segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Tremendo ocaso
"Preciso lembrar que eu existo". Nada mais apropriado do que este verso para resumir a carreira artística de Erasmo Carlos, o Tremendão. É a frase que iniciou o comercial da Rede Globo para anunciar o programa/tributo dedicado ao cantor. O ovelha negra do ie-ie-iê, hoje mais grisalho do que escuro, rebelde porque quer manter a fama de mau, anda cada vez mais esquecido. Se não é no programa de Natal do seu irmão, na mesma emissora, é quase impossível achar este ex-ídolo em alguma apresentação decente. É triste, é penoso ver alguém parar no tempo. Acabou o combustível das possantes carangas que impressionavam as cocotinhas da Rua Augusta.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Rose Maumau
É com tristeza que acabo de ler por e-mail um convite para a inauguração do Rose Bombom Interlagos. Lembro que no auge dos anos 80 a casa carregava toda a aura gothic-glam, e que as presenças de Supla, Dinho (Capital Inicial) e Guilherme Isnard (Zero) eram constantes e obrigatórias. Estávamos no meio da febre dark, e o Rose era uma ramificação um pouco mais pop, punk de boutique, mas ainda assim tinha lá uma identidade própria. Coisa de poucos anos atrás tentou reabrir as portas, indo de lugar a lugar. Experimentou o último andar da Galeria Ouro Fino da Augusta (mais adequado, impossível), mas parece que as leis urbanísitcas e os Contru da vida impediram a continuidade da proposta. Depois, se não me engano, me parece que tentou algo na Vila Madalena. O Rose Interlagos 2008 toca pagode, axé e um pouco do bate-estaca convencional FM. Tem open bar de jurupinga, ou seja, chiquérrimo pra quem ouvia The Cure, The Smiths e Simple Minds há 20 anos.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
O aborto do cinema
Estréia amanhã O Aborto dos Outros, um filme que leva adiante a questão sobre a discriminalização do aborto e abre a discussão para diferentes situações e parâmetros de análise. Um trabalho bem-vindo, ainda mais que está em tramitação no STF a polêmica sobre legalizar ou não o aborto em casos de anencefalia fetal. E o filme que estreou semana passada, Bezerra de Menezes, vai na contramão da história. Quando recebi o informativo da assessoria de imprensa comunicando que este foi o campeão de bilheteria do fim de semana de estréia, duvidei larga e abertamente. Não é possível um ilustre desconhecido ultrapassar os cinquentenários desafinados e sua elegia efeméride à Bossa Nova, entre outros exemplos supostamente mais bem-sucedidos nas bilheterias. Tá certo que uma semana que bota uma dúzia de estréias numa leva só tende a diluir o impacto de cada filme. Mas fui ontem (quarta) ver o filme, em shopping, e de fato a sala estava relativamente recheada. Como não costumo ler antecipadamente sinopses, não sabia o motivo de tal movimento. Só então fui perceber que o filme trata de espiritismo, e em casos de assuntos voltados especificamente a nichos de público, reforçados pela religião envolta, é inconteste que atraem mais pessoas. Mas o filme é pra lá de retrógrado. A câmera paralítica traz uma dinâmica proporcional à que o tema suscita. Carlos Vereza não atua, apenas mostra seu rosto diante de uma voz em off dele mesmo. A trilha sonora é modorrenta, parece filme de terror (talvez seja mesmo), não encontra seu clima em relação a um roteiro que não tem clima algum. Mais moroso que novela de época das seis. Tudo muito congelado, voltado ao discurso e não às imagens. O filme protagonizado pelo Brendan Fraser é muito mais acelerado, e olha que traz criaturas chinesas embalsamadas. No final da morte do Bezerra, há um texto dedicando essa insípida e equivocada película à luta contra o aborto voluntário, embasado por um trecho de discurso da Madre Teresa de Calcutá. Quando a sociedade se mobiliza para discutir e se envolver em temas que colocam no subtexto a hipocrisia, me vem essa coisa-qualquer que mantém estanque esse avanço social. Se é para comparar a estréia na direção em longas-metragens, sou muito mais Gallo e seus Olhos de Cão do que Bezerra desmamada de um mínimo rigor cinematográfico.
O Aborto dos Outros - 3 lentilhas
Bezerra de Menezes - caldo
A Múmia - 2 lentilhas
O Aborto dos Outros - 3 lentilhas
Bezerra de Menezes - caldo
A Múmia - 2 lentilhas
Cachorro morto
Acaba de morrer, aos 75 anos, o mais machista dos machistas, Waldik Soriano, levando junto seu hino canino, Eu não sou cachorro, não. Claro que a modinha é a classe bem abastecida cultuar o mito, mas quem ouve mesmo sua música é a doméstica e afins. Não tem importância. Fica aqui registrada a minha homenagem ao cânone que com certeza irá inspirar mais dezenas de comunidades no Orkut.
Trovão Tropical
Nem vou entrar muito no mérito da discussão e análise deste filme, que por sinal é bem bom. Particularmente me agrada o trabalho que perde as referências e procura fazer uma sátira generalizada, sem limites, sem padrões, no fio da navalha entre o escracho e o mau gosto escancarado. Mas vale a pena ressaltar a introdução não-diegética, que vai um pouco na cola de Rodriguez/Tarantino e seus Planeta Terror e Prova de Morte. Os trailers fictícios, que trazem muito mais a inspiração alheia pelo gênero do que a autocitação propriamente dita, foram recapeados neste exemplo. Um suposto comercial de energético, ilustrado por fartas regiões glúteas da raça negra, ainda deixa o espectador em dúvida: foi colada propaganda que não existe, trocaram as cópias, whatever. Mas o primeiro trailer meio que explica essa piada-teaser. O personagem de Jack Black é uma clara e branca alusão a Eddie Murphy, ator que faz todos os papéis de seus filmes, diferenciando-se entre eles apenas com enxertos de silicone, mais as enfadonhas enxurradas de flatos que o caracterizam. O personagem de Robert Downey Jr., carola homossexual, meio que lembra Russel Crowe, australiano briguento na "vida real". E, por último, o acabado lança-chamas Ben Stiller no papel de todos os Willis e Stallones da vida. Uma saborosa apologia ao kitsch. Uma reverência à criteriosa falta de critérios de um gênero que estava quase falecendo de tão desgastado, mas que agora volta com uma interessante nova roupagem.
3 lentilhas (para o filme)
4 lentilhas (para o trailer)
3 lentilhas (para o filme)
4 lentilhas (para o trailer)
Qualé, jacaré
Não sei se o que mais chocou foi o inusitado ou a sensação de impunidade. Usar estes filhotes de répteis como sucedâneos de armas de fogo foi uma notícia tão hilária quanto cínica. Já pensou, traficantes começaram a criar cobras criadas, jacarés, escorpiões e velociraptors para retalhar gangues rivais ou para fazer seqüestros-relâmpago? Polícia do Rio de Janeiro, já para a imediata captura destes animais! Ah, você não sabe quem são os animais desta traficomédia?
É mais seguro
Continuando a alimentar a polêmica, acho justa a reivindicação das seguradoras para não cobrir os custos de acidentes automobilísticos envolvendo motoristas embriagados. Este estado de espírito do condutor potencializa os riscos, e as empresas são contratadas para ressarcir somente as despesas de situações inevitáveis. Em nenhum momento alguma alma viva acreditou que essas empresas sejam benevolentes. São empresas capitalistas como qualquer uma. É diferente dos casos em que, no momento da solicitação do reembolso, aparece do nada uma cláusula negando este direito. Lugar de motorista bêbado não é no guichê da seguradora. Acabar com este direito é uma tentativa, ainda que vinda dos mais poderosos, de se controlar a iminência de situações imprudentes. Se a população não se sensibiliza com o fato de colocar em risco a vida das pessoas, quem sabe consiga fazê-lo quando se mexe com seu próprio bolso.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Brócolis
Semana passada, a filha da irmã de uma amiga nossa disse que gosta de comer brócolis. Ela só tem três anos, coitada. Onde esse mundo vai parar? Na minha tenra época infantil, eu e a torcida do Corinthians éramos mais chegados a cheeseburger, batata frita, salgadinhos de pseudo-sabor milho e cheiro de chulé, sorvete e pipoca. Parece que a manceba até gosta de Mc Donald's, mas... brócolis? Já imaginaram (faço aqui uma referência e uma reverência a um comercial que passava há alguns anos na TV... não lembro o produto) a criatura chorando por causa desse caule verde-escuro? Tentando roubar da mão do irmão mais novo um maço de acelga? Apontando desesperadamente para a mãe as beterrabas e quiabos nas barracas de feira? Jogando discretamente para o carrinho de supermercado pés e mais pés de rabanete? Elas é que são ecologicamente incorretas, pois estão acabando com o nosso verde!
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Zoológico chato
A fauna brasileira já foi protagonista de campanhas publicitárias memoráveis. O cachorrinho da Cofap, a formiguinha da Philco, o caranguejo da Skol, são alguns exemplos bem-sucedidos que entraram pra história da Propaganda. Mas hoje, não sei se por oportunismo, preguiça mental ou confusão de conceitos, estão martelando esta mesma tecla para expor uma idéia desgastada. E a bola da vez é o macaquinho. Se você comparar três comerciais recentes, vai perceber que tudo é muito parecido, que tudo gira em torno de um mesmo processo criativo. Todos eles se utilizam de um efeito youtubesco por sua tosquice para trazer algo supostamente inusitado, ou seja, os micos fazendo movimentos um pouco mais parecidos aos dos seres humanos. O comercial do Palio Adventure, infeliz pelo seu efeito nonsense, traz a música e a dança como forma de cativar o nerd que foge das metrópoles. A campanha do uso consciente do etanol é um pouco mais adequada à sua proposta, já que apresenta a farra dos bichanos num primeiro momento e o tratamento VIP dodo ao motorista num segundo momento, ilustrado pela limpeza do pára-brisa do automóvel. Um pequeno avanço em relação a essa onda de imagens da modinha, que não se pretendem se cercar de significados e de justificativas. Mas nada extraordinário se comparado a tantas outras campanhas que colocam o Brasil numa posição privilegiada na Propaganda. Já o terceiro filme, a que assisti ontem à noite, é uma aberração só. Um garoto atrapalhado cai num bueiro do zoológico porque está com fome. Um desperdício criativo para vender cup noodles (aquela gororoba, aquele miojo de copão). Se você fizer um exercício de apagar do filme o produto, a marca e a estratégia de vendas, vai achar que se trata de três versões de um mesmo filme. Setor globalizado é isso: o compartilhamento dos iguais. Idéias em códigos de barras. Marcas que caem no precipício do esquecimento. Pena que a criatividade sincera que no passado colocou o Brasil em patamares melhores seja uma espécie em extinção.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Leila Lopes
E já que hoje minha tara escrita aflorou, não dá pra deixar passar batido o fato de que a atriz Leila Lopes vai posar nua para uma revista masculina, digamos, um pouco mais aberta e ousada do que a Playboy. Leila, que já teve seus dias mais pudicos e recatados em seus personagens de novelas mais familiares, parece que arregaçou mesmo tudo aquilo que tem pra mostrar. Protagonizou recentemente um filme pornográfico da série Brasileirinhas, "com história" (exigência da atriz, tsc, tsc...). E, agora, tem de aproveitar este momento, já que anda meio esquecida de ser convocada pelos diretores globais. Pelas imagens de divulgação que andei observando, a rediviva atriz em nada carrega aquele semblante meigo e apaixonado que a consagrou nos folhetins eletrônicos. Ela está toda perua, toda repuxada, mais parecendo a cantora Rosana pós-plástica do que a Regininha namoradinha Duarte. Leila agora faz parte de um elenco que tem consciência do peso ingrato da idade. Que, assim como a Gretchen e a Rita Cadillac, está se enterrando aos poucos e aproveitando os últimos trocados que ganha ao desfilar num peep show. Que pena, Leila. E boa sorte, Leila. Seja bem feliz nessa sua nova fase artística tendo Alexandre Frota como seu mentor intelectual.
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