segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Na loja

 

(Vendedora Sidneia): Olá, bom dia. Posso ajudar? Procurando alguma coisa específica?

(Cliente Márcio): Bom dia. Não, só tô dando uma olhada. Na verdade eu preciso de uma calça e uma camiseta.

(Sidneia): Qual tamanho? Eu vou procurar no estoque. Fique à vontade. Me chamo Sidneia, qualquer coisa é só me chamar.

...

(Sidneia): Prontinho, tá aqui. Calça e camiseta, do jeito que você pediu. Pode usar o provador se quiser.

(Márcio, na boca do caixa): Antes de pagar, eu queria fazer uma observação. Não acho que fui bem atendido.

(Caixa Aurora): Algum problema, senhor?

(Márcio): Não é exatamente um probleeeema, problema... Mas acho que faltou um pouco de iniciativa, sabe? A loja é tão grande, vocês têm tanta coisa pra vender... Eu só tô levando uma calça e uma camiseta. Cês podiam sair fora da caixa (sic). Me mostrar outras coisas. Imagine o potencial de compra de cada cliente que entra, como isso não iria aumentar o faturamento de vocês. Acho que faltou um pouco de proatividade. Só isso.

(Minutos depois...)

(Supervisor Clayton): Sidneia, vem cá um minutinho, por favor.

(Sidneia): Pois não?

(Clayton): Acabei de receber uma reclamação do setor 22. O cliente alegou que não foi bem atendido. Da próxima vez, vamos oferecer O MÁXIMO de produtos que puder. A gente precisa bater a meta do mês. Isso pode aumentar nosso ticket médio, com certeza vai aumentar sua comissão e o cliente vai ficar mais satisfeito. Tem um monte de roupa encalhada, vamos desovar isso! A diretoria tá me enchendo o saco. A gente não pode mais ficar nessa passividade em tempos de crise. Precisamos ser menos REATIVOS e mais PROATIVOS. Tá OK? Semana que vem começa um novo treinamento, gostaria muito que você participasse pra colaborar com a gente.

(Um mês depois...)

(Sidneia): Bom dia, senhor Márcio. Tudo bem com o senhor? Lembro perfeitamente do senhor pela sua cara. Eu sou uma boa fisionomista. Fui eu que te atendi da outra vez. O que vamos levar hoje, senhor Márcio?

(Márcio): Tô precisando de uma camisa.

(Sidneia): Mais alguma coisa? Quer aproveitar e levar uma calça também? Vem comigo, lá naquela seção temos bermudas que vão ficar ótimas no senhor. Tá precisando de cuecas, meias? Tem aqui camisetas que entraram hoje em promoção. Aproveita! Já deu uma olhada na nossa coleção de verão que acabou de chegar? Essas peças iam ficar lindas no senhor. Cintos, gravatas, tá precisando? Quer aproveitar e levar um presente pra sua namorada, ou esposa? O senhor sabia que a gente também tem relógios e perfumes? Vem aqui dar uma olhada!

(Márcio): Não, obrigado. Esse mês estamos em contenção de despesas.

(Sidneia): Jura, senhor Márcio? Mas a gente pode parcelar em até 3 vezes sem juros. O senhor já tem o nosso cartão?

(Márcio): Sabe o que é? Hoje eu tô com um pouco de pressa, então vai ser uma compra mais urgente. Só uma camisa mesmo.

 

domingo, 20 de setembro de 2020

Bateria

Durante um bom tempo da minha vida fui muito apegado à bateria. Gostava da riqueza sonora que se pode extrair daquele monte de pratos e tambores. Um verdadeiro aparato de objetos alinhados (acho que é por isso que se chama “cozinha” da banda), um pouco mais recuados da linha de frente do grupo, mas que produz uma barulheira sem precisar de microfones. Sempre admirei a versatilidade de quem toca. Primeiro, porque um bom baterista precisa ter braços e pernas funcionando de modo independente. É como se uma parte do cérebro comandasse cada um desses membros, para que um possa funcionar de modo emancipado em relação ao outro. Segundo, nota-se que um baterista tem a mão leve, quase uma mão boba, e segura as baquetas como se estivesse empunhando uma pena.

Eu até tentei tocar bateria. Cheguei inclusive a comprar uma Pinguim básica. Só que, por mais que me esforçasse pra aprender, percebi que aquilo não era pra mim. Não só por exigir horas e horas de estudo. Isso serve pra qualquer coisa que se queira aprender, até mesmo bordado. Mas a as aulas de bateria pressupõem o dom inato da coordenação motora, algo que não tenho. Então, o aprendizado ficou muito mais árduo pra mim. Minhas primeiras aulas foram num conservatório perto de casa. Pra se ter uma ideia, em menos de seis meses houve a troca de três professores. O primeiro vinha da escola do jazz, e queria que eu fosse um Gene Krupa já nos primeiros ensaios. Caiu fora. O segundo era exatamente o contrário. Era baterista de igreja, alto, vozeirão, vestia-se de preto. Parecia o Tropeço, da Família Addams. E ficava aulas e aulas no primordial beabá dos tambores. Caiu fora também. Já o terceiro era mais rock and roll. Mais gente boa. Só que suas aulas deixavam um pouco a desejar. Logo depois quem caiu fora do conservatório fui eu. Fui ter aulas particulares com um professor que mora em apartamento. Ou seja, eu batia as baquetas em pedaços redondos de madeira forrados com uma borracha pra abafar o som. Tipo ver filme pornô no modo mute. Perde-se o tesão. Falando em tesão, logo nas primeiras aulas percebemos que não havia química alguma entre professor e aluno. O local era meio fora de mão, os horários eram péssimos, eu chegava cansado no apê do mestre e, como se não bastasse, não havia aquela descontração. Quando falei pro cara que pretendia largar o curso, a cara de alívio dele foi notória. Enfim, juntando a minha dificuldade de ganhar destreza, mais os métodos não muito estimulantes dessa sequência breve de instrutores, a bateria passou a ser um fardo pra mim.

Mas isso não vem ao caso. OK que uma vez me mandaram providenciar pedaços de ferro e uma borracha pra que eu pudesse treinar meus punhos a ficar mais soltos, e não adiantou nada. Me via como o Karatê Kid nas aulas do Professor Myiagi. OK que eu comecei a ler partituras por conta própria, mas não conseguia executar as colcheias e semicolcheias escritas. OK que eu só fui aprender nos tutoriais do Google, anos e anos mais tarde, de graça, aquilo que deveria ser a primeira aula (paga) ensinada pelos professores presenciais: os jeitos corretos de segurar as baquetas. Ainda assim, a bateria despertava em mim por vários anos um encantamento indescritível. Hoje eu me identifico mais com outros instrumentos e outras formas de se produzir sons.

E é por causa desse remoto momento da minha vida que eu quero homenagear os bateristas. 2020 não está sendo fácil pra ninguém, fato. Mas, especialmente para os bateristas, é um ano pra lá de horrível. Não sei se, por causa da quarentena, a gente acaba prestando mais atenção aos fatos fúnebres. E, estatisticamente, esse ano está sendo absolutamente igual aos outros. Ou, por uma infeliz coincidência, esse ano foi mais cruel com os mestres das caixas e dos bumbos. Mas é bom deixar registrado que, logo de cara, no começo de janeiro, o mundo perdeu o mago Neil Peart, do Rush. Ele era o rei. Não dá pra deixar de notar o quanto influenciou toda uma geração, até mesmo o fodástico Mike Portnoy. Vinha tendo problemas de saúde já faz um tempo. Tanto é que a banda chegou a dar um tempo por conta disso. E, estranhamente, foi vítima de boatos inúmeras vezes noticiando em fake news sua morte. Só que, em 7 de janeiro, infelizmente o acontecimento foi verdadeiro.

No mês passado foi a vez do competente Frankie Banali. Ex-integrante do WASP, ficou mais conhecido por sua participação duradoura no Quiet Riot. Chegou a produzir alguns álbuns da banda. Banali mandava muito bem no hard rock, um gênero que supostamente não exige tanto desse tipo de profissional.

E ontem perdemos Lee Kerslake, ex-Uriah Heep, que chegou a gravar originalmente os dois primeiros discos do Ozzy Osbourne. Nem tão notório e criativo quanto Peart, Kerslake foi um senhor baterista. Seu estilo lembrava vagamente algo do professor Ian Paice.

Três lendas que se partem. Vítimas de câncer. Torço para que esse número não aumente. O mundo ainda precisa de música para alimentar nossos ânimos e acalmar nossos nervos.

 

domingo, 13 de setembro de 2020

Pernilongos

 

Em algumas situações, sou totalmente a favor da pena de morte. Ácaros, bactérias, baratas, pulgas, marimbondos, todos eles devem queimar nas labaredas do Inferno. O Aedes aegypti, então, merece passar a Eternidade sendo torturado pelo próprio demo, pelo fato de ter cometido triplo homicídio doloso.

Entre milhões e milhões de insetos, queria falar um pouco mais dos pernilongos. Estou acompanhando relatos de amigos e percebendo que eles de fato invadiram a cidade. Em pleno inverno. Não sei se é por causa das inversões climáticas causadas pelo aquecimento global, ou eles simplesmente estão vendo que a imprensa está voltada para o coronavírus para poderem passar a picada. Eu, por exemplo, compartilho a angústia dos meus amigos e confesso que estou sob constantes ataques.

Você, leitor precavido, prudente e consciencioso, deve achar que não é necessário nenhum textão pra falar sobre isso. Basta passar um inseticida pela casa e ta tudo resolvido. NÃO. Já borrifei latas e latas de spray pelo ambiente. Se acender um fósforo, pega fogo. Quase causei um curto-circuito na residência, de tantos refis de tomada que instalei. Mesmo assim, eles continuam incólumes, prontos para abater a próxima vítima. Que, no caso, sempre sou eu.

A minha raiva dos pernilongos se justifica. Tudo bem querer chupar meu sangue. É um direito da natureza. Faz parte da cadeia alimentar, do ciclo biológico. Tenho mais de um galão de sangue correndo pelo meu corpo, umas gotículas da substância não vão me fazer falta. Além disso, estarei ajudando na distribuição de hemoglobinas pelo país, que sofre tanto com as desigualdades. O problema é que, para o filho-da-puta do inseto, não basta pousar para se abastecer. Ele antes precisa emitir seu arauto do ataque. Um aviso sonoro, um irritante zumbido que não deixa ninguém dormir. Como se não bastasse, após sorver nosso líquido vermelho o bichano deixa como legado uma horrível protuberância na nossa pele. Uma disforme e arredondada cicatriz efêmera, acompanhada por um prurido incômodo e incessante como gorjeta de sua refeição. Portanto, desejar a morte súbita a esse verme é o mínimo que eu posso fazer.

Existem dois tipos de inseticida: o raiz e o nutella. SBP é um produto nutella. Você vê lá na propaganda que ele é TERRÍVEL contra os insetos, mas o máximo que ele faz pro bicho é “buu”. Pode passar na casa inteira, não adianta nada. O máximo que você vai conseguir é uma tosse. Certeza que sua química deve chegar pro pernilongo e falar “desculpa atrapalhar a atenção de vocês, eu poderia estar empesteando lavouras, eu poderia estar causando um mal terrível à camada de ozônio, mas vim aqui pedir a colaboração de vocês para que, por obséquio, tenha a bondade de se retirar”. Não tem como um himenóptero se amedrontar diante de um composto tão emo. O tal terrível deve só fazer cócegas, e olhe lá. Costumo despejar o líquido em todas as cantoneiras dos quartos, teto, janelas. Parece que estou fazendo uma dedetização em casa. Mesmo assim, eles escapam. Quando encontro um pernilongo voando e lanço um jato de SBP diretamente sobre ele, o bichinho até ri da minha cara. Na cabeça dele, é a mesma coisa que anunciar um assalto com um revólver de plástico.

Já o inseticida raiz é diferente. Esse sim tem meu total apoio e respeito. Mortein, por exemplo. O próprio nome já assunta. Diz a que ele veio. Pra mim inseto bom é inseto morto. E o inseticida verdadeiramente eficaz tem que ser um serial killer. Missão dada, missão cumprida. Tem que ter uma embalagem horrível, com estampa de caveira, imagem de óbito de barata e funeral da dengue com aquele X vermelho circunscrito. Só de olhar esse troço o voador já desmaia. Inseticida bom tem que ser eleitor do Bolsonaro. A favor do porte de armas, da agressão e da truculência. Nada de mimimi, de proteção dos direitos entomológicos.

Bom mesmo era o Flit. Saudades desse matador de aluguel. Quem é da geração millennial nunca deve ter ouvido falar. Parecia um avião da Segunda Guerra. Era nada mais do que uma bomba de encher pneu de bicicleta, acoplada a uma lata de ervilhas que servia como tanque de combustível. Sua fumaça deixava um rastro tão denso que era possível até coletar com as mãos as gotículas que iam pro chão. Aquilo fazia um estrago da porra na vítima. O Flit executava seus alvos sem deixar vestígios dos cadáveres. Quando a gente borrifava o ambiente com essa substância assassina não podia adentrar o recinto por questão de dias. Acho que o Flit é responsável por metade da poluição do Rio Tietê, de tão tóxica que era sua composição química. Mas aquilo sim funcionava. O morteiro aéreo das gerações passadas, enterrado como indigente nos anuários de propaganda velha.

 

sábado, 29 de agosto de 2020

País gramatical

 

Brasil. Terra de muitas orações e pouca sabedoria. Sujeitos que roubam, que matam, que lavam dinheiro em álcool gel e são afastados de seus cargos. Gastam o verbo em campanhas – e gastam a verba onde não deviam quando são eleitos. Desmatam as nossas florestas, mas as provas são inexistentes e os locais, indeterminados. Agentes subordinados que racham seus salários para sustentar seus partidos, enquanto seus chefes racham o bico. Presidente diminutivo que governa em primeira pessoa do singular, no modo imperativo, cercado de adjuntos adnominais sem valor sintático. Usa o pronome possessivo para se perpetuar. Vontade de tacar um objeto direto na boca de quem pergunta. Ministra que fala por metáforas, ministro que enxuga hipérboles. Equipe dos predicados mais sórdidos. Estatísticas pospostas, criando a silepse perfeita de uma dor aguda e uma situação grave. Denúncias de verbos irregulares. Decretos à revelia, com crase e com crise. Cheques pronominais depositados para a esposa. Verbos de ligação que conectam um esquema oblíquo entre uma família, a milícia e as falsas notícias. Planos de governo no modo gerúndio e o saudosismo no pretérito mais que perfeito de uma época das forças ocultas. A população agoniza na voz passiva. A corrupção deveria ser transitiva, mas não é. O país do futuro do presente é este, com todas as regalias garantidas pelos artigos definidos da lei.

 

domingo, 9 de agosto de 2020

Antítese

Definitivamente o Brasil é um país barroco. Reúne em si características tão contrárias e tão distantes e, por incrível que pareça, é essa a distância que compõe seu conjunto. Do clima muito quente ao muito frio. Da fala cantada ao jeito rápido de comer letras no final da frase. Esse país é tão diferente por dentro, que parece que é justamente essa síntese de oposições que melhor o define. Durante a pandemia, essa dualidade se acentuou ainda mais. Acompanhamos por meses e meses as filas nos bancos pelo auxílio emergencial. As dificuldades burocráticas implementadas pelo Governo para se ter direito ao saque mensal de 3 notas de R$ 200. E soubemos, recentemente, que os bilionários se tornaram ainda mais bilionários. Sim, durante a quarentena. Ricos cada vez mais ricos, na saúde e na doença. Moradores de rua morrendo de fome porque as doações acabaram. E os porta-vozes do Facebook compartilhando receitas de pão, ou reclamando que não param de engordar. Enquanto uns se deslocam em trens lotados, outros postam suas lives com um fundo de tela de fazer inveja à Biblioteca Mário de Andrade. Cabines de desinfecção e leitura infravermelha da temperatura corpórea no país campeão dos baixos índices de saneamento básico. Bastou um trimestre para entrarmos na pior recessão da história, com uma população dividida entre as palafitas e a Netflix.

Na política, o Brasil é igualmente barroco. Tão esquerdista e tão extrema-direita, sem a necessidade de um Muro de Berlim para separá-lo. É, em seu paradoxo, o convívio bipolar dos polarizados que torna o Brasil um país possível. Já não há mais espaço para se discutir a presença do Estado na Economia um pouco mais pra lá ou pra cá. Ou se defende os Estados Unidos, ou a China. E ponto final.

Até a Medicina entrou como pano de fundo para essa cisão ideológica. Fomos nos excluindo de nossos antigos grupos para dar lugar à criação de novos guetos. Afinal, estamos em guerra. De um lado do front, os cloroquiners. Do outro, os isolados aguardando a chagada da vacina, com a pouca paciência que lhe resta.

Nesse sentido, o Brasil só se faz cada vez mais transparente em suas contradições. Mesmo que se orgulhe da redução progressiva dos investimentos nas áreas técnicas da saúde, da pesquisa e do conhecimento, conseguiu num esforço hercúleo entrar na reta final para o ranking dos melhores. Em parceria com um laboratório chinês e alguns pesquisadores do mundo inteiro, vem desenvolvendo aquilo que daqui a uns meses pode ser considerado um milagre. É o Brasil brasileiro, pioneiro, líder, ainda que em sua ínfima minoria. Porque, em sua maioria absoluta, reina o Brasil que acredita em outro tipo de milagre. Na terra do em se plantando tudo dá, andam de mãos dadas a ciência e a ignorância. As escolas permanecem fechadas; já os templos religiosos, não. O número de ávidos por saber, que cresce em progressão aritmética, jamais vai conseguir dar conta de se igualar ao número geometricamente progressivo de obscurantistas, negacionistas, terraplanistas, antivacinistas.

Meu maior medo com a eleição do Bolsonaro era ver um país voltar atrás 40 anos. Errei feio. Nossa pátria amada retrocedeu 400 anos. De volta ao passado, fomos parar na Idade Média, época do surgimento do citado neoclassicismo propriamente dito. Aqui de onde estou só vejo trevas. Queima às bruxas e paulada nos médicos e jornalistas. Estão querendo curar a nova Peste Negra com vermífugo. Curandeiros foram recebidos no Palácio, com toda a pompa e circunstância, para divulgar suas receitas caseiras de chá de alho. E, mais recentemente, tapando os olhos para todo e qualquer relatório científico, estenderam o tapete vermelho para os teóricos da aplicação de ozônio no ânus.

Ontem o Brasil registrou a triste marca recorde de 100 mil mortos por covid-19. Mas aqui é terra de sol e chuva, meu caro. Nem deu tempo de ouvir o silêncio do luto. Logo vieram os fogos de artifício para abafar a tristeza que só alguns sentem e percebem: o Palmeiras foi campeão.

Também ontem o país perdeu o publicitário Ênio Mainardi. Amado e odiado na mesma proporção. Alguns profissionais do mercado o consideram um mestre da Propaganda, que deixou um rico e valioso legado e campanhas históricas, como por exemplo a da Tostines (“é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho”, pra quem não se recorda). Contudo, essa maestria toda também será lembrada por suas polêmicas. Mainardi deixava um cachorro solto em sua agência. Juntava sua equipe numa sala vestido somente de cueca. Fazia reuniões com o cliente e colocava um revólver sobre a mesa. Quando entrei na faculdade, Mainardi era uma espécie de inspiração. Porém, anos mais tarde, vi um debate no auditório dessa mesma universidade em que ele foi vaiado. Ele era isso mesmo: a faísca que se soltava dessa junção de opostos. Construiu sua sólida carreira numa das profissões que mais exigem a subversão criativa. Entretanto, passou seus últimos tempos defendendo ideias mais ou menos alinhadas ao conservadorismo do atual governo. Dizem por aí que também minimizou os efeitos da pandemia, concordando com o déspota genocida que tudo não passa de um exagero. Morreu de coronavírus, só pra deixar o assunto ainda mais barroco.

 

domingo, 5 de julho de 2020

Um brinde ao foda-se


Em Publicidade aprendemos que, quando uma mensagem é repetida várias vezes, procura-se ampliar a cobertura e reforçar seu conceito. Entretanto, um dos efeitos negativos é a perda de sua eficácia. A sensação de ver tudo igual, sem alguma novidade ou qualquer atrativo que nos tenha passado despercebido da primeira vez, nos faz virar a página, mudar de canal, apagar o e-mail. O discurso perde sua força e entra na nossa cabeça como um fundo sonoro com o qual já passamos a nos acostumar.

Durante a pandemia, a sociedade se sensibilizou com as falas dos governos locais, da OMS e até do então Ministro da Saúde. A importância do isolamento, o #FiqueEmCasa, lavar as mãos sempre e, mais recentemente, o uso obrigatório de máscaras. Talvez nos primeiros minutos de confinamento alguns cidadãos não estivessem levando a coisa tão a sério. Mas, em seguida, houve uma certa adesão geral e compreensão dos fatos. Tanto é que os índices de isolamento eram relativamente bons.
Só que os pronunciamentos das autoridades foram se reprisando. E, consequentemente, perdendo sua força e credibilidade. Quando se fala que esse é um momento muito importante para adotarmos as medidas preventivas de segurança e seguirmos corretamente as orientações da ciência e da saúde, isso quer dizer que no momento imediatamente anterior não era? Ao ouvirmos diversas vezes, em modo looping, que o pico da pandemia ainda não foi atingido e que a quarentena precisará ser esticada, passa-se a sensação de que alguma coisa está errada. Na cabeça do homem comum, nada diplomado em Medicina ou Matemática, conclui-se que ou deixaram de acertar nos cálculos ou as medidas iniciais não foram corretamente aplicadas. Isso sem falar no atual desgoverno federal, que desobedece a todas as regras sanitárias, provoca os governantes menores e veta artigos de lei, usando critérios meramente pessoais, no sentido de tornar o processo de retomada ainda mais flexível. E mais perigoso.

O fato é que a população meio que ficou de saco cheio. Não só de permanecer trancada por mais de 100 dias, como também de obedecer a comandos baseados no repeteco. No Brasil e no mundo. De Nova York a Nova Iguaçu.

As cenas que vimos nos últimos dias, em que notívagos invadiram e lotaram bares e mesas na calçada, aglomeradíssimos e sem o uso de máscara, são ao mesmo tempo trágicas e patéticas. Esse comportamento burlesco de um povo até então preso em regime domiciliar pode suscitar algumas interpretações. O mais ululante foi a afronta. O tapa na cara aos órgãos fiscalizadores. A onipotência da fala do nosso presidente, agora convertida nas camadas imediatamente abaixo na pirâmide social. Enquanto a classe operária dos entregadores de pizza trabalhava devidamente paramentada com os equipamentos de proteção individual, os emergentes criavam suas leis próprias durante sua efêmera diversão. Tudo junto e misturado. Os garçons e motoboys, mais vulneráveis ao vírus devido à sua condição social, ocupando o mesmo espaço dos novos-ricos que acham que o corona já passou. Uma falsa sensação de imunidade com impunidade. Aquela muvuca poderia ser também entendida como um basta. Um alegórico brinde à apressada carta de alforria, sem nada a se comemorar. Ou talvez, em última análise, a pulsão de morte que também habita no ser humano. Se é para viver o novo normal como um ermitão, um indivíduo incel, se é para abdicar de sua sexualidade e sua forma gregária de convívio, melhor nem viver. Vamos à la playa, morra quem morrer. O neodarwinismo necropolítico está aí para poupar quem tiver a sorte de ser poupado. Fez-se de conta que aquela mesa de bar foi a última ceia dessa quarentena que nunca termina, muito menos com final feliz. Saúde a todos os incompetentes, que não souberam conduzir sua manada. Agora só resta pedir a porção de picanha no réchaud e aguardar a chegada da vacina de Oxford. Enquanto isso, o democrático vírus poderia estar ali circulando livremente entre todos os cuspes impregnados nos copos de cerveja. Seja no pub de Londres, seja na calçada do Leblon. A imagem ridícula do fracasso da Humanidade.


quinta-feira, 2 de julho de 2020

Insônia


Essa noite foi uma noite mal dormida como outra qualquer. Durante a pandemia, difícil ter uma noite tranquila de sono. Só que essa noite não foi igual a todas as outras noites. A insônia me atacou. E durante esses minutos que demoraram uma eternidade pra passar, uma avalanche de pensamentos começou a transbordar em minha cabeça. Fatos que se sobrepunham. Cenas que se atropelavam. Imagens aglutinadas de um ontem com um passado bem remoto. Minha mente saiu dos gafanhotos e foi parar lá no Orkut. Lembrei que a gente classificava os amigos por estrelas. Um deles me deu a nota máxima, até começarmos a trabalhar juntos. E as diferenças começaram a aparecer de modo grosseiro e abrupto. Uma amizade que começou com “sou seu fã” e terminou com “desembucha logo que eu tenho mais o que fazer”.
Lembrei de mais amigos, outros tantos, que eram muito simpáticos e sorridentes quando tínhamos um projeto em comum pra tocar, ou quando precisavam de mim. Hoje me botaram no modo soneca. Desta vez, no Facebook.  
Lembrei de lugares, vários lugares. Bares e restaurantes que tinham tudo pra ser incríveis. Mas não eram. A foto e a descrição do cardápio eram muito mais bonitas e apetitosas do que o prato que me foi servido. O atendimento deixou muito a desejar. Embora eles tivessem adotado a prática chique de cobrar 13% ao invés de 10% como taxa de serviço.
Lembrei de algumas namoradas também. Poucas. Mas com uma sequência recheada de fatos, brigas e desilusões. Muitas. Teve aquela que no começo tudo parecia divino e maravilhoso. E no final a gente já não se suportava mais. Um início marcado por selfies de rosto coladinho. E um epílogo com fotos tiradas a quase um quilômetro de distância. Um início de muito diálogo e um término de muito silêncio. Uma relação que começou com uma admiração profunda pelos meus textos, até culminar com um desprezo total por eles.
Vieram na minha conturbada cabeça outras mulheres. Aquelas que se atrasavam nos nossos encontros, só pra gente ter menos tempo de convívio. Aquelas que me pediram dinheiro. Aquelas que não me pediram nada, mas também não tinham nada a me oferecer. Era pra ser uma noite fantástica. Era pra eu me recordar das trepadas homéricas. Só que a imagem que ficou retida foi eu sendo abandonado num quarto de motel, com a frase “você precisa se tratar”.
A nossa cuca é meio traiçoeira. Parece que faz uma triagem dos flashbacks. Memória seletiva com critérios pra lá de suspeitos. Escolhe o que há de pior. É um filtro ao contrário. Você, tanto quanto eu, sabe como a gente gasta e investe pra alimentar nossas vidas com fragmentos de felicidade. Tempo, dinheiro, esforço, pensamentos positivos, altas expectativas, perfumes e roteiros da Vejinha. E o que sobra disso tudo? A vaga lembrança de um desencontro no metrô causado pela Estação Paulista na Consolação e Estação Consolação na Paulista.
Noite ingrata. Acelerou meu coração com frustrações. Trouxe à tona o desgaste e o desgosto. Não era esse o residual que eu queria. Era pra eu contar carneirinhos, não os pés-na-bunda. Todos dizem que a vida é cheia de prós e contras. Fazendo esse cálculo, o resultado do balanço final deveria ser o equilíbrio de um empate. Mas não. Ficou a sensação de uma derrota de 7 a 1.
E nada do sono aparecer.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Farmácia


Minha mãe tem uma amiga de longa data que é dona de uma farmácia no Centro de São Paulo. Eu mal conheço essa amiga, muito menos a farmácia. Mas quero acreditar, no meu imaginário onírico, que se trata daquelas farmácias tradicionais. Com piso de mármore e prateleiras de madeira escura com portas de vidro. Daquelas em que o farmacêutico tinha que subir numa escada gigante para procurar algum medicamento mais raro. Não essas farmácias de hoje em dia, tudo Nutella. Hoje você entra numa farmácia e, se não fosse a fachada com a logomarca, você nem sabe a diferença entre uma e outra. Tudo muito igual, com a mesma cara. Muito genérico. E eu nem estou me referindo aos medicamentos de preço popular. Hoje você entra numa farmácia, se espreme nos corredores minúsculos pra não esbarrar em nada, e é atendido por uma moça que parece caixa de loja de departamentos. Não importa se você vai pedir um paracetamol ou o quebra-cabeça do Hulk. Se bobear, é até capaz de a farmácia vender esse quebra-cabeça. Ela vai te olhar com uma mecânica frieza e indiferença, vai abrir uma tela de computador, procurar no sistema se o produto encontra-se disponível em estoque e perguntar se você tem algum plano de saúde. Eu tô falando daquelas farmácias legítimas. Farmácia-raiz. Farmácia com ph. Daquelas em que você sente o cheiro de álcool porque atrás do balcão tem os biombos onde clientes tomam injeção. Daquelas em que não existia sistema. O próprio farmacêutico conhecia todos os medicamentos de cor e salteado. O sistema era sua memória. A planilha Excel era uma caneta-tinteiro que ele guardava no bolso de seu avental branco. É esse tipo de botica que reina meu inconsciente imaginário. Onde o dono foi colega de classe do Oswaldo Cruz. Onde tinha um cartaz amarelado do Biotônico Fontoura ao lado de uma balança mecânica com uma espátula vertical metálica embutida para medir sua altura. Numa época em que era impossível pagar suas compras pelo aplicativo ou com cartão de crédito. Era tudo no dinheiro vivo, guardado na gaveta de uma gigantesca caixa registradora que abria e fechava por meio de uma manivela.

Pois bem. Me parece que a amiga da minha mãe tem essa farmácia há muitas décadas. Acho que desde o suicídio do Getúlio Vargas. Provavelmente deve ter tido seu momento de apogeu. Sua glória mercantilista. Mas, com o tempo, acredito que acabou sofrendo o desgaste natural de um comércio bairrista. Por causa da concorrência. Da modernidade invasiva e avassaladora das grandes redes. Anos atrás, minha mãe conversou com essa amiga e soube que ela pretendia passar o ponto pra frente. Creio que o negócio ficou insustentável. A crise do país, o valor do aluguel, a folha de pagamento dos funcionários e suponho o que seja ainda pior: a falta de clientes. Disse minha mãe que ela tentou vender o estabelecimento para alguns grandes conglomerados de drogarias, mas não recebeu nenhuma proposta satisfatória. Eis que, recentemente, minha mãe me conta que soube por terceiros que essa amiga foi obrigada a fechar as portas. Encerrou as atividades de um projeto no qual se dedicou quase sua vida inteira. Entrou em bancarrota porque a conta não fechava. Isso, pelo que se soube, pouquíssimo tempo antes do início da pandemia.

O novo coronavírus é o principal responsável pela recessão mundial. Colocou milhões de trabalhadores nas ruas. Quebrou o pequeno e microempresário. Fez o número de desempregados dobrar aqui no país. Afundou as contas públicas. Botou os fundos emergenciais no negativo. Colocou em colapso vários setores da Economia, exceto um: medicamentos e derivados. Nos últimos meses, nunca houve uma procura tão grande por remédios. Logo nos primeiros dias de quarentena, faltava máscara e álcool gel nas farmácias. A cloroquina, até então vendida sem prescrição médica, sumiu das prateleiras. Sabonete passou a vender que nem água. Qualquer produto com promessas próximas do combate ao novo vírus, como bactericidas em geral, tiveram seus estoques zerados. Vermífugos então, nem se fala. As pessoas entram na loja pra fazer a compra do mês. A farmácia passou a ser o porto seguro da sociedade. O verdadeiro shopping center da cidade, que não precisou passar por um processo rigoroso de reabertura restritiva. Empresários do ramo que dobraram seu faturamento mostraram ser maus empreendedores. Na média, a maioria deles viu seu lucro quintuplicar. É o único segmento de mercado em que os donos estão rindo à toa. Os planos de expansão de seus negócios não param de ser noticiados. Eu vejo na TV o rosto do Sidney Oliveira, proprietário da Ultrafarma, mais do que do Jair Bolsonaro.

Nesse período de isolamento, pude observar e aprender muita coisa, em especial uma: tem gente que é azarada pra caralho.


domingo, 14 de junho de 2020

Trocando a lâmpada


Tem aquela piada que diz o seguinte: “sabe de quantos portugueses precisamos pra trocar uma lâmpada? Cinco. Um para segurar a lâmpada e quatro pra girar a escada”. É uma anedota velha. Talvez nas embarcações de Cabral alguém deve ter achado graça. De tão gasta que ficou, a piada passou por uma série de adaptações e reinvenções. E, só pra contextualizar, já vou avisando: eu sou um desses portugueses.

Minhas habilidades com serviços manuais, pequenos reparos da casa, beiram a zero. Se por acaso queimar a resistência do chuveiro, é capaz de eu tomar banho frio no inverno. Tenho medo de errar, de quebrar, de causar um acidente. Fico com a sensação de que sou um Rei Midas eletrostático: em tudo o que eu encostar vai dar choque. Na teoria eu sou brilhante. Modéstia inclusa, meu acervo de conhecimentos adquiridos nesse mais de meio século é invejável. Em compensação, na prática eu sou uma negação. Pra mim, é difícil até pedir uma pizza. Fico horas tentando fazer a melhor combinação entre sabores. Leio o cardápio de delivery como se estivesse devorando um livro. Quando minha mãe pergunta “e aí, já escolheu?” eu respondo: “calma, tô aqui na pepperone e não dá pra parar de ler. Acho que o gorgonzola da quatro queijos vai matar o gosto do catupiry com requintes de crueldade”. Tem também a questão das minhas ascendências judaicas. Todos sabem que quando você divide os sabores o valor cobrado é pelo mais caro. Se você pedir meia mussarela, meia camarão, vai ser o queijo mais caro da sua vida. Tem que usar um pouco a Matemática Financeira para equilibrar os custos e pedir uma combinação mais ou menos condizente nesse sentido.

Mas eu não vim aqui falar de pizza. Vim falar de lâmpada. Você já deve ter imaginado minha dificuldade em resolver essas coisas. Agora imagina isso numa pandemia. Comércio funcionando de modo restrito. Profissionais técnicos em recesso. E, mesmo os que estão trabalhando, não vou permitir que um terceiro entre na minha casa devido ao fato de eu morar com uma pessoa total grupo de risco. Minha mãe tem 75 anos, pré-diabética e toma remédio pra controlar a pressão. Mais grupo de risco do que isso, só se fosse da MPB. E se Deus me livre eu cair da escada ao tentar fazer as coisas sozinho, não vou poder ir ao hospital. Lá é o foco da Covid. Todas as áreas estão reservadas a pacientes com essa doença. Nenhum médico vai querer sair de sua ensandecida rotina de UTI pra examinar apenas uma costelinha quebrada. Caso isso acontecesse comigo, teria que me tratar com caixas e caixas de Dorflex até que a situação se normalize. Ou seja, no Natal.

Pois bem. Vamos aos fatos. Mais ou menos no começo da pandemia, queimou uma lâmpada do meu quarto de trabalho. Fui deixando porque, assim como você, acreditei que essa quarentena duraria 20 dias e em seguida poderíamos tocar o barco. Os dias passam, a gente tá numa noventena, perto da centena. A coisa foi ficando insustentável. Claro que durante o dia dá pra usar métodos homeopáticos, como por exemplo abrir a janela pra deixar o sol iluminar o ambiente. Deixar a luz acesa do outro quarto mais próximo. Tudo isso. Mas o problema foi se agravando. E minha vista também. Durante a quarentena, creio que ganhei em graus de miopia a mesma coisa que ganhei em quilos. Quem voltar a me ver daqui a algum tempo vai encontrar uma mistura do cantor Péricles com o Mr. Magoo.

Não pense você que é uma troca fácil de lâmpada. Eu não sou tããão desajeitado assim. Se fosse uma estrutura simples, bastava desatarraxar a lâmpada queimada do soquete e substituir por uma nova, fazendo o mesmo procedimento. A lâmpada que estragou estava acoplada a um lustre, que faz parte de um conjunto composto por um ventilador de teto. Olhei, examinei minuciosamente o aparelho, e não encontrei nenhuma abertura aparente no globo (aquela parte de vidro que encobre a lâmpada propriamente dita. Não sei qual é o nome técnico dessa geringonça, mas vou passar a chamar assim). Não restando outra alternativa, fui obrigado a entrar no Google pra consultar algum vídeo tutorial explicativo sobre o tema. Isso mesmo, caro leitor. ENTREI NO GOOGLE PRA VER COMO SE TROCA UMA LÂMPADA. Enquanto você usa seu tempo para ver as lives do seu cantor preferido, ou de algum especialista na área econômica, algum epidemiologista, eu passei o feriado de Corpus Christi aprendendo com um eletricista. E não é que apareceram vários vídeos na busca? Fiquei mais aliviado ao constatar que não sou o único do planeta com essa dificuldade. Na dúvida, assisti a TRÊS VÍDEOS. Afinal, quando o assunto é complexo e envolve os pareceres de profissionais da área acadêmica, é sempre bom consultar uma segunda opinião. Nesse caso, os três foram unânimes ao mostrar travas internas e explicar que bastaria girar o globo para tirá-lo do lugar, trocar a lâmpada e fazer a mesma coisa depois, em sentido contrário.

Tentei seguir as recomendações. Obviamente, não consegui. Comecei a girar o globo do seu suporte e, sem sucesso, ele não se soltou. O conjunto do lustre girou em falso e fiquei com medo daquilo tudo se soltar do teto e cair no chão. Aliás, vou confessar uma coisa. Quando vou a algum lugar com ventilador de teto, tipo uma padaria, e fico olhando fixamente pro aparelho, me dá a impressão de que a velocidade das pás do ventilador aumenta e elas vão adquirindo uma força a tal ponto de se soltarem do teto. Sempre fico achando que aquilo algum dia vai fazer o maior estrago. Que o ventilador vai cair no chão e as pás metálicas vão cortar as cabeças dos clientes. Na dúvida, sempre evito ficar embaixo de um. Na minha casa, eu não quis contar muito com a sorte. Desisti. Putaço. Liguei pro meu irmão pra resolver outros assuntos e, no contexto, comentei sobre meu ensaio sobre a cegueira. Ao contrário de mim, meu irmão tem mais prática com essas coisas. Ele pesquisa. Se não descobre, fuça. Se der errado, tenta de novo de outro jeito. Pesquisa de novo. Tenta de novo, até acertar. Eu não. Tento uma vez. Não consegui, fico uma pistola e vou descarregar minha raiva no Facebook. Entre uma pesquisa e outra, descobrimos que o modelo do meu conjunto lustre+ventilador não tinha nada a ver com os dos três vídeos. Fui abençoado de ter em mãos um modelo único de uma série limitada, cujo encaixe e desencaixe se dá de forma diferente e exclusiva. Em vez de girar pro lado, tem que puxar o globo pra baixo. Claro que meu cagaço aumentou na velocidade das pás. Já imaginei o centro gravitacional da Terra chamando eu, minha escada, os estilhaços do globo, os estilhaços finíssimos da lâmpada queimada e as pás assassinas. Fiquei até imaginando como começaria minha carta de despedida à minha família, a você e a todos os que me acompanham nas redes sociais. Preferi deixar quieto e voltar a ser cego até o ano que vem.

Só que minha teimosia falou mais alto. Eu não podia desistir assim fácil. Fui lá novamente subir a escada e, com a precisão cirúrgica das mãos e dos dedos, pressionei cuidadosamente o globo pra baixo. Consegui! Aquilo pra mim foi a glória. Sensação de policial que desmonta cativeiro de sequestrador e consegue resgatar a vítima das travas e entranhas do lustre. Saí carregando a peça de vidro com a mesma alegria de quem acaba de ter um filho. Até pensei em dar um nome àquele ornamento com cara de joelho: “vai se chamar Gabriel”. Conduzi o rebento até a sala como se fosse meu troféu. Minha emoção pelo feito, sem a ajuda de nenhum parente, vizinho ou técnico em Eletricidade, foi igual ao Romário quando marcou seu milésimo gol. Pra falar a verdade, nem sei se o Romário fez mil gols em sua carreira. Não entendo nada de futebol. Odeio esse ludopédio, acho muito chato. Quem fica correndo na grama atrás de uma bola não é craque, é labrador.

E assim termino essa aventura de isolamento social. Meu quarto tá com lâmpadas novíssimas, iluminadíssimas. Aqui de noite é tão claro como o dia que parece que eu tô na Austrália. Agora as paredes reluzem mais do que as areias de Fernando de Noronha. Em meio a tantas notícias tristes, finalmente um final feliz. E sem o globo pra me atrapalhar.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

Muito o que aprender


Poderia ter sido um grande exercício de aprendizado para a democracia. Poderia ter sido o primeiro passo para a confraternização em tempos tão odiosos. Poderia ter sido, simbolicamente, a representação real da mobilização virtual “somos 70 por cento”. Poderia ter sido o xeque-mate para o pedido de impeachment do nosso presidente. Infelizmente, não foi nada disso.

Existe um conceito aplicado ao comportamento humano, que inclusive foi o mote de uma longeva campanha publicitária da revista Rolling Stone internacional, que disserta sobre a diferença entre “percepção” e “realidade”. Percepção foram os primeiros 15 minutos da manifestação em prol da democracia. Tudo aquilo que queríamos ver e acreditar. Uma caminhada pacífica, contra os abusos de poder e de autoridade de um governo federal nada pacífico. Muito embora os protagonistas deste ato estivessem cagando pra pandemia. Não seguiram protocolo nenhum de distanciamento social. Afinal, o que são 30 mil mortos e meio milhão de infectados? E realidade foi todo o resto. Igual a uma festa. Percepção são as pessoas produzidas, maquiadas, a sensação de que vai ser uma noite inesquecível. Já a realidade compreende a bebedeira, a maquiagem borrada, a música brega, o vômito no chão. E até uma possível briga. Com torcidas organizadas, não dá pra se esperar algo muito diferente. Trajadas de paz e amor, elas cumpriram o papel que sempre desempenharam: torcidas organizadas.

Tenho a impressão de que os movimentos que buscam essa harmonia social, com base no diálogo e não no confronto, jogam esses dizeres da boca pra fora. No fundo, cada um quer alimentar seu próprio dogma. Em tempos tão difíceis, com crises que se acumulam sobre crises, com a necessidade da aceitação do contraditório como forma de compreender melhor essa paranóia toda, o que menos sobra é espaço para a tolerância. Estamos, nas redes sociais, tão divididos quanto os grupos que ocuparam as vias da Av. Paulista. Do lado do MASP, os xiitas do bem. Do lado da FIESP, os xiitas do mal. Há quem ache que as manifestações foram apenas os primeiros vídeos, com gente alegre cantando. E há quem afirme que esses protestos foram apenas os minutos finais, com quebra-quebra e a polícia bombardeando os manifestantes. Ambos estão cegos. Ambos estão errados.

O governo do Estado de São Paulo já determinou que as próximas manifestações ocorrerão em dias diferentes, para evitar o confronto. As pessoas serão revistadas com mais rigor. São algumas medidas paliativas, que podem – ou não – surtir algum efeito. Torço para que funcionem. Apesar de que, me parece, ligaram o foda-se para o coronavírus.

Achar que a polícia, de um lado, andou de mãos dadas e acobertou os bolsonaristas e, de outro lado, atacou desmedidamente os “democratas” é tomar partido. Bobagem pura. Quem acompanhou os vídeos de forma mais completa pôde perceber que a PM ficou na retranca e só avançou à medida que os black blocks de plantão também avançavam. Houve ataques e contra-ataques de parte a parte. Igual a um jogo de futebol. Houve impedimentos, expulsões, penalidades máximas e muita violência. Igual a um jogo de futebol.

Talvez o taco de beisebol tenha sido o estopim dessa barbárie. O comandante da PM, em coletiva de imprensa, admitiu que esse material deveria ter sido apreendido. Mas não dá pra saber. Tá todo mundo com muita raiva. De tudo. De todos. De nós mesmos. Não seja ingênuo a tal ponto de acreditar que aquilo foi um remake do movimento pelas Diretas Já. Não foi. Aquela mixórdia foi nada mais do que um Fla X Flu na capital paulista. Apenas o repeteco da polarização que acompanhamos nas redes sociais. “Com muito orgulho e com muito amor” é só mais uma frase de hino ufanista. Não reflete o verdadeiro sentimento dos hooligans que ali estavam destruindo minha cidade. É só a percepção, e não a realidade.

Pra finalizar: odeio futebol. Não me identifico com torcida alguma. Ainda que estivéssemos livres da pandemia, essa pândega não é pra mim. E deixar de ir às ruas não é covardia. Ou comodismo. Ou abulia de fazer parte da história do nosso país. Não, não é. O que eu sei fazer é escrever. Meu campo de batalha é o papel. Da mesma forma que o ator faz seu protesto num palco. E rezo pra que isso volte a acontecer muito rapidamente. Ou que o pintor manifesta suas angústias numa tela em branco. Isso não me torna pequeno, incapaz. O Word pode até parecer insípido e irrelevante diante de tantas inovações tecnológicas. Mas é nele que, todo dia, eu lapido cada letra, cada palavra. Até que elas tenham a força e a contundência suficientes para provocar, ferir. Eu afio as frases e amolo as pessoas. Por favor, não me chame de ignavo. Estou aqui por recomendações da Organização Mundial de Saúde. Recluso, ermitão, antissocial. A luta vem daqui e é daqui mesmo que deve vir. Não era você que, até ontem, excluía todos os seus amiguinhos do Facebook contrários ao isolamento?