segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Feliz 2019


- Robson?
- Patrícia?
- Bom dia.
- Prazer. Pode entrar.

(...)

- É raro ver motorista mulher nessa profissão. Geralmente eu pego homem... quer dizer, motorista homem.
- (Risos). Entendi. É que eu tô dando uma força pro meu marido, que tá desempregado.
- O que ele faz?
- Engenheiro. Tava trabalhando numa metalúrgica, que faliu. Aí começou a mandar currículo. Só que a situação tá difícil, sabe? Faz mais de 2 anos que ele tá desempregado. Aí teve de prestar concurso.
- Passou?
- Passou. Terceiro lugar.
- Parabéns! E quando ele começa?
- Na verdade, já era pra ele ter começado. Só que cancelaram o concurso por suspeita de fraude. Tão investigando. Parece que as vagas foram compradas, que um pessoal aí tava passando as respostas pra filho de juiz, sei lá... então, por enquanto, ele vai ter que esperar... fiscal ambiental.
- Ah, que bom. Trabalhar ao ar livre, junto com a natureza, isso sim é vida.
- Mais ou menos, Robson. Iam chamar ele pra trabalhar em Mucuriaé. Conhece? Interior do Mato Grosso.
- Cidade calminha, todo mundo conhece todo mundo...
- Até demais. A cidade é tão pequena que quase lincharam o prefeito. Se envolveu numas obras superfaturadas, passou os bens pro nome da mulher, mas não teve jeito. A Federal foi atrás dele e ele agora tá preso. Crime de corrupção, lavagem de dinheiro e envolvimento com quadrilhas. Os amigos dele que também fazem a milícia do local. Lá tem muito posseiro, morre gente direto. Eles não querem nem saber, já vão atirando. Meu marido ia fiscalizar o corte ilegal de madeira. Esses caminhões que transportam árvore da mata virgem, sabe? Só que não é fácil. Lá é tudo terra de coronel. Semana passada morreram uns trabalhadores ligados ao MST. Deu até no Fantástico.
- Bom... o importante é ir pra luta. Pelo menos você tá aqui na batalha.
- É... preciso garantir o leite das crianças. Minha filha acabou de nascer.
- Parabéns! Como ela se chama?
- Maria Eulália.
- Sua filha se chama Maria Eulália?
- Não... o nome dela é Rita... desculpa, tava pensando em outra coisa... Maria Eulália é o nome do hospital onde ela tá internada. Acordou essa madrugada com dor de ouvido, a gente teve que levar ela correndo e daqui a pouco preciso pegar ela. Chegamos às 4 da manhã e nossa senha era 237, acredita? Absurdo esse país...
(...)
- Quer que segue pelo caminho do Waze ou o senhor tem alguma preferência de trajeto?
- Pode ir pelo Waze. Ele tá indicando pra ir reto e depois virar lá na frente, né?
-... Peraí, deixa eu conectar... momentinho... mais um pouquinho... moço, o senhor conhece o caminho? Deu um pau aqui no aplicativo e ele tá recalculando a rota. Tá mostrando uma rua aqui, mas é em Ferraz de Vasconcelos... acho que tá com problema...
- Sem problemas. Eu vou falando. Tá vendo aquele supermercado? Só ir naquela direção.
- O senhor vai pra alguma festa? Assim, todo arrumado... me desculpe falar, mas eu sou direta...
- Nada. Audiência. Batida de trânsito. Me chamaram pra ser testemunha.
- Testemunha? Mas quando é coisa de trânsito não precisa só levar o BO pra delegacia?
- Precisaria se não tivesse morte envolvida. Vou testemunhar contra o motorista. Passou a milhão o farol vermelho e pegou de jeito um motoboy. Morreu na hora, coitado. O motorista tava embriagado, carta vencida, uma porrada de ponto na carteira e ainda fugiu sem prestar socorro. Só pegaram o cara porque acabou a gasolina do carro na outra esquina. Aí me chamaram pra depor. Eu quase ia atravessar a rua quando ocorreu a colisão. Por pouco o desgraçado não me pega. Isso porque eu tava atrasado. Se eu tivesse atravessado a rua um pouco antes, nada disso teria acontecido comigo. Mas, quem mandou? Fiquei lá no banco mais de meia hora esperando a filha da puta da gerente me liberar o empréstimo.
- Empréstimo?
- É. Empréstimo pra pagar um outro empréstimo. Preciso acertar as contas com o atual marido da minha ex-mulher. Aquele corno manso desgraçado. Pedi uma grana emprestada pra abrir um negócio... um café, sabe? Só que as coisas começaram a dar errado, meu ex-sócio me roubou tudo e fugiu do país, me deixou pra trás. Agora eu tenho que assumir as dívidas pro meu nome não ficar sujo no SPC. Fui pedir um valor pro cara, na confiança... só que o pela-saco é um agiota. É claro que eu vou pagar, só que o mão-de-vaca quer tudo até semana que vem, aquele muquirana que não vale a água que bebe... pode ligar o ar, por favor? Tá abafado...
- Ih, moço. Infelizmente tá quebrado. Levei pra arrumar, paguei mil reais, acredita? O mecânico falou que é uma pecinha que fica perto da suspensão, que compromete o funcionamento do ar quando o carro balança. Peça difícil de arrumar. Mas ele falou que tá na garantia.
- E você levou o carro de volta?
- Levei. Mas ninguém atendeu. O portão tava fechado. Toquei na vizinha e ela falou que ele com a família se mudaram pro interior. Iam fechar a oficina. Então, vai desse jeito mesmo (risos). Mas se quiser pode pegar uma balinha.
- Hummm... não tô vendo balinha nenhuma aqui...
- Ah, esqueci. Desculpa, moço. É que eu dei todas prum garoto no semáforo.
- Aí sim. Gesto de caridade. O importante é ajudar quem precisa.
- Ajudar nada. Quero mais é que eles morram. O moleque tava noiado, veio pra cima de mim com um caco de vidro. Meu vidro tava aberto, eu vacilei. É que sem ar, ninguém aguenta esse calorão. Falou pra eu entregar a bolsa, o celular. Eu é que fui esperta. Dei esse saquinho de bala só pra distrair, aí o farol abriu e eu saí arrancando. Passei o maior susto. Bando de craqueiro do caralho...
- Ontem eu tava voltando da balada e vi um carro na minha frente sendo assaltado. O motoqueiro apontou o trezoitão pro motorista. Coisa de segundos. Nessas horas a gente tem que dar graças a Deus que não aconteceu com a gente. A qualquer hora podemos ser os próximos. Questão de sorte ou azar.
- É, não tá fácil pra ninguém. Ainda bem que minha sogra tá dando uma força.
- Ah, é? O que ela faz?
- Tá ajudando a fazer salgadinho pra gente vender.
- Que ótimo! Pelo menos ninguém morre de fome (risos). São gostosos?
- Uma delícia. Pena que ela teve que interromper a produção. Precisa regularizar a situação. Aquele negócio lá, como chama? MEU, MEI... sei lá. Coisa da prefeitura. No começo ela fazia os salgadinhos de boa, sem precisar de nada disso. Mas aí teve uma vizinha que reclamou, chamou a Vigilância Sanitária. Parece que a velha passou mal. Até foi parar no hospital, coitada. Coxinha estragada. Também, falei pra ela: qualidade é importante, Dona Mirtes. Só ingrediente novo. Nada de comida vencida. Mas não. Ela é teimosa, foi lá no supermercado do bairro, aproveitou uma promoção de frango que eles tavam fazendo. Só que a carne tava fora do prazo de validade. Isso é um perigo.
- Nossa, perigoso mesmo.
- Eu tava contando com esse dinheiro pra pagar a escola da Fabiana.
- Da Rita, você quis dizer...
- Não, da Fabiana. A mais velha. Nossa, já tá uma moça, você precisa ver. Minha filha do meu outro casamento. Fiz besteira, casei cedo, engravidei. Gregório, aquele traste. Chegava bêbado em casa, batia na gente, mas eu não deixei barato não. Peguei ele com outra, aí não teve jeito. Peguei minhas coisas, mais a Fabi, e fomos pra casa da minha mãe.
- Pelo menos lá é mais sossegado...
- Até que era. Até eu descobrir que o amante da minha mãe, aquele encosto, filho do demo, entrava de noite no quarto da minha filha querendo fazer graça. Deus me livre, não quero nem pensar numa coisa dessas. Minha mãe conheceu ele na igreja. Ele é pastor. Como são as coisas, né? Durante o dia ele prega a palavra de Deus e de noite quando chega em casa vem fazer pecado com a família dos outros. Isso já vai fazer 2 anos. Minha filha teve que fazer um aborto e nem sabe quem é o pai da criança. Ela tava saindo com 2 caras do colégio... Deus me livre e me guarde, tomara que o pai não seja essa coisa que mora com minha mãe... foi um trauma pra minha filha... deu dezenove reais.
- O aborto?
- Não, moço... ah, desculpe. A corrida. Já chegamos.
- Passa no crédito, por favor.
- O senhor se importaria em pagar em dinheiro? Me desculpe, mas a maquininha tá fora do sistema, porque nosso cadastro foi temporariamente bloqueado, porque eles estão atualizando a ficha dos motoristas, e aí precisam de um tempo pra normalizar a situ...
- OK, sem problemas. Tá aqui.
- Ih, acho que não vou ter trocado...
- Tudo bem, pode ficar.
- Muitíssimo obrigada, moço. É Robson, né? Muito obrigada e um ótimo ano pro senhor.
- Feliz ano novo pra você também.


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Educação Física


Professor: Pessoal, um minutinho, por favor. Neste ano a diretoria decidiu que as aulas vão ser um pouco diferentes. A gente vai trabalhar técnicas e exercícios de 2 esportes ao longo do período. E é vocês que vão decidir! Cada um escolhe um esporte. Os 2 esportes mais votados é que a gente vai trabalhar. Peguem a folhe em cima da mesa, escolham um esporte, coloquem o nome e botem a folha na minha mesa.

(Alguns minutos depois)
Professor: Pessoal, atenção: os esportes escolhidos foram... tcharã-rã... rúgbi e futebol americano!

(Alguns dias depois)
Roberto: Érico, vem cá, rapidão. A casa caiu.
Érico: Qual foi, Betão?
Roberto: Corre! Lá na quadra, na aula de Educação Física. O pessoal tá se pegando. Nem deu 20 minutos de jogo e os caras já vieram com tudo pra cima dos adversários. Tá mó quebra-pau. Chute na boca, soco no olho. Tem até sangue na quadra. A coisa tá feia. Vem ajudar!
Érico: Ué, mas e o professor? Ele não tá lá como juiz?
Roberto: Ele disse que não tem como controlar os alunos. Vixe, cê não faz ideia. Os caras estão com o sangue nos olhos. O perigo é de alguém até se machucar mais grave.
Érico: Mas eu não conheço as regras de rúgbi.
Roberto: Sem problema. Vem lá ajudar. Corre!
Érico: Mas se tem gente machucada, então é melhor levar no departamento médico.
Roberto: E você não sabe como funciona o departamento médico da escola? Sempre fechado, o enfermeiro nunca tá lá, falta curativo, o pessoal do Centro Acadêmico entra escondido e rouba o álcool e o éter pra misturar na bebida nas festinhas... se liga!
Érico: Tá, mas... eu não posso fazer nada.
Roberto: Pode sim! AGORA é o momento que você pode fazer a diferença!
Érico: Betão, Betão... meu amigo de longa data... vamos lá: o professor pede pra gente escolher um esporte. Eu escolhi o futebol. É simples, é nosso, é verde e amarelo... qualquer outro esporte, pra mim tava tudo bem também. Eu sei jogar. Basquete, vôlei, hande, o cacete a quatro. Até botcha pra mim tava DE BOA. Lembra? A gente vai buscar o Seu Walcir na casa dele, que deve ter se aposentado há uns 20 anos, e pede pra ele ensinar a gente de novo. Até montanhismo pra mim era OK. Cê num lembra daquele professor maluco que só ficou um semestre e adorava ir pras montanhas?
Roberto: Pode crer...
Érico: Mas não. Vocês escolhem os PIORES esportes. Os mais violentos e sanguinários. E aí vão com tudo pra aula. Com todo esse ódio e essa vontade de ganhar a qualquer custo. E aí, o que acontece? Se fodem na quadra e agora você quer que EU vá lá pra socorrer as vítimas?
Roberto: Érico, Érico... pensa bem... a gente vai lá pra evitar um mal maior. Uma catástrofe sem precedentes de um esporte...
Érico: ... que VOCÊS escolheram!
Roberto: Deixa eu terminar... a situação é grave, cara. Tá todo mundo lá. O professor Eusébio de Matemática, por exemplo. Odeia rúgbi. E tá lá dando uma força. A tia Cidinha, do primário, lembra? Ela nem conhece esses esportes. Nunca ouviu falar. E tá lá.
Érico: Betão, meu brother. Sinto muito. Essa briga não é minha.
Roberto: Tu é um covarde mesmo. Desde aquela época que você veio me falar que tava a fim da Marilene e não teve coragem de se declarar pra ela.
Érico: A questão não é essa. É que o rúgbi...
Roberto: Esquece o rúgbi! Foda-se o rúgbi! Já não é mais do rúgbi que eu tô falando! É da preservação dos princípios esportivos aqui desta instituição. Se a coisa continuar assim, o próximo reitor do ano que vem pode fechar a quadra. E proibir a prática de esportes pelos alunos. QUALQUER esporte! O seu futebolzinho, o meu rúgbi, tudo, tudo! O que você tem a me dizer?
Érico: Calma, Betão. Eu entendo, eu concordo, mas não há nada que eu possa fazer. Não entendo piciroca de Medicina, se eu tentar ajudar posso piorar ainda mais o estado de saúde dos colegas.
Roberto: Isso. Faz isso mesmo. Foge da raia, seu arregão. Fica aí se escondendo. Não tem coragem de ir lá e dar a cara pra bater. Solidariedade, mano. Sabe o que é isso? Não precisa conhecer Medicina, nem rúgbi, nem porra nenhuma. É ir lá, estar presente, dar um abraço nos colegas que estudam ao seu lado... e que amanhã podem nem mais estar nessa escola...
Érico: Não seja melodramático...
Roberto: Mas não. Prefere ficar aí se escondendo nos seus livros de História. Cara... história é a gente que faz... nas quadras, não nos quartos... é a sua oportunidade de mudar tudo... acabar com essa violência. E o que eu ouço de você? Que vai se omitir. Não quer se envolver. Acha que não tem nada a ver com isso. Acorda, Érico!
Érico: Betão, menos, tá? Você vem me falando que eu posso ser o médico doutor salvador dessa situação... mas, na verdade... a única coisa que você espera de mim e precisa de mim é que eu faça o trabalho sujo... que nem o Seu Abelardo da limpeza... nossa amizade, tão longa e tão sólida, mas no fundo a única coisa que você vem me pedir é pra limpar a merda toda... de uma cagada que VOCÊ fez!
Roberto: Mano... eu não esperava isso de você. A gente é brother, mais de 10 anos de amizade. Já bebemos juntos, vomitamos juntos, choramos juntos... Eu esperava tudo de você, menos isso. Você me decepcionou. Ó só: tô indo pra quadra AGORA. Se você não for comigo, não precisa me procurar nunca mais. Acabou.
Érico: Calma aí, Betão... vamos conversar...
Roberto: Não me procure nunca mais!


quarta-feira, 18 de julho de 2018

Astrologia


Tem momentos em que a gente acorda com o ânus virado pra Lua. Todo mundo já deve ter tido essa sensação. Encontrar dinheiro na rua duas vezes no mesmo dia. Receber simultaneamente propostas irrecusáveis de emprego. Ou propostas irrecusáveis de namoro, tanto faz. Ganhar uma rifa. Pelos meus cálculos, essas situações devem ocorrer a cada 20 anos, no máximo. Ou a cada ano em que o Brasil é campeão, já que o assunto ainda é Copa. Aliás, nunca entendi esse metafórico ditado. Fico tentando imaginar que relação existe entre a sorte, o acaso, a fortuna da vida, e despertar com seu fiofó apontado para o satélite natural da Terra.
Já nos demais dias da nossa existência, ocorre o fenômeno inverso. Ganhamos muita prática e habilidade em pisar em cocô de cachorro na rua em vez de achar dinheiro. Ser premiado com uma pomba que defeca justamente sobre sua cabeça, entre milhares de escolhas possíveis. Perder o ônibus que acabou de passar. Encontrar seu chefe no elevador no único dia do ano em que você chega atrasado no trabalho. Esquecer o celular num lugar a que você nunca mais vai voltar. Se for mulher, tomar chuva no dia em que fez escova. Se for homem, falar logo no primeiro encontro sobre o assunto mais traumático da vida da crush.
Existe também o que se chama de maré de azar. Não basta se ferrar uma, duas vezes. Tem que ser numa sequência, em ligação em série, como se a vida fosse uma canastra de má sorte de 2 a ás. É romper com a mulher, ser demitido e quase ser atropelado na mesma semana. Ser assaltado duas vezes no mesmo dia. Escorregar na banheira enquanto o frango tá torrando no forno.
A esses fatores meio sem explicação, que só nos demonstram a impotência de guiar nosso futuro, alguns “especialistas” atribuem a um conjunto da ordem celestial, tão lógico e científico quanto o programa da Ana Maria Braga. Falam em uma conspiração astral, como se todo o cosmos se reunisse escondido no banheiro e concordasse: “Hoje vamos foder a vida do Érico”. Isso mais parece um complô. Fico aqui desenhando mentalmente a figura imagética da Ursa Maior saindo de um restaurante de luxo com uma mala de dinheiro recebida de Orion, em troca de favores ilícitos para mudar o destino de alguém.
Realmente não entendo. Qual a relação entre o que a gente faz e o que os astros fazem? De que forma um pode influenciar o outro? Se um garoto resolve jogar bola em vez de ir pra escola, isso não muda em absolutamente nada o alinhamento dos planetas. A regra também vale para o sentido inverso. Se a Lua resolve de madrugada passar na casa de Capricórnio, não tenho nada a ver com isso. Deixa rolar o clima. Quem não quer passar uma noite à base de vinho branco e salmão com molho de frutas vermelhas ervas finas? Essa coisa de influência... a gente não precisa se meter na vida dos outros. Vai ver eles se conheceram no Tinder. Deixe um pouco de lado sua incontida vontade de fazer fofoca.
Da mesma forma, se Mercúrio resolve parar na casa de Áries, o problema é dele. Vai ver foi cobrar uma dívida. Filar uma janta porque na sua geladeira só tinha água, salsicha e requeijão vencido. Ou foram passar a madrugada jogando Xbox. Aliás, nem dá pra saber onde fica a casa de Mercúrio. Só sei que fica longe pa-ra-ca-ra-lho. Sempre imaginei que o suprassumo da lonjura fosse a casa da minha ex, que mora em Osasco. Duvido que algum motorista de Uber aceite uma corrida até Mercúrio. A distância é tão grande que resolveram criar uma medida chamada anos-luz. Mais ou menos assim: se fosse possível viajar na velocidade da luz (portanto, esquece os voos da TAM), você iria pra Mercúrio como a Maisa e voltava como a Dercy Gonçalves. E os números para mensurar são tão absurdos que se privilegiam de fazer parte da Física Quântica. Aliás, quero dar um beijo de língua em quem inventou a Física Quântica. Ela consegue explicar o inexplicável da natureza. Imagine a cena: “Érico... Érico Fuks... encontrei essa calcinha debaixo do sofá... de quem é essa calcinha?”. “É da Física Quântica, uai”.
Mas voltando a Mercúrio. Além de longe, lá não tem PORRA NENHUMA. Nem um cassino básico pra justificar o esforço. Olha, se é pra viajar uma distância interminável e chegar num lugar ermo e inóspito onde não há nada, não precisa ir até Mercúrio. Basta pegar o trem pra Ferraz de Vasconcelos. Pelo menos durante o trajeto você pode comprar um novo carregador de celular pela metade do preço.


quinta-feira, 14 de junho de 2018

Copa


Não vou torcer contra o Brasil.
Mas também não vou torcer a favor do Brasil.
Simplesmente não vou torcer.
Futebol não é minha língua.
Os 200 milhões de comentaristas que me desculpem, mas não vou falar nada.
A concentração vai ser no meu silêncio.
Podem gritar, podem vibrar. Eu não vou ouvir.
Não faz sentido algum torcer para profissionais que ganham um BMW por hora.
Não torcem para você. Nunca torceram. Aliás, nem sabem quem você é.
Não faz sentido algum torcer para exibicionistas que andam de Armani como se isso fosse exemplo de superação.
Não se envolvem em questões políticas. Não abraçam causas. Não apoiam ONGs. Talvez até o façam, mais por marketing do que por princípios.
Nasceram nas favelas, mas esqueceram o Brasil.
Pegaram a ponte aérea, da Baixada Fluminense para Manchester.
Vêm pra cá como turistas.
Alienígenas que pousam em nosso território a cada década.
Minha torcida é para os médicos, professores, artistas. Caminhoneiros, até.
Não faz sentido pintar o rosto, maquiar a rua, abrir o sorriso desdentado, estampar uma beleza que não existe, num dos piores momentos da nossa história.
E não estou falando só de política.
Falar que somos todos um só, num só coração, que #tamojunto por um ideal maior, é uma atitude no mínimo hipócrita. Ou ingênua.
Nunca se brigou tanto por nada nas redes sociais.
Nunca fomos tão polarizados. Ou bipolares.
Vivemos num tempo do mais alto e execrável individualismo.
Anunciantes, podem continuar vendendo refrigerante pra mim. Me forçando a abrir uma conta. A trocar de shampoo. A comprar um carro. Mas, por favor, não me peçam para torcer. Isso é pedir muito. Dinheiro jogado fora: o grito de gol não vai sair.
Meus caros, vocês pisaram na bola. Pisaram feio.
Estamos num momento de penalidade máxima.
Continuem aí, no jogo do “ame-o ou deixe-o”.
Eu vou fazer o que mais sei fazer: ignorar.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Na feira


- Olhaí, olhaí, freguesa. Pois não, senhora?
- Eu queria um namorado.
- Com espinha ou sem espinha?
- Não não. O senhor não me entendeu. Tô procurando um namorado. Alguém pra sair comigo, pegar um cinema, dar uns beijos, dormir de conchinha...
- Conchinha? Tem ostra aqui. Vai levar, freguesa?
- Não, obrigada. É que...
- Garoupa, quer? Tá bem bonita.
- Obrigada. Acredito que seja bonita mesmo. Olha, eu respeito a diversidade, a comunidade gay, mas meu negócio é homem mesmo.
- GA-ROU-PA. Tem traíra, se a senhora quiser.
- Não, vixe! Chega de traíra na minha vida. Se eu te contar cada roubada que passei, a gente não sai daqui hoje. Na verdade eu procuro um homem sincero, companheiro, que entenda a gente.
- Entender vocês? Kkkk
- Deixa eu terminar. Eu tô a fim de achar o amor definitivo da minha vida. Mas não esses príncipes de contos de fada. Quero alguém de carne e osso.
- Olha, barraca de carne é a terceira pra lá. Pergunta pelo Seu João que ele faz um precinho pra senhora. Fala que você veio do Ademir.

- Bom dia. Eu queria um...
- Pra viagem, freguesa?
- Como o senhor sabe? Eu queria alguém que fosse comigo pros lugares mais exóticos. Alguém pra conhecer o mundo, aprender novos costumes, novas línguas.
- Tem língua aqui, vai querer?
- Ai, credo! Mas deixa eu terminar. Eu sou praia, eu sou campo, eu sou trilha, eu sou cidade, adoro viver a vida...
- Coração?
- Isso é uma cantada?
- Não, senhora... magina... a senhora vai levar coração hoje? Tá bom, bonito e barato.
- Coração barato... tsã... era só o que faltava. Minha vida já tá complicada demais. Ah, os homens são tão vulgares...

- Moça bonita não paga, mas também não leva. Bom dia, freguesa.
- Eu queria um...
- Maduro?
- Com certeza! Um homem, assim, experiente... vivido... bem resolvido... que conhece as mulheres... que sabe agradar uma mulher... entende a mulher...
- Entende a mulher? Kkkk
- Por que todo mundo ri quando eu falo isso? Enfim... quero alguém estabelecido. Cansei de me envolver com moleque, gente imatura, despreparada...
- Chupa aqui.
- O senhor me respeita!
- Tô falando da laranja, senhora. Pode provar, tá bem docinha.
- Ah, tá. Então, como eu tava falando... o mercado tá difícil, sabe? Mas eu procuro alguém divertido, alto-astral, inteligente, que me faça cafuné, que me faça bem...
- Banana?
- E você acha que eu tenho cara de quem tá procurando um banana? Eu, hein?
- Tô falando dessa banana aqui. Tem prata, nanica...

- Bom diiiia, freguesa.
- Bom dia. Eu queria um... achei! É ele! É ELE! Finalmente encontrei o amor da minha vida.
- Muito bem! Quer que embrulhe?
- Não, eu prometo ser bem honesta com ele.
- O fiel aqui...
- Mas é ÓBVIO que ele tem que ser fiel!
- Tô falando do fiel da balança. O ponteiro. Tá marcando...
- Ai, nem me fale em balança. Preciso fazer uma dieta ur-gen-te! E malhar!
- Tá marcando 2 quilos. Tá bom ou quer mais?
- Tá ÓTIMO!
- A senhora não vai se arrepender. Chegando em casa vai ver que é bem fresquinho.
- Não, peraí... para, para tudo! Um pouco meigo, sensível e delicado, até aí tudo bem. Mas... fresquinho... fresquinho definitivamente NÃO! Quer saber? Deixa quieto, não vou levar nada. Já vi que aqui eu não vou encontrar o que procuro. Só tem bagaço! Pra mim chega! Desisto. Só uma última coisa...
- Pois não, senhora.
- Onde tem um supermercado aqui perto?

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Meu futuro primeiro encontro

Não fui eu que pedi. Me incluíram, sem minha autorização, numa comunidade facebookiana de solteiros. Como esse passou a ser recentemente meu status, OK também fazer parte dela e ver o que acontece. Não preciso denunciar o anônimo que me botou lá. É um grupo de poucas interações. Uma balada micada. Com a vantagem de não ter banda cover tocando “parabéns” à meia-noite para os aniversariantes do dia. Passei pela página de modo superficial, rápido e desinteressado como quem lê revista em consultório. Me chamou a atenção um perfil de uma moça com cara de quem fez o papel da Branca de Neve no colégio. Ela deve usar maquiagem à base de porcelanato. Não tem uma espinha, uma ruga. Em lugar nenhum. Deve deixar uma quiromante bem confusa. Seu semblante traz uma sensação boa. Alto-astral. Seu sorriso não é forçado. Ela passa a imagem de segurança. De poder. Deve trabalhar na Berrini. E passar as férias esquiando em Aspen. Eu passo minhas férias no Guarujá. Quando sobra dinheiro. Sei lá, parece que ela tem muitas qualidades. Destacou-se fácil da maioria dos perfis da comunidade. Até porque essa maioria é de homens que tiram selfie fazendo biquinho em frente ao espelho da academia. Ou dentro do Honda Civic. Sim, meu caros. A humanidade não tem mais salvação. É o fim dos tempos. Homem também faz selfie de biquinho na Smart Fit, entre um supino e outro.
Dei um “oi” nos comentários de sua foto e esperei resposta. Que chegou mais ou menos 10 dias depois. Poderia ter ficado puto. Poderia achar que ela trabalha no telemarketing da NET. Mas entendi a situação. Ela foi respondendo por ordem de chegada. Que nem atendimento do SUS. Como eu não agendei horário de chat, fui atendido somente quando chegou minha vez. Minha senha era 637.
Começamos o diálogo com aquelas perguntas protocolares. Formulário-padrão de entrevista de emprego. Como eu previa, ela ocupa uma função foda. Nem lembro direito, mas sei que é alto escalão. Aquilo não é um cargo, é uma oração subordinada. 4 ou 5 palavras e umas iniciais no meio que só servem pra te humilhar. Gestora de Franquias IT Aplicadas ao Pequeno Varejo. Corregedora Master XP em Prevenção a Fraudes e Delitos. Vice-Presidente MHD em Análise de Riscos e Oportunidades. Se colocar todos os cargos de onde ela trabalha no papel, sai a continuação do Harry Potter.
Minha pergunta seguinte foi bem besta. Homem fica meio retardado quando tenta se aproximar de uma mulher. “O que você pretende nesta comunidade?”. Criar um evento #ForaTemer. Vender Cogumelos do Sol. Fazer novas amizades. Claro que não, ô idiota! Amigos a gente faz na sinagoga. No curso de stand-up. Quem entra numa comunidade chamada Solteiros e Solteiras de São Paulo é porque está procurando sua cara-metade. Pode ser um casamento. Um namoro sério. Um namoro divertido. Até uma trepada, quem sabe. Ou, na maioria dos casos, o que de fato acontece é uma sequência de 300 mensagens no WhatsApp e um encontro de um dia só. Uma relação efêmera e casual de 3 horas, que começa no Star Wars e termina no Starbuck’s.
Se ela é uma pessoa bem resolvida, e provavelmente muito seletiva, você deve estar se perguntando: o que ela está fazendo numa comunidade de losers, e ainda por cima virtual, onde só dá maluco? É fácil de responder. Sim, existem aristocratas que além de ricos são bonitões. Ela poderia ficar com qualquer um deles fácil. O problema é que a elite brasileira é uma bosta. Esses Mansur, Garneros da vida, aparecem na coluna da Mônica Bergamo mas todos eles cometeram grandes crimes contra a nação. O mais gritante é que todos namoraram a Adriane Galisteu. Thor Batista, por exemplo. Ele é deus nórdico só no nome. Um babaca. Deve ser muito chato namorar um cara cujo hobby preferido é atropelar ciclista. Então, é possível que ela tenha entrado na rede por uma questão de experimentação. Deixar aflorar o lado insólito da vida. Entrar em contato com o excêntrico. Sei lá.
Na sequência do nosso diálogo virtual... aliás, esqueci de apresentar a pessoa. É Anna, com 2 NN. Não sou besta, né? Claro que esse não é seu nome verdadeiro. Mas eu gosto. Anna é nome de gente rica. Empoderada (odeio essa palavra). Anna Pegova, Anna Hickmann, Anna Karenina. Nome de quem empresta sua imagem a comercial de cosméticos. Portanto, essa pessoa relatada doravante será chamada de Anna. Que continua sendo um mistério. Sabe aquela história de que a música “Parabéns a você” não é de domínio público, mas foi criada por uma velhinha de 90 anos que mora no sul do Texas, e cada vez que alguém canta ou toca essa música tem que depositar uma porcentagem dos royalties na conta dela? Então, eu tô desconfiado de que a Anna é neta dessa velhinha. Disse que tem um casal de filhos adolescentes e me mandou a foto deles. Sei não, mas acho que ela alugou esses pimpolhos num brechó. Duvido que o pirulão de 1,80m tenha saído daquele ventre imaculado.
Mas voltando ao chat. Mencionei o churrasquinho grego, a Galeria do Rock e o Largo do Paissandu. Não se trata de um convite, claro. É mais pra testar seu nível de conhecimentos sobre estudos antropológicos. Ela conhece o Largo do Paissandu. Viu nos noticiários na semana retrasada. Antes disso, achava que era a capital do Bangladesh.
Próximo assunto: cinema. Meu território, meus domínios. Falei que frequentava mais os cinemas da região da Paulista. Pela localização, pela programação, enfim... Ela respondeu que as cadeiras não são confortáveis. Vou repetir: as-cadeiras-não-são-confortáveis. Aquela informação me caiu como uma pedra. Minha vivência cinéfila ruiu. Passei metade da adolescência dentro do Cine Astor. Parte das cadeiras do Itaú Frei Caneca estão mais fofas graças às minhas nádegas. Conheço os funcionários do Belas Artes pelo nome. Se ela estiver se referindo ao Centro Cultural, está coberta da razão. Aquelas cadeiras duras e sem encosto são ótimas... para monges tibetanos que dormem no chão. Nivelam qualquer opulência. E até hoje não entendo por que raios eles quiseram imitar cadeira de balanço de parque infantil.
Para a musa do capitalismo, o cinema preferido é, adivinhem: Cinépolis JK Iguatemi. Vou dar um briefing pra quem não conhece. Lá, um concierge dentro da sala serve pipoca ao azeite trufado com uma taça de cabernet sauvignon. A poltrona é mais confortável que minha cama. Quando você senta nela, a primeira coisa que precisa fazer é pegar o celular e botar pra despertar às 7h. A lateral da cadeira tem mais botão que o painel do carro da minha mãe. Tem botão pra elevar o apoio dos pés. Botão pra inclinar o encosto. Certeza que se você apertar os 2 botões juntos vem uma oriental te fazer shiatsu. Pena que só passa blockbuster. Se passasse algum filme do Lav Diaz (pra quem nunca ouviu falar desse diretor, um curta-metragem dele dura 4 horas) eles não venderiam ingresso. Venderiam uma diária. A bilheteira te entregaria o ticket junto com uma toalha, Havaianas e sabonete líquido. E naquele complexo não existe “sala comum”. A sala VIP É a sala comum. A hierarquia é sala VIP, sala Ultra VIP, sala Mega VIP e Olimpo. Com a grana do ingresso mais R$ 200 dá pra dar a entrada numa kitchenette. Uma vez eu encontrei o Wagner Moura naquele cinema. Estava deixando currículo com a gerente.
Não definimos ainda o local do encontro. O cine-ostentação é uma possibilidade. Não quero fazer que nem todo homem faz. Chegar uma hora antes e dizer pra ela “acabei de chegar, é minha primeira cerveja”. Vamos tentar sincronizar horários. Vamos chegar mais ou menos juntos. Ela de Hilux, eu de Terminal Capelinha. Não tenho carro, não gosto de dirigir. Mas isso ela não precisa saber. Tem muita coisa da minha vida que ela não precisa saber. Pelo menos não no primeiro encontro. Que eu tive lúpus eritematoso subagudo. Durante 2 anos da minha vida, meu rosto parecia um campo minado de varíola. Ou que nas aulas de lambada ninguém queria dançar comigo e eu treinava sozinho em frente ao espelho. Ou que o pessoal da firma acertou a quina da Mega Sena e eu não entrei no bolão. Ela não precisa saber nada disso. Só o básico, o resumo da minha vida: nasci / peguei autógrafo do Pelé / entrei na ESPM / entrevistei o Tarantino / vim aqui te conhecer. É mais do que o suficiente.
Ela também não precisa saber de alguns detalhes programados para o próprio dia. Vocês sabem, hoje em dia tem um Carrefour Express em cada esquina. Compro um sanduíche integral de peito de peru e tá tudo certo. Simulo uma certa indisposição na hora do encontro. Não vou gastar o olho da cara pra comprar pipoca com redução de aceto balsâmico preparada pelo Alex Atala. A única pipoca que conheço vem com redução de milho. Cansei de comprar saquinho pela metade.
Mas vai dar tudo certo. Já pedi o adiantamento do 13º. Segui o protocolo para impressionar pessoas. Entrei no Google. Decorei o nome de todas as espécies de abelhas em extinção. Aprendi as expressões básicas em mandarim. Treinei um monte de coisa que vi em tutorial: saltos de parkour, fazer crepe suzette na mesa, trocar a bateria de iPhone... pensando bem, esse não. É impossível trocar a bateria de iPhone. Tô confiante. Talvez não role nada. Talvez ela dê a desculpa clássica “vou comprar cigarros”. Faz parte da vida. O que importa é a tentativa. No Cinépolis JK Iguatemi. Capaz dela achar que EU seja o concierge. Mas tudo bem. Vamos ver. Mas antes, preciso dizer uma coisa muito séria: se for pedir vinho dentro do cinema, que seja um Merlot chileno, reserva 2012.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A greve da letra Z


Parecia uma reivindicação besta. A categoria que ocupa o 26º lugar no alfabeto fez uma série de solicitações, em virtude das recentes medidas léxicas que só ampliaram as desigualdades e trouxeram ainda mais injustiças ao cenário gramatical vigente.
A lista, encaminhada ao presidente do Acordo Ortográfico, era imensa. A primeira reivindicação, talvez a mais importante, era trazer mais visibilidade à categoria. A letra Z não queria mais ser a última do alfabeto e, portanto, a menos utilizada. Queria ser a 5ª, logo abaixo do D. Isso traria uma valorização à classe. Além disso, os representantes sindicais do Z pleitearam que a letra tivesse, do ponto de vista fonético, um som próprio e exclusivo, reforçando sua identidade própria. O “s” da palavra “casa”, por exemplo, estaria doravante proibido de ter o som de “z”, cabendo-lhe todas as implicações legais caso o descumprimento da determinação permaneça. Dentro da mesma pauta, outra reivindicação foi a renomeação de diversos termos do nosso vocabulário. “Obeso” passaria a ser “obezo”. “Coisa” seria “coiza”. “Exame”, “ezame”. E por aí vai. Como adendo ao parágrafo, a categoria solicitou que o termo importado “WhatsApp” fosse oficialmente incorporado ao nosso idioma na forma de “Zapzap”, conforme pronunciado nas comunidades de baixo poder aquisitivo. Em nota, um dos membros do Conselho da Letra Z alega que esta é a mais limpinha do teclado, o que gera uma terrível discriminação em relação às sujas, gastas e afundadas “a”, “s” e “#”.
No início, as entidades procuradas ignoraram a solicitação. Protocolaram o requerimento e a coisa ficou por isso mesmo. Já que o nosso vernáculo é tão vasto e rico, na abundância de suas 25 companheiras de escrita, todas essas solicitações, se atendidas, poderiam gerar um desequilíbrio nas contas públicas e colocariam em risco a possibilidade de se gerar um efeito cascata. Além disso, nosso delicado momento econômico não seria propício a tais mudanças, já que isso poderia onerar os fabricantes de componentes linguísticos. Todos os teclados e telas touch screen deveriam ser refabricados. O que, pra falar a verdade, não seria problema algum, no país do kit de primeiros socorros, do extintor de incêndio veicular tipo ABC e da tomada de 3 pontos.
Revoltados, os integrantes da letra Z adotaram medidas mais radicais. Da noite para o dia, organizaram um motim de proporção nacional. No início da semana passada, todas as letras “z” desapareceram dos vocábulos, criando um vácuo existencial. A sociedade não se acostumou ao “a_ul” no lugar de “azul”. “Ami_ade” ao invés de “amizade”. Como se não bastasse, os piqueteiros foram além. Bloquearam o acesso a toda e qualquer consulta, impressa ou virtual, aos verbetes iniciados por Z. De repente, não mais do que de repente, o dicionário terminou no Y.
As consequências imediatas foram terríveis. O zinco sumiu das prateleiras. A música ficou mais pobre sem a zabumba e o zouk. As cenas de zumbi tiveram de ser refeitas. O zoológico foi desativado. Zeladores foram pro olho da rua. Zagueiros foram pro banco de reserva. O estoque de zero ficou praticamente zerado. A Operação Zelotes foi interrompida. Teve racionamento de zimogênio, seja lá o que isso possa significar. Houve briga por zíper. A imprensa sensacionalista colocou em suas manchetes: “Se a paralisação continuar, daqui 1 mês as zebras deixarão de existir”.
Quem foi a favor da greve comemorou. A cidade estava vazia. Ou melhor, va_ia. Por alguns dias, nada de zombaria. De zorra. Zoeira. Ninguém zanzando por aí. Zangados na rua eram cada vez mais raros. E o que é melhor: finalmente o país se viu livre do Zika Vírus. E do zunido do seu inseto transmissor.
Em caráter emergencial, o Ministro da Língua Portuguesa solicitou a importação de 20 milhões de letras para que a pane não se agravasse. Apenas como medida cautelar. Porém, com a alta do dólar, foram obrigados a estreitar relações comerciais com a Al Jazeera, o lugar mais abundante do planeta em estoque de letras pouco convencionais. Isso, claro, quebrou protocolos oficiais e gerou um certo mal-estar no Congresso.
O Governo, débil e incompetente, vivendo a maior crise dos últimos tempos, atendeu a maioria das solicitações apenas na tentativa de se manter no cargo até o fim do mandato. Entre diálogos e carreatas, o que sobrou foi uma série de trapalhadas. A mais grave foi o Corregedor dos Neologismos, flagrado dormindo em sessão na plenária que debatia o assunto. O cartunista Ziraldo não perdeu tempo: tacou um balloon escrito “zzzzzzzzzzzzzzzzz” sobre a imagem do perdulário. Um tremendo desperdício, em época de restrição de consumo.
Apesar de boa parte das reivindicações atendidas, a greve continuou. Filas e mais filas nos cartórios. Quilômetros de aglomerações de Zulmiras, Zózimos, Zuleikas e, principalmente, do tal do Zé. Baderneiros incentivaram o quebra-quebra. O “Z” do luminoso da fachada da danceteria Zais foi furtado. Ninguém sabia mais o que os manifestantes queriam. Um dos líderes do movimento declarou: “existe uma clara infiltração política, orquestrada pela elite imperialista e conservadora norte-americana, que colocou títeres das letras estrangeiras “W”, “X” e “Y” se misturando ao grupo, com o único objetivo de atrapalhar as negociações e causar ainda mais repúdio da população”.
Por ora, a situação está relativamente sob controle. O zabaione voltou ao mercado, ainda que com o reabastecimento incerto. Fabricantes de azulejos retiraram o ágio. O Governo reduziu os impostos do azeite, subsidiando sua produção e gerando um rombo bilionário aos cofres públicos.
Não é um final feliz, com “z” no final. Mas é o que temos. A greve do “H” está programada pra semana que vem. Enquanto isso, vamos empurrando nossas palavras com a barriga. E torcendo por um texto mais justo. Seja o que Zeus quiser.


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Quando o Tinder e o Uber se encontram


- Carol?
- Marcos?
- Oi, prazer.
- Como cê tá? (beijinho, beijinho).
- Achei que cê era mais alto... assim, pela foto...
- Jura? Ah, sei lá... essa foto eu tirei na praia, faz tempo, vai ver eu ...
- Não, não me leve a mal. Tá bom assim... homem muito alto também não dá, né? Rs
- E aí? Pra onde a gente vai? Pegar um cineminha?
- Tava pensando num japonês.
- Seu ex? (...) Ah, restaurante... pô, foi mal, desculpa.
- Tem um em Moema que é muito bom.
- Fechou. Posso seguir o caminho do Waze ou você tem alguma preferência?
- Não, de boa.
- Em compensação você é mais gata pessoalmente do que na foto. Tá bom o ar ou quer mais frio?
- Tá bom assim, obrigada...
- Quer uma balinha? Água? Fica à vontade.
(No restaurante)
- Me conta: o que você faz?
- Sou advogada... taurina, ou seja, tenho um gênio meio forte... rs... Separada, tenho um casal de filhos que são o amor da minha vida... ah, tenho outro filho também: meu gato, o Rory. E eu sou assim mesmo, isso que você tá vendo. Sou bem simples, odeio falsidade, odeio homem que enrola a mulher, sabe? Mas e você, quero saber de você.
- Ah, sei lá... não tenho muito o que falar de mim, não. Eu sou engenheiro. Trabalhei 17 anos numa firma que fechou. Aí você sabe... tive que me adaptar à realidade, me reciclar, procurar novos desafios... tô aí, no corre...
- E você gosta?
- Ah, tem dia que o movimento é bom. Pego umas 7, 8 pessoas... mas no geral tá fraco...
- Ah, vários parceiros por dia... rs... E o que fez você entrar no app?
- É que eu saio pouco, sabe? Não tenho tempo. Então eu tô a fim de achar a pessoa certa. Nada de aventura, essas coisas... na noite rola muita besteira, entende? Eu prefiro uma coisa mais sossegada. E você?
- Eu me separei faz um tempinho. Tive uns relacionamentos depois, mas nada sério. Na verdade eu tô procurando novos caminhos, novos horizontes. Em busca de uma nova direção pra minha vida, saca? Não adianta o GPS apontar pra esquerda se eu quero ir pra direita, tipo isso... Eu meio que cansei de ser conduzida de modo convencional. Hoje eu sou mais do caminho alternativo... não vou comer esse sushi, você vai querer?
- Passa pra mim.
- Cansei de ser pressionada, de seguir o que os outros falam.
- Você não faz ideia. Tem cada gente estranha nesse mundo... ontem mesmo, entrou um casal no carro, aparentemente normal. Bem vestidos e tal... Mas dava pra ver que o cara tava cheiradaço... a mulher então, vixe... vomitou no assoalho, acredita? Ah, não dá... cansei também...
- É, pelo menos isso a gente tem em comum... pedir a conta?
(...)
- Então tá. Foi um prazer. (Beijinho, beijinho, e de repente surge um beijinho maior do que um simples beijinho). Não, para... cê tá confundindo as coisas... hoje vamos ficar por aqui. Boa noite. Pode encerrar a corrida.
- Foi mal. A gente se vê novamente?
- Vamos ver. Eu te mando uma mensagem. Ah, é crédito.
- Só me faz um favor. Depois não esquece de me avaliar.


quinta-feira, 26 de abril de 2018

Professor bom é professor sujo


Hoje praticamente tudo se aprende por conta própria no Google. O resto nos é ensinado por professores em auditórios tecnológicos, com recursos multimídia e direito a coffee break. Aquele professor vestindo um impecável Armani, microfone de lapela e caneta laser pra apontar em sua apresentação Power Point os principais tópicos do conteúdo de seus conhecimentos técnicos. Tudo muito bonito, muito clean e muito caro.

Mas bom mesmo era o professor de antigamente. Aquele propedeuta que andava com o cabelo bagunçado e cheio de caspa pra evocar Einstein. Usava a camisa polo de todos os dias, que nunca ornava com o sapato gasto e de cadarço, frequentemente desamarrado num pé. Em seu pescoço, estava pendurado o óculos de grau, utilizado somente para leitura. Professor que urrava com a alma, passava todo o exercício do seu saber na base do gogó e ficava rouco pelo menos 1 vez por semana. Circulava sempre com as mãos sujas de giz, que emporcalhavam o avental branco com uma coloração mista de amarelo, laranja e carmim. Um avental levemente amassado, com os bolsos bem cheios, e a gente não sabia se eram preenchidos por questões da prova, calculadora ou a metade sobrante de um pão com mortadela. Aquele sim, era professor de verdade. Que suava, que sangrava e que fazia a gente aprender.


quarta-feira, 18 de abril de 2018

O fim do mundo


Atendimento: Pessoal, acabei de chegar do cliente e peguei um baita briefing. Campanha grande: o fim do mundo. É concorrência.
Criação: Ah, tá... e qual o prazo?
Atendimento: Urgente. Falaram que o mundo vai acabar no dia 23, então precisamos levar as ideias antes pra eles aprovarem... concorrência gigantesca, são mais de 15 agências envolvidas. Já tava tudo fechado, mas aí eu fui lá entregar o job da Guerra da Síria, eles gostaram e deram pra gente essa oportunidade de participar. Tipo uma exceção.
Criação: Sei... e qual a verba?
Atendimento: Não foi definida. Mas por que vocês precisam saber?
Criação: Faz toda diferença. A gente precisa entender se o cliente vai gastar uma caralhada, aí a gente pode pensar num ataque de mísseis aéreos com todas as potências envolvidas. Ou então, se for campanha custo zero, a gente pode bolar uma queda de meteorito.
Atendimento: A gente precisa impressionar. Ideias do caralho. Essa conta é muito importante pra agência. Se vocês acham melhor apresentar propostas bem caras não tem problema. Depois eu ajusto o orçamento na planilha. (...) Só dando um toque: a gente PRECISA ganhar essa porra dessa conta. Perdemos a conta do aquecimento global e vocês viram, né? Todo o departamento de new business foi mandado embora.
Criação: E qual o target?
Atendimento: Olha, o público que vai ser impactado é meio assim tipo... mundo, sabe? Toda a galera. Mas essa campanha vai ser focada pros líderes, formadores de opinião, decisores... Pensa no Trump. Mas tem que ser algo que agrade também aquele outro lá. Baixar Wallassad... Baixar Wassalab... Wasabi... ah, sei lá. E aquele outro também, aquele chinês: King Kong Jun.
Criação: Ele é norte-coreano.
Atendimento: Ah, vocês entenderam.
Criação: E tem algum policy?
Atendimento: Criação livre. Só não pode falar dos concorrentes. Nada de comparar com Marte ou citar Júpiter nas peças. Viu, Kléber?
Atendimento: Ah, outra coisa. Vamos fazer algo bem up to date. Nada de coisa retrô, nada de extinção dos dinossauros, dilúvio, vulcão, isso que vocês apresentaram no job da semana passada. Ah, e vamos levar opções. Mínimo 3. Vocês marcam uma ideia no layout e as outras só faz o key visual. No final, vocês fazem uma defesinha das ideias, pode ser? Por enquanto deixa data, local e horário com marcação nonono. Depois eu passo as informações direitinho e coloco as referências na rede.
Atendimento (saindo da sala, fala baixinho e com sorriso ao mesmo tempo confiante e sarcástico): A gente vai ganhar.
(...)
Criação 1: Alô, é do consultório do Dr. Rogério? Eu tinha uma consulta hoje, mas vou ter que desmarcar... isso... semana que vem? OK, pode ser. Obrigado, tchau tchau.
Criação 2: Pessoal, vocês vão querer do quê? Tô fazendo o pedido agora. Meia portuguesa, meia calabresa tá bom pra todo mundo?

Dia seguinte. 18h55. Chega na sala o diretor de criação. Um hipster gourmetizado. Camisa branca da Dudalina, calça jeans preta, bota Timberland escura, óculos com armação em casco de tartaruga comprado num brechó em Londres, cabelo espetado com gel, barba aparada e brinco de diamante na orelha esquerda. Tem cara de metidinho, afetadinho, antipático. No fundo, é mesmo. Aquela cara de quem está sempre querendo espirrar, sabe?
Diretor de criação: E aí, pessoal? Cês tão criando aquela campanha do fim do mundo? Posso dar uma olhada?
Criação (preocupada): A gente já entregou uns roughs e alinhou as propostas com o atendimento. Estamos trabalhando em conjunto e o pessoal falou que tá tudo OK, que o caminho criativo é esse. Mas se você quiser olhar...
Diretor de criação olha as peças e não esboça a mínima reação. Não faz cara de surpresa, de agrado, não ensaia uma única risada de canto da boca. Sua cara de espirro fica ainda mais acentuada.
Silêncio sepulcral no ambiente. Sons de teclado lá da outra sala parecem tambores. Estagiário tira o fone de ouvido, começa a falar uma frase gritando empolgado e engole a frase no meio. Criação com o cu na mão.
Diretor de criação: Olha, eu não conheço o cliente, mas se eu fosse Deus eu reprovava tudo. Tá tudo muito flat, muito bife na chapa. Sem brilho, sem emoção. Isso aqui, ó: citar o Apocalipse. Bem déjà vu, né não? Redator, falta um conceito, uma ideia bem amarrada. Tá tudo meio solto. Isso aqui da doença de laboratório é até legal, mas cadê o insight criativo? Cadê as premissas? E você, diretor de arte: botar fundo preto pra falar de fim do mundo é beeem clichê. Batido demais. Pessoal, é sério. Se nós formos os últimos a apresentar, o cliente vai dormir. A gente tem que dar show!  Cadê a ação de ativação? Faltou o viral no Facebook. Inventa um lance que pareça fake news, aí na sequência a gente mostra a campanha de verdade. Senti falta disso, um lance meio teaser. Tipo: “prepare-se: o fim está próximo. Sua última chance de pular de paraquedas e beijar na boca a gostosa da sua vizinha”. Sei lá, tô chutando... só uma ideia... mas o caminho é esse...
(...)
Diretor de criação: Bom, tô indo pra academia. Amanhã de manhã eu tenho uma reunião no cliente e chego mais tarde. Me mandem por e-mail. Qualquer coisa, pode me mandar um áudio no Whats.
(...)
Criação: Pessoal, meia muçarela, meia frango com catupiry todo mundo come?

Dia seguinte. 18h55.
Atendimento (esbaforido e empolgado): Criação, acabei de voltar da apresentação. O cliente a-mou as ideias. Ele CHOROU! Muito do caralho. Cês estão de parabéns. Ele só pediu alguns ajustes, eu vou entrar com o pedido. Coisa pouca, bobagem. Aqui eles querem poupar as crianças, os idosos, a população de baixa renda e os cachorrinhos, pra não correr o risco de ficar politicamente incorreto.
Criação: Ué... mas não é O FIM DO MUNDO?
Atendimento: Então... era pra ser... tava tudo alinhado... mas aí entrou o pica das galáxias e resolveu mudar tudo. Não vai ser um fim do mundo global. Eles querem uma coisa meio catástrofes em alguns pontos do planeta. E não pode ser fim geral total porque o contrato de patrocínio com a Nike só se encerra no ano que vem.
(...)
Atendimento: Outra coisa: não podemos falar em “fim do mundo” pra não ficar tão agressivo. Precisamos suavizar um pouco a mensagem. Deixar algo como “o que vem por aí”. Ah, e não podemos usar armas. Nada de canhões, nem armas químicas. E não mostrar gente morrendo. Nem o planeta escurecendo. Algo mais clean, mais subjetivo. De resto, tá aprovado!

Semana seguinte.
Criação: E aí, já temos a resposta da concorrência?
Atendimento: Então... a cliente ACABOU de me mandar um e-mail. Eles decidiram cancelar o job. A verba foi toda alocada pra Copa do Mundo, que passou a ser prioridade. Mas semestre que vem eles vão voltar com o job e eles já prometeram que a gente vai participar do processo. A cliente adorou a agência, a gente conseguiu botar um pé lá dent...
Diretor de criação: Licença, desculpe interromper. Criação, só lembrando: amanhã a gente apresenta o job de ataque terrorista. Cês já começaram a pensar em alguma coisa?
(...)
Criação: Pessoal, o que acham meia escarola, meia atum?