terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Enem 2012
1- Onde está o sujeito da oração “Eu comia a Wanessa Camargo e o bebê”?
a) Mandando currículo pra Rede Record, TV Globo e SBT.
b) Em casa, tomando uísque com barbitúricos e ouvindo Tom Waits.
c) Salivando nos berçários das maternidades de São Paulo.
d) No programa Agora É Tarde, fazendo figuração na banda Ultraje a Rigor, já que ninguém conhece seus integrantes a não ser o Roger Moreira.
e) Nos peep shows do centro de São Paulo, assistindo a filmes de sexo entre mulheres grávidas e jumentos anões.
2- Qual é a principal figura de linguagem da frase “Nóis pega o peixe”?
a) Tiririquismo.
b) Corinthianismo.
c) Cabulação.
d) Incompatibilidade semântica. O correto seria “nóis pesca o peixe”.
e) Naturalismo. Com exceção dos pescadores e dos feirantes, ninguém mais pega o peixe hoje em dia.
Língua Portuguesa - interpretação de texto
3- Quando disse “Dilma, eu te amo”, que sentido o ex-ministro Carlos Lupi quis dar à sua declaração?
a) Alusão retórica ao Romantismo.
b) Teimosia para não desocupar o cargo.
c) Encobrimento dos escândalos de fraude.
d) Revelação de uma paixão platônica incondicional.
e) Nenhuma das anteriores. Um cara-de-pau dizer isso em rede pública para o maior expoente político do país não faz o menor sentido.
4- Certo dia, Sérgio Moraes, relator do processo contra Edmar Moreira disse “Estou me lixando para a opinião pública”. Dentro do contexto político do momento, qual o significado mais adequado do verbo lixar?
a) Polir ou desgastar com lixa.
b) Alisar uma superfície irregular.
c) Esmerilhar ou esbrugar.
d) Limar, lapidar, lustrar.
e) Defecar substâncias digestivas esféricas fétidas e, posteriormente, sair caminhando tranquilamente.
Matemática
5- De acordo com levantamentos, o ex-ministro Antonio Palocci multiplicou, em 4 anos de mandato, o seu patrimônio em 20 vezes. Considerando-se que o salário mínimo vigente no país é de R$ 622,00, calcule:
a) O estrago desse enriquecimento para a economia brasileira.
b) Quantas vidas um trabalhador comum deveria viver e quantas Mega Sena deveria acertar para se igualar ao padrão do parlamentar.
6- Numa obra em construção, um pedreiro especializado levanta de 180 a 200 tijolos em uma jornada de trabalho de 8 horas. Considere que, no Estádio Mario Filho (Maracanã), foram contratados 600 pedreiros para as obras de reforma e adaptação às normas da Copa do Mundo de 2014. Com base nestas informações, é possível afirmar que:
a) Se as obras tivessem de obedecer a todos os rigorosos critérios de engenharia, o estádio só ficaria pronto em 2096.
b) A propina a ser paga pelas empreiteiras para os dirigentes de futebol é uma dízima periódica de valor incalculável.
c) Os organizadores da Copa contam com uma torcida bastante calma e fleugmática, para que as estruturas não se abalem durante qualquer partida.
d) Não importam as regras, os prazos e as condições. Definitivamente, a obra será superfaturada.
e) Os olhos da torcida estarão concentrados na bola e não nas falhas do projeto.
Física
7- Um saco plástico de supermercado tamanho médio, erguido em sentido inverso à força gravitacional e num ângulo reto de 90º, consegue comportar 6 tomates, 2 latas de cerveja, 1 barbeador descartável e 2 pacotes de macarrão. A nova lei em São Paulo, outorgada pelo prefeito Gilberto Kassab, proíbe os estabelecimentos comerciais de distribuir tal invólucro. Com essa nova medida, é possível concluir que:
(Para efeito de cálculo, considere a fórmula do coeficiente de dilatação linear L2 = L1(1 + a.Dt) a.Dt)
a) As empresas fabricantes de ecobag utilizam mão-de-obra escrava da China.
b) Os motivos de tal restrição nada têm de ecológicos.
c) Os caixas de supermercados passaram a rir muito mais de quem sai carregando todas as compras no braço, estimulando o bom-humor da empresa e elevando a produtividade.
d) Os proprietários das empresas fabricantes de ecobags são os mesmos das tomadas de 3 pontos.
e) Por forçar a redução do peso das compras, a medida desestimula o consumo. As ecobags são pagas. Ou seja, agora os consumidores pagam mais e levam menos.
8- Considere que uma gota de chuva, ao cair de uma nuvem de 1.200 metros de altitude mínima, tenha aceleração contínua e chegue ao solo a uma velocidade de 558 km/h. Com base nesta referência, qual afirmação é verdadeira?
a) A culpa das enchentes é sempre de São Pedro.
b) Todos os governantes fingem não saber que a pior época das catástrofes meteorológicas ocorre entre dezembro e fevereiro.
c) Ninguém está nem aí para as obras de prevenção, como piscinões, alargamento das margens dos rios e córregos, desentupimento de fossas e bueiros, entre outras.
d) Pega bem um governante sair na TV se solidarizando com as famílias vítimas das enchentes e dos desabamentos.
e) Depois, não adianta chorar pelo leite derramado, que corre em velocidade muito maior.
Química
9- Qual é a principal substância utilizada na formulação de concreto dos edifícios que desabaram no Rio de Janeiro?
a) Sucateamato de isopropina.
b) Descaseído de ignorol.
c) Irregulareto de perobina.
d) Alvarato de fiscaloide.
e) Tripudianito de gambiarrina.
10- Numa reação química, qual processo melhor descreve o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva?
a) Desencantação.
b) Destilação.
c) Fermentação.
d) Liquefação.
e) Embriaguez.
Biologia
11- O empresário Marcos Valério e o tesoureiro Delúbio Soares foram os maiores favorecidos de um fraudulento esquema de corrupção do Partido dos Trabalhadores. No ecossistema, quando duas espécies se beneficiam e o povo brasileiro inteiro sai prejudicado, que nome se dá a essa relação na cadeia alimentar?
a) Comensalão.
b) Predadorismo.
c) Cafajestismo.
d) Esquemão.
e) Impunidade.
12- No Brasil, é comum dizer que “tudo acaba em pizza”. Com base neste sentimento, assinale a alternativa que corresponde às substâncias ingredientes desta iguaria culinária.
a) Queijo, ovos e cara-de-pau.
b) Tomate, orégano e falcatrua.
c) Calabresa moída e saco torrado.
d) Atum, aliche e roubalo.
e) Peito de peru light, muzzarella light e roubalheira heavy.
Geografia
13- Do ponto de vista geopolítico, o Canadá se caracteriza por:
a) Ser o berço do Rush, uma das bandas mais competentes e mais insossas do rock.
b) Ser o motivo de inspiração dos episódios de South Park.
c) Ser o melhor país do mundo, não fossem os ursos, os guardas florestais e a temperatura negativa beirando os 3 dígitos.
d) Ser o país que abrigou Luíza, uma desprezível jovem paraibana que ganhou fama imediata nas redes sociais.
e) Tornar-se uma lenda graças ao Wikipédia. Na verdade, o Canadá não existe, é apenas uma porção territorial concedida pela União Soviética aos Estados Unidos devido à quitação de uma dívida.
14- Do ponto de vista geopolítico, a cidade de Brasília se caracteriza por:
a) Concentrar o maior número de pilantras.
b) Ser uma cidade-dormitório: os políticos fodem com o povo sem fazer barulho e acordam como se nada tivesse acontecido.
c) Fazer parte do repertório de uma das vozes mais insuportáveis do país: “em Brasília, dezenove horas”.
d) Fingir que é tabuleiro de Batalha Naval e dar nome às ruas com letras e números.
e) Ser obra de Oscar Niemeyer.
História
15- A Marcha da Maconha é um movimento revolucionário que prega, entre outras coisas:
a) A distribuição gratuita da cannabis sativa nas merendas escolares.
b) A divulgação, por meio das redes sociais, de que o objeto alucinógeno faz menos mal do que a Coca-Cola Light.
c) O enfrentamento direto às autoridades militares, assim que os manifestantes conseguirem parar de rir.
d) A criação de um extenso e abrangente programa nacional, complementar ao Fome Zero: o Larica Zero.
e) Não lembro.
16- Assinale a pior dinastia da História e o movimento popular que dela se originou:
a) Fidel Castro - Cubismo.
b) Mahmoud Ahmadinejad - Censurismo.
c) Kim Jong-il - Topetada.
d) Mohamed Hosni Mubarak - Futebolismo.
e) Hugo Chavez - Imbecilismo.
Língua Estrangeira
17- A frase “Vada a bordo, cazzo”, do latim clássico, teria a seguinte tradução:
a) “Por gentileza, queira retornar à nau que Vossa Senhoria estava capitaneando”.
b) “Bebo a bordo”.
c) “F$%&#$@#$”.
d) “Seu m..., volte pra p... do navio e c... as f... e as j..., já que você f... os t... dos h..., car...!”
e) “Paramos para aguardar a movimentação do navio à frente”.
18- O filólogo Joel Santana, profundo conhecedor da Língua Inglesa, costuma enunciar alguns provérbios nas partidas de futebol de seu time. Assinale o ditado mais ouvido pela torcida.
a) Em time que tá winning you don’t move.
b) Futebol is a box of surprises.
c) We came here to add.
d) Quem don’t make, toma.
e) Victory is better than losing.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Previsões para 2012
Queima de fogos em Copacabana e queima de braços de turistas
Kassab anuncia aumento-surpresa da tarifa de ônibus, passando de R$ 3 pra R$ 4,90
Chuva mata, chuva destroi, chuva não para. Globo faz campanha para arrecadação de donativos para flagelados das enchentes. Arrecadação recorde para as vítimas do Piauí. Exército rouba todos os donativos
Fevereiro:
Bicheiro dono da Mangueira diz que apuração dos votos foi marmelada
Bicheiro dono da Gaviões arma o maior barraco
Dono da Salgueiro desmaia no meio da apuração
Março:
Líder do FMI diz que o gato subiu no telhado. Fala sobre a crise usando uma metáfora com o russo Lada modelo 87, batido, quinto dono
Rafinha Bastos mantém mistério sobre seu futuro profissional
Abril:
Twitter bate recorde de posts sobre o dia 1º de Abril
Especialistas concluem que obras do Maracanã para a Copa vão demorar mais que o previsto
Cai o ministro do Bem-Estar Social da Terceira Idade do governo Dilma
Maio:
Ana Maria Braga, além de atacar de DJ, resolve investir na carreira de stand-up
No mês das noivas, comércio de vestidos bate recorde. Mesmo que a mulherada não tem grana e (pior) mesmo sem ter marcado data de casamento
Evaldo Mocarzel lança mais um filme
Junho:
Presidente ditador do Iêmen do Sul morre baleado por grupo extremista. Quem assume o cargo é seu filho, muito mais radical e imbecil
Foo Fighters anuncia show extra, dá tilt no site de compra de ingressos Ticket For Fun. 48 horas depois, show é cancelado
Corinthians anuncia reforços
Julho:
Fabricante de creme anti-ressecamento de pele por causa do frio é acusado de colocar fezes de rato na fórmula. Donos são indiciados, mas não comparecem ao tribunal
Presidente de Trinidad e Tobago descobre câncer na virilha, mas é benigno e passa bem
Acusado de fraudes e enriquecimento ilícito, ministro das Comunicações do Setor Terciário de Dilma renuncia
Agosto:
Popularidade de Kassab cai para 3,2%. Prefeito chora e cria um novo partido
Imprensa bate recorde de notícias falsas e requentadas. Afinal, NADA acontece em agosto
Setembro:
Evaldo Mocarzel lança mais um filme
Extremistas dos extremistas do Oriente Médio tomam o poder de toda a região
Líder do FMI cria rifas virtuais pra tentar salvar a Europa
Bolsa cai, dólar sobe, e Lula aparece na TV pra falar do Coringão
Outubro:
No Dia das Crianças, criança engole peça de plástico de brinquedo na Tanzânia. Família pede indenização recorde
Mais um jogador do Corinthians envolvido em drogas, bingo, tiroteio, mortes e piriguetes
Chega ao mercado o iPhone 5.1 TSI e o iPad 2X Duo Tel. Ágio no Brasil chega a 400%
Scorcese filma biografia de Obama. Ryan Gosling no papel principal
Folha de São Paulo diz que homicídio aumentou e assalto diminuiu. Estadão diz que homicídio caiu e assalto aumentou. Povo diz que aumentou homicídio, latrocínio e ladainha
Adiada para 2013 extensão da Linha Amarela do metrô
Fã-clube do Foo Fighters divulga vinda da banda. Site oficial nega
Deprimida, líder do FMI assume presidência da Coreia do Norte
Cai o ministro dos Arredondamentos Fiscais do governo Dilma. É o 13º que sucumbe. “13 é nosso número de sorte”, desconversa a presidente
Dezembro:
Roberto Carlos traz Erasmo pro show de Natal
Mocarzel lança mais um filme
Brasil sobe para 3º no ranking das maiores economias mundiais. ONU detecta fraudes nos critérios de avaliação e na apuração dos resultados
Stand-up vira programa complementar ao churrasco na laje
Deputados autopromovem aumento de 520% em seus salários
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Mil folhas
Pois foi num domingo à tarde que o dito cliente entrou na doceria. Pelo seu olhar atônito e inebriado, todos os funcionários perceberam se tratar de um marinheiro de primeira viagem.
Para bajular a reputação do lugar, o cliente inicia um discurso ufanista à primeira balconista que o atende:
Boa tarde. Ouvi falar que vocês têm o melhor mil folhas de São Paulo. Tô muito curioso pra conhecer. A gente acabou de passar por um longo e exaustivo processo de concorrência. Eu visitei várias lojas, mas nenhuma delas atendeu aos critérios mínimos de preço, qualidade e sabor. Por isso, resolvi passar aqui.
A atendente fica lisonjeada e retribui os elogios.
Pois não, senhor. Obrigada pela escolha. Realmente, esse doce tem muita saída.
Percebendo que poderia ganhar um lucrativo e espontâneo filão de mercado, sem falar na dita cuja fidelização de cliente, a atendente pega o seu talher de alumínio brilhante e prepara-se para colher o melhor, o mais fresquinho, o mais vistoso e o mais perfumado doce da translúcida incubadora de quitutes.
Antes de a balconista manifestar seu gesto, o cliente prefere tirar algumas dúvidas. Assim como uma parcela razoável de clientes deste país, este caso específico fez uma série de cursos e especializações, MBAs, mas conhece pouco do riscado daquele tipo de aprendizado que se adquire na prática. Neste caso, a confeitaria de doces.
Pera, pera... antes de você me dar o doce, eu queria saber umas coisinhas, diz o cliente. Queria saber se aí tem realmente mil folhas.
Como?
Claro que, diante de uma indagação inusitada como essa, a balconista não poderia esboçar outra reação que não fosse de incredulidade.
É, a ética e a transparência fazem parte dos critérios de contratação de fornecedores. Se a gente adquirir um mil folhas sem as mil folhas, isso pode dar um problema danado com o departamento de Compras. Nossa empresa passa constantemente por processos de auditoria e avaliação de patrimônio. Por isso, volto a repetir (em um tom mais enfático): ESSE MIL FOLHAS TEM MIL FOLHAS?
Olha, senhor... veja bem... nosso confeiteiro é o melhor da cidade... ele capricha bastante... mas a gente nunca contou o número de folhas não senhor.
Tá bom, vai... OK então... whatever... se tiver umas 890, tudo bem... a gente justifica pro Financeiro como perda decorrente de margem de erro.
A atendente volta a pegar o doce, quando é novamente interrompida.
Outra coisa... é frente e verso?
??
É. Quero saber se tem recheio na frente e no verso de cada uma das folhas.
Olha, nosso mil folhas é bem recheado.
Ah, tá... legal...
Novamente se inicia o mesmo processo: atendente tenta pegar o doce, cliente faz mais perguntas.
Mais uma coisinha... desculpe... como é o refile dessas folhas?
???
O refile. Como elas são cortadas? Tem faca especial?
A balconista pensou numa resposta bem mal-educada, mas preferiu ser mais polida na tentativa de ganhar o cliente.
Não é um corte especial não. É um corte padrão da massa feito pela máquina importada que temos na cozinha.
Ah, certo... Então me vê um mil folhas.
A atendente esboça um sorriso incontido. Venceu a barreira da dúvida. Agora é só aguardar a cara de prazer do cliente e recolher o dinheiro pra depositar no caixa. Ponto, foi pra conta.
Só que, na relação entre clientes e fornecedores, a coisa nunca sai tão fácil assim. A coisa é mais complicada do que licitação pública. E o cliente, assim como todos os outros clientes, assim como todos nós, são pessoas. E pessoas são indecisas.
Peraí. Última coisinha, juro. Lembrei agora. Quanto custa?
Como a casa não estampa aquela famosa tabela de preços nas suas paredes pra não “sujar” a estética clean do ambiente, a pergunta do cliente fez todo sentido. Claro que a maioria dos frequentadores que lá costumam abarcar não se preocupam muito com esse pormenor. O que não quer dizer que o cliente não tenha razão em perguntar.
R$ 8,00 a unidade, senhor.
O quê??
OITO REAIS.
Mas isso é um absurdo! Totalmente fora do nosso orçamento.
O dinheiro é de fato a ponte entre as amizades. É ele o responsável por deixar homens de negócios cada vez mais próximos e pessoas cada vez mais distantes. Toda relação corre o risco de estremecer quando o assunto é dinheiro. Caem as máscaras. E foi justamente a partir desse momento que a balconista não fez mais questão nenhuma de esconder sua irritação com o consumidor em questão.
O cliente ainda tenta acalmar os ânimos e contornar o clima de mal-estar:
Olha, sei que é um momento estressante, mas somos parceiros. Vamos buscar a melhor solução, OK? Se vocês retirarem essa camada de açúcar do topo, lógico que chegaremos a um acordo tranquilamente.
Isso está fora de cogitação.
Se eu quiser levar um doce de 500 folhas, quanto daria pra fazer?
???
Não, não precisa ser a metade do valor não! Vocês têm o trabalho de preparar o produto, aquecer os fornos, faço questão de pagar mais do que 50% do custo. Sei lá, uns... R$ 5,00, pode ser?
???
Vai ser bom pra você, vai ser bom pra nós dois. Você me vende um 500 folhas, eu prometo voltar aqui mais vezes, indico o estabelecimento pra minha rede de contatos, vocês aumentam o faturamento, todos saem ganhando.
A atendente faz uma cara mostrando que está muito irritada.
Vamos fazer diferente então. Se não dá para cortar na carne, vamos ganhar em volume. Vamos supor que eu tenha que fazer uma festa. E nessa festa vai ter muitos convidados. Teria como você me passar um orçamento para 100, 200, 500, 1.000 e 5.000 unidades?
Mas afinal, de quantos doces o senhor precisa?
Então, não posso dizer agora. Estou apenas fazendo um levantamento de preços para uma eventual necessidade.
O senhor vai fazer uma festa e não sabe quantas pessoas vai convidar?
É só para balizar melhor a planilha de custos, só isso. Vocês querem ou não querem que eu seja o cliente de vocês?
Mantendo o tom de uma relativa animosidade, a balconista responde com ironia polida para esconder sua raiva:
É que, num caso extremo, atípico como esse, se por ventura o senhor precisar de uma quantidade gigantesca, teremos que reestruturar nossa equipe. E precisaríamos de um prazo um pouco maior pra dar conta da demanda, tipo 5 dias úteis.
Como? Não, não tenho esse prazo. Assim que batermos o martelo, vou precisar dos doces com urgência. Um dia de prazo, dois no máximo. Afinal, vocês topam ou não topam? Senão, vou procurar uma doceria que faça.
É IMPOSSÍVEL fazer 5.000 doces de um dia pro outro. Nem que a gente contratasse TODAS as docerias da região pra fazer freelance pra gente.
OK, vamos então deixar essa suposição pra depois. Me vê aquele mil folhas ali.
Pois não, senhor.
...
O recheio é do que mesmo?
Recheio de creme. É o padrão do mil folhas. O recheio é de fabricação caseira. Usamos ingredientes da melhor qualidade.
Ótimo! Ótimo! Excelente!
(Rosto feliz da balconista).
A história parece ter encontrado um desfecho satisfatório. Mil folhas saído da vitrine, agora desfilando seu aroma no balcão, bem abaixo do nariz do cliente.
Olha, é o seguinte. Com certeza, vocês fazem o melhor mil folhas de São Paulo. Talvez o melhor do país. Deve ser uma delícia esse mil folhas... de creme. Só que eu queria ver mais algumas opções.
?????
Isso mesmo! É natural num processo de concorrência o fornecedor mostrar sua criatividade, seu empenho. Sei lá, queria ver algumas sugestões fora da caixa. Mil folhas de doce de leite, de goiabada, de frutas vermelhas, massa de tapioca... tá vendo como eu também sou criativo? Hehe... Se a gente sentar aqui, trocar uma ideia, rabiscar umas propostas no papel, a gente consegue se diferenciar do mercado fácil, fácil. É só ter um pouco de boa vontade que a gente conquista a liderança.
Olha, meu senhor. Meu caríssimo senhor. Eu também gosto de mil folhas. E gosto mais ainda de dinheiro. Seria uma honra muito grande ter o senhor como nosso principal cliente. Mas pra mim já chega. Estou abrindo mão da venda antes mesmo de concretizar essa venda. Não dá certo. O senhor quer uma coisa, eu vendo outra. Nada pessoal. E pro senhor não sair com uma imagem abalada da nossa empresa, que demorou quase 20 anos pra construir a reputação que tem, faço questão de oferecer esse mil folhas ao senhor, sem custo nenhum. Cortesia da casa. Sem negociação, sem nada. Por favor, aceite a oferta e experimente o melhor mil folhas da cidade. De graça.
O cliente ficou meio sem jeito, mas não quis demonstrar.
Imagina! De jeito nenhum! Assim a senhora me ofende! Faço questão de pagar. Tudo bem, nossa negociação não foi das melhores, mas o mercado é assim. A economia obriga a gente a tomar essas atitudes. Nada pessoal também. Mas somos como uma empresa. Com regras, com missão, valores. E não posso aceitar esse doce de graça porque senão isso pode ser caracterizado como suborno. E a gente valoriza a ética e a transparência, conforme já falei. Por favor, não vamos criar esse clima. É nas dificuldades e nos desafios que criamos as oportunidades. Viu? Nossa negociação criou a oportunidade de eu experimentar o seu mil folhas, e você não vai precisar arcar com o prejuízo, pois faço questão e vou pagar seu valor integral! Só que vou precisar da notinha...
A balconista olha pro cliente. O cliente olha pro doce. E o doce não vê a hora de ser devorado e acabar logo com essa angústia.
Pensando bem... acho que vou pegar o mil folhas lá perto de casa, que também é muito bom. Por favor, pode me ver aquela coxinha?
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Lula no Céu
Carregando seu portfólio, Lula entra na agência. Fica encantado com sua suntuosidade, com o pé direito triplo da recepção, seguranças espalhados pelo hall. É uma agência asséptica, toda branca, que ostenta colunas góticas e um enorme quadro de Klimt.
Vim falar com o diretor de Criação, diz Lula.
Imediatamente, a lacônica recepcionista desliga o interfone e pergunta: Qual o nome do senhor?
Luís Inácio da Silva.
O senhor tem hora marcada?
Sim, marquei com ele ontem por telefone.
A recepcionista olha pra baixo, pega o interfone, balbucia uma sílabas incompreensíveis com o interlocutor. Desliga o interfone, recompõe-se, cria um sorriso falso e diz pro Lula:
O senhor pode olhar para a câmera, por favor? Segundo andar, primeira à direita.
Lula dirige-se à Criação, espera sua vez de ser atendido num sofá de veludo preto. Folheia rapidamente as últimas páginas de uma Meio & Mensagem bem antiga, mais ou menos de 2045. Fecha a revista, inicia um nervoso e aflito sapateado sobre o chão de madeira laminada. Começa a assobiar uma música que não existe. Para. Pega seu iPhone e começa a mandar algumas mensagens, quando é interrompido pelo diretor de Criação, um senhor alto, esguio, camisa preta, barba grisalha por fazer e brinco na orelha esquerda.
Aceita um café? Água?
Não, obrigado.
Então vamos entrar.
...
E aí? Fala um pouco de você.
Olha... veja bem... eu nasci e cresci numa cidade bem pobre. Nunca fiz faculdade, sempre me sustentei. Entrei nesse mercado por mérito próprio, nunca tive uma indicação. Comecei a fazer meu portfólio lá no Sindicato, na hora do almoço. Aí fui batalhando, batendo de porta em porta... já fui em tudo quanto é lugar: periferia, cidades do interior, Jardins. Meu último emprego foi como Presidente do Brasil, não sei se o senhor já ouviu falar... Batalhei pras minhas ideias serem aprovadas, briguei com quase todo mundo da agência. Mas no final consegui o apoio de quase 90%. Não foi fácil, mas foi muito bom. Tanto é que eu renovei meu contrato.
E por que saiu de lá?
Agora eu tô em busca de novos desafios.
E você chegou a trabalhar em alguma agência grande? Estados Unidos, China, Canadá...
Não, mas meus amigos me disseram que quem trabalha no Brasil consegue emprego em qualquer lugar do mundo, hehe...
Vamos ver sua pasta?
Antes de exibir seu extenso portfólio, Lula explica ao avaliador que, além dessas campanhas que irá apresentar, fez também uma série de atas, emendas constitucionais, projetos de lei, mas preferiu não trazê-los para não deixar a entrevista maçante.
Nesse momento, o diretor de Criação coloca seus óculos de armação de casco de tartaruga. Sai da sala o amigo e entra o mestre, o doutor, o auditor publicitário que irá decidir o futuro profissional de quem está à sua frente.
À medida que o diretor de Criação folheia cuidadosamente o portfólio, Lula explica cada uma das peças, num tom meio apreensivo e com uma certa insegurança. Sem dar ouvidos às explicações, o diretor não esboça nenhuma reação sequer, mantendo sua postura de distância e frieza. A lenta virada de página e o olhar fixo em cada detalhe dos anúncios mostra o quão rigoroso é o analista, como se estivesse diante de um experimento científico.
Ao terminar de ler a última página, o diretor olha vagamente pro infinito e fala, num tom ao mesmo tempo misterioso e contemplativo:
Muito boa sua pasta. Muito boa.
Lula fica aliviado. Acabou de passar no vestibular da vida.
O diretor de Criação volta ao início da pasta e folheia rapidamente as peças, só pra constatar que não deixou escapar nada. Acrescenta:
Eu só tiraria algumas coisas. Esse aqui... reforma tributária... tá com cara de anúncio-fantasma. Esse aqui, do Renda Mínima, também. E esse aqui, o Bolsa-Família, é bem criativo, mas tenho a impressão de que já foi feito.
Finaliza seus comentários:
E também mudaria um pouco a ordem. Tenta colocar esse aqui do PAC em primeiro, pra causar impacto. Deixa os “menores” pro final, como esse aqui do Ministério da Defesa.
Passada a angústia do teste aos moldes do American Idol, Lula quer saber se essa avaliação positiva irá lhe redner momentos de glória, de fama. Se, com sua pasta, Lula poderá conseguir um lugar ao Céu.
Percebendo a cara de curiosidade de Lula, chega o momento do diretor jogar o balde de água fria.
Bom, você sabe... estamos passando por um processo de reestruturação. Ontem ficamos até de madrugada em reunião com a diretoria pra discutir benefícios, essas coisas. Mês passado a gente implantou um programa de qualidade de vida. O departamento dos anjos não precisa mais vir de branco, pode vir de preto, se quiser. Acabamos de alugar uma bateria e um teclado pra substituir as harpas. O piercing foi liberado pros apóstolos. A gente quer fazer daqui um lugar bacana de se trabalhar. Perdemos muitos bons profissionais pra concorrente lá do outro lado da cidade.
Sei, a Inf. Muito boa agência, ouvi falar.
É... (resignado em admitir) é boa... mas lá o dono escraviza os funcionários, faz todo mundo trabalhar fim de semana, o cara é um tirano. Pessoal estressado, lá é um inferno. Fica na Berrini, a Berrini também é um inferno.
É, mas ouvi dizer que eles andaram ganhando muitas contas. A Apple estava com vocês e foi pra eles.
Pois é, mas eles não são éticos nos processos de concorrência. Abrem mão do percentual de agência só pra ganhar conta. Chamam freela pra concorrência e depois mandam embora. Conselho de amigo: se eu fosse você e recebesse uma proposta deles, recusava. Não se deixe cair em tentação.
Claro. Mas eles estão ganhando o mercado.
Por isso que a gente tem que se adaptar aos novos tempos. Vê só, tem uma porrada de agência criativa e premiada que hoje não consegue pagar suas contas. A Grécia, por exemplo. Puta agência premiada pra cacete. Tá demitindo até os pica-grossa. Ontem mesmo 3 da diretoria foram pra rua. E olha o que te digo: a Espanha vai ser a próxima. Aqui já estão falando em passaralho.
O diretor de Criação, que não é bobo nem nada, usa todo esse clima de pessimismo pra concluir sua linha de raciocínio e não se passar por um déspota insensível.
Toda essa remodelagem que estamos fazendo aqui tem um custo. A gente não pode mais perder os talentos pra concorrência. Por isso a gente não tá contratando.
Lula tenta sua última sorte:
Tá, mas eu topo vir aqui de graça. Trabalhar no Céu iria fazer um bem danado pro meu currículo. Eu ia poder acompanhar o trabalho de excelentes profissionais. Me contrata, vai... nem que seja pra me colocar num cantinho. Fazer clipping das ações sociais, visita técnica em Honduras, no Haiti, e nos países subdesenvolvidos, tento acordo de paz na Síria, faço levantamento estatístico de terremotos... eu preciso muito desse emprego.
Embora quisesse dar uma oportunidade a Lula, o diretor se vê obrigado a ser taxativo:
Lula, sua pasta é muito boa. Boa mesmo. Com certeza, você vai ser recolocado rapidamente. Mas não aqui. Tá vendo aquele redator ali? Foi ele quem criou as palavras do bem que estão na moda: sustentabilidade, responsabilidade social, politicamente correto, orgulho gay, transparência... O dono veio falar comigo que queria a cabeça dele semana passada, eu é que segurei as pontas e pedi pra ele ficar. Aqui, eu só teria como justificar a contratação de um puuuta profissional, como a Madre Teresa de Calcutá, o Gandhi, o Nelson Mandela... ou quem já passou pelas agências fodonas, como Holanda, Suécia, Dinamarca... e mesmo assim, teria que brigar por salário com o Financeiro, que fechou as torneiras.
O diretor de Criação pega uma caneta e uma folha de papel em branco, pronto para anotar as indicações típicas de fim de entrevista.
Eu conheço aqui umas ONGs... você já foi falar com as Casas André Luiz?
Já, mostrei a pasta lá 3 vezes.
Dorina Nowill?
Só dão estágio pra filho de cliente.
Fundação Abrinq? O dono é muito amigo meu.
Vi anúncio num blog no mês passado. Mandei e-mail com link de portfólio e eles não me retornaram até hoje.
O diretor de Criação anota umas indicações na folha e entrega ao Lula, sem perder seu ar de otimismo.
Tá aqui. Procura essas pessoas e depois me retorna. E se você tiver alguma campanha nova e quiser me mostrar antes, fica à vontade.
E foi assim que o imperador do Brasil voltou à sua realidade. Descendo de elevador e depositando seu crachá de visitante no compartimento à esquerda da catraca de saída.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Muda ou não muda?
Em contrapartida, tem um outro comercial no ar, do novo Fiat Palio, que segue o caminho inverso ao afirmar que, desde os tempos de Adão e Eva, o mundo não mudou tanto assim, com exceção do automóvel propagado. É um túnel do tempo ao contrário, mostrando diversas situações de rompimento das relações entre casais. As mesmas desculpas.
Num mundo que se vangloria de mudar a cada instante, como se o hoje diferente do ontem fosse a única forma de mensurar o progresso e a transformação, tendo a acreditar que, de fato, quase nada mudou na nossa história. Não tenho orgulho disso não, muito pelo contrário. Acho frustrante constatar que ainda somos medievais no que diz respeito às formas de governo, às maneiras de a sociedade se organizar e se relacionar, ao comportamento humano. Mudanças consumistas, que provam que o iPad 2 é totalmente diferente e revolucionário em relação ao iPad pioneiro de mercado, é claro que existem. Mas essa é uma constatação epidérmica e paliativa. Na essência, o ser humano é estanque. Fatos históricos praticamente se repetem. E não creio que seja a velocidade das informações ou os avanços tecnológicos que irão trazer essa real percepção de mudança. Essa visão é conveniente para quem detêm o mercado. Mudança concreta, significativa e verdadeira, nem daqui o lançamento de 10 gerações de automóvel.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Luzes, câmera e muitas luzes
Já escrevi aqui que algumas sessões da Mostra foram tumultuadas, nesse sentido. É quando se junta a surdez das velhinhas dos Jardins, que lotam o Cinesesc e adjacências nas sessões vespertinas e não param de tagarelar, com a falta de educação de uma (quero acreditar) restrita parcela do público jovem, insaciável, que encara o ato de se ver um filme como uma aula facultativa que se pode cabular, o recreio fora de horário, o momento revolucionário de usar a força da expressão na sua temperatura máxima.
É triste notar, e parece ser um fenômeno irreversível, que a cultura Cinemark esteja invadindo a “cinefilia de arte” da região da Paulista. Conversar durante um filme tornou-se um hábito digestivo, como se fosse o respiro entre uma cena e outra. As advertências das vinhetas são inócuas quando tocam nesse assunto. Até mesmo a vinheta do Cinesesc faz uma ressalva: “cochichar vale”. Não, cochichar não vale. Em certos casos, o balbucio quase silenciosos do ranger silábico das consoantes atrapalha mais do que um bate-papo.
Eu já passei por experiências terríveis. Teve uma vez que um casalzinho metido a besta da fileira de trás se sentiu ofendido e o brutamontes do namorado levantou-se para exibir seus músculos, dando a entender que estava MUITO disposto a resolver a questão na porrada. Teve outro dia (no Belas Artes, quem diria!) que o estúpido me respondeu: “tá incomodando? Vai sentar lá do outro lado”. Outra vez (no Unibanco Arteplex!) um casal ao meu lado que não parava de fochicar e, quando eu pedi silêncio, à minha maneira corleônica de ser, o besta-quadrada deu a entender que, pelo fato de pagar o ingresso, tinha o direito de fazer o que quisesse na sala.
O ruído verbal, todavia, virou algo do passado. Hoje os folgados, como bem foi exemplificado acima, usam toda a modernidade e tecnologia ao seu alcance para incomodar os outros com requintes de malvadeza, egoísmo e gigabytes. É comum esbarrarmos com pessoas que ligam o celular a toda hora, não param de enviar torpedos e e-mails, entram nos chats e precisam, a qualquer custo, mandar via Twitter o resumo de cada cena a que estão assistindo. É a geração Y, verdadeiros lanterninhas e caga-lumes do escurinho que, com seus smartphones e aplicativos, cospem sobre o cidadão cinéfilo de bem. Uma juventude que não entende porra nenhuma de democracia, que acha que ser revolucionário é botar o pezão na cadeira da frente, que entende que liberdade é falar alto no meio da sala, entrar rindo e gritando, sair jogando pipoca no chão. Esses são os caras-pintadas do Século 21, fachada de um comportamento de mercado que vende uma sociedade conectada, integrada e sustentável, mas que no fundo não passa de um bando de individualistas, mercadologicamente egocêntricos, apoiadores retrógrados do bullying social.
Aos meus 43 anos, faço parte de uma geração jurássica, uma minoria em extinção que faz “shhh” na sala. Devo ser visto como um chato, um xiita. Para a horda desembestada, quem incomoda a sessão sou eu.
Mas o que fazer para mudar esse estado das coisas? Sinceramente, perdi minhas esperanças. Meu ponto de vista ganha a adesão somente das pessoas que concordam comigo e nunca cometeram tais atos de barbaridade nos cinemas. Para dialogar com os infratores dos bons modos, só mesmo à base do confrontamento. Não adianta o diálogo. Ninguém vai mudar de opinião. O tagarela não vai deixar de ser tagarela por se sensibilizar à petição. Muito pelo contrário, provavelmente. Vai se sentir insultado, moralmente diminuído, e vai querer usar da falta de educação a sua pior arma. Existe uma lista de reivindicações dos cinéfilos que são verdadeiras causas perdidas. A meu ver, a sociedade caminha para uma direção muito estranha. Cinema é vendido como diversão, como entertainment. Em tempos de simultaneidade e de informações descartáveis, exigir concentração para a apreciação da arte é um esforço inútil. A relação do cinema com seu público é das mais efêmeras. O cinema é como um show de rock, uma tanda. E o filme, um palco paralelo da atração principal.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
35ª Mostra SP: balanço final
Por uma questão prática, resolvi listar os pontos fortes, os pontos fracos e as medidas indiferentes do festival. Eles não estão necessariamente apresentados em ordem de importância ou de peso, mas creio serem, no meu julgamento pessoal, os fatores mais relevantes para a sua avaliação.
Pontos fracos da Mostra:
Digital: definitivamente, este foi o problema mais grave da Mostra. Foram esses filmes que geraram o caos total. Ainda não estamos preparados a absorver esta tecnologia. Incompatibilidade de formatos, exibição fora dos padrões de conversão, equipamentos de projeção precários, e por aí vai. Hoje, a divisão não é mais dicotômica película/digital. Existem, para atrapalhar um pouco mais essa lógica, os diversos suportes do digital, que quase nunca se conversam. Nas próximas edições e nas futuras salas de cinema, os organizadores e exibidores vão ter de trocar os ultrapassados projecionistas por hackers. Ausência de áudio, imagem tremida que lembra um DVD pirata, imagem congelada, cores esmaecidas, interrupção abrupta da projeção, foram alguns dos problemas causados pelo famigerado digital.
Programação I: além dois problemas em si, o digital foi também um dos principais responsáveis pela caótica programação. Todo ano, improvisos, retenções na alfândega e quetais fazem com que a programação inicialmente desenhada seja prejudicada. Mas este ano foi campeão. Principalmente na primeira semana, os problemas foram hercúleos. Nem dava tempo para anunciar as trocas de filmes. Em alguns dias, recebi e-mails que eram verdadeiros relatórios, tamanhas as substituições e cancelamentos. Teve casos de filmes que mudaram de sala e isso foi noticiado no horário do começo da sessão. Essas mudanças de última hora também comprometeram a troca de ingressos. Soube de filmes que sofreram alteração umas três vezes numa única sessão. Teve filme que atrasou quase 1 hora e, só após esse vácuo, os espectadores foram avisados do cancelamento da sessão. Testes de áudio e de legenda minutos antes do filme começar eram comuns. O guia de programação oficial da Mostra, aquele retangular, serviu apenas de referência. O Guia da Folha, então, apenas para as sinopses curtas.
Programação II: é sabido que alguns filmes, graças ao boca a boca, crescem durante a maratona e caem no gosto do público. E, em muitos casos, não dá para se prever o sucesso ou o fracasso de um filme, principalmente aqueles dirigidos por iniciantes. E, ainda por cima, sabemos como é complexo organizar uma grade de programação, pois tem de se levar em conta o formato/suporte do filme, sua duração, as exigências contratuais, o período de disponibilidade em São Paulo, entre outros fatores. Mas, ainda assim, vale frisar que a Mostra ainda não nos trouxe um modelo ideal de programação. É um desperdício assistir ao insignificante Maria My Love no espaçoso e vazio Cinesesc, que serviu de refugo frustrado para quem não conseguiu ingresso para ver o concorrido Las Acacias. O coreano The Day He Arrives foi programado pra passar no cubículo Cineartinho (Livraria Cultura 2). Na minha modesta opinião, não vejo problemas em passar um mesmo filme outras vezes na mesma sala, em vez de se tentar o rodízio completo. É possível programar melhor os filmes que ganharam festivais no exterior, filmes de diretores consagrados, filmes dos queridinhos da Mostra, filmes que fazem parte do fetiche dos cinéfilos. Parece óbvio, mas vale lembrar que concentração de público é que nem concentração de renda. Colocando na medida do possível os filmes mais concorridos em salas maiores, menos espectadores ficam do lado de fora. Com isso, vendem-se mais ingressos. E, quanto mais ingressos vendidos, mais dinheiro entra pros caixas da Mostra.
Uruca: como se não bastasse, esse ano também foi atípico em outras questões. O filme Habemus Papam teve as primeiras sessões canceladas porque, de acordo com o que ouvi falar, a empresa de legendagem foi assaltada. Outros filmes também foram cancelados na primeira semana porque a empresa de serviços expressos de envio de mercadorias não era cadastrada, impossibilitando o rastreamento. Houve queda de energia no Cine TAM. Muitos foram os casos de queima de luz do projetor. Nas próximas vezes, sal grosso no sal de prata.
Monitoria: antes de entrar no mérito da questão, vale ressaltar que muitos coordenadores dos monitores, em especial o que ficou de plantão no Unibanco Arteplex, soube conduzir com eficiência a sua função, mostrando-se ágil e atento aos inúmeros problemas e procurando trazer soluções imediatas dentro do possível. Mas a grande equipe de subalternos, principalmente os marinheiros de primeira viagem, os mais novinhos e colegiais, pareciam estar lá para fazer figuração. O público espera uma brigada de incêndio treinada e orientada para agir rapidamente em casos de emergência mas, em vez disso, encontra uma meninada desinformada, alheia e indiferente aos obstáculos e sem preparo algum para controlar a fúria dos pagantes ou atuar de maneira exemplar na condução das medidas improvisadas. Alguns até que são simpáticos e esforçadinhos, mas de boas intenções o Inferno tá cheio. Era comum ver os bilheteiros do próprio cinema se desdobrando e driblando a inércia dos novilhos. Já que a Mostra convoca uma farta equipe para fazer número e, com suas camisetas verdes, propagar o evento para as demais áreas e espaços, sugiro que, nas próximas edições, um dos monitores fique dentro da sala o filme inteiro para observar as falhas de projeção e que outro fique com um Nextel na mão para comunicar remotamente os problemas ao projecionista ou a alguém da Central. Fico com a impressão de que a monitoria foi orientada única e exclusivamente para distribuir e recolher as cédulas de votação.
Unibanco Arteplex: sem dúvida alguma, o QG do caos. Shopping center já é uma aberração em si. Junte-se a isso um evento importante em suas dependências. Acrescente a época das compras de fim de ano e você pode ter uma noção aproximada do Apocalipse. Embora as bilheterias tenham sido relativamente rápidas no fluxo de venda de ingressos, foi insuficiente para evitar filas que, em alguns horários de pico, aproximavam-se das Lojas Americanas do andar de baixo. Apenas alguns milímetros separavam as filas que se formavam na entrada das salas. Correria, barulho, fuzuê, muvuca, lotação, tudo isso é pouco para tentar definir o pandemônio em que se transformou o relativamente calmo centro de compras da região da Augusta. Me senti no Armageddon.
Shhhhh: é notório perceber que o público da Mostra tá mudando, tanto pela faixa etária quanto pelos gostos, costumes e comportamentos. Natural. A Mostra, além de exibir filmes, não deixa de ser um recorte social e cultural da cidade. Infelizmente, boa parte dessa nova safra trouxe a cultura Cinemark para dentro das salas do Adhemar de Oliveira. Em outras edições, meus amigos cinéfilos, igualmente rigorosos nas condições de silêncio que se exige ao se assistir a um filme, rogavam a quietude já nos primeiros segundos pós-vinheta. Mas em muitas sessões deste ano eles parecem ter desaparecido, e o comportamento egoísta imperou. Falatórios, cochichos, pipoca, chutes na cadeira da frente, atitudes típicas de blockbuster estavam ali nos ditos “filmes de arte”. Uma pena. Perde o público, perde o festival, perde a cinefilia. Como se não bastasse, a geração Y dos cinemas entende que a conectividade deve existir 24 horas por dia. Um bando de lanterninhas de luxo, vaga-lumes de plantão mandando e-mails e twittando em seus iPhones cada cena do filme.
Cariocas: com a volta do Rock in Rio ao Rio, o FestRio atrasou uma semana em relação ao calendário dos anos anteriores. Sua semana de repescagem encavalou com a primeira semana da Mostra. Com isso, muitos amigos nossos, frequentadores habituais, encurtaram sua estadia em Sampa,ou chegaram no final da Maratona, ou simplesmente não compareceram.
Repescagem: acredito que a organização da Mostra deve fazer um esforço sobrenatural para segurar os filmes no festival, mas os cinéfilos não podem deixar de lamentar, na semana de reprise, a ausência dos bem avaliados Era Uma Vez na Anatolia, Elena, Um Mundo Misterioso, Las Acacias, O Desaparecimento do Gato, The Day He Arrives, Hanezu, Desapego, O Dedo, Tudo pelo Poder, Forgiveness of Blood, Low Life, O Garoto de Bicicleta, Habemus Papam, Vulcão, Respirar, Neve em Kilimanjaro, entre outros.
Ingresso grátis: por se tratar de órgãos públicos, o MIS e o Cinusp poderiam continuar oferecendo sessões gratuitas. Ou, pelo menos, cobrar o valor simbólico de R$ 1,00, como fazem o Olido e o Centro Cultural. O Matilha Cultural também deixou de abrigar a Mostra este ano.
Nem cheira nem fede (aspectos indiferentes da Mostra):
Belas Artes: no começo do ano, o fechamento dessas salas causou comoção, indignação e criação de comunidades no Facebook. É triste notar, mas parece que o paulistano vem se acostumando à sensação de abandono do atual abrigo de mendigos. A riviera cinéfila paulistana não fez a mínima falta.
Pedala: o discurso de sustentabilidade encontra-se presente em todas as empresas. O metrô e a Prefeitura criaram medidas, ainda que mínimas e paliativas, em prol dos ciclistas. Mas eu não vi uma viva alma que tenha se utilizado das bicicletarias da Mostra para se locomover entre uma sala e outra.
Coletiva: a Renata de Almeida avisou que, a partir do ano que vem, pretende rever como e em que momento será realizada a coletiva de imprensa que apresenta o júri. O café da manhã, vale dizer, estava ótimo. Mas os jornalistas não tinham o que perguntar e os convidados não sabiam o que dizer. Situação constrangedora. Talvez seja o caso de organizar um evento menor ou posterior às escolhas dos filmes, para se criar, pelo menos, a curiosidade de esclarecimento dos critérios de seleção dos filmes mais votados pelo público.
Primeira vez: com exceção das retrospectivas, das cópias restauradas e das sessões do vão livre do MASP, a Mostra este ano optou pela primeira vez por exibir filmes nunca antes exibidos, nem mesmo em festivais. De acordo com a matéria do crítico Cássio Starling Carlos, da Ilustrada, isso só fez valorizar o FestRio. Concordo em parte, ou seja, discordo do seu ponto de vista. Claro que seria muito saudável a Mostra trazer os filmes louvados nos demais festivais. Mas é bom lembrar também que a Mostra traz o pacote completo, dos mais conclamados às porcarias inquestionáveis. Os filmes do Almodóvar, presença garantida na Mostra, responsáveis pelas maiores confusões nas filas, esse ano ficaram de fora. Em contrapartida, a distribuidora preencheu outras salas vizinhas com um monte de pré-estreias de A Pele que Habito, talvez pra pressionar a organização do festival ou para concorrer diretamente com ela. O ineditismo não significa necessariamente um ganho de qualidade. Pra mim, a Mostra não ficou melhor nem pior em relação às edições anteriores.
Pontos fortes da Mostra:
Calor humano: nem o invernico e as baixas temperaturas fora de época, nem o gelo do ar-condicionado das salas, foram capazes de esfriar o encontro caloroso dos amigos cinéfilos. Pra mim, a Mostra é algo que vai além dos filmes. É um prazer reencontrar as pessoas que você só vê uma vez por ano ou acabou de encontrar na semana passada. A Mostra proporciona a troca de ideias, o convívio, o debate, o crescimento pessoal em torno de um assunto que se desdobra em vários. A Mostra é o encontro, seja por meio das afinidades e interesses, seja por meio do saudável conflito de opiniões.
Menos é mais: com certeza, o enxugamento de cerca de 40% dos filmes (de quase 500 pra quase 300) foi um progresso. Se os problemas apresentados se deram com essa quantidade, imagine então com um acervo maior. A Mostra abandonou um pouco aquele gigantismo e espero que mantenha essa tendência. Não apenas para controlar eventuais problemas de rotina. Um número menor de filmes faz com que eles sejam programados mais vezes, dando mais oportunidades aos espectadores. Com menos filmes, os cinéfilos podem respirar a arte, reter as cenas, dialogar com eles.
Retrospectiva: mais uma vez, a Mostra surpreendeu. Talvez seja o ponto forte do festival. A escolha dos homenageados prova que a organização é desprovida de preconceitos e estereótipos. Do radical ao clássico, é possível apreciar cinema na sua forma mais pura e mais ampla. As retrospectivas trazem um grande material para o entendimento da Sétima Arte no seu aspecto mais vivo, tanto no tempo como no espaço. Cinema de pesquisa, cinema de acervo, cinema de contemplação. É o cinema em perspectiva, longe das amarras e dos rótulos.
Herzog: não assisti ao outro documentário trazido pela Mostra, mas a exibição em 3D da Caverna dos Sonhos Esquecidos reergue a discussão em torno dos formatos e do que de fato é cinema comercial. A tecnologia em terceira dimensão utilizada neste impressionante documentário prova que o recurso não precisa ser necessariamente aplicado como truque de bilheteria e não se restringe aos gêneros mais acessíveis (terror, aventura, animação, filme-catástrofe, etc.). Aqui, o 3D tem uma função verdadeira: trazer aos nossos olhos a textura, as ranhuras, as estalactites de um mundo que o diretor ressuscita. A Caverna é um respiro, uma jornada pela descoberta. Dizer que se trata de uma obra-prima é pouco.
Cinema russo: Fausto, Elena, Sábado Inocente, Movimento Reverso. Fazia tempo que os cinéfilos não viam cinema de qualidade de um determinado país em peso num mesmo festival. Com a abertura de mercado, tende-se a acreditar que a arte dê aquela relaxada e que os realizadores deixem de produzir trabalhos que fazem jus à fama do passado. Não é o caso da atual Rússia escolhida pela Mostra.
Thiago Stivaletti: esse rapaz não só cresceu na Mostra, mas também cresceu junto com ela. De assessor de imprensa que cobria cabines, passou a exercer um papel fundamental no bom andamento do festival. A forma clara, sucinta e organizada de apresentar as informações mais relevantes ou cobrir eventuais lapsos de memória durante a coletiva de imprensa, a mediação nos debates do ciclo Filmes da Minha Vida, esses e outros eventos fazem do Thiago não apenas um assessor, mas quase um cônsul. Se continuar com essa mesma competência, aliada à sua simpatia e seu cavalheirismo de lorde inglês, esse moço vai longe...
Zzzzzzz: A Doença do Sono, Noites de Insônia, O Outro Lado do Sono, O Homem que Não Dormia. Conforme o diário da Vanessa Bárbara, na Ilustrada, esse ano foi propício para se dormitar nas salas. Esse foi o tema do ano. Nada como um revigorante cochilo para quem vê filmes por dúzia. Às vezes, compensa entrar na sala e descansar no conforto da poltrona nos filmes invisíveis da Mostra para recarregar energias para os filmes mais significativos e mais barulhentos, quando o sono torna-se quase impossível. Trabalhos soporíferos, todo festival tem. Que bom que a Mostra assumiu essa postura já nos títulos dos filmes.
MIS: ir no contrafluxo da muvuca costuma render boas experiências. Foi o caso da sessão de Sábado Inocente. Sala vazia, dominada somente por cinéfilos e críticos. Durante o filme, silêncio sepulcral.
Remaster: ouvi dizer que a primeira sessão de Taxi Driver foi bem complicada, e que o vermelho do filme estava tão apagado quanto o de balinha de padoca. Soube depois que foi um erro do projecionista, que trocou os padrões de conversão. Nas sessões seguintes, parece que a apreciação deste clássico foi de 100%, bem como de Laranja Mecânica na telona, sem as bolinhas tapa-sexo dos tempos da censura. Amarcord, 1900, O Leopardo, todos esses trabalhos ganharam nova roupagem e, ao que me consta, dignos de edição de colecionador, deixando ainda mais nítidas as marcas do cinema perfeccionista.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
35ª Mostra SP - Cut, de Amir Naderi (Japão, 2011)
Embarcar na experiência de “Cut” é quase envolver-se em um ritual primitivo na busca pela essência. Afinal, o que é a metalinguagem senão um exercício ao encontro uterino de sua própria estrutura para a reflexão de questões maiores? Esse é o intróito do filme. Planos fechados, longos, sem diálogos, com raríssimas intervenções sonoras do ambiente. Pode-se dizer que se trata de uma ruptura aos padrões acelerados, nos takes e na ilha de edição, dos blockbusters de hoje. Cenas e planos que trazem a referência da nouvelle vague e dos discípulos deste movimento. Planos inertes de visitas aos túmulos dos cineastas consagrados, como Ozu e Kurosawa. É o rotulado “cinema de arte” falando sobre o próprio “cinema de arte”. Logo em seguida, vem a apologia. Um discurso inflamado do protagonista, com seu megafone, fugindo da polícia, escondendo-se nos escombros de prédios em ruínas de uma metrópole decadente do Japão. O personagem alardeia para os quatro cantos que o cinema atual se rendeu aos modelos comerciais de produção, que não existe mais cinema de autor, que cinema hoje é somente entretenimento, que a arte se rendeu aos mecanismos das bilheterias, entre outras frases prontas. E, para combater esse mercantilismo no qual a arte se transformou, exibe cópias de seu acervo em espaços alternativos, como sacadas de prédios, para os cinéfilos da resistência. Essa é a verdadeira essência da contestação de “Cut”. Tratar o cinema como uma obra itinerante, viva, orgânica, que invade espaços, dribla o poder, encaixa-se nas ranhuras dos arranha-céus para dialogar com seu público. Cinema que respira, cinema que transborda.
Num segundo momento, o filme dá uma reviravolta. A máfia japonesa sequestra o idealista para fazer com que ele acerte uma dívida deixada pelo seu irmão antes de ser assassinado pelos capangas da Yakuza. Sem recursos e sem alternativas, o personagem se vê obrigado a juntar renda num prazo mínimo para saldar esse déficit. Dá a cara a bater, ou melhor, vende ela. Rifa seu corpo para que os mafiosos possam dar-lhe socos, como se o banheiro da espelunca fosse a quermesse da pancadaria, com sangue no lugar da groselha em copinhos ou da barraca de beijos. É a roupagem “lado B” dos filmes igualmente vangloriados pelos cinéfilos, na linha de Takashi Miike. Nesse aspecto, guarda semelhanças com “Tokyo Porrada” por transformar a violência em espetáculo. “Cut” é a arte do corpo, o close nos limites entre a beleza da contemplação de Ozu e a fragilidade dos ossos de Shin'ya Tsukamoto. E esse fragmento do filme é que abre o campo semântico do título. Pode se referir tanto aos cortes secos da película, ao enxugamento dos excessos, quanto as feridas estampadas da carne.
Ainda que possa trazer esse respiro ofegante em prol da arte, “Cut” soa mais como um filme ingênuo e panfletário. Tarantino, por exemplo, sai-se bem melhor quando utiliza as mesmas referências na própria imagem e não no discurso. “Cut” conduz com competência o espectador na mesma paixão pelo cinema, mas isso é causa ganha. Há uma sequência interessante em que aparecem alguns nomes de filmes e de diretores consagrados, fora da diegese das cenas de porrada. Uma espécie de lista do diretor dos 100 filmes a se assistir antes de morrer. Sim, o cinema do passado, dos letterings, está sucumbindo perante os socos das imagens do cinema-violência atual. Mas essa relação doentia de paixão está muito mais presente nas intenções do que em seu organismo.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
O câncer não é do Lula
Corre pelas redes sociais um montão de posts e mensagens criticando e repudiando a ironia que se faz em relação ao câncer da laringe do Lula. Pessoas que não admitem uma comparação entre os fatos, talvez mostrando a opinião de que um erro não justifica o outro. O artigo publicado no blog do Gilberto Dimenstein, inclusive, enaltece algumas características de governo do ex-Presidente. Antes de continuar, um parênteses: a maioria das reações sobre o estado de saúde do Lula clamava para que a figura pública mais importante do país nos últimos anos fosse internada em uma unidade do Sistema Único de Saúde, o SUS.
É claro que um assunto doloroso como esse deve ser tratado com toda a lisura e respeito. Dessa vez, acredito que o momento específico não é dos mais convenientes para se fazer piadinhas, correndo-se o risco de eu ser mal interpretado, perder amigos e a minha credibilidade alcançada. Também não torço para que o Presidente seja tratado com demoras e com sofrimento. Mas o que no fundo rege esses posts malditos, revoltados, é um sentimento coletivo de indignação que não pode ser ignorado e, tampouco, censurado. Talvez um ou outro tenha se concretizado de maneira abusiva, agressiva e pouco democrática, o que acho condenável. Mas, de fato, é mesmo triste conceber a ideia de que a elite, principalmente aquela que representa o povo, vá se tratar nos melhores hospitais da América Latina, frente à realidade paralela de um país que investe quase zero na Saúde, na Educação e na Segurança, pra não falar de outros serviços igualmente precários. É ingênuo pensar que o governo PT promoveu a igualdade dessa nação. E, quando uma figura pública aparece na mídia em seus carros blindados, com sua tropa de elite particular, ou que visita o SUS apenas em época de campanha eleitoral, isso só revela a ampliação do distanciamento entre quem precisa desses serviços e quem os torna viáveis e acessíveis. Se a exaltação dos comentários do Twitter, do Facebook e de algumas celebridades incomodou os correligionários e simpatizantes do partido de situação, ao menos ela trouxe à tona uma questão que revela a incoerência de governança desse Brasil das capitanias hereditárias. Se os serviços públicos são apresentados como os mais modernos e eficientes, se eles pretendem ser, numa atitude arrogante de quem assina os contratos, uma referência continental, por que então não podem ser usados por parlamentares? Esse que é, e continua sendo, o grande abismo brasileiro. Quando os internautas se manifestam com revoltas virtuais do tipo “veja o que é bom pra tosse”, “experimente do seu próprio veneno”, isso é visto por alguns como uma atitude descabida para o delicado momento. Eu acho que a verdadeira luta não é contra o câncer que assola os presidentes latinoamericanos, mas sim contra os lobbies dos planos de saúde, contra a negligência dos hospitais da periferia da Baixada Fluminense, dos erros médicos corriqueiros em hospitais de base. Sim, esse discurso é desgastado e o sistema que rege esse estado das coisas está falido. Mas é bom lembrar que foi essa “esquerda” que lutou pela igualdade de bens e direitos, pelo acesso de todos aos serviços de qualidade, e que os ganhos em modernidade devem ser compartilhados por toda a sociedade. Senhor Luiz Inácio da Silva, eu não quero que o senhor seja tratado pelo SUS, até porque EU jamais gostaria de ser tratado ali. E, já que essa comparação é lida como um desrespeito ao seu estado clínico, gostaria ao menos de saber então se eu e todos os indignados da internet podemos comparecer ao Hospital Sírio-Libanês. Apenas para fazer uma visita ao senhor.
Atitude digital
Atitude Digital
Recomendações Técnicas para a Imagem e o Som nas Mídias Audiovisuais Digitais
A ABC (Associação Brasileira de Cinematografia), que tem como associados os técnicos responsáveis pela criação da imagem e som do audiovisual brasileiro, vem a público manifestar sua crescente preocupação com a forma com que os seus trabalhos vem sendo apresentados ao público, e propor uma ampla discussão ao longo de toda a cadeia produtiva (técnicos, produtores, realizadores, finalizadores, distribuidores, laboratórios, imprensa especializada(1), autoridades e instituições do cinema).
Esta iniciativa ganhou urgência face aos problemas técnicos constatados pela ABC durante a exibição de muitos filmes nas últimas edições dos principais festivais e mostras realizadas no Brasil, e também na divulgação pelas emissoras de televisão, e tem por objetivo buscar, em conformidade com todos os envolvidos, a melhor forma de preservar a qualidade do audiovisual brasileiro, adotando padrões técnicos universais e aperfeiçoando os procedimentos ao longo do processo produtivo. Esse é um momento de acelerada transformação tecnológica - com todas as dificuldades e percalços que isso implica, e à ABC cumpre agir no sentido de assegurar ao público a melhor qualidade possível na apresentação da obra audiovisual.
A cadeia produtiva no foto-químico
Até alguns anos atrás o percurso das nossas imagens e sons entre o momento da sua captação e apresentação poderia ser descrito como:
Filmagem > Laboratório > Montagem > Finalização > Copiagem > Projeção
Tradicionalmente, era responsabilidade do Diretor de Fotografia dominar a técnica da filmagem, do laboratório processar a película dentro de padrões rígidos que garantissem a qualidade do registro fotográfico, e do Exibidor projetar os filmes também dentro de padrões que permitissem a reprodução fiel da imagem e som concebidos na origem por Produtores/Diretores, Diretores de Fotografia, Diretores de Arte e Equipe de Som.
Ao Diretor de Fotografia cabia indicar equipamentos e procedimentos técnicos necessários para a impressão no negativo da imagem concebida para o projeto. Era de sua responsabilidade garantir a obtenção de uma imagem de qualidade compatível com o grau de investimento financeiro e artístico de todos os envolvidos no processo de produção e criação.
Para garantir a preservação da qualidade da imagem e som foi necessário desenvolver uma metodologia e criar padrões técnicos de referência para todos os processos. Diretores de Fotografia, Técnicos de Laboratório e de Projeção se pautaram por eles visando garantir a excelência do espetáculo cinematográfico.
A revolução digital trouxe a falsa esperança de que a qualidade do original seria integralmente preservada ao longo da cadeia de produção. Além disso, o digital inaugurou a facilidade de acesso (preço e acessibilidade), aos equipamentos (hardwares e softwares) por parte dos produtores e técnicos .
Com o desenvolvimento da tecnologia digital, que multiplicou formatos, mídias e codecs (codificadores/decodificadores), surgiu uma enorme diversidade de caminhos para as nossas imagens, da captação até a exibição. Expandiram-se as possibilidades criativas e com isso tornou-se imperativo o estabelecimento de uma metodologia e de padrões rígidos como a que havíamos alcançado no foto-químico. A facilidade das interfaces amigáveis, de certa forma mascara a complexidade crescente dos equipamentos e processos. Um erro numa fase intermediária muitas vezes só aparece quando da exibição da peça finalizada.
A partir de 1999 a tecnologia DLP Cinema (Digital Light Processing), foi aprovada pela indústria cinematográfica norte-americana, sem que entretanto fossem criadas normas técnicas ou padrões definidos para regulamentar o que passou a ser chamado de Cinema Digital. Na ocasião ficou estabelecido que sob essa denominação estariam aquelas exibições realizadas com uma resolução espacial superior a 2K (2 mil pontos por linha). Seis anos se passaram até que a DCI (Digital Cinema Initiatives), um grupo formado a partir das majors de Hollywood, publicou em um documento abrangente estabelecendo as especificações técnicas para o cinema digital com o intuito de estabelecer limites de qualidade tão altos quanto o filme 35 mm(2). Esta iniciativa foi encampada pelo meio cinematográfico e pela SMPTE (Society of Motion Picture and Television Engineers) que mais tarde criou um padrão específico para atender tais requisições.
No Brasil, com a alegação de que a produção independente, que hoje migrou maciçamente para o digital, não teria condições de gerar rendas para cobrir os custos da instalação de salas com o padrão DCI, foi adotado informalmente um "padrão brasileiro" que reuniu elementos de hardware e software já existentes no mercado para atender a um modelo de negócio considerado factível pelos empresários da distribuição e exibição digital. Este padrão está sensivelmente abaixo daquele adotado mundialmente para o cinema digital. Como profissionais da imagem e do som sabemos que o aumento de variáveis no processo digital traz junto o crescimento da probabilidade de erros. Daí a necessidade de se aumentar o controle e não diminuí-lo como muitos erroneamente acreditam, e de adotar normas universais que venham disciplinar a cadeia produtiva do audiovisual.
O registro da imagem cinematográfica e do som implica investimento significativo de capital, criação artística e conhecimento técnico. Existe um processo de construção destes registros a partir de conceitos concebidos pelo núcleo criativo que devem ser preservados até sua apresentação seja ela em salas de exibição, televisores, computadores pessoais ou dispositivos portáteis. Ao escolhermos nosso equipamento de captação estamos definindo uma série de especificidades para nossas imagens que devem ser preservadas ao longo do caminho através de um workflow adequado, testado e aprovado pelo produtor.
Outro aspecto que preocupa a ABC nesse momento de transição tecnológica, é a ausência de cursos de atualização, reciclagem e formação de projecionistas e técnicos em projeção digital. Por outro lado, o sucateamento das sala de exibição em suporte foto-químico, consequência da ausência de investimento numa tecnologia cada vez mais considerada como em vias de desaparecimento, levou a qualidade da exibição nas salas de cinema ao patamar mais baixo que se tem notícia até hoje entre nós.
Nesta conjuntura, a ABC manifesta sua preocupação com o acúmulo de erros e a falta de controle de qualidade em todas as etapas do processo, especialmente na masterização e na exibição, o que compromete o trabalho de todos os envolvidos na criação da imagem e do som (Diretores de Fotografia, Diretores de Arte,Montadores, Figurinistas, Tecnicos de Som, Mixadores, Editores, etc).
Como ação inicial, estamos estabelecendo um Grupo de Trabalho dentro desta Associação, com o objetivo de preparar e divulgar as Recomendações Técnicas para a Imagem e o Som nas Mídias Audiovisuais Digitais; documento que descreverá em detalhe os procedimentos mínimos que assegurem a preservação da qualidade - com a reprodução fiel da imagem e som, da captação até a recepção final da obra.
A experiência do espectador diante das obras audiovisuais é nosso bem maior. Deve ser preservado e aprimorado. Para tanto, convidamos a todos os interessados a se unirem à ABC neste esforço.
São Paulo , 28 de Outubro de 2011
Presidente Vice-Presidente Secretario Tesoureira
Carlos Pacheco Adrian Teijido Rodrigo Monte Maritza Caneca
Membros do Conselho
Affonso Beato, Alziro Barbosa, Carlos Ebert, Henrique Leiner,
Jacob Solitrenick, Jose Francisco Neto, Jose Roberto Eliezer,
Lauro Escorel, Lito Mendes da Rocha. Lucio Kodato,
Marcelo Trotta, Nonato Estrela, Pedro Farkas, Roberto Faissal, Tide Borges.
