sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Expressões

As expressões do dia a dia e seu verdadeiro significado.
Quando você ouve:
“Vamos conversar?” de sua namorada, isso quer dizer “estou carente e você não me dá atenção”.
“Vamos conversar” de sua namorada, isso quer dizer “estou terminando com você”.
“Tem um minutinho?” de seu chefe, isso significa “vou te demitir”.
“Só um minutinho” do atendente de telemarketing da empresa para a qual você ligou, pode esperar no mínimo 45 minutinhos.
“Um minutinho da sua atenção” de um cara na rua com um monte de folhetos, ele quer dizer “vou te encher muito o saco pra você comprar alguma coisa de mim”.
“Talvez” em um evento que você criou no Facebook, isso significa “não vou nem que a vaca tussa”.
“Aparece lá em casa” de um amigo que você encontra na rua e não vê faz tempo, no fundo ele tá pensando “tomara que ele não me procure”.
“99379-8866” de uma gata que você acabou de conhecer na balada, a verdadeira resposta seria “98723-4552”.
“Vamos marcar um almoço” de um ex-colega de trabalho que você encontra na rua, ele no fundo está pensando “como é mesmo o nome desse cara?”.
“E como é que tá lá?” desse mesmo ex-colega que você encontra: “meu emprego tá uma bosta e eu to louco pra sair. Me indica onde você tá trabalhando”.
“Não, não precisa” de sua namorada: “se você não fizer isso que eu tô pedindo eu te mato!”.
“E aí cara, blz?” inbox no Facebook de um amigo que não vê faz muito tempo: “estou desempregado”.
“Adorei te conhecer” de uma pessoa que você conheceu pelas redes sociais: “nunca mais me procure”.
“Só tô dando uma olhadinha” de um cara ao seu lado quando é abordado por uma vendedora de loja: “não vou comprar nada, não me encha o saco”.
“Tá na promoção” dessa vendedora de loja: “é caro pra caralho, trouxa”.
“Não, não quero” da namorada com quem você está há 2 meses: “me come, me come agora”.
“Não, não quero” da namorada com quem você está há 2 anos: “não, não quero”.


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Não aguento mais

Eu não aguento mais o Facebook e sua seletividade suspeita. Xiitas e sectários divididos em guetos, berrando seu ódio como se fosse a mais legítima forma de expressar suas convicções ideológicas.
Eu não aguento mais o Instagram. Pessoas felizes, em viagens felizes, comendo comidas felizes, adotando cachorrinhos mais felizes ainda. O Prozac das redes sociais. Aqui não tem lugar para conflitos internos nem crises de depressão.
Eu não aguento mais o rock atual. Sem peso, sem vida, sem coragem de criar, com menos coragem ainda de copiar bem copiado. Nos anos 70 a gente tinha Rolling Stones e Led Zeppelin. Hoje, a gente se contenta com Tame Impala e Fleet Foxes.
Eu não aguento mais o governo brasileiro, que prometeu o Fome Zero, enterrou o PAC e agora tem dificuldade até para pagar o adiantamento do 13º aos aposentados e pensionistas.
Eu não aguento mais o dólar, esse sim o gigante que acordou. Hibernou por mais de uma década, fodeu as exportações, e agora resolveu escalar montanhas a passos largos, bem na época em que mais brasileiros pensam em morar no exterior.
Eu não aguento mais pasta de dente, que tem o cálcio, o flúor e a menta pra disfarçar o gosto amargo da manhã.
Eu não aguento mais o menos é mais. Menos é menos. Se discorda de mim, vá procurar o sentido da expressão inutilia truncat. Tem gente que confunde concisão de ideias com castração de estilos.
Eu não aguento mais os rappers, que cantam músicas de protesto com suas correntes de ouro.
Eu não aguento mais a Publicidade, que exige da gente costurar novas roupagens para velhos problemas.
Eu não aguento mais o PT. Por motivos mais do que óbvios.
Eu não aguento mais o PSDB. Por motivos mais do que óbvios.
Eu não aguento mais o Tinder, que nos oferece sugestões de comer como se fosse um cardápio, e nos permite passar o dedo sobre o rosto das mulheres como se estivéssemos virando as páginas do próprio.
Eu não aguento mais o Haddad, aquele prefeito-gato megalomaníaco, que, num ato súbito e inconsequente, resolveu borrar de batom vermelho os lábios viários de São Paulo, como se essa fosse a única solução urbana possível.
Eu não aguento mais o Pânico. Nunca aguentei.
Eu não aguento mais o Porta dos Fundos, a divertida e aguardada panaceia da sociedade, que vem substituindo a acidez crítica pela gratuidade do humor cinza.
Eu não aguento mais os shopping centers, obeliscos esquizofrênicos do consumo, cativeiros clonados da gastança mais do que desnecessária.
Eu não aguento mais sertanejo universitário. Ponto.
Eu não aguento mais o WhatsApp, cocaína cibernética que faz as pessoas digitarem cada vez mais e conversarem cada vez menos.
Eu não aguento mais a gourmetização do nada.
Eu não aguento mais os blind dates. Junto com eles me vem à cabeça a música Construção (Chico Buarque): olhar para aquela mulher à sua frente como se fosse a última, falar com aquela mulher à sua frente como se fosse a única e, após levar um estrondoso fora daquela mulher à sua frente, morrer na contramão atrapalhando o tráfego.
Eu não aguento mais tomar Coca-Cola, meu único vício. E, como todo vício que se preze, causa ou potencializa a obesidade, a diabetes, a hipertensão e a tosse de refluxo. Sim, eu tive tosse de refluxo, a doença da moda.
Eu não aguento mais o #sóquenão. Só que sim.
Eu não aguento mais o miserável ser chamado de pobre e o pobre ser chamado de classe média.
Eu não aguento mais tomar banho de conta-gotas.
Eu não aguento mais a molecada que nunca passou Merthiolate que arde.
Eu não aguento mais gente que te insulta, te despreza, te arrasa e se despede de você falando "um abraço".
Eu não aguento mais mimimi de quem faz piadinha com mimimi.
Eu não aguento mais tentar resolver minha vida com aplicativos.
Eu não aguento mais segregar pessoas com área VIP.
Eu não aguento mais a ostentação do lixo.
Eu não aguento mais a Geração Y, mas não adianta explicar o motivo porque eles não vão entender.
Eu não aguento mais o Big Brother. Ainda bem que ninguém mais aguenta.
Eu não aguento mais a Polícia, que faz chacina em Osasco, sai matando favelado do Rio, mas consegue prender apenas menos de 10% dos criminosos, gerando a maior crise de insegurança da população.
Eu não aguento mais a China, que cria um colapso financeiro mundial porque tem previsões de crescer “apenas” 7% ao ano.
Eu não aguento mais a corrupção, responsável direta pela nossa pobreza de recursos e de caráter.
Eu não aguento mais viver num dos períodos mais incertos da nossa história.
Eu não aguento mais os manifestantes da Av. Paulista, que gritam por avanços e provocam atrasos.
Eu não aguento mais as empresas de telefonia móvel, uma das piores e mais caras do mundo. Isso também vale para os planos de saúde.
Eu não aguento mais a moda retrô, porque quando você vai usar alguma coisa retrô, continua fora de moda.
Eu não aguento mais a bancada política evangélica.
Eu não aguento mais o Estado Islâmico.
Eu não aguento mais a Veja, muito menos quem fala mal dela.
Eu não aguento mais viver num país com baixo IDH e índice de qualidade de vida apenas mediano.
Eu não aguento mais as piadas rasteiras do stand-up comedy.
Eu não aguento mais o outro, uma muralha de incógnitas, que te abraça e te repele com a mesma frequência e intensidade.
Mas, pra falar a verdade, acima de tudo, tenho a leve desconfiança de que não aguento mais a mim mesmo.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Noite

A sala era escura. Aquele ar sombrio contrastava com a parede azul-celeste e suas leves manchas de mofo. Alguns espelhos colados na superfície lateral do prostíbulo mostravam quem entrava e quem saía daquele lupanar. Eles faziam par com alguns pôsteres da Marilyn Monroe, Brigitte Bardot e alguma desconhecida que posou para a Playboy nos anos 70. Um ventilador de teto funcionava bem devagarinho, não dava conta de suavizar o calor infernal daquela data. De vez em quando engasgava, parava e logo voltava a funcionar. Uma máquina jukebox movida a fichas tortas tocava o hit da Anitta, num volume sonoro beirando o insuportável.

Robson estava ali, quietinho, no canto mais escuro ainda, observando o ambiente. Tomou apenas uma latinha de cerveja, que ficava esquentando em sua mão durante longos minutos. Diante de seus olhos quase adormecidos passavam pernas magras, pernas brancas, seios fartos, seios siliconados, nádegas opulentas, biquínis fora de moda, cabelos oxigenados, pescoços morenos, cabelos curtos, tudo o que se podia imaginar do universo feminino. Como se estivesse num zoológico, espreitava atentamente, num misto de sede e curiosidade, a diversidade étnica da espécie humana. Até chegar sua musa preferida, estava ali analisando os modelos de carne expostos na sorumbática vitrine. Fitou a loira mais calada da noite e dirigiu-se a ela.
- Oi. Tudo bem?
- Tudo. Conhece o esquema da casa?
- Sim.
- Pagamento adiantado. Vamos lá esquentar um pouquinho?
- Vamos. Mas antes, qual é o seu nome?
- Jéssica.

A moçoila da vida foi até o balcão, pegou seu kit com toalha e nécessaire e, de mãos dadas, conduziu o inepto jovem ao mais recôndito quarto. Dentro do quarto, tirou a roupa em questão de segundos, ajudou o jovem a tirar a roupa dele, deitou-o na cama e e começou a fazer uma breve massagem em seu peito. Abriu sua bolsa, pegou um preservativo e lançou-se ao sexo oral.
Com uma cara de safada impossível de disfarçar, olhou pra cima e foi subindo. Montou suas coxas sobre o poste ereto do mancebo e começou a cavalgar. Num gesto automático, virou-se de costas para o rapaz, empinando suas nádegas.

Robson apertou o corpo de Jéssica para si e começou o trote. Cada vez mais rápido. Puxou os cabelos da sirigaita, o que a fez lançar alguns descontrolados gemidos. Jéssica virou-se de frente para Robson, no intuito de finalizar o ato épico de modo convencional. Cada vez mais ofegantes, ele se aproximou do rosto de Jéssica, tentou dar um beijo, mas ela o repreendeu:
- Beijo na boca não, gato. Não faço esse tipo de intimidade.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

A linguiça da Cristina

Naquele cardápio engordurado, no meio de opções tão óbvias quanto provolone à milanesa e batatas fritas, destacou-se a insólita Linguiça da Cristina. O boteco não foi minha primeira opção. Na verdade, tratava-se de um refúgio, um consolo após uma frustrada tentativa de encontrar algum lugar vago no concorrido concorrente. No começo, confesso ter ficado um pouco temeroso. O sugestivo nome da porção inspirou-me associações mentais das mais sórdidas e pervertidas. Mas a alegórica descrição do exótico porcino me chamou a atenção. Letras ululantes, coloridas, vívidas como o arco-íris não puderam passar despercebidas. Fiz o meu pedido.

Diante de tal aberração semântica, imaginei tratar-se de um item exclusivo do cardápio. Uma iguaria quase afrodisíaca. Uma especialidade da casa, preparada com os mais autênticos ingredientes da culinária mineira. Uma fórmula secreta, que procria pelas encardidas megalópoles do país a tradicional receita da avó e leva consigo condimentos, bafo e calor humano. Erro crasso da minha parte.

O emudecido e mal-humorado garçom trouxe à mesa uma acanhada cesta de vime, tão perdida quanto a que embalou Moisés. Difícil concluir quem era mais lacônico: o atendente em seu pálido uniforme ou as rodelas de pão francês e seus límpidos miolos. Ao contrário das expectativas geradas, a tão aguardada Linguiça da Cristina em nada lembrava aquela artesanal e avermelhada linguiça rocambolesca típica de bar. Ou quem sabe aqueles petiscos apimentados, parecidos com moedas em sua forma e em seu vício. O supostamente inédito quitute chegou embalado por murchas folhas de alface que acolchoavam aquele pedaço de frustração. Bolinhas de carne encrespadas numa oleosa farofa, tão feia quanto indigesta. Sim, a promissora Linguiça da Cristina tinha sua alma insípida.

domingo, 21 de junho de 2015

Sábado perfeito

Sábado perfeito para passar com o namorado (do ponto de vista feminino):
- Acordar às 9h pro dia render;
- Tomar café da manhã na cama, servido por ele;
- Beijinho na testa de sobremesa;
- Ficar 40 minutos debaixo do chuveiro, pensando na vida;
- Passar creme anti-rugas no rosto, esfoliante, creme hidratante no corpo, creme depilador nas pernas, delineador nos olhos, batom, creme revitalizante no cabelo, creme reparador de pontas, base, desodorante para axilas sensíveis, creme com ácido retinoico e protetor solar fator anti-UV;
- Experimentar as 3 blusas e os 2 pares de sapato que comprou na sexta;
- Ouvir a opinião sincera do namorado;
- Não escolher nenhum deles e vestir a roupa da semana passada;
- Ir ao shopping;
- Passar por 8 lojas e ver as novas coleções de roupa;
- Experimentar todas essas 37 roupas das novas coleções;
- Agradecer a Deus pela paciência do namorado em esperar calmamente essa experimentação, recolhendo e organizando essas roupas experimentadas do lado de fora do provador;
- Passear de mãos dadas pelo shopping, pelo parque e por aquela concorrida exposição de arte;
- Chegar em casa cansada e receber uma massagem nos pés;
- Assistir a uma comédia romântica no Netflix no sofá debaixo de um cobertor comendo pipoca e recebendo cafuné;
- Dormir na comédia romântica;
- Acordar com um presente;
- Preparar um jantar romântico junto com o namorado;
- Jantar na mesa da sala à luz de velas ouvindo Miles Davis;
- Surpreender-se com a iniciativa do namorado de lavar a louça;
- Deitar-se na cama com travesseiros fofos e lençóis perfumados;
- Ouvir uma poesia do namorado;
- Dormir com um beijo na testa.

Sábado perfeito para passar com a namorada (do ponto de vista masculino):
- Acordar às 11h45;
- Montar na namorada pra fazer sexo matinal... e ela não reclamar;
- Ir ao banheiro e soltar aquele barro de 40 minutos enquanto lê o caderno de Esportes;
- Tomar um banho rápido;
- Ficar no WhatsApp enquanto a namorada passa aquele monte de creme;
- Usar a camisa de ontem e agradecer a Deus por ela não estar fedida;
- Comer pão na chapa de boteco;
- Ir ao shopping;
- Olhar vitrine de smartphone enquanto a namorada passeia pelas lojas de roupas;
- Encontrar-se com a namorada somente na última loja de roupas;
- Entrar de surpresa no provador da namorada pra flagrar ela com os peitos de fora;
- Comer no Mc Donald’s;
- Voltar rápido pra casa pra dar tempo de assistir ao jogo;
- Fazer sexo no intervalo do jogo;
- Pegar uma cerveja e dormir no sofá da sala;
- Acordar com o grito de gol do Galvão Bueno;
- Ir pra cozinha... pra pegar mais uma cerveja;
- Pedir uma pizza;
- Assistir à final do UFC;
- Ir pra cama e ver a namorada fazer strip tease;
- Sexo, sexo, sexo;
- Fazer campeonato de flatos com a namorada debaixo da coberta;
- Dormir com um blow job.


domingo, 7 de junho de 2015

Redes sociais

Mark conheceu Rosely pelo Tinder. Não chegou a ler seu perfil, mas clicou no coração verde por causa de uma foto de minissaia que ela exibia. Houve match. O corpo sarado de Mark na praia de Copacabana e o cabelo espetado com gel também chamaram a atenção da moça. Trocaram mensagens, cada vez mais picantes. Era a hora de saberem mais um sobre o outro.

Mark passou a Rosely seu perfil do Facebook e vice-versa. Ele, Marcos Roberto Vieira. Ela, Rosely Tagawa. 39 amigos em comum, entre eles o Rubens Ewald Perfil Lotado. E o melhor: ambos gostam de Muse e de Pulp Fiction. Passaram a se curtir cada vez mais. Nos posts diários. Rosely deu likes nos posts compartilhados por Mark: memes do Chaves, eventos do São Paulo e principais mensagens do PSDB. Mark até comentou os posts de Rosely se expondo emocionalmente para seus 417 amigos e familiares com mensagens finalizadas com "se sentindo alguma coisa". Começaram a vasculhar o perfil da pessoa virtualmente amada. Ele deu alguns likes nas fotos da viagem que ela fez pra Barcelona em 2013. Compartilhou aos seus 1.051 amigos e 19 seguidores um post em que ela reclamava do país e das filas no banco. Ela no começo relutou mas, como o amor é uma troca, também deu alguns likes nas fotos que ele postou bêbado com os amigos e sóbrio nos almoços da firma. Mark e Rosely abriam o inbox quase todos os dias e ficavam por lá durante horas saborosas e ininterruptas. Lembraram-se do Orkut, das comunidades iconograficamente representadas pelo Garfield e dos constantes "sorry, no donut for you". Trazer o passado também pode ser uma maneira eficiente de conhecer um pouco melhor o sexo oposto. Com o passar do tempo, essas horas se transformaram em minutos. As mais profundas confissões aos poucos iam se resumindo a breves e sintéticos emoticons. Quando faltava assunto, baixavam mais emoticons. Afinal, o amor precisa se renovar. E estava mais do que na hora de apimentar uma rotineira relação baseada em solicitações de vida no Candy Crush.

Trocaram Instagram. Ele, mark_mark. Ela, rosely_tagawa1988. Voltaram a curtir ainda mais a paixão que brotava em alto contraste e leves tons de sépia. Amavam perdidamente os selfies de biquinho e os desfocados pratos de comida. As hashtags #eusouocara e #curtindoavidaadoidado para eles era poesia pura. Mais fortes e menos sofridas que os sonetos românticos de Álvares de Azevedo. O fogo que arde sem se ver precisava alçar voos ainda mais altos e mais intensos.

Passaram a se seguir no Twitter. Ele, @markcavalera. Ela, @aroselydapuc. No começo, aquele ambiente de 140 caracteres e milhões de ofensas parecia um pouco estranho. Mas com o tempo foram se acostumando aos tweets das pseudocelebridades e dos perfis fake. Só que o amor pode até ser lindo no RG, mas no título eleitoral a história é outra. Rosely não se conformava com os clamores da volta da intervenção militar de Mark. Ele, em contrapartida, não podia admitir que ela pensasse que os escândalos da Petrobras foram armação da mídia direitista. A coitada começou a ver em Mark um babaca filhinho de papai só por causa de um ou outro retweet. E ele não aguentava tamanha arrogância de uma burguesinha que ia pras manifestações da Paulista registrar os protestos em seu iPhone 6. Essas divergências ideológicas transformaram-se em incompatibilidades, que se transformaram em implicâncias, que se transformaram em desaforos. Era impossível conviver com alguém que segue o Carpinejar.

Mark e Rosely, outrora magneticamente atraídos, precisavam aparar as arestas num espaço menos público. Trocaram WhatsApp. Tentaram se entender. Não conseguiram. Aqueles incessantes bipes sonoros eram o aviso de que estava pra chegar mais algum tipo de comentário maldoso, lacônico e irônico. O DR veio de uma forma cifrada e com incontáveis impropérios recheados por interrogações e exclamações. Muitos deles incompreensíveis por causa do corretor automático. Terminaram a relação, sem nunca terem se conhecido pessoalmente.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Coca-Cola

- Uma Coca, por favor. Só gelo.
Era a minha tentativa desesperada de encontrar a Vanessa. Já rodei muitos bares, botecos, pocilgas. Comi muita coxinha amanhecida, muito pastel engordurado, ouvi muita música sertaneja de rádio de pilha, ouvi muito xaveco barato, e nada de achar a Vanessa. Estava quase desistindo. Nesse mundaréu de engradados, a probabilidade de encontrar minha musa era mínima.
Veio a Carol. Ao lado de um copo que mais parecia um iceberg, coroado por uma intrusa rodela de limão (que, quero deixar bem claro, não foi por mim solicitada), Carol desfilava sua cintilante beleza escarlatina. Ouviu atentamente todos os meus pensamentos, tristes e bêbados de fim de noite. Saciou minha sede amarga da solidão. E, por mais que pudesse me proporcionar este prazer efêmero e imediato, ela mesma percebeu que não seria capaz de me fazer sorrir. Com seu gélido aspecto de se expressar para o mundo, pôs-se de lado na redonda távola de madeira aparente, desejou-me boa sorte e foi rapidamente recolhida pelo garçom de bigode em seu paletó branco e ligeiramente suado.
- Mais uma Coca, por favor. SEM LIMÃO.
A vontade de encontrar Vanessa era insaciável. Obsessiva. Assim como um ébrio freguês que se recusa a pagar a conta antes de sua birita saideira, estava convicto de que não sairia daquela joça mal-acabada enquanto a Vanessa não aparecesse em minha mesa. Estava cabisbaixo, desanimado, mas ainda assim na esperança quase nula de encontrar a cilíndrica diva.
Veio a Suzana. Ao lado de um insípido copo sem gelo, sem limão, mas com os fétidos fiapos que escaparam de um idoso pano de prato. Sem os adereços transbordantes dessa translúcida louça que outrora embalou 150 gramas de requeijão, Suzana teve mais facilidade para brilhar em cena. Nada podia ofuscar sua vivacidade líquida e negra. Suzana era linda, e os feixes de luz da lâmpada fluorescente que recaíam sobre sua pele de alumínio faziam ela ficar ainda mais linda. E mais calada. Sem assunto, sem troca de experiências de vida, descartei a inexpressiva manequim.
- Amigo... ei... por favor... ei... mais uma Coca... não, sem limão.
Será que finalmente chegaria Vanessa, atrasada como uma noiva ao nosso encontro? Será que a mais procurada de todas faria jus a tanta espera e tanta tristeza?
Não. Não era a Vanessa. Era a Vivi, emburrada como toda mulher que sobra no fim de noite. Veio amarrotada, com os fundilhos levemente amassados, sem seu lacre virginal. Antipática e nada gaseificada, Vivi me olhou feio. Era nítido que ela não queria estar ali, preferia morrer nos depósitos cheios de baratas. Aquela bruxa aromatizada artificialmente era a síntese de uma madrugada fria, cinzenta e sórdida. De raiva, empurrei a sirigaita para o chão, torcendo para que ela fosse pisoteada pelo mais afiado salto alto. E a vontade de ver Vanessa aumentava ainda mais, mesmo com a contagem regressiva dos ponteiros do relógio de parede daquela espelunca.
- Uma Coca. A última.
Era minha derradeira aposta. Era o ato final do meu compulsivo vício. Aquele pedido soou como um jogo de loteria, em que as estatísticas caminham na ordem inversamente proporcional aos sonhos. Vanessa era quase uma súplica apoteótica. Era o único nome capaz de salvar uma tentativa de suicídio. Estava ferozmente apaixonado por aquele substantivo. Tinha a vã esperança de que a minha latinha venusiana pudesse emergir nos últimos momentos dessa angústia.
Vanessa não apareceu. Quem chegou no seu lugar foi o Anderson.


segunda-feira, 9 de março de 2015

Mulher

Neste meu atual momento de vida, ainda não encontrei aquela pessoa com quem dormir de conchinha, ver um filme de mãos dadas, esbarrar a perna (de propósito) debaixo da mesa de restaurante, dividir um sorvete de casquinha. Aquela mulher que aceite não aceitando do jeito que sou, com minhas manias, meus medos, meus vícios. Mulher pra debater uma peça de teatro sem cair em chavões, ouvir opiniões sobre um livro, discutir ferozmente sobre divergências políticas, ideológicas e lugar pra deixar a toalha molhada. Mulher que esquece o batom no carro, esquece a carteira dentro de casa, esquece de colocar o lixo na rua, mas nunca se esquece de você. Mulher que fica mal-humorada de repente não mais do que de repente, mas depois pede centenas de milhares de desculpas. Mulher sensível diante do espelho e selvagem no apagar das luzes. Mulher que manda WhatsApp, curte seus posts no Facebook, liga de madrugada mas sempre prefere o silêncio do olho no olho. Mulher que chora sem saber por que e ri – também sem saber por quê. Mulher que te faz crescer e se sentir uma pessoa melhor. Ainda não encontrei aquela mulher que, nas incertezas aritméticas da vida, subtrai preconceitos, soma alegrias, divide angústias e multiplica prazeres.

Mas continuo insistinder.


domingo, 28 de dezembro de 2014

Previsões 2015

Janeiro:
Antes de reassumir a Presidência, Dilma Rousseff assiste ao filme “O Discurso do Rei” quatro vezes para não gaguejar durante a cerimônia de posse.
Fernando Haddad cria faixa exclusiva para cadeirantes nas principais vias de São Paulo, principalmente ladeiras.
Crise na Economia: Luiz Sardenberg continua tendo dificuldades para manipular os gráficos no sistema touch screen do Jornal da Globo.
Fevereiro:
Depois de acompanhar as investigações dos escândalos da Operação Lava Jato, população sai às ruas durante o carnaval com máscaras de palhaço.
Geraldo Alckmin decreta luto oficial em homenagem ao volume morto do reservatório de águas da Cantareira.
Menina funkeira Geovanna entra nas Casas Bahia, sobe na mesa e destrói tudo quanto é forno micro-ondas, geladeiras e TVs LED.
Março:
Posts impopulares e desavenças ideológicas nas mídias sociais fazem Zuckerberg criar Lone, a primeira rede antissocial da web. Botões como “ignorar”, “caguei” e “e o Kiko?” são os mais utilizados pelos usuários.
Danilo Gentilli é demitido de seu talk show por causa da queda de audiência do programa no horário. Afinal, em matéria de humor, não tem como competir com leilão de tapetes, pregações de bispo evangélico e polícia acalmando marido bêbado em favela.
Lobão encabeça passeata na Av. Paulista em prol da volta da monarquia, do ábaco e do fac-símile.
Abril:
Desempregado da vida política, Aécio Neves abre truck food de coxinha. “Difícil vai ser competir com as paletas venezuelanas do Lula”, argumenta o ex-governador.
Policiais treinados e cães farejadores cercam fazenda de Mato Grosso do Sul para encontrar destroços da queda do PIB.
Haddad cria faixa exclusiva para GLBTs e pinta as ruas com as cores do arco-íris.
Maio:
Inspirado no modelo brasileiro, EUA aproveitam a reaproximação com Cuba para lançar o programa More Doctors.
Competindo para ver quem fica com a namorada mais jovem, Renato Aragão, Pelé e Francisco Cuoco pedem a mão de Sasha Meneghel.
Em sua 78ª passagem pelo Brasil, integrantes da banda Megadeth explicam o eterno retorno ao país: “São as milhas que ganhamos no cartão a cada vez que compramos nossos próprios CDs, já que ninguém mais o faz”.
Junho:
Em seu amistoso contra a Alemanha após quase 1 ano da última Copa, Brasil perde por 5 X 0 e jogadores comemoram: “Foi praticamente um empate”.
Depois de Las Vegas, Lisboa, Madri e o raio que o parta, Rock in Rio passa a ser realizado no Itaquerão, com um line-up marcado pelo mais puro rock and roll: Racionais MC’s, Exaltasamba e Anitta.
Depois de escalar Dolph Lundgren, Arnold Schwarzenegger, Chuck Norris e outros pesos-pesados, Sylvester Stallone confirma a participação de um brasileiro no elenco de Mercenários 4: Tammy Gretchen.
Julho:
Com um corpinho de Susan Boyle e a paciência dos irmãos Gracie, apresentadora Ana Paula Padrão desiste de comandar o reality Masterchef. Palmirinha assume o comando em seu lugar – sem a faca.
Leandro Hassum lança seu quinto filme no ano, “Até que a Sorte Honesta para Casar com o Cara de Pau os Separe”. É a história de um gordo que tenta ser cômico ao se deparar em apuros quando seu... bom, é a história de um gordo que tenta ser cômico.
Fernando Haddad rompe contrato com empreiteiras e sua administração passa a ser baseada somente no uso de produtos e serviços das tintas Coral e Suvinil para a pintura de faixas exclusivas: “É só disso que São Paulo precisa”, declara o alcaide.
Agosto:
Comediantes fazem pesquisa no Google para tentar achar o significado de um tipo de humor bufão e arcaico, que caiu em desuso há muito tempo: stand-up comedy.
No mês do cachorro louco, usuários do Facebook entopem a rede com um monte de apelo de adoção, “fotinhas fofinhas” e vídeos “sensíveis”, causando a maior crise de diabetes entre os internautas.
Em sessão no Congresso, Jair Bolsonaro abre o zíper da calça e tenta estuprar Tiririca. “Na falta de Luciana Genro, vai você mesmo”, desabafa o parlamentar. Paulo Maluf, seu colega de casa eleito mesmo sendo procurado pela Interpol e pela CIA, adverte o companheiro: “Estupra, mas não mata”.
Setembro:
Advogado de defesa de suspeitos de ataques terroristas que ficaram presos em Guantanamo alega que eles foram submetidos ao mais cruel tipo de tortura: ouvir por meia hora a música-tema de Frozen.
Suzane Von Richtofrerertrxsen se casa, na cadeia, com José Genoíno, Zé Dirceu, doleiro Alberto Youssef, Graça Foster, Maníaco do Parque e aumenta seu patrimônio em US$ 90 milhões e 217 consoantes em seu sobrenome.
Levy Fidélix dá à luz casal de gêmeos. Pelo órgão excretor, é claro. Cartunista Laerte assume a paternidade.
Outubro:
O gigante acordou. Viu que tudo continua a mesma bosta, botou o despertador pra tocar 20 minutos mais tarde e voltou a dormir.
Hackers da Coreia do Norte invadem o Sistema Nacional de Informações brasileiro e roubam informações secretas e preciosíssimas: as respostas da prova do Enem.
Governo de São Paulo inaugura mais 340 km de linhas do metrô. Um fato histórico, algo comparável às filas das exposições do CCBB.
Novembro:
Separado de Adriana Falcão, Gregório Duvivier se casa com Mallu Magalhães, que se separa de Marcello Camelo, que se casa com Adriana... enfim, o swing se consagra como o quarteto mais chato da cultura pop brasileira.
Última parte da última parte da última parte de Jogos Vorazes ocupa 80% das salas de cinema no Brasil. Os outros 20% são dedicados ao trailer da prequência da trilogia de 7 partes.
São Paulo, a cidade mais cara do mundo, lança o primeiro festival gastronômico da gourmetização do bolovo. A iguaria, feita com massa de trigo sarraceno, ovos de perdiz e carne de antílope, chega a custar R$ 80 a unidade.
Dezembro:
Depois dos protestos anti-Dilma e dos protestos antiprotestos, manifestantes saem às ruas sem ao menos saber o motivo. “Melhor do que ficar em casa assistindo a Malhação”, afirma um deles.
Estudos apontam que a maioria dos relacionamentos hoje em dia se inicia no Tinder, intensifica-se no Instagram, começa a dar sinais de crise no Facebook e termina com um DR no Whatsapp, sem sequer o casal se conhecer pessoalmente.
Congresso Nacional triplica salário deles mesmos, reduz a jornada de trabalho para 10 horas semanais e encerra o ano trabalhando num dos projetos mais desafiadores da casa: combinar brigadeiro e chiclete no Candy Crush.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Críticos de Cinema

Crítico tradicional: analisa o filme como uma sequência de imagens, e não uma derivação de HQ. Espécie em extinção, com um nível de abundância comparável aos reservatórios de água da Cantareira.

Crítico up-to-date: blogueiro, twitteiro, fanpageiro. Suas resenhas não se alongam por mais do que 140 caracteres. Seu juízo de valores vem acompanhado por uma hashtag. Sua avaliação é medida por um emoticon. Se gostou do filme, finaliza a resenha com um “like”.

Crítico blasé: analisa um filme do tipo “Quero Matar Meu Chefe 2” como se fosse escrever pra Cahiers du Cinema. Não se cansa de usar termos como “contra plongée”, “diegese” e “mise-en-scéne” nas frases mais simples. Senta-se na primeira fila do cinema, ao centro, para ter uma visão simétrica e catártica do filme.

Crítico bissexto: aparece nas cabines de imprensa uma vez a cada quatro anos. E o que é pior: tem um programa semanal na mídia e discorre sobre as estreias com a maior desenvoltura.

Crítico redes sociais: é imediatista, faz a crítica ENQUANTO assiste ao filme. Nunca desliga o celular durante a projeção. Está sempre conectado no Face, Twitter, Whatsapp. Tem sempre muita coisa pra dizer para um monte de gente do mundo inteiro, ao mesmo tempo. Consultado sobre o que achou do filme, entretanto, resume-se a dizer: “maneiro”, “da hora”.

Crítico cosplay: não dá pra dizer exatamente que se trata de um “crítico”. É o sujeito que aparece fantasiado a caráter na cabine de imprensa. Ninguém sabe de onde surge o personagem temático (pois ele não frequenta as demais cabines) nem exatamente pra onde escreve, provavelmente algum blog específico, site de entretenimento. Ou é um dos integrantes do CQC, que a gente nunca guarda o nome porque o programa tá sempre mudando seu quadro de repórteres.

Crítico festival: o mais viajandão de todos. Consegue perder Jogos Vorazes, que ficará em cartaz por uns 4 meses, porque estará nos festivais e mostras da Bahia, Sergipe, Rondônia e Tocantins. Sim, existe festival de cinema em Tocantins. É um daqueles 38 brasileiros que conhecem o Acre de cabo a rabo. Geralmente é convidado para integrar o júri, fazer a curadoria e, se precisar, picotar os ingressos na entrada do cinema. Sua cidade natal transforma-se, para ele, num ponto turístico utópico. Faz questão de dizer que perdeu a pré-estreia de Interestelar porque esteve num festival de cinema da Amazônia, em que os filmes eram projetados nos reflexos das águas da pororoca de uma nascente próxima a uma reserva indígena da tribo dos Caribós.

Crítico tapete vermelho: de um modo geral, odeia ver filme. Acha um saco ter que ficar sentado no escuro por quase 2 horas. Por outro lado, “ama de paixão” ir a coletivas de imprensa, puxar o saco do elenco, falar que acompanha a carreira de todos os atores desde criancinha. Geralmente escreve para alguma revista de fofoca. Vai a todas as pré-estreias, fotografa a equipe, faz um monte de selfie com os atores e, inclusive, com os cartazes e displays do filme. Nas redes sociais, é só elogios, bafafás e tititis. Entende tudo do babado dos bastidores, mas sabe muito pouco sobre a Sétima Arte.

Crítico fila-boia: não assiste exclusivamente, mas dá grande prioridade a filmes em cabines de imprensa acompanhados por café da manhã. Vai a coletivas de imprensa por causa do brunch, mas nem sempre acompanha as tais coletivas. Frequenta as pré-estreias por causa dos coquetéis. Pode-se dizer que ele ganha o dia (e, consequentemente, o filme ganha nota máxima em sua avaliação) quando sai da sala com algum tipo de brinde ou mimo.

Crítico repentista: já vem com opinião formada pra tudo, até mesmo antes do filme começar. É o primeiro a sair da sala pra dizer pros assessores de imprensa o que achou. Mentaliza o texto que vai escrever na metade da projeção. Para ele, o ideal seria escrever mesmo sem ver o filme, pois assistir a tal obra pode interferir em seus pontos de vista.

Crítico vidente: que Mãe Dinah, que nada. Este crítico é especialista em prever o futuro. Prova disso são as frases de seu próprio texto: “As crianças vão adorar”; “Um filme que vai agradar a todos os públicos”; “Certeza de sucesso absoluto”; “Sério candidato a Oscar”, entre outras pérolas da adivinhação.

Crítico adjetivo: dispensa explicações adjetivas. Então vamos lá a um provável texto dele: “Com um roteiro bem-amarrado e uma atuação esplêndida do redivivo ator, o diretor transforma as fragilidades de uma cidade decadente num espetáculo de pura beleza, com uma fotografia irretocável que enaltece as particularidades de um povo precário. Essa espetacular sequência de magia, riqueza e encantamento seduz até mesmo o mais despreparado dos espectadores, que não fica imune ao impacto dramático de um elenco de apoio firme e consistente. Brilhante! Formidável! Obra-prima!”

Crítico major: embora o cinema esteja aos poucos mudando seus formatos e concepções, este crítico ainda é daqueles que dividem a Sétima Arte entre “filmes-cabeça” e “filmes-pipoca”. Do primeiro grupo, ele passa longe. Só vai a “cabine-evento”, em que um megaconglomerado de pessoas faz a muvuca no hall do cinema. Só escreve sobre blockbusters. Seu último filme de arte foi “Tropa de Elite”. Fica estupefato quando descobre, por meio do site Filme B, que o ano contou com mais de 400 estreias, enquanto ele jurava de pé junto que o número de lançamentos em cinema não passava de 30. Nunca ouviu falar de Marion Cotillard e acha que Ian Holm é apenas um tiozinho do Senhor dos Anéis.

Crítico spoiler: conscientemente ou não, é aquela pessoa que faz questão de contar o final do filme. Embora certas cenas sejam imprescindíveis para sua análise, ele acaba passando um pouco do limite entre o que é teaser e o que revela todo o mistério da história.

Crítico sinopse: faz uma pequena confusão entre o que é análise crítica, resenha e sinopse, este último fácil de ser consultado. Emite poucas opiniões e às vezes passa a impressão de que não viu o filme. Escreve algo do tipo: "O filme conta a história de um garoto que, após perder os pais num trágico acidente, viaja em busca do paradeiro de sua avó. No caminho, encontra uma série de tipos estranhos que mudam sua vida. Perda de tempo".

Crítico político: encontra um viés político-ideológico em toda e qualquer parte do filme: "A cena em que o marido vira de lado após o sexo com sua esposa é uma clara alusão à sua preferência política pela esquerda, onde percebemos uma tendência ao marxismo-stalinismo após ele dizer a ela 'boa noite, meu amor', como se estivesse prenunciando a chegada do movimento revolucionário na calada da noite".

Crítico pelo-em-ovo: escreve aquilo que só ele mesmo conseguiu enxergar: "A cena do homem erguendo o braço para pegar um copo d'água é uma referência velada à fase simbólica e obscura de Buñuel. Ao tomar lentamente a água, com a câmera alta num plano fechado sobre o copo, temos a nítida impressão de um mergulho no universo onírico de Tarkovski, evidentemente em sua fase mais experimental".

Crítico superlativo: discorre sobre um filme como se fosse o último. Escreve um texto como se não houvesse amanhã: "Trata-se do pior filme da década, um escorregão na carreira do diretor, o melhor e mais contundente de sua geração. Aqui, ele peca pelos seus exageros e obviedades, na escolha do elenco mais pífio da nova safra de atores. Nem parece o mesmo que realizou o mais definitivo filme sobre a Guerra do Vietnã".

Crítico Hortelino: costuma errar com frequência a grafia de sobrenomes, as datas, filmografias, troca nome de atores, confunde personagens e mistura subtítulos.

Crítico VIP: não admite ser chamado de crítico. É correspondente internacional. Mora em Los Angeles, vai a todos os festivais de Cannes, Berlim, Veneza, Toronto, Locarno. Em seu quarto, uma foto emoldurada ao lado de George Lucas. Tem o autógrafo de Helen Mirren e Jack Nicholson. Divulga informações privilegiadas que nem o IMDB é capaz de fornecer. Frequentador assíduo de junkets e sets de filmagem. Tem mais intimidade para fazer uma entrevista por telefone com a Catherine Zeta-Jones do que conversar com sua própria mãe.

Crítico multimídia: por uma questão de praticidade, identifica-se como colaborador da Veja. Mas escreve também para a Folha de São Paulo. E pro Estadão também. Tem um programa semanal na Band News e no Ronnie Von. Já escreveu diversos artigos pro Omelete, Cineclick, AdoroCinema, revista Bravo, IstoÉ Gente. Foi um dos editores da extinta revista SET. Esporadicamente, é colaborador da Cinética e da Contracampo. No começo de carreira, escreveu pras Gazetas de tudo quanto é bairro de São Paulo. Em suas horas vagas, atualiza seu blog. Sobre Cinema.

Crítico crítico: faz jus à fama da profissão. Reclama da péssima qualidade da produção atual. Reclama da Lei Rouanet. Reclama dos atrasos dos assessores de imprensa. Reclama dos colegas de profissão. Reclama de não ter recebido o press release em tempo hábil. Se o filme é bom, reclama das poltronas e do ar-condicionado da sala.