Cansei de reclamar com o gerente, usar o Fale Conosco do
site, enviar textos para a extinta seção de críticas do Guia da Folha. Cansei.
Só me resta então fazer campanha. NÃO VÁ AO CINEMARK. Agora, a “moda” é
unificar as bilheterias de compra de ingressos com a bomboniere. Isso só prova
que, como eu sempre falo, CINEMARK NÃO É CINEMA. É uma loja de doces em que se
passam filmes. A consequência disso? Ontem fiquei mais de 20 minutos agonizando
na fila. E a tendência é só piorar. Sou das antigas. Recuso-me terminantemente
a comprar por aplicativo, que também gera transtornos na leitura do código e
não impede o cliente de enfrentar fila, só que trocando uma por outra. Não
compro em sites, eles cobram uma taxa de conveniência pra não oferecer
conveniência nenhuma. Minha vida é cheia de imprevistos, eles também não fazem
a troca ou devolução do ingresso caso eu não consiga chegar à sessão comprada.
As filas nos terminais de autoatendimento são igualmente lerdas e gigantescas,
e raramente contam com um funcionário para auxiliar os clientes. Se você não se
sente afetado com meus argumentos, tudo bem. Continue indo ao Cinemark. Meu
diálogo não é com você. Mas se você é daqueles que também ficam indignados com
tamanho descaso da rede pela Sétima Arte, tamo junto. O lucro dos exibidores
para cada ingresso vendido não passa de 10%. Já o lucro das gororobas do snack
bar, como por exemplo a pipoca, ultrapassa 500%. Então, você já deve ter
percebido qual é o foco da empresa. NÃO VÁ AO CINEMARK. Se possível, opte pelos
cinemas de rua, que conduzem o ofício de oferecer cinema usando uma lógica
menos perversa. Opte pelos circuitos “de arte” que também colocam blockbusters
na programação (Arteplex, por exemplo). Com telas boas e poltronas
confortáveis, na maioria dos casos. Talvez o movimento de derrocada seja
inevitável e essa luta ganhe um efeito nulo. Mas é o máximo que eu posso fazer.
Se você chegou até aqui na leitura do texto, é porque em algum aspecto concorda
comigo.
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
Coisas que me emputecem
Hoje tá um ótimo dia pra reclamar da vida:
1)
Está chovendo forte. Você espera a chuva passar.
Ela passa. Até você descer do elevador, se despedir de todo mundo, na hora em
que sai pra rua a chuva volta, mais forte ainda. Torrencial. Você se lembra...
de que esqueceu o guarda-chuva. Fica ensopado. Entra aonde precisava chegar. Um
minuto depois, a chuva para.
2)
Você faz uma pergunta pra alguém. De múltipla
escolha. Espera como resposta uma das alternativas apresentadas. Por exemplo: “Você
gosta de bife mal passado ou bem passado?”. E a pessoa responde: “Isso mesmo”.
3)
O motorista do Uber acha que você é o
psicanalista dele. Ele desabafa, conta toda a sua vida, os seus problemas. Você
só ouve. Como um bom psicanalista. Só que, no final, quem paga a consulta é
você.
4)
Pessoas que resolvem almoçar juntas. Todas elas,
da firma inteira. Forma-se um bloco de 14 indivíduos na calçada. Eles é que
determinam a velocidade média dos transeuntes. Não deixam ninguém ultrapassar.
Estão todos felizes, rindo muito. E bloqueando a passagem dos demais. Como se
fosse um bloco de micareta.
5)
Gente
que
escreve
assim
no WhatsApp
que
escreve
assim
no WhatsApp
6)
O valor da oferta anunciada na gôndola do
produto no supermercado nunca coincide com o valor registrado no caixa.
7)
Ainda no supermercado. A pessoa na sua frente da
fila repetiu de ano em Matemática. Puxa um carrinho abarrotado de mercadorias,
debaixo da placa onde se lê “máximo 10 volumes”.
8)
Você vai ao banco. Pega a senha. Número 322. Vê
no painel a última pessoa que foi atendida: 275. Sabe que vai demorar pa-ra-ca-ra-lho.
Dá tempo de ler todos os livros do Tolkien. Aquele vidro fosco que divide os
caixas e os clientes foi criado pra você não conseguir enxergar quantos
funcionários estão atendendo. Depois desse trajeto Rio-São Paulo de ônibus,
avista o número 321 no painel. Pega seus boletos e prepara-se psicologicamente
pra ser o próximo. Painel apita o número P014. Preferencial. A velhinha que
acabou de chegar, mesmo com seu andador, consegue te ultrapassar.
9)
Loja de roupas campo-minado. Você está do lado
de fora, olhando a vitrine. Assim que encosta na primeira lajota do piso
interno, explode um vendedor ao seu lado: “Bom dia em que posso ajudar tá
procurando algo específico aproveita nossa promoção dá uma olhada nos outros
modelos sem compromisso”.
10) A
mesma lógica. Só que ao contrário. Você entra na loja, espera ser atendido, e
nada. Procura você mesmo as roupas, consulta você mesmo os preços, revira você
mesmo as pilhas de camisetas, e ainda assim nada. Entra no provador, sai de lá,
usa seu braço de cabide, dirige-se ao caixa. Sozinho. Do começo ao fim, você é
o meme do John Travolta.
11) Situação
parecida. Desta vez, no restaurante. O garçom finge que não te vê. Você levanta
a mão e faz um breve aceno. Ele desvia o olhar. Levanta o braço um pouquinho
mais, tentando chamar outro garçom. Ele também finge que não te vê. Você estica
ainda mais o braço, tentando alcançar o lustre, pra ver se São Pedro consegue
te enxergar e providenciar uma atitude divina. Só que a coisa é muito
sincronizada lá dentro. Todos os garçons combinam entre si de te ignorar
solenemente. A não ser na hora de trazer a conta e cobrar os 10%.
12) Continuando
no restaurante. Por quilo. Você está se servindo. A pessoa atrás de você tem
pressa, muita pressa. Parece o Coelho Branco da Alice no País das Maravilhas. Toda
hora encosta a bandeja no seu cóccix. Tá bufando. Pega qualquer coisa e joga de
qualquer jeito no prato. Em compensação, a pessoa à sua frente tem toda a calma
do mundo. Faz todo um processo seletivo para cada folha de alface. Escolhe
minuciosamente cada ervilha como se fosse um gemologista. Despeja no prato os
grãos de feijão por unidade.
13) Escada
rolante. As pessoas à sua frente acham que o aviso “deixe a esquerda livre” é
mera panfletagem política.
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
Começa com E
A história de hoje se passou há mais ou menos 10 anos, quando
trabalhei no departamento de Comunicação de uma distribuidora de médio porte de
filmes. Uma empresa familiar, cuja dona era folclórica no mercado
cinematográfico brasileiro. Fiquei pouco tempo ali. Mais ou menos 3 meses, o
equivalente ao período de experiência. Quando eu já tinha um bom tempo de casa,
pelo menos pra todo mundo dali saber quem eu era e o que eu fazia, a tal
proprietária me perguntou:
- Qual o seu nome, mocinho?
- Começa com E.
Ela, um pouquinho mais irritada, respondeu:
- Fala logo, mocinho!
Corria à boca pequena que de vez em quando ela costumava
maltratar alguns funcionários. Comigo nunca houve nada nesse sentido. Mas isso
não quer dizer que a gente tinha algum tipo de intimidade. Analisando hoje, eu
sinceramente não sei onde estava com a cabeça para achar que uma senhora de
quase 80 anos, presidente de um renomado selo de distribuição de filmes, ira
naquele momento querer brincar de jogo de adivinhação. É a mesma coisa que
beliscar o braço do Kim Jong-um e falar “3 marcas de cigarro”. É como falar pro
Bolsonaro “sebrãbisdoila” e, na hora em que ele perguntar “o quê?”, você aponta
o polegar pra baixo e faz um som com a língua “prrrrr”. Se bem que no caso do
Bolsonaro é até capaz de ele rir e gostar da brincadeira.
No fundo, eu queria achar que se tratava de um esquecimento
temporário. Não passava pela minha ingênua cabeça de que ela nem fazia ideia de
quem eu era. Que a minha importância para o sucesso da empresa era o
equivalente ao bebedouro. Que eu era facilmente confundido com um cartaz de
filme de terror.
Claro que esse fato ficou notório no nosso departamento.
Risadinha aqui, risadinha ali, cada vez que alguém se lembrava do episódio. Até
que o assunto morreu. Dias depois, falei para um comparsa da equipe:
- Já salvei na rede o texto do filme.
- Qual filme?
- Começa com E.
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Um dia de Playcenter
A história de hoje se passou no fim da década de 90. Mas,
antes de começar o relato, é bom trazer o contexto para quem ainda não era
nascido ou não conhece o lugar. O Playcenter foi o maior parque de diversões de
São Paulo. Deve ter surgido nos anos 70, bombou nos anos 80, sobreviveu nos 90,
começou a dar sinais de cansaço nos anos 2000 e fechou as portas coisa de uns 7
anos atrás. Era gigantesco. Proporcional à quantidade de frequentadores. Creio
que um Playcenter lotado equivalia à população de Belo Horizonte. E as filas
dos brinquedos eram muito, muito grandes. Intermináveis. Pra dar a sensação de
que nem eram tão imensas assim, a organização do parque inventou de fixar
aquelas grades que formavam corredores improvisados. E aí as filas rocambolescas
faziam aquele caracol. Vistas de cima, pareciam o intestino delgado. E, se
fossem esticadas em linha reta, cada fila começaria no bairro do Limão e
terminaria na Rodoviária Tietê. Pra você aproveitar bastante, tinha que ir lá
numas datas meio atípicas, como véspera de Natal, dia de jogo do Brasil na Copa
ou dia de greve dos caminhoneiros, se houvesse. Caso contrário, em dias
considerados normais, você passava a tarde inteira no parque pra conseguir
entrar em no máximo três atrações. Isso tem uma explicação. A maioria dos
frequentadores era galera. Não aqueles grupos de 4 pessoas que resolvem ocupar
uma mesa do Outback. Era grupo meeesmo. Parecia aqueles ônibus que desembocam
na 25 de Março durante o fim de semana. Ou as caravanas do Sílvio Santos.
Quando uma escola resolvia fazer excursão ao Playcenter, era a escola INTEIRA. Se
existisse smartphone na época, o pau de selfie teria que ser do tamanho de uma
canoa pra fazer caber a turma toda na foto. Se por acaso houvesse alguma briga
de gangue, a professora tinha que fazer chamada antes do embate pra conferir se
todos os lutadores estavam presentes. Na prática, essa situação era meio
bizarra. Já imaginou como seria a divulgação do ultimate fighting entre o
Colégio Dom Bosco e a Escola de Primeiro Grau Marista da Glória?
O Playcenter era a opção mais em conta pra quem não tinha
grana para ir à Disney. Mesmo assim, o ingresso não era tão barato. Por isso,
vira e mexe faziam promoções, sorteios, etc. Era relativamente fácil encontrar
o Passaporte da Alegria nas tampinhas das garrafas de Coca-Cola, nos encartes
de jornal... se bobear, tinha Passaporte até na caixa de sucrilhos.
Na época, eu tinha uma amizade muito forte com uma moça que
trabalhou comigo. Rolava um certo clima no ar. Nunca aconteceu nada, nunca
ficamos, nem rolaram beijinhos, nem chegamos a nos declarar, nada. Mas existia
na atmosfera aquela coisa que me alimentava as esperanças de que, quem sabe um
dia, essa situação poderia evoluir.
Pois foi numa dessas promoções, talvez no jornal, que ganhei
o Passaporte da Alegria e chamei essa minha amiga pra me acompanhar. Por três
razões: primeiro, porque eu queria impressioná-la. Quem sabe com esse convite
eu poderia acelerar o processo daquilo que minha cabeça imaginou que um dia
fosse acontecer. Segundo, porque eu não tinha tantos amigos assim. Por mais que
eu seja um cara “sociável”, com milhares de amigos, fãs e seguidores nas redes
sociais, a lista de pessoas na agenda é bem pequena. Sim, na época eu usava
agendinha telefônica, aquela em papel com suas respectivas divisórias por ordem
das letras do alfabeto. E terceiro porque eu, como um bom judeu, não poderia desperdiçar
a oportunidade e menosprezar a informação constante no verso da filipeta:
válido para 2 pessoas.
Marcamos no metrô Barra Funda. Ela chegou pontualmente e
estava bem entusiasmada. A chance de cumprir o critério 1 do parágrafo acima
era quase certa. Aquela com certeza iria ser a tarde mais divertida da minha
vida.
Desculpe interromper novamente a linha de raciocínio, mas
preciso acrescentar outra informação relevante. Eu ia bastante ao Playcenter.
Quando era pequeno. Acompanhado pelos meus pais. Adorava esse programa. Durante
minha infância, saía ileso da casa mal-assombrada. Jamais sofri qualquer tipo
de acidente no carrinho de bate-bate. Era o rei da roda-gigante. Só que os anos
se passaram. E o parque passou a adotar brinquedos mais radicais.
Chegamos ao parque e nossa primeira escolha foi um brinquedo
chamado Samba. Na verdade, de samba ele não tinha nada. A não ser o fato de eu
odiar os dois, tanto a música quanto aquela máquina. Parecia um pandeiro
desengonçado, e você tinha que se equilibrar segurando em alguns ferros
laterais. Quem não conseguisse se segurar, caía. Não vi graça nenhumas, mas
precisava cumprir meu objetivo. Saí de lá com um sorriso de fazer inveja ao
Coringa.
Nossa segunda escolha foi um tal de Viking. Pra quem não
conhece, é um barco que fica subindo e descendo. A cada movimento, ele ganha
altura e velocidade. No clímax da brincadeira parece que você atingiu o topo do
Edifício Itália. Aí ele começa a descer progressivamente, até parar. Entendi
porque o brinquedo ganhou esse nome. Ali dentro o tempo demora tanto pra passar
que parece que eu vivi uns 5 séculos em 5 minutos. Voltei pra Idade Média. E
uma coisa mais recente que adotaram no Playcenter foi botar DJ. Assim que
acabou a brincadeira, o DJ pegou o microfone e perguntou “Vocês querem mais?”.
Achei que a maioria fosse responder: “Não, de boa”. Só que, ao invés disso,
ouvi um coro uniforme gritar “SIIIIIIM”. Igual àquela cabine de um quadro de
perguntas do programa Sílvio Santos. E dá-lhe mais eternidade subindo e
descendo pelas nuvens de São Paulo.
Quando saí da máquina, meu conceito de chão era uma grandeza
muito relativa. Minha labirintite veio parar no joelho. Até tentei manter a
compostura e continuar impressionando minha amiga, mas não teve jeito. No
primeiro amontado de jardim, veio a incontrolável vontade de regurgitar.
Coloquei pra fora o almoço da semana anterior. Imagine você, meu caro. Usei o
Passaporte da ALEGRIA para usufruir de dois brinquedos e passar o resto da
tarde deitado num banco e tomando sal de frutas. Minha amiga, em seu trenzinho a
10 km/h recomendado para pessoas de até 5 anos, passou várias vezes por mim. Os
periódicos tchauzinhos que me foram acenados a cada volta foram a resposta mais
definitiva da tarde: jamais conseguiria impressionar minha amiga naquele estado
crítico.
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
Bacuringa
Até poucos dias atrás, as principais discussões
cinematográficas giravam em torno de Bacurau e de Era Uma Vez... em Hollywood.
Agora, o anti-Marvel Coringa chega não com a pretensão de encerrar o assunto
longe de se esgotar, mas para abrir um próximo parágrafo diante da questão.
Se esse paralelismo faz parte ou não do inconsciente
coletivo, ou de uma histeria hegemônica social, ou se trata apenas de uma
coincidência, difícil concluir. Nessa tríade, o que chama a atenção é não só o
retrato de uma sociedade doente, mas a urgência de se discuti-la. Vale lembrar
redundantemente que, nos três casos, o produto é ficcional, em seus diferentes
pesos e medidas autorais. No primeiro caso, mergulhamos na psicopatia de um
núcleo invasor, que vem de fora, e usa a pobreza nordestina como palco de um
sádico paintball reality show. É a
própria comunidade invadida que aplica os contragolpes, com os mesmos requintes
de crueldade, durante a catártica vendeta do epílogo. Com essa intensidade
igualmente raivosa, bem aos moldes da milenar Lei de Talião, podemos entender
que o combate à psicopatia só é possível usando a própria psicopatia. No
tarantinesco exemplo, a excessiva caricaturização dos psicopatas abranda um
pouco o episódio “baseado em fatos reais”. O clima de tensão do devir é muito
maior do que a concretização da violência atrapalhada do derradeiro ato
propriamente dito. Aqui, não é a sociedade atingida como um todo que faz o
revide, mas apenas uma dupla da indústria cinematográfica decadente e colapsada
diante de uma nova era. O efeito é, portanto, mais farsesco e menos catártico.
A representação icônica por camadas metalinguísticas (um ator e um dublê de
ator) dilui a insanidade dos Estados Unidos dos anos 70, ou pelo menos a coloca
em outro registro. Já em Coringa, esse rescaldo patológico se apresenta de modo
mais confuso. Não se trata exatamente de um grupo que contra-ataca as
arbitrariedades doentias de outro grupo, como no primeiro caso; nem de um duo
que evita um mal maior a ser causado por um bando de ripongas alucinados pelo
satanismo, como no segundo. Aqui, é um único indivíduo que ao mesmo tempo
rebate a doideira social e injeta nela outras nuances patológicas dessa mesma
loucura. É o eu-sozinho contra o mundo.
Claro, desnecessário dizer que Coringa é um caldeirão de
paradoxos. Comédia e tragédia se misturam como se fossem as facetas de outro
vilão, o Duas Caras. O bordão “rir para não chorar” poderia se encaixar
perfeitamente na sinopse. A chapliniana canção “Smile” sendo executada nas
cenas menos engraçadas é um resquício dessa contida ironia. A música é doce em
sua melopeia rítmica, e parece bailar junto com o Poema em Linha Reta, de
Fernando Pessoa, em que as digressões do poeta lusitano ecoam na cabeça do
personagem interpretado pelo irretocável Joaquin Phoenix. No texto em primeira
pessoa, encontra-se um fracassado que vive num mundo de vencedores. E Phoenix,
em sua ingenuidade do prefácio, parece assimilar esse discurso de uma bondade utópica.
Quanto mais ele acredita no ser humano, mais chutes no estômago ele leva. Nesse
acúmulo de socos e pontapés é que vem a pergunta: de que forma e em qual
intensidade vai surgir a salvadora reversão cômica?
Assim se constrói o universo DC Tragicomics. Os filmes da
Marvel, basicamente, são um recheio de efeitos visuais e pirotécnicos
reluzentes sobre um palco de guerra. Com pitadas de humor. É o show de stand-up
(eu diria talvez Stan-up) num ringue espacial de MMA. A DC procura roer outras
camadas. Coloca a risada onde não há graça nenhuma, o que deixa parte de seu
legado ainda mais dialético. O pingo de sangue sobre o button smile, na cena de
Watchmen em que o primeiro herói morre, traduz um pouco esse sarcasmo
contundente. Não há lugar para stand-up em Coringa. Não há plateia disposta a
rir. O punchline, fechamento de uma anedota, é muito mais punch. Uma porrada,
um soco no fígado.
Do começo ao fim, Coringa tenta provar que a frase
mercadológica de lançamento “coloque um sorriso nesse rosto” é algo
inatingível. Mas aqui eu me permito, acima de tudo, estabelecer uma relação de
tempo e espaço ao filme. Tudo indica se passar em algum lugar dos anos 80. Tem
uma secretária eletrônica. E, não por acaso, tem na fachada de um dos cinemas
da cidade o letreiro do filme Um Tiro na Noite, a reinterpretação que Brian de
Palma faz à obra-prima de Antonioni. Tem Robert de Niro como apresentador de um
talk show, fazendo uma alusão ao Rei da Comédia, no qual ele também trabalha. Mas
as referências não são apenas herméticas, piadas internas, como se a equipe
estivesse lançando um olhar para o próprio umbigo. Coringa se expande ao
mostrar uma metrópole violenta e surrupiada quase como um registro documental
da maioria das cidades que se desenvolveram rapidamente. Poderia Bacurau ser o
retrato do Brasil de Bolsonaro? Sim, perfeitamente. Uma colônia árida atacada
por milicianos gringos que tentam aniquilar a pobreza matando sua população
nativa. Poderia Coringa ser o registro do Brasil de hoje? Também. Somos 13 milhões
de desempregados, fazendo bicos nas ruas, segurando cartazes de lojas de
departamentos prestes a falir, num cenário em que a indústria encolheu 15% nos
últimos 5 anos. A falta de medicamentos por corte de verbas do governo é um dos
elos dessas duas realidades. Protestos de rua numa iminente guerra civil
dialogam muito com a nação que se revoltou e se dividiu não por causa dos 20
centavos. Mas Coringa não se pretende abraçar somente a causa
terceiro-mundista. Chicuarotes, o novo filme dirigido pelo mexicano Gael Garcia
Bernal, que ficou em cartaz no Brasil somente por uma semana, mostra em sua
cena inicial uma dupla de palhaços de rua que entra num ônibus e faz algumas
piadas antes de anunciar o assalto. A Gotham City de Todd Philips (quem diria,
o mesmo que nos divertiu com a trilogia de um grupo de amigos que sofrem de
amnésia pós-ressaca), obviamente, é soturna, suja, sorumbática. Poderia ser a
síntese de uma Nova York pré-Tolerância Zero, como também a Cidade do México, Bogotá
ou até mesmo a Rua Conselheiro Nébias. Existe um convívio forçado entre
vencedores e fracassados, mas, do ponto de vista estrutural, as divisas estão
muito claras. O diagrama do esqueleto de Gothan é quase tão matemático quanto
as fictícias demarcações dogvillianas. Os espaços estão claramente planejados: em
Batville, aqui é teatro de rico, ali é beco de pobre. O que ganha potência em
Coringa (e aí a sensação é de que quem leva chutes no estômago é o espectador)
é justamente quando essa lógica cartesiana se embaralha. O universo trágico não
pertence só aos miseráveis. E a vida, que sempre prega suas peripécias divinas
ao protagonista, pode ser encarada como uma comédia. Afinal, estamos no
registro da ficção. Tudo é espetáculo. Tudo é poesia. Até mesmo a versão
nordestina que Kléber Mendonça imprime a seu Mad Max do sertão. Até mesmo, e
principalmente, os versos finais de Álvaro de Campos, heterônimo de Pessoa, quando
se dá conta de que há pouca salvação para a Humanidade. Phoenix, na pele de
Joker, em sua reversão tragicômica, vem sendo vil, literalmente vil, vil no
sentido mesquinho e infame da vileza.
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Ex X ex
Que a sociedade anda cada vez mais polarizada, todo mundo
sabe. Petralhas X bolsominions. Flamengo X Fluminense. Biscoito X bolacha.
O que me estranha é que eu, mesmo com minhas críticas
ferrenhas a essa categorização maniqueísta, percebi que andei polarizando um
certo nicho dos meus vínculos sociais. Mais especificamente, minhas
ex-namoradas.
Sei claramente que é muito difícil rotular e encaixotar em
pastas de arquivos pessoas de comportamentos, visões de mundo e texturas de
pele tão diferentes entre si. Conheci essas pessoas em momentos distintos da
minha vida. Cada uma com seu modo idiossincrático e único de se expressar.
Foram relacionamentos (namoros, casos, ficações, efêmeros ou longevos, não
importa) com suas nuances, suas particularidades, seus 50 tons de cinza.
Mas, fazendo uma retrospectiva dessa diminuta lista de ex, a
constatação da polaridade chega a me assustar. Existem aquelas com quem mantenho
uma saudável relação de amizade até hoje. Claro, o namoro com nem todas elas
acabou de maneira tão pacífica. Mas, depois que a poeira baixou, ou talvez por
uma sensação póstuma de arrependimento ou de culpa, de ambas as partes, houve a
reconciliação. Por outro lado, existe o grupo nem tão amistoso assim. Nesse
arquivo encontram-se as ex que terminantemente me deletaram de suas vidas, como
se a separação fosse litigiosa e a convivência posterior pudesse eventualmente ser
maléfica. Por mais que eu não queira, acabo tendo que dividir meus antigos
amores entre atuais amigas e inimigas. É como se, na hipótese de eu realizar
uma festa, teria de dividir a lista entre aqueles que com certeza eu convidaria
e as que definitivamente não convidaria.
A gente luta por uma sociedade mais plural, mais diversa,
mais ampla e mais profunda. No entanto, a gente não consegue sair desse campo
magnético polarizado nem mesmo nos nossos pequenos meios sociais. Doido isso,
não?
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Anedóticos Anônimos
- Boa noite. Meu nome é Érico...
(Saudação do grupo em coro uníssono) – Ooooi, Érico...
- Tenho 51 anos, sou solteiro... e faz 2 semanas que eu não
conto uma piada.
Aplausos coletivos.
(Moderador do grupo) – Quer falar sobre isso? Conta pra gente
sua história. No seu tempo.
- No começo eu não gostava de piada. Nem um pouco. Quando
vinha aquele cara em festa... aquele tiozinho que você só encontra em casamento
e enterro, sabe? Quando começava a contar piada de português, de papagaio, eu
fingia que ia pegar uma bebida e caía fora. Pra contar piada eu era muito ruim
também. Esquecia o final, começava a rir antes de terminar de contar, repetia o
final, dava uma explicação básica do final... como se a pessoa não fosse capaz
de entender...
Breve pausa para uma tossida. Prossigo.
- Até que um amigo meu me chamou pra assistir a um show de
stand-up. Ele ganhou ingresso VIP e não tinha ninguém com quem ir. No começo é
sempre assim, né? A pessoa te introduz no mundo do crime pra você pegar o
gostinho pela coisa. Eu até tentei escapar, inventei uma desculpa esfarrapada,
falei que não podia perder o último capítulo da novela... não colou. Fomos até
o local, um lugar com fachada de bar, numa rua bem escura, sabe? Quando a gente
desceu do carro e o segurança da casa revistou a gente, pensei: “Ih, fodeu”.
Mas de boa. Entramos na tranquilidade. Eu sinceramente não fui lá pra rir não.
Não tava a fim. Mas, cara... quando começou o show... eu quase me mijei nas
calças. Foi muuuito bom. Ducaralho.
(Moderador) – É, de vez em quando a vida traz surpresas...
- E aí eu comecei a ter vontade de ir a outros shows. Só que
dessa vez eu tive de pagar, né? Sempre assim. A primeira dose de humor vem de
mão beijada. Depois, você tem que batalhar. Fui ao Comedians. Mó grana. Fui ao
Renaissance, mais caro ainda. E como lá o show só começa à meia-noite, tive de
voltar de Uber. Bota mais dinheiro nessa brincadeira. Fui num show aqui, outro
ali, e não parei mais.
(Moderador) – É um paradoxo, certo? Primeiro você odiava
piada, depois passou a amar o humor. Como você lidou com isso?
- Não sei explicar. Foi algo que me pegou sem eu estar
preparado. Coisa de amigo que acaba te influenciando. E você não quer se ver
fora da roda. No começo, distância total. Mas aquilo foi me viciando. E a grana
foi acabando. Eu sempre quis fazer as coisas honestamente, pra manter a
dignidade. Mas chegou uma hora que não dava mais. A vontade de ver os caras
arrebentando no palco era incontrolável. A primeira vez que peguei uma grana
emprestada... quer dizer, não foi exatamente um empréstimo... mas eu prometo
devolver... eu vi a bolsa da minha mãe aberta e peguei umas notas. Usei a grana
pra ir ao show do Danilo Gentili. Mas não parou aí. Vendi a bicicleta do meu
irmão pra ir ao show do Thiago Ventura. E foi piorando. Até que um dia usei uma
arma de brinquedo, quebrei o vidro do carro de uma senhora parada no farol,
peguei a bolsa, o celular, a corrente pra comprar ingresso pro show do
Whindersson Nunes. Eu estava no fundo do poço. E o pior...
Começo a chorar convulsivamente. Paro. Respiro fundo. Volto
a falar.
- O pior de tudo é que eu nem gosto do Whindersson Nunes. Acho
ele um mala, só faz piada de mau gosto, sem graça....
- ... Continuando... além de ouvir, eu comecei a gostar de
contar piada. Fiz curso e tal. No começo era até saudável. Só que com o tempo
eu peguei uma obsessão pela coisa. E ficou doentio o negócio. Só pensava em
criar piada, 24 horas por dia. Um vício mesmo. Setup e punchline, setup e
punchline, o tempo todo... teve um dia que meu chefe me demitiu porque eu fiz
uma piada usando a regra de 3 com ele. Briga de bar, por exemplo. Levei uma
porrada porque fiz um call back com um cliente.
Pausa. Soluços. Volto a dar meu relato.
- Eu até pegava leve. Piadoca de salão, sabe? É são-paulino
gay, japonês com pinto pequeno, loira burra, judeu mão-de-vaca... Mas, conforme
fui pegando gosto, parti para temas mais pesados. Comecei a fazer piada de
preto, de cadeirante, de mulher grávida, de doente mental, de fanhoso, de gordo...
até fiz uma piada com a Madre Teresa de Calcutá, acredita?
(Moderador) – E como sua família e seus amigos encararam
isso?
- A maioria não gostou. Eu comecei a ficar chato, inconveniente.
Estava alucinado, fazendo piada infame. Amigos do Facebook me bloquearam. A
família começou a me evitar, só porque eu fazia piada com o Bolsonaro. Parentes
distantes me silenciaram no Whats. Colegas de trabalho me botaram no modo
soneca. Quando fui ver, estava sozinho, totalmente sozinho...
Volto a chorar. Paro.
- Eu estava tão transtornado que fazia piada com qualquer
coisa pra saciar meu vício. Quando não vinha uma puta sacada, uma reversão
cômica, ia na base do trocadilho mesmo. Pavê ou pacumê, setembro chove, Wim
Wenders e aprendenders... o que viesse pela frente.
(Moderador) – E como você fez pra sair desse buraco negro?
- Força de vontade. Fiz uma viagem interior. Uma busca pelo
autoconhecimento. E comecei a orar bastante. Quando vinha a tentação, eu logo
pensava em alguma coisa trágica pro pensamento fugir. Acidente, desmatamento,
incêndio, volta da CPMF, atual ministério... Hoje sou uma pessoa melhor. Ainda
não estou curado. Mas sei que estou no caminho certo. Piada, nunca mais.
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Da Igreja para o hospital
Meu #tbt de hoje não é nenhuma foto de rosto com espinhas ou
cabelo mullet. Até porque eu nunca tive cabelo mullet. É um textão de uma
situação ocorrida há mais ou menos 7 anos. Contextualizando: eu havia acabado
de terminar um namoro de 9 anos e achava que tinha perdido a prática da
paquera. Sim, paquera. Sete anos atrás, não tinha nada disso de match e crush
era apenas a lembrança de um refrigerante de laranja. Combinei de sair com um
amigo meu, que, na verdade, eu o conheci porque ele fez um curso junto com
minha ex (olha só, que doideira...). Na época ele era muito solícito comigo,
pois eu estava passando por uma série de problemas pessoais e ele ali, sempre
muito atencioso e prestativo. Ele era daqueles caras antenados, descolados, que
conhecem balada hipster, têm uma lista interminável de amigos (e amigas), ficam
por dentro de todos os “picos”.
Pois bem. Marcamos de sair num sábado. O objetivo era, sem
meias-palavras, “arrumar mulher”. Ao invés de sairmos perambulando pela noite
(o que também seria uma boa ideia), preferi me precaver e consultar alguns
roteiros mais, digamos, certeiros. Abri a Vejinha, na seção de bares e baladas
(ainda existe essa coluna? Aliás, ainda existe a Vejinha?), fui direto ao
título “paquera” e lá encontrei como opção o Igrejinha. Um bar perto da
Consolação, que mistura os estilos gótico com o multicolorido, o moderno com o
retrô, que une a religiosidade e o paganismo num mesmo espaço. A ideia era
fazer ali um esquenta e, quem sabe, futuramente, o que der e vier. Entramos,
sentamo-nos perto da porta, pedimos o cardápio. Meu amigo, querendo esbanjar conhecimentos
etílicos, pediu aquela bebida com os índices mais apropriados de teor alcoólico,
que melhor harmoniza com o clima noturno, que traz a fruta com o mais indicado
nível de maturação. Eu escolhi o drink pelo nome mesmo. Quanto mais palavras
estranhas na descrição, mais a minha cara. Vieram as bebidas. Desnecessário
dizer que a minha estava muuuito melhor do que a do meu amigo. Ele deu umas
bebericadas no copo dele e, num esquema de puro escambo, acabou com o meu acepipe
em questão de minutos.
Como chegamos um pouquinho cedo em relação à média das
pessoas que saem à noite, notamos que o bar foi cada vez enchendo mais... de
homens. Até aí, tudo bem. Mulheres demoram pra se arrumar e adentram mais tarde
aos recintos, sentindo-se as princesas da escuridão. Homens é que se precipitam
precocemente, enchem a cara enquanto esperam seus alvos e, no momento da
abordagem, já estão bêbados e só falam bobagem. Na verdade, homem nem precisa
de álcool pra falar bobagem. Mas, enfim... Igrejinha lotada, e nada de mulher.
Desconfiei que o foco do tal templo submerso nos bas-fonds era outro. Nada
contra, veja bem. Pelo contrário. Em hipótese alguma quero aqui fazer qualquer
tipo de apologia à homofobia. É que, no caso específico, nossos objetivos eram
outros. E a diminuta abadia naquela noite não iria satisfazer nossas
necessidades. Pedimos a conta, fomos embora.
Meu fiel companheiro então começa a fazer umas ligações e
marca um esquema num bar no bom e velho Baixo Augusta. Era um bar de rock, com
open bar, em que havia um tipo de rodízio de bandas cover se revezando no palco.
Bandas cover. Open bar. Prestou atenção? Não tinha como eu me dar bem num lugar
em que eram servidas cerveja quente com tubaína genérica. Mas, pra quem começou
a pândega numa capela com cultos à pederastia, tudo o que viesse a seguir era
lucro. Entramos na metaleira pocilga.
Fomos recebidos pela amiga do meu amigo. Pessoa do bem,
muito simpática, acolhedora. Ela nos apresentou um amigo, um magrela muito
gente boa também. Em seguida, chegou outra amiga, uma moça cujas medidas
perimétricas estavam um pouquiiinho acima dos padrões estéticos da nossa
sociedade. Usava uma camiseta surrada do Slayer. Gente, na boa. Slayer é uma
puta banda, talvez uma das melhores do mundo. Mas balada com camiseta da banda,
dos tempos em que eles lançaram Show no Mercy, não dá. Mas era o que tinha pra
hoje. Quer dizer, pra ontem. Pra sete anos atrás. Meu parça, a amiga anfitriã
gente boa, o magrela também gente boa, e aquele barril de chopp venerando
Satanás. Parecia um grupo muito bacanas, mas que em nada iria saciar meu lado
machista-cafajeste de “pegar mulher”. Eis que de repente, não mais do que de
repente, emerge das profundezas do oceano a encantadora beldade da festa. Tipo
vinheta antiga do Fantástico, sabe? Apareceu do nada e conseguiu me hipnotizar.
Não lembro ao certo, mas acho que a outra ponta do meu sorriso foi parar lá na
Caio Prado. Aí sim, eu finalmente tinha ganho a noite. Bastava eu me concentrar
nos meus propósitos: falar um pouquinho quase nada de mim, mostrar que conhecia
todas as versões originais das músicas que estavam sendo tocadas e enfrentar o
suadouro da fila do SUS pra pegar uma cerveja pra ela. Estava tudo certo e eu
era a pessoa mais feliz do mundo.
Até que apareceu um homem. Gato, lindo de morrer. Calma, vou
explicar. Eu não fiquei a fim dele. E ele não ficou a fim da minha musa
imaginária. É que parece que ele era o ex, ou teve um caso com a
rechomchudinha. E entrou acompanhado. Tire suas próprias conclusões. Visualize
a cena. A pequena obesa trocando ideia com a réplica do Eddie Vedder, que lhe
dá um bilhete azul sem mais delongas. Dali pra frente, só show de horror. A
colega, que até então parecia empolgada com o festival de música ruim, começa a
definhar como se fosse um balão de gás murchando. E senta-se ao chão. E começa
a chorar. Você, que um dia já foi jovem, que já frequentou baladas fortes, que
já viu de quase tudo nessa vida, sabe qual é o próximo passo de quem chora
porque levou um pé nas nádegas: beber. E dá-lhe aguardente.
A partir desse momento, houve uma sucessão de conversas,
diálogos, lencinhos, calmantes, ombros amigos. Como um bom samaritano, até meu
compadre notívago tentou consolar a rotunda garota. O problema mesmo foi o
climão gerado por esse vexatório espetáculo à parte, que exigiu até a moderação
do segurança. Minha Vênus calipígia começou a ficar cada vez mais inacessível.
Eu e meu amigo convidamos o restante sóbrio do grupo para ir a outro lugar.
Pela cara deles, topariam com certeza. Mas alegaram ter de fazer a escolta para
aquela ébria bolha de carne. “Eu tô bem”, ela disse, num tom meio alto, meio
mole e meio ranzinza. E você sabe, meu caro. Quando bêbado fala “eu tô bem”, é
sinal de que ele não está NADA bem.
Conformados com o fracasso, eu e meu amigo nos despedimos da
trupe e decidimos encerrar a noite numa hamburgueria próxima. Fizemos o pedido.
Fomos até a mesa. No meio da degustação, toca o celular dele. Era a amiga gente
boa. Falou que a bebaça começou a dançar ensandecidamente, até que caiu trôpega
e bateu a cabeça no chão. Estavam indo pro hospital. E meu amigo, solícito como
sempre, resolveu acompanhar o quarteto. Pra mim, aquela noite foi um amontoado
de absurdos. Coisa de dar inveja pro Buñuel e pro Dalí. Eu já não sabia mais o
que pensar. Até que meu amigo fala algo do tipo:
- Eu sei, foi vacilo... foi mal... a noite foi uma bosta... mas eu não sossego enquanto não te fizer um favor... questão de honra... coisa pessoal, de cavalheiro...
- Já sei. Vai me dar o resto da sua batatinha.
- Não, não. Tá vendo aquela moça ali? Aquela! Eu vou até a mesa dela pegar o telefone dela.
- Boa sorte. Manda ver.
- Não! Eu vou pegar o número dela pra dar PRA VOCÊ!
- Queisso... desencana... precisa não... de boa. Vambora.
- Não. Eu vou lá, pego o telefone, passo pra você e vou pro hospital. Aí você troca uma ideia com ela. Questão de honra.
- Eu sei, foi vacilo... foi mal... a noite foi uma bosta... mas eu não sossego enquanto não te fizer um favor... questão de honra... coisa pessoal, de cavalheiro...
- Já sei. Vai me dar o resto da sua batatinha.
- Não, não. Tá vendo aquela moça ali? Aquela! Eu vou até a mesa dela pegar o telefone dela.
- Boa sorte. Manda ver.
- Não! Eu vou pegar o número dela pra dar PRA VOCÊ!
- Queisso... desencana... precisa não... de boa. Vambora.
- Não. Eu vou lá, pego o telefone, passo pra você e vou pro hospital. Aí você troca uma ideia com ela. Questão de honra.
Vamos recapitular. Drink exótico. Homens se agarrando. Amiga
gente boa. Camiseta velha do Slayer. Musa fantástica. Cerveja quente. Sósia do
Eddie Vedder. Choro e embriaguez. E mais choro. E mais embriaguez. Hambúrguer
com nome de banda. Ligação a caminho do hospital. Diante desse conjunto de
improbabilidades, assistir à cena de um casal que não se conhece apontando o
tempo todo pra mim não era nada.
Peguei o papelzinho gentilmente cedido pelo meu amigo, antes
de partir rumo ao pronto-socorro. Não havia números. Apenas o nome da
desconhecida e seu endereço do Facebook. Fui até sua mesa, tentei explicar o
inexplicável. Ela disse que já estava de saída. No dia seguinte, acessei a maior
rede social mundial. Encontrei o perfil da moça. Em seu último e mais recente
post, estava escrito o seguinte: “Migas, cês acreditam? Ontem um tiozinho pediu
pro amigo dele pegar meu telefone. Como pode, um cara de mais de 40 anos achar
que eu vou querer alguma coisa com ele? Nem teve coragem de vir direto,
precisou chamar o amigo. Claro que dei o número errado, né? Eu, hein? Tô fora”.
domingo, 1 de setembro de 2019
Emo again
Ontem vi uma moça com uma camiseta onde estava escrito: “Make
Brazil emo again”. Na hora, achei meio ridículo. Aquilo me soou tão patético e
tão datado quanto os neo-ripongas e suas batas indianas, ou mesmo quem desfila
de coturnos gastos e cabelo moicano tentando imitar o visual dos Sex Pistols. Não
é possível, no fim da segunda década do Século 21, venerar um estilo de vida
que se ornava de cabelos escorridos pra frente, olhos pintados de preto e uma
lagriminha de Hena tatuada perto da bochecha. Nada contra o gênero musical,
muito pelo contrário. Ainda hoje, adoro ouvir as bandas que abraçam o emotional hardcore, de onde se abreviou
para emocore, até virar essa corruptela, emo.
Ou “punk melódico”, como ficou conhecido no mundinho artístico. Aprecio Taking
Back Sunday, Rise Agaisnt ou até mesmo os primeiros – e mais viscerais –
trabalhos do 30 Seconds to Mars. Gosto mais ainda dos precursores dessa onda,
os protozoários chamados Jimmy Eat World, Saves the Day, Get Up Kids, Mineral,
Braid, e por aí vai. E respeito as bandas nacionais, como CPM 22 e NX Zero, que
ao menos englobam músicos competentes. O que me incomoda mesmo é o esterótipo
do gênero, é a ideologia transformada em produto de consumo, é a estética
reduzida ao nada, é o ideal de rebeldia juvenil que vira motivo de deboche. Tão
piegas e caricato quanto aquela indumentária gótica, encostada no guarda-roupas
cheirando a naftalina, que só serve pra ser usada em festa à fantasia.
Mas aí eu fiquei olhando aquela camiseta preta, cobrindo a
branquela hipster que provavelmente tinha acabado de sair de alguma mobilização
na Paulista, e pensei melhor. Faz todo sentido o Brasil voltar a ser emo. De
uns tempos pra cá, vivemos uma truculência tão grande, que nada mais
apaziguador do que a emoção pra trazer de volta aquilo que antecipadamente
enterramos. Passamos a adotar o discurso hater, excluímos família e amigos dos
nossos convívios, transformamos nossas páginas nas redes sociais em outdoors
exibidores do ódio e da intolerância. E temos como exemplo, aquele paradigma que
vem lá de cima, a bestialidade miliciana, o modus operandi brucutu, o
comportamento vil e rasteiro, a apologia às arminhas. O giganrte acordou, de
fato. Mas, dessa vez, o gigante é do mal. Despertamos o que há de pior em nós. Hoje
somos bestas-feras prontas para devorar o outro.
Ontem fui ver Yesterday. O filme. Calma, não vou dar
spoiler. Mas aí lembrei que eu tenho uma camiseta com os dizeres “all you need
is love”. Talvez a gente precise de um pouco disso mesmo. Esse tipo de
retrocesso. O paz-e-amor que brotou em Liverpool. Não esse retrocesso da
ditadura, da terra plana, da volta do sarampo. A gente precisa voltar um pouco
atrás e lembrar que um dia, talvez um único dia, fomos felizes.
E hoje faz 80 anos que começou a Segunda Guerra. E tem gente
aí, microrganismos toscos desse tal gigante de Brasília, que foi comemorar essa
data nefasta. Portanto, vamos voltar a ser emo. Vamos regurgitar menos e amar
mais. Vamos resgatar o nosso lado cafona. E por falar em cafona: gratidão.
quarta-feira, 10 de julho de 2019
Homem-Aranha - Longe de Casa
(Por Antonio Carlos Júnior)
Um filme que soube trazer novamente aquele cabeça de teia
que sempre víamos nos quadrinhos. Uma construção com o tom de humor dos últimos
filmes da Marvel.
Apesar de toda a história se passar logo após o final de Vingadores
- Ultimato, envolta nesse clima
tenso, o diretor conseguiu extrair leveza e trazer aquele ar mais “descontraído”
dos quadrinhos, com espaço reservado inclusive para o romance do Peter e da MJ.
Nem mesmo as cenas com excessos explicativos corroem esse ritmo.
O ator novato Tom Holland entendeu bem a proposta e soube dar
vida ao personagem soltador de teia. Com piadas e cenas hilárias, mesmo nas
horas de mais taquicardia. É aquele típico amigo da vizinhança que víamos nos gibis:
adolescente, tímido, atrapalhado e engraçado. O bom e velho Homem Aranha.
A atuação de Jake Gyllenhaal (Mysterio) também não ficou aquém.
Desde a construção do personagem, até os momentos resgatados dos primeiros
filmes da Marvel.
Como em todo filme da franquia Marvel, existem duas cenas
pós-créditos. A primeira é para fazer você comemorar e a segunda, para aguardar
o que vem por aí nessa nova fase da Marvel nos cinemas.
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