Sou mesmo um cara de sorte. No Dia dos Namorados, não vou precisar enfrentar filas de shopping para procurar aquele perfume dito "exclusivo", junto com outras dezenas de namorados procurando exatamente o mesmo perfume, todos eles tão exclusivos quanto eu. Não vou me dar ao trabalho porque, na verdade, nem preciso comprar o presente. Não preciso comprar o presente porque, na verdade, não estou namorando. Logo, o meu não-presente é totalmente dedicado a você, que me bloqueou do WhatsApp e postou fotos no Instagram acompanhada de um sarado, alegando que estava a fim de ficar um tempo sozinha.
Para o próximo Dia dos Namorados, fiz questão de não reservar aquela mesa no bistrô pensando em você, que da última vez reclamou que meu gosto para roupas e para música é péssimo. Portanto, demorei horas para não escolher um filé de Saint Peter com redução de frutas vermelhas e farofa de amêndoas. Logo, nada mais justo fazer um não-brinde ao nosso não-relacionamento e não abrir uma garrafa de Cabernet Sauvignon, safra 2009. Afinal, estamos não-comemorando aquele dia em que você falou que os homens são todos iguais, entretanto, me trocou por um muito mais igual do que eu.
Para a especialíssima data vindoura de 12 de junho, gastei todas as minhas energias para não procurar aquele vestido azul-escuro que você tanto paquerou durante meses na vitrine da loja. Só não sabia eu que, junto com o vestido, você também paquerou o vendedor da loja ao lado, aquele hipster de cabelo milimetricamente desgrenhado, barba delineadamente malfeita e um gibi de tatuagens em sua pele clara. Junto com o vestido, faço questão de não oferecer a você a calcinha preta de renda para a noite de amor que não iremos passar juntos, já que você muito provavelmente vai estar no bar com suas amigas e vai ficar com o primeiro homem que colar na sua mesa. Talvez o segundo.
Estou contando os minutos para não celebrarmos o dia em que não irei te dar nenhuma joia, não irei declamar poesia alguma, muito menos cochichar no seu ouvido palavras de baixo calão. Tudo isso porque você não me ama como nunca me amou antes. É um privilégio não ter você ao meu lado e, consequentemente, não rirmos juntos das piadas batidas, não chorarmos juntos no drama francês, não pedirmos uma pizza num sábado chuvoso, não ficarmos abraçados no sofá até pegarmos no sono. Felizes de nós, que juramos não amar eternamente um ao outro.
terça-feira, 7 de junho de 2016
quinta-feira, 19 de maio de 2016
MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DE UM E.T. EM VISITA AO BRASIL ou 1001 COISAS PARA SE OBEDECER ANTES DE MORRER ou BRASIL – PAÍS DA DIVERSIDADE E DA TOLERÂNCIA
Tocar apito pode. Bater panela não pode.
Comer mortadela pode. Comer coxinha, não.
Cuspir pode. Bater, nem pensar.
Ler a Veja não pode. Carta Capital, pode. Ou melhor, deve.
Usar vermelho pode. Usar amarelo, não.
Duvivier pode. Porchat, não.
Ouvir Chico, mais do que pode. Ouvir Lobão, tá louco?
Morar em Cuba pode. Morar em Miami não pode.
“Hay que endurecer” pode. “Ordem e progresso”, melhor não.
Vai pra Paulista? Ficar do lado do MASP pode. Do lado da
FIESP, pega mal.
#ForaCunha pode. #ForaDilma, não.
Luís Nassif pode. Sardenberg, não.
Jô Soares pode mais ou menos. Danilo Gentilli, nem a pau.
Bolsa-Família deve. Bolsonaro, evite.
William Bonner não pode. William Waak, muito menos.
Silêncio em Cannes é protesto. Gritar de casa é balbúrdia.
José de Abreu pode. José Serra, nemfu.
Quebrar o Mc Donald’s pode. Quebrar o Brasil, aí é que pode
mesmo.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Dados variáveis
- Pessoal, a partir de hoje vamos adotar aqui na agência um
padrão de customização do nosso material de comunicação. Na parte dos dados
variáveis, aqueles campos personalizados, precisamos pensar num nome que sirva
para a marcação de todas as peças, de todos os nossos clientes. Queria ouvir a
sugestão de vocês.
- Eu sempre uso Fulano de Tal.
- É, mas isso é comum demais. Desvaloriza o cara que tá
recebendo o e-mail. O cliente vem reclamando disso.
- Por que então não usar João Alves?
- O anão do orçamento? Cê tá louco?
- Ah, tá... não sabia... não é da minha época...
- Lá na Pinnick & Partners Worlwide onde eu trabalhava,
a gente sempre usava John Sample.
- Ah, sofisticado demais. Não gera empatia, identificação.
Ninguém aqui no Brasil se chama John Sample.
- Eu acho que tem que ser um nome comum, do povo, pro
cliente entender que a gente tá falando com o público dele. Tipo João da Silva.
- Ah, num sei... capaz do cliente achar que a gente SÓ tá
mandando o e-mail pro João da Silva e o José dos Santos, por exemplo, vai ficar
de fora.
- Por isso mesmo que eu acho que um nome fora do comum, pode
ser estrangeiro mesmo, vai deixar bem claro que a gente não tá falando com
ninguém específico, mas com todo mundo. Sei lá... Adam Smith...
- O Pai da Economia? Então bota Albert Einstein de uma vez!
- Calma, gente...
- Eu acho que tem que ser um nome raro, incomum, não precisa
ser americano, nem europeu, nem o raio que o parta... pode ser brasileiro
mesmo... mas um nome mais difícil, aí a gente não corre o risco de ter alguém
na sala de reunião com esse nome pra encrencar com ele. Algo na linha de
Adherbaldo Franciscus.
- Acho que não. Se o nome for ridículo demais, inusitado
demais, o cliente vai ficar a reunião inteira prestando atenção nele e nem vai
olhar pro resto da peça.
- Ei, ei! Gente, gente! Estamos perpetuando uma atitude
machista do nosso mercado de trabalho. Nunca ninguém pensou num nome de mulher.
E vocês sabem mais do que ninguém que as mulheres estão se emancipando e
ocupando os mais altos cargos numa empresa que antes só era privilégio dos
homens.
- Calma, Martha... não é nada disso... é que, quer queira
quer não, a maioria dos nossos clientes são homens. A gente tentou marcar com
um nome feminino na última campanha e o cliente gongou a peça, lembra disso?
- Eu acho que a gente devia usar o bom e velho Nonono.
- Muito anos 80.
- Eu sempre usei o nome do meu dupla pra marcar as peças:
Érico FUCKS kkkkk
- Pronto, começou o bullying...
- Por que não usar nome de famoso, pra mostrar que é só
marcação de layout? Sílvio Santos, Fernando Henrique, Erasmo Carlos...
- Eu acho que a gente devia usar Adriano Gonzaga.
- Eu iria pruma coisa mais coloquial, pra deixar a
comunicação mais moderna: Beto Keller.
- Acho Diego Savassi bem legal.
- Gosto de Fernando Von Beckenbauer.
- Ricardo Moreira.
- Rodrigo Lopes.
- Eusébio da Paixão! Raquel Pedreira!
- Adilson Bartelli Thiago Pompeu Roberval Taylor Adolfo
Brickman Giancarlo Madeira Raoni Tavares Rogério Villaça Gilson Campos Júlio
César Azevedo Amauri de Souza...
E aquele barulho se formou. 250 nomes, nenhum consenso.
E os dias se passaram. E os meses se passaram. Até que, numa
manhã qualquer, o presidente da agência recebe um e-mail falando que uma
campanha deles entrou para o short list de uma premiação de comunicação
dirigida. O texto da peça começa assim:
“Caro XXXXXXXXXXXXXX, você foi o ganhador da promoção Sorte
em Dobro”.
terça-feira, 12 de abril de 2016
Enquanto durarem os estoques
No último fim de semana, recebi um tabloide de ofertas de um
supermercado e fui pras compras. Chegando lá, vejo que um dos produtos
anunciados estava em falta. Reclamei com a gerente e ela, num tom arrogante,
disse laconicamente: “enquanto durarem os estoques”. Parece que, para o réu,
essa frase é a salvação da lavoura. Ela blinda toda e qualquer eventual queixa
do consumidor nos órgãos competentes. São os nefastos dizeres que protegem a
relação unilateralmente. Parecia que a funcionária blasé apertou aquele botão
da defesa magnética que tinha nos consoles do Atari. Um tipo de escudo
invisível, um tapume mercadológico que esconde as picaretagens e pegadinhas da
publicidade.
Na hora, fiquei puto. Fui atraído por uma coisa que não
existe. Mas, pensando com um pouco mais de frieza, cheguei à conclusão de que
essa frase, de tão genérica e evasiva, acaba não explicando nada e servindo de
muleta para uma série de situações. Acho que também vou adotar essa
insensibilidade jurídica no meu dia a dia, já que o tal supermercado se vê
imune ao proferir tal enunciação.
Textos brilhantes, enquanto durarem os estoques de ideias
criativas.
Ideias criativas, enquanto durarem os estoques de
referências inusitadas.
Referências inusitadas, enquanto durar o estoque de tempo
livre.
Amor incondicional, enquanto durar o estoque de paixonite
aguda.
Simpatia e prestatividade, enquanto durar o estoque de
paciência.
Baladas badaladas, enquanto durar o estoque do saldo
bancário.
Poder de argumentação, enquanto durar o estoque de saliva.
150 abdominais, enquanto durar o estoque de ar nos pulmões.
Sorriso charmoso, enquanto durar o estoque de creme antioxidante.
Programa de índio de madrugada, enquanto durarem os estoques
de psicotrópicos.
Bater panela, enquanto durarem os estoques de panelas.
Socar o inimigo, enquanto durar o estoque de adrenalina.
Críticas contundentes, enquanto durar o estoque de humor
ácido.
Humor ácido, enquanto durarem os estoques de situações
medíocres.
Comer doces, enquanto durar o estoque de ácido clorídrico no
estômago.
Declarações românticas, enquanto durar o estoque de amor
sofrido.
Contestações inflamadas, enquanto durar o estoque de
combustível.
Frases dentro de um mesmo tema... acabou o estoque.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Eu quero
Quero acordar uma hora mais tarde.
Quero queijo brie no restaurante por quilo.
Quero ter um milhão de retweets.
Quero receber o 14º salário.
Quero ficar 10 anos mais jovem.
Quero voltar a fazer stand-up.
Quero menos fofoca na família.
Quero menos fofoca no trabalho.
Quero um novo Presidente pro país.
Quero outono o ano inteiro.
Quero que o dólar volte a 1 X 1 em relação ao Real.
Quero mais likes e menos blocks.
Quero a volta dos bens duráveis.
Quero ser o último entrevistado do Programa do Jô.
Quero o fim da palavra 'gourmet'.
Quero ver um show do Supersuckers no Brasil.
Quero comer a Geisy Arruda. Só comer.
Quero conhecer uma pessoa legal por dia.
Quero o fim da obrigatoriedade do voto.
Quero menos pane no metrô. E menos pânico também.
Quero ficar no máximo 10 minutos na sala de espera do consultório.
Quero que a crítica de Cinema não entre em extinção.
Quero que a corrupção seja considerada um crime hediondo.
Quero ouvir mais 'let's make love' e menos 'let's talk'.
Quero aprender a gostar de cerveja.
Quero voltar a gostar de Chantibon.
Quero ganhar um beijo na boca e, quem sabe, em outras partes duras do meu corpo.
Quero pagar a metade do preço em um ovo de Páscoa e, de tanto querer, já nem sei mais o que quero.
Quero queijo brie no restaurante por quilo.
Quero ter um milhão de retweets.
Quero receber o 14º salário.
Quero ficar 10 anos mais jovem.
Quero voltar a fazer stand-up.
Quero menos fofoca na família.
Quero menos fofoca no trabalho.
Quero um novo Presidente pro país.
Quero outono o ano inteiro.
Quero que o dólar volte a 1 X 1 em relação ao Real.
Quero mais likes e menos blocks.
Quero a volta dos bens duráveis.
Quero ser o último entrevistado do Programa do Jô.
Quero o fim da palavra 'gourmet'.
Quero ver um show do Supersuckers no Brasil.
Quero comer a Geisy Arruda. Só comer.
Quero conhecer uma pessoa legal por dia.
Quero o fim da obrigatoriedade do voto.
Quero menos pane no metrô. E menos pânico também.
Quero ficar no máximo 10 minutos na sala de espera do consultório.
Quero que a crítica de Cinema não entre em extinção.
Quero que a corrupção seja considerada um crime hediondo.
Quero ouvir mais 'let's make love' e menos 'let's talk'.
Quero aprender a gostar de cerveja.
Quero voltar a gostar de Chantibon.
Quero ganhar um beijo na boca e, quem sabe, em outras partes duras do meu corpo.
Quero pagar a metade do preço em um ovo de Páscoa e, de tanto querer, já nem sei mais o que quero.
Apartamento
A crise não tá fácil pra ninguém.
Recebi um encarte de lançamento de um empreendimento imobiliário falando que, ao visitar o stand de vendas, eu ganharia um relógio. Não precisaria comprar nada, nem dar sinal. Era só visitar o local, falar com o corretor e retirar o brinde na saída.
Meu interesse pelo produto era, digamos, mediano. Mas, como era perto de casa e tinha o atrativo do aparato de pulso, lá fui eu. Cheguei lá, comi uns salgadinhos, prestei atenção na maquete como aluno de excursão presta atenção em bicho pré-histórico de museu, fiz algumas perguntas com cara de conteúdo, deixei meus dados de contato e saí com meu presente.
Pensando com um pouco mais de parcimônia, declinei da compra. Mas você sabe como é. Uma vez transmitidos seus contatos a um corretor, ali pra todo o sempre eles ficam. Não só a pessoa que te atendeu diretamente no dia, mas eles repassam seus dados a outros corretores.
Fui recebendo telefonemas, e-mails, spams e SMS de outros empreendimentos. Demonstrei desinteresse em todos. O último veio por WhatsApp. Imaginei se tratar de uma pessoa com mais experiência no ramo - e mais idade. Assim como a pessoa que me atendeu no local. Curioso, abri a foto e me deparei com uma gatíssima, tatuada, cabelos longos, lábios bem delineados. Ainda que sua beleza dividisse opiniões, resolvi responder a mensagem. Parti para metáforas que nada tinham a ver com a opção de compra. Falei da área útil, do playground, da hidromassagem e, quem sabe, do jantar à luz de velas na varanda gourmet. O retorno, é claro, foi nulo.
Pelo menos de uma coisa eu sei. Agora são, exatamente, 16h47.
Recebi um encarte de lançamento de um empreendimento imobiliário falando que, ao visitar o stand de vendas, eu ganharia um relógio. Não precisaria comprar nada, nem dar sinal. Era só visitar o local, falar com o corretor e retirar o brinde na saída.
Meu interesse pelo produto era, digamos, mediano. Mas, como era perto de casa e tinha o atrativo do aparato de pulso, lá fui eu. Cheguei lá, comi uns salgadinhos, prestei atenção na maquete como aluno de excursão presta atenção em bicho pré-histórico de museu, fiz algumas perguntas com cara de conteúdo, deixei meus dados de contato e saí com meu presente.
Pensando com um pouco mais de parcimônia, declinei da compra. Mas você sabe como é. Uma vez transmitidos seus contatos a um corretor, ali pra todo o sempre eles ficam. Não só a pessoa que te atendeu diretamente no dia, mas eles repassam seus dados a outros corretores.
Fui recebendo telefonemas, e-mails, spams e SMS de outros empreendimentos. Demonstrei desinteresse em todos. O último veio por WhatsApp. Imaginei se tratar de uma pessoa com mais experiência no ramo - e mais idade. Assim como a pessoa que me atendeu no local. Curioso, abri a foto e me deparei com uma gatíssima, tatuada, cabelos longos, lábios bem delineados. Ainda que sua beleza dividisse opiniões, resolvi responder a mensagem. Parti para metáforas que nada tinham a ver com a opção de compra. Falei da área útil, do playground, da hidromassagem e, quem sabe, do jantar à luz de velas na varanda gourmet. O retorno, é claro, foi nulo.
Pelo menos de uma coisa eu sei. Agora são, exatamente, 16h47.
quarta-feira, 30 de março de 2016
Voto nulo
Diante do atual e decepcionante quadro político, estou cada vez mais convicto e propenso a votar nulo. Sou eleitor há praticamente 30 anos e devo ter anulado meu voto uma ou, no máximo, duas vezes. Veja o que eu acho sobre o assunto:
- Voto nulo não é sinal de protesto, é sinal de tristeza.
- Voto nulo não é opção, é falta de.
- O voto nulo é o retrato mais patético da obrigatoriedade do voto.
- O voto nulo é a consequência máxima do desgosto e desencanto da população.
- Voto nulo em nada tem a ver com anarquia, pois o sistema eleitoral não permite essa possibilidade.
- O voto nulo é o caminho mais perigoso e desiludido daqueles que acham que nenhum político presta.
- O voto nulo é o resultado da total descrença nas instituições políticas brasileiras.
- O voto nulo é a democracia descendo ladeira abaixo.
- O voto nulo é a resposta mais imediata de uma sociedade em estado de ebulição.
- O voto nulo é a constatação mais deprimente de que, diante de um quadro de milhares de parlamentares, nenhum deles representa o povo.
- E, pra concluir, o voto nulo é um ato de suicídio disfarçado de extermínio em massa.
- Voto nulo não é sinal de protesto, é sinal de tristeza.
- Voto nulo não é opção, é falta de.
- O voto nulo é o retrato mais patético da obrigatoriedade do voto.
- O voto nulo é a consequência máxima do desgosto e desencanto da população.
- Voto nulo em nada tem a ver com anarquia, pois o sistema eleitoral não permite essa possibilidade.
- O voto nulo é o caminho mais perigoso e desiludido daqueles que acham que nenhum político presta.
- O voto nulo é o resultado da total descrença nas instituições políticas brasileiras.
- O voto nulo é a democracia descendo ladeira abaixo.
- O voto nulo é a resposta mais imediata de uma sociedade em estado de ebulição.
- O voto nulo é a constatação mais deprimente de que, diante de um quadro de milhares de parlamentares, nenhum deles representa o povo.
- E, pra concluir, o voto nulo é um ato de suicídio disfarçado de extermínio em massa.
quarta-feira, 9 de março de 2016
Concorrência
A mulher resolve abrir concorrência. Sua antiga
agência-namorado se acomodou em fórmulas antigas, rotinas viciadas, longos
prazos para a execução de tarefas e não atendia mais suas necessidades e
expectativas. Solteira há intermináveis 12 dias, decide pedir ajuda a
aplicativos, amigos e baladas para encontrar seu novo porto seguro.
O homem-agência resolve participar do processo de
concorrência promovido pela mulher-cliente. Entra na página de seu blog para
pegar o briefing. Manda mensagem anunciando interesse e é selecionado para
apresentar, em local neutro e num curtíssimo espaço de tempo, todas as suas
qualidades e competências.
Entusiasmado, o homem-agência volta para sua agência-casa e
começa a pensar de que forma poderia não só atender, mas também fazer brilhar
os olhos da mulher-prospect. Pede conselhos a amigos, contrata freelas, vara
noites e devora pizzas. Tudo isso para acelerar o divino momento máximo de
inspiração. Procura em sua agenda todo o histórico de ex-namoradas para que
isso quem sabe possa servir de portfólio. Elimina quase a metade desse
histórico. Numa luta contra si mesmo, insiste no labor criativo de encontrar,
quase que por encanto, a fórmula para essa tão utópica conquista. O homem-bureau
estava bastante convicto da força de seus adversários-obstáculos: homens
endinheirados por multinacionais, másculos barbados e marombados, gigantes pela
própria natureza, hipsters, descolados, matemáticos com QI de uma dúzia de
golfinhos. Pensando bem, tira os hipsters da concorrência.
Sabe aquela inquietude, uma mistura de raiva e sono? Então.
Era nesse estágio que o homem-azarão se encontrava quando, finalmente, alcançou
a magnitude de solucionar o caso com aquela espetacular mentira photoshopada
que os colegas de mercado chamam de “conceito”. E foi com essa linha-mestra de
manipulação estética que o homem-desespero decidiu conquistar a
mulher-a-fila-anda.
Chegou o dia do encontro. Reunião de apresentação de
campanha marcada para as 14h. Lá na puta que pariu. Homem-pontual chega às 14h
e espera no lobby. “Quer um café, uma água...?”. É a pergunta que tem como
significado oculto “ela vai demorar pra caralho”. Dito e feito. Reunião começa
pontualmente com 1 hora de atraso. É a prova de resistência, o primeiro quesito
para avaliar o real interesse do homem pela mulher-concorrida.
Entram numa sala. Obviamente, o homem-convencido apresenta
sua larga experiência na conquista do sexo oposto. Omite detalhes obscuros de
sua vida e estampa, em grande angular, seus esporádicos cases de sucesso. Finaliza
o discurso com a ladainha de que está sempre preparado para o novo. E chama ela
de especial, única, exclusiva. Claro que ele fala isso para todas as
concorrências, mas ela não precisa ficar sabendo disso. No fundo, ela sabe.
“Ameeeeeii”, declara a cliente-fófis, fazendo aquele icônico
gesto de junção de polegares e dedos da mão, tão singelo quanto batido.
Aproxima esse coração-símbolo ao peito e, num tom de mistério, diz que vai pensar
sobre o assunto e que tem outros homens para avaliar. Num gesto de despedida
com um pingo de esperança, o homem rouba um beijo rápido da mulher. Apenas para
ter a momentânea sensação de vitória.
Passam-se alguns dias, noites, e nada. O homem-aflito liga,
manda e-mails, WhatsApp. Até que, vencendo pela insistência, recebe a resposta:
“Parabéns! Você ganhou a concorrência”.
Hora de comemorar. A mulher-prospect estava ganha. Agora vem
o job.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Cinemark
Tem muita coisa errada. Todo dia nos defrontamos com o erro. Erro no valor da conta, cobrança indevida, funcionários mal preparados, atrasos em prestação de serviços, produtos com defeito, e por aí vai. Mas, proporcionalmente ao número de falhas, de qualquer natureza, os casos de reclamação são raros. Não estou falando dos protestos, ou da geladeira queimada, ou do Sedex não entregue. Mas as situações corriqueira, "bobas", do dia a dia. O ônibus que não passa no horário. A demora no atendimento bancário. A fila que não anda na bilheteria do cinema. De um modo geral (desculpe-me a generalização), parece que o brasileiro se acomodou. Fica a sensação de que não adianta nada, ou o esforço é muito maior do que a recompensa.
Nas inúmeras vezes em que fui ao Cinemark, digamos que em quase metade delas tive problemas com agilidade das filas. Em diversos locais, horários, dias da semana. Nunca vi uma alma viva chiar. Deveria, claro, nunca mais frequentar qualquer cinema desta rede. Mas, com o monopólio da rede, o domínio imperial que massacra o cinema de rua e faz com que alguns filmes estejam passando somente nessa rede, não me restam muitas opções. E foram muitas, mas muitas vezes em que chamei o gerente para que alguma providência no futuro pudesse ser tomada a fim de sanar possíveis eventualidades. Parece que ninguém me ouviu.
Hoje, 5 de fevereiro, saiu uma reclamação minha no Guia da Folha de São Paulo sobre a demora no atendimento das filas e as respostas protocolares da assessoria de imprensa, que parece copiar e colar a mensagem sem sequer consultar as bases do erro. É a quinta reclamação minha publicada no folhetim. Todas elas, claro, tendo como alvo o Cinemark, campeão absoluto e isolado de reclamações de tal publicação. Para se ter uma ideia, saiu hoje também uma outra reclamação de uma outra leitora. Na maioria dos casos, a porta-voz da rede se desculpa e oferece um ingresso-cortesia como forma de minimizar o constrangimento ou tentar sanar de alguma maneira o transtorno causado. É uma atitude simpática, que evita a proliferação de uma imagem denegrida da rede, muito embora poucas providências concretas tornam-se visíveis.
Muito provavelmente, tudo vai continuar exatamente do jeito que está. Enquanto houver filas quilométricas e consumo desenfreado de ingressos, pipocas, bebidas e guloseimas, o Cinemark tá cagando pra mim e pro Guia. Mas eu fiz a minha parte. Não vou mudar em nada a atitude prepotente deles, mas ao menos consegui a atenção de você, leitor, que talvez irá repensar onde ver seu próximo filme. É mais do que provado que em nada me agrada esse cinema que nasceu arrogante, tornou-se bebê mimado, cresceu bagunceiro e, agora que completa 18 anos, torço muito para que chegue à maioridade com a maturidade necessária e o profissionalismo desejado. Caso contrário, continuarei reclamando quantas vezes forem necessárias, vide a texto publicado no Guia de hoje. Desta vez, sem ingresso-cortesia pra me fazer calar a boca.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Amor fast-food
- Boa tarde, senhor. Bem-vindo ao Moulin Rouge. Qual o seu
pedido?
- Oi... eu queria aquela promoção...
- Qual promoção? Ruivinha fogosa, morena caliente ou
gordinha mega big sexy?
- Hmmm, você me pegou... Qual é a que sai mais?
- Ruivinha fogosa tem saído bastante. Vai querer ela?
- Pode ser.
- Como o senhor vai querer?
- Como assim?
- Boceta raspada, peluda ou bigodinho?
- Bigodinho.
- Com anal ou sem anal?
- Sem.
- Fio-terra acompanha, senhor?
- Não, de jeito nenhum.
- OK... algo mais?
- Loira de entrada pra fazer um boquete, pode ser?
- Pode, sim senhor. Temos essas opções aqui.
(Atendente mostra ao cliente uma cartela com as imagens:
loira platinada, falsa loira, loira 100% e loira peituda com uma tarja sobre a
imagem escrito “esgotado”).
- Vou querer essa aqui (cliente aponta para a imagem
desejada).
- Perfeito. Algum acompanhamento, senhor?
- O que vocês têm?
- Vibrador, chicotinho, meia-nove, beijo grego, calcinha
comestível, ménage, SM, facial, gangbang, bizarro...
- Vou querer beijo na boca.
- Hmmm, senhor... beijo na boca a promoção encerrou semana
passada.
- Que pena... então é só isso mesmo.
- Vai comer agora ou é pra viagem?
- Agora.
- OK. CPF na nota?
- Por favor.
- Pode falar.
(Cliente fornece os números do CPF).
- Forma de pagamento: crédito ou débito?
- Vale-refeição.
- Só inserir o cartão.
(...)
- Forma de pagamento: crédito ou débito?
- Vale-refeição.
- Só inserir o cartão.
(...)
- OK. Tá aqui sua comanda, senha 236. Camisinha e sabonete
ali no balcão. Tenha uma ótima refeição. Obrigado e volte sempre.
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