segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Vida
Primeiro choro, primeiro riso, boca no peito da mãe, arrota, dorme, acorda, chora, dorme. Primeira sílaba, primeiro sol, primeiro dente, engatinhar, andar pra frente, andar pra trás, cair, chorar, levantar. Cocô. Primeira frase, cai o primeiro dente. Primeira série.
Aprender a ler, aprender a escrever, aprender a conviver. Choro. Brincar de pula-pula, brincar de pega-pega, brincar de videogame, brincar. Ver TV. Estudar. Comer de garfo e faca. Aprender que o R não tem som de L. Playcenter. Catapora.
Aula de Inglês, aula de Música, aula de Bar-Mitzvah, aula, aula. Equação do segundo grau, verbo transitivo direto, ligações iônicas, ligações amorosas - não correspondidas. Primeiros versos, primeira dor no peito. Espinha na cara. Ganhar um iPhone, ir pra Disney. Ficar de recuperação, recuperar o tempo perdido. Ler Sartre, sofrer.
Cursinho: aprender que não aprendeu nada. Preparar-se pro resto da vida. Estudar na Liberdade, perder a liberdade. Perder a virgindade. Passou. Mais choro, só que de alegria. Batom na cabeça raspada, papel higiênico na boca, batalhar trocados nos semáforos.
Tirar título. Votar no PT. Jurar bandeira. Tirar carta. Bater o carro. Carteira de Trabalho. Conhecer o Centro da cidade. Sair de casa, dividir apê com cinco pessoas. Galera da facu. Aprender a fazer Miojo. Aprender a fazer as malas. Viagem pra São Tomé das Letras com a galera da facu. Primeiro porre. Primeiro beijo. Primeira bituca de maconha. Primeiro sexo com amor. Primeiro chifre. O problema não é você, sou eu. Choro, só que de tristeza. Muita tristeza.
Concluir o TCC. Com louvor. Primeiro emprego. Não era bem o que eu queria. Analista de sistemas, assistente do assistente. Juntar grana, financiar uma moto. Novo amor. Engravidar o novo amor. Morar com o novo amor. Juntar mais grana, trabalhar dobrado, receber uma promoção.
Primeiro filho. Casa alugada na periferia. Constituir família. Sonho cor-de-rosa. O sonho acabou. O dinheiro também. Primeira briga. Segundo filho, por acidente. Cansaço. Rotina. Brigas e mais brigas. Milésima ponta de maconha. Sexo por obrigação. Mulher quer engravidar e não consegue. Affair com a secretária do escritório. Chopp cada vez mais gelado, mulher cada vez mais fria, abrir a porta de casa cada vez mais tarde e cada vez mais bêbado. Mulher faz tratamento pra engravidar. Nascem gêmeos. Tá tudo lindo, a não ser por dentro. Affair com a secretária se torna sério. Separação. Não fica com uma nem com outra. Volta pra casa dos pais.
O quarto não mudou nada. Muito menos a vida. O velho tá bem velho. Escolher outra profissão. Empreendedorismo tá na moda. Pegar o Fundo de Garantia e abrir negócio próprio. Negócio minúsculo. Representante de roupas, roupas que representam o quê?. A empresa cresce, entra mais dinheiro. Férias. Morar sozinho. Filhos semana sim, semana não.
Plano Criuzado, Plano Collor, Plano Verão, planos econômicos, planos e mais planos que impedem de se fazer planos. Empresa encolhe. Empresa fecha. Viver de renda. Prestar serviços de Consultoria. Depois de tanto aprender, chegou a hora de ensinar.
Trocar o grau dos óculos. Ir ao cardiologista. Plano de saúde triplica de valor. Amigos mudam de cidade. Amigos mudam de partido. Amigos mudam de sexo. Amigos somem. Médicos tornam-se os melhores amigos. Ver TV o dia todo em volume bem alto, que nem quando era criança. Voltar a usar fraldas. Voltar a se esquecer das coisas. Voltar a sorrir, porque ficar triste doi demais.
Morte.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Amigos
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Como foder uma agência de Propaganda - versão Cliente
sábado, 10 de novembro de 2012
Quem diria
Que a classe alta migraria do Morumbi pro Jardim Anália Franco?
Que iria cair tempestade no Nordeste e haveria seca no Sul?
Que fumar se tornaria brega?
Que andar de tênis seria mais hype que andar de sapato?
Que a Europa iria pra falência e o Brasil se tornaria um país credor?
Que haveria mais mulher do que homem no mundo?
Que o pensamento de esquerda seria considerado ultrapassado?
Que o êxodo urbano voltaria a existir?
Que a obesidade se tornaria um problema mais preocupante que a fome?
Que pensar no futuro estaria associado a andar de bicicleta?
Que a sociedade iria pensar em um monte de ferramenta de comunicação pra se comunicar cada vez menos?
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Conflito de gerações
domingo, 26 de agosto de 2012
Recepção de evento
- Arrume um espaço bem grande. Mas grande mesmo. Não só no comprimento, pois vai estar a maior muvuca, mas também na largura, para prever filas de tudo quanto é canto.
- Contrate modelos. Beleza inversamente proporcional à inteligência.
- Se a festa for em véspera de feriado ou sexta à noite, serve a estagiária da sua empresa.
- Posicione-as em local estratégico. Tipo, bem longe da fila de pessoas, pra elas terem a dimensão aproximada do trabalho que vão ter.
- Instrua-as com respostas básicas, principalmente no que se refere ao direcionamento, como "é por aqui", "primeira à direita", e por aí vai.
- Pessoas da produção costumam varar turnos em eventos.Nessas situações, é muito difícil saber se é dia, tarde ou noite. Peça para um segurança ou encarregado dirigir-se à janela mais próxima para poder informar sobre esta difícil questão.
- Dada a resposta (boa noite, por exemplo), condicione sua equipe a receber os convidados sempre com "boa noite". Cuidado: qualquer desvio de atenção pode comprometer essas boas-vindas.
- Se por acaso algum convidado trouxer uma questão mais complexa (por exemplo, não recebeu o convite, pergunta se pode deixar entrar sua mãe de 80 anos, onde fica o banheiro), peça para a hostess sorrir e indicar alguma pessoa uniformizada que estiver andando por ali naquele momento, qualquer que seja.
- Se por acaso algum convidado vier com questões fora dos procedimentos previstos (por exemplo, passar uma cantada, contar piadinhas, fazer previsões meteorológicas ou qualquer outro assunto pra matar o tempo), instrua sua equipe a sorrir para o convidado e não prestar anteção em uma sílaba do que ele disser, para não atrapalhar a concentração (principalmente sobre o fundamental "boa noite").
- Crachás falsos, credenciais, convites impressos de última hora? Se o evento estiver relativamente vazio, deixe essas pessoas entrarem. Se estiver bem cheio, com lugares contados, e se o coquetel for bom, impeça a entrada deles. Se perceber uma possível confusão, instrua sua equipe a chamar outra pessoa, que será devidamente instruída a não ter noção de instrução alguma.
- Recolhimento de celulares, câmeras, equipamentos digitais, esse é um assunto bem delicado e difícil de instruir. Se necessário, contrate uma equipe de especialistas, nem que tenha que pagar o dobro.
- Na hora de servir o coquetel, analise bem o espaço. Verifique onde estão localizados os fominhas. Peça à equipe desviar deles, levantando a bandeja bem ao alto.
- Se a comida e a bebida estiverem bem mirradinhos, dê um intervalo bem grande entre uma bandejada e outra. Nessas horas, é fundamental ter noções avançadas de tempo e espaço.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Alma corsária
domingo, 10 de junho de 2012
Regimes de governo, versão anos 2010
Capitalismo sustentável: você tem 1 vaca, só que tem que esconder do Ibama porque o peido dela polui o ar.
Capitalismo foursquariano: você tem 4 vacas que, no momento, estão na Starbucks do Shopping Eldorado.
Capitalismo político: você tinha 6 vacas mas, depois de 4 anos no poder, aumentou seu patrimônio para 11.950 vacas.
Capitalismo tributário: a cada vaca vendida ou comprada, você deve pagar 0,39% de contribuição bovina provisória. Vamos acabar com a febre aftosa do país.
Capitalismo empresarial: você tem 870 vacas, mas só declara 11.
Capitalismo orwelliano: você tem 4 vacas que, no momento, estão confinadas em um reality show esperando convite pra posar pra Playboy.
Capitalismo meme inteligente: Ah, então você é contra a posse de vacas? Então conte-me como é ter leite todo dia na mesa âs custas dos seus pais.
Capitalismo meme imbecil: Véi, na boa, dá uma vaca pra mim...
Capitalismo instagramiano: você tem 3 vacas: uma sépia, uma sem cabeça e outra fora de foco.
Capitalismo smartphoniano: você tem 1 vaca de 114 funções e não sabe o que fazer com ela.
Capitalismo telefonia móvel: você tem 3 vacas: uma veio com 3 patas, uma não dá leite e outra ficou bloqueada na cerca.
Capitalismo virtual: você tem um ícone de um quadrúpede malhado em sua máquina. Crie um avatar de rosto, baixe o aplicativo que forneça leite, baixe o download pago de escolha de raças e pronto: imagine que isso seja uma vaca.
Capitalismo bullying: você tem 2 vacas que todo dia voltam chorando pra casa porque são chamadas de putas.
Capitalismo classe-média: você tem 5 vacas. Todas elas marcaram viagem pra Buenos Aires pela CVC nas férias de fim de ano.
Capitalismo novo-rico: você tem 4 vacas que produzem muzzarela de búfala.
Capitalismo feminista: você tem 6 vacas. Todas elas querem tomar o lugar do touro na Festa do Peão de Barretos.
Capitalismo emergente: você tem 1 vaca. Que será a presidente da Feira de Agronegócios deste ano.
Capitalismo selvagem: você tem 5 vacas. Com este patrimônio, já dá pra abrir uma microempresa de rodízio de carnes.
Capitalismo troll: você tem apenas 1 vaca. E consegue pisar na merda dela todo dia.
Capitalismo nerd: você tem 5 X 10-1 + 4 - 2 mamíferos ruminantes bovinos sitos em pastos rupestres.
Capitalismo qualificado: você tem 17 vacas. Todas elas foram furtadas da Cow Parade da Av. Paulista.
Capitalismo funcionário público: você tem 6 vacas. Faz quase 2 meses que elas pararam de dar leite porque reivindicam aumento de 50% no vale-pasto.
Capitalismo afrodescendente: você tem 4 vacas, brancas, com 30% do corpo manchado de pintas escuras graças ao sistema de cotas.
Capitalismo industrial: você tem 15 mil caixinhas de leite longa-vida e nunca viu uma vaca na sua vida.
Capitalismo fashion: você tem 2 vacas. Uma delas veste o sino Prada e outra tem piercing nas tetas.
Capitalismo: individualista. Você tem 8 vacas? Ema ema ema.
domingo, 3 de junho de 2012
Agenda de Mark Zuckerberg
7h40 – ligar o micro
7h45 – ir ao banheiro, fazer o nº 1, o nº 2, tomar banho e escovar os dentes enquanto o PC inicia e faz as atualizações de programas
8h10 – abrir o Facebook
8h15 – trocar a configuração de classificação das informações para “mais recentes”
8h20 – postar mensagem “goood morniiiiing!!!!!”
8h30 – dar os parabéns para os 37 amigos que fazem aniversário, tudo na base Ctrl C + Ctrl V
9h05 – aceitar a solicitação de amizade de Rafinha Bastos FC Oficial
9h20 – ocultar a solicitação de amizade de Ahmar El-Jazeer
9h30 – recusar o convite de aplicativo para FarmVille
9h50 – recusar o convite de aplicativo para Klout
10h10 - curtir a foto em que foi marcado na festa dos amigos da facu
10h30 – encaminhar post com foto de gatinho olhando pra bebê escrito “véi na boa” e acrescentar no topo: LOL
11h15 – encaminhar post de pessoa desaparecida
11h40 – curtir post de amigo indignado com as diferenças sociais
12h10 – curtir post contra maus-tratos em animais
12h50 – recusar o convite de aplicativo para Flores
13h45 – recusar o convite de aplicativo para Meu Calendário
14h00 – recusar o convite de aplicativo para Conheça Novas Pessoas
14h50 – recusar o convite para o evento Leitura Dramática nos porões de lanchonete desativada de Manhattan
15h00 – receber notificação do grupo Revolução Francesa, do qual foi convidado a participar sem ser consultado
15h20 – curtir post do meme Willi Wonka
15h40 – curtir post de infográfico zoando hábitos de internet
16h15 – abrir link que encaminha pra música no Youtube. Ouvir 0:37s da música e fechar janela
16h55 – participar do evento MeuNíverSábadoNinguémPodeFaltarHomemLevaBreja, criado por um amigo da facu
17h25 – iniciar conversa por msg com sua esposa Priscilla Chan (que está na sala ao lado)
17h40 – desculpar-se com Priscilla por ter curtido a foto de agosto de 2009 de uma amiga de biquíni
18h05 – publicar post “tem dia que de noite é foda”
18h10 – DR com Priscilla
18h40 – comentar post de amigo: kkkkkkkkkkkkk
18h50 – DR com Priscilla (continuação)
19h55 – encaminhar post de frase feita e autoajuda com foto de Clarice Lispector
20h30 – reiniciar o micro
21h00 – cutucar de volta Eduardo Saverin
21h15 – DR com Priscilla (ela diz que ou vai ou racha)
21h35 – encaminhar cartão postal virtual para Priscilla (que está offline)
21h45 – escrever post “Chupa Coriiiinthians!!!!!”
22h00 – alterar foto do perfil por uma outra com 15º a mais de inclinação no lado esquerdo do lábio superior
22h20 – mudar o status para “em um relacionamento enrolado com Priscilla Chan”
22h50 – mudar a capa da linha do tempo para fundo azul com a letra F
23h10 – passar a usar o instagram. Postar 27 imagens, uma pior que a outra
23h50 – dar boa noite para todo mundo e fechar o programa
00h00 – desligar o micro
00h10 – clicar em “OK” após a pergunta “Tem certeza absoluta de que deseja sair do Windows? Isso pode levar alguns minutos”
segunda-feira, 5 de março de 2012
Foda-se
“Você está subindo as escadas no contrafluxo”. “Foda-se”. Foi esse o diálogo que acabei de ouvir, numa das saídas do metrô Vila Mariana, entre duas meninas de colégio.
A adolescência é um dos períodos mais propícios e pertinentes para atos de uma suposta rebeldia, sabe-se lá contra quem: a família, a sociedade, o sistema. E, quando vemos na mídia e nos pequenos núcleos sociais manifestações claras de repressão, censura, bullying, castração e outras formas de castidade, a sonoridade retumbante de tal expressão ganha contornos ainda mais ululantes.
Mas, convenhamos, este maldizer de palavras chulas, ao invés de causar espanto e indignação, com o tempo e com o uso corriqueiro e desnecessário, caiu no desgaste. “Ligar o foda-se”, “apertar o botão do foda-se”, são expressões mais do que batidas para retratar um certo nível de desapego e despreocupação do interlocutor. O que até pode fazer um bem danado a ele. Desvincular-se das amarras e das pressões é salutar. Em teatro e outras formas de manifestação artística e corporal, ficar repetindo “foda-se” é terapêutico, catártico, cria a sensação de liberdade.
Um dos sintomas do empobrecimento gradativo de uma língua é o fato de uma palavra ou conjunto de palavras se adaptar a mais de uma situação. Quando se fala que algo é “legal”, pode se atribuir o adjetivo a uma garota, um filme, um livro, um estado de espírito. Eu estou legal. Ele é legal. Desaparecem, com isso, as características únicas do indivíduo ou do objeto, suas particularidades e idiossincrasias. Colocados no mesmo nível semântico, perde-se a urgência e a necessidade de se procurar outros adjetivos ou elementos caracterizadores de tais substantivos, o que faz com que um número cada vez menor de verbetes passe a ser utilizado com mais frequência. É a famosa lei do uso e desuso. A língua vai deixando de ser simples e passa a ser simplista. “Foda-se”, portanto, passou a servir de exclamação genérica tanto para a rebeldia e inconformismo quanto para o bem-estar, o comodismo (por mais paradoxal que possa parecer), o deixa-disso, o dar-de-ombros. É contra o sistema? Foda-se o sistema. Não tá nem aí pro sistema? Foda-se o sistema.
Pior ainda. O “foda-se” sempre foi aclamado como um artefato de batalha. É uma aliteração rígida, apontada em riste com o objetivo de atacar. Mas, pelo que se percebe no exemplo do início do texto, no campo semântico das interpretações linguísticas, esse intuito bélico de agredir um contexto maior foi substituído pelo descaso e pela falta de respeito no âmbito mínimo e ególatra das coisas. Não é o sistema que está em questão. O furor idealista se amalgamou ao individualismo acomodado. Fodam-se os idosos, fodam-se os deficientes físicos, fodam-se as pessoas que precisam utilizar o corrimão, fodam-se os que estão no fluxo correto da sinalização das escadas. Fodam-se os outros.
