sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Por quê?

Por que as pessoas dão nome pra cachorro mas chamam ele pelo apelido?
Por que o limão nunca é da cor verde-limão?
Por que a gente dá parabéns quando a pessoa fica mais velha?
Por que a Av. Brig. Luís Antônio é conhecida por Brigadeiro e a Av. Brig. Faria Lima é conhecida por Faria Lima?
Por que paulista só dá um beijinho no rosto? E por que sempre do lado direito?
Por que os estabelecimentos com a plaquinha “facilite o troco” sempre têm mais troco do que os estabelecimentos sem plaquinha alguma?
Por que os postos de gasolina mais próximos sempre estão fechados quando o tanque tá na reserva?
Por que “um minutinho” demora muito mais do que 60 segundos? E por que “tô esperando há meia hora” é bem menos do que 30 minutos?
Por que as pessoas gritam quando acaba a luz durante o dia e cochicham quando acaba a luz à noite?
Por que a estação de metrô Consolação fica na Av. Paulista e a estação Paulista fica na R. da Consolação?
Por que a caixa preta do avião é da cor vermelha?
Por que mulher que diz “não” quer dizer “sim” e quando diz “sim” quer dizer “vou pensar”?
Por que a chave da porta de sua casa é sempre a última do molho?
Por que a pessoa que fala “aparece lá em casa” jamais quer que você apareça lá na casa dele?
Por que dizem que rir é o melhor remédio, mas vendem saco de gargalhadas em loja de mágicas em vez de vender em farmácia?
Por que a gente chama os amigos de “mano” e “brother” mas não chama os irmãos dessa maneira?
Por que as pessoas ainda falam “cair a ficha” sendo que ninguém mais usa ficha? E por que essas pessoas ainda falam “muda o disco”?
Por que ninguém sabe onde a R. Vergueiro começa e onde ela termina? E por que ela muda de nome num trecho bem no meio do trajeto?
Por que a gente costuma dizer que a grama do vizinho é mais verde, sendo que a casa dos nossos vizinhos não tem grama?
Por que a gente afina a voz quando conversa com bicho? Aliás, por que a gente conversa com bicho?
Por que quando a gente entra num motel a primeira coisa que faz é ver se o rádio funciona? E por que ele nunca funciona?
Por que a gente comemora o réveillon à meia-noite do dia 31, sendo que é horário de verão?


sábado, 6 de agosto de 2016

Tinder

Mais uma enquete. Mais uma pesquisa de opinião sobre o Tinder. Tô ficando repetitivo, mas até aí foda-se. Melhor do que ficar elogiando a abertura dos Jogos Olímpicos. Vamos ao veredito:

Entro no aplicativo, rola um match, trocamos algumas conversas, marcamos um encontro. Nada muito avançado ou pretensioso. Algo como um café, um sorvete, um cinema. No meio do papo, a pessoa solta um "acho que vou voltar pro meu ex". Daí você conclui que:

a) Ela de fato pretende reatar com seu ex. Em suas perambulações cibernéticas constatou que, apesar das inúmeras brigas, o ex é infinitamente superior a esse bando de loucos, drogados e putanheiros que frequentam sites de relacionamento.
b) Ela está apenas sondando o ambiente, fazendo uma pesquisa de mercado, avaliando tendências comportamentais. Um estudo antropológico. Não quer definir nada de imediato, por impulso. Prefere o amadurecimento das ideias. É que nem mulher que vai comprar roupa em shopping: JAMAIS ela fecha negócio na primeira loja que entra.
c) Ela está, digamos, "se fazendo de difícil". Valorizando seu passe. Trazendo mais elementos para que a conquista seja verdadeira e sua escolha seja mais assertiva. Incentivando o seu mecanismo propulsor das súplicas de amor. Mencionar o ex, neste caso, funciona como uma espécie de provocação para você sair de sua zona de conforto. Indiretamente, ela quer despertar o lado Jane e Herondi dentro de você: "Não se vááá... / Não me abandone por favooor...". Do ponto de vista prático: ela está pedindo nas entrelinhas para você escrever uma poesia, oferecer flores, declamar Rimbaud de cor e salteado, fazer um curso de Gastronomia e adotar um Labrador.
d) Ela simplesmente não sabe brincar. Entrou no Tinder só por curiosidade, gostou de algumas pessoas, se encheu, tentou sair, não conseguiu, voltou com o ex, tentou novamente apagar o perfil mas esqueceu a senha, brigou com o ex, tentou voltar pro aplicativo mas alguma coisa deu pau, voltou com o ex mas deixou o perfil invisível, esqueceu o celular na Linha Amarela do metrô, trocou de celular, perdeu todos os contatos, voltou pro Tinder sem os contatos, mudou o perfil, deu erro de configuração, foi pro POF, voltou pro ex antes do ex, saiu do POF e, hoje, sua vida é um erro de configuração. Não é à toa que ela demorou mais de 20 dias pra te dar um "oi". O encontro de vocês foi um sintoma de um delay. Entre uma passagem de cena e outra, muita coisa aconteceu.
e) Ela é uma mundana. Terminou com o ex mas de vez em quando tira o atraso com ele, arrumou um outro provisório mas não sente nada por ele, apaixonou-se por um inacessível do trabalho, casado e muito mais velho e, pra não tentar resolver a barca furada em que se meteu, usa o Tinder como um gancho de aventuras e um suporte para se autoafirmar. Tudo muito rápido e volátil. O hoje é diferente do ontem. Falar que vai voltar pro ex é mostrar que você foi lerdo. Não percebeu nem soube aproveitar a deixa de 4,5 segundos que ela te deu. Agora, meu caro, a fila anda. Seu número de sorte 387 expirou. É que nem senha do Spoleto em praça de alimentação, saca?
f) Ela é insegura, tem medo de tomar decisões, demora muito pra fazer escolhas, tem medo de fazer escolhas erradas, mas também tem medo de não fazer escolha nenhuma. Ela não sabe o que quer. Mulher nenhuma sabe o que quer.
g) Aquele selfie com cara de intelectual que você tirou na Livraria da Vila até que despertou nela um certo interesse. Mas, no mundo real das relações, ela não foi com tua fuça. Além de mala e coxinha, você não tem sex appeal algum. Ela nem se deu ao trabalho de caprichar na criatividade da desculpa. Usar esse eufemismo desgastado soa tão patético e improvável quanto "vou sair para comprar cigarros".

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Esquadrão Suicida

Por Antonio Carlos C. Junior



Trata-se de um ótimo filme, com um inicio bem frenético. E um final surpreendente. Enredo bem amarrado, com uma breve descrição de cada personagem. Ótimo para quem não conhece o universo DC.

O carisma dos personagens também é muito bem explorado. Tive uma primeira impressão de terem focado muito no pistoleiro (Will Smith) achando que poderia rolar uma “willsmithzação” mas, no decorrer do filme, eles souberam dar bastante ênfase em todos os heróis/anti-heróis.

Como eu já imaginava, os dois protagonistas que souberam cativar bastante o publico com certeza foram o Coringa (Jared Leto) e sua namorada, Arlequina (Margot Robbie), trazendo uma pitada de insanidade e comédia à trama.

Sobre as especulações referentes ao filme, esqueçam. É um ótimo passatempo com alguns easter eggs dos próximos lançamentos do universo DC e também dos que já estrearam, como é o caso do Batman X Superman (um leve spoiler: no final pós-créditos, uma cena alusiva ao filme). Esquadrão Suicida é espetacular, com alguns momentos de adrenalina misturados a piadas e muita insanidade. Realmente, a DC vem se superando cada vez mais.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Protozoários

Trabalho escolar para fazer em casa. Pesquisa sobre protozoários.

Anos 50: você pega emprestado o Thesouro da Juventude de sua avó e procura o verbete no índice. Encontra o verbete no último dos 32 volumes da coleção.

Anos 60: você vai até uma biblioteca pública, pega dezenas de livros, pega outros tantos que nada têm a ver com a pesquisa, devora Kant, apaixona-se por Sartre, decora Marx e sai de lá líder do movimento estudantil.

Anos 70: você vai até uma biblioteca pública, participa de um sarau, descobre a maconha, transa com uma riponga na prateleira de Kerouac e sai de lá ator de teatro.

Anos 80: você paga o CDF da classe pra fazer a pesquisa com o dinheiro de sua mesada e passa a tarde modelando seu cabelo com gel antes de ir pro fliperama.

Anos 90: você descobre a existência do Google. Encontra 147.213 resultados para sua busca, gasta 80% do tempo tentando se reconectar à internet por conexão discada, copia e cola o texto da página UOL Ciência e passa o restinho da tarde vendo MTV.

Anos 2000: você cria uma comunidade no Orkut com o tema, recebe 537 comentários, copia e cola a resposta mais longa e prolixa e passa o resto da tarde no chat do ICQ.

Anos 2010: você não só se recusa a fazer a pesquisa como também questiona a existência dos protozoários e cria um grupo no WhatsApp com seus colegas de classe para fazer um motim exigindo a demissão do professor que utiliza métodos arcaicos e discriminatórios para explicar a origem da vida na Terra.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Smartphone

Situação: você está sem relógio.
Objetivo: ver as horas pelo seu smartphone.
Ação: tira o celular do bolso. Percebe uma ligação perdida de um número desconhecido. Abre pra ver o horário da ligação. Foi de madrugada, deve ter sido engano ou trote. Começa a receber mensagens de WhatsApp. Entra numa das conversas e responde. pro seu amigo. Ao mesmo tempo, recebe inúmeras outras de um grupo do qual você deveria deixar de participar há tempos. Deleta todas. Bota o grupo no silencioso. Fecha o Whats. É notificado de alteração de itinerário de uma linha de Campinas pelo Moovit. Ignora a mensagem. Recebe outro Whats. Tenta ler a mensagem inteira pela tela inicial. Não consegue, ela se apaga. Entra de novo no aplicativo. Lê na íntegra a mensagem de seu colega de trabalho avisando que vai chegar mais tarde. Responde laconicamente. Recebe uma mensagem da operadora informando de acréscimo do dígito 9 na região de Nossa Senhora das Dores do Montemor. Apaga a mensagem. Entra de novo no Whats. Vasculha sua lista pra se certificar de que ninguém te excluiu ou apagou a foto. Dá uma stalkeada na foto daquela amiga de leve. Volta. Entra no Instagram. Olha as 5 primeiras fotos, e só. Adiciona as 7 pessoas que acabaram de entrar. Sai do Insta. Entra no Facebook. Visualiza as principais notificações do dia. Tenta mandar mensagem pro amigo que não tem Whats. A conexão dá pau. Volta pro Whats, só pra ver se tem alguma novidade. Nada de novidade. Desliga o celular. Guarda no bolso.
Esquece de olhar as horas.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tempo e espaço

De acordo com a Teoria da Relatividade, tempo e espaço são uma unidade geométrica unificada e estão profundamente entrelaçados.

A partir desse conceito, muita coisa pode mudar no nosso cotidiano e nas nossas relações pessoais. Por exemplo: quando sua namorada diz “acho que é melhor a gente dar um tempo”, talvez ela esteja se referindo a uns 3 quilômetros e 250 metros. Se o tempo dela é um eufemismo para encobrir algo mais drástico, como “nosso amor acabou”, é sinal de que, no fundo, ele corresponda a cerca de 4.213.827 quilômetros. Mais ou menos como ir daqui até o Acre. Ou voltar para 1980.

Entristecido, você recorre ao Tinder, ao POF ou qualquer outro aplicativo-cardápio. Vasculha as opções disponíveis, até que encontra uma pessoa praticamente 100% compatível, não fosse por um detalhe: ela é 22 quilômetros e 5 metros mais velha que você.

Mais um exemplo. Vamos supor que finalmente apareça outra namorada, que vive reclamando de que “você não me dá espaço”. Nessas horas, muita calma. Faça uma surpresa. Chegue em casa e dê a ela 2 horas e 47 minutos. Ah, junto com uma caixa de bombons.

Pronto, tudo certo. Então vocês decidem ter filhos. Quando ele completa 7 quilometrinhos, resolvem viajar de carro pra Poços de Caldas. Todo mundo um dia na vida vai pra Poços de Caldas. Durante TODO o caminho, seu belo e formoso garoto pergunta: “falta muito?”. Aí é que a coisa pega. É a primeira crise séria do casal. Você, o pai autoritário da história, diz: “uns 30 quilômetros, não enche”. Sua esposa, um pouco mais liberal, responde por cima: “calma, Diego. Daqui a 40 minutos a gente tá chegando”. E o filho mais uma vez foi o protagonista de um terremoto familiar. É, criança é esperta mesmo.

Quer mais crise? Outra cena. Imagine aquele frio. Não um frio qualquer. Um puta frio. Você chega em casa cansado, come qualquer coisa e se enfia debaixo das cobertas. Sim, vai direto dormir. A essa altura do campeonato, o sexo só ocorre a cada 680 metros. No meio da madrugada, sensação térmica de uma caveira chupando Halls extraforte, sua mulher puxa para si toda a lã existente sobre os lençóis. Aquela imaginária linha de Tordesilhas que divide a cama ao meio, esquece. Semanas depois, vocês discutem a relação e terminam um relacionamento de mais de 400 quilômetros de alegrias por causa de 18 minutinhos de cobertor.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Cochichar não vale

Aqui em São Paulo, num chamado "cinema de arte", a vinheta com aquelas informações de segurança orienta os espectadores a não falar durante a sessão, mas depois o locutor faz uma equivocada ressalva: "cochichar vale". Como assim, cochichar vale? Desde quando?

Sobre esse assunto, sou mais extremista que o Estado Islâmico. Ou berra, ou cala a boca. Ou é preto, ou é branco. Nada de ficar inventando tons de cinza para diminuir o impacto da atitude. Tudo bem que falar alto incomoda muita gente. Chutar a cadeira também. Tossir, idem. Barulho de saco de pipoca, papel de bala, holofote de smartphone, a mesma coisa. Mas tenho certeza de que o cochicho é uma invenção de novo-rico. Aquele povinho que vai ao cinema, ao teatro, ao concerto, quer atrapalhar a sessão o mínimo possível mas não aguenta segurar o comentário até o fim do espetáculo. Um comportamento supostamente delicado, mas tão desrespeitoso e anticivilizatório quanto. Cochichar é tão jeca quanto comer frango de talher. É que nem tomar banho morno.

Imagine duas situações possíveis, totalmente enquadradas no seu dia a dia cinematográfico. Situação 1: você está confortavelmente instalado em sua poltrona, o filme está para começar, o público aparentemente tranquilo. Faltando exatos 14 segundos para o início da sessão, surge uma horda de adolescentes gritando, derrubando pipoca no chão, acendendo smartphone, contando piada, rindo alto. Por um acaso do destino, resolvem se sentar na mesma fileira que você, ocupando-a de cabo a rabo. Antes que o filme de ação se transforme num mercado persa, você emite um sonoro SHHHHHH, tipo freada de ônibus de excursão, saca? Se continuarem a balbúrdia, você troca a onomatopeia implícita na desinência por um ululante SILÊÊÊNCIO, só pra ver se a porra da Geração Y se assusta. Provavelmente, vão continuar chutando o pau da barraca. Aí, você discretamente pega o copo de refrigerante do comparsa ao seu lado, derruba "sem querer" o líquido em sua perna e faz um hipócrita pedido de desculpas.

Situação 2: primeira sessão do dia, 13h30, sala ocupada predominantemente por velhinhas. A maioria, num estágio avançado de surdez. O lugar é o Reserva Cultural, mas poderia ser o Itaú Frei Caneca, o Bristol ou o Cinesesc. Aquilo é metalinguagem pura. Desde o momento em que adentram a sala, as senhorinhas descrevem a dificuldade de enxergar no escuro. Depois, reclamam da dificuldade de descer as íngremes escadas. E, por final, quando se sentam em seus lugares, narram to-das-as-ce-nas do filme em questão. Com direito a reprodução de diálogos, comentários e até um ou outro "não entendi". Você, então, faz a mesma coisa da situação 1: SHHHH. Obviamente, elas não vão ouvir. Pede silêncio. Elas vão achar que é personagem extracampo do filme. Aí, não tem jeito. Num caso irremediável desse, você se vê obrigado a despertar a besta-fera que há dentro de você. Olhe fixamente para elas, faz cara de possuído pelo demônio, tente dar um giro de 180º em seu pescoço, deixe a voz rouca e fale "doce de abóbora" de trás pra frente. Não tem erro: elas não vão dormir por uma semana. Se, mesmo assim, por uma razão inexplicável da natureza o falatório continuar, chegue em casa à noite e reze. Vai por mim. Quando se reza, as coisas acontecem.

Nos dois exemplos acima, a situação é chata, mas contornável, ainda que a duras penas e com uma certa dificuldade e dose de paciência. Você detecta o alvo, mira o alvo e solicita um pingo de silêncio e de cidadania ao alvo. Com o cochicho é diferente. Você não sabe direito de onde ele vem. É aquela massa amorfa de ruídos. É um disparo cometido por autor desconhecido. Parece uma nuvem de pernilongos que paira no ar. E o que dá mais raiva é aquele amontoado incompreensível de sílabas repletas de "p" e de "b". Em vez de pipoca e Halls, os cinemas deviam vender raquete elétrica na entrada. Por uma questão de princípios. E pra tentarmos exterminar essa raça de himenópteros que se acham intelectuais.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Namorados

Sou mesmo um cara de sorte. No Dia dos Namorados, não vou precisar enfrentar filas de shopping para procurar aquele perfume dito "exclusivo", junto com outras dezenas de namorados procurando exatamente o mesmo perfume, todos eles tão exclusivos quanto eu. Não vou me dar ao trabalho porque, na verdade, nem preciso comprar o presente. Não preciso comprar o presente porque, na verdade, não estou namorando. Logo, o meu não-presente é totalmente dedicado a você, que me bloqueou do WhatsApp e postou fotos no Instagram acompanhada de um sarado, alegando que estava a fim de ficar um tempo sozinha.

Para o próximo Dia dos Namorados, fiz questão de não reservar aquela mesa no bistrô pensando em você, que da última vez reclamou que meu gosto para roupas e para música é péssimo. Portanto, demorei horas para não escolher um filé de Saint Peter com redução de frutas vermelhas e farofa de amêndoas. Logo, nada mais justo fazer um não-brinde ao nosso não-relacionamento e não abrir uma garrafa de Cabernet Sauvignon, safra 2009. Afinal, estamos não-comemorando aquele dia em que você falou que os homens são todos iguais, entretanto, me trocou por um muito mais igual do que eu.

Para a especialíssima data vindoura de 12 de junho, gastei todas as minhas energias para não procurar aquele vestido azul-escuro que você tanto paquerou durante meses na vitrine da loja. Só não sabia eu que, junto com o vestido, você também paquerou o vendedor da loja ao lado, aquele hipster de cabelo milimetricamente desgrenhado, barba delineadamente malfeita e um gibi de tatuagens em sua pele clara. Junto com o vestido, faço questão de não oferecer a você a calcinha preta de renda para a noite de amor que não iremos passar juntos, já que você muito provavelmente vai estar no bar com suas amigas e vai ficar com o primeiro homem que colar na sua mesa. Talvez o segundo.

Estou contando os minutos para não celebrarmos o dia em que não irei te dar nenhuma joia, não irei declamar poesia alguma, muito menos cochichar no seu ouvido palavras de baixo calão. Tudo isso porque você não me ama como nunca me amou antes. É um privilégio não ter você ao meu lado e, consequentemente, não rirmos juntos das piadas batidas, não chorarmos juntos no drama francês, não pedirmos uma pizza num sábado chuvoso, não ficarmos abraçados no sofá até pegarmos no sono. Felizes de nós, que juramos não amar eternamente um ao outro.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DE UM E.T. EM VISITA AO BRASIL ou 1001 COISAS PARA SE OBEDECER ANTES DE MORRER ou BRASIL – PAÍS DA DIVERSIDADE E DA TOLERÂNCIA



Tocar apito pode. Bater panela não pode.

Comer mortadela pode. Comer coxinha, não.

Cuspir pode. Bater, nem pensar.

Ler a Veja não pode. Carta Capital, pode. Ou melhor, deve.

Usar vermelho pode. Usar amarelo, não.

Duvivier pode. Porchat, não.

Ouvir Chico, mais do que pode. Ouvir Lobão, tá louco?

Morar em Cuba pode. Morar em Miami não pode.

“Hay que endurecer” pode. “Ordem e progresso”, melhor não.

Vai pra Paulista? Ficar do lado do MASP pode. Do lado da FIESP, pega mal.

#ForaCunha pode. #ForaDilma, não.

Luís Nassif pode. Sardenberg, não.

Jô Soares pode mais ou menos. Danilo Gentilli, nem a pau.

Bolsa-Família deve. Bolsonaro, evite.

William Bonner não pode. William Waak, muito menos.

Silêncio em Cannes é protesto. Gritar de casa é balbúrdia.

José de Abreu pode. José Serra, nemfu.

Quebrar o Mc Donald’s pode. Quebrar o Brasil, aí é que pode mesmo.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Dados variáveis

- Pessoal, a partir de hoje vamos adotar aqui na agência um padrão de customização do nosso material de comunicação. Na parte dos dados variáveis, aqueles campos personalizados, precisamos pensar num nome que sirva para a marcação de todas as peças, de todos os nossos clientes. Queria ouvir a sugestão de vocês.
- Eu sempre uso Fulano de Tal.
- É, mas isso é comum demais. Desvaloriza o cara que tá recebendo o e-mail. O cliente vem reclamando disso.
- Por que então não usar João Alves?
- O anão do orçamento? Cê tá louco?
- Ah, tá... não sabia... não é da minha época...
- Lá na Pinnick & Partners Worlwide onde eu trabalhava, a gente sempre usava John Sample.
- Ah, sofisticado demais. Não gera empatia, identificação. Ninguém aqui no Brasil se chama John Sample.
- Eu acho que tem que ser um nome comum, do povo, pro cliente entender que a gente tá falando com o público dele. Tipo João da Silva.
- Ah, num sei... capaz do cliente achar que a gente SÓ tá mandando o e-mail pro João da Silva e o José dos Santos, por exemplo, vai ficar de fora.
- Por isso mesmo que eu acho que um nome fora do comum, pode ser estrangeiro mesmo, vai deixar bem claro que a gente não tá falando com ninguém específico, mas com todo mundo. Sei lá... Adam Smith...
- O Pai da Economia? Então bota Albert Einstein de uma vez!
- Calma, gente...
- Eu acho que tem que ser um nome raro, incomum, não precisa ser americano, nem europeu, nem o raio que o parta... pode ser brasileiro mesmo... mas um nome mais difícil, aí a gente não corre o risco de ter alguém na sala de reunião com esse nome pra encrencar com ele. Algo na linha de Adherbaldo Franciscus.
- Acho que não. Se o nome for ridículo demais, inusitado demais, o cliente vai ficar a reunião inteira prestando atenção nele e nem vai olhar pro resto da peça.
- Ei, ei! Gente, gente! Estamos perpetuando uma atitude machista do nosso mercado de trabalho. Nunca ninguém pensou num nome de mulher. E vocês sabem mais do que ninguém que as mulheres estão se emancipando e ocupando os mais altos cargos numa empresa que antes só era privilégio dos homens.
- Calma, Martha... não é nada disso... é que, quer queira quer não, a maioria dos nossos clientes são homens. A gente tentou marcar com um nome feminino na última campanha e o cliente gongou a peça, lembra disso?
- Eu acho que a gente devia usar o bom e velho Nonono.
- Muito anos 80.
- Eu sempre usei o nome do meu dupla pra marcar as peças: Érico FUCKS kkkkk
- Pronto, começou o bullying...
- Por que não usar nome de famoso, pra mostrar que é só marcação de layout? Sílvio Santos, Fernando Henrique, Erasmo Carlos...
- Eu acho que a gente devia usar Adriano Gonzaga.
- Eu iria pruma coisa mais coloquial, pra deixar a comunicação mais moderna: Beto Keller.
- Acho Diego Savassi bem legal.
- Gosto de Fernando Von Beckenbauer.
- Ricardo Moreira.
- Rodrigo Lopes.
- Eusébio da Paixão! Raquel Pedreira!
- Adilson Bartelli Thiago Pompeu Roberval Taylor Adolfo Brickman Giancarlo Madeira Raoni Tavares Rogério Villaça Gilson Campos Júlio César Azevedo Amauri de Souza...

E aquele barulho se formou. 250 nomes, nenhum consenso.
E os dias se passaram. E os meses se passaram. Até que, numa manhã qualquer, o presidente da agência recebe um e-mail falando que uma campanha deles entrou para o short list de uma premiação de comunicação dirigida. O texto da peça começa assim:
“Caro XXXXXXXXXXXXXX, você foi o ganhador da promoção Sorte em Dobro”.