domingo, 24 de outubro de 2010

A culpa é da Nicole

Se você alimenta uma certa admiração ou interesse pelos primeiros filmes de Todd Solondz, Neil Labute, Greg Araki, Darren Aronofsky, Alexander Payne, Paul Thomas Anderson e toda a turminha do fundão do cinema norte-americano, certamente irá apreciar esse Sentimento de Culpa e toda a mesquinhez humana que ele incita. A cena inicial, closes de seios de idosas sendo submetidas a mamografias, com um fundo musical alegrinho que faz uma alegoria ao sul dos Estados Unidos, já denuncia boa parte das intenções da diretora Nicole Holofcener. Não existe, nem com muito boa vontade, um parecer que possa justificar a gratuidade desse registro, pois o que está em questão no filme não é o envelhecimento ou algum tema congênere, e a personagem que acompanha esses exames tem um papel secundário. Esse fetichismo sádico permeia o restante do roteiro e traz muitas semelhanças com a ironia física e leviana evocada pelos ícones da desgraça alheia citados no introito. É certo que a potência estadunidense hoje nada mais é do que um acúmulo de carboidratos e de desajustes sociais e familiares, e discutir a crise dessas relações pós-Obama seria algo bem-vindo. Mas o olhar cínico e superficial de Nicole, maquiado de cinema provocativo, não dá margem a essa leitura. Temos uma adolescente com complexo de peso e de espinhas, um casal acomodado com a rotina, um pai ausente, uma relação extraconjugal envolvendo uma alcoólatra frustrada, uma relação de ódio e de submissão envolvendo uma avó esclerosada, e por aí vai. Ninguém se salva. Apple city está contaminada por maçãs podres. Você acha que estou exagerando? Então tente encontrar uma justificativa plausível para a cena de uma equipe de jovens com Síndrome de Down treinando basquete. Sentimento de Culpa é a condensação frívola dos novos seriados da Warner, que tratam o ser humano como um aperitivo descartável para o talk show do horário nobre da televisão. E se você imagina que o título sugere uma redenção autopiedosa dos personagens, pode incorrer em erro. A única protagonista que se sente culpada pelo status quo da miséria social instaurada é Kate (Catherine Keener, a musa-coringa do cinema independente), que dá generosas esmolas a mendigos porque não consegue conviver harmoniosamente com a parasitose de sua profissão, que é a de comprar móveis e cacarecos das casas das pessoas que acabaram de morrer para revender como objetos de arte. Nesse contexto, tem-se a impressão de que a culpa é mais da Nicole do que de Kate (vocês se lembram da cena final de As Confissões de Schmidt?). No filme, os personagens estão acomodados no conforto de seus conflitos. Não há espaço para suas angústias. Estender a mão ao economicamente excluído, além de mostrar um falso altruísmo que o filme não questiona, talvez seja uma maneira terapêutica da diretora transferir seus remorsos à personagem. Está claro que o cinema low profile de hoje não precisa de donativos. Não é a esmola que vai curar a maneira sórdida e astigmática de Nicole enxergar seu mundo e as fraquezas de suas pessoas.

1 lentilha

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Cala a boca

No meio da mais esquisita Copa do Mundo das últimas décadas, um grito soou mais forte do que qualquer vuvuzela distante dos solos africanos: “Cala a boca, Galvão”. Era mais do que um coro ululante. Era a voz de protesto e de indignação de mais de 150 milhões de pessoas (o novo Censo nos trará um algarismo mais exato) diante da mediocridade dos comentários do jornalista citado. Galvão Bueno e Dunga se merecem. São o fruto colhido de uma autarquia monástica e imperialista do futebol brasileiro, sem a arte e o tempero que caracterizam a beleza de nossa cultura e nossa ginga plural. A Era Dunga, graças ao bom Deus, acabou. Junto com ela, vão-se embora os Zagalos e os Parreiras que preconizaram o ludopédio pragmático, aquele ditame de passes feitos em nome do tão questionado futebol de resultados. Felizmente, esse fast-food insosso da bola não vai mais estar com a gente em 2014. Dunga e os zangados partiram, mas o mala-sem-alça da Rede Globo, campeão das bobagens e dos salários, continua rígido em seu altar.

Mais uma vez, as redes sociais não foram apenas a mídia, mas também o palco dessa passeata virtual. Já que o brasileiro anda tão abúlico quanto à política palhaça que invade nossos lares, pelo menos quando o assunto é paixão nacional alguma coisa se mobiliza neste país. E já que essas redes se beneficiam do marketing viral, do buzz ou de qualquer nomenclatura que defina esse contágio instantâneo, pode-se dizer que o grito de guerra antigalvanizador funcionou muito bem. Tanto é que, tempos depois, uma nova onda inflou os internautas em prol do silêncio de Tadeu Schmidt.

Até aí tudo muito legal. De fato, a alegria dos inflados 140 caracteres é bem mais interessante do que as análises científicas dos filósofos da futebologia. Mas essa irreverência toda, essa descontração típica de um país sacolejante se não é hipócrita, quem sabe esconde algo pior. Hoje um dos tranding topics (pra quem não está acostumado a esse jargão, significa um dos assuntos mais comentados) do Twitter é “Cala a boca, Sabrina”, uma alusão à desastrosa entrevista que a apresentadora do Pânico teve com o teen idol Justin Bieber. Arranhando um Inglês mais torto e truncado que o do Joel Santana, a caipira nipônica não sabia de onde vinha e pra onde ia. E o galã imberbe deixou muito clara a sua impaciência com aquele improviso com cara de pegadinha.

É claro que reagir e manifestar sua opinião é um direito de qualquer cidadão. Mas é bom lembrar que a sociedade brasileira em tempos de individualismo online não se caracteriza por sua atividade contestatória, muito pelo contrário. Mandar alguém calar a boca, mesmo que num tom jocoso e imediato que é a marca registrada do Twitter, reflete um comportamento autoritário que resgata, ainda que em fogo brando, os regimes de governo mais conservadores que já tivemos. Se a massa formadora de opinião se mostra tão indiferente sobre assuntos de máxima importância que poderão nortear os rumos do país, não acho que ela tem o direito de cercear ou travar essas aparições públicas da TV, por mais tacanhos e ingênuos que sejam seus pontos de vista. Ter o Galvão, a Sabrina, o Tiririca e a Pera calados faz bem aos nossos ouvidos, mas faz um mal danado e irrecuperável à democracia. Está certo que vivemos numa sociedade darwinista que só cede lugar aos bem-humorados, aos “espertos”, aos carismáticos que abrigam milhares de seguidores nas redes. É nosso direito de escolha aplaudir o Rafinha Bastos, a Bárbara Gancia, o Léo Jaime, a Rita Lee e tantos outros queridinhos da web. Mas não se esqueçam, retaliadores de plantão, que a melhor arma para combater a ignorância desses emergentes é mudar de canal, dar um unfollow, deletar de suas vidas. Querer angariar público para amordaçar essas pessoas é dar ainda mais força à censura que está louca procurando brechas pra voltar. E vocês entraram no Twitter justamente por causa da “liberdade de expressão” que a ferramenta estimula, correto?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Permanecer correndo

Quem me conhece sabe que eu tô sempre correndo. É normal. Meu passo é naturalmente acelerado e, não sei por que cargas d’água, tô sempre atrasado pra alguma coisa. Não foi diferente da última vez em que pisei no shopping Center 3, na esquina da Paulista com a Augusta. Como não poderia deixar de ser, a grade de programação dos filmes das salas do Bristol foi planejada com horários ingratos e, como é de praxe, eu quis correr atrás do prejuízo imaginando as costumeiras filas que se formam diante da lerdeza das bilheterias. Acelerando um pouco mais o passo, eu conseguiria, talvez, nessa angústia metropolitana no pique de Fórmula 1, ultrapassar uns dois ou três possíveis interessados em ver algum filme. E, como rege a Lei de Murphy, certamente se trataria de pessoas que perguntariam os filmes, o gênero, a duração, não teriam dinheiro trocado ou tentariam passar seus cartões de crédito/débito no sistema congestionado ou inoperante. Sei que a culpa é 100% minha. Eu é que não consegui me livrar dos afazeres em tempo hábil e fui obrigado a fazer essa compensação de minutos na boca do caixa. Quis dar uma de esperto, na tentativa de perder o menor número possível de frações de tempo de um filme previamente começado. Foi durante essa maratona relativamente taquicárdica que ouvi de um daqueles seguranças vestidos de urubu me dirigir a palavra. Aquele tipo de profissional que não faz nada a não ser te proibir de fazer qualquer coisa, sabe? Em tom parcialmente austero, ele me chamou a atenção, dizendo que era proibido correr. Nem dei bola. Fui até o fim da fila, que dobrava a bilheteria e quase encostava o quiosque de alguma marca qualquer de celular. Percebendo a abordagem mal-feita, ele se retratou e voltou a mim dizendo, de uma maneira mais polida e condizente com sua função, mais ou menos isto: “O senhor me desculpe pelo modo como falei com o senhor, mas é proibido permanecer correndo aqui nas dependências do local. Muito obrigado”. Ponto para o segurança. De fato, eu não dei motivo algum para ser tratado como um meliante. E o arrependimento, a retratação, são atitudes louváveis e bem-vindas na nossa cultura cristã. OK, tudo bem, a mudança de comportamento, a abordagem mais branda, o modo educado de falar, tudo isso conta pontos a favor do distinto. Nem vou entrar no mérito linguístico em relação ao erro semântico da frase. Mas me incomoda muito essa confusão de valores que se faz em todas as esferas sociais. Por um lado, temos o faroeste da terra-de-ninguém das metrópoles, a selvageria bandida que nos amedronta. Isso questão de uns 20 passos do ponto onde ele me repreendeu. Mas o descaso policial do lado de fora em nada justifica essas proibições gratuitas em ambientes mais fechados, ou que, pelo menos, procuram causar impacto com uma suposta e falsa imagem de organização. Isso pra mim não é o exercício da cidadania, muito pelo contrário. Seria precipitado de minha parte afirmar que se trata de um ranço da ditadura, mas a atitude do indivíduo de fazer questão de mostrar quem manda em nada condiz com os riscos do ato acelerado em si. É bem provável que o tal funcionário não tem a mínima noção do que faz, e foi treinado por empresas e equipes que não deram a ele o mínimo preparo nesse sentido. Eu não ofereci riscos à segurança de ninguém. Não me foi apresentado nenhum estatuto interno do shopping de rua determinando o que se pode e o que não se pode fazer. Provavelmente essa “lei interna” nem existe. Certamente o guarda me chamou a atenção pelo simples fato de eu fugir dos padrões da maioria circulante. Pessoas como ele, que precisam muito do dinheiro pouco, aceitam empregos, cargos e determinações sem ao menos questionar esses tais valores sociais. Vestidos de farda, sentem-se tão autoridades quanto os milicos do nosso país. E, na cabecinha deles, inventar normas e procedimentos e abusar do poder nada mais é do que valorizar o seu trabalho. Se o Brasil está, do ponto de vista ético, de cabeça pra baixo, não é esse ato arbitrário do nosso soldado raso em questão que vai desentortar as coisas. Muito pelo contrário. São atitudes pequenas como essa que me fazem ter a plena convicção de que vivemos numa nação ridícula.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Violência genuína

Triste do país que tiver como modelo icônico da liberdade de expressão um programa televisivo como o CQC. Mas não tem jeito. Diante de uma programação pífia e medíocre que nos é oferecida como prato principal desse “micro-ondas de informações”, é talvez a melhor opção de um cardápio ralo e repleto de gororobas do entretenimento. Os canais abertos não saíram da década de 70, no pior sentido da comparação. Falar que os discípulos evangélicos e globais do SBT são pura baixaria é algo tão lugar-comum quanto eufêmico. Em compensação, os enlatados da TV a cabo nos dão a sensação de que estamos diante daquelas televisões de cachorro de padaria, todas idênticas no domingo à tarde, em que o frango assado gira ininterruptamente, numa mesma cena, num mesmo eixo. Se programa de TV virou commodities, ao menos o CQC estabelece um mínimo diálogo com a linguagem cibernética, lacônica e infame do público massivo de hoje. Seja pelo imediatismo da matéria, pela suposta irreverência ou pela aproximação com algumas tendências da comunicação, como as redes sociais, por exemplo. Diferentemente dos siberianos, enfadonhos e retrógrados Altas Horas ou Amor e Sexo, por exemplo, que expõem a moçada como figurantes, usam gírias mas não passam de cartoons colorizados da época de Gil Vicente. O Custe o que Custar é palco publicitário para os aspirantes a ator de stand-up comedy. Toca nas feridas políticas de modo tão sintético e limítrofe quanto a capacidade de armazenamento do Twitter. Ainda assim, rende os assuntos mais saborosos das conversas de escritório das manhãs de terça-feira, já que o período matutino de segunda e quinta é monopolizado pelos bocejantes comentários futebolísticos. E, depois de tantas voltas, é sobre ele que eu me proponho a falar. Voltando ao tema: a democracia no Brasil consolidou-se de forma tardia, capenga e burra. Quase todo dia, encontramos provas mais do que evidentes, em todos os níveis possíveis e nas mais diversas esferas sociais, do autoritarismo do poder de expressão, da coibição sobre a pluralidade de pensamento, da restrição ao diálogo aberto. O povo brasileiro, de um modo geral, ainda não está acostumado ao confronto sadio de ideias. Não sei dizer, e seria arrogante da minha parte, atribuir a culpa sobre esse regime social stalinista, obtuso e intestino à política e aos políticos brasileiros. Talvez o problema seja muito maior e a raiz, muito mais profunda do que isso. Mas séculos e séculos de um sistema patriarcal, de sucessivos governos em que o líder de uma nação é considerado o “pai do povo”, aquele que dá pirulito à criança que se comporta direitinho e palmadinha no bumbum dos mais rebeldes, fomentaram esse comportamento patológico pouco flexível ao pluralismo ideológico. Fazemos parte de uma massa sem vontade própria, regida pelos mandos e desmandos de um tutor-coronel da república do café e das capitanias hereditárias da macaxeira. E isso se reflete até mesmo na escala zero da pirâmide hierárquica. Basta entregar a um desdentado uma arma, um coldre e um colete à prova de balas com o bordado “segurança” nas costas que o indivíduo já se sente “toridade”, com poderes atribuídos por ele próprio de tapar com a mão as lentes da câmera e falar pro repórter “vai trabaiá, vagabundo”. Não, não é descrição preconceituosa da minha parte não. É um fato registrado pelo VT da Rede Bandeirantes que, em última instância, é o resíduo podre e caduco dos tempos da ditadura. Se esta atitude milica, muito mais uma vontade de provar a ascensão social do que ter a plena consciência do seu exercício do autoritarismo, ocorre já nas camadas de base, imagina então como se dá esse comportamento numa laia mais graúda. José Sarney, bastião das alianças espúrias que o governo do PT andou fazendo, também foi protagonista de um episódio vexatório que envolveu um entrevistador do referido programa. Ao tentar abordar o ex-Presidente e pedir explicações sobre os escândalos do Senado, o repórter Danilo Gentili foi fisicamente agredido pelo seu segurança pessoal. O bigodudo marimbondo de fogo dos maranhões esquivou-se da saia justa, mas as imagens constrangedoras renderam ao programa uma série de notícias, manifestações de repúdio ao sistema e votos de solidariedade ao apresentador. E, ao jagunço esclarecido do agreste, o delito rendeu, de acordo com o âncora Marcelo Tas, um processo judicial que, espero, não termine em pizza.

Se a história ao menos nos ensinasse que os fatos mais hediondos pudessem servir de escadaria para a maturidade, seria menos mal. Pagaríamos um preço – alto – pela apostila do crescimento e do desenvolvimento. Não é bem o que ocorre. A história se repete justamente pela recorrência de seus erros. No programa CQC do dia 30 de novembro, o repórter Rafael Cortez, novo integrante do quadro Controle de Qualidade, passou por uma situação semelhante e igualmente imperdoável quando foi dirigir uma pergunta a outro José, dessa vez, o Genoíno. Sinceramente, sou novato em matéria de CQC. Não sei se, nos primórdios, houve alguma rusga entre o deputado e a equipe do programa, ou algum tipo de situação mal-esclarecida. O fato é que o nobre constituinte, que já havia caído no meu conceito devido às suas recentes posições políticas, parece que enterrou de vez minha credibilidade depositada sobre ele e sua carreira de guardião da democracia. Um dos mais contumazes lutadores da resistência contra o regime militar, ex-preso político, torturado, participação ativa na questão Araguaia, talvez tenha saboreado o gostinho de estar do outro lado do poder. Em inúmeros programas anteriores, o ilustre parlamentar, no seu legítimo direito, jamais abriu a boca para conceder entrevistas ao CQC. Sempre sisudo, o político escapava das pegadinhas assim como os mensaleiros fogem da CPI. Tudo bem, confundir seriedade profissional com antipatia é perfeitamente perdoável. Sempre imaginei que esse semblante carrancudo fosse a caracterização de um Genoíno personagem de si mesmo. Mas dessa vez seu mau-humor foi longe demais. Em suas próprias palavras, o petista acusou o programa de pregar a violência (!?!), sem especificar com maiores detalhes a chegada a essa leviana conclusão. Até aí, talvez o atarefado e veterano deputado tenha confundido o imberbe repórter com o pessoal do Pânico, um programa semelhante no seu formato, mas muito mais apelativo, invasivo e campeão de piadas de mau-gosto. O quadro Controle de Qualidade é apenas uma espécie de Enem do Congresso, em que são testados rapidamente os conhecimentos mais elementares possíveis do dia-a-dia da política brasileira. Ainda que o gagá congressista tenha se exaltado e se sentido moralmente violentado no calor da situação, o que não passa de uma hipótese bastante precipitada pelo que as imagens indicam, nada justifica sua reação: uma discreta cotovelada em Rafael, daquelas feitas para a câmera não captar. Num país dito democrático, e com um partido que usou essa bandeira panfletária como alicerce para chegar ao poder, uma suposta “violência” não se rebate com violência. Pagar com a mesma moeda, nesse caso, só faz inflacionar o efeito negativo da situação. Ainda que proporcionalmente deselegante, o tal do “te pego na saída” seria mais sincero do que a cotoveladinha lateral, praticada em partidas de futebol por jogadores de mau caráter, que usam do golpe baixo pra levar vantagem e não ser vistos pelo juiz. Nos exames escolares realizados no país, recusar-se a responder a pergunta do professor é digno de nota zero. Fazer uma jogada violenta contra o adversário é algo pra cartão vermelho. Lembre-se disso na próxima vez em que praticar o exercício democrático do voto.

domingo, 25 de outubro de 2009

A Todo Volume

Do blues ao white

Um toco de madeira, arame esticado e fixo por pregos nas pontas, uma garrafa vazia de Coca-Cola e um amplificador. Pronto, pra que guitarra? Mais do que um prólogo, essa apresentação sintética e questionadora é a própria desconstrução do filme. A partir deste texto que leva ao risível estranhamento, toda a verdade absoluta cai por terra. Sim, uma terra vazia, árida e caipira. O cidadão provinciano que acompanha a montagem deste simplório instrumento é tão extraterrestre quanto o espectador diante da mágica de se poder extrair som do nada.

Esse preâmbulo ao mesmo tempo insólito e cativante demarca ou outro documento mais recheado, o filme propriamente dito. Trata-se de um registro do encontro entre três guitarristas, símbolos de suas gerações, realizado no começo do ano passado, com a finalidade de discutir este instrumento elétrico e, claro, tocar. Jimmy Page, ex-Led Zeppelin, é o ácido lisérgico dos anos 70. The Edge, principal coadjuvante do U2, é o grito de sobrevivência dos efêmeros anos 80. E Jack White, chef de cozinha do White Stripes, Racounteurs, Dead Weather e tantos quantos forem os seus futuros projetos, é a síntese dessa colcha de retalhos, desse copy-paste myspace musical que é o rock atual. Page é a página virada da história do rock. É a lenda-viva, e sua imagem até certo ponto icônica e distanciada é preservada como tal. É nos toscos registros de sua participação nos Yardbirds que podemos perceber que o mestre não só foi um dos principais conectivos entre o blues de raiz e o rock de arena, mas também é dele que vêm os primeiros verbetes do que podemos entender por música que faz a cabeça adolescente. Page é a referência intocada, a enciclopédia, é o papa de quem resiste e ainda prefere aprender música por meio de partituras de conservatório. Trazê-lo ao sarau elétrico e distorcido é nada mais do que fazer uma homenagem ao mestre de cerimônias que trocou as drogas pela alimentação vegetariana, o niilismo hippie pelo zen-budismo e Londres por Marrakesh e Porto Seguro. Já The Edge é a representação da escalada mais saborosa do punk ao pop. Ao ver o U2 tocar num estádio lotado, num show com aquela parafernália megalomaníaca, centenas de milhares de pessoas cantando suas músicas de cor e salteado, chega-se à conclusão de que o rock é tão incoerente quanto dissimulado de suas origens e de suas revolucionárias propostas. O hino de protesto das gerações sucumbiu aos downloads. Rock dá dinheiro, muito dinheiro, e The Edge não esconde seu comodismo em relação e esse confortável status quo. O guitarrista assume descaradamente sua afeição pelos programas de computador que reproduzem os acordes e as escalas. Se Jack White, lá no intróito, enterrou a guitarra, aqui The Edge enterra a figura do próprio guitarrista. Para a massa da multidão vibrar, basta o competente trabalho de um engenheiro de som e seu mais moderno software de fazer barulho. Já White, the last but not the least, muito pelo contrário, é talvez a figura mais emblemática porém a mais sincera do documentário. É quase a antítese minimalista de The Edge. A marcação do compasso de suas músicas é feita com o pé, dispensando qualquer aparato tecnológico. Em sua primeira banda, na verdade um dueto, o White Stripes, Jack descreve sua irmã Meg White como dotada de poucas habilidades artísticas, algo assim. Mas pra ele, não precisa mais do que isso. White demonstra ser o mais purista e sectário a navegar pelos primórdios do blues-rock. Isso sem falar no bônus track que ele nos apresenta. Introspectivo, de poucas palavras, recriando o gênero de si próprio, White é mais personagem do que compositor. Em seu chapéu-coco preto, em contraste com seu pálido rosto pó-de-arroz e sua camisa branca, lembra muito aquilo que Johnny Depp nos mostra no realismo fantástico de seu cinema. É o humor mal-humorado desse Buster Keaton das guitarras que nos reserva os momentos mais impagáveis. Se para reproduzir a história do Led Zeppelin são necessárias incontáveis páginas de arquivos do rock, se para entender melhor o U2 deve-se recorrer a pesquisas no Google, já o White Stripes pode ser resumido em uma tirinha de HQ. A concepção gráfica desta banda restringe-se repetidamente a três cores básicas (preto, branco e vermelho). O bumbo da bateria, visto de longe, parece pirulito de criança. Os Listras Brancas provam que o rock talvez não seja sincero, mas é no mínimo cômico e caricato. E esse desfecho pouco ortodoxo sintetiza as contradições inerentes ao trio convidado. Mas para não correr o risco de cair em hermetismos acadêmicos ou tornar o documentário enfadonho aos ouvidos iniciantes, o diretor Davis Guggenheim faz a aposta segura de contar histórias. Ir direto ao assunto, ou seja, ensaiar durante horas num galpão e discutir rumos musicais é o cerne do documentário, algo tão essencial e inutilia truncat quanto a música crua e lacônica de White. Mas o diretor opta por preencher espaços narrando e trajetória das bandas que trouxeram fama aos músicos, e isso não é uma questão ao filme. Não está em jogo o malabarismo do baterista John Bonham ou o início de carreira do U2, banda despretensiosa que nasceu nos subúrbios da Irlanda em meio à crise econômica e política do país. A Todo Volume é, em sua essência, a entrega de White e seus riffs das artérias, que faz sangrar suas mãos ao dedilhar a guitarra, colorindo de vermelho o branco-e-preto de sua comportada indumentária, em detrimento ao automático apertar de botões de The Edge. Pensar o filme como uma coletânea de hits é um equívoco. Ele é muito menos do que isso e, portanto, muito mais.

2,5 lentilhas

domingo, 4 de outubro de 2009

Tirania semântica

A língua de um povo não é apenas uma forma de manifestar suas ideias e sua cultura, mas é também uma maneira de expor a distinção de classes sociais. Igual a roupa de shopping; calça de griffe é mais bem-vista do que artigo do Largo da Concórdia. O uso incorreto da língua, tal qual o uso incorreto de uma roupa, sofre a mesma discriminação. A norma culta, como o próprio nome diz, é um mecanismo seletivo para determinar quem, do ponto de vista linguístico, irá para o Céu ou para o Inferno. “Nós foi”, expressão dada como modelo do “falar errado” da classe mais baixa, é algo ridicularizado pela elite dita culta. Muito embora o emissor da mensagem consiga se fazer entender. Afinal, lá no enunciado “errado” consta exatamente quem fez a ação, o que fez e quando fez. Verbo concordar com sujeito, de acordo com a regra gramatical castiça, é apenas um capricho da Flor do Lácio. Uma redundância capaz de reprovar alunos, apesar da plena compreensão do seu significado.

Todavia, essa mesma língua que nos faz capaz de se comunicar na sociedade também pode nos ser traiçoeira. Estamos, afinal, diante de um tribunal de Justiça? Parece, porque pelo que vejo existe nos alfarrábios léxicossociais o “pouco errado” e o “muito errado”. A sociedade, cruel ao condenar o verbo singular de um sujeito plural, é a mesma que pode perdoar o uso incorreto de infinitivos, por exemplo. Mais por ignorância do que bom-mocismo, talvez. “A nível de”, um erro considerado “classe média”, não sofre as mesmas represálias. O tão-falado gerundismo, modinha de sarcasmo, virou algo condenável só porque se lançou uma corrente em algum lugar do país condenando o uso deste tempo verbal. Duvido que tenha havido algum tipo de consulta antes de sua reprovação. “Ele vai estar fazendo”, frase generalizadamente atribuída aos operadores de telemarketing, sabe-se que está incorreta do ponto de vista erudito. Mas “ele deve estar chegando” está correta. Alguém me explica?

Frente a essa tolerância classista não posso deixar de citar os comerciais da campanha sobre a fusão Banco Real / Banco Santander, com uma série de testemunhais aprovando a junção dos benefícios. Em um dos depoimentos, uma moça aparentemente de classe média, moderna, descolada, gestual descontraído, me solta: “uma matematicazinha”. Diante do contexto, a frase até que soou apropriada e toda a sua performance, bem-vinda. Mas os puristas linguísticos, aqueles mesmos que colocariam o suposto caipira do exemplo acima na guilhotina, não poderiam aceitar essa agressão vernacular. Matemática é uma ciência, um estudo, um assunto tratado no singular por sua grandeza e por sua incompatibilidade semântica em se enumerar. É o mesmo que dizer “vou à feira trazer umas biologiazinhas”. Se a astronete tivesse dito “umas continhas” ou algum sinônimo, vá lá. Mas a Língua Portuguesa, cada vez mais, está virando passarela verborrágica: lança uma novidade, chama a atenção, exibe-se diante dos curiosos holofotes e depois sai de cena. Nossa língua pátria é móvel, é dinâmica, é corrente, sujeita a alterações sem prévio aviso, tal qual o pensamento do nosso povo. Mas é inaceitável acatar com esse comportamento de segurança de bar: deixar entrar alguns erros VIP, barrar outros.

Tirania estética

Cá estou eu novamente a falar de um comercial de cerveja da marca Schin. Melhor pra eles; falem mal, mas falem de mim. Antes uma empresa que impõe conceitos sem medo de errar a uma empresa acomodada, que só veicula apostas seguras. Trata-se de um comercial de um jovem comum, desses que trabalham em um escritório comum, e que se submete cegamente aos mandamentos de uma voz em off pra ficar com uma melhor aparência e, portanto, conquistar as mulheres. Por trás de uma suposta filosofia de vida democrática “seja você mesmo” existe uma falsa premissa. Ao trabalhar com a ironia para mostrar que toma partido do lado oposto, o filme-fariseu apenas reforça a ideia de que os homens têm total liberdade para se lixarem para o seu físico. Nesse sentido, redunda estereótipos ao invés de combatê-los. Sim, o franzino protagonista ficaria ridículo se fizesse bronzeamento artificial, mudasse o corte de cabelo, entrasse em uma academia. Afinal, o típico bebedor de cerveja, tal qual o concebemos, gordo e careca, não pode se submeter a essas déspotas regras sociais. Mas esse liberalismo estético, no filme, só é concedido aos homens. A mulher, que aparece somente no final, e num ângulo notadamente machista, não recebe essa alforria. Ou seja, a cerveja Schin, escancaradamente dirigida ao “sexo forte e macho”, oferece ao desleixado portador de testosterona a oportunidade ilusória de, sem precisar fazer qualquer tipo de esforço físico que não seja o de esvaziar um copo goela abaixo, conquistar o par de pernas torneadas do escritório. Bem como qualquer outro tipo de comercial do gênero.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Restaurant Week 2

Finalizando o roteiro, seguem minhas impressões desta terceira edição do evento. Posso dizer que a experiência como um todo foi bastante positiva, deixando saudades e um pequeno rombo na conta bancária. Mas pelo menos foi um gasto pra lá de saboroso.

Júlia: O forte da casa é a culinária que mistura o contemporâneo com a comida típica regional. E eles não fazem feio. Comida muito bem estudada e preparada. Pena que não é muito pro meu paladar. Os destaques do cardápio são lula, polvo, pato e galinha d’Angola. Tortinha de cupuaçu pra dar o toque final. Tudo muito caprichado. O serviço é impecável; a gerente veio até a nossa mesa umas 3 ou 4 vezes. Tudo perfeito, não fosse a distância que separa as especialidades da Júlia ao meu gosto. Mas aí o problema não é deles, é única e exclusivamente meu. 3,5 lentilhas.

Boa Bistrô: Na entrada, mais uma vez houve uma pequena confusão com reserva de mesa, mas a hostess rapidamente contornou o problema. Comida honesta, decente. Um caprichado ceviche de peixe de entrada, truta como prato principal e sorvete de gianduia pra finalizar. Tudo politicamente corretíssimo, do atendimento à gastronomia. O nome da casa faz jus ao seu produto: uma boa experiência. Nem péssima, nem ótima. 3 lentilhas.

Félix Bistrô: O local é bastante agradável, com plantações de algodão (?!) cercando o caminho e uma piscina no centro do ambiente. O atendimento é ótimo, prestativo e pró-ativo. Comecei com um crepe de alho-poró, bastante saboroso não fosse uma camada de molho de tomate que destoou da proposta. O salmão estava leve e saboroso. A sobremesa, uma torta de pera, foi o melhor da noite. 4 lentilhas.

Casinha de Monet: Quisemos fechar o roteiro com chave de ouro e, por causa disso, bateu aquela dupla sensação: a ansiedade pelo ótimo misturada ao medo da decepção, conforme ocorrido no encerramento de edições anteriores. E essa última aventura ficou mais próxima do excelente do que do terrível. A decoração da casa, bem feminina, é de quadros floridos e paredes de tons pasteis. A entrada do cardápio, rodelas de queijo de cabra quente sobre torradas e rúcula, está entre as melhores. O prato principal, filé mignon com risoto de queijo brie e abobrinha picada, embora convencional, estava bem caprichado. Pra encerrar, a sobremesa, pera ao vinho sobre camadas de massa folhada, era mais criativa do que saborosa. O único senão foi o serviço da casa, um pouco demorado e conduzido por garçons de pouca experiência no ramo da alta gastronomia. 4 lentilhas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Restaurant Week

Seja para prestar um serviço de utilidade pública ou apenas para satisfazer a curiosidade, achei uma boa ideia dar meu parecer sobre o "primeiro tempo" dessa terceira temporada.

Apenas para registro retroativo, os campeões campeoníssimos das edições anteriores foram Chakras e Obá. Gardênia, Caroline, Blú e Butique (ausente nesta temporada) foram bem avaliados. La Table e Forchetta foram as grandes decepções. Vamos lá ao resultado parcial nesta primeira semana, por ordem cronológica:

Quintal da Madalena: começamos bem mal. Houve uma confusão na reserva de mesa, demora demoradíssima em todas as etapas do processo: limpeza da mesa, entrega do cardápio (o menu Restaurant Week nos foi dado após o menu da casa, e não simultaneamente), anotação do pedido, entrega das bebidas (o gelo veio quase todo derretido no copo, o que deixou a bebida aguada), entrega da entrada (servida separadamente ao casal), encerramento da conta, etc. Nem o simpático e atencioso porém solitário garçom conseguiu suprir as falhas e dar conta do movimento. A saladinha de entrada estava honesta, porém o prato principal (miolo de alcatra) estava extremamente duro e, finalizando, o protocolar sorvete com profiteroles era bem sem-gracinha. Uma hora e meia de desgosto. Caldo.

Obá: já conhecíamos a casa, mas quisemos provar o jantar. Novamente, a cozinha contemporânea brasileira-mexicana-tailandesa não fez feio. Eu experimentei a pescada-amarela com legumes, levemente condimentada. A única ressalva é que houve um erro na conta (rapidamente corrigido) e na entrega da (maravilhosa) sobremesa, o que não atrapalhou a eficiência da casa. Pena que a demora do almoço nos fez "conversar com o estômago" até tarde da noite, portanto, nossa sugestão é contrabalancear o Obá com uma refeição bem leve. 4 lentilhas.

Maria Lima: uma grata surpresa que vem da emergente Vila Leopoldina. Serviço rápido, organizado e eficiente, culinária boa, dá vontade de repetir. Bem diferente do almoço de sábado. O filé de avestruz muito bem preparado. A sobremesa, caprichada. E o carpaccio de truta de entrada é campeão. 4,5 lentilhas.

Le Poéme: a grande surpresa. Excelente em tudo. Dá pra se notar que é bistrô de profissionais de primeira linha. O pargo com purê de mandioquinha e ovas de salmão dispensa comentários. E a sobremesa (crepe de avelãs com calda de tangerina e sorvete de framboesa) vai ficar pra história. Mjadra.

Santa Gula: o local (uma viela botânica num casarão rústico da R. Fidalga) é bem agradável, o serviço é correto, mas... e a comida? Bom, vamos lá. Antes de mais nada, é bom avisar que a casa trabalha com a marca Schincariol, portanto, seja bem específico ao pedir sua bebida e sua marca de coração. A entrada, um crepe de salmão, estava honesta. Já o prato principal me deu a impressão de que o estabelecimento estava se aproveitando da "onda" Restaurant Week e oferecendo bem pouco aos fregueses. O filé de frango ao molho mostarda tinha o tamanho das porções dos tradicionais restaurantes franceses e o sabor de um comum restaurante por quilo. No cardápio, onde se lia "batatas rústicas" de acompanhamento, trocou-se o preparo por batatas chips. A sobremesa (uma colher de suflê de chocolate) estava just OK. Não quero ser preconceituoso, mas essa dupla experiência consecutiva reforçou a minha impressão de que a Vila Madalena quer ser algo que não é. Tô cansado de ser enganado. 1 lentilha.

sábado, 11 de julho de 2009

A mosca da Folha

A Folha de São Paulo vem trabalhando sistematicamente para arrancar uma certa imagem estigmatizada de seu produto. Embora muito mais careta em relação aos saudosos anos 90, época em que havia um saboroso embate publicitário entre ela e seu principal concorrente, a campanha de uns anos pra cá vem focando a diversidade e a pluralidade de seus cadernos. Essa mensagem traduz que o jornal do Século XXI procura atingir a todos os públicos e, diferentemente do passado, é mais acessível e mais inteligível. Já o recente comercial de TV, entretanto, é um retrocesso nesse sentido. Pretensiosamente poético, o filme é uma compilação de citações que não querem dizer absolutamente nada. Um verdadeiro caô linguístico. Tendo como mote o primeiro verso de uma famosa cantiga folclórica, que até virou inspiração para música de Raul Seixas, o sarau publicitário é um moscardo em sua mais pura forma, tão niilista quanto fétido. Se por um lado o crédito dado aos principais colunistas em lettering dá credibilidade ao produto, por outro aquele amontoado pós-dadaísta coloca em xeque as suas opiniões e reflexões. Se estivéssemos enfrentando a ditadura militar, os himenópteros e tautológicos versículos até poderiam soar irreverentes. Mas não temos mais nem tempo nem vontade de ressuscitar o Pasquim. Com esta campanha, a Folha volta a resgatar a ingrata imagem que cultivava nos anos, 80, época em que tinha Matinas Suzuki como principal comandante. Tão amada quanto odiada, a Folha alimentava em suas neossintaxes a impressão de que era um órgão culturalmente elitista, hermético e centrípeto, modernoso e rabugento, produzido apenas para o deleite da inteligenzia brasileira. Ingenuamente, pensei que fosse aplainar seu semblante blasé por muito mais tempo. Terrível engano da minha parte. Eis que surge do nada a sopa de leguminosas concretistas, palatável somente para quem venera o pedestal do distanciamento.