segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Globalização

Era pra ser uma festa vienense, um tipo de baile de máscaras em que tudo pode acontecer. Fiquei animado com a ideia, já que vi o flyer numa dessas casas de artigos indianos. Já no caminho imaginei de tudo, as possibilidades mais obscenas, como beijo grego, banho turco e mulheres de montão fazendo suas espanholas. O aviso era bem claro. A festa era no estilo americano: valor simbólico de entrada, homens levam bebidas, mulheres levam comidas. No sentido literal, em princípio. Um verdadeiro negócio da China.
A festa tava lotada. E tinha de tudo, de uísque escocês a tequila mexicana. Na entrada, um tapete persa recebia os convidados. Garçonetes em seus minúsculos vestidos pretos deixavam a calcinha branca ser comida com os olhos, de propósito. Elas viviam rodando o salão e servindo pedaços de pizza calabresa, portuguesa e baiana. Alguns preferiam se servir no bar. Americano no pão sírio. Ou churrasquinho grego. Cuscuz marroquino, quem sabe. Mas isso tudo era só aperitivo. As atrações principais seriam muito mais saborosas.
Mais ao fundo, luz um pouco mais escura e azulada, formou-se um corredor polonês. Um insólito convite ao fetiche. Mulheres depiladas com cera egípcia davam suas boas-vindas. O ambiente ficava cada vez mais estranho. A fantasia na minha cabeça só tendia a crescer. Formou-se em mim uma confusão mental, que misturava o medo com a excitação. Homens bombados mais à frente sem camisa, de calça justa e com máscaras de Hannibal Lecter, segurando seus pastores alemães pela coleira. Uma nesga de claridade recheava um improvisado ringue de boxe tailandês. E, no extremo profundo do salão, certeza de que o melhor da festa ali reinava. Uma grande porta de madeira trancada a sete chaves certamente escondia o primor do erótico, o alimento gorduroso e opulento da minha imaginação fértil. Apostei que adentraria num harém das arábias. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que, ao invadir o fantástico mundo híbrido de Nárnia e Pamela Anderson, deparei-me com gorduchos carecas e seus anéis de ouro e charutos cubanos disputando um campeonato de roleta russa. Eu, hein? Saí à francesa e prometi nunca mais voltar para aquela terra de ninguém.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Trânsito

Saí de casa, peguei o carro. Entrei na Nove de Julho. O trânsito estava bem complicado na região. Fui até a 23 de Maio, mas uma manifestação bloqueou uma das faixas e impediu a passagem de carros. Segui até a 15 de Novembro, só depois fui me lembrar de que lá é proibida a entrada de carros em alguns horários. Cortei caminho pela 25 de Março, mas o comércio ambulante me impediu de trafegar. Continuei até a Sete de Setembro, lá longe, mas um acidente com uma moto deixou o trânsito ainda mais lento. Voltei pra 13 de Maio, mas a Festa da Achiropita bloqueou a passagem de veículos. Fui até a 12 de Outubro e uma colisão entre um carro e um caminhão paralisou o trânsito no meio dela. Escapei pela 24 de Maio, mas lá eles montaram um palco para um show musical. Dobrei até a Sete de Abril, mas lá estava tendo uma manifestação de bancários. Depois de tanto rodar, e rodar e rodar, desisti. Saí do calendário e voltei pra casa.

Pinto

Amâncio era irmão de Décio, que era primo de Delfino, sobrinho de Caio, tio de Jacinto, que, por sua vez, era meio-irmão de Armando, filho bastardo de Rolando. Todos eles tinham em comum, por uma infelicidade do destino, o sobrenome Pinto. O sobrenome, em si, até que é relativamente comum por essas terras tupiniquins. O problema mesmo era o conjunto formado pelo nome e sobrenome de todos eles. Vítimas frequentes de trocadilhos infames, zombarias, palhaçadas das mais óbvias e de um mau-gosto gritante. Nem os amigos poupavam esses membros da família de lascar um maldizer de vez em quando. Todos eles, sem exceção, sofreram bullying na escola. Até dos professores. Tinham dificuldade para arrumar emprego. Tinham dificuldade pra arrumar namorada. Às vezes até arrumavam, mas, bastava cair a ficha da moçoila, o namoro era rompido. Sofriam constrangimentos homéricos em cartórios e repartições públicas. Para esses integrantes da secular família, eram raros os momentos de felicidade inconteste.

Até que um dia, cansados de ser alvo de tantas piadinhas por tantos dias e anos consecutivos, o clã se juntou e, em conjunto, resolveram partir para o suicídio coletivo. Era mais digno, de acordo com os azarados. E, numa tacada só, o pequeno elenco desafortunado decidiu enterrar este linguístico brasão familiar de suas histórias, motivo de tanto desgosto. Numa sensação de angústia e alívio, o septeto então pôs um fim às suas vidas e aos seus cacófatos.

domingo, 1 de setembro de 2013

Diálogo

Diálogo tenso entre o presidente da Síria e o presidente da Coreia do Norte:
- 나는 폭탄을 촬영하기 위해 사랑 해요.
- أنا لا أذهب هنا.
- 나는 세계를 파괴 할 것이다.
- أنا سوف تجعل الكعكة.
- 코끼리 나비보다 무거워.
- أنا أكره تظاهرات شعبية.
- 나는 이발을 필요로!!!
- بحاجة الى ان نرى الفيلم أكثر الإيرانية
- 거울은 나를 미워합니까?
- حماقة المقدسة...
- 가서 좀 더 차를 데리고 잘 시간
- وقت للصلاة لمدة ثلاث ساعات أخرى
- 나중에 참조하십시오. 지옥에서 보자!
- إلى اللقاء فيما بعد. لعن الله لك لمدى الحياة!

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Não pode ser

Eram quase 2 e meia. Quase meia hora de atraso por parte deles. O Jorge, colega da facu, e a Denise, que conhecemos depois. O motivo do encontro era o fato de não nos vermos há quase uma década. O restaurante era um lugar bacaninha na Vila Madalena, um meio-termo entre os bistrôs indicados pela Vejinha e os pés-pra-fora dos arredores da GV. Jorge chegou, um pouco mais careca e barrigudo do que aquela imagem que eu guardava dele. Denise veio logo em seguida, com um par de óculos, aparelho dentário fixo e alguns gramas de maquiagem a mais. Aliás, muito estranho gente que começa a usar aparelho quando atinge uma certa idade. Parece gente que começa a fumar depois dos 25. Aparelho fixo pra mim era coisa de adolescente.
Escolhemos uma mesa mais afastada da muvuca, pra poder conversar com o mínimo de interferências. Pedimos o cardápio. Pratos temáticos com nomes de celebridades ilustravam a carta, como se fosse uma lista VIP. O Jorge foi do trivial: um steak de mignon ao molho mostarda. Denise preferiu um salmão ao molho de maracujá. Eu ousei na invencionice da casa. Uma trouxinha de massa acobertando frutos do mar e um peixe da estação com molho de cupuaçu coberto por carpaccio de alguma planta vigiada pelo Ibama. Chamamos o garçom. Um rapaz atencioso, beirando seus 28 anos, muito simpático, porém um pouco desengonçado. “E pra beber?”, pergunta ele. Denise foi de suco de laranja, sem açúcar. Jorge pediu uma cerveja, Original. “E você?” “Uma Coca, só com gelo”, respondi. Não entendo essa coisa de colocar limão na Coca. Ela não nasceu pra isso. Não combina. É falso pensar que a acidez do limão quebra um pouco da base cáustica e alcalina da Coca. Na verdade, acho que o limão anula as propriedades originais do refrigerante, que pra mim são imexíveis. O garçom estava quase se retirando quando, na curva, dá meia-volta e me pergunta: “Pode ser Pepsi?”
Não, não pode ser Pepsi. Definitivamente, não. Virou costume fazer essa pergunta, como se estivéssemos trocando seis por meia dúzia. Até entendo que o que está por trás disso é uma jogada mercadológica, em que a empresa exige contrato de exclusividade em troca do fornecimento de geladeiras e luminosos. Mas eu quero a liberdade de escolha, aquela verdadeira liberdade que o neoliberalismo globalizado me prometeu. No supermercado eu posso optar pela marca que quiser. Lá nas gôndolas enlambuzadas de açúcar temos Dolly, Mirinda, Sukita, Schin, Convenção. Por que não posso fazer o mesmo num restaurante? E não adianta o garçom ser simpático pra me fazer engolir Pepsi. Não pode ser. Eu quero Coca-Cola. A empresa Coca pisa na bola em tudo quanto é refrigerante que se mete a fazer. Tem a Fanta Uva, que de tão ruim é bom, e virou símbolo cult de indie, hipster e tranqueira. A Fanta Uva combina com apetrechos desde o PF de boteco até a empanada de espinafre da Augusta. Tem também a Fanta Laranja, que tem tudo menos laranja. Chegaram a misturar o produto com tangerina, carambola, fruta-do-conde, o diabo, pra tentar tirar o mofo das prateleiras. A Coca-Cola teve a pachorra de criar um novo sabor, escolhido por meio democrático de eleições de refrigerantólogos. Nesse pleito, tiveram a pachorra de colocar como opções o infantiloide morango e maracujá. Odeio maracujá. Venceu o maracujá. Parece eleição constitucional, principalmente segundo turno, em que você se vê obrigado a escolher entre o PT e o PSDB. A Coca comprou o guaraná Jesus e fez com que ele perdesse todo o seu charme regionalista de bebida difícil. A Coca não se deu bem com nenhum energético. Tirou de linha o horroroso Gladiator. Tem aí o Burn, que mais parece bebida genérica. A Coca errou a mão com os isotônicos. Pra concluir: a Coca-Cola fabrica o guaraná Kuat. Não precisa dizer mais nada. Em compensação, o refri Coca é imbatível. A marca com maior share of mind do século passado, junto com Bayer, Deus e Pelé. A embalagem rotunda da bebida foi um dos mais perfeitos símbolos fálicos da Humanidade. Em seu acabamento, não em sua semelhança. A Coca-Cola está diretamente ligada ao imperialismo, ao sentido bélico de conquistar o mundo. Aquele líquido de cor indefinível beirando o preto, o roxo e o marrom faz parte do imaginário coletivo dos anos 50, ao lado da icônica Marilyn Monroe e as lanchonetes com banquinhos vermelhos. Coca-Cola lembra Papai Noel. Ouvir a recusa do moçoilo diante do pedido desse mito gaseificado pra mim estava fora de cogitação. Na TV, quem pede Pepsi fica milionário e passa as férias num barco particular. Um mea culpa assumido. Tentativa de reversão do conformismo. No próximo encontro com amigos, pode ser em outro lugar. Pode ser bem melhor.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Marcas

Era um dia como outro qualquer. Acordei cedo, fui tomar banho, escovei os dentes com um dentifrício anticáries, limpei os ouvidos com hastes de algodão flexíveis e fiz a barba com um aparelho de lâminas de aço inoxidável. Estava atrasado. Nem deu tempo de tomar café direito. Peguei um pote de iogurte fermentado pronto para beber e mandei ver. Nem reparei que na mesa tinha uma tigela de leite com flocos açucarados de milho misturados ao achocolatado em pó matinal. Paciência. Coloquei na mochila meu frasco de leite fermentado com probióticos lactobacilos vivos e saí correndo.
Chegando ao escritório, todo mundo reparou que eu estava atrasado. Ninguém te cumprimenta quando você chega cedo. Mas basta calcular mal o tempo, chegar 20 minutos depois do horário, aí todo mundo te olha feio. Sim, eu perdi a hora, a cama estava deliciosa, gastei um tempão procurando minhas sandálias emborrachadas que não deformam nem soltam as tiras, mas isso não é motivo para tanta conspiração. Além disso, no meu bairro os motoristas de ônibus estavam em greve, fui obrigado a pegar um coletivo elétrico. Mas isso não vem ao caso. Percebi que a coisa estava tensa quando, ao ligar meu computador pessoal, vi um monte de recados afixados em pequenos papeis autoadesivos amarelos. A maioria foi meu chefe quem pregou, bem no meio da tela. Dois deles fui eu mesmo: não esquecer de ir ao supermercado, procurar um par de meias femininas de fibras sintéticas de elastano e comprar um pacote de palha de aço (dizem que essa mercadoria possui mil e uma utilidades; eu não conheço mais do que meia dúzia).
Fui almoçar. Escolhi o trivial: a lanchonete do palhaço vermelho e amarelo. Pedi um sanduíche composto por dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles, num pão com gergelim. Pra beber, um refrigerante gaseificado à base de cola. A sobremesa eu preferi comprar na mercearia em frente ao estabelecimento. Catei um chocolate com leite condensado caramelizado coberto por flocos crocantes e um delicioso chocolate acobertando este açucarado cilindro.
À tarde, a mesma rotina. Entrar no site de busca pela internet. Procurar o nome do fabricante de panelas antiaderentes. Despachar um monte de encomendas via serviços de entrega expressa, e só. Aquela mesmice me cansava. Não via a hora de voltar pra casa.
Fui pro aconchego do meu lar, extasiado. O que eu mais queria era ouvir Mozart no meu toca-discos de vinil, bebendo vinho branco espumante. E, antes de dormir, quem sabe, beliscar uns palitos de wafer com camadas finas de chocolate. Pensando bem, não. A dor de cabeça não me deixou. Dormi profundamente sob os efeitos do ácido acetilsalicílico.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Ao telefone

(Toque de celular)
- Alô! Sim, é ele... e aííí?!? Putz, cara, nem te conto...
- ...
- Mais ou menos. É, então... aquele dia, você nem sabe o que aconteceu, cara...
- ...
- Isso... mas isso foi depois... aí eu cheguei, falei o que tinha pra dizer, mas o cara entendeu tudo errado. Aí foi só confusão...
- ...
- Mas no final deu tudo certo.
- ...
- Mas eu disse isso... exatamente isso, mas o cara, sei lá...
- ...
- Bom, deixa quieto. E aí, me conta: o que tem feito de bom?
- ...
- Sei... tendi...
- ...
- Tendi...
- ...
- Normal... normal... é, fazer o quê? A vida é assim mesmo.
- ...
- Sei... mas e de resto?
- ...
- Então, tô lá com a minha mina, a gente se mudou, anotaí... vai bem, graças a Deus... tudo bem... me manda... me mand... me manda seu e-mail... cê tá no Face? Tá? Eu te acho...
- ...
- Então, vamos marcar... isso... esse fim de semana não dá porque eu vou viajar... coisa rápida...
- ...
- Demorô. A gente... vamos combinar, então.
- ...
- Aquela breja... aquela breja... não vai esquecer, hein?
- ...
- Hahahaha! Me liga então.
- ...
- Outro grande...
- ...
- Falou, então... abraaaaço!
(...)
- Quem era?
- Atendente de telemarketing. Me ofereceu um cartão de crédito.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

E se...

Se eu fosse um pouco mais alto, só um pouquinho mais alto, poderia olhar o mundo mais de cima. Se eu olhasse o mundo mais de cima, faria com que as pessoas me respeitassem mais. Se as pessoas me respeitassem mais, ganharia confiança e aumentaria a minha autoestima. Se eu fosse mais confiante, tentaria encarar desafios maiores. Se eu tentasse enfrentar desafios maiores, iria me preparar para cargos e profissões mais desejados. Se eu estivesse mais bem preparado para cargos e profissões desejados, seria contratado por grandes empresas. Se eu fosse contratado por grandes empresas, iria conhecer pessoas influentes. Se eu conhecesse pessoas influentes, iria frequentar os eventos fechados da alta sociedade. Se eu frequentasse os eventos da alta sociedade, iria expor a minha imagem a líderes e tomadores de decisão. Se eu tivesse a minha imagem exposta a tomadores de decisão, iria negociar troca de favores em prol de benefícios mútuos e em nome da coletividade. Se eu negociasse troca de favores, iria expandir minha atuação na área política. Se eu expandisse minha atuação política, iria trabalhar para ter minha imagem conhecida por um grande número de pessoas. Se eu tivesse minha imagem conhecida, iria me candidatar a vereador da minha cidade. Se eu me candidatasse a vereador, iria ralar para ganhar a eleição. Se eu ganhasse a eleição, iria tentar me candidatar a deputado estadual, federal e senador. Se eu me candidatasse a esses cargos, iria divulgar propostas que viessem ao encontro das vontades de um povo insatisfeito. Se eu divulgasse essas propostas, e se o povo realmente estivesse insatisfeito, não teria como eu perder essas eleições. Se eu ganhasse todas essas eleições, iria acumular traquejo político, jogo de cintura e carisma da sociedade. Se eu fosse uma pessoa ao mesmo tempo politicamente experiente e carismática, tentaria ser Presidente da República. Se eu fosse o Presidente do país, faria um governo baseado na ética e nas transformações sociais. Se o meu mandato fosse ético e transformador, alcançaria um dos maiores índices de popularidade da história. Se eu fosse um dos Presidentes mais populares da história, teria meu nome no ranking das pessoas mais importantes do mundo. Se eu fosse uma das pessoas mais importantes do mundo, seria convidado a fazer parte do Conselho da ONU. Se eu fosse Conselheiro da ONU, jogaria duro contra os grupos terroristas. Se eu jogasse duro contra os terroristas, iria despertar a fúria de lideranças do Oriente Médio. Se eu despertasse a fúria das lideranças do Oriente Médio, ganharia a simpatia eterna dos Estados Unidos. Se eu ganhasse a simpatia dos norteamericanos, provocaria a revolta da Coreia do Norte. Se a Coreia do Norte ficasse revoltada, mais do que já é, iria disparar suas bombas nucleares. Se a Coreia do Norte disparasse suas bombas, o mundo iria acabar. Mas isso tudo só aconteceria se eu fosse um pouquinho mais alto.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Porto seguro



De vez em quando, algum filme passa batido pela imprensa e estreia diretamente nos circuitos, sem qualquer crítica ou cotação. O motivo alegado, na maioria das vezes, de acordo com as assessorias de imprensa de suas respectivas distribuidoras, deve-se ao fato de a cópia do produto não ter ficado pronta em tempo hábil para a exibição aos jornalistas e críticos. Muitas vezes, os críticos fingem que acreditam e fazem vista grosa a tal omissão. Vez ou outra ocorre alguma chiadeira. Sobre o filme Triplo X 2, por exemplo, a assessoria da Sony na época alegou que a cópia não estava disponível, mas, como não somos trouxas, retrucamos que o mesmo filme tinha sido exibido para um grupo menor e mais específico. Justificativas plausíveis, embora razoavelmente prejudiciais ao nosso trabalho, sim. Desculpa esfarrapada, não.
É sabido, e parcialmente tolerado, que determinados filmes correm o risco de receber matérias negativas e, por isso, entram direto em cartaz. São as exceções. Ou pelo menos eram. Cada vez mais, o papel da crítica tem se distanciado de sua função primária. Crítica não é mais (ou aos poucos vem deixando de ser) um parâmetro de guia de consumo. No Brasil, as bilheterias correm soltas e independem da crítica. O Homem de Ferro 3, que recebeu inúmeras reclamações por causa de um acesso restrito aos críticos, é a maior renda deste ano no Brasil. Por outro lado, Elena, O Que Se Move, Paulinho Moura, tiveram de um modo geral boa receptividade da crítica, mas, por serem filmes independentes ou de distribuidoras menores, amargam resultados inexpressivos de bilheteria. Dados estatísticos como esses comprovam que a crítica vem se distanciando de distribuidoras e assessorias e, o que é pior, de seu público. Com a crítica resistente e especializada de um lado, e a emancipação frenética de blogs e sites específicos de outro, o papel da crítica virou commodity. E, já que esse trabalho não tem mais o poder e a influência de gerar venda de ingressos como há alguns anos atrás, é deprimidamente natural que os donos dos filmes ofereçam cada vez menos o prato principal e cada vez mais os aperitivos degustativos, as amostras da Sétima Arte, como trailers, teasers, pôsteres, links, aplicativos, o diabo. Menos o filme propriamente dito.
Quando falamos de majors (leia-se Warner, Fox, Paramount, Disney e Sony), essa estratégia mercadológica de distanciamento, embora injusta, é até compreensível. O que fica um pouco mais difícil de entender é quando essa iniciativa perversa vem das distribuidoras consideradas pequenas, médias ou independentes, até então os parceiros amigos do peito da crítica. Por terem menos verba para publicidade, a necessidade e dependência de essas empresas terem os críticos como aliados, em muitos casos, é maior. Mas até essa premissa vem perdendo fôlego. Para se ter uma ideia, a Imagem Filmes, só neste ano, ocultou 6 filmes da imprensa, a saber: Para Maiores; Amanhecer Violento; Alvo Duplo; Um Porto Seguro; Um Bom Partido; e, amanhã, estreia a comédia juvenil Finalmente 18. Proporcionalmente, mais de 1 filme por mês que entra em cartaz “escondido” da imprensa.
Embora as cabines de imprensa sejam uma gentileza e não um dever da distribuidora, a constatação dessas elipses chega a ser assustadora. Um filme ou outro, vá lá. Mas, com tantos títulos assim, é de se desconfiar que a distribuidora em questão não acredita em seu produto. É como se uma loja vendesse roupas e as escondesse de suas vitrines. Ainda que um filme ou outro possa gerar discussões maiores sobre o fato de ser ou não ser previamente exibido, tem filme aí dirigido por Lasse Hallstrom, irmãos Farrelly, Gabrielle Muccino. A meu ver, mereciam uma chance a mais de ter a nossa opinião.
Não bastasse o fato de a crítica se tornar com o decorrer dos anos uma categoria desacreditada, num país em que todo cidadão é médico, é técnico de futebol e, portanto, tem opiniões mais do que formadas em cinema, as distribuidoras vem cada vez mais fazendo suas apostas seguras. Os críticos deixaram de ser um avalista e passaram a ser fator de risco. E, se antes da metade do ano a ocultação de cadáver chegou a meia-dúzia, somente de um fornecedor, é certo que a tendência numérica é só aumentar. Em progressão geométrica.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Meio a meio

Estávamos ali sentados, num ambiente intimista, com piano clássico Steinway no meio do salão e luz de velas em cada célula de acomodar pessoas. Guardanapos de linho branco simetricamente dobrados sobre os pratos de louça delicada, numa composição mais perfeita que origami. Reluzentes talheres de prata apoiados sobre um objeto férreo eternamente curvilíneo e retorcido, de formas não muito definidas, que lembrava alguma obra de arte qualquer vendida na praça Benedito Calixto. Por mais inusitado que possa parecer, estávamos numa pizzaria. E o longo e retangular cardápio que nos foi oferecido, encadernado num par de espessas madeiras pálidas, nada mais era do que um convite à dúvida. Que o prato principal seria a famosa massa redonda paulistana, tão enorme e rotunda quanto a mesa em que nos sentamos, isso era fato. Difícil mesmo foi escolher entre a margherita, a calabresa ou a 4 queijos como a salvação para saciar nossa fome pantagruélica. Nem tão pantagruélica assim. O aconchego do lugar pedia uma opção que extrapolasse o conceito de simplicidade. Viramos a página do menu, enorme, imponente e sucinto como a tábua dos Dez Mandamentos, e chegamos às pizzas especiais. Em princípio, minha proposta era pedir a pizza inteira de um único sabor. Oito pedaços rigorosamente idênticos, gêmeos univitelinos. Pizza de dois sabores deixa a coisa toda meio sem identidade. Três sabores, então, nem se fala. Além do fato de que essa ridícula invenção quebra toda a aritmética milenar da iguaria. Há quem ache que uma pizza de dois sabores permite uma maior variedade de estilos e diversidade de experiências degustativas, deixando o prazeroso momento menos enjoativo. Discordo. Mesmo assim, diante da persistência sedutora e persuasiva feminina, fui voto vencido. Próximo passo seria então calcular a melhor combinação dentre as parcas ofertas da casa. Talvez um equilíbrio perfeito entre os contrastes pudesse resolver nosso problema. Faz parte da gastronomia moderna oferecer não o morno, mas a dúbia sensação palatina do quente e do frio. O conflito dos extremos salgado e doce. Macio e áspero. E por aí vai. Por isso, não quisemos abusar da mesmice de uma pizza de vários sabores e um único tema. Pizza inteiriça de carne suína, por exemplo, foi imediatamente descartada. Ou ofertas que primam pelos seus excessos de ingredientes. Queríamos algo mais definido e bem-resolvido, sabores que revelassem sua força pela concisão. E a premissa dialética foi decidida de comum acordo pelo fator "com carne x sem carne". Concílio para agradar carnívoros e herbívoros de plantão. A parte animal da dúvida foi logo resolvida com o presunto parma. Imaginávamos, de antemão, que essa preferência seria o protagonista da noite, dado o seu aspecto denso, salgado e marcante. A parte vegetal da batalha dos opostos exigiu uma pesquisa um pouco mais apurada. Teríamos de escolher uma opção que aceitasse o papel de coadjuvante sem maiores problemas. Afinal, colocar sobre a mesma massa grossa dois personagens de temperamentos igualmente fortes iria gerar um desnecessário e indigesto duelo de titãs. Nossa decisão recaiu sobre o miolo de alcachofra, coberto por delgadas e escassas lâminas de queijo parmesão ralado. De tão insípida e anoréxica a criação, era certo que essa supostamente refinada sugestão da casa, a penúltima do cardápio, acima apenas de uma minguada opção light, seria o par perfeito para que, junto com o rústico e bárbaro presunto, pudessem bailar em paz sobre o disco de carboidratos. Fizemos o pedido e, enquanto esperávamos, começamos a namorar e a bebericar nossas gélidas águas com gás. Passados 20 minutos de um tímido romance e ósculos breves e contidos sobre os copos e sobre os lábios, eis que chega a fumegante estrela da noite, vestida com um polpudo e volumoso queijo mussarela de búfala que, com sua alegoria infinita, imitava em sua imagem o glamour e os exageros dos paetês. Aleatoriamente, escolhemos iniciar a gastronômica aventura pela brutalidade do presunto cor de vinho entremeado por límpidas e brancas divisórias de gordura. A experiência, de fato, foi bastante agradável. Deixamos de lado a borda crocante e torrada da massa, tamanha a curiosidade por conhecer o verdadeiro potencial da exótica planta emudecida em seu apático verde-água, a fase seguinte dessa prova. Surpreendentemente, o miolo de alcachofra brilhou em campo. Parecia roteiro de novela, em que um determinado personagem secundário e desprezível ganha mais espaço no decorrer de seus capítulos, dada a sua popularidade e carisma provocados no público espectador. E foi aí que começaram as nossas briguinhas triviais. Matematicamente, cada um de nós teria direito a dois pedaços de cada sabor. Ela, numa mistura de encantamento e arrogância, queria conquistar territórios menos cartesianos. De acordo com sua lógica, ela teria direito a três pedaços de alcachofra e um pedaço de parma. E isso não foi um pedido, foi uma determinação. Vai entender a alma feminina.
- Já escolheu o sabor de sua preferência, senhor? - perguntou-me o garçom, antes de me servir o próximo pedaço.
- Já. Mas eu vou ficar agora com o presunto parma.