Eu vou levar comigo muita gente. Já no comecinho de jogo, pego o Bowie. Depois, Ettore Scola. Prince. Umberto Eco. Kiarostami. Ferreira Gullar. Fidel. D. Paulo Evaristo Arns. No finalzinho, levo também o Andrea Tonacci. Só de pirraça.
Aproveitando, vou levar também o carismático ator em alta Domingos Montagner, só porque esqueci de colocar uma plaquinha de área perigosa para banho.
Eu vou criar uma situação política insustentável, a tal ponto de expulsar a presidente do Brasil. Uns vão falar que é golpe.
Eu vou colocar no lugar dela um vice mimimi com um dos maiores índices de rejeição.
Eu vou fazer a cotação do dólar oscilar mais do que o brinquedo Viking, do Playcenter, aquele parque que foi embora 4 anos antes de mim.
Eu vou criar um dos maiores índices de desemprego da história do Brasil.
Eu vou fazer a população deste país sentir saudades do PIB zero.
Eu vou chocar o mundo com a imagem de uma criança refugiada da Síria.
Eu vou criar uma das eleições mais improváveis da principal potência mundial. Até o mais republicano dos republicanos vai estranhar o conservadorismo do futuro presidente.
Eu vou fazer a Venezuela virar motivo de chacota mundial.
Eu vou deixar a Cidade Maravilhosa em situação de calamidade pública. Vou atrasar o pagamento dos servidores. Vou trazer à tona escândalos financeiros de Garotinho e Sérgio Cabral, este último, que comprou joias carésimas com o dinheiro do povo como esquema de lavagem de dinheiro. Só pra completar, já que ando muito sádico ultimamente, vou botar na Prefeitura do Rio um bispo evangélico.
OK, OK. Eu vou dar uma saidinha e nesse ínterim meu substituto vai fazer uma das mais bonitas aberturas olímpicas da história. Ele vai trazer um monte de medalhas pra gente e vai dar um show de bola nos jogos paralímpicos. Mas tudo isso sem meu consentimento. Espera só vir a conta dessa brincadeira. Quem é que vai pagar?
Eu vou transformar a pacata Porto Alegre numa cidade insegura, com uma onda de roubos e assaltos nunca antes vista, só porque vou deixar de pagar policiais.
Eu vou fazer o dono da maior empreiteira do país ser o pivô da Operação Lava-Jato. Ele vai ser o principal dedo-duro do país, mencionando nomes de uma lista interminável de políticos que devem ir pra cadeia. Só não vou saber dizer se realmente eles irão pra cadeia e se cumprirão a pena na totalidade, em regime fechado e sem privilégios.
Eu vou manter a taxa de juros mais alta do mundo, para desestimular o crédito e os investimentos. Mas você pensa que essa medida vai conter a inflação? Tsã... sabe de nada, inocente...
Eu vou criar um dos piores acidentes aéreos, que vai levar embora quase um time inteiro de futebol.
Eu vou falar em corte de gastos públicos sem mexer uma palha neles. Engraxate do Congresso vai continuar ganhando mais do que médico com anos de especialização.
Eu vou deixar a situação salarial dos professores e o nível do ensino brasileiro numa situação tão ridícula que até os alunos vão ocupar as escolas.
Eu vou colocar um dos filmes brasileiros mais piegas para representar o país no Oscar. Tudo por causa de um entrevero ideológico no decorrer do processo das escolhas.
Eu vou criar uma conta tão confusa na questão do novo modelo da Previdência que nem o Einstein seria capaz de decifrar. A única coisa que as pessoas vão entender é que, quanto mais se trabalha, mais tempo falta pra se aposentar.
Eu vou fazer o nível de confiança na questão financeira do país ser compatível com países em situação de guerra.
Eu vou alimentar o ódio nas redes sociais. Haters serão meus porta-vozes.
Eu vou criar um dos Natais mais pobres da história.
Eu vou parecer ter 900 dias.
Eu sou 2016.
domingo, 18 de dezembro de 2016
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Ao telefone
- Cinecittá, boa tarde.
- Boa tarde. Eu queria falar com o Federico.
- Qual Federico?
- Como assim, qual Federico?
- Aqui tem vários Federicos, senhor. O Lorca...
- Federico Fellini, por favor.
- Quem deseja?
- Pasolini.
- Daonde?
- Pier Paolo Pasolini. Um amigo dele.
- Momentinho, vou passar...
(Passa-se um momentinho mais com cara de momentão. Volta a
telefonista).
- Olha, ele não se encontra... Quer deixar algum recado?
- Seria só com ele mesmo.
- Vou tentar passar pra secretária dele.
(Nesse momento que fazem questão de chamar de momentinho,
toca ao fundo um trecho de Rigoletto na espera telefônica).
- Seu Piemontese...
- Pasolini.
- Seu Pasolini, tô tentando transferir. Mais um minutinho,
por favor.
(Rigoletto no ápice de seu momento mais dramático).
- Giulietta, em que posso ajudar?
- Giulietta, boa tarde. Aqui é o Pasolini, amigo de longa
data do Fellini, tudo bem com a senhora? Preciso falar URGENTE com ele, mas me
informaram que ele não está.
- Ah, sim, seu Pestalozzi...
- Pasolini.
- Pois não. Olha, ele realmente não se encontra...
- Pra onde ele foi?
- Deve ter ido acompanhar uma filmagem. Acho que chega mais
pro fim do dia, ou só amanhã.
- Tem certeza?
- Vou dar mais uma olhada. Um momento, por favor.
(Sai a angústia de Rigoletto, entra a frenesi de Rita
Pavone).
- É, ele não está. Poderia me adiantar o assunto? Eu sou a
secretária particular dele.
- É que ele me deve uma grana, ficou de me pagar no máximo
até o dia 30, e até agora nada. Vim pra cobrar ou saber o que está acontecendo.
- E de quanto seria esse valor?
- A gente tinha fechado em oito e meio.
- Mais um momento, por favor...
(Peppino di Capri em um inspirado background sonoro).
- Seu Pomodori...
- PASOLINI!
- Então... olha, eu JURO que ele não está. MEEESMO. Mas eu
acabei de passar um rádio e ele me informou que o senhor pode procurar uma
pessoa de confiança que com certeza vai resolver a questão. Ele não está
tentando se livrar dessa pendência, não senhor. É que ele anda muito ocupado
ultimamente e não pode resolver isso pessoalmente pro senhor. Mas fique
tranquilo. Ele me indicou uma pessoa bem tranquila, bem ponderada, que vai
fazer esse acerto de contas da melhor forma possível, OK? Desculpe o
transtorno.
(Ennio Morricone surge em seus assobios das desérticas
paredes daquele inóspito ambiente sugestivo a um duelo).
- E qual seria o nome do cavalheiro a quem devo procurar?
- Pacino. Al Pacino. Com um C só.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
Mil anos
Em discurso numa universidade de Oxford, o físico britânico Stephen Hawking declarou que a humanidade vai se extinguir daqui a mil anos. É muito pouco tempo de sobrevivência.
Listei aqui alguns fatos e situações que precisariam de um prazo maior para se concretizar e, portanto, muito provavelmente nunca irão acontecer enquanto o homem for vivo.
Paz no Oriente Médio.
Conclusão das obras da Linha Amarela do Metrô de SP.
Sampaio Correa campeão da Libertadores.
Guns and Roses lança Chinese Democracy II.
Fim da Operação Lava-Jato. Todos os suspeitos indiciados.
SUS é referência para a Organização Mundial da Saúde.
Família Sarney abandona a política.
Família Baldwin abandona o cinema.
Fim do narcotráfico.
Despoluição do Rio Tietê.
Eduardo Suplicy termina uma frase.
NET zera reclamações no PROCON.
Brasil bicampeão no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Piada "é pavê ou pacumê" cai em desuso.
Igreja aprova o uso de métodos contraceptivos.
Sul dos Estados Unidos aprova o casamento gay.
Fim das desigualdades sociais e da concentração de riquezas. Fim do assédio sexual e da discriminação racial. Fim do bullying. Imprensa passa a noticiar receita de bolo.
Big Brother Brasil sai do ar.
domingo, 20 de novembro de 2016
O verdadeiro significado das expressões
Vou me atrasar um pouquinho = estou saindo de casa agora
Ficou diferente = ficou ridículo
O problema não é você, sou eu = você me enche o saco
Estamos otimizando recursos para a maximização da qualidade
= a partir de agora, nosso produto vai ser uma merda
Estamos passando por um processo de reestruturação = vou ter
que te demitir
Procuro um homem que me compreenda e me dê atenção = procuro
um homem rico e de pau grande
Ah, legal = que cara mala
24 horas por dia, 7 dias por semana = só dá ocupado ou
ninguém atende
Vou procurar no estoque = acabou
Precisamos conversar = acabou
Só mais um minutinho = comecei a fazer agora
Tudo joia, se melhorar estraga = tudo uma bosta
Tendi = muda de assunto
Pode deixar comigo = não vou resolver seu problema
Ambiente rústico = lugar decadente
Acabei de chegar = tô te esperando há mais de 20 minutos
Vou pedir uma segunda opinião = não faço ideia
Estamos trabalhando para solucionar a questão = não faço
ideia
Pensa mais um pouco = refaça
Você faz mais o tipo exótico = você é feio
O resultado ainda não é conclusivo = fodeu
Estão te chamando lá na sala = fodeu
Vamos marcar um almoço = provavelmente nunca mais vou te ver
Precisamos fazer apenas alguns ajustes = precisamos mexer
pra caralho
Acho que foi a bebida = não vou dar pra você
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Update de provérbios
Quem kkk por último kkkkkkkk melhor.
Mais vale um Pokemon na rua do que dois Angry Birds voando.
Deus ajuda quem cedo bota o Galaxy 7 pra tocar.
Em home office de front-end developer, mouse é de caneta esferográfica.
A agilização de processos é inimiga do padrão de excelência
em qualidade.
Quem com Taurus RT 444 44 Magnum fere com Taurus RT 444 44
Magnum será ferido.
Em Playstation dado não se olha o console.
A trollagem tem dismetria dos membros inferiores.
Quando um tá na TPM, dois não fazem DR.
Para um geek, meio emoticon basta.
Diesel aditivado a R$ 0,99/litro não move Honda Civic.
Não adianta o emo chorar pelo zero lactose derramado.
Quem não tem carabina caça com pistola de pressão.
Ácido sulfúrico em porcelanato tanto bate até que dá PT.
Quem tudo quer foi criado com leite com pera.
Devagar se evita multa.
Não se faz um omelete sem assistir ao MasterChef.
Antes no 5 contra 1 do que nas roubadas do Tinder.
Caiu na net é phishing.
Errar é Ctrl + Z.
De MM’s em MM’s a criança sofre obesidade.
Em terra de deficiente visual, quem tem olho recebe foro
privilegiado.
Filho de peixe é acusado de nepotismo no aquário.
Quem ama o feio é porque sofre bullying.
Quem espera sempre interrompe o download.
Onde há fumaça há detectores e brigada de combate a incêndio
devidamente treinada.
Papagaio come milho, periquito é escalado pro The Voice.
Quem tem boca vai a Roma. E quem tem grana vai pros Alpes.
domingo, 6 de novembro de 2016
Coisas que você provavelmente nunca vai ouvir - parte 2
Desculpe o atraso. O trânsito estava uma maravilha, eu é que
acordei uma hora mais tarde porque sabia que essa reunião vai ser um saco.
Adoro seu mau hálito matinal. Assim dá pra tentar adivinhar
o que você jantou ontem à noite.
Pode jogar a fumaça do seu cigarro na minha cara. Fique à
vontade.
Evite brócolis. Manera na cenoura. Doces e refrigerantes à
vontade.
Aqui no templo do Senhor ninguém é obrigado a pagar o
dízimo. Primeiro, quitem suas dívidas.
Continue parado aí na escada rolante. O aviso "deixe a
esquerda livre" deve ser uma coisa mais pra política.
É exatamente isso que você está pensando. Eu te traí com sua
melhor amiga. Também, quem mandou chegar mais cedo e não ligar?
É aqui mesmo. Três carrinhos lotados, fique à vontade. A
placa "máximo 10 volumes" é meramente decorativa. Se quiser pegar
mais 3 detergentes e 1 quilo de cebola, eu espero.
Inteira, moça. Eu tô te mostrando meu RG e comprovante de
matrícula pra você me conhecer melhor.
Por que eu sou o candidato ideal pra vaga? Puxo o tapete de
quem não vou com a cara, puxo o saco do chefe pra tentar ganhar um aumento e
fico o dia inteiro enrolando fingindo que tô trabalhando.
Podem colar à vontade. O importante é a socialização com os
nerds.
Para continuar ouvindo nossa selecionada música de espera,
digite 1. Para falar mal dos nossos serviços, digite 2. Ação no Procon, digite
3. Solicitação de visita técnica que custa o olho da cara, digite 4. Para
passar por todos os nossos atendentes que não fazem ideia de como resolver seu
problema, digite 5 ou aguarde.
Pra quando? O tempo que você precisar. Eu falo pro cliente
que o importante é a grande ideia. Deixa a inspiração fluir...
Vamos agora falar com o melhor jogador em campo, que
provavelmente vai dar as mesmas respostas decoradas de todas as outras
entrevistas, já que as perguntas que o estagiário criou também são as mesmas de
sempre.
Procuro homens que não querem nada com nada, que só entraram
aqui pra stalkear o perfil das mulheres e o máximo que podem oferecer é um papo
chato de trabalho e uma trepada mal dada. Única coisa que peço é que dê carona
até minha casa pra eu não precisar gastar com Uber.
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
Panetone
O ciclo de vida do panetone.
Em setembro, começa a aparecer no supermercado. Caríssimo. Tipo R$ 60 o quilo. Sensação deprimente. Não só pelo fator "caríssimo", mas também pela constatação de que o ano já acabou.
Em outubro, brotam os derivados. Panetone de Prestígio, panetone de Suflair, chocotone, moussetone, panetone de Kinder Ovo, panetone de Godiva. Também caríssimos.
Em novembro, eles estão lá, firmes e fortes. Dominando as gôndolas. Gritando nos seus ouvidos pra você comprar.
Bom, dezembro é um mês complicado... funciona meio que como a Bolsa de Valores, a cotação do dólar... começa com o preço nas alturas, pra compensar a liquidação do Black Friday, sobe mais ainda, cai, volta a valer peso de ouro, entra na lei da oferta e da demanda e, após o dia 25, passa a ficar acessível, ainda que não se justifique pagar R$ 30 por meio quilo de pão com pedacinhos de fruta que mais parecem gelatina congelada.
Em janeiro, o preço da iguaria vai lá pra baixo, já que todo mundo gastou suas economias com IPVA, IPTU e CVC. O nobre sabor do Natal passa a ocupar um tímido cantinho do supermercado, junto com vassouras, inseticidas e naftalina. Quem é que ainda compra naftalina?
No mês do Carnaval, o valor percebido da sobremesa tem um quê de mistério e de indecência. O que antes custava R$ 50 agora você leva por R$ 5. E ainda ganha aquela latona que, além de ocupar 70% do carrinho, te dá a chance de participar de um sorteio do cruzeiro marítimo do Roberto Carlos, ocorrido há 2 meses atrás.
Antes de valer menos do que um chiclete, o panetone é recolhido das prateleiras em março. Vai pro abatedouro da reciclagem. Chegando à fábrica, entra novamente numa forma. Só que não estamos mais falando de uma massa fofinha e fresquinha. O idoso pão doce precisa de uma verdadeira recauchutagem. Seu corpo é reconstituído à base da tortura do faz-caber. Entra na maca cirúrgica praticamente embolorado e transforma-se num amontoado de encaixes que bem lembram o jovem Frankenstein. Mas não tem importância. Essa época do ano precede a penitência cristã. Todo o sofrimento do corpo é compensado com muito jejum e muita reza. E, pra disfarçar a eletrizante agonia, um pouco de açúcar de confeiteiro por cima. Pronto: Colomba Pascal by Ivo Bauducco Pitanguy.
Já sem tanta ostentação glamourosa como em outrora, o recondicionado panetone sob nova alcunha bem que poderia voltar aos mesmos palcos. Está tudo ali: a massa, as frutas e os conservantes acidulantes. Só está um pouco fora de forma, é fato. O fabricante quer porque quer fazer parecer um pombo, mas o consumidor não vê ali nada mais além de um filhote do cruzamento de polvo com kikos-marinhos. A aberração genética em questão, portanto, passa a ocupar aquele pedaço do latifúndio do estabelecimento tão insignificante quanto indefinido. Um buraco negro entre os pães, as sobremesas, as geleias, os dietéticos e o material escolar. Um espaço amorfo, condizente com a estrutura óssea da criatura.
O amargo ostracismo se justifica. É a chegada dos ovos de chocolate, botados por coelhos. Não me pergunte como. Não sei. Mas que isso vende, vende.
E assim a Colomba Pascal lança seus últimos suspiros de vida. Em abril, maio e junho. O bromato ancião chora junto com os ovos que se quebram, vê passar as pipocas e amendoins das festas juninas, e também sente na pele o peso da idade do curau: de R$ 7,50 por apenas R$ 1,99.
Em julho, pode-se perceber a existência de um ou outro agonizante ser que um dia foi panetone. Uma espécie em extinção, direcionada única e exclusivamente para fins de pesquisa. É o enterro da raça. Em agosto, o panetone aparece somente em livros de história, para dar lugar a uma nova safra que irá nascer no mês seguinte. Tudo para provar a perfeição da natureza: nada acontece em agosto.
terça-feira, 18 de outubro de 2016
Resenha
(Dica de resenha para quem não entendeu nada daquilo que viu. Copiar e colar. De nada.)
Já fazia muito tempo que essa metrópole não era invadida por uma obra-prima tão sorumbática e armagedônica. Com um estilo pseudo-naïve, calcado nos minimalismos estéticos da nouvelle vague, o autor fez questão de registrar sua sintagmática incontinência catastrófica de provocar. Algo que nos remete ao ostracismo de Nietsche e Kafka, com texturas solfejantes de Carlos Gardel. Incompreendido até a medula, esse recorte social transita nas vestimentas kitsch de Almodóvar, sem perder a mão e a lúgubre consistência bergmaniana do subtexto. Não dá para ficar indiferente a essa regência silábica desorquestrada em seus paradigmas, quando a ruptura hitchcockiana desconstrói a leveza noir tão vulnerável quanto obsoleta. Uma epígrafe tarantinesca para ver, rever e anotar cada pormenor, inclusive seu flerte com os arcabouços da dodecafônica literatura de cordel. É ali que o trabalho ganha organicidade e escapa da diegese de seus antecessores, talvez uma influência maldita que o autor faz questão de abandonar. Na crueza de suas texturas, ou na arregimentação cromática de seus significantes e significados, essa obra definitiva mostra os claros ecos que o legado do primeiro álbum do Red Hot Chili Peppers deixou. Ou o segundo.
Já fazia muito tempo que essa metrópole não era invadida por uma obra-prima tão sorumbática e armagedônica. Com um estilo pseudo-naïve, calcado nos minimalismos estéticos da nouvelle vague, o autor fez questão de registrar sua sintagmática incontinência catastrófica de provocar. Algo que nos remete ao ostracismo de Nietsche e Kafka, com texturas solfejantes de Carlos Gardel. Incompreendido até a medula, esse recorte social transita nas vestimentas kitsch de Almodóvar, sem perder a mão e a lúgubre consistência bergmaniana do subtexto. Não dá para ficar indiferente a essa regência silábica desorquestrada em seus paradigmas, quando a ruptura hitchcockiana desconstrói a leveza noir tão vulnerável quanto obsoleta. Uma epígrafe tarantinesca para ver, rever e anotar cada pormenor, inclusive seu flerte com os arcabouços da dodecafônica literatura de cordel. É ali que o trabalho ganha organicidade e escapa da diegese de seus antecessores, talvez uma influência maldita que o autor faz questão de abandonar. Na crueza de suas texturas, ou na arregimentação cromática de seus significantes e significados, essa obra definitiva mostra os claros ecos que o legado do primeiro álbum do Red Hot Chili Peppers deixou. Ou o segundo.
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Prender
- Amor... moreee... tô pensando numa coisa...
- O que é, benhê?
- Acho que vou prender meu cabelo.
- Como assim? Sem mais nem menos?
- É...
- Mas isso é uma atitude arbitrária.
- Por quê?
- Para prender, você precisa de provas concretas.
- Mas eu querooooo...
- Não me venha com convicções. Eu quero PROVAS. O que te faz
pensar em prender o cabelo?
- Sei lá... Eles estão assim... meio rebeldes...
- Ah, então agora você é contra os rebeldes... sei... vai
reprimir a força natural de seus cabelos. Uma fascista aqui em casa, era só o
que me faltava...
- Quero mudar um pouco, só isso.
- OK, mudanças OK. Mas você quer prender algo que nasceu
solto. Isso é autoritarismo. Você não deu oportunidades para seu cabelo se
manifestar.
- Eu só queria a sua aprovação...
- Só a minha aprovação não basta. Você precisaria ter
maioria.
- Então tá. Eu vou chamar minha mãe pra mostrar pra ela que
fico melhor com o cabelo preso.
- Ah, vai chamar a sua mãe, então? Além de repressora, você
quer fazer um espetáculo! Não basta prender, tem que ser midiática e
sensacionalista, você!
- Você não está me ajudando...
- O que você quer que eu faça? Apoie essa atitude golpista?
- Não. Queria uma opinião, só isso.
- Eu não decido as coisas sozinho, você sabe disso. Eu sou
um cara democrático.
- Então me dá um palpite. Se prender não tá bom, o que você
acha que eu devo fazer? Cortar?
- Pronto, agora vai partir pra violência... não basta o
abuso da autoridade, precisa usar armas de repressão. Além da tesoura, você
quer também um spray de pimenta, um gás lacrimogêneo? Uma bala de borracha,
talvez...
- Você não me entende (começando
a chorar)... eu só queria ficar um pouco diferente... mas acho que não posso
contar com você... vou dar um pulinho lá no salão da Cida, ela tem umas ideias
ótimas pro meu cabelo.
- OK... vai... só não conta pros vizinhos... o pessoal das
investigações tá caindo em cima... vai que eles aparecem aqui, vão querer saber
de onde a gente arranjou dinheiro pra cabeleireira... se me perguntarem alguma
coisa, vou dizer que não sei de nada...
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
Xampu
Relacionamento é algo tão complicado quanto imprevisível. Você
aposta todas as suas fichas para que dê certo, mas ao mesmo tempo precisa ser
perito no incógnito campo das adivinhações. Tá mais pro improviso do jazz do
que pro certinho 4X4 do rock. Tá mais pro repentista do que pra literatura de
cordel. Um relacionamento pode durar tanto uma eternidade quanto mais ou menos
10 minutos. Para que se prolongue pela efêmera eternidade humana, alguns
critérios e alguns cuidados são mais do que necessários.
Tomemos como exemplo a visita de sua namorada ao seu lar,
doce e bagunçado lar. Ah, tá. Preâmbulo: vocês se conheceram num bar, trocaram
ideias, trocaram mais beijos do que ideias, marcaram um segundo encontro, cineminha
de mãos dadas, terceiro encontro, só depois do terceiro rolou sexo, talvez dê
pra dizer que a coisa é séria a tal ponto de mudar o status no Facebook. Aí a
gata vai conhecer seu território. Num relacionamento, essa fase é definitiva.
Na cabecinha oca masculina, a chegada de uma fêmea a um
ambiente cheirando a cerveja e pizza requentada em micro-ondas soa como uma
noite interminável de prazer. Você, homem, já começa a alucinar a visualização
de sua futura esposa de cócoras sobre a máquina de lavar. Imagina a moçoila
fazendo poses eróticas com o esguicho do chuveiro do boxe. Acha que vai transar
com ela na cozinha, na sala, no quarto adjunto, sobre a coleção de DVDs do
Scorcese. Sonha que vai transar com ela na garagem, sobre o capô do seu Honda
Civic. Você, homem, na sua mentalidade ignóbil, acha que sua namorada vai, do
dia pra noite, se transformar na Bruna Surfistinha do Tatuapé. Começa a
imaginar sua residência como a Disneylândia do amor físico. Seu ouvido seletivo
entende o “quero ir pra sua casa” como “quero dar loucamente pra você”.
Essa é a percepção masculina. A realidade feminina é bem
diferente. A mulher decide conhecer sua casa pra conhecer você melhor. Em seu
paranoico e obsessivo detalhismo, repara na cor cafona do tapetinho do hall.
Mulher é pior que Sherlock Holmes. Consegue decifrar o ano em que a casa foi
erguida só de olhar pelo batente descascado. Sua talvez quem sabe futura esposa
adentra o recinto como se estivesse passando de fase do Criminal Case. Ali,
nada acontece por acaso. Tudo tem uma relação de causa e efeito. Se tem marca
de copo sobre a pia, aquela rodela de água que se forma sobre a superfície, é
sinal de que alguém mais esteve na moradia. Se teve alguém mais na moradia,
certeza que o cara tá traindo a moça. Mulher observa tudo com olhos de lince.
As pessoas no porta-retrato. Os ímãs de geladeira. Começa a cheirar as camisas
que o homem deixou sobre o móvel pra ver se precisa lavar. Repara se tem toalha
molhada em cima da cama. Ou se a pasta de dente está apertada na ponta ou no
meião do tubo. Faz minuciosas averiguações para descobrir se tem algum resto de
pipoca ou de Ruffles debaixo do sofá da sala. Entregar seu corpo para o sexo é
a última das prioridades. Mais importante é abrir o guarda-roupas pra ver se
todas as cuecas estão dobradas. Para a pessoa do sexo feminino em questão,
transformar a casa do namorado numa montanha-russa do prazer carnal é algo
quase fora de cogitação. Melhor mesmo é ficar nesse jogo de investigações: o
copo que deixou a marca sobre a pia pertence ao Coronel Mostarda, que pegou um
candelabro e se dirigiu à sala de estar.
Divergências de postura acontecem. Diferenças dos níveis de
expectativas, mais ainda. Tudo isso pode ser contornado. Basta um pouco de
tempo e de paciência. Mexe-se ali, mexe-se ali, até que um se acostume às
manias e costumes do outro. Apesar dos possíveis contratempos, esse mal-estar
da primeira visita pode ser contornado e futuramente esquecido. Não fosse por
um outro detalhe: o xampu. Na hora de tomar banho, seja antes ou depois do
sexo, pra você, homem, qualquer fundinho de anticaspa em embalagem verde-escura
com data de validade em agosto de 2009 tá valendo. Já os cuidados estéticos
femininos são um pouco mais apurados. É ali, naquele momento embaçado pelo
vapor aquático que se define se o amor é eterno ou volátil. A mulher exige do
homem, no caso você, um pró-vitamina com polpa de abacate, creme de ácido
retinoico reparador de pontas, redução de manga e partículas revitalizantes de
cristais de berílio. Tipo um prato do Alex Atala, só que pra botar em cima da
cabeça em vez de comer.
Meu caro, fica esperto. Se o relacionamento acaba, não é
porque faltou amor, carinho e compreensão. Faltou apenas um pouquinho mais de
cristais de berílio.
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