sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Arthur Moreira Lima - Um Piano para Todos

A primeira cena é a construção e montagem de um palco, numa pequena cidade. Silêncio absoluto, interrompido apenas pelos eventuais sons do ambiente. Presume-se, a partir daí, que o documentário Arthur Moreira Lima - Um Piano para Todos foge um pouco do lugar-comum. E foge mesmo.

Quando falo de lugar-comum, estou me referindo aos clichês do gênero. Exaustivas cenas de arquivo do passado, intercaladas por depoimentos de celebridades ou pessoas conhecidas e próximas ao homenageado enaltecendo suas qualidades ou revelando algum fato curioso. É o famosos estilo talking heads de expor ideias. Os enquadramentos, os cortes, as pausas, tudo é muito parecido.

Aqui, neste longa escrito e dirigido pelo estreante Marcelo Mazuras, observa-se menos a necessidade de trazer informações sobre uma unanimidade nacional e mais o acompanhamento de um processo de mudança, reflexões e transformações na trajetória profissional do pianista. As cenas de arquivo, os estudos no exterior, as premiações recebidas, passam quase de relance. O filme centra no encontro do artista com um público mais carente, mais distante da música erudita. Como se o ícone do clássico estivesse disposto a despir essa visão elitista da arte. O mais aclamado intérprete de Chopin decidiu, nas últimas décadas, se dedicar a um projeto de democratização da música de concerto. Saiu pelo Brasil a bordo de um caminhão-teatro, se apresentando em praça pública por mais de 600 cidades pelo interior de todo o país.

Arthur Moreira Lima (o filme), portanto, ganha frescor ao sair das partituras e ir ao encontro da plateia. Nas mãos do diretor, essa jornada fica menos arcaica e rebuscada. Fica mais natural.


A Conferência

Em 1942, representantes de alto escalão do regime nazista alemão se reuniram em uma vila no sudoeste de Berlim para uma pauta que ficou conhecida como a Conferência de Wannsee, talvez a mais terrível da história. Eram 15 líderes da SS e da burocracia ministerial, convidados por Reinhard Heydrich, chefe da polícia de segurança, para discutir a "Solução Final para a Questão Judaica".

Apresentado dessa maneira, fica claro que o assunto é de máxima importância. Poucos filmes se debruçaram sobre o tema. A maioria dá um enfoque nas consequências desse ato e coloca como espaço cênico os campos de concentração nazistas.

Porém, trocar esse cenário por algo menos espetaculoso, como uma sala de reuniões, e fazer um filme quase em tempo real, abrindo mão das elipses cinematográficas, é uma missão de alto risco. Não que o resultado seja necessariamente curto e limitado. As duas versões de Doze Homens e uma Sentença para o cinema, por exemplo, são maravilhosas.

A Conferência, por outro lado, esbarra num processo de construção narrativa extremamente complexo e moroso. Tudo se imprime de modo muito árduo, rígido, didático. Não existe um respiro. É como se, em cada fala, se extraísse ao máximo um pedaço da história. Isso tem lá seu valor. Mas, analisado como um todo, o filme melhor se encaixa num livro do que numa tela.


quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Palavras

Era um vez o Joãozinho. Assim mesmo. Um nome comum, idêntico a tantos outros Joãos, campeão absoluto de registros em cartório. Tratado dessa forma, no diminutivo, para deixar bem clara sua simplicidade, sua idade baixa e sua pequenez.

Joãozinho foi sempre o protagonista de histórias tão comuns quanto ele. Narradas em terceira pessoa, ordem cronológica, com substantivos próprios fáceis de se escrever, adjetivos puros e paroxítonos, tempos verbais nada complexos: ora presente do indicativo, ora pretérito perfeito.

Até que um dia... até que um dia... a trajetória de Joãozinho foi invadida por palavras estranhas. Desconhecidas. Importadas. Inóspitas para o lugar-comum em que ele morava.

Vocábulos feios, sujos e malvados. Verbetes horríveis, que mal conseguiam olhar a si mesmos no espelho. Elementos cheios de ódio, de raiva, de rancor Nascidos para matar.

De onde teriam saído esses vermes, esses ratos de papel? Como puderam se proliferar com tanta pressa e facilidade? Qual vitamina tomaram para se transformar em maioria absoluta das letras? Por que tanta cegueira diante da beleza lírica dos contos e das fábulas?

De repente, não mais que de repente, o livro de Joãozinho foi acometido pela lactose, pela neurose, pela overdose. A namorada de escola, Maria, foi misteriosamente sequestrada. Colocaram no lugar a isonomia, a leucemia, a pandemia. Junto com elas vieram a masculinidade tóxica, o feminicídio, o cisgênero. O bullying, o storytelling, o burnout, o crossfit, o mindset, o podcast, o coach, o copydesk, o overview, o feedback, o jackpot, o lookalike, o setlist, o mood, o cashback, o turnover, o compliance. A selfie, prima da vibe, tímidas, recatadas e insossas. Como um obediente gado de rebanho, estacionaram nas páginas do opúsculo de Joãozinho a criptomoeda, a meritocracia, a bioimpedância. A clusterização, a harmonização, a gamificação. A comorbidade. a rentabilidade, a navegabilidade. A polarização, do bolsonarismo à venezuelização. Neologismos se criaram e se reproduziram feito girinos em poça d'água: recência, crocância, atingimento. 

Solitárias, essas isoladas palavras ganharam força. Uniram-se, como um exército missionário. Uma milícia secreta. Treinaram pesado para vencer o inimigo. Tornaram-se faixas pretas em artes marciais. Compraram armas. Rasgaram bandeiras. Quebraram placas de avenida e antigos logradouros que estampavam incontáveis Josés, Marias e independências. Barricadas de frases feitas fecharam atalhos, impedindo o livre trânsito das onomatopeias. Clichês compostos e enfileirados ocuparam o lugar dos monossílabos tônicos. A cidade de Joãozinho se viu tomada por valor agregado. Menos é mais. Fome de dono. Margem de erro. Superar desafios. Estratégia 360. 

As linhas de caderno que serviam de estrada para Joãozinho se transformaram em commodity. O parque de brincar com as letras virou shopping center. Apesar de não haver nenhum grau de parentesco, o pobre Joãozinho tornou-se uma réplica de tantos outros engravatados desconhecidos que, com seus diplomas, passaram a brilhar em noticiários. Apresentações de campanha. Críticas literárias. Redes sociais. Relatórios de conglomerados. Balanços financeiros. Análises algorítmicas. Defesas de tese. Sessões neurolinguísticas. 

E aí, deu em Joãozinho uma saudade enorme e doída da aurora de sua vida. Das palmeiras e dos sabiás. Da pipoca de canjica, pipoca de panela, pipoca de cinema. Do futebol de botão. Das ruas com pedrinhas de brilhantes. Do amor que arde sem se ver.

Não por acaso, Joãozinho entrou em coma. Foi parar no hospital. Disse para ele mesmo, em pensamento, que sofria de tristeza. De falta de esperança. De uma dor esquisita sem nome, mais ou menos na região do peito e do coração. Não foi isso que os atestados médicos apresentaram. Nesses laudos, constava esquizofrenia aguda. Transtorno do humor bipolar. Transtorno do déficit de atenção. Esclerose múltipla. Síndrome de Asperger. Síndrome de Estocolmo. Síndrome de Aarskog. 

E foi assim que, nascidos e criados sob o mesmo teto, eles - Joãozinho e as palavras - desapareceram dessa história e morreram infelizes para sempre. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Desaparecidos

Depois de uma meteórica passagem pelos cinemas brasileiros, chega ao streaming esta produção francesa. Seu rápido desaparecimento dos circuitos de telona se justifica. É mais um típico filme B, daqueles que recheiam os catálogos das distribuidoras, mas não encontram um diferencial potente nem um público cativo pra se desovarem.

Na trama, a mediana Olga Kurylenko vive Alice, uma cientista forense que inventou uma técnica de restauração de cadáveres danificados. Ela visita a Coreia do Sul para participar de uma conferência e recebe um pedido da polícia do país para realizar uma autópsia em uma vítima encontrada em um rio. Jin Ho, o detetive responsável pelo caso, descobre pelo resultado da autópsia que o corpo está relacionado a um sindicato de tráfico de órgãos.

Sem grandes inspirações, o filme traça o famigerado caminho de suspense e mistério para se chegar a uma solução. E tudo fica calcado nas mesmices e nos clichês, reforçando a sensação de que se trata de apenas mais um subproduto do gênero.


sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Os Ossos da Saudade

De acordo com a sinopse, “Os Ossos da Saudade” é um filme sobre a ausência, narrado a partir das vivências de pessoas que experimentam sentimentos de falta e distância, espalhados por Brasil, Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde. Brasileiros e estrangeiros atravessados pela saudade, que, de alguma forma, carregam o Brasil em seus baús interiores. 

Trata-se, portanto, de um registro mais intimista, menos didático e cartesiano, que foge um pouco do convencional estilo "talking heads" de documentar. Tanto é que, em muitas passagens, o protagonista é filmado de costas, ou nem mesmo aparece em cena. Ponto para o diretor mineiro Marcos Pimentel.

O problema é que esse excesso de subjetivismo corre o risco de cair em armadilhas. No conjunto da obra, Os Ossos da Saudade tem um pouco a cara de filme feito para ganhar prêmios em festivais. Claro, existe um cuidado estético, um precioso rigor formal. Mas, em muitos momentos, esse preciosismo se confunde com um certo cinema-fórmula de circuitos alternativos.

Corre à boca pequena, entre os críticos e profissionais de Cinema, o comentário de que, quando existe uma crise criativa por parte dos realizadores, basta filmar a correnteza dos rios e mares. Claro, trata-se de uma observação pejorativa e simplória. Mas, os olhos de quem assiste ao filme do outro lado da tela, fica um pouco difícil encontrar um significado plausível para estabelecer uma relação, mínima que seja, entre esses devaneios estilísticos e a proposta de se falar sobre saudade e memória. Não é exatamente uma enganação. Mas fica o gosto de um certo hermetismo.

Ainda assim, feito o reparo, Os Ossos da Saudade é um bom filme. Traz um retrato bem temperado de lentes que buscam espaços vazios, ruínas geográficas, vozes solitárias que procuram compreender algo que ficou no pretérito de suas vidas.


O Próximo Passo

Este novo filme de Cédric Klapisch poderia muito bem se chamar De Volta ao Albergue. Lançado no circuito brasileiro imediatamente após seu filme anterior, De Volta à Borgonha, o diretor retoma algumas características que marcaram seus primeiros trabalhos, notadamente Albergue Espanhol, e que foram mais ou menos abandonados no penúltimo filme. 

Na primeira cena, temos a impressão de nos depararmos com um majestoso tributo à dança, algo peculiar na filmografia de Carlos Saura, por exemplo. Mas o anticlímax aparece logo em seguida. Elise, uma jovem e promissora bailarina clássica, se machuca em uma apresentação após flagrar a traição do namorado. Essa ruptura do tornozelo serve também de metáfora para a quebra do ritmo que o diretor impõe ao seu trabalho. Dali em diante, surgem situações que nada lembram a beleza coreográfica de um baile: laudos médicos, conflitos pessoais e, principalmente, a busca pela resposta sobre um novo rumo na vida da personagem, algo que inspira o título.

É nesse momento que Klapisch volta às suas origens e mescla o individualismo existencialista de seus personagens com o coletivismo do convívio em grupo. Em Albergue Espanhol, essa marca era muito gritante Aqui, um pouco mais sutil. O retiro de Elise, que coincide com um espaço de ensaios de um grupo mais jovem, é a prova disso. É no intercâmbio das relações pessoais que o diretor encontra sua força e a medida certa para fazer um filme simples e ao mesmo tempo denso.


terça-feira, 23 de agosto de 2022

O cu do Imperador

Pela primeira vez na nossa história o povo brasileiro poderá ver o ânus de Dom Pedro I. Trata-se de uma homenagem ao Imperador pelos 200 anos de independência da república tupiniquim. A exibição em público dessa partícula final do intestino encerrará os rituais comemorativos e, para isso, foi totalmente embalsamada em formol e guardada num recipiente à prova de todo e qualquer tipo de contaminação.

Embora o pedaço proctal esteja blindado, contando com uma equipe de segurança 24 horas por dia, pouco se sabe ao certo o motivo pelo qual será ostentado à população. Por que não os olhos de Dom Pedro? O fígado? A grande mídia, muito mais preocupada em preparar debates presidenciais, pouco noticiou o assunto. O porta-voz do Governo, mais uma vez, não se pronunciou. O que sobrou então foram apenas hipóteses e conjecturas de estudiosos e formadores de opinião.

Leviano Hang Loose, proprietário de uma importante rede do varejo, apoiador confesso do atual Presidente, declarou em seus grupos de WhatsApp que a analogia é evidente e cristalina. Estamos, afinal de contas, celebrando a independência do país verde-amarelo. E, como todos sabem, o ânus é um órgão independente e autônomo. Adepto ao neoliberalismo, trabalha a hora que quer. Faz jornada extra e não reivindica por mais direitos. A vontade de ir ao banheiro, reparem, nada tem a ver com os avisos dos neurônios. Não existe um condicionamento físico dos pulmões para tal ato. Alongamentos musculares antes da descarga fecal podem, literalmente, induzir que tudo vai dar merda.

Já outras facções menos alinhadas ao regime tendem a discordar. Jacques Gordini, cientista político que se autoexilou do país, entende se tratar de uma atitude homofóbica e carregada de machismo estrutural. De acordo com o ex-BBB, isso representa uma apologia velada e preconceituosa à discriminação de gênero, já que os gays, homossexuais e transexuais gostam de dar o cu. Pelo menos a maioria deles.

Essa percepção, contudo, não é unânime. O analista político Celso Arquibancada acha que existe uma correlação com o atual momento de Bolsonaro, que está com o cu na mão caso perca as eleições. Por outro lado seu companheiro de mesa, Dulcídio Orquidi, entende que quem está com o cu na mão é justamente o Lula, que vem perdendo pontos nas pesquisas eleitorais e vê a diferença de intenções de votos reduzir a cada novo levantamento.

Nem todos, contudo, enxergam o viés político nesse ato simbólico. Perguntada sobre o tema, a estilista da periferia e influenciadora digital Ludmilla von Thiesse retrucou: "O que tem a ver o cu com as calças?".

O fato é que, no próximo dia 7 de setembro, o Brasil inteiro vai assistir ao escatológico desfile do esfíncter real - e retal. Como se fosse um exame de colonoscopia ao vivo. Qual o significado desse mumificado produtor de bosta? Fica aqui a pergunta. Nosso país está suficientemente chafurdado no lodaçal de merda, com uma classe trabalhadora sem trabalho e sem comida. E uma classe política sem classe e sem caráter. Mas que não se envergonha de mostrar, pro mundo inteiro, o cu do nosso imperador.


sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Luta pela Liberdade

O diretor Zhang Yimou se consagrou por fazer filmes de artes marciais e dinastias imperiais. Desta vez, abandona esse campo e se propõe a fazer uma obra de espionagem. Representante da China ao Oscar 2021, Luta pela Liberdade se passa no estado de Manchukuo, um lugar controlado pelo governo, na década de 1930. Quatro agentes especiais do Partido Comunista retornam à China depois de receber treinamento na União Soviética. Juntos, eles embarcam em uma missão secreta com o codinome "Utrennya". Depois de serem dedurados por um traidor, a equipe é ameaçada de morte por todos os lados.

Com seu preciosismo técnico, Zhang traz um trabalho cuidadoso e com uma beleza própria. Nada tão reluzente e escarlatino quanto Lanternas Vermelhas. Ou meticulosamente sorumbático quanto Shadow. Aqui é o branco da neve que dá o tom cromático, um recurso natural até então pouco explorado pelo diretor.

Embora caprichado na forma, Luta pela Liberdade resvala em uma trama complexa, muitas vezes confusa, que exige uma atenção especial. Oscila entre o denso e o desordenado. Tem lá seus méritos mas, se comparado a obras-primas mais remotas, trata-se de um filme menor. 


De Volta à Borgonha

Recentemente, as salas de cinema brasileiras acolheram o francês Lola e Seus Irmãos, que disseca as relações familiares entre parentes que se reencontram. Agora é a vez de Cédric Klapisch dar a sua versão sobre o que une - e separa - um trio de irmãos que, com suas semelhanças e diferenças, se veem obrigados a se ver novamente.

A comparação entre Lola e De Volta à Borgonha para por aí. As brigas, os conflitos de interesse e a ausência de um deles fazem parte do repertório de ambos. Mas em De Volta existe todo um aparato estético, quase noveleiro, que se diferencia do anterior.

Estamos falando de uma família que herda a vinícola de seu pai, recém-falecido. Esse pano de fundo serve de prato cheio para exibir cenas de paisagens campestres e processos de fabricação do vinho. Tudo muito lindo, nítido, com uma luz forte para realçar os detalhes e dar ao filme um tom quase National Geographic. 

Entretanto, Klapisch tem o dom de fazer sua obra escapar de um comercial de restaurante da alta gastronomia. Ainda bem. No meio de tanto primor bucólico, o diretor encontra espaço para mostrar um clã endividado e pouco experiente para exercer sua função de patrões. É nesse âmbito que Klapisch se sai melhor, deixando seu requinte etílico apenas como atrativo superficial para debruçar sobre o que sabe fazer de melhor: captar as relações humanas, sem cair em clichês ou diálogos forçados e atuações falsas.

Nesse sentido, De Volta à Borgonha parece ser um retrato mais maduro se comparado aos sucessos Albergue Espanhol e Bonecas Russas, onde tudo parecia uma folha de rascunho, um grande teatro de improviso recheado de boas intenções e sequências espertinhas. 


sábado, 30 de julho de 2022

Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída

Não são poucos os filmes que se aproveitam oportunisticamente de transcrever para as telas best-sellers literários e provam ser verdadeiros fiascos, como é o caso da saga Crepúsculo e da trilogia 50 Tons de Cinza. Eu, Christiane F., está um pouco acima dessa régua. O que não quer dizer muita coisa. Fez até um certo burburinho à época de seu lançamento mas, revisto 40 anos depois, em cópia remasterizada para marcar essa edição comemorativa, deixa claro por que caiu no ostracismo. 

O longa, que retrata uma juventude sem rumos, até poderia ser elencado como um dos ícones da década, não fosse outro problema: a eclosão de cineastas magistrais como Herzog, Wenders e Fassbinder. Não tem como competir.

O filme se passa na virada dos anos 70 para os anos 80. Um constatado limbo histórico. O movimento hippie já não tinha mais o poder de mobilizar multidões de jovens egressos de Woodstock. E a era disco, junto com o punk e o new wave, ainda sibilavam notas embrionárias do que viriam a ser anos mais tarde. Não é à toa que o personagem mais representativo do filme não é a drogada adolescente, mas o camaleônico David Bowie, interpretando a si mesmo, durante um show que ocorreu de verdade em Berlim. 

Eu, Christiane F., situa-se perfeitamente nesse vácuo social. Traz à tona famílias desestruturadas e uma horda de jovens que trocaram a revolução estudantil por um tipo de experimentação mais efêmera e individual: a heroína. Moleques que, atordoados pelos efeitos alucinógenos, não sabem exatamente qual seu papel na sociedade: onde estão e para onde vão. Tanto é que boa parte é filmada dentro de estações de trem, em que aparecem vagões em trânsito, indo e vindo sem que o espectador saiba seu destino.

Do ponto de vista estético, o diretor Uli Edel mergulha fundo no universo das drogas. Algumas cenas de jovens se picando podem até ser chocantes para um público mais sensível e menos iniciado, mesmo nos dias atuais. É agulha, seringa e sangue pra tudo quanto é lado. Talvez essa provocação, que resulta numa possível sensação mais aflitiva, seja uma maneira de Edel mostrar seu viés ideológico contrário a esse modus vivendi. Mas isso é apenas uma hipótese.

Se por um lado o diretor se aprofunda na primeira metade do subtítulo, por outro deixa muito a desejar na segunda fatia. Quase não há cenas de prostituição. A parte em que Christiane F. masturba um cliente dentro do carro é filmada do lado de fora do para-brisa, a metros e metros de distância. A cena do casal de namorados se despindo é feita de modo apressado, sem nenhum tipo de nuance e com um apelo sexual muito mais sugerido do que explícito. Sugere-se que o filme foi feito pra incomodar mas, na realidade, traz significantes muito mais presbiterianos, dando a entender que, na alma, Eu, Christiane F. é um produto pudico e recatado. Ou essa solução serviu de artifício para encobrir a falta de intimidade do diretor em filmar a sexualidade dos personagens.

Não foram poucos os diretores que se debruçaram nessa temática lost boys, cada um à sua forma autoral. Em Kids, Larry Clark explora suas crias quase de modo ejaculatório, como se fosse um voyeur querendo ser o protagonista de todo aquele bacanal regado a psicotrópicos. Já Gus Van Sant praticamente abençoa e venera seus rebentos da era grunge em Paranoid Park, mostrando que o ser humano é bom e desencanado por natureza. Bruno Dumont faz exatamente o contrário. Em seu longa de estreia, A Vida de Jesus, planta a sementinha de um olhar menos generoso (e posteriormente mais caricato), trazendo analogias concretas para defender sua tese de que o indivíduo é, literalmente, fruto de uma deformidade social. Comparado a eles, Uli Edel concretiza um registro meramente morno e apático da juventude alemã. 

Eu, Christiane F., enquadra-se na tríade sexo, drogas e rock and roll das festas e dos rolês. Mas parece ser meio que um convidado deslocado dessa patuscada. Sobre as drogas, enfia a agulha mas não atinge a veia. Lança um olhar apenas epidérmico. Na questão do sexo, parece usar preservativo duplo, de tão asséptico e distante que se posiciona. Já o rock and roll parece surgir de modo mais orgânico. A cena dos jovens roubando uma loja ao som de Heroes é o momento mais genuíno e emblemático. Afinal, quem são os heróis dessa sociedade letárgica e moribunda?