quarta-feira, 8 de maio de 2013

Meio a meio

Estávamos ali sentados, num ambiente intimista, com piano clássico Steinway no meio do salão e luz de velas em cada célula de acomodar pessoas. Guardanapos de linho branco simetricamente dobrados sobre os pratos de louça delicada, numa composição mais perfeita que origami. Reluzentes talheres de prata apoiados sobre um objeto férreo eternamente curvilíneo e retorcido, de formas não muito definidas, que lembrava alguma obra de arte qualquer vendida na praça Benedito Calixto. Por mais inusitado que possa parecer, estávamos numa pizzaria. E o longo e retangular cardápio que nos foi oferecido, encadernado num par de espessas madeiras pálidas, nada mais era do que um convite à dúvida. Que o prato principal seria a famosa massa redonda paulistana, tão enorme e rotunda quanto a mesa em que nos sentamos, isso era fato. Difícil mesmo foi escolher entre a margherita, a calabresa ou a 4 queijos como a salvação para saciar nossa fome pantagruélica. Nem tão pantagruélica assim. O aconchego do lugar pedia uma opção que extrapolasse o conceito de simplicidade. Viramos a página do menu, enorme, imponente e sucinto como a tábua dos Dez Mandamentos, e chegamos às pizzas especiais. Em princípio, minha proposta era pedir a pizza inteira de um único sabor. Oito pedaços rigorosamente idênticos, gêmeos univitelinos. Pizza de dois sabores deixa a coisa toda meio sem identidade. Três sabores, então, nem se fala. Além do fato de que essa ridícula invenção quebra toda a aritmética milenar da iguaria. Há quem ache que uma pizza de dois sabores permite uma maior variedade de estilos e diversidade de experiências degustativas, deixando o prazeroso momento menos enjoativo. Discordo. Mesmo assim, diante da persistência sedutora e persuasiva feminina, fui voto vencido. Próximo passo seria então calcular a melhor combinação dentre as parcas ofertas da casa. Talvez um equilíbrio perfeito entre os contrastes pudesse resolver nosso problema. Faz parte da gastronomia moderna oferecer não o morno, mas a dúbia sensação palatina do quente e do frio. O conflito dos extremos salgado e doce. Macio e áspero. E por aí vai. Por isso, não quisemos abusar da mesmice de uma pizza de vários sabores e um único tema. Pizza inteiriça de carne suína, por exemplo, foi imediatamente descartada. Ou ofertas que primam pelos seus excessos de ingredientes. Queríamos algo mais definido e bem-resolvido, sabores que revelassem sua força pela concisão. E a premissa dialética foi decidida de comum acordo pelo fator "com carne x sem carne". Concílio para agradar carnívoros e herbívoros de plantão. A parte animal da dúvida foi logo resolvida com o presunto parma. Imaginávamos, de antemão, que essa preferência seria o protagonista da noite, dado o seu aspecto denso, salgado e marcante. A parte vegetal da batalha dos opostos exigiu uma pesquisa um pouco mais apurada. Teríamos de escolher uma opção que aceitasse o papel de coadjuvante sem maiores problemas. Afinal, colocar sobre a mesma massa grossa dois personagens de temperamentos igualmente fortes iria gerar um desnecessário e indigesto duelo de titãs. Nossa decisão recaiu sobre o miolo de alcachofra, coberto por delgadas e escassas lâminas de queijo parmesão ralado. De tão insípida e anoréxica a criação, era certo que essa supostamente refinada sugestão da casa, a penúltima do cardápio, acima apenas de uma minguada opção light, seria o par perfeito para que, junto com o rústico e bárbaro presunto, pudessem bailar em paz sobre o disco de carboidratos. Fizemos o pedido e, enquanto esperávamos, começamos a namorar e a bebericar nossas gélidas águas com gás. Passados 20 minutos de um tímido romance e ósculos breves e contidos sobre os copos e sobre os lábios, eis que chega a fumegante estrela da noite, vestida com um polpudo e volumoso queijo mussarela de búfala que, com sua alegoria infinita, imitava em sua imagem o glamour e os exageros dos paetês. Aleatoriamente, escolhemos iniciar a gastronômica aventura pela brutalidade do presunto cor de vinho entremeado por límpidas e brancas divisórias de gordura. A experiência, de fato, foi bastante agradável. Deixamos de lado a borda crocante e torrada da massa, tamanha a curiosidade por conhecer o verdadeiro potencial da exótica planta emudecida em seu apático verde-água, a fase seguinte dessa prova. Surpreendentemente, o miolo de alcachofra brilhou em campo. Parecia roteiro de novela, em que um determinado personagem secundário e desprezível ganha mais espaço no decorrer de seus capítulos, dada a sua popularidade e carisma provocados no público espectador. E foi aí que começaram as nossas briguinhas triviais. Matematicamente, cada um de nós teria direito a dois pedaços de cada sabor. Ela, numa mistura de encantamento e arrogância, queria conquistar territórios menos cartesianos. De acordo com sua lógica, ela teria direito a três pedaços de alcachofra e um pedaço de parma. E isso não foi um pedido, foi uma determinação. Vai entender a alma feminina.
- Já escolheu o sabor de sua preferência, senhor? - perguntou-me o garçom, antes de me servir o próximo pedaço.
- Já. Mas eu vou ficar agora com o presunto parma.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Curto e longo prazo

Os esforços dos avanços da Medicina apontam para a longevidade. Cientistas, laboratórios e genomas brincando de Deus para que o Homem ultrapasse a marca de um século de vida. Previsões a curto prazo que indicam que o câncer um dia será tratado como se hoje cura uma gripe. Por outro lado, o paradoxo do bisturi. Uma sociedade imediatista, hedonista, efêmera, querendo de tudo um muito, e muito rápido. Brinquedos eletrônicos que envelhecem antes mesmo de ser lançados. Empresas que vão à falência dias após conquistarem o monopólio. O hoje antagônico ao ontem. Emergentes comemorando dois Natais ao ano. Aceleração máxima dando a falsa impressão de transformação, de evolução. Empreendedorismo, reciclagem e reinventar-se mais usados do que desculpe, obrigado e por favor. Epicurismo, palavra que não cabe no Twitter, vocábulo que não dá tempo de falar em uma conversa. Seja diferente de tudo. Seja diferente de si mesmo, todo dia, até não sobrar mais nada de você. De que adianta viver mais de 100 anos? Ter mais tempo pra comprar mais tablets?

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Eu, Tu, Nós

Seus olhos cheios de vida eram o cartão postal de seu rosto enigmático. Foi através desses cintilantes glóbulos negros que adentrei sua misteriosa alma intestina, tão rica e hospitaleira quanto sorumbática. Por estes minúsculos portais rotundos descobri um pouco mais dela e um pouco mais de mim mesmo, e ali permaneci, lânguido e extasiado, até cair no sono. Dormi. Dormi o sono profundo do império onírico por onde fiz essa intensa viagem.
Acordo. E guardo em mim como lembrança a saudade do seu cheiro, mistura ébria de extratos de talento e de sorrisos incontidos. E quero levar pra eternidade esse torpor sinestésico de aromas impregnados em minha roupa, em minha pele, em minha memória. Cheiros presentes que revivem o melhor do passado, alimentando minha inquietude. E a certeza de que o que ficou de mais significativo foi sua essência.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Homem de Ar

Walt Disney pode ser considerado por alguns como um visionário, um artista à frente de seu tempo. Todavia, essa fama não se prolonga nas extensões de seu monopólio, especificamente a assessoria de imprensa da Disney Company, representada no Brasil por meio de produtos, franquias e, no caso mais específico ainda, filmes. É notório constatar que, já faz alguns bons anos, esse canal de contato entre a empresa e a crítica jornalística sempre primou pela antipatia, pela arrogância e pelo desprezo na forma de tratamento profissional. Afinal, é viável se supor que, para esta assessoria, a crítica que sai nos jornais, sites, revistas e blogs pouco importa para o sucesso ou fracasso de seus filmes lançados por aqui. Portanto, defecar e andar para o que sai escrito tornou-se uma prática rotineira. Mas o que mais salta aos olhos é perceber que essa atitude imperial tem se agravado progressivamente, já que o número de interessados em fazer suas coberturas jornalísticas vem crescendo assustadoramente e, por outro lado, a influência da crítica sobre o mercado de consumo vem sendo cada vez menor. A Disney, infelizmente atual representante oficial das adaptações cinematográficas do selo de quadrinhos Marvel para os cinemas, nos faz ficar com saudades da Sony e da Paramount. Embora eu não estivesse presente, soube que na cabine de imprensa de Os Vingadores, no meio do ano passado, houve um show de constrangimento e com a famigerada muvuca como brinde. Renomados profissionais do mercado, críticos da mais alta confiança, revistados como se fossem supostos terroristas ou hackers de plantão. Neste ano, a coisa foi um pouquinho diferente. No momento do pedido de reinclusão no cadastro da assessoria (sim, fui sumariamente excluído do mailing deles pois na época não preenchi em tempo hábil um complexo formulário de recadastramento), isso já faz umas 2 semanas, recebi o aviso/convite de cabine de imprensa do filme Homem de Ferro 3 e, imediatamente, confirmei minha presença ao evento. Qual não foi minha surpresa ao receber ontem, quarta-feira, véspera da data da cabine, a 5 minutos do término de expediente do horário comercial, um e-mail coletivo, iniciado com um falso agradecimento pelo interesse de todos em participar da avant-premiére, que alegava lotação da sala e, por critérios no mínimo suspeitos, elencou uma lista de cerca de 140 profissionais que teriam o direito de ver em primeira mão o filme hoje de manhã. Como já foi supracitado, eu confirmei minha presença faz mais de 10 dias. E pude reparar que alguns representantes de importantes veículos também ficaram de fora. No caso de eventos como esse, que divulgam filmes de grande público, é comum haver uma grande procura e, com o aprendizado dos profissionais de empresas concorrentes e com a magia e o encanto do criador do Mickey, é perfeitamente possível tomar providências mais amigáveis e que procurem contornar a situação ao invés de expor a categoria ao embaraço. Enquanto isso não for feito, eu não poupo palavras que só ratificam minhas primeiras impressões. Tô cansado de fazer o papel do Pateta.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Cinépolis JK Iguatemi

Torço para que o público pagante esteja bastante satisfeito com a rede Cinépolis, que veio ao Brasil para tentar derrubar a hegemonia do pífio Cinemark, especificamente o Cinépolis JK Iguatemi. Mas não posso deicxar de fazer algumas críticas severas no que diz respeito a sucessivos eventos recentes, a meu ver lastimáveis. Em cabines de imprensa, não foram poucas as vezes em que ocorreram falhas técnicas, atrasos e até cancelamentos de sessões. O que era para ser uma exceção acabou se tornando a regra, de tão recorrente o transtorno. Mas a gota d`àgua aconteceu ontem, quando fui convidado para o evento de apresentação da sala 4DX - Philips, aquela em que as cadeiras "se mexem" para acompanhar os movimentos das cenas. Logo após minha confirmação de presença, feita poucos minutos depois de receber o tal e-mail/convite, recebo outro e-mail alegando lotação da sala e me colocando de molho, em "fila de espera". Se a resposta positiva ao evento foi inesperada e superou expectativas, ao menos poderiam emitir o convite com um pouco mais de controle ou procurar uma solução mais adequada e simpática. Por enquanto, a impressão que fica é a de ostentação nababesca com estrutura típica de país do Terceiro Mundo. E a minha reação a isso é, claro, fazer a antipropaganda.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Cinzas

Sei que o assunto é polêmico, pois mexe com práticas religiosas, valores coletivos e crenças individuais. Mas acho que vale a pena correr o risco. Em respeito à vontade do meu pai, optamos pela cremação do corpo (pra quem não sabe, algo intolerável na comunidade ortodoxa judaica, que acredita na ressurreição). Agora, temos que decidir para onde serão jogadas as cinzas. Sempre acreditei que elas deveriam ser jogadas ao mar, para que, com isso, pudéssemos nos aproximar do misticismo oriental. Entretanto, descobri recentemente que alguns cultos orientais condenam essa prática, pois jogar cinzas na água faz o espírito voltar ao invés de ir embora em paz. Abandonamos então a ideia do cruzeiro marítimo. Vamos pensar em outros lugares paradisíacos. Mas aí me vêm à mente aquelas cenas de filme em que o vento faz as cinzas irem em direção ao rosto do arremessador. Que tal então participar da peregrinação Marcha Pela Vida e jogar as cinzas junto com nossos antepassados, para manter viva a memória da família? Não, trazer de volta o assunto do Holocausto é remoer ainda mais a Morte. Bom, já que meu pai, nos últimos anos de vida, ia todo ano pra Buenos Aires e passou a gostar cada vez mais de tango, que tal jogar as cinzas ao túmulo do Carlos Gardel?
Diante de tantas dúvidas, tantos dilemas, prefiro guardar na memória uma frase do meu pai, que, questionado sobre o assunto, respondeu: "Já vou estar morto mesmo. Joguem minhas cinzas onde vocês bem entenderem".

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Na balada

Voltando ao circuito dos bares e baladinhas, resgato algumas regras e costumes e quero compartilhar com vocês:
Não importa a hora que você chegue ao local. Se for open bar, já vai ter acabado a cerveja.
Se a fila na porta estiver bem demorada, é sinal de que a casa está muito... vazia.
Os bancos pedem senhas difíceis de decorar para você cadastrar no seu cartão de crédito/débito porque não levam em conta o quanto você vai estar bêbado na hora de digitar na saída do bar.
Esqueça At the Drive In, Melvins ou Turbonegro. Se for banda cover de rock, vai ter Smoke on the Water, Cocaine, Satisfaction, Pride e Rock and Roll. Certeza.
Difícil vai ser escolher o garçom pra te atender. Se for o rapaz simpático e atencioso, ele não decorou nada do cardápio, não sabe nada de nada, está na constante fase de treinamento. Se optar pelo tiozinho experiente, ele de fato sabe o menu de cor, mas é sempre mal-humorado, não tem paciência pra explicar as porções e vem tropeçando em todo mundo na hora de servir as bebidas.
Na dúvida, escolha sempre o básico. Barzinho não é bistrô. Quanto mais complexa a descrição, menor será o prato e mais insípida será a bebida. Isso, claro, se o garçom não voltar dizendo que, excepcionalmente no dia, a porção desejada está em falta.
Se a especialidade da casa for o chope "bem tirado", prepare-se para adentrar o faroeste. Virou de lado, foi ao banheiro, se distraiu, pronto: o garçom saca rápido um chope e coloca na sua mesa. Mesmo sem você ter pedido. Mesmo que o seu copo ainda esteja bem cheio.
Prepare-se para ficar famoso. A cada ida ao banheiro, você irá aparecer em 70% das fotos que as pessoas das outras mesas estão tirando com o celular pra colocar no Facebook.
Banheiro, taí outro problema. Se na porta não estiver algo bem claro como M/F, fraque/saia ou Carlitos/Marilyn Monroe, a coisa vai ficar meio difícil. Arte abstrata é um convite pra dar merda.
A banda cover nunca irá tocar a musiquinha de aniversário pontualmente à meia-noite. Das 6 mesas anunciadas que foram ao local pra celebrar mais uma primavera de um dos frequentadores, a Silmara já vai ter dado pista. A Andressa na verdade é um papelzinho que alguém colocou pra banda ler, não tem nenhuma Andressa que faz anos, isso é bullying. A música? Ora, ora... Envelheço na Cidade, do Ira!, e a da Xuxa, antecedida por um solo reggae do guitarrista.
Quando você cerrar os olhos, olhar pro infinito, e perceber que, no conjunto, os homens estão falando mais do que as mulheres, é hora de tirar o time de campo. Dali pra frente, a coisa só tende a piorar.
Mesmo que você seja um ótimo matemático, a conta vai vir muito maior do que aquela que você calculou mentalmente.
A fila pra pagar tá pequena? Então esquece, não é a fila pra pagar. Para encontrá-la, percorra todo o salão e mostre o detetive que há dentro de você.
Descarte absolutamente a ideia de sair sem pagar. Os gentis senhores de 1,90m e terno preto em pleno verão certamente não foram lá pra se divertir.
Não, definitivamente não. Se você não pegou ninguém e se sua noite ficou no zero a zero, JAMAIS tente xavecar a motorista de táxi. Sim, elas existem de madrugada, com a única e exclusiva função de te conduzir até seu doce lar.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Cidadão Kane

Outro dia me perguntaram qual o melhor filme da minha vida, de todos os tempos. Em princípio, me recusei a responder, pois sou meio contra listas. Acho difícil e ingrato categorizar filmes tão diferentes numa mesma escala de valores. E um filme pode significar algo pra mim, hoje, e num outro momento perder essa significação. De qualquer forma, atendendo à insistente solicitação, respondi que o melhor filme pra mim, no momento, talvez seria Cidadão Kane. E a resposta, em coro, foi "não me decepcione". No começo eu estranhei a reação. Custou-me entender como a escolha de um filme tão unânime, atemporal e irretocável pudesse ser, digamos, "decepcionante". Aí, com o tempo, caiu a ficha. Suponho que, para essas e outras tantas pessoas, eleger um filme que poderia muito bem constar em 99% das listas dos mais renomados críticos, bem como em listas do açougueiro da esquina (nada contra os açougueiros, por favor... até porque nem creio que ainda existam açougueiros de esquina), é nada mais do que a repetição do lugar-comum. Espera-se, de um modo geral, que pessoas com um conhecimento um pouquinho acima da média tragam títulos inusitados, como, por exemplo, algum super 8 de início de carreira do Hong Sang-soo. Ou lancem um tratado polêmico na roda de discussão, como Dogville, do von Trier. Ou, em última instância, para derrubar preconceitos entre arte e entretenimento, sejam ainda mais insólitos ao confessar a predileção por Curtindo a Vida Adoidado. Elencar Bergman, Kubrick, Hitchcock, Kurosawa, entre outros, ou até mesmo Tarantino, como o melhor cineasta de todos os tempos, por mais verdadeiro que possa parecer, soa mais como chavão do que como uma manifestação pessoal de gostos e interesses. Desculpem, não sou tão excêntrico quanto deveria ou gostaria de ser. Mas, atendendo a pedidos, por que não finalizar com uma provocação? Meu segundo melhor filme de todos os tempos, na avaliação feita em janeiro de 2013, é Sin City.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013

- O que você quer ganhar de Ano-Novo?
- Posso pensar?
- Claro! Você tem todo o tempo do mundo. Pensa e depois me fala...
- Não, não. O que eu quero é justamente isso. PODER PENSAR. Arriscar ideias sem medo, mesmo que elas possam parecer as coisas mais absurdas. Ter a liberdade de me expressar, sem os cerceamentos ideológicos de sectários. Fingir ser forte nas convicções próprias, mas no fundo ter a decência de estar fragilizado e suscetível à entrada de preceitos novos, pensamentos novos, críticas novas. Trocar as certezas cristalizadas pelas dúvidas voláteis. Ter a permissão e o consentimento de errar. Eu quero é poder pensar. Só assim vou me dar o direito de querer alguma coisa de fato relevante neste ano que acabou de chegar chegando.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Previsões para 2013



Janeiro:
Cria-se no Facebook o perfil Cigarrinho Pan Estúpido, com o único propósito de copiar e colar as melhores pérolas da rede social.
Fernando Haddad assume a Prefeitura de São Paulo e muda o símbolo da cidade. Por causa dos buracos nas ruas, sai o ipê e entra o queijo Ementhal.
Guido Mantega afirma que o crescimento do PIB será de 9,2 pontos em 2013.
Fevereiro:
Governo cria a CPI para apurar fraudes na contagem de votos das escolas de samba durante o carnaval. Lula jura que não sabia de nada.
Paulo Coelho lança o livro Dias de Francisco. Inspirado em Crepúsculo e 50 Tons de Cinza, o livro conta a história de duas vampiras lésbicas hermafroditas que saem à noite para seduzir e caçar mulheres menstruadas.
Coca Zero passa a colocar em suas latas a frase Quanto Mais Ciclamato Melhor.
Março:
O Hobbit ganha Oscar de melhor filme falado em língua estrangeira.
Cientistas provam que Oscar Niemeyer não está morto.
Cansado do universo do humor e com imagem desgastada pela mídia, Rafinha Bastos parte para o drama. Já começou a ensaiar Hamlet, onde diz: “To be or not to be... pregnant”.
Abril:
Escândalos de corrupção aparecem na mídia, número recorde de assassinatos, crise econômica, crise na Bolsa, crise nas exportações. Governo alega que tudo isso é invenção da imprensa por causa do Primeiro de Abril.
Guido Mantega baixa as previsões de crescimento do PIB para 7,8 pontos. Para estimular a economia, reduz os impostos dos derivados de aminoácidos revertidos. Lula jura que não sabia de nada.
Sílvio Santos flagrado vendendo carnês do Baú da Felicidade em composições da Linha Esmeralda de trens: “Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia estar roletrando...”.
Maio:
Rede Globo lança a novela Avenida Paulista, que conta a história de uma ricaça histérica que foi traída pelo marido, um alto executivo do Citibank em frente à Gazeta, e, para se vingar, cata lâmpadas fluorescentes do lixo e começa a atirá-las em supostos gays que passam pelo MASP. Sucesso total de audiência.
José Simão bate recorde de plágio de frases chupinhadas das redes sociais, principalmente as que falam sobre Preta Gil e Ronaldinho Fenômeno.
Por causa da falta de espaços em São Paulo, Haddad lança uma medida polêmica. O prefeito determina que, aos domingos, o espaço da plataforma do metrô entre a faixa amarela e o trilho passe a ser utilizado como ciclovia.
Junho:
Banda Megadeth confirma mais 6 apresentações no Brasil em 2013. Para facilitar a logística, integrantes decidem fixar residência no país, já que possuem planos de se apresentar mais 250 vezes por aqui. Vendem suas mansões em Portland para dar de entrada em kitchenetes na Barra Funda.
Guido Mantega baixa as previsões de crescimento do PIB para 5,9. Para conter os ânimos dos investidores e alegrar a população, promete que, na compra do livro do Paulo Coelho, isento de impostos, cada cidadão brasileiro tem direito a um ingresso para o show do Megadeth, no setor de sua preferência.
Terroristas de extrema-direita do Egito invadem a América Latina e tentam matar de uma vez o líder Hugo Chavez. Lula jura que não sabia de nada.
Julho:
Pela primeira vez na história recente, Dilma sorri em rede nacional.
De tanto escapar da prisão, Justiça determina que o trabalho de captura de Carlinhos Cachoeira passe a ser realizado pela carrocinha.
Japonês que arrematou a virgindade leiloada de moça aproveita e compra a fábrica de pipocas Yoki. Grécia e Espanha vêm de brinde junto com essa aquisição.
Agosto:
Em comemoração ao mês do cachorro louco, Brasil bate recorde de exportação de caninos insanos e hidrofóbicos à China. “Depois da vaca louca, sentimos que precisávamos diversificar nossa gama de produtos para continuarmos competitivos no mercado”, afirma o Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Mesmo sem ter sequer habilitação para conduzir triciclos Bandeirante, Thor Batista pede mesada pro pai pra comprar Batmóvel e avião invisível da Mulher Maravilha. Negociações para fazer parte do elenco de Vingadores 2 estão adiantadas.
Mais um apagão afeta o país. Lula jura que não sabia de nada; afinal, sem TV e sem internet ele não podia ficar sabendo de nada mesmo.
Setembro:
Recordista absoluto de copiar piadas infames, José Simão sugere que o Dia da Independência seja comemorado na Cracolândia.
Apple anuncia que até o fim do ano irá lançar o iPhone 8,1 S, que virá com um aplicativo diferenciado: download gratuito de todas as respostas do Enem.
Recorde de chuvas nas principais capitais. Índice pluviométrico comparado ao de Bombaim e de Seattle. Chove também o número de posts no Facebook em alusão ao trocadilho “setembro chove?”.
Outubro:
No Dia dos Professores, Tiririca é homenageado por sua atuação no Congresso. Dado Dollabella recebe homenagem equivalente no Dia das Crianças.
Corinthians é selecionado para participar da Copa Intergaláctica dos Campeões. Torcedores fazem a maior muvuca em Cabo Canaveral.
Operadoras de telefonia móvel processadas na Justiça por oferecer serviços de péssima qualidade. Acusada de propaganda enganosa, pois não dá tempo de se falar “oi” sem que antes caia a linha, operadora carioca se vê obrigada a mudar seu nome para um emoticon.
Novembro:
Guido Mantega compra o livro de estatísticas da Mega Sena, consulta o oráculo I Ching e a Mãe Dinah pra tentar adivinhar qual será a taxa de crescimento do PIB brasileiro.
Cientistas descobrem que fóssil encontrado na Patagônia pertencia a avô de Hebe Camargo.
Família Barreto anuncia que vai filmar “Dilma – O Pai do Brasil”. Cartunista Laerte cotado para o papel principal.
Dezembro:
Empresas e megastores aproveitam o sucesso das edições anteriores e promovem mais um Black Friday, com produtos até 50%... mais caros.
Em sua 35ª turnê pelo Brasil, Madonna esquece novamente a letra da música Like a Virgin (piada pronta) e convoca a cantora Vanusa para ajudá-la.
Danilo Gentili anuncia que irá promover mudanças em seu programa. A atração passará a se chamar Ainda É Cedo e, em vez do Ultraje a Rigor, quem vai dar canja são os ex-integrantes do Legião Urbana. Sem o Wagner Moura, pelo amor de Deus.