, mais “bagunça”. A casa vende massas prontas e frascas, molhos, compotas, patês, etc. Transformá-la em restaurante parece ter sido uma adaptação de espaço. O lugar, ao lado de uma Lojas Americanas Express, num minicomplexo de lojas de um conjunto de prédios, nem parece fazer parte de tão badalado roteiro.
Ambiente: nada de especial. Parece um café com mesinhas um pouco mais arrumadas. Não havia um banheiro para homens e outro para mulheres, apenas um aposento único para as necessidades, com porta sanfonada. Faltou charme e estilo. 1,5 lentilhas.
Serviço: de boteco. Os garçons apenas anotavam os pedidos, sem tomar qualquer iniciativa fora dos padrões. Um deles não sei dizer se estava mal-humorado ou se é lacônico mesmo. Só faltou a caneta atrás da orelha e o bloquinho de anotações em papel cor-de-rosa. O couvert foi colocado à mesa sem nos consultarem se queríamos ou não. 1 lentilha.
Comida: honesta, apenas honesta. A saladinha de entrada não disse a que veio. Pedi um gnocchi de tomate seco ao molho ementhal. A porção estava satisfatória, relativamente farta até, mas fiquei procurando por muito tempo onde estava o sabor diferenciado do prometido queijo. 2,5 lentilhas.
Avaliação geral: 2 lentilhas.
Fillipa
É a segunda vez que vou ao lugar, que mantém sua proposta de cozinha contemporânea, misturando estilos e origens culinárias. As receitas são bem criativas e elaboradas, mas faltou diversificar um pouco mais em relação à edição anterior.
Ambiente: clean, organizado, correto. Sem muito luxo. O Fillipa é mais objetivo, mas não deixa de ser convidativo para um bate-papo um pouco mais longo. 3 lentilhas.
Serviço: mais prestativo e atencioso em relação à visita anterior. Rápido e eficiente, os garçons mostram que estão preparados para atender à demanda extra do evento. 4 lentilhas.
Comida: muito bem preparada. A entradinha seguiu a linha exótica. Como eu já tinha pedido o salmão ao curry na outra visita, optei desta vez pelo filé com penne feito com vodca, um prato mais conservador. Apesar de tradicional e simples, o sabor residual acentuado fez a diferença. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Dui
Fomos conhecer a badalada casa da chef Bel Coelho. Eles não fazem reservas e as pessoas se acomodam por ordem de chegada.
Ambiente: a casa é bem espaçosa, acomoda bem os frequentadores. Tudo muito confortável. Os toilettes são pequenos. Tem uma área verde que traz um respiro a mais e contrasta com os tons da estética moderna da casa. 4 lentilhas.
Serviço: equipe muito bem preparada para atender essa demanda. O atendimento flui. Não existem aquelas esperas desnecessárias, nem garçons que fingem que não te veem. 4 lentilhas.
Comida: de entrada, uma saladinha simples, mas muito bem preparada. O prato principal gerou opiniões opostas. Eu pedi um filé de St. Peter com tabule, que estava irretocável. Minha namorada pediu um risoto (muito bom) com steak de fraldinha, mas a carne estava dura, algo inadmissível para um restaurante deste calibre. Pela média, 2,5 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Félix Bistrô
Somos frequentadores deste restaurante e seu ambiente rústico. Eles sempre capricham nas escolhas do SPRW. Dentro da casa, o ambiente é mais familiar. Do lado de fora, à beira da piscina, o ambiente é mais romântico ou próprio para um bate-papo com amigos contemplando a natureza selvagem. Fomos lá no sábado da “hora do planeta”. Durante o período, o local funcionou à luz de velas, o que deu um aspecto visual bem agradável. Mas, infelizmente, nesse mesmo dia um grupo enorme reservou várias mesas para a comemoração de um aniversário, e essa farra de bebedeira e de cantar parabéns, além de destoar completamente do clima intimista do local, comprometeu a qualidade dos serviços.
Ambiente: um atrativo à parte. Você não sabe se está num sítio ou num patrimônio tombado, e essa dúvida é saudável. No inverno ou em dias de baixa temperatura, uns algodões nas escadas aumentam a sensação de cortejo. Mjadra.
Serviço: sempre muito rápido e prestativo, mas desta vez, por causa da pândega vizinha, deixou a desejar. Foi mais lacônico do que de costume, e os garçons estavam visivelmente incomodados com a imprevista baderna. Faltaram pães na entrada de um casal de amigos nossos. 2 lentilhas.
Comida: também ficou abaixo da média. O Félix costuma ser impecável, mas, desta vez, cometeu um deslize. Estávamos em 4 pessoas, e todos pediram o entrecôte com puré de mandioquinha. O purê estava especial, mas 2 filés do conjunto de pedidos apresentavam excesso de nervos e de gordura. 2 lentilhas.
Avaliação geral: 2,5 lentilhas.
Govinda
Fomos conhecer essa famosa casa de comida indiana, já que a gente costuma frequentar uma outra, o Tandoor. Como existem pouquíssimos restaurantes do gênero, fica mais fácil fazer a comparação. Aqui eles não são tão ortodoxos, pois fogem do trivial cordeiro e frango e colocam no cardápio opções com frutos do mar e até cometem a heresia de oferecer pratos de carne bovina.
Ambiente: o paraíso das novelas. O lugar é enorme e não faltam objetos e ornamentos da região. Exótico é pouco para descrever o complexo de restaurante, loja, sala de estar e uma vasta área desativada que deve funcionar apenas para eventos. Dá para se sentir um coadjuvante de uma produção bollywood. Mjadra.
Serviço: o mâitre foi bem receptivo e nos acomodou num ambiente com ar condicionado, no meio do salão. O serviço, de um modo geral, foi correto. O garçom que fez o pedido da sobremesa estava muito mal-humorado e nos atendeu de um modo destoante do restante da equipe. 2 lentilhas.
Comida: a entrada vale a visita. uma vasta roda de temperos e potinhos com condimentos típicos. Deixa pra trás os concorrentes. O único senão é que a cesta de pães era bem pequena. O prato principal era um combinado mais pra linha fast-food, sem a mesma apresentação colossal da entrada. A sobremesa é bem pequena e sem-gracinha. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Vintage
Fomos conhecer essa casa anexa à loja Ville Du Vin. Foi nossa melhor experiência do SPRW.
Ambiente: a casa de vinhos é um espetáculo, com aquele ar sombrio e cheiro de madeira. O restaurante segue a linha tradicional. Uma janela acima das escadas deixa à mostra a cozinha e os bem-humorados cozinheiros. O mâitre nos reservou uma mesa na varanda, longe do movimento da sala principal, e isso trouxe uma harmonia e tranquilidade quase zen-budista. Mjadra.
Serviço: excelente. O mâitre tinha um sotaque levemente carregado e parecia conhecer muito sobre os pratos, os vinhos e as harmonizações. Me senti num bistrô de Paris. Logo nos perguntou que tipo de água gostaríamos de beber, a fim de evitar qualquer tipo de leviandade como, por exemplo, pedir cerveja ou Coca-Cola. Mjadra.
Comida: de primeiríssima qualidade. O restaurante segue a linha tradicional, mas resolveu trazer ao cardápio promocional as receitas mais criativas. O filé de peixe ao molho de capim estava excelente. Só não leva a nota máxima porque a entrada, o prato principal e a sobremesa vieram em diminutas e contidas porções. Entre as sobremesas, a gelatina de mel com sorvete foi superior à mousse de chocolate. 4,5 lentilhas.
Avaliação geral: 4,5 lentilhas.
Bassi
Fazia muito tempo que eu não visitava essa churrascaria. Da última vez, ainda era em outra casa, menor, um pouco pra baixo da 13 de Maio. Por indicação, fugimos um pouco da rota bistrô/cozinha contemporânea e fomos comprovar se esse resgate conservador à marca que já foi patrocinadora do Maguila valeu a pena.
Ambiente: como chegamos bem cedo, antes de abrir, a sala de espera parecia só nossa, o que trouxe a sensação de conforto e bem-estar. O espaço é amplo e as mesas se acomodam bem, o que a faz se distinguir das churrascarias comuns. A decoração fica no meio-termo entre o cafona e o sofisticado. 3 lentilhas.
Serviço: atencioso, politicamente correto. O mâitre foi bem prestativo. O garçom demorou um pouco para nos servir as bebidas. 3 lentilhas.
Comida: cumpre o que promete. Indo na direção oposta da maioria dos estabelecimentos participantes, o Bassi não investe na variedade nem na criatividade dos pratos mas, em compensação, abusa da fartura. Aqui não tem essa de menos é mais. A entrada é o couvert da casa, um mix de pães, pimentão, berinjela, abobrinha, cenoura. O prato (único) é um caprichado bombom de alcatra com arroz carreteiro e farofa. De sobremesa, um protocolar sorvete crocante. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Crêpe de Paris
Estávamos em dúvida sobre qual restaurante iria nos fazer fechar a maratona com chave de ouro. O Voilá foi cotado, mas optamos por este pela descrição do cardápio e pela localização. Aos poucos, pudemos perceber que o lugar deixa clara sua opção de bistrô light, indo num caminho mais econômico que alguns similares: guardanapo de papel, talheres que não são trocados entre a entrada e o prato principal, e por aí vai.
Ambiente: o bistrô fica ao fundo de uma charmosa galeria a céu aberto e tem todo aquele charme sugerido pelas fotos. Apesar da viela ser estreia, o lugar é relativamente amplo. Um belo convite a um almoço ou jantar agradável. Portanto, esse clima mais intimista dispensa a música ao vivo, totalmente desnecessária para um ambiente que pede aquela conversinha ao pé do ouvido. 3 lentilhas.
Serviço: a hostess foi bem atenciosa e os garçons foram receptivos, mas o serviço ainda precisa de ajustes. Na mesa de trás, percebi que o garçom foi claro ao explicar ao cliente que, durante o SPRW, o bistrô não estava preparando outros pratos. Na hora de pedirmos a sobremesa, a garçonete não nos trouxe novamente o cardápio, tampouco soube explicar as opções. Quando pedimos a conta, a mesma garçonete nos explicou item por item cobrado, pois a máquina estava com defeito, mas foi meio grossa nesta explanação. O couvert artístico (opcional) foi cobrado, mas optamos por não pagar. 2 lentilhas.
Comida: a grande decepção. A entradinha, simples, prometia. Mas quando veio o prato principal, todas as expectativas foram por água abaixo. O filé de peixe estava insípido, frio e semicru por dentro. Imperdoável. Nem a sobremesa (um trivial crepe de doce de leite) salvou este fiasco. 1,5 lentilha.
Avaliação geral: 2 lentilhas.
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