quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Muito otimismo


Caro diário,

Prometi a todos – e principalmente a mim mesmo – que eu começaria 2020 com uma nova vibe. Todo mundo fala que esse ano é o da mudança, da renovação, de um novo ciclo. Pois bem. Vou obedecer cegamente aos astrólogos do Google, aos físicos do Facebook, e acreditar que, a partir da meia-noite e um minuto do 1º de janeiro de 2020, tudo, absolutamente tudo vai ser diferente. Até porque muitos amigos estavam me achando reclamão, ranzinza.

De fato, esse ano começou ótimo. Quase entramos numa Terceira Guerra Mundial. Não dizem por aí que a guerra estimula a produtividade, faz a economia crescer? Então. Os drones do Donald mataram um líder iraniano considerado terrorista. Em troca, o país derrubou um avião ucraniano “por engano”. Quem não se confunde de vez em quando? Liga pro número errado, usa meias com pares trocados, morde um pedaço de pizza portuguesa achando que é de peito de peru, atira sem querer num inocente achando que é bandido. Normaaal.

E já que estamos falando no Trump, certeza que ele vai ser o melhor presidente da história. Aquele rosto de bronzeamento artificial no micro-ondas propôs um revolucionário acordo de paz entre israelenses e palestinos... sem os palestinos! Essa coisa de querer agradar a todo mundo é muito isentão pra mim. Bom mesmo é ter atitude. É que nem propor uma inovadora negociação entre banqueiros e inadimplentes, favorecendo somente os banqueiros. Trump é tão foda que até escapou do impeachment. E você sabe por que, né? É pra depois nenhum Spike Lee querer filmar “Democracy in Vertigo” usando verbas públicas. Deixa o cara trabalhar em paz, pô!

2020 está sendo supimpa. Nesses 180 dias de janeiro já pudemos aprender a sutil diferença entre etilenoglicol e dietilenoglicol sem precisar pagar o olho da cara com as aulas de Química do cursinho Anglo. Tudo é uma questão de higiene. Se a cervejaria Belorizontina tivesse usado sabonete Dove pra lavar os reservatórios da cerveja Backer, o produto ficaria inacessível. Trata-se, portanto, de uma medida de inclusão social. Se morreram algumas pessoas envenenadas, faz parte. É o custo do progresso. Você não quer tomar Itaipava ou Glacial a vida inteira, certo? Deixa então o pessoal criar suas receitas artesanais. Aproveitando o assunto da higiene, tem a questão da água no Rio de Janeiro. Ela tá com esse cheiro e gosto esquisito por causa dos produtos adicionados para torná-la ainda mais limpa. É uma água que vem do esgoto, manja? Então precisa passar por um processo de purificação. Que nem água de piscina. Tem cloro pra cacete, pra acabar com todas as bactérias daquele povo que mergulha só pra fazer xixi. Eu confio 100% na Cedae, que diz que a água é limpa. E pra deixar ela ainda mais limpa, resolveram botar junto detergente. Detergente de graça, saindo das torneiras! Não sei por que carioca reclama tanto.

E, por falar em Belo Horizonte, estou plenamente convicto de que aqueles desmoronamentos e inundações pegaram todo mundo de calça curta. NUNCA chove em janeiro neste país. Não tinha como se planejar, fiscalizar obras clandestinas, construir piscinões, alertar a população sobre as áreas de risco, nada disso. Aquilo foi uma surpresa pra todos. É que nem festa-surpresa de aniversário. No dia em que você fica mais velho um sujeito te chama no canto, conta uma história qualquer pra disfarçar, te leva pra outro canto e aí a turma toda começa a cantar parabéns. IMPOSSÍVEL adivinhar.

E por falar em Guerra Mundial, estou dando pulos de alegria que integrantes do Governo estão trazendo de volta o nazismo. Um lance meio vintage, sabe? Essa coisa de avanço tecnológico o tempo todo cansa um pouco. A gente precisa recuperar valores que a História fez questão de enterrar. Eu acredito piamente no Roberto Alvim. Ele foi vítima de uma conspiração de seus assessores. Não tinha como prever que trechos do seu discurso foram extraídos das falas de Goebbels. É muita informação na internet, não tem como dar conta de tudo. Tem que analisar o contexto. Alvim não é nazi. O cabelo repartido, a roupa com cara de farda e a música de Wagner ao fundo serviram de meros adereços cênicos. E mesmo se fosse, qual o problema? Se Jojo Rabbit pode brincar com o tema e ainda concorrer a Oscar, por que nosso perseguido secretário não pode fazer uma brincadeirinha de leve? Foi exonerado injustamente. Culpa dos Beatles, que introduziram o rock satânico na juventude perdida. Tenho certeza de que a letra de “Help” fala sobre um pedido de socorro ao Belzebu. “Yellow Submarine” é uma metáfora ao meio de transporte público usado pelo Capiroto. Agora quem entra no lugar dele é a Regina Duarte. A eterna namoradinha do Brasil, mesmo já sendo avó. Com o Sinhozinho Malta mandando nela o tempo todo, e tendo como diretriz filtrar o marxismo cultural da mente endiabrada das pessoas, a Cultura finalmente vai entrar nos trilhos.

Este ano tá sendo do caralho pro Brasil. Mais do caralho ainda no resto do mundo. O brexit finalmente foi aprovado e a Inglaterra saiu da união europeia. Por uma questão de identidade própria. Os britânicos têm suas raízes, sua tradição. Não dá pra ficar misturando tudo. Você nunca ouviu falar da pontualidade italiana. Nem do chá das cinco em Portugal. Imagina se a França resolve criar seu Sex Pistols! Melhor deixar assim: cada um no seu square.

E a China, então? Agora uma boa parte da população resolveu andar de máscara justamente pra gente não se confundir. Chinês é tudo igual. Se já é difícil diferenciar um trio, imagina dois bilhões de gêmeos univitelinos. Pelo menos com máscara a gente consegue saber quem está e quem não está infectado pelo vírus. E ainda evita sentir o cheiro do bafo deles. Fica tranquilo: NÃO é uma epidemia. Ninguém se lembra mais das duchas Corona, um banho de alegria num mundo de água quente. A cantora Corona e seu único hit “Rhythm of the Night” logo caíram no esquecimento. O mesmo vai acontecer com essa virosinha de nada.

Estou muito, muito feliz com 2020. E vou ficar ainda mais feliz quando começar o Carnaval. Já se sabe que São Paulo é o destino preferido dos brasileiros para o feriado, superando Rio e Salvador. Eu não vejo a hora de adentrar nas micaretas que duram o mês inteiro. Meu corpo está em pândega. Só de ver a foto do ano passado, do bloco Unidos do Baixo Augusta ocupando a Consolação inteira, aquilo já me excita. Uma quantidade de pessoas equivalente à população do Canadá. Calor humano de verdade. Pessoas se amontoando, um encosta-encosta de peles suadas, arrastões, roubo de celulares, tudo muito orgânico. Vamos combinar: é BEM fácil roubar celular nesses aglomerados de gente. O povo dá muito mole. É que a alegria contagiante é maior do que a necessidade da posse de bens de consumo. Eu, por exemplo. Se fosse um trombadinha, poderia furtar uma quantidade de aparelhos que me permitisse criar a filial da Samsung. Bailinho de Juventus não tá com nada. Eu quero mesmo é fazer parte da história. Ver de perto as brigas de rua, as depredações no metrô, sentir o cheiro amalgamático de pinga curtida com vômito, desviar das poças de mijo.  Preciso quebrar paradigmas de querer sempre ouvir rock. O negócio aqui é o samba. “Mother”, do Pink Floyd, é titica perto da letra do enredo da Nenê de Vila Matilde. E daí que o Brasil é campeão mundial de feminicídio? Tudo invenção da Globo. Afinal, menina que sai na rua fantasiada de odalisca quer mesmo é que alguém passe a mão na bunda dela. Talvez seja um pirata, que no final da festa, pegando a Linha Lilás em direção ao Capão Redondo, esteja mais pra Jack Sparrow. Ou Marilyn Manson, de tão borrada que vai estar sua maquiagem. Não importa. O Carnaval deste ano vai ser épico. Bem como o resto do ano. Assim eu quero acreditar. Pra mim não existe essa de copo meio vazio. Em 2020 o copo vai estar sempre meio cheio. Nem que seja de água de esgoto com detergente.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Bad Boys Para Sempre

A terceira parte da franquia tem cara e gosto de encerramento. Nem tão vazio e melancólico quanto um fim de festa. Mas pensar em uma continuação a partir daqui pode fazer transbordar um copo cheio.

É mais um filme tipicamente norte-americano de dupla policial. Um deles sangue-nos-olhos querendo fazer justiça e outro que não vê a hora de se aposentar. Geralmente, a diferença etária faz esse contraponto. Aqui, não. Ambos já passaram dos 50. Um deles, notadamente fora de forma. O outro, achando que ainda pode encher os bandidos de porrada e depois exibir seus músculos. E a câmera não faz questão nenhuma de esconder esses atributos físicos de um dos atores mais bem pagos de Hollywood.

Já não temos mais Michael Bay, que dirigiu o prólogo de maneira bem visceral e parecia ser promissor. Quem cuida agora do ofício é a dupla belga Bilall Fallah e Adil El Arbi. Até a primeira metade, parece ser um filme genérico feito por encomenda. Mas depois, ganha seu brilho próprio. Menos violento que o progenitor, porém mais cômico que ele. Bay não fez falta.

O segundo filme é do começo dos anos 2000, mas Bad Boys Para Sempre traz muito mais do primeiro, de um quarto de século atrás. A aura é anos 90. As matizes são anos 90. A música que toca na casa noturna é uma versão repaginada de Rhythm of the Night. O cinema estadunidense pede essa volta noventista, como se fosse a indústria em flashback.

Só que 25 anos se passaram. Praticamente uma geração que nunca ouviu falar em conexão discada e acha que Nirvana é um clássico do rock. O filme tenta se aproximar desse público millennial mostrando exatamente o envelhecimento dessa década. Smith e Lawrence estão exageradamente fora de seu tempo. E o filme escancara essas personas esmaecidas de maneira habilmente risível. Insiste, ainda que no exercício da metalinguagem, nos elementos que traduzem essa falta de frescor. O refrão da música-tema cantado pela nova geração. A obesidade de Lawrence. É como se Fallah/Arbi estivessem contando uma piada duas vezes. Só Seinfeld tem autoridade pra fazer isso.


3 lentilhas

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O significado das palavras


Day off: cabular
Storytelling: xaveco
Spinning: foder o joelho
Coach: embuste
Sugar free: gosto de nada
Downsizing: passaralho
Influencer: metido
Startup: quero ser um milionário
Bitcoin: prejuízo
Cloud: terra de ninguém
Spin-off: caça-níqueis
Cosplay: retardado
Fintech: elite branca
Turnover: ninguém merece
Backstage: putaria
Low carb: viadagem
Blind date: roubada
Crush: sexo
Upgrade: tá se achando
Power Point: chato pra caralho
Instagram: desfile
Live marketing: o patrão ficou maluco
Member-get-member: pirâmide
Smartphone: filho
Casual Friday: preguiça
Plus size: balofo
Save the date: remédio pra memória
Player: coxinha
Facebook: treta
Crowdfunding: tô na merda


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Temos vagas


- Alô, Lucas? Aqui é o Leandro, diretor de Criação da D&M Brand. Beleza? Tá podendo falar? Então, quem me indicou seu nome foi a Vanessa. A gente aqui tá precisando de redator. Você tá trabalhando?
- E aí, certinho? No momento eu tô pegando uns freelas, mas tenho disponibilidade sim.
- Ótimo. Me passa então o link do seu portfólio por e-mail, pra eu dar uma olhada. Abração.
Meia hora depois...
- Lucas? Leandro de novo. Olha, eu vi seu material... muito bom o seu portifa... muito bom mesmo. Bem criativo. Vem cá: sua pegada é mais advertising, né? É que aqui a gente é uma agência 360, com foco em branding. Teria como me mandar um material mais promo que você já fez? Alguma apresentação em ppt, isso ajuda muito. É que na verdade a gente tá correndo atrás de um redator barra planner barra content thinking. E que manja um pouco de Português pra dar uma olhada final no material. A gente já teve uns problemas no passado. Pode me mandar alguma coisa? Quebra essa? Abraaaaço.
Uma hora depois...
- Lucas? Leandro novamente. Então, recebi seu material. Legal, legal... Passei pra coordenadora de projetos, ela vai avaliar melhor. Ela é quem cuida dessa parte. Outra coisa: você já trabalhou com social media? Aqui a gente também tá pegando pesado em redes sociais, fazendo um monte de ações no Facebook e o caralho. Você já fez alguma coisa assim? Post patrocinado, buzz marketing. Manda pra mim. Abraaaço.
Uma hora depois...
- Lucas? Leandro de novo, rs... juro que não te encho mais o saco. Última coisa. O pessoal aqui pediu pra dar uma olhada em outras coisas mais a ver com seu perfil. Você tem canal no Youtube? Já participou de podcast? Me manda essa porra toda, o que for. A galera aqui tá pensando em reforçar o time com gente mais up-to-date. Ah, e se você já fez alguma ação voluntária, tipo catar cachorro de rua, doar alimentos pra ONG... a diretoria AMA esse tipo de parada. Seria um puta diferencial. Fui!
Quinze minutos depois...
- Lucas? Adivinha quem é. Hahaha. Então, teria como você vir pra cá, pra gente conversar, conhecer você melhor? Mais pra trocar uma ideia e bater o martelo.
- Opa, vamos lá! Quando?
- Então, quando é melhor pra você? Essa semana tô meio enrolado. Xô ver aqui... hmmm... Sexta fim do dia, pode ser? Tipo umas 5 ou 6 horas?
- Cara... por mim, tudo bem. Mas se for outro dia é melhor. Sexta é véspera de feriado. Carnaval. Acho que vai estar com um pouco de trânsito. Vocês estão na Berrini, né? Então, eu moro em Pirituba...
- Se preocupa não com horário. Se você não conseguir chegar, pode aparecer umas 7, 8 horas. A gente vai ficar aqui direto. Temos uma campanha pra entregar. Concorrência. Marcaram reunião na quarta de manhã. Então a gente vai trabalhar direto, inclusive na segunda e terça.
- Sei... claro... bom, enfim...
Sexta-feira...
- Lucas? Prazer, Leandro. Certinho? Senta aí. Quer uma água, um café? Deixa eu te apresentar a Leila, gerente de projetos... Rapha, nosso VP de Criação... Sérgio, analista de BI... Léo, nosso head de novas tendências... a Ivana, de B2B analytics... o Kauã, diretor de imagem corporativa... ele tem essa cara meio estranha, mas no fundo é gente boa, rs... e a Ruth, do RH. Senta aí, conta pra gente um pouco da sua história...
Uma semana depois...
- Alô, Leandro? Lucas falando. E aí, alguma notícia da vaga?
- Então, cara... o pessoal do RH tá finalizando o processo todo de documentação. É uma coisa meio burocrática, procedimentos internos. Eles precisam fechar isso primeiro. Mas fica tranquilo, A VAGA JÁ É SUA!
Quinze dias depois...
- Leandro? É o Lucas. Então, alguma novidade?
- Lucas, meu velho... cara, seguinte: o pessoal do Financeiro tá meio que arrumando a casa. Eles estão organizando todas as planilhas de cash flow, teve um aí que até varou a noite ontem pra cuidar disso. Cê sabe, né? O Financeiro tem umas datas certas pra realizar todos os depósitos, pagamentos e dar baixa em todas as saídas. Não pode passar dessa data-limite. Se passar um minuto, aí tem que esperar a próxima data. Eu sei, meio chato isso... Mas tá tudo certo. O pessoal aqui ADOROU você, achou que você é bem o estilo da agência, então logo mais eu entro em contato pra você vir pra cá sem precisar de carta de recomendação, OK? Abraço.
Um mês depois...
- Alô, Leandro? É o Lucas, tá lembrado de mim? Então, eu tô ligando pra saber em que pé que tá a vaga.
- Grande Lucas! Putz, nem sei como dizer isso. Cortaram a vaga, acredita? O pessoal aqui fez umas reuniões e acabaram optando por cancelar a vaga e incorporar as daily assignments para cada um da equipe. Mas é facinho, com o tempo o povo aqui pega o jeitão da coisa. Fica tranquilo: salvei seu contato, passei seu Linkedin pro RH arquivar no banco de dados e assim que a gente precisar você tem prioridade. Fica pra próxima, falou meu querido? Abraaaaço.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Supermercado e balada


Sempre acreditei que os supermercados nada mais fossem do que uma balada diurna. Ou pelo menos trouxessem alguma semelhança com esse tipo de patuscada. Tanto é que alguns até funcionam 24 horas. Não é para suprir as necessidades de quem madruga, ou atender emergências de algum faminto que lá adentra. É mais pela similaridade mesmo. As baladas estão cada vez mais com cara de empório. E os super/hiper, cada vez mais com cara de locas de entretenimento. Com a vantagem de não cobrar consumação mínima.

Logo de cara, você se depara com a balada da terceira idade: as barracas de frutas e verduras. A faixa etária média do público está prestes a alcançar os três dígitos. Pessoas que foram colegas de classe do Ulisses Guimarães. Aquelas velhinhas que, quando têm força suficiente, fazem questão de apertar todos os tomates para ver se estão bons. Obviamente, eles deixam de estar depois de massacrados. É que nem testar palito de fósforo pra ver se funciona. Mas elas não estão nem aí. Naquele misto de feira livre com festa baile, o negócio é invadir todas as barracas para aproveitar as ofertas como se não houvesse amanhã. Bom, a se considerar a idade dessas frequentadoras, bem capaz do amanhã nem existir mesmo. Portanto, o que resta é aproveitar o dia, ir da laranja pra cenoura num passo de valsa que há décadas não se via. O objetivo é encher o carrinho de abobrinha e chuchu, mas nada me tira da cabeça que as reais intenções dessas octogenárias é encontrar o Agnaldo Rayol. Elas até se produzem para a ocasião: passam maquiagem, usam perfume com cheiro de velório, colocam o melhor calçado. Tudo muito fácil. Difícil mesmo é abrir o saquinho para embalar os legumes. Aquele invólucro transparente destacável que fica armazenado num rolo, sabe? E cabe a você, freguês, única e exclusivamente você, transformar aquela serpentina num recipiente em que caibam os dois quilos de cebola que está levando. Acho um pouco de maldade o supermercado fazer isso com quem está prestes a ter Mal de Parkinson. Uma vez uma senhora conseguiu abrir a embalagem. Os funcionários vieram até ela dançando cancã enquanto caíam mil moedinhas do teto.

É notório que um dos principais motivos que levam o sujeito a sair de casa à noite é encontrar bebida e mulher. Não por acaso, o corredor das cervejas é o mais disputado nos supermercados. Aquilo é uma muvuca o tempo todo. Sempre lotado. A maior concentração de solteiros por metro quadrado. Se o supermercado fosse o globo terrestre, o corredor das cervejas certamente seria o Bangladesh. Tem até um segurança que fica controlando a fila na entrada antes de revistar os consumidores. Ao transitar pela minúscula e concorrida viela, impossível não esbarrar em outro cliente. O que até pode render uma paquera. Com direito a cantadas fáceis e cafajestes, do tipo: “te conheço de algum lugar: Mambo ou Hirota?”, “ia de Heineken, mas agora passou uma Devassa na minha vida”. Esse corredor anda tão congestionado que a Prefeitura Municipal do Carrefour estuda implementar a cobrança de pedágio para quem entrar com carrinho. Ou criar rodízio em horários de pico.

Além das baladas convencionais, existem em São Paulo as festanças mais gourmet. Lugares fechados, em que só entram pessoas com nome na lista. Casas noturnas que são pura ostentação. Decoração banhada a ouro, banheiros em mármore Carrara, taças de cristal. Ao pegar o cardápio e pedir um filé de St. Peter, você não sabe se o valor cobrado é do peixe ou do Oceano Pacífico. Essa equivalência também existe nos supermercados. É o corredor dos vinhos. Se você por acaso parou neste local, pode ter certeza: você se perdeu. Entrou lá por engano. Porque em nichos como esse é onde você demonstra toda a sua vergonha de ser pobre. Seu 1,80 m se transformam em no máximo 1 metro e meio, de tanto que você encolhe. Sem perceber, você diminui o tom de sua voz e acaba travando um diálogo na base do cochicho. Esse espaço VIP é bem seletivo mesmo. Uma vez o Luciano Huck foi barrado, só pra você ter uma ideia. Lá tudo é lindo de morrer. As prateleiras são de mogno. No lugar do cartaz de preço existe um quadro do Miró. E, diferentemente das demais repartições, em que você tem que perguntar pro serviçal dos congelados onde fica a seção de café, aqui existe um profissional qualificado pra te oferecer um atendimento personalizado: o sommelier. Uma figura que você torce pra não estar no Tinder, de tão desleal que seria a concorrência. Pessoa bonita e culta ao mesmo tempo. Uma mistura de Érick Jacquin com Reynaldo Gianecchini. Não é desses que acham que pra ser embaixador do Brasil basta fritar hambúrguer. O dito cujo fez Doutorado em Sorbonne. Durante seu período de estágio, ele mesmo ia catar as ostras no Mar Mediterrâneo. Seu currículo é de fazer inveja ao Hélio Bicudo. E este ilustre sujeito vem até você, somente você, para explicar que o Merlot chileno reserva 2013 harmoniza melhor que o Cabernet Sauvignon na hora de você degustar seu risoto de aspargos e queijo brie. Sinceramente, as únicas coisas que lembro de 2013 são a morte do meu pai e as manifestações pelos 20 centavos. Este último certamente não faz parte das preocupações do público-alvo do corredor de vinhos. Lá eles só aceitam três formas de pagamento: cartão Black, bitcoins e diamantes da África do Sul. Pra você levar um espumante pra casa, precisa deixar seu Palio. E pagar o restante em 12 suaves prestações.

Outro corredor dedicado às bebidas é aquele mais colorido, mais luminoso. Lá onde tem as águas com sabores, os chás, isotônicos, energéticos e, não sei por que, os saquinhos de Tang. Acredite, essa purpurina comestível ainda existe. Esse corredor mais parece uma rave. Pessoas rindo à toa, pulando sem parar, dançando uma dança imaginária, querendo abraçar o repositor de estoque. Elas pegam uma latinha de Red Bull com uma empolgação tão grande, como se estivessem pedindo um autógrafo pro David Guetta. No quesito alegria, eles só perdem pros frequentadores do corredor fitness. Gôndolas e mais gôndolas recheadas de whey protein, saquinhos de quinoa, caixas de aveia, barrinhas de cereais. Esses clientes são saudáveis, excessivamente saudáveis. Musculosos, marombados. Não sei se estão ali para comprar um bolo de linhaça ou para fazer uma série de supino. Pode estar um frio da porra, eles sempre estão de shortinho e com uma camiseta regata e metade dos mamilos à mostra. Ali a felicidade é natural e vem em pó. Se você reparar, vai ver que metade dos nomes dos produtos começa com Nutri. Tudo muito orgânico, muito equilibrado e, por que não dizer, tudo muito chato.

Outro corredor bastante movimentado é o das comidas rápidas. É aqui que bate a larica nos frequentadores. Vontade desesperada de colocar algo sólido na boca pra dispersar o efeito do álcool. Repare que sempre tem uma embalagem aberta de biscoito, ou um queijo carcomido nas pontas. O pessoal olha aquelas barraquinhas de degustação e acha que é um food truck. Aquilo é uma verdadeira zumbilândia. Notívagos balbuciando frases indecifráveis e hipnotizados ao ver carne crua. Por falar em carne, existem duas coisas que me deixam confuso: samba-rock e hambúrguer vegano. O samba-rock não é samba, muito menos rock. Quando começa a tocar um Jorge Benjor na pista, eu não sei se devo chamar pra dançar aquela moça que estou paquerando desde que cheguei, ou cochilar no sofá em sinal de desistência. Porque eu adoro rock, mas odeio samba. E não faço ideia de como seria bailar (I Can’t Get No) Satisfaction na versão dois-pra-lá-dois-pra-cá. Por outro lado, o hambúrguer vegano não me deixa nem um pouco confuso. Já não se pode dizer o mesmo em relação aos funcionários. Eles devem ficar perdidinhos com essa invenção. Não sabem se colocam a embalagem ao lado das almôndegas ou da chicória.

O corredor que mais me agrada é o mais vazio. Onde tem os produtos que ninguém compra: vassouras, rodos, velas de aniversário, cola plástica, embalixo, inseticida. Esse corredor parece as Lojas Mel. Tem de tudo o que você não precisa. É um lugar ótimo pra você fazer o que quiser, pois ninguém está vendo. A última pessoa que por ali transitou foi dada como desaparecida. Essa via é tipo o nerd das baladas: surge do nada e depois você nunca mais o vê. Um excelente lugar pra você usar como o ficódromo da noite. Faz assim: começa a chavecar a moça que você acabou de conhecer no corredor das cervejas. Assim que o clima esquentar e começar a faltar assunto, fala pra ela: “a gente podia ir prum lugar mais tranquilo”. Ela vai fazer cara feia pela sua ousadia, mas tudo bem. Você a conduz para esse corredor das naftalinas e lasca um beijo entre uma escumadeira e outra. E aqui vai um conselho. Se você estiver com bafo, se seu hálito tiver prazo de vencimento em outubro de 2016, sugiro antes do beijo fazer um enxágue de Pinho Sol, que está na prateleira bem abaixo do jogo americano de toalhas.

Por último, a hora de dar tchau. E de pagar. Repare que os caixas abrem filas pra tudo quanto é tipo de habitué. Tem os caixas-rápidos, para as pessoas decididas e pragmáticas. Consumiram muito pouco, sabem de cabeça o valor total da conta e já tiram do bolso a quantia trocada exata. Já o inverso do anverso do anteverso do oposto do contrário são todos os outros caixas. O resto. Filas quilométricas, das quais você só vai conseguir sair quando estiver amanhecendo. Pessoas que passam os produtos, devolvem os produtos, esquecem o cartão, metade débito, metade crédito, metade vale-refeição, esquece a senha do vale-refeição, cupom de desconto, chama o gerente pra validar o cupom, pega um maço de cigarros, faz recarga de celular, não sabe o valor que quer fazer a recarga, cartão inválido. Se sóbrio já seria difícil completar essa operação, imagine bêbado. Parece que essas filas são compostas por vários Rubinho Barrichello. Enquanto um está passando, na fila ao lado já passaram dezesseis. O sujeito que acabou de chegar na balada consegue pagar antes. Enquanto você espera, dá tempo de tomar café da manhã. E chamar o Uber. E saber da vida inteira da moça que conheceu tomando uma Stella.


terça-feira, 19 de novembro de 2019

Vegan, coach e cross fit


O vegano, o coach e o praticante de cross fit são muito chatos. Não sou eu quem está dizendo isso. É o comediante Maurício Meireles em seus shows de stand up. É a galera das redes sociais. Se você por acaso se encaixa em um desses grupos, paciência. Infelizmente, os tribunais do Facebook elegeram algumas estirpes como pessoas do bem, em detrimento dessa tríada considerada o mal do século. Mas fique tranquilo: em tempos de WhatsApp, de stories e de quick massage, o mal do século não dura mais do que um semestre.

Talvez a alcunha de malas sem alça para esse público tenha algumas explicações. Afinal, não há problema nenhum em manter uma alimentação saudável e equilibrada, praticar exercícios regularmente e usar frases positivas em seu dia a dia. O problema talvez seja o modismo. E tudo o que é moda está ligado à percepção de efemeridade ou enganação. Claro, alguns adeptos vão dizer que essas práticas não são moda, são filosofia de vida. OK, tudo bem. Mas filosofia de vida também tem seu prazo de validade. Os hippies, por exemplo. Pregavam a paz e o amor, eram pouco ligados ao consumismo, viviam em comunidades e acreditavam na energia telúrica. Hoje, ninguém tem mais saco pra comprar miçangas de um riponga com suas batas indianas e flauta boliviana. Não é só a roupa, a música e o corte de cabelo que saem de moda. Perfume sai de moda. Sândalo e patchouli já eram. Comida sai de moda. Oferecer tender com abacaxi num jantar vai fazer você impressionar... pela breguice. Tatuagem sai de moda. Quem diria, um desenho na sua pele, pra ficar ali pra vida inteira, é algo efêmero também. Tatuar âncoras marinhas, corações flechados era coisa dos anos 70. Já os anos 80 foram marcados por tigres e dragões. Nos anos 90 vieram as tatuagens tribais. Logo depois as frases bíblicas, mas isso era mais pros funkeiros. Hoje, pra fazer tatuagem, você não escolhe um objeto. Você pede um storyboard. Você chega e diz “queria cobrir meu braço”, ou seja, a ilustração tem que ter começo, meio e fim. Antigamente se dizia que número ímpar de tatuagens dava sorte. Hoje entramos no campo da Física Quântica, em que se tornou impossível numerar tatuagens múltiplas e com final aberto. Quando um cliente chega a um estúdio, a assistente do tatuador dá a ele aquele calhamaço de imagens de referência. Logo depois o tatuador pergunta: “E aí? Gostou de alguma?”. “Sim, adorei. Queria fazer as páginas 12, 17 e 35”.

Outro motivo que coloca a trinca no elenco dos chatos talvez seja a sua insistência. A incontrolável vontade de te aliciar para a seita deles. Tudo gira ao redor de sua nova crença, sua nova forma de pensar o mundo. Encerra-se qualquer possibilidade de nascer outro assunto. Seu comportamento fica com cara de doutrinação, e isso pode afastar um pouco as pessoas. Eles precisam entender que não é todo mundo que está na mesma vibe, ou tem a mesma predisposição. Quando um Testemunha de Jeová toca a campainha de sua casa num domingo às 8 da manhã, ninguém sai acordando e fala: “Nossa, ainda bem que você chegou! Precisava MUITO ouvir a palavra de Deus!”. E as abordagens do trio muitas vezes soam meio como catequese mesmo. Tipo Amway, quem se lembra? Descobrir que um amigo seu entrou pra Amway era pior do que descobrir que um amigo caiu no mundo das drogas. “Nossa, ele me parecia tão bem!”. Você fugia dessas pessoas. E esgotava seu estoque de pretextos: minha mãe tá chamando, meu tio acabou de ser operado, vou entrar em uma reunião. Isso quando VOCÊ não era o próprio vendedor da Amway. Ou representante, executivo de vendas, sócio-empreendedor, sei lá qual eufemismo eles inventavam para essa palavra tão desgastada. A Amway nada mais era do que uma pirâmide. Mostrava os faraós de sucesso, denominados por pedras preciosas, em suas convenções que lotavam auditórios. Mas a base, a maioria, era constituída pela plebe que tinha que arcar com os custos de material e viagens, e ainda transformar amigos em potenciais alvos de compra. Eu até acredito que sua linha de produtos era durável e de qualidade. Mas jamais pagaria R$ 90 por um sabonete. Creio eu que quem comprou os produtos da empresa foram os próprios vendedores, pra poder ganhar pontos/estrelas. E devem estar usando até hoje.

Então vamos por partes. O vegano. Ele é tipo um vegetariano, só que filiado ao PSTU. Tudo bem fazer campanha contra o consumo e a matança de animais. Estudos mostram que o homem, durante toda a sua vida, come uma quantidade de carne equivalente às fazendas pecuárias de Mato Grosso. Eu até queria me tornar vegetariano, se não gostasse tanto de carne. Mas o vegano é mais radical. Não basta apenas abdicar da carne vermelha, branca, outras cores, ovo, leite e derivados. Vegano não come mel. Não abraça árvore pra não machucá-la. Faz campanha contra bullying em samambaias. Deita na rua pra protestar contra as músicas que os donos tocam para seus cachorros. Eu tenho um certo medo de esbarrar com algum desses fundamentalistas de supermercado. Fico imaginando que toda manhã eles estendem seu tapete de vime em direção à Amazônia, ajoelham-se sobre ele e rezam o cântico aos Saltimbancos. Pode escrever. Mais cedo, mais tarde, um desses fanáticos por coxinha de jaca vai entrar num açougue, puxar sua UZI da mochila e atirar em todos os fregueses abraçados em suas sacolas cheias de coxão mole, numa das cenas mais sanguinolentas da história.

Já o crossfiteiro deve ser algum ganhador da Mega Sena que não quis revelar sua sorte pra ninguém. Ele paga uma bica pra ficar o dia inteiro carregando pneu de caminhão. Se o Seu Pedro, dono do Martelinho de Ouro aqui perto de casa soubesse, nem precisava contratar o preguiçoso do ajudante Alcides. O treinador de cross fit é a versão mais roots de quem faz Pilates. Que é uma outra coisa que não entendo muito bem. A pessoa fica horas e horas deitada sobre uma bola do Playcenter. Dizem que é um exercício foda e corrige toda a sua coluna. Quem sou eu pra discutir com essa técnica de ginástica inventada após a Segunda Guerra? Pra mim, entrar numa piscina de bolinha de plástico do Habib’s resolvia o problema. E sairia muito mais em conta: se pedir 5 esfihas de carne, a hora é grátis. E com direito a meia hora de wi-fi. Mas cada um é cada um. O pilateiro faz aqueles exercícios de grávida e é feliz com isso. Não duvido. Com todo aquele esforço, capaz de um dia sair um rebento de sua barriga sem ele perceber. Já o crossfiteiro faz mais ou menos o mesmo alinhamento, balanceamento e cambagem corporal, só que em cima de uma cama de tortura. E ainda quer te convencer a frequentar as aulas. Meu amigo, pense um pouco. Se eu fosse desembolsar alguma quantia, seria para a Smart Fit. Só pra ficar sentado naquela cadeira massageadora, com ar-condicionado no talo, olhando pros glúteos femininos.

Por último, o coach. Esse sim é espeto. Compilou conceitos básicos da Psicologia e do Marketing. Usando técnicas fundamentais de Neurolinguística, aplicadas ao mundo moderno dos negócios, conseguiu ganhar muito dinheiro com isso. O coach nada mais faz do que um mashup de autoajuda com gestão empresarial. É uma mistura de Philip Kotler com Lair Ribeiro. Se você catar alguns preceitos dessas ciências e aplicar em qualquer frase extraída de apresentação de Power Point, conseguirá ser um coach de sucesso. Vamos fazer um teste: “você precisa fazer um rebranding em sua consciência”. “Analise melhor seu key performance indicator para ampliar seu networking”. “Conseguir amigos e influenciar pessoas depende só do seu return over investment”. “Para ter sorte no amor, mantenha o foco na relação business-to-business”. “Suas couraças só vão se romper após um overview do seu background”.

Mas existe coisa pior. É o chato que reúne tudo isso: vegano, coach e crossfiteiro. Já pensou? O sujeito te chama pra comer hambúrguer de soja, e depois queimar as calorias carregando pedra enquanto ouve um podcast do Richard Bandler? Tô fora. Esse cara merece mesmo ser bloqueado.


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Cabelo horroroso


Semana passada, o radialista gaúcho Rogério Mendelski foi acusado de racismo ao fazer um comentário sobre o cabelo da ex-vereadora Marielle Franco. Segundo ele, aquele cabelo preso é “horroroso”. Sinceramente, não vejo nada de mais nessa observação. Numa população tão biodiversa como a nossa, com tantas texturas, tons de pele e cores de pantone, é natural gostar de alguma coisa e não gostar de outra. Foi apenas uma opinião do radialista, a meu ver. O que se pode discutir, talvez, seja a pertinência e relevância do comentário, se aquilo realmente foi necessário diante do contexto. Fora isso, é um direito inconteste do acusado. Da mesma forma, é natural aparecer quem discorde dele e ache o cabelo da Marielle lindo. Faz parte do jogo democrático. Só que o problema é que não vivemos um jogo democrático. As tonalidades genéticas são infinitas, entretanto, as discussões são binárias e polarizadas. Dias atrás, joguei um post no Facebook meio que pra alimentar uma polêmica. Falei que não gostava do sotaque carioca. Aliás, tenho vários amigos cariocas, diga-se de passagem. E nem todos os falantes do Rio de Janeiro me incomodam, pra falar a verdade. Mas aquela pronúncia acentuada me irrita um pouco. Assim como não gosto de acarajé, o que em nada significa que deixaria de gostar dos baianos. Uma amiga minha, carioca, respondeu de maneira fina, elegante e sincera: “foda-se”. Achei a melhor resposta. Ou seja, meu gosto em nada importa pra ela. E vida que segue. Por outro lado, uma indivídua que sequer a conheço pessoalmente, e que provavelmente deixou de me seguir desde então, invadiu minha área com seus axiomas, suas certezas, suas verdades absolutas, e concluiu por conta própria que eu sou preconceituoso e racista (talvez regionalista seja a melhor palavra). São os juízes Dredd de plantão, que te observam nas redes sociais, detectam um crime e aplicam suas próprias penas. Dependendo do caso, uma execução sumária, sem direito a julgamento.

Voltemos à Marielle. Se a crítica a seu cabelo é algo condenável, que suscita e faz apologia ao racismo, devemos então estipular os mesmos pesos e medidas. Porque, do jeito que está, de acordo com esse tribunal aí do Facebook, falar que o cabelo do Bolsonaro é horroroso (e de fato é) pode. Falar que o cabelo da ex-vereadora é horroroso não pode. O que está em jogo, portanto, não é o cabelo, tampouco o horroroso. É a Marielle. Ícone da resistência. Vilipendiar sua figura imaculada é algo proibidíssimo. Um pecado que te conduz direto ao Inferno.

Eu tenho o cabelo crespo. Nasci de cabelo liso, mas aos 11 anos teve uma epidemia de piolho na escola e tive de raspar a cabeça. Dizem que o cabelo cresce mais crespo e mais duro depois que se raspa, como foi o caso do Gianecchini. Além disso, o fato ocorreu na minha adolescência, fase de todo um desarranjo genético. Então, imagine você. Desde os meus 11 anos, há cerca de quatro décadas, não só venho ouvindo que meu cabelo é horroroso. Já fui chamado de judeu sarará, pixaim, cabelo frito, cabelo ruim, poodle velho, Valderrama, bombril, se fizer cafuné dá choque. Minha professora de Educação Artística (que também tinha cabelo crespo), durante os cinco anos em que me deu aula, sempre me chamou de Crespinho. Em meia década, ela fazia questão de não decorar meu nome. Mas eu não sou a Marielle. Sou branco. E homem. Para os milicianos das redes sociais, sou um dos culpados e responsáveis por toda essa crise de desigualdades que assola a Humanidade. No entendimento desses ministros do Supremo Tribunal Facebookiano, composto majoritariamente por brancos,  não há como comparar o nível de sofrência entre a pessoa que é discriminada na fila de supermercado e entra pelo elevador de serviço e o semita que estudou em colégio particular do Bom Retiro. Ser chamado de alguns adjetivos, por sinal muito mais peados do que “horroroso”, é sem dúvida uma dívida social que tenho que pagar, um ônus probante da minha culpabilidade por esse hediondo estado das coisas. Assim como as flexões que um soldado tem que pagar a seu general, quando faz algo de errado que ele nem mesmo sabe o que é. Dias atrás, minha mãe comentou com uma amiga ao telefone um fato que eu fiz questão de apagar da memória. Ela disse que um dia eu (ou meu irmão, não entendi ao certo) cheguei da escola mais cedo, chorando, com o cabelo todo sujo de terra. Eu não disse o que era, mas ela logo suspeitou que foi coisa de coleguinha de classe. Pois bem. Radialista da Rádio Guaíba que desagrada seus ouvintes com suas palavras corre o risco de perder o emprego e faz a emissora se retratar em público. Já este hebreu, esta sobra de Holocausto que vos escreve, que não foi assassinado pela família do atual Presidente, deve mais é tocar seu dia a dia. Faz parte da vida. É passado, tá tudo certo. Homem branco tem mais é que voltar pra casa com o cabelo crespo sujo de terra.

Ano passado fiz um curso de stand up comedy. No exercício de se criar e testar novas piadas, comecei meu texto falando justamente sobre essa diferença entre racismo de branco e racismo de negro. Meu professor me recomendou a não entrar muito nessa celeuma. Disse que a plateia branca não iria comprar muito minha ideia. Sugeriu que eu amenizasse o tom e deixasse o texto mais palatável ao grande púbico. Não sei se por ironia, ou talvez para deixar a contradição ainda mais aparente, ele me orientou a usar a técnica cumulativa de punchline e enumerar uma série de adjetivos e metáforas pejorativas que acentuassem ainda mais minha pele alva. Pinscher albino, papel A4, modelo de museu de cera, filhote de Galak, toma banho com Omo, reflete o sol da praia. É isso, minha gente. Comparar um negro a um boneco de piche é algo intolerável em terceira instância em tempos tão racistas como os de hoje. Dá cadeia pela Lei Afonso Arinos. Já se referir a esta pessoa como um sorvete de talco não pega nada. “Ah, ele vai entender. É só uma brincadeirinha”. Chamar um negro de preto é inadmissível. Aí somos obrigados a usar eufemismos quando não sabemos o nome da pessoa: aquele moreninho... aquela mulatinha... o que torna a coisa ainda pior. Já usar o genérico “aquele judeu ali” apontando pra minha direção, isso pode. Da mesma forma, pode chamar aquele japonês ali de “japoronga do pau pequeno”. Porque, como dizem, não existe japonês mendigo. Os nipônicos ocupam os primeiros lugares das faculdades, comem peixe todo dia, fundaram a Toyota. Não têm do que reclamar. Ser xingados de pênis em desvantagem centimétrica é um mal menor.

Isso tudo me lembra uma das cenas finais de Faça a Coisa Certa, filme de exatos 30 anos atrás, dirigido pelo (negro) Spike Lee. Planos fechados em líderes de seus guetos, falando pra câmera. Italiano sendo preconceituoso com o negro, que é preconceituoso com o chinês, que xinga o judeu, que é racista com todos os não-judeus, e corta para o muçulmano, para o ucraniano, para o senegalês, e por aí vai. A conclusão que tiro é que não só não evoluímos um pingo nessas três décadas, como tenho a sensação de que estamos andando pra trás. Essa hipocrisia disfarçada de juízo de valores, essa intolerância disfarçada de piadinha de salão, essa invasividade disfarçada de jeito latino de ser, pra mim tá tudo muito disfarçado, muito xiita usando sua máscara em prenúncio a uma inevitável convulsão social. Como eu já disse em uma postagem/profecia anterior, estamos adubando o campo fértil pra que nossa sociedade reproduza réplicas e mais réplicas de Arthur Fleck. Estou rodeado de inimigos que me dão tapinha nas costas.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Não vá ao Cinemark


Cansei de reclamar com o gerente, usar o Fale Conosco do site, enviar textos para a extinta seção de críticas do Guia da Folha. Cansei. Só me resta então fazer campanha. NÃO VÁ AO CINEMARK. Agora, a “moda” é unificar as bilheterias de compra de ingressos com a bomboniere. Isso só prova que, como eu sempre falo, CINEMARK NÃO É CINEMA. É uma loja de doces em que se passam filmes. A consequência disso? Ontem fiquei mais de 20 minutos agonizando na fila. E a tendência é só piorar. Sou das antigas. Recuso-me terminantemente a comprar por aplicativo, que também gera transtornos na leitura do código e não impede o cliente de enfrentar fila, só que trocando uma por outra. Não compro em sites, eles cobram uma taxa de conveniência pra não oferecer conveniência nenhuma. Minha vida é cheia de imprevistos, eles também não fazem a troca ou devolução do ingresso caso eu não consiga chegar à sessão comprada. As filas nos terminais de autoatendimento são igualmente lerdas e gigantescas, e raramente contam com um funcionário para auxiliar os clientes. Se você não se sente afetado com meus argumentos, tudo bem. Continue indo ao Cinemark. Meu diálogo não é com você. Mas se você é daqueles que também ficam indignados com tamanho descaso da rede pela Sétima Arte, tamo junto. O lucro dos exibidores para cada ingresso vendido não passa de 10%. Já o lucro das gororobas do snack bar, como por exemplo a pipoca, ultrapassa 500%. Então, você já deve ter percebido qual é o foco da empresa. NÃO VÁ AO CINEMARK. Se possível, opte pelos cinemas de rua, que conduzem o ofício de oferecer cinema usando uma lógica menos perversa. Opte pelos circuitos “de arte” que também colocam blockbusters na programação (Arteplex, por exemplo). Com telas boas e poltronas confortáveis, na maioria dos casos. Talvez o movimento de derrocada seja inevitável e essa luta ganhe um efeito nulo. Mas é o máximo que eu posso fazer. Se você chegou até aqui na leitura do texto, é porque em algum aspecto concorda comigo.


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Coisas que me emputecem


Hoje tá um ótimo dia pra reclamar da vida:
1)     Está chovendo forte. Você espera a chuva passar. Ela passa. Até você descer do elevador, se despedir de todo mundo, na hora em que sai pra rua a chuva volta, mais forte ainda. Torrencial. Você se lembra... de que esqueceu o guarda-chuva. Fica ensopado. Entra aonde precisava chegar. Um minuto depois, a chuva para.
2)     Você faz uma pergunta pra alguém. De múltipla escolha. Espera como resposta uma das alternativas apresentadas. Por exemplo: “Você gosta de bife mal passado ou bem passado?”. E a pessoa responde: “Isso mesmo”.
3)     O motorista do Uber acha que você é o psicanalista dele. Ele desabafa, conta toda a sua vida, os seus problemas. Você só ouve. Como um bom psicanalista. Só que, no final, quem paga a consulta é você.
4)     Pessoas que resolvem almoçar juntas. Todas elas, da firma inteira. Forma-se um bloco de 14 indivíduos na calçada. Eles é que determinam a velocidade média dos transeuntes. Não deixam ninguém ultrapassar. Estão todos felizes, rindo muito. E bloqueando a passagem dos demais. Como se fosse um bloco de micareta.
5)     Gente
que
escreve
assim
no WhatsApp
6)     O valor da oferta anunciada na gôndola do produto no supermercado nunca coincide com o valor registrado no caixa.
7)     Ainda no supermercado. A pessoa na sua frente da fila repetiu de ano em Matemática. Puxa um carrinho abarrotado de mercadorias, debaixo da placa onde se lê “máximo 10 volumes”.
8)     Você vai ao banco. Pega a senha. Número 322. Vê no painel a última pessoa que foi atendida: 275. Sabe que vai demorar pa-ra-ca-ra-lho. Dá tempo de ler todos os livros do Tolkien. Aquele vidro fosco que divide os caixas e os clientes foi criado pra você não conseguir enxergar quantos funcionários estão atendendo. Depois desse trajeto Rio-São Paulo de ônibus, avista o número 321 no painel. Pega seus boletos e prepara-se psicologicamente pra ser o próximo. Painel apita o número P014. Preferencial. A velhinha que acabou de chegar, mesmo com seu andador, consegue te ultrapassar.
9)     Loja de roupas campo-minado. Você está do lado de fora, olhando a vitrine. Assim que encosta na primeira lajota do piso interno, explode um vendedor ao seu lado: “Bom dia em que posso ajudar tá procurando algo específico aproveita nossa promoção dá uma olhada nos outros modelos sem compromisso”.
10)  A mesma lógica. Só que ao contrário. Você entra na loja, espera ser atendido, e nada. Procura você mesmo as roupas, consulta você mesmo os preços, revira você mesmo as pilhas de camisetas, e ainda assim nada. Entra no provador, sai de lá, usa seu braço de cabide, dirige-se ao caixa. Sozinho. Do começo ao fim, você é o meme do John Travolta.
11)  Situação parecida. Desta vez, no restaurante. O garçom finge que não te vê. Você levanta a mão e faz um breve aceno. Ele desvia o olhar. Levanta o braço um pouquinho mais, tentando chamar outro garçom. Ele também finge que não te vê. Você estica ainda mais o braço, tentando alcançar o lustre, pra ver se São Pedro consegue te enxergar e providenciar uma atitude divina. Só que a coisa é muito sincronizada lá dentro. Todos os garçons combinam entre si de te ignorar solenemente. A não ser na hora de trazer a conta e cobrar os 10%.
12)  Continuando no restaurante. Por quilo. Você está se servindo. A pessoa atrás de você tem pressa, muita pressa. Parece o Coelho Branco da Alice no País das Maravilhas. Toda hora encosta a bandeja no seu cóccix. Tá bufando. Pega qualquer coisa e joga de qualquer jeito no prato. Em compensação, a pessoa à sua frente tem toda a calma do mundo. Faz todo um processo seletivo para cada folha de alface. Escolhe minuciosamente cada ervilha como se fosse um gemologista. Despeja no prato os grãos de feijão por unidade.
13)  Escada rolante. As pessoas à sua frente acham que o aviso “deixe a esquerda livre” é mera panfletagem política.


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Começa com E


A história de hoje se passou há mais ou menos 10 anos, quando trabalhei no departamento de Comunicação de uma distribuidora de médio porte de filmes. Uma empresa familiar, cuja dona era folclórica no mercado cinematográfico brasileiro. Fiquei pouco tempo ali. Mais ou menos 3 meses, o equivalente ao período de experiência. Quando eu já tinha um bom tempo de casa, pelo menos pra todo mundo dali saber quem eu era e o que eu fazia, a tal proprietária me perguntou:
- Qual o seu nome, mocinho?
- Começa com E.
Ela, um pouquinho mais irritada, respondeu:
- Fala logo, mocinho!

Corria à boca pequena que de vez em quando ela costumava maltratar alguns funcionários. Comigo nunca houve nada nesse sentido. Mas isso não quer dizer que a gente tinha algum tipo de intimidade. Analisando hoje, eu sinceramente não sei onde estava com a cabeça para achar que uma senhora de quase 80 anos, presidente de um renomado selo de distribuição de filmes, ira naquele momento querer brincar de jogo de adivinhação. É a mesma coisa que beliscar o braço do Kim Jong-um e falar “3 marcas de cigarro”. É como falar pro Bolsonaro “sebrãbisdoila” e, na hora em que ele perguntar “o quê?”, você aponta o polegar pra baixo e faz um som com a língua “prrrrr”. Se bem que no caso do Bolsonaro é até capaz de ele rir e gostar da brincadeira.

No fundo, eu queria achar que se tratava de um esquecimento temporário. Não passava pela minha ingênua cabeça de que ela nem fazia ideia de quem eu era. Que a minha importância para o sucesso da empresa era o equivalente ao bebedouro. Que eu era facilmente confundido com um cartaz de filme de terror.

Claro que esse fato ficou notório no nosso departamento. Risadinha aqui, risadinha ali, cada vez que alguém se lembrava do episódio. Até que o assunto morreu. Dias depois, falei para um comparsa da equipe:
- Já salvei na rede o texto do filme.
- Qual filme?
- Começa com E.