sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Novo

Novo Toyota Corolla Style com sensor de ciclista. Nova maionese Hellmann's Gourmet com tampa abre-fácil. Novo iPhone 5.1 S com reconhecimento de voz. Novo papel higiênico Neve Supreme com folha tripla e extrato de amêndoas. Novo desodorante Rexona PowerSave proteção 48h com partículas de diamante e silício. Nova lavadora Brastemp Ultra com a função automática 'passar roupa'. Novo Samsung Galaxy 4.1.1 com dispositivo elétrico antifurto e anticlonagem. Nova faca Ginsu Kill Bill com lâmina de aço galvanizado eletrolítico. Novo colchão ortopédico Probel EasySleep com menu de canções de ninar. Novo GPS Garmin Nuvi FoundIt com mapeamento de ruas esburacadas e acesso direto à Interpol. Novo cooktop Electrolux Cuisine 5 bocas com a função 'ovo pochê'. Novo Burger King Mega Wooper com queijo, pão e salada dentro da própria carne.

O novo modelo de ser humano Enough Bullshit tava prometido pro Natal, mas o fabricante adiou o seu lançamento porque encontrou uma série de bugs.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Nada

Acho curioso o significado da palavra nada. Ela pode não significar nada. "Não é nada", "de nada", "nadica de nada", "nada não", meras bolhas de plástico para rechear um discurso. Mas ela também pode enunciar algo muito mais profundo, intestino, orgânico. Nada é o princípio do Universo, é o número zero, é a representação linguística do vazio. Nada é a abstração filosófica da ausência, do fim, da morte. Niilismo, Dadaísmo, exemplos de manifestações artísticas que procuram trazer visões de mundo sobre o nada. Nonada. O nada está muito longe de não querer dizer nada. É muito mais completo e pesado do que parece.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Embalagens


Como alguém já disse antes, existem 2 tipos de curativo: o que não gruda e o que não sai.
Sachês, por exemplo. Impossível abrir sem esparramar o conteúdo. Ou impossível abrir sem a ajuda de uma tesoura ou facão. Ou simplesmente impossível abrir.
Data de validade. É preciso girar, girar, girar, até achar.
Tampinha de garrafa PET. Se apertar de menos, sai o gás. Se apertar demais, só com a ajuda de um saca-rolha. Tampa de maionese, não importa se é sentido horário ou anti-horario, você jamais vai conseguir destravar.
E código promocional em baixo-relevo? Aquele que você só consegue enxergar debaixo de uma luz ultra-violeta?
Latas de sardinha ou produtos em conserva, aquelas com abridor automático, um convite ao merthiolate.
Desodorante: o que fazer com o botão? Apertar? Girar? Puxar? Quebrar?
Leite longa-vida, pacote de salgadinhos, frasco de perfume, invólucro de medicamentos, bebida pronta e todas as bugigangas que recheiam nosso universo de consumo. Decifrar embalagens é coisa pra iniciados. E a prova contundente de que nossos engenheiros de produto são feras em polímeros, mas não entendem nada de produto.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Imperativos

Beba Coca-Cola. Beba com moderação. Carregue bolsas, sacolas e mochilas nas mãos. Evite acidentes e atrasos. Ao persistirem os sintomas, consulte um médico. Respeite a ciclofaixa. Desapega. Think different. Just do it. Ao toque da campainha, não entre nem saia do trem. Facilite o troco. Jogue o lixo no lixo. Don't worry, be happy. Keep walking. Abuse e use. Visite o dentista regularmente. Make my day. Desembarque pelo lado esquerdo do trem. Faça a sua parte. Doe sangue. Não dê esmolas. Não entre com latas e garrafas. Deixe a esquerda livre. Verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar. Realize sonhos. Escolha o novo. Mude o seu caminho. Não olhe pra trás. Agite antes de usar. Seja você mesmo. Fale com o motorista somente o necessário. Use roupas leves. Capricha. Save the date. Desligue celulares, bips e pagers. Pedala. Aumente o tamanho do seu pênis. Faça MBA. Assine já. Use o cinto de segurança. Consulte a tabela. Seja fiel. Curta a nossa página. Acredite em você. Pague suas contas em dia. Não deixe pra amanhã. Peça pelo número. Evite fumar na presença de crianças. Ligue agora mesmo. Tenha em mãos o seu CPF. Dê a preferência a idosos, gestantes, obesos e crianças de colo. Sai da minha aba. Desencana. Enjoy.
Se tanta gente assim manda em você o tempo todo, fica meio difícil pensar numa sociedade em que não haja delinquentes e imbecis.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Exigências

Eu quero um parque de diversões em minha suíte presidencial. Eu quero animais exóticos decorando o ambiente, eu quero 750 toalhas de linho persa bordadas com as iniciais do meu nome. Eu quero uma cama imperial royale em mogno e colchão com molas massageadoras antiestresse. Eu quero meia-dúzia de travesseiros de penas de flamingo e botão ativador do sono. Eu quero 45 cestas com frutas tropicais por dia, melhor não. Não dá pra confiar na natureza desses países do baixo-equador. Eu quero um personal trainer para cada músculo do meu corpo. Eu quero uma academia de ginástica ao lado da minha cama. Eu quero 250 cabides flexíveis. Eu quero uma máquina de fliperama, eu quero uma jukebox. Eu quero um monte de PlayStation instalado em meu banheiro. Eu quero uma garrafinha de água mineral potável gelada sem sódio a cada 5 minutos. Eu quero uma TV 3D de 60 polegadas. Eu quero um DJ a madrugada inteira. Eu quero uma banheira de ofurô com um consultor estético à minha disposição. Eu quero o Alex Atala cozinhando pra mim 6 vezes por dia. Eu quero um anão vestido de porteiro no corredor do hotel na porta do meu quarto. Eu quero um concierge particular para fazer minhas compras. Eu quero 18 dúzias de bromélias em vasos de porcelana chinesa da dinastia Ming. Eu quero 140 garrafas de uísque envelhecido 18 anos. Pensando melhor, muito rock and roll essa atitude. Não pega muito bem. Risca. Troca por 230 garrafinhas de Gatorade, 300 potes de iogurte desnatado e 950 barrinhas de cereal. Eu quero o roupão da Britney Spears. Eu quero um show ao vivo de stand-up do Danilo Gentili. Eu quero uma réplica de Modigliani na parede da sala. Eu quero 55 covers do Elvis Presley pra me fazerem dormir. Eu quero uma pista de dança com luzes de cores alternadas no chão. Eu quero uma jiboia. Eu quero uma fuinha. Eu quero brincar de Detetive com a Luana Piovani após os shows. Eu quero um espelho de realidade aumentada. Eu quero uma palestra exclusiva com o Fernando Henrique enquanto tomo meu café da manhã. Eu quero 195 sabonetes fluorescentes de Placa de Petri. Eu quero 90 vasilhames de xampu de extrato de girassol com pó de diamante. Eu quero 112 potes de creme antirrugas com ácido retinoico. Eu quero uma cesta com 80 pães de miga e azeite trufado. Eu quero um lago artificial com 17 carpas. Eu quero uma pista de Autorama com as mesmas curvas do Circuito de Monza. Eu quero um controle remoto com 94 funções. Eu quero a reprodução da Fontana de Trevi pintada no teto. Eu quero uma lâmpada que simule a luz de Paris às 6 da tarde. Eu quero uma lareira cujos contornos das labaredas tragam a imagem de Cristo. Eu nasci pobre, muito pobre, então eu quero é mais. Muito mais. Sou a atração principal do Rock in Rio, portanto, tenho todo o direito de me achar um semideus.

Globalização

Era pra ser uma festa vienense, um tipo de baile de máscaras em que tudo pode acontecer. Fiquei animado com a ideia, já que vi o flyer numa dessas casas de artigos indianos. Já no caminho imaginei de tudo, as possibilidades mais obscenas, como beijo grego, banho turco e mulheres de montão fazendo suas espanholas. O aviso era bem claro. A festa era no estilo americano: valor simbólico de entrada, homens levam bebidas, mulheres levam comidas. No sentido literal, em princípio. Um verdadeiro negócio da China.
A festa tava lotada. E tinha de tudo, de uísque escocês a tequila mexicana. Na entrada, um tapete persa recebia os convidados. Garçonetes em seus minúsculos vestidos pretos deixavam a calcinha branca ser comida com os olhos, de propósito. Elas viviam rodando o salão e servindo pedaços de pizza calabresa, portuguesa e baiana. Alguns preferiam se servir no bar. Americano no pão sírio. Ou churrasquinho grego. Cuscuz marroquino, quem sabe. Mas isso tudo era só aperitivo. As atrações principais seriam muito mais saborosas.
Mais ao fundo, luz um pouco mais escura e azulada, formou-se um corredor polonês. Um insólito convite ao fetiche. Mulheres depiladas com cera egípcia davam suas boas-vindas. O ambiente ficava cada vez mais estranho. A fantasia na minha cabeça só tendia a crescer. Formou-se em mim uma confusão mental, que misturava o medo com a excitação. Homens bombados mais à frente sem camisa, de calça justa e com máscaras de Hannibal Lecter, segurando seus pastores alemães pela coleira. Uma nesga de claridade recheava um improvisado ringue de boxe tailandês. E, no extremo profundo do salão, certeza de que o melhor da festa ali reinava. Uma grande porta de madeira trancada a sete chaves certamente escondia o primor do erótico, o alimento gorduroso e opulento da minha imaginação fértil. Apostei que adentraria num harém das arábias. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que, ao invadir o fantástico mundo híbrido de Nárnia e Pamela Anderson, deparei-me com gorduchos carecas e seus anéis de ouro e charutos cubanos disputando um campeonato de roleta russa. Eu, hein? Saí à francesa e prometi nunca mais voltar para aquela terra de ninguém.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Trânsito

Saí de casa, peguei o carro. Entrei na Nove de Julho. O trânsito estava bem complicado na região. Fui até a 23 de Maio, mas uma manifestação bloqueou uma das faixas e impediu a passagem de carros. Segui até a 15 de Novembro, só depois fui me lembrar de que lá é proibida a entrada de carros em alguns horários. Cortei caminho pela 25 de Março, mas o comércio ambulante me impediu de trafegar. Continuei até a Sete de Setembro, lá longe, mas um acidente com uma moto deixou o trânsito ainda mais lento. Voltei pra 13 de Maio, mas a Festa da Achiropita bloqueou a passagem de veículos. Fui até a 12 de Outubro e uma colisão entre um carro e um caminhão paralisou o trânsito no meio dela. Escapei pela 24 de Maio, mas lá eles montaram um palco para um show musical. Dobrei até a Sete de Abril, mas lá estava tendo uma manifestação de bancários. Depois de tanto rodar, e rodar e rodar, desisti. Saí do calendário e voltei pra casa.

Pinto

Amâncio era irmão de Décio, que era primo de Delfino, sobrinho de Caio, tio de Jacinto, que, por sua vez, era meio-irmão de Armando, filho bastardo de Rolando. Todos eles tinham em comum, por uma infelicidade do destino, o sobrenome Pinto. O sobrenome, em si, até que é relativamente comum por essas terras tupiniquins. O problema mesmo era o conjunto formado pelo nome e sobrenome de todos eles. Vítimas frequentes de trocadilhos infames, zombarias, palhaçadas das mais óbvias e de um mau-gosto gritante. Nem os amigos poupavam esses membros da família de lascar um maldizer de vez em quando. Todos eles, sem exceção, sofreram bullying na escola. Até dos professores. Tinham dificuldade para arrumar emprego. Tinham dificuldade pra arrumar namorada. Às vezes até arrumavam, mas, bastava cair a ficha da moçoila, o namoro era rompido. Sofriam constrangimentos homéricos em cartórios e repartições públicas. Para esses integrantes da secular família, eram raros os momentos de felicidade inconteste.

Até que um dia, cansados de ser alvo de tantas piadinhas por tantos dias e anos consecutivos, o clã se juntou e, em conjunto, resolveram partir para o suicídio coletivo. Era mais digno, de acordo com os azarados. E, numa tacada só, o pequeno elenco desafortunado decidiu enterrar este linguístico brasão familiar de suas histórias, motivo de tanto desgosto. Numa sensação de angústia e alívio, o septeto então pôs um fim às suas vidas e aos seus cacófatos.

domingo, 1 de setembro de 2013

Diálogo

Diálogo tenso entre o presidente da Síria e o presidente da Coreia do Norte:
- 나는 폭탄을 촬영하기 위해 사랑 해요.
- أنا لا أذهب هنا.
- 나는 세계를 파괴 할 것이다.
- أنا سوف تجعل الكعكة.
- 코끼리 나비보다 무거워.
- أنا أكره تظاهرات شعبية.
- 나는 이발을 필요로!!!
- بحاجة الى ان نرى الفيلم أكثر الإيرانية
- 거울은 나를 미워합니까?
- حماقة المقدسة...
- 가서 좀 더 차를 데리고 잘 시간
- وقت للصلاة لمدة ثلاث ساعات أخرى
- 나중에 참조하십시오. 지옥에서 보자!
- إلى اللقاء فيما بعد. لعن الله لك لمدى الحياة!

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Não pode ser

Eram quase 2 e meia. Quase meia hora de atraso por parte deles. O Jorge, colega da facu, e a Denise, que conhecemos depois. O motivo do encontro era o fato de não nos vermos há quase uma década. O restaurante era um lugar bacaninha na Vila Madalena, um meio-termo entre os bistrôs indicados pela Vejinha e os pés-pra-fora dos arredores da GV. Jorge chegou, um pouco mais careca e barrigudo do que aquela imagem que eu guardava dele. Denise veio logo em seguida, com um par de óculos, aparelho dentário fixo e alguns gramas de maquiagem a mais. Aliás, muito estranho gente que começa a usar aparelho quando atinge uma certa idade. Parece gente que começa a fumar depois dos 25. Aparelho fixo pra mim era coisa de adolescente.
Escolhemos uma mesa mais afastada da muvuca, pra poder conversar com o mínimo de interferências. Pedimos o cardápio. Pratos temáticos com nomes de celebridades ilustravam a carta, como se fosse uma lista VIP. O Jorge foi do trivial: um steak de mignon ao molho mostarda. Denise preferiu um salmão ao molho de maracujá. Eu ousei na invencionice da casa. Uma trouxinha de massa acobertando frutos do mar e um peixe da estação com molho de cupuaçu coberto por carpaccio de alguma planta vigiada pelo Ibama. Chamamos o garçom. Um rapaz atencioso, beirando seus 28 anos, muito simpático, porém um pouco desengonçado. “E pra beber?”, pergunta ele. Denise foi de suco de laranja, sem açúcar. Jorge pediu uma cerveja, Original. “E você?” “Uma Coca, só com gelo”, respondi. Não entendo essa coisa de colocar limão na Coca. Ela não nasceu pra isso. Não combina. É falso pensar que a acidez do limão quebra um pouco da base cáustica e alcalina da Coca. Na verdade, acho que o limão anula as propriedades originais do refrigerante, que pra mim são imexíveis. O garçom estava quase se retirando quando, na curva, dá meia-volta e me pergunta: “Pode ser Pepsi?”
Não, não pode ser Pepsi. Definitivamente, não. Virou costume fazer essa pergunta, como se estivéssemos trocando seis por meia dúzia. Até entendo que o que está por trás disso é uma jogada mercadológica, em que a empresa exige contrato de exclusividade em troca do fornecimento de geladeiras e luminosos. Mas eu quero a liberdade de escolha, aquela verdadeira liberdade que o neoliberalismo globalizado me prometeu. No supermercado eu posso optar pela marca que quiser. Lá nas gôndolas enlambuzadas de açúcar temos Dolly, Mirinda, Sukita, Schin, Convenção. Por que não posso fazer o mesmo num restaurante? E não adianta o garçom ser simpático pra me fazer engolir Pepsi. Não pode ser. Eu quero Coca-Cola. A empresa Coca pisa na bola em tudo quanto é refrigerante que se mete a fazer. Tem a Fanta Uva, que de tão ruim é bom, e virou símbolo cult de indie, hipster e tranqueira. A Fanta Uva combina com apetrechos desde o PF de boteco até a empanada de espinafre da Augusta. Tem também a Fanta Laranja, que tem tudo menos laranja. Chegaram a misturar o produto com tangerina, carambola, fruta-do-conde, o diabo, pra tentar tirar o mofo das prateleiras. A Coca-Cola teve a pachorra de criar um novo sabor, escolhido por meio democrático de eleições de refrigerantólogos. Nesse pleito, tiveram a pachorra de colocar como opções o infantiloide morango e maracujá. Odeio maracujá. Venceu o maracujá. Parece eleição constitucional, principalmente segundo turno, em que você se vê obrigado a escolher entre o PT e o PSDB. A Coca comprou o guaraná Jesus e fez com que ele perdesse todo o seu charme regionalista de bebida difícil. A Coca não se deu bem com nenhum energético. Tirou de linha o horroroso Gladiator. Tem aí o Burn, que mais parece bebida genérica. A Coca errou a mão com os isotônicos. Pra concluir: a Coca-Cola fabrica o guaraná Kuat. Não precisa dizer mais nada. Em compensação, o refri Coca é imbatível. A marca com maior share of mind do século passado, junto com Bayer, Deus e Pelé. A embalagem rotunda da bebida foi um dos mais perfeitos símbolos fálicos da Humanidade. Em seu acabamento, não em sua semelhança. A Coca-Cola está diretamente ligada ao imperialismo, ao sentido bélico de conquistar o mundo. Aquele líquido de cor indefinível beirando o preto, o roxo e o marrom faz parte do imaginário coletivo dos anos 50, ao lado da icônica Marilyn Monroe e as lanchonetes com banquinhos vermelhos. Coca-Cola lembra Papai Noel. Ouvir a recusa do moçoilo diante do pedido desse mito gaseificado pra mim estava fora de cogitação. Na TV, quem pede Pepsi fica milionário e passa as férias num barco particular. Um mea culpa assumido. Tentativa de reversão do conformismo. No próximo encontro com amigos, pode ser em outro lugar. Pode ser bem melhor.