Naquele cardápio engordurado, no meio de opções tão óbvias quanto provolone à milanesa e batatas fritas, destacou-se a insólita Linguiça da Cristina. O boteco não foi minha primeira opção. Na verdade, tratava-se de um refúgio, um consolo após uma frustrada tentativa de encontrar algum lugar vago no concorrido concorrente. No começo, confesso ter ficado um pouco temeroso. O sugestivo nome da porção inspirou-me associações mentais das mais sórdidas e pervertidas. Mas a alegórica descrição do exótico porcino me chamou a atenção. Letras ululantes, coloridas, vívidas como o arco-íris não puderam passar despercebidas. Fiz o meu pedido.
Diante de tal aberração semântica, imaginei tratar-se de um item exclusivo do cardápio. Uma iguaria quase afrodisíaca. Uma especialidade da casa, preparada com os mais autênticos ingredientes da culinária mineira. Uma fórmula secreta, que procria pelas encardidas megalópoles do país a tradicional receita da avó e leva consigo condimentos, bafo e calor humano. Erro crasso da minha parte.
O emudecido e mal-humorado garçom trouxe à mesa uma acanhada cesta de vime, tão perdida quanto a que embalou Moisés. Difícil concluir quem era mais lacônico: o atendente em seu pálido uniforme ou as rodelas de pão francês e seus límpidos miolos. Ao contrário das expectativas geradas, a tão aguardada Linguiça da Cristina em nada lembrava aquela artesanal e avermelhada linguiça rocambolesca típica de bar. Ou quem sabe aqueles petiscos apimentados, parecidos com moedas em sua forma e em seu vício. O supostamente inédito quitute chegou embalado por murchas folhas de alface que acolchoavam aquele pedaço de frustração. Bolinhas de carne encrespadas numa oleosa farofa, tão feia quanto indigesta. Sim, a promissora Linguiça da Cristina tinha sua alma insípida.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
domingo, 21 de junho de 2015
Sábado perfeito
Sábado perfeito para passar com o namorado (do ponto de
vista feminino):
- Acordar às 9h pro dia render;
- Tomar café da manhã na cama, servido por ele;
- Beijinho na testa de sobremesa;
- Ficar 40 minutos debaixo do chuveiro, pensando na vida;
- Passar creme anti-rugas no rosto, esfoliante, creme hidratante no corpo, creme depilador nas pernas, delineador nos olhos, batom, creme revitalizante no cabelo, creme reparador de pontas, base, desodorante para axilas sensíveis, creme com ácido retinoico e protetor solar fator anti-UV;
- Experimentar as 3 blusas e os 2 pares de sapato que comprou na sexta;
- Ouvir a opinião sincera do namorado;
- Não escolher nenhum deles e vestir a roupa da semana passada;
- Ir ao shopping;
- Passar por 8 lojas e ver as novas coleções de roupa;
- Experimentar todas essas 37 roupas das novas coleções;
- Agradecer a Deus pela paciência do namorado em esperar calmamente essa experimentação, recolhendo e organizando essas roupas experimentadas do lado de fora do provador;
- Passear de mãos dadas pelo shopping, pelo parque e por aquela concorrida exposição de arte;
- Chegar em casa cansada e receber uma massagem nos pés;
- Assistir a uma comédia romântica no Netflix no sofá debaixo de um cobertor comendo pipoca e recebendo cafuné;
- Dormir na comédia romântica;
- Acordar com um presente;
- Preparar um jantar romântico junto com o namorado;
- Jantar na mesa da sala à luz de velas ouvindo Miles Davis;
- Surpreender-se com a iniciativa do namorado de lavar a louça;
- Deitar-se na cama com travesseiros fofos e lençóis perfumados;
- Ouvir uma poesia do namorado;
- Dormir com um beijo na testa.
- Acordar às 9h pro dia render;
- Tomar café da manhã na cama, servido por ele;
- Beijinho na testa de sobremesa;
- Ficar 40 minutos debaixo do chuveiro, pensando na vida;
- Passar creme anti-rugas no rosto, esfoliante, creme hidratante no corpo, creme depilador nas pernas, delineador nos olhos, batom, creme revitalizante no cabelo, creme reparador de pontas, base, desodorante para axilas sensíveis, creme com ácido retinoico e protetor solar fator anti-UV;
- Experimentar as 3 blusas e os 2 pares de sapato que comprou na sexta;
- Ouvir a opinião sincera do namorado;
- Não escolher nenhum deles e vestir a roupa da semana passada;
- Ir ao shopping;
- Passar por 8 lojas e ver as novas coleções de roupa;
- Experimentar todas essas 37 roupas das novas coleções;
- Agradecer a Deus pela paciência do namorado em esperar calmamente essa experimentação, recolhendo e organizando essas roupas experimentadas do lado de fora do provador;
- Passear de mãos dadas pelo shopping, pelo parque e por aquela concorrida exposição de arte;
- Chegar em casa cansada e receber uma massagem nos pés;
- Assistir a uma comédia romântica no Netflix no sofá debaixo de um cobertor comendo pipoca e recebendo cafuné;
- Dormir na comédia romântica;
- Acordar com um presente;
- Preparar um jantar romântico junto com o namorado;
- Jantar na mesa da sala à luz de velas ouvindo Miles Davis;
- Surpreender-se com a iniciativa do namorado de lavar a louça;
- Deitar-se na cama com travesseiros fofos e lençóis perfumados;
- Ouvir uma poesia do namorado;
- Dormir com um beijo na testa.
Sábado perfeito para passar com a namorada (do ponto de
vista masculino):
- Acordar às 11h45;
- Montar na namorada pra fazer sexo matinal... e ela não reclamar;
- Ir ao banheiro e soltar aquele barro de 40 minutos enquanto lê o caderno de Esportes;
- Tomar um banho rápido;
- Ficar no WhatsApp enquanto a namorada passa aquele monte de creme;
- Usar a camisa de ontem e agradecer a Deus por ela não estar fedida;
- Comer pão na chapa de boteco;
- Ir ao shopping;
- Olhar vitrine de smartphone enquanto a namorada passeia pelas lojas de roupas;
- Encontrar-se com a namorada somente na última loja de roupas;
- Entrar de surpresa no provador da namorada pra flagrar ela com os peitos de fora;
- Comer no Mc Donald’s;
- Voltar rápido pra casa pra dar tempo de assistir ao jogo;
- Fazer sexo no intervalo do jogo;
- Pegar uma cerveja e dormir no sofá da sala;
- Acordar com o grito de gol do Galvão Bueno;
- Ir pra cozinha... pra pegar mais uma cerveja;
- Pedir uma pizza;
- Assistir à final do UFC;
- Ir pra cama e ver a namorada fazer strip tease;
- Sexo, sexo, sexo;
- Fazer campeonato de flatos com a namorada debaixo da coberta;
- Dormir com um blow job.
- Acordar às 11h45;
- Montar na namorada pra fazer sexo matinal... e ela não reclamar;
- Ir ao banheiro e soltar aquele barro de 40 minutos enquanto lê o caderno de Esportes;
- Tomar um banho rápido;
- Ficar no WhatsApp enquanto a namorada passa aquele monte de creme;
- Usar a camisa de ontem e agradecer a Deus por ela não estar fedida;
- Comer pão na chapa de boteco;
- Ir ao shopping;
- Olhar vitrine de smartphone enquanto a namorada passeia pelas lojas de roupas;
- Encontrar-se com a namorada somente na última loja de roupas;
- Entrar de surpresa no provador da namorada pra flagrar ela com os peitos de fora;
- Comer no Mc Donald’s;
- Voltar rápido pra casa pra dar tempo de assistir ao jogo;
- Fazer sexo no intervalo do jogo;
- Pegar uma cerveja e dormir no sofá da sala;
- Acordar com o grito de gol do Galvão Bueno;
- Ir pra cozinha... pra pegar mais uma cerveja;
- Pedir uma pizza;
- Assistir à final do UFC;
- Ir pra cama e ver a namorada fazer strip tease;
- Sexo, sexo, sexo;
- Fazer campeonato de flatos com a namorada debaixo da coberta;
- Dormir com um blow job.
domingo, 7 de junho de 2015
Redes sociais
Mark conheceu Rosely pelo Tinder. Não chegou a ler seu perfil, mas clicou no coração verde por causa de uma foto de minissaia que ela exibia. Houve match. O corpo sarado de Mark na praia de Copacabana e o cabelo espetado com gel também chamaram a atenção da moça. Trocaram mensagens, cada vez mais picantes. Era a hora de saberem mais um sobre o outro.
Mark passou a Rosely seu perfil do Facebook e vice-versa. Ele, Marcos Roberto Vieira. Ela, Rosely Tagawa. 39 amigos em comum, entre eles o Rubens Ewald Perfil Lotado. E o melhor: ambos gostam de Muse e de Pulp Fiction. Passaram a se curtir cada vez mais. Nos posts diários. Rosely deu likes nos posts compartilhados por Mark: memes do Chaves, eventos do São Paulo e principais mensagens do PSDB. Mark até comentou os posts de Rosely se expondo emocionalmente para seus 417 amigos e familiares com mensagens finalizadas com "se sentindo alguma coisa". Começaram a vasculhar o perfil da pessoa virtualmente amada. Ele deu alguns likes nas fotos da viagem que ela fez pra Barcelona em 2013. Compartilhou aos seus 1.051 amigos e 19 seguidores um post em que ela reclamava do país e das filas no banco. Ela no começo relutou mas, como o amor é uma troca, também deu alguns likes nas fotos que ele postou bêbado com os amigos e sóbrio nos almoços da firma. Mark e Rosely abriam o inbox quase todos os dias e ficavam por lá durante horas saborosas e ininterruptas. Lembraram-se do Orkut, das comunidades iconograficamente representadas pelo Garfield e dos constantes "sorry, no donut for you". Trazer o passado também pode ser uma maneira eficiente de conhecer um pouco melhor o sexo oposto. Com o passar do tempo, essas horas se transformaram em minutos. As mais profundas confissões aos poucos iam se resumindo a breves e sintéticos emoticons. Quando faltava assunto, baixavam mais emoticons. Afinal, o amor precisa se renovar. E estava mais do que na hora de apimentar uma rotineira relação baseada em solicitações de vida no Candy Crush.
Trocaram Instagram. Ele, mark_mark. Ela, rosely_tagawa1988. Voltaram a curtir ainda mais a paixão que brotava em alto contraste e leves tons de sépia. Amavam perdidamente os selfies de biquinho e os desfocados pratos de comida. As hashtags #eusouocara e #curtindoavidaadoidado para eles era poesia pura. Mais fortes e menos sofridas que os sonetos românticos de Álvares de Azevedo. O fogo que arde sem se ver precisava alçar voos ainda mais altos e mais intensos.
Passaram a se seguir no Twitter. Ele, @markcavalera. Ela, @aroselydapuc. No começo, aquele ambiente de 140 caracteres e milhões de ofensas parecia um pouco estranho. Mas com o tempo foram se acostumando aos tweets das pseudocelebridades e dos perfis fake. Só que o amor pode até ser lindo no RG, mas no título eleitoral a história é outra. Rosely não se conformava com os clamores da volta da intervenção militar de Mark. Ele, em contrapartida, não podia admitir que ela pensasse que os escândalos da Petrobras foram armação da mídia direitista. A coitada começou a ver em Mark um babaca filhinho de papai só por causa de um ou outro retweet. E ele não aguentava tamanha arrogância de uma burguesinha que ia pras manifestações da Paulista registrar os protestos em seu iPhone 6. Essas divergências ideológicas transformaram-se em incompatibilidades, que se transformaram em implicâncias, que se transformaram em desaforos. Era impossível conviver com alguém que segue o Carpinejar.
Mark e Rosely, outrora magneticamente atraídos, precisavam aparar as arestas num espaço menos público. Trocaram WhatsApp. Tentaram se entender. Não conseguiram. Aqueles incessantes bipes sonoros eram o aviso de que estava pra chegar mais algum tipo de comentário maldoso, lacônico e irônico. O DR veio de uma forma cifrada e com incontáveis impropérios recheados por interrogações e exclamações. Muitos deles incompreensíveis por causa do corretor automático. Terminaram a relação, sem nunca terem se conhecido pessoalmente.
Mark passou a Rosely seu perfil do Facebook e vice-versa. Ele, Marcos Roberto Vieira. Ela, Rosely Tagawa. 39 amigos em comum, entre eles o Rubens Ewald Perfil Lotado. E o melhor: ambos gostam de Muse e de Pulp Fiction. Passaram a se curtir cada vez mais. Nos posts diários. Rosely deu likes nos posts compartilhados por Mark: memes do Chaves, eventos do São Paulo e principais mensagens do PSDB. Mark até comentou os posts de Rosely se expondo emocionalmente para seus 417 amigos e familiares com mensagens finalizadas com "se sentindo alguma coisa". Começaram a vasculhar o perfil da pessoa virtualmente amada. Ele deu alguns likes nas fotos da viagem que ela fez pra Barcelona em 2013. Compartilhou aos seus 1.051 amigos e 19 seguidores um post em que ela reclamava do país e das filas no banco. Ela no começo relutou mas, como o amor é uma troca, também deu alguns likes nas fotos que ele postou bêbado com os amigos e sóbrio nos almoços da firma. Mark e Rosely abriam o inbox quase todos os dias e ficavam por lá durante horas saborosas e ininterruptas. Lembraram-se do Orkut, das comunidades iconograficamente representadas pelo Garfield e dos constantes "sorry, no donut for you". Trazer o passado também pode ser uma maneira eficiente de conhecer um pouco melhor o sexo oposto. Com o passar do tempo, essas horas se transformaram em minutos. As mais profundas confissões aos poucos iam se resumindo a breves e sintéticos emoticons. Quando faltava assunto, baixavam mais emoticons. Afinal, o amor precisa se renovar. E estava mais do que na hora de apimentar uma rotineira relação baseada em solicitações de vida no Candy Crush.
Trocaram Instagram. Ele, mark_mark. Ela, rosely_tagawa1988. Voltaram a curtir ainda mais a paixão que brotava em alto contraste e leves tons de sépia. Amavam perdidamente os selfies de biquinho e os desfocados pratos de comida. As hashtags #eusouocara e #curtindoavidaadoidado para eles era poesia pura. Mais fortes e menos sofridas que os sonetos românticos de Álvares de Azevedo. O fogo que arde sem se ver precisava alçar voos ainda mais altos e mais intensos.
Passaram a se seguir no Twitter. Ele, @markcavalera. Ela, @aroselydapuc. No começo, aquele ambiente de 140 caracteres e milhões de ofensas parecia um pouco estranho. Mas com o tempo foram se acostumando aos tweets das pseudocelebridades e dos perfis fake. Só que o amor pode até ser lindo no RG, mas no título eleitoral a história é outra. Rosely não se conformava com os clamores da volta da intervenção militar de Mark. Ele, em contrapartida, não podia admitir que ela pensasse que os escândalos da Petrobras foram armação da mídia direitista. A coitada começou a ver em Mark um babaca filhinho de papai só por causa de um ou outro retweet. E ele não aguentava tamanha arrogância de uma burguesinha que ia pras manifestações da Paulista registrar os protestos em seu iPhone 6. Essas divergências ideológicas transformaram-se em incompatibilidades, que se transformaram em implicâncias, que se transformaram em desaforos. Era impossível conviver com alguém que segue o Carpinejar.
Mark e Rosely, outrora magneticamente atraídos, precisavam aparar as arestas num espaço menos público. Trocaram WhatsApp. Tentaram se entender. Não conseguiram. Aqueles incessantes bipes sonoros eram o aviso de que estava pra chegar mais algum tipo de comentário maldoso, lacônico e irônico. O DR veio de uma forma cifrada e com incontáveis impropérios recheados por interrogações e exclamações. Muitos deles incompreensíveis por causa do corretor automático. Terminaram a relação, sem nunca terem se conhecido pessoalmente.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
Coca-Cola
- Uma Coca, por favor. Só gelo.
Era a minha tentativa desesperada de encontrar a Vanessa. Já
rodei muitos bares, botecos, pocilgas. Comi muita coxinha amanhecida, muito
pastel engordurado, ouvi muita música sertaneja de rádio de pilha, ouvi muito
xaveco barato, e nada de achar a Vanessa. Estava quase desistindo. Nesse mundaréu
de engradados, a probabilidade de encontrar minha musa era mínima.
Veio a Carol. Ao lado de um copo que mais parecia um
iceberg, coroado por uma intrusa rodela de limão (que, quero deixar bem claro,
não foi por mim solicitada), Carol desfilava sua cintilante beleza escarlatina.
Ouviu atentamente todos os meus pensamentos, tristes e bêbados de fim de noite.
Saciou minha sede amarga da solidão. E, por mais que pudesse me proporcionar
este prazer efêmero e imediato, ela mesma percebeu que não seria capaz de me
fazer sorrir. Com seu gélido aspecto de se expressar para o mundo, pôs-se de
lado na redonda távola de madeira aparente, desejou-me boa sorte e foi
rapidamente recolhida pelo garçom de bigode em seu paletó branco e ligeiramente
suado.
- Mais uma Coca, por favor. SEM LIMÃO.
A vontade de encontrar Vanessa era insaciável. Obsessiva. Assim
como um ébrio freguês que se recusa a pagar a conta antes de sua birita
saideira, estava convicto de que não sairia daquela joça mal-acabada enquanto a
Vanessa não aparecesse em minha mesa. Estava cabisbaixo, desanimado, mas ainda
assim na esperança quase nula de encontrar a cilíndrica diva.
Veio a Suzana. Ao lado de um insípido copo sem gelo, sem
limão, mas com os fétidos fiapos que escaparam de um idoso pano de prato. Sem
os adereços transbordantes dessa translúcida louça que outrora embalou 150
gramas de requeijão, Suzana teve mais facilidade para brilhar em cena. Nada
podia ofuscar sua vivacidade líquida e negra. Suzana era linda, e os feixes de
luz da lâmpada fluorescente que recaíam sobre sua pele de alumínio faziam ela ficar
ainda mais linda. E mais calada. Sem assunto, sem troca de experiências de
vida, descartei a inexpressiva manequim.
- Amigo... ei... por favor... ei... mais uma Coca... não,
sem limão.
Será que finalmente chegaria Vanessa, atrasada como uma
noiva ao nosso encontro? Será que a mais procurada de todas faria jus a tanta
espera e tanta tristeza?
Não. Não era a Vanessa. Era a Vivi, emburrada como toda
mulher que sobra no fim de noite. Veio amarrotada, com os fundilhos levemente
amassados, sem seu lacre virginal. Antipática e nada gaseificada, Vivi me olhou
feio. Era nítido que ela não queria estar ali, preferia morrer nos depósitos
cheios de baratas. Aquela bruxa aromatizada artificialmente era a síntese de
uma madrugada fria, cinzenta e sórdida. De raiva, empurrei a sirigaita para o
chão, torcendo para que ela fosse pisoteada pelo mais afiado salto alto. E a
vontade de ver Vanessa aumentava ainda mais, mesmo com a contagem regressiva
dos ponteiros do relógio de parede daquela espelunca.
- Uma Coca. A última.
Era minha derradeira aposta. Era o ato final do meu compulsivo
vício. Aquele pedido soou como um jogo de loteria, em que as estatísticas
caminham na ordem inversamente proporcional aos sonhos. Vanessa era quase uma
súplica apoteótica. Era o único nome capaz de salvar uma tentativa de suicídio.
Estava ferozmente apaixonado por aquele substantivo. Tinha a vã esperança de que
a minha latinha venusiana pudesse emergir nos últimos momentos dessa angústia.
Vanessa não apareceu. Quem chegou no seu lugar foi o
Anderson.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Mulher
Neste meu atual momento de vida, ainda não encontrei aquela
pessoa com quem dormir de conchinha, ver um filme de mãos dadas, esbarrar a
perna (de propósito) debaixo da mesa de restaurante, dividir um sorvete de
casquinha. Aquela mulher que aceite não aceitando do jeito que sou, com minhas
manias, meus medos, meus vícios. Mulher pra debater uma peça de teatro sem cair
em chavões, ouvir opiniões sobre um livro, discutir ferozmente sobre
divergências políticas, ideológicas e lugar pra deixar a toalha molhada. Mulher
que esquece o batom no carro, esquece a carteira dentro de casa, esquece de
colocar o lixo na rua, mas nunca se esquece de você. Mulher que fica
mal-humorada de repente não mais do que de repente, mas depois pede centenas de
milhares de desculpas. Mulher sensível diante do espelho e selvagem no apagar
das luzes. Mulher que manda WhatsApp, curte seus posts no Facebook, liga de
madrugada mas sempre prefere o silêncio do olho no olho. Mulher que chora sem
saber por que e ri – também sem saber por quê. Mulher que te faz crescer e se
sentir uma pessoa melhor. Ainda não encontrei aquela mulher que, nas incertezas
aritméticas da vida, subtrai preconceitos, soma alegrias, divide angústias e multiplica
prazeres.
Mas continuo insistinder.
domingo, 28 de dezembro de 2014
Previsões 2015
Janeiro:
Antes de reassumir a Presidência, Dilma Rousseff assiste ao filme “O Discurso do Rei” quatro vezes para não gaguejar durante a cerimônia de posse.
Fernando Haddad cria faixa exclusiva para cadeirantes nas principais vias de São Paulo, principalmente ladeiras.
Crise na Economia: Luiz Sardenberg continua tendo dificuldades para manipular os gráficos no sistema touch screen do Jornal da Globo.
Antes de reassumir a Presidência, Dilma Rousseff assiste ao filme “O Discurso do Rei” quatro vezes para não gaguejar durante a cerimônia de posse.
Fernando Haddad cria faixa exclusiva para cadeirantes nas principais vias de São Paulo, principalmente ladeiras.
Crise na Economia: Luiz Sardenberg continua tendo dificuldades para manipular os gráficos no sistema touch screen do Jornal da Globo.
Fevereiro:
Depois de acompanhar as investigações dos escândalos da Operação Lava Jato, população sai às ruas durante o carnaval com máscaras de palhaço.
Geraldo Alckmin decreta luto oficial em homenagem ao volume morto do reservatório de águas da Cantareira.
Menina funkeira Geovanna entra nas Casas Bahia, sobe na mesa e destrói tudo quanto é forno micro-ondas, geladeiras e TVs LED.
Depois de acompanhar as investigações dos escândalos da Operação Lava Jato, população sai às ruas durante o carnaval com máscaras de palhaço.
Geraldo Alckmin decreta luto oficial em homenagem ao volume morto do reservatório de águas da Cantareira.
Menina funkeira Geovanna entra nas Casas Bahia, sobe na mesa e destrói tudo quanto é forno micro-ondas, geladeiras e TVs LED.
Março:
Posts impopulares e desavenças ideológicas nas mídias sociais fazem Zuckerberg criar Lone, a primeira rede antissocial da web. Botões como “ignorar”, “caguei” e “e o Kiko?” são os mais utilizados pelos usuários.
Danilo Gentilli é demitido de seu talk show por causa da queda de audiência do programa no horário. Afinal, em matéria de humor, não tem como competir com leilão de tapetes, pregações de bispo evangélico e polícia acalmando marido bêbado em favela.
Lobão encabeça passeata na Av. Paulista em prol da volta da monarquia, do ábaco e do fac-símile.
Posts impopulares e desavenças ideológicas nas mídias sociais fazem Zuckerberg criar Lone, a primeira rede antissocial da web. Botões como “ignorar”, “caguei” e “e o Kiko?” são os mais utilizados pelos usuários.
Danilo Gentilli é demitido de seu talk show por causa da queda de audiência do programa no horário. Afinal, em matéria de humor, não tem como competir com leilão de tapetes, pregações de bispo evangélico e polícia acalmando marido bêbado em favela.
Lobão encabeça passeata na Av. Paulista em prol da volta da monarquia, do ábaco e do fac-símile.
Abril:
Desempregado da vida política, Aécio Neves abre truck food de coxinha. “Difícil vai ser competir com as paletas venezuelanas do Lula”, argumenta o ex-governador.
Policiais treinados e cães farejadores cercam fazenda de Mato Grosso do Sul para encontrar destroços da queda do PIB.
Haddad cria faixa exclusiva para GLBTs e pinta as ruas com as cores do arco-íris.
Desempregado da vida política, Aécio Neves abre truck food de coxinha. “Difícil vai ser competir com as paletas venezuelanas do Lula”, argumenta o ex-governador.
Policiais treinados e cães farejadores cercam fazenda de Mato Grosso do Sul para encontrar destroços da queda do PIB.
Haddad cria faixa exclusiva para GLBTs e pinta as ruas com as cores do arco-íris.
Maio:
Inspirado no modelo brasileiro, EUA aproveitam a reaproximação com Cuba para lançar o programa More Doctors.
Competindo para ver quem fica com a namorada mais jovem, Renato Aragão, Pelé e Francisco Cuoco pedem a mão de Sasha Meneghel.
Em sua 78ª passagem pelo Brasil, integrantes da banda Megadeth explicam o eterno retorno ao país: “São as milhas que ganhamos no cartão a cada vez que compramos nossos próprios CDs, já que ninguém mais o faz”.
Inspirado no modelo brasileiro, EUA aproveitam a reaproximação com Cuba para lançar o programa More Doctors.
Competindo para ver quem fica com a namorada mais jovem, Renato Aragão, Pelé e Francisco Cuoco pedem a mão de Sasha Meneghel.
Em sua 78ª passagem pelo Brasil, integrantes da banda Megadeth explicam o eterno retorno ao país: “São as milhas que ganhamos no cartão a cada vez que compramos nossos próprios CDs, já que ninguém mais o faz”.
Junho:
Em seu amistoso contra a Alemanha após quase 1 ano da última Copa, Brasil perde por 5 X 0 e jogadores comemoram: “Foi praticamente um empate”.
Depois de Las Vegas, Lisboa, Madri e o raio que o parta, Rock in Rio passa a ser realizado no Itaquerão, com um line-up marcado pelo mais puro rock and roll: Racionais MC’s, Exaltasamba e Anitta.
Depois de escalar Dolph Lundgren, Arnold Schwarzenegger, Chuck Norris e outros pesos-pesados, Sylvester Stallone confirma a participação de um brasileiro no elenco de Mercenários 4: Tammy Gretchen.
Em seu amistoso contra a Alemanha após quase 1 ano da última Copa, Brasil perde por 5 X 0 e jogadores comemoram: “Foi praticamente um empate”.
Depois de Las Vegas, Lisboa, Madri e o raio que o parta, Rock in Rio passa a ser realizado no Itaquerão, com um line-up marcado pelo mais puro rock and roll: Racionais MC’s, Exaltasamba e Anitta.
Depois de escalar Dolph Lundgren, Arnold Schwarzenegger, Chuck Norris e outros pesos-pesados, Sylvester Stallone confirma a participação de um brasileiro no elenco de Mercenários 4: Tammy Gretchen.
Julho:
Com um corpinho de Susan Boyle e a paciência dos irmãos Gracie, apresentadora Ana Paula Padrão desiste de comandar o reality Masterchef. Palmirinha assume o comando em seu lugar – sem a faca.
Leandro Hassum lança seu quinto filme no ano, “Até que a Sorte Honesta para Casar com o Cara de Pau os Separe”. É a história de um gordo que tenta ser cômico ao se deparar em apuros quando seu... bom, é a história de um gordo que tenta ser cômico.
Fernando Haddad rompe contrato com empreiteiras e sua administração passa a ser baseada somente no uso de produtos e serviços das tintas Coral e Suvinil para a pintura de faixas exclusivas: “É só disso que São Paulo precisa”, declara o alcaide.
Com um corpinho de Susan Boyle e a paciência dos irmãos Gracie, apresentadora Ana Paula Padrão desiste de comandar o reality Masterchef. Palmirinha assume o comando em seu lugar – sem a faca.
Leandro Hassum lança seu quinto filme no ano, “Até que a Sorte Honesta para Casar com o Cara de Pau os Separe”. É a história de um gordo que tenta ser cômico ao se deparar em apuros quando seu... bom, é a história de um gordo que tenta ser cômico.
Fernando Haddad rompe contrato com empreiteiras e sua administração passa a ser baseada somente no uso de produtos e serviços das tintas Coral e Suvinil para a pintura de faixas exclusivas: “É só disso que São Paulo precisa”, declara o alcaide.
Agosto:
Comediantes fazem pesquisa no Google para tentar achar o significado de um tipo de humor bufão e arcaico, que caiu em desuso há muito tempo: stand-up comedy.
No mês do cachorro louco, usuários do Facebook entopem a rede com um monte de apelo de adoção, “fotinhas fofinhas” e vídeos “sensíveis”, causando a maior crise de diabetes entre os internautas.
Em sessão no Congresso, Jair Bolsonaro abre o zíper da calça e tenta estuprar Tiririca. “Na falta de Luciana Genro, vai você mesmo”, desabafa o parlamentar. Paulo Maluf, seu colega de casa eleito mesmo sendo procurado pela Interpol e pela CIA, adverte o companheiro: “Estupra, mas não mata”.
Comediantes fazem pesquisa no Google para tentar achar o significado de um tipo de humor bufão e arcaico, que caiu em desuso há muito tempo: stand-up comedy.
No mês do cachorro louco, usuários do Facebook entopem a rede com um monte de apelo de adoção, “fotinhas fofinhas” e vídeos “sensíveis”, causando a maior crise de diabetes entre os internautas.
Em sessão no Congresso, Jair Bolsonaro abre o zíper da calça e tenta estuprar Tiririca. “Na falta de Luciana Genro, vai você mesmo”, desabafa o parlamentar. Paulo Maluf, seu colega de casa eleito mesmo sendo procurado pela Interpol e pela CIA, adverte o companheiro: “Estupra, mas não mata”.
Setembro:
Advogado de defesa de suspeitos de ataques terroristas que ficaram presos em Guantanamo alega que eles foram submetidos ao mais cruel tipo de tortura: ouvir por meia hora a música-tema de Frozen.
Suzane Von Richtofrerertrxsen se casa, na cadeia, com José Genoíno, Zé Dirceu, doleiro Alberto Youssef, Graça Foster, Maníaco do Parque e aumenta seu patrimônio em US$ 90 milhões e 217 consoantes em seu sobrenome.
Levy Fidélix dá à luz casal de gêmeos. Pelo órgão excretor, é claro. Cartunista Laerte assume a paternidade.
Advogado de defesa de suspeitos de ataques terroristas que ficaram presos em Guantanamo alega que eles foram submetidos ao mais cruel tipo de tortura: ouvir por meia hora a música-tema de Frozen.
Suzane Von Richtofrerertrxsen se casa, na cadeia, com José Genoíno, Zé Dirceu, doleiro Alberto Youssef, Graça Foster, Maníaco do Parque e aumenta seu patrimônio em US$ 90 milhões e 217 consoantes em seu sobrenome.
Levy Fidélix dá à luz casal de gêmeos. Pelo órgão excretor, é claro. Cartunista Laerte assume a paternidade.
Outubro:
O gigante acordou. Viu que tudo continua a mesma bosta, botou o despertador pra tocar 20 minutos mais tarde e voltou a dormir.
Hackers da Coreia do Norte invadem o Sistema Nacional de Informações brasileiro e roubam informações secretas e preciosíssimas: as respostas da prova do Enem.
Governo de São Paulo inaugura mais 340 km de linhas do metrô. Um fato histórico, algo comparável às filas das exposições do CCBB.
O gigante acordou. Viu que tudo continua a mesma bosta, botou o despertador pra tocar 20 minutos mais tarde e voltou a dormir.
Hackers da Coreia do Norte invadem o Sistema Nacional de Informações brasileiro e roubam informações secretas e preciosíssimas: as respostas da prova do Enem.
Governo de São Paulo inaugura mais 340 km de linhas do metrô. Um fato histórico, algo comparável às filas das exposições do CCBB.
Novembro:
Separado de Adriana Falcão, Gregório Duvivier se casa com Mallu Magalhães, que se separa de Marcello Camelo, que se casa com Adriana... enfim, o swing se consagra como o quarteto mais chato da cultura pop brasileira.
Última parte da última parte da última parte de Jogos Vorazes ocupa 80% das salas de cinema no Brasil. Os outros 20% são dedicados ao trailer da prequência da trilogia de 7 partes.
São Paulo, a cidade mais cara do mundo, lança o primeiro festival gastronômico da gourmetização do bolovo. A iguaria, feita com massa de trigo sarraceno, ovos de perdiz e carne de antílope, chega a custar R$ 80 a unidade.
Separado de Adriana Falcão, Gregório Duvivier se casa com Mallu Magalhães, que se separa de Marcello Camelo, que se casa com Adriana... enfim, o swing se consagra como o quarteto mais chato da cultura pop brasileira.
Última parte da última parte da última parte de Jogos Vorazes ocupa 80% das salas de cinema no Brasil. Os outros 20% são dedicados ao trailer da prequência da trilogia de 7 partes.
São Paulo, a cidade mais cara do mundo, lança o primeiro festival gastronômico da gourmetização do bolovo. A iguaria, feita com massa de trigo sarraceno, ovos de perdiz e carne de antílope, chega a custar R$ 80 a unidade.
Dezembro:
Depois dos protestos anti-Dilma e dos protestos antiprotestos, manifestantes saem às ruas sem ao menos saber o motivo. “Melhor do que ficar em casa assistindo a Malhação”, afirma um deles.
Estudos apontam que a maioria dos relacionamentos hoje em dia se inicia no Tinder, intensifica-se no Instagram, começa a dar sinais de crise no Facebook e termina com um DR no Whatsapp, sem sequer o casal se conhecer pessoalmente.
Congresso Nacional triplica salário deles mesmos, reduz a jornada de trabalho para 10 horas semanais e encerra o ano trabalhando num dos projetos mais desafiadores da casa: combinar brigadeiro e chiclete no Candy Crush.
Depois dos protestos anti-Dilma e dos protestos antiprotestos, manifestantes saem às ruas sem ao menos saber o motivo. “Melhor do que ficar em casa assistindo a Malhação”, afirma um deles.
Estudos apontam que a maioria dos relacionamentos hoje em dia se inicia no Tinder, intensifica-se no Instagram, começa a dar sinais de crise no Facebook e termina com um DR no Whatsapp, sem sequer o casal se conhecer pessoalmente.
Congresso Nacional triplica salário deles mesmos, reduz a jornada de trabalho para 10 horas semanais e encerra o ano trabalhando num dos projetos mais desafiadores da casa: combinar brigadeiro e chiclete no Candy Crush.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Críticos de Cinema
Crítico tradicional: analisa o filme como uma sequência de
imagens, e não uma derivação de HQ. Espécie em extinção, com um nível de
abundância comparável aos reservatórios de água da Cantareira.
Crítico up-to-date: blogueiro, twitteiro, fanpageiro. Suas resenhas não se alongam por mais do que 140 caracteres. Seu juízo de valores vem acompanhado por uma hashtag. Sua avaliação é medida por um emoticon. Se gostou do filme, finaliza a resenha com um “like”.
Crítico up-to-date: blogueiro, twitteiro, fanpageiro. Suas resenhas não se alongam por mais do que 140 caracteres. Seu juízo de valores vem acompanhado por uma hashtag. Sua avaliação é medida por um emoticon. Se gostou do filme, finaliza a resenha com um “like”.
Crítico blasé: analisa um filme do tipo “Quero Matar Meu Chefe 2” como se fosse escrever pra Cahiers du Cinema. Não se cansa de usar termos como “contra plongée”, “diegese” e “mise-en-scéne” nas frases mais simples. Senta-se na primeira fila do cinema, ao centro, para ter uma visão simétrica e catártica do filme.
Crítico bissexto: aparece nas cabines de imprensa uma vez a cada quatro anos. E o que é pior: tem um programa semanal na mídia e discorre sobre as estreias com a maior desenvoltura.
Crítico redes sociais: é imediatista, faz a crítica ENQUANTO assiste ao filme. Nunca desliga o celular durante a projeção. Está sempre conectado no Face, Twitter, Whatsapp. Tem sempre muita coisa pra dizer para um monte de gente do mundo inteiro, ao mesmo tempo. Consultado sobre o que achou do filme, entretanto, resume-se a dizer: “maneiro”, “da hora”.
Crítico cosplay: não dá pra dizer exatamente que se trata de um “crítico”. É o sujeito que aparece fantasiado a caráter na cabine de imprensa. Ninguém sabe de onde surge o personagem temático (pois ele não frequenta as demais cabines) nem exatamente pra onde escreve, provavelmente algum blog específico, site de entretenimento. Ou é um dos integrantes do CQC, que a gente nunca guarda o nome porque o programa tá sempre mudando seu quadro de repórteres.
Crítico festival: o mais viajandão de todos. Consegue perder Jogos Vorazes, que ficará em cartaz por uns 4 meses, porque estará nos festivais e mostras da Bahia, Sergipe, Rondônia e Tocantins. Sim, existe festival de cinema em Tocantins. É um daqueles 38 brasileiros que conhecem o Acre de cabo a rabo. Geralmente é convidado para integrar o júri, fazer a curadoria e, se precisar, picotar os ingressos na entrada do cinema. Sua cidade natal transforma-se, para ele, num ponto turístico utópico. Faz questão de dizer que perdeu a pré-estreia de Interestelar porque esteve num festival de cinema da Amazônia, em que os filmes eram projetados nos reflexos das águas da pororoca de uma nascente próxima a uma reserva indígena da tribo dos Caribós.
Crítico tapete vermelho: de um modo geral, odeia ver filme. Acha um saco ter que ficar sentado no escuro por quase 2 horas. Por outro lado, “ama de paixão” ir a coletivas de imprensa, puxar o saco do elenco, falar que acompanha a carreira de todos os atores desde criancinha. Geralmente escreve para alguma revista de fofoca. Vai a todas as pré-estreias, fotografa a equipe, faz um monte de selfie com os atores e, inclusive, com os cartazes e displays do filme. Nas redes sociais, é só elogios, bafafás e tititis. Entende tudo do babado dos bastidores, mas sabe muito pouco sobre a Sétima Arte.
Crítico fila-boia: não assiste exclusivamente, mas dá grande prioridade a filmes em cabines de imprensa acompanhados por café da manhã. Vai a coletivas de imprensa por causa do brunch, mas nem sempre acompanha as tais coletivas. Frequenta as pré-estreias por causa dos coquetéis. Pode-se dizer que ele ganha o dia (e, consequentemente, o filme ganha nota máxima em sua avaliação) quando sai da sala com algum tipo de brinde ou mimo.
Crítico repentista: já vem com opinião formada pra tudo, até mesmo antes do filme começar. É o primeiro a sair da sala pra dizer pros assessores de imprensa o que achou. Mentaliza o texto que vai escrever na metade da projeção. Para ele, o ideal seria escrever mesmo sem ver o filme, pois assistir a tal obra pode interferir em seus pontos de vista.
Crítico vidente: que Mãe Dinah, que nada. Este crítico é especialista em prever o futuro. Prova disso são as frases de seu próprio texto: “As crianças vão adorar”; “Um filme que vai agradar a todos os públicos”; “Certeza de sucesso absoluto”; “Sério candidato a Oscar”, entre outras pérolas da adivinhação.
Crítico adjetivo: dispensa explicações adjetivas. Então vamos lá a um provável texto dele: “Com um roteiro bem-amarrado e uma atuação esplêndida do redivivo ator, o diretor transforma as fragilidades de uma cidade decadente num espetáculo de pura beleza, com uma fotografia irretocável que enaltece as particularidades de um povo precário. Essa espetacular sequência de magia, riqueza e encantamento seduz até mesmo o mais despreparado dos espectadores, que não fica imune ao impacto dramático de um elenco de apoio firme e consistente. Brilhante! Formidável! Obra-prima!”
Crítico major: embora o cinema esteja aos poucos mudando seus formatos e concepções, este crítico ainda é daqueles que dividem a Sétima Arte entre “filmes-cabeça” e “filmes-pipoca”. Do primeiro grupo, ele passa longe. Só vai a “cabine-evento”, em que um megaconglomerado de pessoas faz a muvuca no hall do cinema. Só escreve sobre blockbusters. Seu último filme de arte foi “Tropa de Elite”. Fica estupefato quando descobre, por meio do site Filme B, que o ano contou com mais de 400 estreias, enquanto ele jurava de pé junto que o número de lançamentos em cinema não passava de 30. Nunca ouviu falar de Marion Cotillard e acha que Ian Holm é apenas um tiozinho do Senhor dos Anéis.
Crítico spoiler: conscientemente ou não, é aquela pessoa que faz questão de contar o final do filme. Embora certas cenas sejam imprescindíveis para sua análise, ele acaba passando um pouco do limite entre o que é teaser e o que revela todo o mistério da história.
Crítico sinopse: faz uma pequena confusão entre o que é análise crítica, resenha e sinopse, este último fácil de ser consultado. Emite poucas opiniões e às vezes passa a impressão de que não viu o filme. Escreve algo do tipo: "O filme conta a história de um garoto que, após perder os pais num trágico acidente, viaja em busca do paradeiro de sua avó. No caminho, encontra uma série de tipos estranhos que mudam sua vida. Perda de tempo".
Crítico político: encontra um viés político-ideológico em toda e qualquer parte do filme: "A cena em que o marido vira de lado após o sexo com sua esposa é uma clara alusão à sua preferência política pela esquerda, onde percebemos uma tendência ao marxismo-stalinismo após ele dizer a ela 'boa noite, meu amor', como se estivesse prenunciando a chegada do movimento revolucionário na calada da noite".
Crítico pelo-em-ovo: escreve aquilo que só ele mesmo conseguiu enxergar: "A cena do homem erguendo o braço para pegar um copo d'água é uma referência velada à fase simbólica e obscura de Buñuel. Ao tomar lentamente a água, com a câmera alta num plano fechado sobre o copo, temos a nítida impressão de um mergulho no universo onírico de Tarkovski, evidentemente em sua fase mais experimental".
Crítico superlativo: discorre sobre um filme como se fosse o último. Escreve um texto como se não houvesse amanhã: "Trata-se do pior filme da década, um escorregão na carreira do diretor, o melhor e mais contundente de sua geração. Aqui, ele peca pelos seus exageros e obviedades, na escolha do elenco mais pífio da nova safra de atores. Nem parece o mesmo que realizou o mais definitivo filme sobre a Guerra do Vietnã".
Crítico Hortelino: costuma errar com frequência a grafia de sobrenomes, as datas, filmografias, troca nome de atores, confunde personagens e mistura subtítulos.
Crítico VIP: não admite ser chamado de crítico. É correspondente internacional. Mora em Los Angeles, vai a todos os festivais de Cannes, Berlim, Veneza, Toronto, Locarno. Em seu quarto, uma foto emoldurada ao lado de George Lucas. Tem o autógrafo de Helen Mirren e Jack Nicholson. Divulga informações privilegiadas que nem o IMDB é capaz de fornecer. Frequentador assíduo de junkets e sets de filmagem. Tem mais intimidade para fazer uma entrevista por telefone com a Catherine Zeta-Jones do que conversar com sua própria mãe.
Crítico multimídia: por uma questão de praticidade, identifica-se como colaborador da Veja. Mas escreve também para a Folha de São Paulo. E pro Estadão também. Tem um programa semanal na Band News e no Ronnie Von. Já escreveu diversos artigos pro Omelete, Cineclick, AdoroCinema, revista Bravo, IstoÉ Gente. Foi um dos editores da extinta revista SET. Esporadicamente, é colaborador da Cinética e da Contracampo. No começo de carreira, escreveu pras Gazetas de tudo quanto é bairro de São Paulo. Em suas horas vagas, atualiza seu blog. Sobre Cinema.
Crítico crítico: faz jus à fama da profissão. Reclama da péssima qualidade da produção atual. Reclama da Lei Rouanet. Reclama dos atrasos dos assessores de imprensa. Reclama dos colegas de profissão. Reclama de não ter recebido o press release em tempo hábil. Se o filme é bom, reclama das poltronas e do ar-condicionado da sala.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Diálogo
(Diálogo pelo celular, usando o corretor automático de
texto):
- E aí, mano? Tudo em rima?
- Baliza.
- Vamos sair há?
- Demoro. Onde?
- Tem o Acareação, o Prematuro e o Adivinho.
- Que tal uma brecha?
- Então veia no Grito.
- Onde fica?
- Rua Aperfeiçoamento, perto do Dom Baqueta.
- Fechado.
- Até mais. Abre.
- Bitola.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Cabelos
Eis que ela surge do nada, encosta-se no banco ao meu lado
e começa a mexer seus longos e escuros cabelos. Prende uma mecha com a mão
esquerda e deixa aparecer a discreta tatuagem cravada na nuca. Um símbolo
azulado da Antiguidade egípcia que pinta a morenice brejeira de sua pele. Seus
dedos obsessivos desfiam pedaços emaranhados de suas madeixas e aproximam essa diminuta
crina ao seu nariz. Evidente que se trata de uma busca sinestésica pelo prazer
homérico. Cheirar os cabelos, comer os cabelos... De fato, aqueles fios sedosos
eram de abrir o apetite. À medida que se contorcem nos vãos dos seus dedos
magros, exalam uma essência primitiva de sua fórmula frutífera. Uma combinação
harmônica de castanhas, cupuaçu e coco, muito coco. A lufada de aromas
tupiniquins revoantes da Iracema do século 21 domina as cercanias do ambiente.
Não teve jeito. A estufa amazônica de inebriantes perfumes arbóreos oriundos das melenas
azeviches da musa na sua mais perfeita escultura desperta em mim um instinto
indígena. Fito-a me sentindo um selvagem, o mais selvagem daquela arquitetura
de granitos urbanos.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Desculpas
Respostas automáticas e padronizadas para usar em qualquer situação, de qualquer ramo de atividade, sem precisar ter a mínima ideia do que está acontecendo:
- Lamentamos o ocorrido. Iremos tomar todas as providências necessárias.
- Nosso produtos e serviços seguem rigorosamente os mais exigentes padrões e processos de qualidade. Iremos verificar o fato, que foge completamente da nossa conduta adotada.
- Iremos realizar os ajustes e adequações necessários o mais breve possível.
- Nossa empresa prima pela excelência em qualidade. Entretanto, houve uma falha técnica no sistema no dia da apuração do fato, um caso atípico e que não condiz com nossos padrões.
- Nossa equipe é constantemente treinada e capacitada para oferecer os melhores serviços e um atendimento personalizado. O comportamento deste funcionário citado não reflete nossa postura. Iremos fazer uma nova avaliação e oferecer a orientação adequada ao colaborador.
- Nossa empresa dispõe de uma equipe devidamente preparada para agir em situações de emergência. Entretanto, um motivo de força maior obrigou-nos a adotar medidas que fugiram do nosso controle. Lamentamos o ocorrido e contamos com a sua compreensão.
- Nosso estabelecimento possui uma completa infraestrutura e nosso sistema foi recentemente reestruturado para atender nossos clientes com mais agilidade. Iremos apurar eventuais falhas e tomar as devidas providências para que possamos prezar a nossa boa imagem em relação à qualidade e rapidez de nossos serviços.
- Lamentamos o ocorrido. Iremos tomar todas as providências necessárias.
- Nosso produtos e serviços seguem rigorosamente os mais exigentes padrões e processos de qualidade. Iremos verificar o fato, que foge completamente da nossa conduta adotada.
- Iremos realizar os ajustes e adequações necessários o mais breve possível.
- Nossa empresa prima pela excelência em qualidade. Entretanto, houve uma falha técnica no sistema no dia da apuração do fato, um caso atípico e que não condiz com nossos padrões.
- Nossa equipe é constantemente treinada e capacitada para oferecer os melhores serviços e um atendimento personalizado. O comportamento deste funcionário citado não reflete nossa postura. Iremos fazer uma nova avaliação e oferecer a orientação adequada ao colaborador.
- Nossa empresa dispõe de uma equipe devidamente preparada para agir em situações de emergência. Entretanto, um motivo de força maior obrigou-nos a adotar medidas que fugiram do nosso controle. Lamentamos o ocorrido e contamos com a sua compreensão.
- Nosso estabelecimento possui uma completa infraestrutura e nosso sistema foi recentemente reestruturado para atender nossos clientes com mais agilidade. Iremos apurar eventuais falhas e tomar as devidas providências para que possamos prezar a nossa boa imagem em relação à qualidade e rapidez de nossos serviços.
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