terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Roubada

Você sabe que o programa é uma grande roubada quando:

- Tem apelido demais: “Cola lá no bar do Cabelo. A banda do Peixe vai tocar. Depois a gente tá pensando em dar um pulo no apê do Caçapa”.

- Tem diminutivo demais: “Conheço um barzinho... toca um MPBzinho... banquinho e violão... a gente pede um chopinho... mas tem também espetinho pra acompanhar”.

- Tem gíria demais: “A gente bate aquela feijuca, toma umas breja... sem muvuca, sem causar... é sussa, dá pra ir de berma se quiser”.

- Tem burocracia demais: “Pra confirmar presença, curta nossa fanpage no Facebook, compartilhe o post para concorrer a desconto, mande um e-mail para eventos@festadoluis.com.br com o subject “Lista VIP” e aguarde nossa confirmação por WhatsApp.

- Tem esmola grande demais: “R$ 15 de entrada. Open bar com vodca, cerveja e energético na faixa até as 4 da manhã. Serviço de manobrista cortesia da casa. Show-surpresa no fim da noite e sorteio de camisetas, pau de selfie e viagem para Cancún. Vários ex-BBB já confirmaram presença”.

- Tem estilo demais: “A casa de inspiração barroca traz nas paredes do hall réplicas de Kandinsky e figurinos das filmagens de Pulp Fiction pendurados no teto. O DJ Hypolitto, de Ibiza, mescla celta-trance com o retrofuturism dos cabarés. O carro-chefe da casa é o drink que leva álcool de beterraba, redução de hibisco, raspas de tamarindo e tomilho. Acompanha bem com o hambúrguer de perdiz com shitake e uvas verdes”.

- Tem ambiente demais: “Durante o dia, a casa é um misto de barbearia, brechó e loja de vinil. À noite, o espaço transforma-se em uma improvisada pista de dança com food trucks. Dá para jogar videogames da época. Tem pistas de boliche, karaokê, bilhar, biblioteca, luderia, sauna e dark room. Em breve, touro mecânico e camas de bronzeamento artificial”.

- Tem gente demais: “Eu passo na sua casa, aí a gente pega a Fê, a Priscila e o namorado dela. A Tuca vai com o carro dela e mais uns primos de Uberaba. Chegando lá, precisamos procurar pelo Rodrigo pra pegar as entradas. A festa vai bombar. Já chamei a galera da facu e criei evento no Facebook”.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Roupa

Amigo é que nem roupa. Tem aquela que você usa todo dia. É pau pra toda obra. Não é a roupa mais bonita. Não é a roupa mais charmosa. Mas é aquela que está ali, à sua disposição, pro que der e vier, e você não quer se desfazer dela. Tem também aquela que você só usa em ocasiões especiais. Nesses momentos, ela sabe te valorizar.
Outro tipo de roupa é aquela que você usa pouco e guarda. Depois de um tempão, resolve usar novamente. E percebe que ela não cabe mais em você. E também não tem mais nada a ver com seu estilo. Um ficou ultrapassado para o outro. Mas, no meio dessas roupas fora de moda, existe ali uma peça única. Você também guardou essa roupa por muito tempo. Ela sempre esteve ali, nunca saiu do seu guarda-roupa. E, quando você resolve experimentar, depois de longas datas sem um ter olhado pro outro, percebe não só que ela serviu direitinho, como também continua sendo a sua cara.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

2015

2015 foi pra mim como 2015 foi pra todo mundo: um ano de déficit. Aquela sensação tardia de que perdemos por 7 a 1. Fomos derrotados na área econômica, na área política, na área cultural. Demos um vexame danado em comportamento nas redes sociais (ou seria antissociais?), nas manifestações e passeatas, no modo de encarar o outro, de conviver com quem pensa diferente de você. Ocupamos uma das últimas posições do ranking num ano marcado pela intolerância. Mostramos que, como ser humanos, ainda estamos engatinhando no que diz respeito ao processo de cidadania e seus aprendizados. Ainda estamos na barbárie e, sem dinheiro, nosso vandalismo aumenta exponencialmente.
Falando sobre mim, em 2015 tive prejuízos incalculáveis no campo psicológico. Deixei de fazer um monte de projetos pessoais, com as desculpas de sempre: falta de tempo, desânimo, falta disso, falta daquilo. Acabei me acomodando. Termino meu relacionamento com a terapia, depois de 3 anos, não porque me dei alta, mas por achar necessária a ruptura temporária. O fim de um ciclo. Graças a Deus (embora eu seja um ateu convicto), no campo profissional eu continuo empregado e gozando de uma certa estabilidade. Mas é complicado garantir o leitinho das crianças e, na hora de comprar esse leitinho das crianças, constatar que a padaria de bairro fechou. Não tem como passarmos incólumes por essa crise, mesmo que ela não nos afeta diretamente. O mercado empobreceu, as pessoas estão mais deprimidas, esse quadro é jogado na nossa cara todos os dias.
No campo afetivo, conheci várias mulheres, das mais diversificadas maneiras: encontros virtuais, encontros reais, sites de relacionamento, aplicativos, comunidades virtuais, apresentação de amiga da amiga, macumba, Pai de Ogum. Fiz grandes amizades. E percebi muitas, mas muitas incompatibilidades. Tive um ano intenso mas, entretanto, contudo, todavia, poucas histórias pra contar. E raras, raríssimas, parcas e escassas mulheres com quem acordei no dia seguinte. Dá pra contar nos dedos. Da mão do Lula. O que me faz concluir que talvez o problema seja delas, talvez o problema seja meu ou talvez desses aplicativos que nos ensinam equivocadamente que tá fácil arrumar alguém. Vejo pessoas ao meu redor que não desgrudam do WhatsApp quando, na verdade, nunca estiveram tão sozinhas.
E por falar em Lula... lembro que eu andava com estrelinha do PT cravada no sobretudo preto quando ia ao Madame Satã, na época da faculdade. Fiz um vídeo convocando meus colegas neoliberais a votar no PT. Acreditei nesse plano de governo, nesse projeto de país, nesse sonho de brasileiro. Um sonho que se acordou com Mensalão, Lava-Jato, dinheiro na cueca, delação premiada, senador preso. Caímos da cama. Caímos em tudo quanto é tabela. Caímos na credibilidade dos países desenvolvidos e das empresas que queriam investir na gente.
Pra completar, em 2015 perdi muitos amigos. Pessoas que se deram conta de que nossas afinidades se perderam. Que perceberam que nossas convicções aumentaram o vão das nossas diferenças. Deixei escapar muita gente que se incomodou com minha maneira de pensar, de falar, de se expressar pro mundo. Em compensação, ganhei muitos outros. E solidifiquei amizades até então um pouco mais tênues. Criei quase que um fã-clube de admiradores das minhas atitudes. E sou grato a esses amigos. É com eles que eu entro em 2016. Uma jornada que, muito bem sabemos, não vai ser nada fácil.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Pernilongos

Eis que chega o verão. Calor dos infernos, choque térmico, chuvas. Aí eu viajo para meu planeta imaginário e avisto lá longe, numa travessinha de uma rua movimentada, um nababesco rodízio. Nem muito chique, nem muito popular. R$ 59,90 de segunda a sexta. Crianças e mulheres pagam a metade. “Costela de homem”, chama-se o lugar. O porteiro abre aquela gigantesca porta de madeira para uma caravana de fregueses. Eram mais ou menos 250 pernilongos, que imediatamente foram recebidos pelo maitre e conduzidos até uma mesa distante. O lugar era aconchegante, mas eles acabaram se sentando ao lado de uma mesa com quase 1 milhar de outros tantos da mesma espécie, tomando uma mistura alcoólica e falando muito alto: “Ziiiiiiiiiiiin!!”.
Assim que colocaram os talheres ao lado dos pratos, aproxima-se o pernilongo-garçom dos drinks. Com ar simpático, rosto sorridente, fala mansa, logo oferece aos clientes os aperitivos gourmet. “Boa noiteee... Aceitam uma bebidaaa? Temos suco de medulaaa, caipirinha de glóbulos vermelhooos, água de sorooo...”.
A colônia de insetos foi se servir à mesa de entradas. Que, por sinal, estava bastante farta. Dedos do pé, tornozelos, joelhos, lóbulos de orelha. Um verdadeiro banquete. E, quando voltaram, uma fileira de serviçais pronta para atender a demanda.
O primeiro garçom-pernilongo perguntou: “Pele de barriga, senhor?”. “Sim, por favor”. Aí veio o segundo: “Peito, senhor?”. “Não, obrigado. Este tá com muito pelo”. E assim sucessivamente. “Pele das costas, senhor?”. “Por favor. Este pedaço aqui, que tá sem tatuagem”. “Coxa, senhor? Tá caprichado, com muito sangue, bem suculenta”. “Braço, senhor? É o que mais sai. Tem pele branca, pele negra, pele bronzeada, pele amarela, só escolher”.
A miríade estava se esbaldando naquele divino manjar sanguíneo. Era tudo muito especial. A certa altura, o pernilongo-gerente veio à mesa: “Estão sendo bem atendidos, senhores? Está faltando alguma coisa? Querem que tire o Baygon da tomada?”.
Era muita atenção para um grupo que parecia ter vindo da guerra. Dava pra desconfiar de tanta gentileza. E essa desconfiança se provou em mais uma abordagem, um pouco mais assertiva. Passados cinco minutos, o mesmo gerente-pernilongo volta à mesa e faz outra pergunta: “Alguma carne de preferência, senhor?”. Era uma maneira relativamente sutil de expulsar o bando nematocero. Se eles ficassem mais tempo, seria prejuízo para o estabelecimento. Além do mais, havia uma fila de espera de dobrar a esquina, e ninguém desse aglomerado aguentava mais picar pele de cachorro de entradinha.
Até que um dos fregueses da mesa, mais ao fundo, fez seu derradeiro pedido: “Cangote, por favor. Tô esperando há mais de meia hora. De mulher, bem macio, mas sem perfume. Sou alérgico”.
E veio o cangote para o chato, conforme solicitado. Junto com a conta e a maquininha de cartão. O retardatário provou, mas falou ao garçom: “Hmm, sei não... tá meio estranho o gosto... acho que tem repelente”.


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Cores e causas

Neste ano, eu vesti uma camisa rosa num dia do #OutubroRosa, em prol das mulheres vítimas de câncer de mama. Também usei uma camisa azul num dia de novembro em solidariedade ao #NovembroAzul, que alerta os homens para o câncer de próstata. Isso na vida real. Nas redes sociais, teve uns dias que eu troquei aquela minha fotinho do perfil por uma foto com as cores do arco-íris sobrepostas ao meu rosto, em homenagem à lei aprovada nos Estados Unidos que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Dias atrás, botei as cores da França sobre meu pálido rosto no Facebook, em respeito às vítimas dos ataques terroristas ocorridos em Paris. Na mesma época, taquei uma cor amarronzada nessa mixórdia cromática para mostrar minha indignação em relação às vítimas soterradas de Mariana. Fiz tudo isso, e faria muito mais se eu soubesse qual é a cor oficial de outras causas nobres, como #MeuPrimeiroAssédio, #MeuAmigoSecreto, #ForaCunha, #ForaDilma, refugiados da Síria, vítimas dos alagamentos em Santa Catarina, vítimas dos atentados de Mali, vítimas das ciclovias de São Paulo, vítimas de bullying, vítimas de bulimia, crianças que morreram engasgadas com balas Soft. O motivo dessa adesão inconteste é muito simples, meu caro. Pega bem. É cool, é hype, soa simpático para seus amiguinhos e mais simpático ainda para quem cria, organiza e gerencia essas manifestações. Diferente de outras manifestações sociais anteriores, que exigem um desembolso monetário (compra de pin em forma de gravata vermelha para as vítimas da Aids, compra de camiseta com ilustração de alvo para as vítimas do câncer de mama) ou uma atitude polêmica (entrega de armas na campanha em prol do desarmamento da população), agora seu esforço para ser considerado adepto é praticamente nulo. Não requer prática, tampouco habilidade. Para você ser legal com o mundo, não precisa nem dar esmolas, basta baixar um aplicativo ou mudar a sua configuração de perfil. Nem precisa se aprofundar sobre a causa, se não quiser. Na internet, tudo é superficial e ganha a briga quem grita mais alto. Quando a briga diz respeito a causas ganhas, dar-se ao trabalho de tecer reflexões maiores e mais profundas torna-se tão desnecessário quanto enfadonho. Ou seja, em tempos de comunicação rápida e ligeira e envelhecimento precoce de opiniões mais embasadas, você veste uma causa como se estivesse trocando de roupa. Tudo é vitrine de shopping. Você entra no provador como seu eu-mesmo e sai de lá Guarani-Kaiowá. Ou tricolor. Ganha uns likes de quem aprovou essa indumentária disfarçada de solidariedade e tá tudo certo. Chama pela próxima cor, enquanto o mundo continua se digladiando em seus vermelhos cinzentos.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Pode ou não pode

Vai chegar um dia, meu caro, em que você:
- Não vai mais poder fumar em público;
- Não vai mais poder comer carne de porco;
- Não vai mais poder tomar refrigerante;
- Não vai mais poder xingar nas redes sociais;
- Não vai mais poder chamar seu amiguinho de infância de preto;
- Não vai mais poder ler Sítio do Picapau Amarelo;
- Não vai mais poder cantar mulher;
- Não vai mais poder cantar Atirei o Pau no Gato;
- Não vai mais poder correr na Marginal;
- Não vai mais poder beber (e dirigir, nem pensar);
- Não vai mais poder fazer festa com som em sua casa;
- Não vai mais poder escolher seus canais de TV nem seus sites favoritos;
- Não vai mais poder botar seu filho de castigo.
Mas não se desespere. Com o respeito ao próximo, a sociedade vai ficar muito mais comportada. E sua vida, além de saudável, vai ficar muito, mas muito mais divertida:

- Você vai poder comer brócolis à vontade;
- Você vai poder andar de bicicleta na Paulista o quanto quiser, sem limite de quilometragem;
- Você vai poder correr no Ibira até ficar com a língua de fora, marcando no seu relógio da Apple de R$ 6 paus seus batimentos cardíacos, pressão arterial e quantidade de gás carbônico eliminada pelos pulmões;
- Você vai poder comer um delicioso prato de quinoa com cara de macarronada e gosto de picanha ao alho frito;
- Você vai poder estudar a neurolinguística comportamental dos gatos;
- Você vai poder aprender Física Quântica em arquivo pdf;
- Você vai poder aprender a se relacionar com o sexo oposto por aplicativo;
- Você vai poder aprender a se relacionar com o mesmo sexo por aplicativo;
- Você vai poder ser feliz recebendo um monte de emoticons.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Expressões

As expressões do dia a dia e seu verdadeiro significado.
Quando você ouve:
“Vamos conversar?” de sua namorada, isso quer dizer “estou carente e você não me dá atenção”.
“Vamos conversar” de sua namorada, isso quer dizer “estou terminando com você”.
“Tem um minutinho?” de seu chefe, isso significa “vou te demitir”.
“Só um minutinho” do atendente de telemarketing da empresa para a qual você ligou, pode esperar no mínimo 45 minutinhos.
“Um minutinho da sua atenção” de um cara na rua com um monte de folhetos, ele quer dizer “vou te encher muito o saco pra você comprar alguma coisa de mim”.
“Talvez” em um evento que você criou no Facebook, isso significa “não vou nem que a vaca tussa”.
“Aparece lá em casa” de um amigo que você encontra na rua e não vê faz tempo, no fundo ele tá pensando “tomara que ele não me procure”.
“99379-8866” de uma gata que você acabou de conhecer na balada, a verdadeira resposta seria “98723-4552”.
“Vamos marcar um almoço” de um ex-colega de trabalho que você encontra na rua, ele no fundo está pensando “como é mesmo o nome desse cara?”.
“E como é que tá lá?” desse mesmo ex-colega que você encontra: “meu emprego tá uma bosta e eu to louco pra sair. Me indica onde você tá trabalhando”.
“Não, não precisa” de sua namorada: “se você não fizer isso que eu tô pedindo eu te mato!”.
“E aí cara, blz?” inbox no Facebook de um amigo que não vê faz muito tempo: “estou desempregado”.
“Adorei te conhecer” de uma pessoa que você conheceu pelas redes sociais: “nunca mais me procure”.
“Só tô dando uma olhadinha” de um cara ao seu lado quando é abordado por uma vendedora de loja: “não vou comprar nada, não me encha o saco”.
“Tá na promoção” dessa vendedora de loja: “é caro pra caralho, trouxa”.
“Não, não quero” da namorada com quem você está há 2 meses: “me come, me come agora”.
“Não, não quero” da namorada com quem você está há 2 anos: “não, não quero”.


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Não aguento mais

Eu não aguento mais o Facebook e sua seletividade suspeita. Xiitas e sectários divididos em guetos, berrando seu ódio como se fosse a mais legítima forma de expressar suas convicções ideológicas.
Eu não aguento mais o Instagram. Pessoas felizes, em viagens felizes, comendo comidas felizes, adotando cachorrinhos mais felizes ainda. O Prozac das redes sociais. Aqui não tem lugar para conflitos internos nem crises de depressão.
Eu não aguento mais o rock atual. Sem peso, sem vida, sem coragem de criar, com menos coragem ainda de copiar bem copiado. Nos anos 70 a gente tinha Rolling Stones e Led Zeppelin. Hoje, a gente se contenta com Tame Impala e Fleet Foxes.
Eu não aguento mais o governo brasileiro, que prometeu o Fome Zero, enterrou o PAC e agora tem dificuldade até para pagar o adiantamento do 13º aos aposentados e pensionistas.
Eu não aguento mais o dólar, esse sim o gigante que acordou. Hibernou por mais de uma década, fodeu as exportações, e agora resolveu escalar montanhas a passos largos, bem na época em que mais brasileiros pensam em morar no exterior.
Eu não aguento mais pasta de dente, que tem o cálcio, o flúor e a menta pra disfarçar o gosto amargo da manhã.
Eu não aguento mais o menos é mais. Menos é menos. Se discorda de mim, vá procurar o sentido da expressão inutilia truncat. Tem gente que confunde concisão de ideias com castração de estilos.
Eu não aguento mais os rappers, que cantam músicas de protesto com suas correntes de ouro.
Eu não aguento mais a Publicidade, que exige da gente costurar novas roupagens para velhos problemas.
Eu não aguento mais o PT. Por motivos mais do que óbvios.
Eu não aguento mais o PSDB. Por motivos mais do que óbvios.
Eu não aguento mais o Tinder, que nos oferece sugestões de comer como se fosse um cardápio, e nos permite passar o dedo sobre o rosto das mulheres como se estivéssemos virando as páginas do próprio.
Eu não aguento mais o Haddad, aquele prefeito-gato megalomaníaco, que, num ato súbito e inconsequente, resolveu borrar de batom vermelho os lábios viários de São Paulo, como se essa fosse a única solução urbana possível.
Eu não aguento mais o Pânico. Nunca aguentei.
Eu não aguento mais o Porta dos Fundos, a divertida e aguardada panaceia da sociedade, que vem substituindo a acidez crítica pela gratuidade do humor cinza.
Eu não aguento mais os shopping centers, obeliscos esquizofrênicos do consumo, cativeiros clonados da gastança mais do que desnecessária.
Eu não aguento mais sertanejo universitário. Ponto.
Eu não aguento mais o WhatsApp, cocaína cibernética que faz as pessoas digitarem cada vez mais e conversarem cada vez menos.
Eu não aguento mais a gourmetização do nada.
Eu não aguento mais os blind dates. Junto com eles me vem à cabeça a música Construção (Chico Buarque): olhar para aquela mulher à sua frente como se fosse a última, falar com aquela mulher à sua frente como se fosse a única e, após levar um estrondoso fora daquela mulher à sua frente, morrer na contramão atrapalhando o tráfego.
Eu não aguento mais tomar Coca-Cola, meu único vício. E, como todo vício que se preze, causa ou potencializa a obesidade, a diabetes, a hipertensão e a tosse de refluxo. Sim, eu tive tosse de refluxo, a doença da moda.
Eu não aguento mais o #sóquenão. Só que sim.
Eu não aguento mais o miserável ser chamado de pobre e o pobre ser chamado de classe média.
Eu não aguento mais tomar banho de conta-gotas.
Eu não aguento mais a molecada que nunca passou Merthiolate que arde.
Eu não aguento mais gente que te insulta, te despreza, te arrasa e se despede de você falando "um abraço".
Eu não aguento mais mimimi de quem faz piadinha com mimimi.
Eu não aguento mais tentar resolver minha vida com aplicativos.
Eu não aguento mais segregar pessoas com área VIP.
Eu não aguento mais a ostentação do lixo.
Eu não aguento mais a Geração Y, mas não adianta explicar o motivo porque eles não vão entender.
Eu não aguento mais o Big Brother. Ainda bem que ninguém mais aguenta.
Eu não aguento mais a Polícia, que faz chacina em Osasco, sai matando favelado do Rio, mas consegue prender apenas menos de 10% dos criminosos, gerando a maior crise de insegurança da população.
Eu não aguento mais a China, que cria um colapso financeiro mundial porque tem previsões de crescer “apenas” 7% ao ano.
Eu não aguento mais a corrupção, responsável direta pela nossa pobreza de recursos e de caráter.
Eu não aguento mais viver num dos períodos mais incertos da nossa história.
Eu não aguento mais os manifestantes da Av. Paulista, que gritam por avanços e provocam atrasos.
Eu não aguento mais as empresas de telefonia móvel, uma das piores e mais caras do mundo. Isso também vale para os planos de saúde.
Eu não aguento mais a moda retrô, porque quando você vai usar alguma coisa retrô, continua fora de moda.
Eu não aguento mais a bancada política evangélica.
Eu não aguento mais o Estado Islâmico.
Eu não aguento mais a Veja, muito menos quem fala mal dela.
Eu não aguento mais viver num país com baixo IDH e índice de qualidade de vida apenas mediano.
Eu não aguento mais as piadas rasteiras do stand-up comedy.
Eu não aguento mais o outro, uma muralha de incógnitas, que te abraça e te repele com a mesma frequência e intensidade.
Mas, pra falar a verdade, acima de tudo, tenho a leve desconfiança de que não aguento mais a mim mesmo.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Noite

A sala era escura. Aquele ar sombrio contrastava com a parede azul-celeste e suas leves manchas de mofo. Alguns espelhos colados na superfície lateral do prostíbulo mostravam quem entrava e quem saía daquele lupanar. Eles faziam par com alguns pôsteres da Marilyn Monroe, Brigitte Bardot e alguma desconhecida que posou para a Playboy nos anos 70. Um ventilador de teto funcionava bem devagarinho, não dava conta de suavizar o calor infernal daquela data. De vez em quando engasgava, parava e logo voltava a funcionar. Uma máquina jukebox movida a fichas tortas tocava o hit da Anitta, num volume sonoro beirando o insuportável.

Robson estava ali, quietinho, no canto mais escuro ainda, observando o ambiente. Tomou apenas uma latinha de cerveja, que ficava esquentando em sua mão durante longos minutos. Diante de seus olhos quase adormecidos passavam pernas magras, pernas brancas, seios fartos, seios siliconados, nádegas opulentas, biquínis fora de moda, cabelos oxigenados, pescoços morenos, cabelos curtos, tudo o que se podia imaginar do universo feminino. Como se estivesse num zoológico, espreitava atentamente, num misto de sede e curiosidade, a diversidade étnica da espécie humana. Até chegar sua musa preferida, estava ali analisando os modelos de carne expostos na sorumbática vitrine. Fitou a loira mais calada da noite e dirigiu-se a ela.
- Oi. Tudo bem?
- Tudo. Conhece o esquema da casa?
- Sim.
- Pagamento adiantado. Vamos lá esquentar um pouquinho?
- Vamos. Mas antes, qual é o seu nome?
- Jéssica.

A moçoila da vida foi até o balcão, pegou seu kit com toalha e nécessaire e, de mãos dadas, conduziu o inepto jovem ao mais recôndito quarto. Dentro do quarto, tirou a roupa em questão de segundos, ajudou o jovem a tirar a roupa dele, deitou-o na cama e e começou a fazer uma breve massagem em seu peito. Abriu sua bolsa, pegou um preservativo e lançou-se ao sexo oral.
Com uma cara de safada impossível de disfarçar, olhou pra cima e foi subindo. Montou suas coxas sobre o poste ereto do mancebo e começou a cavalgar. Num gesto automático, virou-se de costas para o rapaz, empinando suas nádegas.

Robson apertou o corpo de Jéssica para si e começou o trote. Cada vez mais rápido. Puxou os cabelos da sirigaita, o que a fez lançar alguns descontrolados gemidos. Jéssica virou-se de frente para Robson, no intuito de finalizar o ato épico de modo convencional. Cada vez mais ofegantes, ele se aproximou do rosto de Jéssica, tentou dar um beijo, mas ela o repreendeu:
- Beijo na boca não, gato. Não faço esse tipo de intimidade.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

A linguiça da Cristina

Naquele cardápio engordurado, no meio de opções tão óbvias quanto provolone à milanesa e batatas fritas, destacou-se a insólita Linguiça da Cristina. O boteco não foi minha primeira opção. Na verdade, tratava-se de um refúgio, um consolo após uma frustrada tentativa de encontrar algum lugar vago no concorrido concorrente. No começo, confesso ter ficado um pouco temeroso. O sugestivo nome da porção inspirou-me associações mentais das mais sórdidas e pervertidas. Mas a alegórica descrição do exótico porcino me chamou a atenção. Letras ululantes, coloridas, vívidas como o arco-íris não puderam passar despercebidas. Fiz o meu pedido.

Diante de tal aberração semântica, imaginei tratar-se de um item exclusivo do cardápio. Uma iguaria quase afrodisíaca. Uma especialidade da casa, preparada com os mais autênticos ingredientes da culinária mineira. Uma fórmula secreta, que procria pelas encardidas megalópoles do país a tradicional receita da avó e leva consigo condimentos, bafo e calor humano. Erro crasso da minha parte.

O emudecido e mal-humorado garçom trouxe à mesa uma acanhada cesta de vime, tão perdida quanto a que embalou Moisés. Difícil concluir quem era mais lacônico: o atendente em seu pálido uniforme ou as rodelas de pão francês e seus límpidos miolos. Ao contrário das expectativas geradas, a tão aguardada Linguiça da Cristina em nada lembrava aquela artesanal e avermelhada linguiça rocambolesca típica de bar. Ou quem sabe aqueles petiscos apimentados, parecidos com moedas em sua forma e em seu vício. O supostamente inédito quitute chegou embalado por murchas folhas de alface que acolchoavam aquele pedaço de frustração. Bolinhas de carne encrespadas numa oleosa farofa, tão feia quanto indigesta. Sim, a promissora Linguiça da Cristina tinha sua alma insípida.