terça-feira, 10 de junho de 2014

Panaceia



Ele sofria de crise de ansiedade. Ela sofria de crise de depressão. Ele tinha transtorno obsessivo-compulsivo. Ela tinha transtorno afetivo sazonal. Ele, delírio persecutório. Ela, ablutomania.
Cada um no aconchego neurótico de seu lar, tomavam regularmente medicamentos para controlar suas manias, suas fobias e suas arritmias. Com suas diferentes posologias e patologias, procuravam o bem-estar por meio de drágeas e de cápsulas. O que conta, acima de tudo, é o perfeito encaixe à sociedade, da maneira mais equilibrada e sedada possível.
Calmantes. Tranquilizantes. Corticosteroides. Anti-inflamatórios. Antidepressivos. Ansiolíticos. Antiagregantes plaquetários. Anti-hipertensivos. Antiespasmódicos. Procinéticos. Cefalosporinas. Cardiotônicos digitálicos.
Soluções aquosas. Soluções químicas. Soluções salinas. Soluções diluídas. Soluções fracionadas. Soluções para seus problemas ácidos e nada básicos.
Até que, em vez de tomar comprimidos, um dia ele e ela resolveram tomar uma atitude. E pensaram fora da bula. Mudaram a titulação de suas dosagens diárias de felicidade. Estava claro como a caligrafia médica que a extirpação de suas angústias e o gozo máximo de suas vidas não eram vendidos em caixas ou blisters.
Essa vontade incontida de transformar seus mundos dopados foi maior que os frascos. Ele abandonou suas amitriptilinas. Ela, seus benzodiazepínicos. E passaram a acreditar mais no efeito placebo do amor-próprio. A melhor endorfina do universo.
Encontraram-se pelo acaso que as ciências biológicas não dão conta de explicar. Estavam, tanto ele quanto ela, mais reluzentes e menos anestesiados. E foi justamente por isso que um trouxe a energia aminoácida do outro. A paixão veio sem marcar consulta.
Passaram a sentir mútuos e sincronizados batimentos taquicárdicos, tremulações musculares e ruborizações epidérmicas, mas isso não era distúrbio nenhum. Instantes depois trocaram salivas e trocaram whatsapps. Meses depois, trocaram alianças. E, na doença e na doença, viveram felizes para sempre, até que a morte os prescreva.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Pai e filho


-       Já tão cedo, filho?
-       Já, pai. Era pra eu chegar mais tarde. Bem mais tarde. Mas deu merda.
-       Se divertiu bastante?
-       Nada... quer dizer, tive lá meus momentos de glória, mas no geral a coisa tava bem embaçada.
-       Embaçada?
-       Miada... quer dizer... sabe quando você espera uma puta festa? E você acha que vai ser o protagonista dela? E se dá conta de que aquilo tudo, aquela fantasia toda, é tudo a ostentação da decadência? E que você não aproveitou nem metade do que poderia aproveitar? Puta palhaçada...
-       Sei como é. Mas enfim, me conta...
-       Conta o quê?
-       O que você está fazendo aqui tão cedo, com essa cara de porre?
-       De porre? Você sabe que eu quase não bebo.
-       ...
-       Tô meio chateado, meio puto, meio pra baixo... tava no lugar errado e na hora errada, foi isso.
-       Por isso que você chegou aqui agora, sozinho?
-       Foi.
-       ...
-       Não devia pegar aquele atalho. Devia fazer o caminho que sempre faço. E outra: era pra eu ter ido embora faz tempo, o pessoal é que ficou insistindo pra que eu ficasse um pouco mais.
-       Que pessoal?
-       Da firma. A gente foi prum barzinho lá perto. E você sabe como é bêbado, né? Perde a noção do tempo, do espaço... “fica mais um pouco, a saideira, nhé nhé nhé”... Saí mais tarde de lá, cheguei mais cedo aqui.
(O pai começa a ficar preocupado e demonstra um interesse ainda maior) – Quer falar sobre isso?
(O filho quase começa a chorar. Com a voz meio engasgada, continua o assunto) – Não, não quero. Mas foi isso. Entrei numa rua escura... tinha tomado umas duas breja, e olha que eu nem bebo! Entrei numa rua escura, em direção ao meu carro, fui pegar a chave do bolso, tava meio breaco, meio lerdo, dificuldade de raciocínio, não percebi o movimento, aí o moleque veio pra cima de mim.
-       ??
-       Isso mesmo. Tava nervoso e tremendo o filho da puta. Pediu a chave do carro, queria que eu fosse junto, não sabia se ia no volante ou na carona, foi tudo muito confuso...
-       ...
-       Aí ele desistiu, começou a falar gíria, tava noiado o bostinha...
-       Mas o que ele queria de verdade?
-       EU NÃO SEI! Hoje em dia esses bandidos não são muito claros. (Com voz ensaiada, em tom de desprezo) “A bolsa ou a vida”... Lembra dessa frase manjada? Pelo menos ali tinha um objetivo muito claro, muito específico. Hoje você fica meio sem entender se o carinha quer sua grana, seu carro, seu celular, se vai fazer sequestro-relâmpago pra dar rolê em caixa eletrônico... uma bosta.
-       Uma bosta.
-       E com tanta tecnologia, rastreador, qualquer gesto em falso o neguinho acha que é reação. Às vezes eles atiram só porque acham que você tem cara de trouxa. A raiva é tão grande que mesmo você entregando tudo eles atiram pra matar. Sabem que não vai acontecer nada com eles...
-       Mas você entregou o que eles pediram?
-       Claro! Eles não, ELE. Preto safado, filho duma égua. Tava tão cheirado que nem prestou atenção direito no que eu tava fazendo. Achou que eu ia tirar uma arma do bolso, pode? Deu um tiro, depois mais dois pra garantir. E cá estou eu, na companhia do senhor.
-       Nem sei o que dizer, meu filho. Tô morrendo de saudades de todos vocês, mas por outro lado eu queria que você ficasse muito mais lá.
-       “Lá”, tsã... LÁ tá uma merda, pai. Cê nem faz ideia de como aquele mundinho tá ruim. Piorou muito...
-       E como tá a mãe?
-       Arrasada, né... pra ela o mundo acabou. Primeiro você, agora eu, ela tá BEM sem chão...
-       E como foi o enterro? Tinha muita gente?
-       Enterro nada. Preferi fazer que nem o senhor: cremado! Sem burocracia, sem taxa de manutenção, sem aquela encheção de saco que foi o enterro da vó. Não quero nem ocupar espaço nesse mundo de merda que eu deixo pra trás. Joguem minhas cinzas ao mar, perto de uma árvore, na Galeria do Rock, na puta que pariu.
-       Tava cheio?
-       Olha, sabe como é, né? Rolou aquela comoção geral, Facebook, post atrás de post e o caralho... até saiu notinha na imprensa... mais por causa do lance da violência urbana do que pelo legado que deixo. Foi um chororô virtual que o senhor não faz ideia. Mas no crematório mesmo, cheeeeio, cheio, não tava. Tava o tio, a família, alguns parentes que a gente só encontra em ocasiões especiais, mas poucos amigos, pouca gente. Tudo meio em cima da hora, vai ver o pessoal não foi por causa dos compromissos, da correria, sei lá... Mas também, foda-se. Até porque aquilo é uma salinha pra choro, não um buffet de bar-mitzvah.
Risos.
-       E a namorada?
-       Tô namorando não, terminei. Não sei se ela ficou sabendo disso tudo. Se bem que eu acho que morri pra ela faz tempo. Caguei pra ela.
-       Mas me conta: você tava envolvido com drogas?
-       Que pergunta, pai! Eu até dei uns tapas de vez em quando, uma cheiradinha básica, doce uma vez numa rave, mas eu não era disso não. Olha, o lance do trombadinha no carro foi ACIDENTE! Ele quis a grana, se desesperou e PIMBA! Tem nada a ver com acerto de contas. Nunca fui muito chegado a drogas. Na facu me ofereciam direto...
-       E você era feliz?
-       Que pergunta... mas tá certo, agora a gente tem todo o tempo do mundo pra conversar. Pode perguntar o que quiser.
-       Filho, aqui o conceito de tempo e espaço é um pouco diferente. Não existe “esperar um tempão” ou “eternidade”. Passamos pra outra dimensão, com outras grandezas, err... matemáticas, cósmicas, sei lá. Também não sei se a gente vai conseguir se ver direto. Capaz de um de nós desaparecer. Mas você tem razão, podemos conversar sobre tudo aquilo que não conversamos enquanto a gente vivia.
-       Putz, você não tem noção de como eu me arrependo disso. Sempre achei que era melhor não tocar no assunto, que teríamos um dia só pra botar a conversa em dia, mas no fundo eu sabia que esse dia nunca ia chegar. Acho que era medo, insegurança, sei lá...
-       A gente brigava muito também.
-       É, a gente brigava muito. Você é muito difícil e eu tenho um gênio filho da puta, fala sério...
-       É, mas agora a gente pode fazer a coisa diferente. Então me conta, por que você terminou o namoro?
-       Terminei porque a gente pensava diferente sobre muitas coisas. O relacionamento estava murchando, ela era muito ciumenta. Só pra você ter uma ideia, teve um dia que ela...

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Regimes de governo 2

Lendo e relendo o blog, achei este texto e resolvi dar uma pequena atualizada.

Capitalismo político: você tinha 6 vacas mas, depois de 4 anos no poder, aumentou seu patrimônio para 11.950 vacas.
Capitalismo compulsório: a cada vaca vendida ou comprada, você deve pagar 0,39% de contribuição bovina provisória. Vamos acabar com a febre aftosa do país.
Capitalismo tributário: você tem 870 vacas, mas só declara 11.
Capitalismo orwelliano: você tem 4 vacas que, no momento, estão confinadas na fazenda de um reality show esperando convite pra posar nuas pra revista Globo Rural.
Capitalismo sustentável: você tem 1 vaca, só que tem que esconder do Ibama porque o peido dela polui o ar.
Capitalismo aplicativo: você tem 3 vacas. 2 delas lhe enviaram solicitação para jogar Candy Crush.
Capitalismo instagramiano: você tem 3 vacas: uma sépia, uma sem cabeça e outra fora de foco.
Capitalismo smartphoniano: você acessa 1 vaca de 114 funções e não sabe o que fazer com ela.
Capitalismo vintage: você tem 2 vacas. Que, apenas por uma questão de coincidência, seu pelo é preto-e-branco.
Capitalismo alfandegário: você comprou 3 vacas pelo ebay: uma veio com 3 patas, uma não dá leite e outra ficou bloqueada na cerca.
Capitalismo virtual: você tem um ícone de um quadrúpede malhado em sua máquina. Crie um avatar de rosto, baixe o aplicativo que forneça leite, faça o download pago de escolha de raças e pronto: imagine que isso seja uma vaca.
Capitalismo Lula: você tem 408 vacas, mas jura que não sabia de nada.
Capitalismo selfie: eu tenho a vaca mais bonita do mundo. Quer ver? Quer curtir? Quer compartilhar?
Capitalismo bullying: você tem 2 vacas que todo dia voltam chorando pra casa porque são chamadas de putas.
Capitalismo Four Square: você tem 4 vacas que, no momento, estão na Starbucks do Shopping Eldorado.
Capitalismo classe-média: você tem 5 vacas que marcaram viagem pra Buenos Aires pela CVC nas férias de fim de ano.
Capitalismo novo-rico: você tem 4 vacas que produzem muzzarela de búfala.
Capitalismo feminista: você tem 6 vacas. Todas elas querem tomar o lugar do touro na Festa do Peão de Barretos.

Capitalismo politicamente correto: você tem 6 ruminantes bovinos veganos provedores de leite.
Capitalismo emergente: você tem 1 vaca. Que será a presidente da Feira de Agronegócios deste ano.
Capitalismo folclórico: você tem um trio de vacas que, antes de dormir, cantam “Boi, boi, boi... boi da cara preta...”

Capitalismo linguístico: você tem 10 vacas que reivindicam no Congresso a extinção do termo “a vaca foi pro brejo”.
Capitalismo selvagem: você tem 5 vacas. Com este patrimônio, já dá pra abrir uma microempresa de rodízio de carnes.

Capitalismo azarado: você tem apenas 1 vaca. E consegue pisar na merda dela todo dia.
Capitalismo nerd: você tem 5 X 10 -1 + (4 X 60 – 3) - 2 mamíferos artiodáctilos, com par de chifres não ramificados, ocos e permanentes, do gênero Bos taurus, sitos em pastos rupestres.
Capitalismo qualificado: você tem 17 vacas. Todas elas foram furtadas da Cow Parade da Av. Paulista.
Capitalismo petrolífero: com base num laudo inconsistente e equivocado, você pagou R$ 80 milhões por uma vaca obsoleta que não produz leite, tem carne dura e não vai dar couro.

Capitalismo funcionário público: você tem 6 vacas. Faz quase 2 meses que elas pararam de dar leite porque reivindicam aumento de 50% no vale-pasto.
Capitalismo afrodescendente: você tem 4 vacas, brancas, com 30% do corpo manchado de pintas escuras graças ao sistema de cotas.
Capitalismo industrial: você tem 15 mil caixinhas de leite longa-vida e nunca viu uma vaca.
Capitalismo fashion: você tem 2 vacas. Uma delas veste o sino Prada e outra tem piercing nas tetas.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Ninfomaníaca

Nós, da imprensa, temos o dever de olhar para o mercado cinematográfico. Não podemos alimentar a crítica esquizofrênica, pois o trabalho crítico só funciona quando se estabelece uma relação entre o público e a arte. Por outro lado, é inaceitável conduzirmos nossas pautas única e exclusivamente de acordo com o que as ditribuidoras regem, seus interesses, suas estratégias mercadológicas e seus olhos voltados a números de bilheteria. Para que nosso trabalho não seja considerado "vendido" (e olha que esse risco é iminente), mesmo eventualmente falando mal de algum lançamento que teve larga divulgação, temos a obrigação de procurar um denominador comum e encontrar um meio-termo que esteja em sintonia com as, digamos, tendências de consumo, mas ao mesmo tempo acrescente algo de positivo e de construtivo tendo em vista que nosso constante objeto de análise e reflexão é a arte. Temos que ter a clareza de que nossa função é fazer uma cobertura para veículos de comunicação, sejam eles grandes, médios ou minúsculos, mas não podemos abrir mão do impulso onírico e utópico (e, por que não dizer, prazeroso) de elaborar artigos que funcionem como manifestos de resistência, levando-se em consideração as formas de expressão do indivíduo em primenro plano.
Sendo assim, é com muito pesar, indignação e tristeza que vejo que o tão aguardado filme Ninfomaníaca estreou timidamente em São Paulo, ocupando pouco mais de 20 horários no total da grade de programação, se considerarmos que determinadas salas consideradas do circuito "de arte" colocaram o obra apenas numa única sessão.
Não dá pra se aceitar como justificativa de quem determina o que devemos e o que não devemos assistir que essa época é recheada de lançamentos. Não é o caso. Não dá mais para aceitarmos como desculpa a falta de locais para exibição. Este filme, ainda que controverso e polêmico (ou talvez justamente por isso), teve uma ótima repercussão na mídia, pelo menos quantitativamente, e um eficiente trabalho nas redes sociais, algo que mistura o boca-a-boca e o marketing viral. Entretanto, ver tal obra perder, em quantidade de cópias, para filmes "menores" e cinematograficamente inexpressivos, como Ajuste de Contas, Confissões de Adolescente, De Repente Pai e Atividade Paranormal, nos cai como um tapa na cara, uma comprovação de desprezo pelo nosso labor.
Fazer a publicidade com menos recursos é algo que exige maiores esforços e mais criatividade, em todas as esferas, em qualquer lugar do mundo. Que a briga é injusta e desleal, isso é fato. Resta agora torcer para que a arte não saia no prejuízo. Muito menos o espectador.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Ócio

Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio. Ócio.Ócio. Ócio. Ódio.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013

Não sou muito de fazer listas, por diversos motivos. Mas tenho visto várias delas por aí, de diversos assuntos, e acho que isso me inspirou a criar a minha. Trata-se de uma lista geral, sem critérios muito definidos ou ordem de preferência, muito menos escala de valores. Este compêndio mistura fatos globais e percepções individuais e subjetivas, com temas de maior ou menor relevância. Como toda lista, tem as unanimidades, as obviedades e, é claro, as polêmicas. Como ela se concretizou por meio de um exercício de memória, lógico que muita coisa ficou faltando. Mas vamos lá. Acho que lista não serve pra muita coisa, a não ser pro leitor pensar consigo "putz, é mesmo" ou conhecer um pouco mais de mim.

Brilhou:
O Som ao Redor, Bruce Springsteen, Black Sabbath, teatro Ecum, Joaquim Barbosa, Porta dos Fundos, Haneke, Woody Allen, povo nas ruas, Omelete, Nelson Porto, Head & Shoulders, anticonsumistas, Placebo, Cine Joia, Genoíno e Dirceu na cadeia, Candy Crush, Mostra de Cinema, novo namoro, Europa Filmes, Tarantino, Sorrentino.

Nem cheirou, nem fedeu:
Novos abrigos de paradas de ônibus, hambúrguer gourmet, festivais de música, documentários brasileiros lançados em circuito, Queens of the Stone Age, Agora é Tarde, projeção digital, salas VIP de cinema, iPhone 5, volta da MTV, guarani-kaiowá no Facebook, ligeiríssima queda dos valores imobiliários, Fábio Porchat, nova Coca Light, Augusta X Paulista como novo point hippie.

Fodeu:
Fluminense, PIBinho, Maracanã, trensalão, tomate, black blocks, comédias brasileiras, Franz Ferdinand, Anitta, azeite extra virgem, caos nas linhas de trem, Haddad, Paul Walker, cachorros de laboratório, morte do meu pai, inflação, pré-sal, morte de Ruy Mesquita e Roberto Civita (e consequentes demissões em massa nas redações), Naldo, funk ostentação, déficit comercial, término do novo namoro, Imagem Filmes, cabine de imprensa de Homem de Ferro 3, e-books.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Mix

Tatuagem, Azul é a Cor Mais Quente, Além da Fronteira e Um Estranho no Lago. Estão em cartaz quatro filmes com temática gay (homoerótica, GLBT, homossexual, como queiram...). Ao que tudo indica, trata-se de lançamentos que em nada espelham oportunismos de mercado, pois a famosa Parada GLBT ainda está longe de acontecer e, nesta época cristã de festividades, o assunto em questão não é dos mais apropriados para reunir a família, convencionalmente falando. Talvez seja apenas uma feliz coincidência: estes filmes, badalados em festivais recentes, aqui e lá fora (inclusive o Mix Brasil, especializado em títulos pertencentes a esse segmento), provavelmente estão com os prazos de validade pra vencer, no que diz respeito a questões contratuais, e precisaram, em tom emergencial, ser imediatamente desovados no circuito comercial. Hipóteses à parte, o fato é que o cinéfilo das metrópoles pode apreciar quatro bons trabalhos que colocam a homossexualidade não como um tabu, mas uma questão presente no dia a dia da sociedade moderna. São exercícios que não só projetam os conflitos gays, mas posicionam-se acima deles e, de longe, extrapolam os filmes de gueto, filmes de reduto, feitos por homossexuais e voltados para eles mesmos. Aqui, os exemplos colocam o assunto numa percepção que rompe com os seus limites, mas esse não é necessariamente o seu propósito. Ainda que suscitem discussões quanto aos exageros e aos olhares demasiadamente explícitos em sua demorada observação (e aí as fronteiras e os critérios variam de olhar para olhar), e ainda bem que provocam isso, o quarteto nos traz, de um modo geral, um resultado que traduz avanços estéticos e linguísticos. Há quem entenda que ali está um visível e notório esforço de se fazer “filme pra chocar, por chocar”, em alguns casos, e não condeno essa postura crítica, mas eu acredito que existe uma intenção mais forte e mais orgânica, inerente e fundamental a seus roteiros, e o “chocante” não está ali apenas como um epidérmico papel de parede para embelezar questões polêmicas. Tatuagem tem um tom libertário, funciona quase que como um esporro social, um jorro estético e político que confronta o conservadorismo da ditadura. Azul é a Cor... retrata a intimidade na sua essência, com o tempo (timing, melhor assim) necessário para que tanto as personagens quanto o espectador consigam de fato se sentir íntimos daquela situação, numa mistura contraditória de prazer e desconforto. Um Estranho no Lago é explícito por natureza, e natureza é uma palavra que não pode ser omitida em sua definição. A natureza convidativa do banho de água doce e do amor livre, junto com o incessante ruído sonoro dos insetos e dos ventos nas folhas de árvore que indicam que nem tudo está tão calmo naquela ilha paradisíaca. Já Além da Fronteira é o mais tradicional na forma, mas ainda assim traz um tema importante e faz o paralelismo entre os preconceitos sociais, ideológicos e raciais de maneira digna. Claro que nem todos esses quatro filmes estão no mesmo patamar de apreciação, mas, com certeza, estão muito acima da média de lançamentos. São trabalhos necessários, que funcionam bem mais do que uma simples opção pra se fugir das filas dos bilbos e dos elfos.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Previsões para 2014


Janeiro:
Fernando Haddad cria faixas exclusivas para carrinhos de compras em feiras e supermercados. Nelas, é proibido circular pirralhos, idosos e cachorros.
Sem muito o que fazer, Congresso Nacional cria internamente o Bolão do Oscar. Prêmio dos parlamentares contemplados sairá dos recursos da Previdência.
Protestos de manifestantes acabam em confronto com a polícia. Depois de sair na capa da revista Época, líder feminina do grupo Black Block sai na Playboy. De máscara, é claro.
Fevereiro:
Cansado de não fazer absolutamente nada, Congresso Nacional cria recesso de carnaval, que vai de sexta-feira (7 de fevereiro) até quarta-feira (19 de março).
Protestos de manifestantes acabam em confronto com a polícia. Inspirados no filme de animação “Uma História de Amor e Fúria”, black blocks quebram o braço da estátua do Cristo Redentor.
Conglomerado de emissoras de canais de TV a cabo continuam tentando criar um concorrente pro Ibope. Neste novo critério de pesquisa, serão avaliados os domicílios de pessoas que procuram canais pornográficos no meio dos chuviscos e aquelas que dormem no sofá durante a programação.
Março:
Por causa dos congestionamentos de carros na volta às aulas, Fernando Haddad determina que os ônibus só poderão circular nas avenidas Sapopemba, Juntas Provisórias, Guido Caloi e Paes de Barros. A rua Vergueiro estava nos planos iniciais, se alguém soubesse onde ela começa e onde termina.
Dilma vai a Genebra e, em seu discurso sobre sustentabilidade, faz um pronunciamento idêntico ao seu discurso de posse, ao seu discurso de repúdio aos ataques da Síria e ao discurso sobre a morte de Nelson Mandela.
Fábio Porchat escolhido para ser o garoto-propaganda dos refrigerantes Dolly.

Depois da turnê de shows pelo Brasil, o cantor islâmico Cat Stevens inicia peregrinação em busca do sentido da vida, do corpo de Eliza Samudio e do paradeiro de Belchior.
Abril:
Empresas dos festivais SWU, Lollapallooza e Rock in Rio se unem para criar um grande evento musical: uma balada riponga na esquina da Av. Paulista com a Rua Augusta. Covers de Elvis Presley e Michael Jackson já estão confirmados.
Aplicativo Candy Crush bate recorde de solicitações de vidas.
Fábio Porchat escolhido para ser o garoto-propaganda das Casas Bahia.
Maio:
No Mês das Noivas, Gretchen aparece meia-dúzia de vezes nas capas das revistas Caras e Contigo, cada uma delas com um marido diferente.
Manifestações acabam em confronto com a polícia. Black blocks quebram, incendeiam, picham, mijam e cagam no Minhocão. População paulistana nem percebe a diferença.
Com a popularidade beirando a temperatura média da Noruega, Congresso Nacional cria internamente o Bolão da Copa. Prêmio dos parlamentares contemplados sairá dos recursos da Saúde e Educação.
Junho:
Confirmado: a sequência final da trilogia “Até que a Sorte nos Separe” será dividida em duas partes e também estará disponível nos formatos 4D e Imax.
Devido aos atrasos nas obras dos estádios dos jogos da Copa do Mundo, algumas partidas serão realizadas nas quadras do colégio Caetano de Campos.
Manifestações contra as manifestações que já encheram o saco acabam em confronto com a polícia. Sílvio Santos e Eike Batista, agora pobres e comunistas, flagrados junto com os black blocks depredando o símbolo mais contundente do capitalismo: as esculturas da Monica Parade.

Coca Zero estampa em suas latinhas os nomes de artistas e personalidades que a Globo colocou na geladeira.
Julho:
Depois de retratar fielmente a viadagem que foi o Império Romano, o diretor Zack Snyder prepara a continuação dos filmes 300, 600 e 900. Os nomes mais cotados para o desfecho são Truco, Zap e Manilha.
Fábio Porchat escolhido para ser o garoto-propaganda das operadoras Tim, Oi, Claro, Vivo e qualquer merda que aparecer no ramo da telefonia.
Apple anuncia o lançamento do iPhone 6S XPTO. A principal diferença em relação ao modelo anterior, de acordo com o fabricante, é a inclusão das letras XPTO. Preço de venda nos EUA: US$ 300. Preço previsto no Brasil: a partir de R$ 6.499.
Agosto:
No mês dos dias mais frios do ano, termômetros das ruas de São Paulo marcam o crescimento do nosso PIB.
Fabricante de roupas Diesel lança modelo de calça jeans que não deforma, não tem cheiro e não solta as tiras. Preço de venda nos EUA: US$ 300. Preço previsto no Brasil: a partir de R$ 6.499.
Antecipando-se cada vez mais às tendências de consumo e ao Natal, lojistas começam a vender panetones e a tocar aquela música deprimente no interior de seus estabelecimentos.
Setembro:
Escondidos num bunker pra não levar porrada do povo, integrantes do Congresso Nacional criam internamente o I Campeonato Interestadual de Biribinha. Custos de impressão dos volantes de apostas ultrapassam R$ 20 milhões. Recursos para a jogatina sairão do Bolsa-Família.
Depois de liderarem o movimento contra as biografias não autorizadas, Chico Buarque, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Caetano Veloso se pronunciam contra o uso de minissaias e brigas de galo em piscinas. Djavan explica para a imprensa os motivos de tal postura, mas ninguém entende o que ele diz.
Fábio Porchat não é escolhido para ser o garoto-propaganda da rede de esfihas Habib’s. Para fazer a campanha de suas coxinhas, no seu lugar entra Luciano Huck.
Outubro:
Preparando-se para as eleições, Dilma inicia campanha num estilo bem retrô, prometendo trazer de volta a inflação, a moratória e os blazers com ombreiras largas.
Preparando-se para as eleições, o narcodependente Aécio Neves consegue falar 844 palavras no comercial de 30” na TV, dar 40 voltas no estúdio de gravação, beber 3,5 litros de água e cita o livro Pergunte ao Pó em seus debates.
Genoíno e Zé Dirceu iniciam rebelião em prisão ateando fogo em colchões. Maníaco do Parque, Fernandinho Beira-Mar, casal Nardoni e Louise Von Richtofdrwqweren temem que os meliantes sejam transferidos para o presídio de segurança máxima onde se encontram.
Novembro:
De um lado, o Mensalão, o Trensalão, a corrupção. De outro, Justin Bieber quebrando barraco em baile funk, Anitta se filmando no Instagram e o rapper coreano Psy lançando um novo e desengonçado hit. Luiz Felipe Pondé lança livro que faz uma analogia entre esses acontecimentos.
Tomate volta a ser o inimigo da estabilidade econômica. Para conter os gastos, donos de pizzaria substituem o ingrediente de suas massas redondas por produtos mais em conta, como camarão e azeite trufado.
Fernando Haddad aumenta IPTU em 200% e aceita iPhone, Audi e rim como parte de pagamento das dívidas.
Dezembro:
Confirmado: apesar da precariedade de sua infraestrutura, Brasil irá sediar em 2020 a Conferência dos Deuses do Olimpo.
Num gesto de modernidade, parlamentares do Congresso colam em suas cadeiras adesivos com as inscrições #Fui, #PartiuFérias e #AdoroTrabalharSóQueNão.
Chico, Gil, Caetano e o Rei miram blogueiros que fazem humor com Política e Cultura.