segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Cutucada inútil
Tem muita coisa que não entendo, mas também nem sei se quero entender. A velocidade das informações hoje em dia, por exemplo, tá mais com cara de pressa do que rapidez. Pensar que essa agilidade e efemeridade de conteúdo pode gerar transformações sociais e culturais, no entanto, é dar um passo maior do que a perna. Terrível engano. Eu me vejo num contexto social muito mais estanque do que, por exemplo, de 20 anos atrás. A capacidade de proliferação da mensagem é ilimitada, fato. Mas a capacidade de retenção é limítrofe. E não param de espocar paradigmas que desafiam nossa inteligência, nesse sentido. O Youtube, por exemplo, é uma ferramenta dinâmica para compartilhar imagens. Teria tudo para ser, em princípio, uma gigantesca biblioteca de registros do cotidiano ou uma compilação das mais variadas vertentes de exploração das artes visuais. Mas a realidade webcameragráfica não mostra exatamente isso. Até tem um vasto acervo de videoclips, programas de TV, etc. Entretanto, o que se sobressai é algo tão fútil que foge à minha razoável compreensão. Apenas para citar alguns exemplos do que foi recentemente considerado “fenômeno” do Youtube, temos a Banda Mais Chata da Cidade. Temos o travesti Luisa Marilac em uma piscina de hotel, tomando “uns bons drink” e falando que deu a volta por cima. Temos um moleque que se diz “polêmico” ao mostrar seus mamilos. Sim, ele só faz isso. E, ainda mais recentemente, temos uma pérola saindo do forno que já virou febre no que se refere à quantidade de acessos: um bêbado, travado de tão alto seu grau de alcoolismo, tentando achar a chave do carro. Segurando uma latinha de cerveja Cristal, o ébrio motorista fala pro amigo que está filmando a cena que não tem ninguém que o “tucuta” no Facebook. Nada demais nesse vídeo. Nada demais mesmo. Esse moço é apenas um em um milhão, um caso típico de um bêbado chato, que troca algumas letras e entra naquela fase deprê quando toma umas a mais. E o Youtube parece que virou isso mesmo. Não sei por qual motivo, elege como se fosse um sorteio de loteria aqueles vídeos que entram pra história ou amargam o fracasso do esquecimento, sem critério algum de diferenciação. Como sintoma sociológico, merece até uma certa atenção, mas sem muito interesse. Saiu da moda a grande produção do videoclipe, bem como as trapalhadas flagrantes tipo videocassetadas. O que funciona nessa rede é o registro das coisas mais banais do planeta. Culturalmente falando, trata-se de um fenômeno nulo, irrelevante. É deprimente acompanhar esses rumos culturais. Depois do pós-Modernismo, assistimos à sociedade caminhando pra era pré-Antiga. Compartilhar esses vídeos que propagam o niilismo cibernético é alimentar um paradoxo: quanto maior o acesso à tecnologia de gravar e de filmar, pior é a peneira que filtra a baixa qualidade. Esses vídeos-coqueluche até promovem um ou outro gracejo, mas são infames demais no quesito comicidade. A maioria já nasce com o intuito de se tornar celebridade virtual, pois mostra o protagonista olhando pra câmera, tratando o interlocutor desconhecido como se fosse um amigo íntimo. Já o último, o do bêbado solitário, é feito de uma maneira bem cruel e que fere a ética: o personagem pergunta se está sendo filmado e o iphoneman diz que não. Se as redes sociais nada mais são do que glorificar a mediocridade, fico então com a desaceleração que não leva a lugar algum, na espera e na inerte espreita de que daqui a alguns anos iremos encontrar o verdadeiro sentido do maior site de imagens do mundo.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
O Eduardo, a Mônica e a África
Particularmente, tenho algumas ressalvas em relação ao comercial da Vivo, criado pela agência África, produzido pela O2 e dirigido por Nando Olival. Aquele que mostra cenas de um casal jovem nos dias de hoje, com a música Eduardo e Mônica, do Legião Urbana, ao fundo e na íntegra, em homenagem aos 25 anos da canção que marcou uma geração. Essa homenagem de oportunidade, produzida especialmente para o Dia dos Namorados, estendia a mensagem para outros casais, aos tantos outros Eduardos e Mônicas espalhados pelo país que precisam de um celular para comunicar suas afinidades e suas diferenças. O filme até que é bonitinho, com boa fotografia, um jogo de luzes e contrastes legal, muito bem editado. Mostra que o povo discípulo de Fernando Meirelles entende do riscado. Mas eu acho que, se por um lado sobra beleza, por outro falta inteligência. A música que a gente ouvia no rádio ou no disco de vinil sugere situações que cabe à nossa fértil imaginação enriquecê-las. Cada ouvinte construiu o seu Eduardo e a sua Mônica de acordo com sua vivência e seu repertório. Traduzir em imagens o ritmo e a ginga de uma música que mais parece letra cantada faz perder um pouco desse encanto imaginário. Como se não bastasse, o clipe se pauta única e tão somente pelo significado dessas imagens. Ou seja, é nada mais do que uma decupagem traduzida de cada verso, como se fosse uma fotolegenda em constante processo de animação. Eduardo e Mônica, by O2, reduz o sentido da música ao invés de ampliá-la. Mas tudo bem, opinião minha. O fato é que o clipe foi um fenômeno da internet, com milhares de “curtir” e encaminhar, além de depoimentos emocionados que corroboraram esse repasse viral.
No dia seguinte, alguém não sei quem espalhou um outro comercial em formato de videoclipe, de uns 10 anos atrás, com a mesma música do Legião ao fundo dando ritmo às situações cotidianas de um casal de jovens. E o que é pior, a venda anunciada também era de um serviço de telefonia móvel. A agência África é, indiscutivelmente, uma das maiores, melhores e mais respeitadas do país. A Vivo, uma das principais operadoras. Não é o caso de se fazer um filme, que custa milhões de reais entre produção e veiculação, de qualquer jeito. Mas, assim como outros tantos exemplos de propaganda parecida, fica difícil dizer se a réplica é o resultado de uma simples e infeliz coincidência ou de plágio. Claro que a “vítima” poderia se defender dizendo que os contextos são diferentes. Enquanto na referência mais antiga a música servia apenas para ilustrar um conjunto de situações, nessa versão remodelada a música é o protagonista, e as imagens giram e funcionam em torno dela. Mas mesmo assim, a coisa tá muito descarada.
Esse episódio, um em um milhão, reitera um achismo meu, mas que pode dar margem a estudos e debates mais sérios, quem sabe talvez. Com internet não se brinca. Hoje, é o fenômeno mais midiático no que diz respeito à opinião pública. Aquele que um dia causou comoção virtual transformou-se, em menos de 24 horas, num dos agentes mais odiados da comunicação, justamente por uma suposta ação de má-fé. Se a internet não tem dono, se o meio virtual virou um mercado de putas, onde tudo aquilo é de todos e ao mesmo tempo não é de ninguém, por outro lado esse xerox visual deveria ter tomado certas precauções. É muito perigoso, e agora ficou provado, exibir algo com cara de quem quer ser original. Se a intenção de se fazer referência ao passado é clara, aí tudo bem. Não foi o que ocorreu com a África nesse caso específico. A rede mundial de relacionamentos tem esse poder de gerar amor e ódio com a mesma velocidade e intensidade. O problema é essa história toda depois de tudo isso cair no esquecimento, maculada pelo copy-paste que não passou despercebido. Quem irá dizer que não existe razão...
No dia seguinte, alguém não sei quem espalhou um outro comercial em formato de videoclipe, de uns 10 anos atrás, com a mesma música do Legião ao fundo dando ritmo às situações cotidianas de um casal de jovens. E o que é pior, a venda anunciada também era de um serviço de telefonia móvel. A agência África é, indiscutivelmente, uma das maiores, melhores e mais respeitadas do país. A Vivo, uma das principais operadoras. Não é o caso de se fazer um filme, que custa milhões de reais entre produção e veiculação, de qualquer jeito. Mas, assim como outros tantos exemplos de propaganda parecida, fica difícil dizer se a réplica é o resultado de uma simples e infeliz coincidência ou de plágio. Claro que a “vítima” poderia se defender dizendo que os contextos são diferentes. Enquanto na referência mais antiga a música servia apenas para ilustrar um conjunto de situações, nessa versão remodelada a música é o protagonista, e as imagens giram e funcionam em torno dela. Mas mesmo assim, a coisa tá muito descarada.
Esse episódio, um em um milhão, reitera um achismo meu, mas que pode dar margem a estudos e debates mais sérios, quem sabe talvez. Com internet não se brinca. Hoje, é o fenômeno mais midiático no que diz respeito à opinião pública. Aquele que um dia causou comoção virtual transformou-se, em menos de 24 horas, num dos agentes mais odiados da comunicação, justamente por uma suposta ação de má-fé. Se a internet não tem dono, se o meio virtual virou um mercado de putas, onde tudo aquilo é de todos e ao mesmo tempo não é de ninguém, por outro lado esse xerox visual deveria ter tomado certas precauções. É muito perigoso, e agora ficou provado, exibir algo com cara de quem quer ser original. Se a intenção de se fazer referência ao passado é clara, aí tudo bem. Não foi o que ocorreu com a África nesse caso específico. A rede mundial de relacionamentos tem esse poder de gerar amor e ódio com a mesma velocidade e intensidade. O problema é essa história toda depois de tudo isso cair no esquecimento, maculada pelo copy-paste que não passou despercebido. Quem irá dizer que não existe razão...
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Que saco!
Alarmistas de plantão: o mundo não vai acabar em 2012. Tá certo que o ser humano já fez muita merda e a natureza está revidando. Tá certo que as maiores potências mundiais são as que mais poluíram o ambiente no decorrer da história. Isso sem falar na extração clandestina de madeira na Amazônia, extinção de espécies de animais, etc. Tem também a questão do aquecimento global, mas é sabido que esse trágico fenômeno ocorre de tempos em tempos, independentemente da ação do homem. Não sou exatamente um entusiasta dos assuntos ecológicos. Mas noto que existe uma onde de discursos em prol da sustentabilidade, que mais parecem modismo do que abraço à causa. Cuidar do nosso jardim chamado planeta Terra é um dever, uma obrigação. Todo mundo de bom senso sabe disso. Mas essa coisa toda ficou muito chata e demagógica. As instituições que mais prejudicam o meio ambiente são as que menos fazem para reverter a situação. Eu acredito na força individual, como é o caso do voto. Mas duvido que, se sair plantando uma mudinha de pé de feijão, vou contribuir para um mundo mais verde.
Entretanto, essa é a lógica que reina na cabecinha das pessoas. Pra variar, tudo muito na base do improviso, do fazer de qualquer jeito. Cada minuto conta em relação ao relógio do planeta? Começamos a nos mobilizar tarde demais? Talvez sim, talvez não. O resultado concreto disso tudo são atitudes e iniciativas inócuas. De repente, não mais que de repente, as impressoras passaram a ser o inimigo número 1 da ecologia. Nunca fui a favor do desperdício. Na minha casa, separávamos material reciclado muito antes de existir o serviço de coleta seletiva de lixo. Mas não acho que, da noite pro dia, eu tenha que ficar contabilizando o número de folhas que meu texto exige pra existir, tudo em prol de uma irrisória economia de recursos que poderá, quiçá, contribuir para uma improvável melhoria do meio ambiente.
A Prefeitura de São Paulo acaba de sancionar uma lei que proíbe os supermercados de distribuírem sacolas plásticas a seus clientes. Sim, o plástico é um elemento de altíssima periculosidade para a nação. E os administradores da cidade tomaram esta ríspida decisão provavelmente motivados por um arquivo de Power Point que circula na internet há mais de uma década. E eles provavelmente foram implacáveis na atitude por se sensibilizarem com aquela imagem, descaradamente montada em Photoshop, que mostra um saquinho do Pão de Açúcar no focinho de um urso polar, como se isso fosse a coisa mais plausível de acontecer num mundo globalizado como o nosso. Sim, é claro que o plástico, vindo da principal fonte de renda do Oriente Médio, boa coisa não deve ser. Pelo cheiro que solta quando é queimado dá para ser ter uma noção de seus estragos à pureza do ar. Se pegarmos aquela ampulheta da natureza, aquela tabela de contagem regressiva que indica quantos anos cada matéria-prima demora para se decompor, o plástico certamente é um vilão, já que ocupa uma das posições de lanterninha nessa corrida contra o tempo.
A restrição é claríssima, mas as opções são poucas. Primeiro, a mais dolorosa: as sacolas alternativas, aquelas produzidas em tecido cru e docemente chamadas de “ecobags”, são cobradas à parte. Ainda que existam alguns modelos graficamente artísticos, não vou andar por aí com uma sacola dessas, como se eu fosse um eterno cliente de supermercado. E, mesmo que suas estampas sejam muito mais fashion do que propaganda de oculista ou de candidato político, elas suprem somente a necessidade de carregar as compras. Eu, particularmente, costumo atribuir uma outra utilidade para as sacolas plásticas, que é a de embalar lixo. Não me enquadro exatamente no modelo de desperdício. E, com essa nova norma, não sei mais como improvisar. Como se trata de uma medida pública, isso tá me parecendo conchavo com alguns setores industriais, aos moldes da obrigatoriedade (que deixou de ser obrigatória logo em seguida) do kit de primeiros-socorros nos carros, das cadeiras infantis e de qualquer outro utensílio compulsório que possa mover determinados segmentos da economia. Respeitar a natureza, faço com o maior gosto. Respeitar a hipocrisia, de jeito nenhum. Enquanto eu puder burlar essa regra pseudoecológica, farei com todas as minhas forças.
Entretanto, essa é a lógica que reina na cabecinha das pessoas. Pra variar, tudo muito na base do improviso, do fazer de qualquer jeito. Cada minuto conta em relação ao relógio do planeta? Começamos a nos mobilizar tarde demais? Talvez sim, talvez não. O resultado concreto disso tudo são atitudes e iniciativas inócuas. De repente, não mais que de repente, as impressoras passaram a ser o inimigo número 1 da ecologia. Nunca fui a favor do desperdício. Na minha casa, separávamos material reciclado muito antes de existir o serviço de coleta seletiva de lixo. Mas não acho que, da noite pro dia, eu tenha que ficar contabilizando o número de folhas que meu texto exige pra existir, tudo em prol de uma irrisória economia de recursos que poderá, quiçá, contribuir para uma improvável melhoria do meio ambiente.
A Prefeitura de São Paulo acaba de sancionar uma lei que proíbe os supermercados de distribuírem sacolas plásticas a seus clientes. Sim, o plástico é um elemento de altíssima periculosidade para a nação. E os administradores da cidade tomaram esta ríspida decisão provavelmente motivados por um arquivo de Power Point que circula na internet há mais de uma década. E eles provavelmente foram implacáveis na atitude por se sensibilizarem com aquela imagem, descaradamente montada em Photoshop, que mostra um saquinho do Pão de Açúcar no focinho de um urso polar, como se isso fosse a coisa mais plausível de acontecer num mundo globalizado como o nosso. Sim, é claro que o plástico, vindo da principal fonte de renda do Oriente Médio, boa coisa não deve ser. Pelo cheiro que solta quando é queimado dá para ser ter uma noção de seus estragos à pureza do ar. Se pegarmos aquela ampulheta da natureza, aquela tabela de contagem regressiva que indica quantos anos cada matéria-prima demora para se decompor, o plástico certamente é um vilão, já que ocupa uma das posições de lanterninha nessa corrida contra o tempo.
A restrição é claríssima, mas as opções são poucas. Primeiro, a mais dolorosa: as sacolas alternativas, aquelas produzidas em tecido cru e docemente chamadas de “ecobags”, são cobradas à parte. Ainda que existam alguns modelos graficamente artísticos, não vou andar por aí com uma sacola dessas, como se eu fosse um eterno cliente de supermercado. E, mesmo que suas estampas sejam muito mais fashion do que propaganda de oculista ou de candidato político, elas suprem somente a necessidade de carregar as compras. Eu, particularmente, costumo atribuir uma outra utilidade para as sacolas plásticas, que é a de embalar lixo. Não me enquadro exatamente no modelo de desperdício. E, com essa nova norma, não sei mais como improvisar. Como se trata de uma medida pública, isso tá me parecendo conchavo com alguns setores industriais, aos moldes da obrigatoriedade (que deixou de ser obrigatória logo em seguida) do kit de primeiros-socorros nos carros, das cadeiras infantis e de qualquer outro utensílio compulsório que possa mover determinados segmentos da economia. Respeitar a natureza, faço com o maior gosto. Respeitar a hipocrisia, de jeito nenhum. Enquanto eu puder burlar essa regra pseudoecológica, farei com todas as minhas forças.
Boa Reserva
Tenho que confessar um heresia: não gosto do Reserva Cultural. Quer dizer, ele dá de 10 a 0 nos Cinemarks da vida. A programação é muito boa, a região é ótima e tudo. Claro que é melhor ter um cinema em atividade em plena Av. Paulista do que remoer as saudades das salas que já se foram, cada vez mais numerosas. Conheço o Jean Thomaz, cumprimento sempre que o vejo. Mas, apesar de tudo isso, lá eu não me sinto exatamente “em casa”. Talvez por causa dessa coisa de ficar no meio-termo: tem pães e doces mas não é boulangerie, tem restaurante mas não é restaurante, apenas fica na tentativa de ser bistrô. Se eu tenho vontade de ir a um bistrô, vou a um bistrô. Lá, tenho a impressão de que a coisa fica apenas na degustação, no modelo “demo”. Se eles oferecem essas opções, ótimo. Melhor do que não tê-las. Mas acho que lá as coisas são um pouco caras, a relação custo X benefício não é das mais vantajosas. Por isso, vou ao Reserva apenas para ver filmes. E o valor do ingresso lá também é alto. R$ 22 a inteira, inclusive durante a semana, é nível Shopping Iguatemi. Ou seja, lá eu vejo filmes que são lançados com exclusividade e, em alguns casos, por uma questão de conveniência da localização. Não é exatamente um ícone do conforto, já que a maioria dos filmes lançados por eles são em digital, e aquela projeção com nível máximo de saturação me dá dor de cabeça. Os banheiros muitas vezes estão fechados, em reforma, em fase provisória de transição. Enfim, o Reserva é uma ótima solução para se salvar o cinema de rua e oferecer uma programação diferenciada, mas longe de ser o paraíso da arte. E, mesmo que o espaço finge que te faz se sentir em Paris, alguns senões te mostram claramente que você está nada mais do que em São Paulo, ao lado da muvuca do Objetivo. As salas 3 e 4, por exemplo, nos porões do estabelecimento, parece que caíram no esquecimento. Você nunca sabe se pode entrar, se a sala está aberta ou não, se a fila que se forma no corredor condiz com a do filme que você pretende ver. Como as portas destas salas são liberadas no último minuto de intervalo (os últimos da fila, inclusive, só conseguem entrar com a projeção dos comerciais já iniciada), tem-se a sensação de vãos perdidos, monumentos precocemente abandonados. E, tirando um ou outro profissional exemplar (como o antológico senhor negro de cabelos grisalhos), sinto que a maioria está ali única e exclusivamente pela necessidade de salário no fim do mês. Diferente de outras salas da região, mais calorosas no corpo a corpo, lá no Reserva o tratamento tem um quê de arrogância e frieza, atendimento protocolar, lacônico. Talvez eu seja exigente demais, ou não esteja num bom dia, ou esteja sendo preconceituoso com o lugar que cheira a café do introito ao cabo. Mas é o que sinto. Ou sentia, até semana passada, quando uma situação me chamou a atenção. Ao assistir ao documentário VIPs, numa dessas recônditas salas, fui abordado por um funcionário que parece ser novo da casa. Seu visual era nada convidativo: cabeça raspada, barba mal-feita, cavanhaque embrionário. Visualmente, parecia ser um dos integrantes do Ratos de Porão. Mas as aparências enganam. O cara é superatencioso e simpaticíssimo. Faz as boas-vindas para cada espectador, abre as portas da sala num delicado e apoteótico gesto, reitera a exata localização das cadeiras numeradas. Parecia mais um comissário de bordo, um conciérge. Ali eu não me sentia entrando no cinema. Parecia o início de uma ópera. Amor pela arte? Vontade e necessidade de se manter no emprego? Ou o Reserva vem apostando e investindo num outro tipo de marketing? Não sei, não sei. Mas se esse profissional se configurar a partir de agora como regra e não como exceção, o Reserva tem tudo para mudar a imagem que alimento por ele.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
A última estação
Na quarta-feira 11 de maio, ao abrir a Folha de São Paulo e procurar a Ilustrada no meio daquele monte de cadernos amontoados, como costumo fazer toda manhã, passei pelo caderno Cidades e vi uma nota de página sobre a desistência do Governo de São Paulo de se construir uma estação de metrô na Av. Angélica. Embora o mapinha desenhado da futura Linha Laranja (Brasilândia - São Joaquim) tivesse me chamado a atenção, não dei muita importância à notícia. Preferi continuar minha busca pelas críticas de filmes, discos e restaurantes, ou me orientar com a programação do circuito de cinemas. Na minha modesta opinião, o Centro de São Paulo já está suficientemente bem abastecido de metrô. O que precisa se resolver com urgência é o caos do que já existe no dia a dia. Situações que aos poucos desgastam a imagem daquele transporte que um dia já foi referência na América Latina. O que precisa se pensar, de imediato, é como voltar a oferecer transporte de qualidade a uma população de usuários que triplica a cada década. Como atender à crescente demanda de maneira satisfatória, ao invés de se improvisar soluções paliativas, como aqueles cordões de isolamento nas estações de maior fluxo, desligamento de escadas rolantes e filas nas catracas para segurar o contingente. Acho mais sensato, por exemplo, trazer de volta a pontualidade e eficiência de um transporte que hoje mais para do que anda, com justificativas nos alto-falantes dando conta de que o veículo inerte está aguardando a movimentação dos comboios à frente. A meu ver, é muito mais deprimente ver um mapa adesivado nas estações em que a maior parte dos traços coloridos está pontilhada, indicando que as obras não estão concluídas ou sequer saíram do papel. É mais vergonhoso tomar conhecimento de que as obras na Zona Sul, notadamente carente de transporte público decente, estão interrompidas por causa de descoberta de fraudes em licitações. É mais triste ainda lembrar que a Linha Amarela, construída às pressas em um determinado período, fez uma van chafurdar em suas areias movediças, na região de Pinheiros, com quase uma dezena de pessoas a bordo. Causa-me ainda mais espanto tentar entender por que a citada Linha Amarela e as estações Tamanduateí e Vila Prudente operam em uma reduzida jornada, diferenciando-se do conjunto. Pra mim, a ordem de prioridades é pensar no metrô como um projeto de extensão para chegar à periferia e bairros desprovidos de acesso, ao invés de tumultuar o meio-de-campo, transbordar a malha e oferecer ainda mais alternativas numa região suficientemente abastecida de trilhos. Mas tudo bem. Em se tratando de iniciativa pública, é melhor pecar por excesso do que pela falta.
Minha surpresa maior foi acompanhar, pelas mídias eletrônicas, a repercussão da amarelada do Governo, mais pelo efeito do que pelo conteúdo da matéria da Folha. Vasculhei um link ou outro e, haja visto que eu não tinha uma opinião formada sobre o assunto até o momento, alguns textos me pareceram bem convincentes e estruturados. Um deles apresenta, com argumentos e uma certa ironia, mas deixa de lado as ofensas, alguns motivos razoáveis: o alto custo de desapropriação dos imóveis no entorno do supermercado Pão de Açúcar (coração da ex-futura estação), a relativa fartura de estações de outros ramais nas imediações, a curta distância entre a proferida avenida e o futuro escoadouro ferroviário Higienópolis-Mackenzie. O internauta ressalta também que a polêmica estação, caso seja sediada perto do estádio do Pacaembu, atenderia ao projeto como foi inicialmente concebido. E, principalmente, o autor do comentário reitera que as manifestações de associações de bairro são um direito legítimo. Pra mim, pareceu tudo muito lógico. Em breve, teremos uma Consolação atendida pelo Metrô, e a Consolação tem um fluxo maior do que a Angélica. Melhor então deslocar uma estação para o vazio do estádio, da FAAP e dos piscinões, região precária de transporte.
Como o assunto é embrionário e o registro do jornal foi pontual e não estrutural, o assunto merece, de fato, um debate mais amplo e com uma parcela maior da sociedade, já que mostrou-se ser tão suscetível a divergências ideológicas e pragmáticas. Não foi exatamente o que aconteceu. Infelizmente, o brasileiro ainda está um pouco cru em relação ao exercício da democracia. Em vez de se mergulhar no tema, optou-se por ampliar e alardear a superficialidade e o sensacionalismo de seu apêndice: uma declaração infeliz e descontextualizada de uma moradora do bairro, extraída de uma matéria do meio do ano passado, que diz que a construção de uma linha do metrô na região pode trazer mendigos, drogados, “gente diferenciada”. Foi o estopim. No dia a dia, eu me deparo com muitas pessoas insatisfeitas com as gestões administrativas de Alckimin e Kassab. Trazer uma notícia que desfavoreça seus governos, qualquer que seja, é motivo suficiente para essa galera entrar na onda de protestos. Algumas pessoas do meu círculo próximo, confessos desconhecedores do teor da matéria, foram as primeiras a aderir à campanha no sentido de se ridicularizar essas gestões executivas. E aí, na pressa de se expressar comentários tão indignados quanto rasteiros, sobrou para os moradores de Higienópolis. Um dos trending topics do Twitter dos últimos dias, a questão gerou manifestações de diversos tipos, das mais razoáveis às mais preconceituosas. Pagaram com a mesma moeda. A discriminação aos imigrantes nordestinos provou de seu próprio veneno e recebeu outra discriminação, com o mesmo tom de baixaria. O povo judeu, predominante na região, também foi alvo de acusações. E tão predominante quanto os semitas foi a falta de conhecimento sobre o assunto. Aos desavisados, que mais conhecem a lenda do que o bairro, ficou parecendo que os rabinos, com suas malas cheias de diamantes contrabandeados, tocaram a campainha do amigo e vizinho FHC exigindo a proibição de transporte público em suas cercanias, a fim de se evitar a contaminação virótica da presença diferenciada. Aos olhos desses twitteiros, a elite cafeicultora paulista, que manda e desmanda nas leis e na ordem, desenhou a cidade trancafiando suas disneylândias e afastando a população de suas redomas.
Como o Brasil é o país do pão e circo, exemplo de governança secular de todas as instâncias, a transformação de um potencial debate sério em uma festança alegórica e ridicularizada foi um processo natural. Afinal de contas, quem faz parte do Facebook já está se acostumando a “participar” de eventos fictícios, como foi o caso dos recentes casamento do príncipe William, velório do Bin Laden e chá de bebê do filho do Neymar. Nesse sentido, a criação bem-humorada de um churrasco em frente ao Shopping Higienópolis (que outrora também foi alvo de manifestações dos moradores... mas ninguém se lembra disso) foi interpretada como uma atitude saudável de protesto. Criticar o governo com beberranças e patuscadas é mais simpático do que fazer greve ou parar o trânsito da Av. Paulista, por exemplo. E já que a politização cedeu lugar à farra, a divulgação de uma festa regada a quitutes e adereços considerados populares soou até engraçada. Mas nem mesmo os organizadores, que criaram o evento em tom de brincadeira, esperavam adesão tão expressiva. Foram quase 50 mil possíveis confirmações de presença. E aí, temendo que o tiro saísse pela culatra e que a marcha carnavalesca tivesse um efeito negativo contrário, o pessoal declinou da ideia e trocou a farra do churrasquinho de gato por um ato simbólico mais contido e mais consistente. Também, pudera. Colocar a população de um estádio lotado do Pacaembu nas ruas do shopping seria o mesmo que fazer uma Virada Cultural dentro de seus banheiros químicos. Melhor desistir da iniciativa. No blog do Luís Nassif, ele finaliza seu texto dizendo que a elite paulistana venceu. Eu sou mais cético. Tivemos um churrasco cancelado, uma chuva de xingamentos na internet, um decide-não-decide das autoridades e uma obra absolutamente estagnada. A meu ver, perdemos todos nós.
Minha surpresa maior foi acompanhar, pelas mídias eletrônicas, a repercussão da amarelada do Governo, mais pelo efeito do que pelo conteúdo da matéria da Folha. Vasculhei um link ou outro e, haja visto que eu não tinha uma opinião formada sobre o assunto até o momento, alguns textos me pareceram bem convincentes e estruturados. Um deles apresenta, com argumentos e uma certa ironia, mas deixa de lado as ofensas, alguns motivos razoáveis: o alto custo de desapropriação dos imóveis no entorno do supermercado Pão de Açúcar (coração da ex-futura estação), a relativa fartura de estações de outros ramais nas imediações, a curta distância entre a proferida avenida e o futuro escoadouro ferroviário Higienópolis-Mackenzie. O internauta ressalta também que a polêmica estação, caso seja sediada perto do estádio do Pacaembu, atenderia ao projeto como foi inicialmente concebido. E, principalmente, o autor do comentário reitera que as manifestações de associações de bairro são um direito legítimo. Pra mim, pareceu tudo muito lógico. Em breve, teremos uma Consolação atendida pelo Metrô, e a Consolação tem um fluxo maior do que a Angélica. Melhor então deslocar uma estação para o vazio do estádio, da FAAP e dos piscinões, região precária de transporte.
Como o assunto é embrionário e o registro do jornal foi pontual e não estrutural, o assunto merece, de fato, um debate mais amplo e com uma parcela maior da sociedade, já que mostrou-se ser tão suscetível a divergências ideológicas e pragmáticas. Não foi exatamente o que aconteceu. Infelizmente, o brasileiro ainda está um pouco cru em relação ao exercício da democracia. Em vez de se mergulhar no tema, optou-se por ampliar e alardear a superficialidade e o sensacionalismo de seu apêndice: uma declaração infeliz e descontextualizada de uma moradora do bairro, extraída de uma matéria do meio do ano passado, que diz que a construção de uma linha do metrô na região pode trazer mendigos, drogados, “gente diferenciada”. Foi o estopim. No dia a dia, eu me deparo com muitas pessoas insatisfeitas com as gestões administrativas de Alckimin e Kassab. Trazer uma notícia que desfavoreça seus governos, qualquer que seja, é motivo suficiente para essa galera entrar na onda de protestos. Algumas pessoas do meu círculo próximo, confessos desconhecedores do teor da matéria, foram as primeiras a aderir à campanha no sentido de se ridicularizar essas gestões executivas. E aí, na pressa de se expressar comentários tão indignados quanto rasteiros, sobrou para os moradores de Higienópolis. Um dos trending topics do Twitter dos últimos dias, a questão gerou manifestações de diversos tipos, das mais razoáveis às mais preconceituosas. Pagaram com a mesma moeda. A discriminação aos imigrantes nordestinos provou de seu próprio veneno e recebeu outra discriminação, com o mesmo tom de baixaria. O povo judeu, predominante na região, também foi alvo de acusações. E tão predominante quanto os semitas foi a falta de conhecimento sobre o assunto. Aos desavisados, que mais conhecem a lenda do que o bairro, ficou parecendo que os rabinos, com suas malas cheias de diamantes contrabandeados, tocaram a campainha do amigo e vizinho FHC exigindo a proibição de transporte público em suas cercanias, a fim de se evitar a contaminação virótica da presença diferenciada. Aos olhos desses twitteiros, a elite cafeicultora paulista, que manda e desmanda nas leis e na ordem, desenhou a cidade trancafiando suas disneylândias e afastando a população de suas redomas.
Como o Brasil é o país do pão e circo, exemplo de governança secular de todas as instâncias, a transformação de um potencial debate sério em uma festança alegórica e ridicularizada foi um processo natural. Afinal de contas, quem faz parte do Facebook já está se acostumando a “participar” de eventos fictícios, como foi o caso dos recentes casamento do príncipe William, velório do Bin Laden e chá de bebê do filho do Neymar. Nesse sentido, a criação bem-humorada de um churrasco em frente ao Shopping Higienópolis (que outrora também foi alvo de manifestações dos moradores... mas ninguém se lembra disso) foi interpretada como uma atitude saudável de protesto. Criticar o governo com beberranças e patuscadas é mais simpático do que fazer greve ou parar o trânsito da Av. Paulista, por exemplo. E já que a politização cedeu lugar à farra, a divulgação de uma festa regada a quitutes e adereços considerados populares soou até engraçada. Mas nem mesmo os organizadores, que criaram o evento em tom de brincadeira, esperavam adesão tão expressiva. Foram quase 50 mil possíveis confirmações de presença. E aí, temendo que o tiro saísse pela culatra e que a marcha carnavalesca tivesse um efeito negativo contrário, o pessoal declinou da ideia e trocou a farra do churrasquinho de gato por um ato simbólico mais contido e mais consistente. Também, pudera. Colocar a população de um estádio lotado do Pacaembu nas ruas do shopping seria o mesmo que fazer uma Virada Cultural dentro de seus banheiros químicos. Melhor desistir da iniciativa. No blog do Luís Nassif, ele finaliza seu texto dizendo que a elite paulistana venceu. Eu sou mais cético. Tivemos um churrasco cancelado, uma chuva de xingamentos na internet, um decide-não-decide das autoridades e uma obra absolutamente estagnada. A meu ver, perdemos todos nós.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Restaurant Weak
O poder de compra do brasileiro aumentou. Os preços estão congelados desde a primeira edição. A cobertura e a divulgação do evento foram ampliadas, bem como a quantidade de estabelecimentos participantes. Tudo isso contribuiu para popularizar o Restaurant Week, que contou com quase 1 milhão de pessoas em suas 300 casas, e fazer com que essa iniciativa passasse a fazer parte do calendário da cidade. Mas, junto com essa febre toda, vieram também os senões típicos dos festivais concorridos e muvucados, fazendo com que o resultado geral final fosse apenas mediano, inferior a algumas edições anteriores.
Abaixo está minha avaliação sobre o recorte que fiz desta edição. Os restaurantes estão por ordem cronológica de visita. E, pra lembrar você, aqui vai a legenda de cotações que costumo fazer no blog:
Caldo = péssimo; 1 lentilha = ruim; 2 lentilhas = fraco/regular; 3 lentilhas = bom; 4 lentilhas = ótimo; mjadra = excelente.
Becco 388
Lugar agradável, que tem potencial.
Ambiente: aconchegante, porém pequeno e pouco funcional. Lembra os casarões antigos, o que dá um clima de intimidade. A arandela com velas já foi destaque da Vejinha, mas os corredores são estreitos, o banheiro é minúsculo e a área para a fila de espera é concorrida. 2,5 lentilhas.
Serviço: os garçons são simpáticos e atenciosos, mas o serviço ainda está um pouco atrapalhado. Era comum vê-los se esbarrando nos corredores, o que mostra que a coisa não flui. A dona chamou a atenção de um deles ao nosso lado. Foi servida uma sobremesa com um intervalo de mais de 15 minutos em relação à outra. Destaque para a hostess, simpática, prestativa e eficiente para organizar a fila e conduzir as pessoas às mesas. 2 lentilhas.
Comida: o melhor da casa. Entradinha honesta, que serve como um bom tiragosto. O prato principal (linguini com lascas de salmão) muito bem preparado. A sobremesa nada deixou a desejar. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 2,5 lentilhas.
Per Paolo - Vila Mariana
Fui conhecer essa casa num esquema meio diferente, com um grupo de pessoas da agência onde trabalho. Então o clima era outro, mais despojado, mais “bagunça”. A casa vende massas prontas e frascas, molhos, compotas, patês, etc. Transformá-la em restaurante parece ter sido uma adaptação de espaço. O lugar, ao lado de uma Lojas Americanas Express, num minicomplexo de lojas de um conjunto de prédios, nem parece fazer parte de tão badalado roteiro.
Ambiente: nada de especial. Parece um café com mesinhas um pouco mais arrumadas. Não havia um banheiro para homens e outro para mulheres, apenas um aposento único para as necessidades, com porta sanfonada. Faltou charme e estilo. 1,5 lentilhas.
Serviço: de boteco. Os garçons apenas anotavam os pedidos, sem tomar qualquer iniciativa fora dos padrões. Um deles não sei dizer se estava mal-humorado ou se é lacônico mesmo. Só faltou a caneta atrás da orelha e o bloquinho de anotações em papel cor-de-rosa. O couvert foi colocado à mesa sem nos consultarem se queríamos ou não. 1 lentilha.
Comida: honesta, apenas honesta. A saladinha de entrada não disse a que veio. Pedi um gnocchi de tomate seco ao molho ementhal. A porção estava satisfatória, relativamente farta até, mas fiquei procurando por muito tempo onde estava o sabor diferenciado do prometido queijo. 2,5 lentilhas.
Avaliação geral: 2 lentilhas.
Fillipa
É a segunda vez que vou ao lugar, que mantém sua proposta de cozinha contemporânea, misturando estilos e origens culinárias. As receitas são bem criativas e elaboradas, mas faltou diversificar um pouco mais em relação à edição anterior.
Ambiente: clean, organizado, correto. Sem muito luxo. O Fillipa é mais objetivo, mas não deixa de ser convidativo para um bate-papo um pouco mais longo. 3 lentilhas.
Serviço: mais prestativo e atencioso em relação à visita anterior. Rápido e eficiente, os garçons mostram que estão preparados para atender à demanda extra do evento. 4 lentilhas.
Comida: muito bem preparada. A entradinha seguiu a linha exótica. Como eu já tinha pedido o salmão ao curry na outra visita, optei desta vez pelo filé com penne feito com vodca, um prato mais conservador. Apesar de tradicional e simples, o sabor residual acentuado fez a diferença. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Dui
Fomos conhecer a badalada casa da chef Bel Coelho. Eles não fazem reservas e as pessoas se acomodam por ordem de chegada.
Ambiente: a casa é bem espaçosa, acomoda bem os frequentadores. Tudo muito confortável. Os toilettes são pequenos. Tem uma área verde que traz um respiro a mais e contrasta com os tons da estética moderna da casa. 4 lentilhas.
Serviço: equipe muito bem preparada para atender essa demanda. O atendimento flui. Não existem aquelas esperas desnecessárias, nem garçons que fingem que não te veem. 4 lentilhas.
Comida: de entrada, uma saladinha simples, mas muito bem preparada. O prato principal gerou opiniões opostas. Eu pedi um filé de St. Peter com tabule, que estava irretocável. Minha namorada pediu um risoto (muito bom) com steak de fraldinha, mas a carne estava dura, algo inadmissível para um restaurante deste calibre. Pela média, 2,5 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Félix Bistrô
Somos frequentadores deste restaurante e seu ambiente rústico. Eles sempre capricham nas escolhas do SPRW. Dentro da casa, o ambiente é mais familiar. Do lado de fora, à beira da piscina, o ambiente é mais romântico ou próprio para um bate-papo com amigos contemplando a natureza selvagem. Fomos lá no sábado da “hora do planeta”. Durante o período, o local funcionou à luz de velas, o que deu um aspecto visual bem agradável. Mas, infelizmente, nesse mesmo dia um grupo enorme reservou várias mesas para a comemoração de um aniversário, e essa farra de bebedeira e de cantar parabéns, além de destoar completamente do clima intimista do local, comprometeu a qualidade dos serviços.
Ambiente: um atrativo à parte. Você não sabe se está num sítio ou num patrimônio tombado, e essa dúvida é saudável. No inverno ou em dias de baixa temperatura, uns algodões nas escadas aumentam a sensação de cortejo. Mjadra.
Serviço: sempre muito rápido e prestativo, mas desta vez, por causa da pândega vizinha, deixou a desejar. Foi mais lacônico do que de costume, e os garçons estavam visivelmente incomodados com a imprevista baderna. Faltaram pães na entrada de um casal de amigos nossos. 2 lentilhas.
Comida: também ficou abaixo da média. O Félix costuma ser impecável, mas, desta vez, cometeu um deslize. Estávamos em 4 pessoas, e todos pediram o entrecôte com puré de mandioquinha. O purê estava especial, mas 2 filés do conjunto de pedidos apresentavam excesso de nervos e de gordura. 2 lentilhas.
Avaliação geral: 2,5 lentilhas.
Govinda
Fomos conhecer essa famosa casa de comida indiana, já que a gente costuma frequentar uma outra, o Tandoor. Como existem pouquíssimos restaurantes do gênero, fica mais fácil fazer a comparação. Aqui eles não são tão ortodoxos, pois fogem do trivial cordeiro e frango e colocam no cardápio opções com frutos do mar e até cometem a heresia de oferecer pratos de carne bovina.
Ambiente: o paraíso das novelas. O lugar é enorme e não faltam objetos e ornamentos da região. Exótico é pouco para descrever o complexo de restaurante, loja, sala de estar e uma vasta área desativada que deve funcionar apenas para eventos. Dá para se sentir um coadjuvante de uma produção bollywood. Mjadra.
Serviço: o mâitre foi bem receptivo e nos acomodou num ambiente com ar condicionado, no meio do salão. O serviço, de um modo geral, foi correto. O garçom que fez o pedido da sobremesa estava muito mal-humorado e nos atendeu de um modo destoante do restante da equipe. 2 lentilhas.
Comida: a entrada vale a visita. uma vasta roda de temperos e potinhos com condimentos típicos. Deixa pra trás os concorrentes. O único senão é que a cesta de pães era bem pequena. O prato principal era um combinado mais pra linha fast-food, sem a mesma apresentação colossal da entrada. A sobremesa é bem pequena e sem-gracinha. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Vintage
Fomos conhecer essa casa anexa à loja Ville Du Vin. Foi nossa melhor experiência do SPRW.
Ambiente: a casa de vinhos é um espetáculo, com aquele ar sombrio e cheiro de madeira. O restaurante segue a linha tradicional. Uma janela acima das escadas deixa à mostra a cozinha e os bem-humorados cozinheiros. O mâitre nos reservou uma mesa na varanda, longe do movimento da sala principal, e isso trouxe uma harmonia e tranquilidade quase zen-budista. Mjadra.
Serviço: excelente. O mâitre tinha um sotaque levemente carregado e parecia conhecer muito sobre os pratos, os vinhos e as harmonizações. Me senti num bistrô de Paris. Logo nos perguntou que tipo de água gostaríamos de beber, a fim de evitar qualquer tipo de leviandade como, por exemplo, pedir cerveja ou Coca-Cola. Mjadra.
Comida: de primeiríssima qualidade. O restaurante segue a linha tradicional, mas resolveu trazer ao cardápio promocional as receitas mais criativas. O filé de peixe ao molho de capim estava excelente. Só não leva a nota máxima porque a entrada, o prato principal e a sobremesa vieram em diminutas e contidas porções. Entre as sobremesas, a gelatina de mel com sorvete foi superior à mousse de chocolate. 4,5 lentilhas.
Avaliação geral: 4,5 lentilhas.
Bassi
Fazia muito tempo que eu não visitava essa churrascaria. Da última vez, ainda era em outra casa, menor, um pouco pra baixo da 13 de Maio. Por indicação, fugimos um pouco da rota bistrô/cozinha contemporânea e fomos comprovar se esse resgate conservador à marca que já foi patrocinadora do Maguila valeu a pena.
Ambiente: como chegamos bem cedo, antes de abrir, a sala de espera parecia só nossa, o que trouxe a sensação de conforto e bem-estar. O espaço é amplo e as mesas se acomodam bem, o que a faz se distinguir das churrascarias comuns. A decoração fica no meio-termo entre o cafona e o sofisticado. 3 lentilhas.
Serviço: atencioso, politicamente correto. O mâitre foi bem prestativo. O garçom demorou um pouco para nos servir as bebidas. 3 lentilhas.
Comida: cumpre o que promete. Indo na direção oposta da maioria dos estabelecimentos participantes, o Bassi não investe na variedade nem na criatividade dos pratos mas, em compensação, abusa da fartura. Aqui não tem essa de menos é mais. A entrada é o couvert da casa, um mix de pães, pimentão, berinjela, abobrinha, cenoura. O prato (único) é um caprichado bombom de alcatra com arroz carreteiro e farofa. De sobremesa, um protocolar sorvete crocante. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Crêpe de Paris
Estávamos em dúvida sobre qual restaurante iria nos fazer fechar a maratona com chave de ouro. O Voilá foi cotado, mas optamos por este pela descrição do cardápio e pela localização. Aos poucos, pudemos perceber que o lugar deixa clara sua opção de bistrô light, indo num caminho mais econômico que alguns similares: guardanapo de papel, talheres que não são trocados entre a entrada e o prato principal, e por aí vai.
Ambiente: o bistrô fica ao fundo de uma charmosa galeria a céu aberto e tem todo aquele charme sugerido pelas fotos. Apesar da viela ser estreia, o lugar é relativamente amplo. Um belo convite a um almoço ou jantar agradável. Portanto, esse clima mais intimista dispensa a música ao vivo, totalmente desnecessária para um ambiente que pede aquela conversinha ao pé do ouvido. 3 lentilhas.
Serviço: a hostess foi bem atenciosa e os garçons foram receptivos, mas o serviço ainda precisa de ajustes. Na mesa de trás, percebi que o garçom foi claro ao explicar ao cliente que, durante o SPRW, o bistrô não estava preparando outros pratos. Na hora de pedirmos a sobremesa, a garçonete não nos trouxe novamente o cardápio, tampouco soube explicar as opções. Quando pedimos a conta, a mesma garçonete nos explicou item por item cobrado, pois a máquina estava com defeito, mas foi meio grossa nesta explanação. O couvert artístico (opcional) foi cobrado, mas optamos por não pagar. 2 lentilhas.
Comida: a grande decepção. A entradinha, simples, prometia. Mas quando veio o prato principal, todas as expectativas foram por água abaixo. O filé de peixe estava insípido, frio e semicru por dentro. Imperdoável. Nem a sobremesa (um trivial crepe de doce de leite) salvou este fiasco. 1,5 lentilha.
Avaliação geral: 2 lentilhas.
Abaixo está minha avaliação sobre o recorte que fiz desta edição. Os restaurantes estão por ordem cronológica de visita. E, pra lembrar você, aqui vai a legenda de cotações que costumo fazer no blog:
Caldo = péssimo; 1 lentilha = ruim; 2 lentilhas = fraco/regular; 3 lentilhas = bom; 4 lentilhas = ótimo; mjadra = excelente.
Becco 388
Lugar agradável, que tem potencial.
Ambiente: aconchegante, porém pequeno e pouco funcional. Lembra os casarões antigos, o que dá um clima de intimidade. A arandela com velas já foi destaque da Vejinha, mas os corredores são estreitos, o banheiro é minúsculo e a área para a fila de espera é concorrida. 2,5 lentilhas.
Serviço: os garçons são simpáticos e atenciosos, mas o serviço ainda está um pouco atrapalhado. Era comum vê-los se esbarrando nos corredores, o que mostra que a coisa não flui. A dona chamou a atenção de um deles ao nosso lado. Foi servida uma sobremesa com um intervalo de mais de 15 minutos em relação à outra. Destaque para a hostess, simpática, prestativa e eficiente para organizar a fila e conduzir as pessoas às mesas. 2 lentilhas.
Comida: o melhor da casa. Entradinha honesta, que serve como um bom tiragosto. O prato principal (linguini com lascas de salmão) muito bem preparado. A sobremesa nada deixou a desejar. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 2,5 lentilhas.
Per Paolo - Vila Mariana
Fui conhecer essa casa num esquema meio diferente, com um grupo de pessoas da agência onde trabalho. Então o clima era outro, mais despojado, mais “bagunça”. A casa vende massas prontas e frascas, molhos, compotas, patês, etc. Transformá-la em restaurante parece ter sido uma adaptação de espaço. O lugar, ao lado de uma Lojas Americanas Express, num minicomplexo de lojas de um conjunto de prédios, nem parece fazer parte de tão badalado roteiro.
Ambiente: nada de especial. Parece um café com mesinhas um pouco mais arrumadas. Não havia um banheiro para homens e outro para mulheres, apenas um aposento único para as necessidades, com porta sanfonada. Faltou charme e estilo. 1,5 lentilhas.
Serviço: de boteco. Os garçons apenas anotavam os pedidos, sem tomar qualquer iniciativa fora dos padrões. Um deles não sei dizer se estava mal-humorado ou se é lacônico mesmo. Só faltou a caneta atrás da orelha e o bloquinho de anotações em papel cor-de-rosa. O couvert foi colocado à mesa sem nos consultarem se queríamos ou não. 1 lentilha.
Comida: honesta, apenas honesta. A saladinha de entrada não disse a que veio. Pedi um gnocchi de tomate seco ao molho ementhal. A porção estava satisfatória, relativamente farta até, mas fiquei procurando por muito tempo onde estava o sabor diferenciado do prometido queijo. 2,5 lentilhas.
Avaliação geral: 2 lentilhas.
Fillipa
É a segunda vez que vou ao lugar, que mantém sua proposta de cozinha contemporânea, misturando estilos e origens culinárias. As receitas são bem criativas e elaboradas, mas faltou diversificar um pouco mais em relação à edição anterior.
Ambiente: clean, organizado, correto. Sem muito luxo. O Fillipa é mais objetivo, mas não deixa de ser convidativo para um bate-papo um pouco mais longo. 3 lentilhas.
Serviço: mais prestativo e atencioso em relação à visita anterior. Rápido e eficiente, os garçons mostram que estão preparados para atender à demanda extra do evento. 4 lentilhas.
Comida: muito bem preparada. A entradinha seguiu a linha exótica. Como eu já tinha pedido o salmão ao curry na outra visita, optei desta vez pelo filé com penne feito com vodca, um prato mais conservador. Apesar de tradicional e simples, o sabor residual acentuado fez a diferença. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Dui
Fomos conhecer a badalada casa da chef Bel Coelho. Eles não fazem reservas e as pessoas se acomodam por ordem de chegada.
Ambiente: a casa é bem espaçosa, acomoda bem os frequentadores. Tudo muito confortável. Os toilettes são pequenos. Tem uma área verde que traz um respiro a mais e contrasta com os tons da estética moderna da casa. 4 lentilhas.
Serviço: equipe muito bem preparada para atender essa demanda. O atendimento flui. Não existem aquelas esperas desnecessárias, nem garçons que fingem que não te veem. 4 lentilhas.
Comida: de entrada, uma saladinha simples, mas muito bem preparada. O prato principal gerou opiniões opostas. Eu pedi um filé de St. Peter com tabule, que estava irretocável. Minha namorada pediu um risoto (muito bom) com steak de fraldinha, mas a carne estava dura, algo inadmissível para um restaurante deste calibre. Pela média, 2,5 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Félix Bistrô
Somos frequentadores deste restaurante e seu ambiente rústico. Eles sempre capricham nas escolhas do SPRW. Dentro da casa, o ambiente é mais familiar. Do lado de fora, à beira da piscina, o ambiente é mais romântico ou próprio para um bate-papo com amigos contemplando a natureza selvagem. Fomos lá no sábado da “hora do planeta”. Durante o período, o local funcionou à luz de velas, o que deu um aspecto visual bem agradável. Mas, infelizmente, nesse mesmo dia um grupo enorme reservou várias mesas para a comemoração de um aniversário, e essa farra de bebedeira e de cantar parabéns, além de destoar completamente do clima intimista do local, comprometeu a qualidade dos serviços.
Ambiente: um atrativo à parte. Você não sabe se está num sítio ou num patrimônio tombado, e essa dúvida é saudável. No inverno ou em dias de baixa temperatura, uns algodões nas escadas aumentam a sensação de cortejo. Mjadra.
Serviço: sempre muito rápido e prestativo, mas desta vez, por causa da pândega vizinha, deixou a desejar. Foi mais lacônico do que de costume, e os garçons estavam visivelmente incomodados com a imprevista baderna. Faltaram pães na entrada de um casal de amigos nossos. 2 lentilhas.
Comida: também ficou abaixo da média. O Félix costuma ser impecável, mas, desta vez, cometeu um deslize. Estávamos em 4 pessoas, e todos pediram o entrecôte com puré de mandioquinha. O purê estava especial, mas 2 filés do conjunto de pedidos apresentavam excesso de nervos e de gordura. 2 lentilhas.
Avaliação geral: 2,5 lentilhas.
Govinda
Fomos conhecer essa famosa casa de comida indiana, já que a gente costuma frequentar uma outra, o Tandoor. Como existem pouquíssimos restaurantes do gênero, fica mais fácil fazer a comparação. Aqui eles não são tão ortodoxos, pois fogem do trivial cordeiro e frango e colocam no cardápio opções com frutos do mar e até cometem a heresia de oferecer pratos de carne bovina.
Ambiente: o paraíso das novelas. O lugar é enorme e não faltam objetos e ornamentos da região. Exótico é pouco para descrever o complexo de restaurante, loja, sala de estar e uma vasta área desativada que deve funcionar apenas para eventos. Dá para se sentir um coadjuvante de uma produção bollywood. Mjadra.
Serviço: o mâitre foi bem receptivo e nos acomodou num ambiente com ar condicionado, no meio do salão. O serviço, de um modo geral, foi correto. O garçom que fez o pedido da sobremesa estava muito mal-humorado e nos atendeu de um modo destoante do restante da equipe. 2 lentilhas.
Comida: a entrada vale a visita. uma vasta roda de temperos e potinhos com condimentos típicos. Deixa pra trás os concorrentes. O único senão é que a cesta de pães era bem pequena. O prato principal era um combinado mais pra linha fast-food, sem a mesma apresentação colossal da entrada. A sobremesa é bem pequena e sem-gracinha. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Vintage
Fomos conhecer essa casa anexa à loja Ville Du Vin. Foi nossa melhor experiência do SPRW.
Ambiente: a casa de vinhos é um espetáculo, com aquele ar sombrio e cheiro de madeira. O restaurante segue a linha tradicional. Uma janela acima das escadas deixa à mostra a cozinha e os bem-humorados cozinheiros. O mâitre nos reservou uma mesa na varanda, longe do movimento da sala principal, e isso trouxe uma harmonia e tranquilidade quase zen-budista. Mjadra.
Serviço: excelente. O mâitre tinha um sotaque levemente carregado e parecia conhecer muito sobre os pratos, os vinhos e as harmonizações. Me senti num bistrô de Paris. Logo nos perguntou que tipo de água gostaríamos de beber, a fim de evitar qualquer tipo de leviandade como, por exemplo, pedir cerveja ou Coca-Cola. Mjadra.
Comida: de primeiríssima qualidade. O restaurante segue a linha tradicional, mas resolveu trazer ao cardápio promocional as receitas mais criativas. O filé de peixe ao molho de capim estava excelente. Só não leva a nota máxima porque a entrada, o prato principal e a sobremesa vieram em diminutas e contidas porções. Entre as sobremesas, a gelatina de mel com sorvete foi superior à mousse de chocolate. 4,5 lentilhas.
Avaliação geral: 4,5 lentilhas.
Bassi
Fazia muito tempo que eu não visitava essa churrascaria. Da última vez, ainda era em outra casa, menor, um pouco pra baixo da 13 de Maio. Por indicação, fugimos um pouco da rota bistrô/cozinha contemporânea e fomos comprovar se esse resgate conservador à marca que já foi patrocinadora do Maguila valeu a pena.
Ambiente: como chegamos bem cedo, antes de abrir, a sala de espera parecia só nossa, o que trouxe a sensação de conforto e bem-estar. O espaço é amplo e as mesas se acomodam bem, o que a faz se distinguir das churrascarias comuns. A decoração fica no meio-termo entre o cafona e o sofisticado. 3 lentilhas.
Serviço: atencioso, politicamente correto. O mâitre foi bem prestativo. O garçom demorou um pouco para nos servir as bebidas. 3 lentilhas.
Comida: cumpre o que promete. Indo na direção oposta da maioria dos estabelecimentos participantes, o Bassi não investe na variedade nem na criatividade dos pratos mas, em compensação, abusa da fartura. Aqui não tem essa de menos é mais. A entrada é o couvert da casa, um mix de pães, pimentão, berinjela, abobrinha, cenoura. O prato (único) é um caprichado bombom de alcatra com arroz carreteiro e farofa. De sobremesa, um protocolar sorvete crocante. 3 lentilhas.
Avaliação geral: 3 lentilhas.
Crêpe de Paris
Estávamos em dúvida sobre qual restaurante iria nos fazer fechar a maratona com chave de ouro. O Voilá foi cotado, mas optamos por este pela descrição do cardápio e pela localização. Aos poucos, pudemos perceber que o lugar deixa clara sua opção de bistrô light, indo num caminho mais econômico que alguns similares: guardanapo de papel, talheres que não são trocados entre a entrada e o prato principal, e por aí vai.
Ambiente: o bistrô fica ao fundo de uma charmosa galeria a céu aberto e tem todo aquele charme sugerido pelas fotos. Apesar da viela ser estreia, o lugar é relativamente amplo. Um belo convite a um almoço ou jantar agradável. Portanto, esse clima mais intimista dispensa a música ao vivo, totalmente desnecessária para um ambiente que pede aquela conversinha ao pé do ouvido. 3 lentilhas.
Serviço: a hostess foi bem atenciosa e os garçons foram receptivos, mas o serviço ainda precisa de ajustes. Na mesa de trás, percebi que o garçom foi claro ao explicar ao cliente que, durante o SPRW, o bistrô não estava preparando outros pratos. Na hora de pedirmos a sobremesa, a garçonete não nos trouxe novamente o cardápio, tampouco soube explicar as opções. Quando pedimos a conta, a mesma garçonete nos explicou item por item cobrado, pois a máquina estava com defeito, mas foi meio grossa nesta explanação. O couvert artístico (opcional) foi cobrado, mas optamos por não pagar. 2 lentilhas.
Comida: a grande decepção. A entradinha, simples, prometia. Mas quando veio o prato principal, todas as expectativas foram por água abaixo. O filé de peixe estava insípido, frio e semicru por dentro. Imperdoável. Nem a sobremesa (um trivial crepe de doce de leite) salvou este fiasco. 1,5 lentilha.
Avaliação geral: 2 lentilhas.
terça-feira, 29 de março de 2011
Gelo e limão
Outro dia um amigo meu colocou no Facebook que sente saudades de encontrar nos supermercados a batata sabor batata. Concordo plenamente com ele. Hoje a capacidade inventiva é tão grande que a famosa batata chips considerada “original” limita-se a ocupar uma pequena porção do fundo de uma gôndola, sem tarja de preço, com poucos saquinhos disponíveis de marcas genéricas e prazos de validade beirando o vencimento. O monopólio territorial cabe aos transformistas, tubérculos processados que querem se sentir sabor queijo, ervas finas, presunto, churrasco. Alguns exemplares são ainda mais pretensiosos e nutrem uma admiração ainda maior pelo luxo da esquizofrenia: presunto parma, peito de peru, picanha. Outros tentam se aproximar ao gosto popular, como se fossem convidados da festa da cerveja com pagode, e perdem a noção do ridículo: frango à passarinho, calabresa, cheddarburger. Coitadas das batatinhas quando nascem. Reféns de uma indústria que precisa a toda hora se reinventar, se reciclar, criar metabolismos transgênicos para dar vida ao nada. A Ruffles até lançou um concurso para premiar os autores das ideias mais mirabolantes de se tentar disfarçar a mesmice. Já tô imaginando os rompantes de criatividade: batatas ao pesto, à carbonara, sabor queijo brie, salmão, ovo de codorna, chester. Não sou exatamente um ortodoxo, mas fica difícil engolir essas mutações gustativas que tentam encobrir a crise de identidade das fábricas: oferecer uma infinidade de sabores para os produtos sem sabor.
Há um tempo atrás, em algum lugar do planeta, algum infeliz teve a brilhante ideia de alterar o sabor da irretocável Coca-Cola, deus-sol de todos os refrigerantes. Para dar um sabor extra, ou talvez para reduzir os possíveis efeitos colaterais do néctar escuro gaseificado, o herege sugeriu adicionar uma rodela de limão. O que era pra ser um agradinho ao chato, ou um diferencial de um determinado estabelecimento, passou a ser modinha. De uma década pra cá, é praticamente impossível se tomar a Coca como ela veio ao mundo, em seu sabor “original”, Coca-Cola sabor Coca-Cola. Mesmo que você peça, pausadamente e com ênfase nas suas preferências, dificilmente irão atender o seu pedido. Na linha de produção dos bares e restaurantes, a famosa “Coca com gelo e limão” é default de fábrica. E se você fizer um pedido ainda mais personalizado, suscetível a confusões ainda maiores, como por exemplo sem gelo e com limão, pura com gelo, com limão espremido, torça para que a pessoa do lado de lá do balcão seja um Ph.D. em Física Quântica. A exceção virou regra. Todo estabelecimento, independentemente da região ou da classe social que pretende abrigar, coloca em seus refrigerantes algum pedaço de fruta, como se isso fosse o exótico chamariz de vendas. É o limão na Coca, a laranja no guaraná... próximo passo seria o quê? Fanta Uva com gelo e acerola?
É possível compreender a vontade do tal consumidor se sentir exclusivo. Além do sabor acentuado da fruta, a acidez do limão é capaz de quebrar algumas propriedades da Coca, um produto predominantemente alcalino, tornando a bebida mais suave ao paladar. Mas isso é uma hipótese, a meu ver, sem muito sentido. Não vejo muita lógica nesta fórmula de equilíbrio gástrico. Pedir Coca-Cola com gelo e limão é o mesmo que ver um filme pornô com a Pamela Anderson e o Tiririca. Existe aí uma relação de contrapesos que não se sustenta. Sei que é pedir muito a volta da pureza e da inocência dos ingredientes das mercadorias de antanho, mas o que vemos hoje é um bacanal de quitutes e leviandades. De complicado, já chega o marketing. Quero voltar a me embriagar com a simplicidade borbulhante da equação primitiva da Coca-Cola e seus 418 compostos químicos. Não preciso mais do que isso.
Há um tempo atrás, em algum lugar do planeta, algum infeliz teve a brilhante ideia de alterar o sabor da irretocável Coca-Cola, deus-sol de todos os refrigerantes. Para dar um sabor extra, ou talvez para reduzir os possíveis efeitos colaterais do néctar escuro gaseificado, o herege sugeriu adicionar uma rodela de limão. O que era pra ser um agradinho ao chato, ou um diferencial de um determinado estabelecimento, passou a ser modinha. De uma década pra cá, é praticamente impossível se tomar a Coca como ela veio ao mundo, em seu sabor “original”, Coca-Cola sabor Coca-Cola. Mesmo que você peça, pausadamente e com ênfase nas suas preferências, dificilmente irão atender o seu pedido. Na linha de produção dos bares e restaurantes, a famosa “Coca com gelo e limão” é default de fábrica. E se você fizer um pedido ainda mais personalizado, suscetível a confusões ainda maiores, como por exemplo sem gelo e com limão, pura com gelo, com limão espremido, torça para que a pessoa do lado de lá do balcão seja um Ph.D. em Física Quântica. A exceção virou regra. Todo estabelecimento, independentemente da região ou da classe social que pretende abrigar, coloca em seus refrigerantes algum pedaço de fruta, como se isso fosse o exótico chamariz de vendas. É o limão na Coca, a laranja no guaraná... próximo passo seria o quê? Fanta Uva com gelo e acerola?
É possível compreender a vontade do tal consumidor se sentir exclusivo. Além do sabor acentuado da fruta, a acidez do limão é capaz de quebrar algumas propriedades da Coca, um produto predominantemente alcalino, tornando a bebida mais suave ao paladar. Mas isso é uma hipótese, a meu ver, sem muito sentido. Não vejo muita lógica nesta fórmula de equilíbrio gástrico. Pedir Coca-Cola com gelo e limão é o mesmo que ver um filme pornô com a Pamela Anderson e o Tiririca. Existe aí uma relação de contrapesos que não se sustenta. Sei que é pedir muito a volta da pureza e da inocência dos ingredientes das mercadorias de antanho, mas o que vemos hoje é um bacanal de quitutes e leviandades. De complicado, já chega o marketing. Quero voltar a me embriagar com a simplicidade borbulhante da equação primitiva da Coca-Cola e seus 418 compostos químicos. Não preciso mais do que isso.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Verão dos infernos
O verão é legal. O verão revitaliza, traz novas energias. As pessoas emanam felicidade, descontração e alto-astral nessa época do ano. Verão traz a exuberância das cores, das formas, dos corpos. O verão está diretamente ligado à sexualidade do povo tropical. É a melhor tradução imagética do Brasil. Metáforas poéticas associam o raiar do sol a um estado voluptuoso de alegria. Fabricantes de bronzeadores e de cerveja riem à toa com o expressivo aumento do consumo de suas marcas. Enfim, historicamente, o verão sempre esteve associado a coisas boas.
Mas os acontecimentos dos últimos verões fizeram a brincadeira perder a graça. Junto com a sua beleza alaranjada, o verão traz também o desabastecimento, as chuvas fortes e todas as consequências e desgraças desse caldo azedo. E não se trata de um fenômeno-surpresa não, como alguns alegam. Chuvas torrenciais têm dia e hora certa para acontecer. Uma série de fatores contribui para que esses espasmos meteorológicos assumam dimensões tão grandes e desastrosas. Por uma questão de comodidade, autoridades políticas alegam que se trata de acontecimentos anômalos, atípicos, cuja rápida propagação não permite medidas prévias de contenção das águas. Por causa do desequilíbrio ecológico, talvez a intensidade pluviométrica recente até justifique tal proposição. Mas é vergonhoso o país inteiro assistir a esse tipo de depoimento que dá a entender que os executivos do poder estejam de mãos atadas. Estamos vivendo isso tudo não somente por causa da fúria divina, mas também devido ao descaso em realizar obras de emergência que não dão votos, como a construção e manutenção de piscinões, um mutirão sério e efetivo de limpeza de bueiros, maior rigor na fiscalização de construções clandestinas em áreas de risco e uma série de outras medidas que poderiam atenuar os efeitos dramáticos dessa calamidade pública. Mas não. O jogo de empurra-empurra continua firme e forte. A culpa é histórica, cidades que cresceram sem planejamento. O progresso é inimigo das manifestações da natureza. A culpa é das pessoas que jogam lixo na rua e de sua falta de conscientização ambiental. A culpa é nossa. E devemos pagar caro por essa penitência.
Ver esse pandemônio todo na TV e a sensação de impotência da população mais frágil e vulnerável a essas intempéries causa uma sensação mista de comoção e indignação. Mas a raiva aumenta quando a chuva e o dar-de-ombros atinge o nosso curral. Só nessa temporada, chamei o técnico de informática três vezes para trocar equipamentos que pifaram por causa de um sistema energético igualmente pifado e falido. O governo prometeu acabar com o apagão e colocar o país na era da modernidade, mas tudo o que consegue nos oferecer é uma energia podre e suja. Em pleno Século 21 somos obrigados a nos cercar de estabilizadores e a tirar e colocar fios na tomada como baratas tontas. A cada dia que passa, fazemos figas para que nenhum mal maior aconteça nos nossos doces lares. Como se estivéssemos nas trevas da Idade Média, época em que se acreditava que o mundo ia acabar num dilúvio. Na segunda-feira passada, talvez o pior dos dias, fatídica data em que o dia virou noite, caiu uma árvore numa travessa da minha rua (é a segunda árvore que cai nesses últimos meses), bloqueando o trânsito. Soube depois que essa foi apenas uma das 180 ocorrências de caso semelhante, isso sem contar as centenas de milhares de alertas sobre semáforos mudos ou insandecidos. Chega! Não dá mais para conviver com esse caos. Como se não bastasse, questão de minutos após o desabamento de tal copa fiquei sabendo que uma vizinha nossa perdeu todos os seus bens (geladeira, móveis, colchões, computador, tudo) por causa da inundação em sua sala. Perdeu em minutos o que demorou a vida inteira para construir. Os pingos d’água caindo sobre a cara desolada da vizinha, cercada pela solidariedade dos outros vizinhos, foi uma cena indescritível. Um gesto que simboliza toda a vergonha da incompetência do engenheiro das obras da casa ao lado e da omissão da Prefeitura. Sei que essa angústia minha parece redundante e inócua para resolver os problemas da cidade, mas escrevo mais por uma questão de desabafo. A água está batendo na nossa bunda. Do jeito que as coisas vão indo empurradas com a barriga de esquistossomose, é bem capaz que no verão do ano que vem, o apocalíptico ano de 2012, pouco antes de o mundo acabar, a gente consiga fazer nossa última refeição de modo digno, cantando e dançando sobre a balsa.
Mas os acontecimentos dos últimos verões fizeram a brincadeira perder a graça. Junto com a sua beleza alaranjada, o verão traz também o desabastecimento, as chuvas fortes e todas as consequências e desgraças desse caldo azedo. E não se trata de um fenômeno-surpresa não, como alguns alegam. Chuvas torrenciais têm dia e hora certa para acontecer. Uma série de fatores contribui para que esses espasmos meteorológicos assumam dimensões tão grandes e desastrosas. Por uma questão de comodidade, autoridades políticas alegam que se trata de acontecimentos anômalos, atípicos, cuja rápida propagação não permite medidas prévias de contenção das águas. Por causa do desequilíbrio ecológico, talvez a intensidade pluviométrica recente até justifique tal proposição. Mas é vergonhoso o país inteiro assistir a esse tipo de depoimento que dá a entender que os executivos do poder estejam de mãos atadas. Estamos vivendo isso tudo não somente por causa da fúria divina, mas também devido ao descaso em realizar obras de emergência que não dão votos, como a construção e manutenção de piscinões, um mutirão sério e efetivo de limpeza de bueiros, maior rigor na fiscalização de construções clandestinas em áreas de risco e uma série de outras medidas que poderiam atenuar os efeitos dramáticos dessa calamidade pública. Mas não. O jogo de empurra-empurra continua firme e forte. A culpa é histórica, cidades que cresceram sem planejamento. O progresso é inimigo das manifestações da natureza. A culpa é das pessoas que jogam lixo na rua e de sua falta de conscientização ambiental. A culpa é nossa. E devemos pagar caro por essa penitência.
Ver esse pandemônio todo na TV e a sensação de impotência da população mais frágil e vulnerável a essas intempéries causa uma sensação mista de comoção e indignação. Mas a raiva aumenta quando a chuva e o dar-de-ombros atinge o nosso curral. Só nessa temporada, chamei o técnico de informática três vezes para trocar equipamentos que pifaram por causa de um sistema energético igualmente pifado e falido. O governo prometeu acabar com o apagão e colocar o país na era da modernidade, mas tudo o que consegue nos oferecer é uma energia podre e suja. Em pleno Século 21 somos obrigados a nos cercar de estabilizadores e a tirar e colocar fios na tomada como baratas tontas. A cada dia que passa, fazemos figas para que nenhum mal maior aconteça nos nossos doces lares. Como se estivéssemos nas trevas da Idade Média, época em que se acreditava que o mundo ia acabar num dilúvio. Na segunda-feira passada, talvez o pior dos dias, fatídica data em que o dia virou noite, caiu uma árvore numa travessa da minha rua (é a segunda árvore que cai nesses últimos meses), bloqueando o trânsito. Soube depois que essa foi apenas uma das 180 ocorrências de caso semelhante, isso sem contar as centenas de milhares de alertas sobre semáforos mudos ou insandecidos. Chega! Não dá mais para conviver com esse caos. Como se não bastasse, questão de minutos após o desabamento de tal copa fiquei sabendo que uma vizinha nossa perdeu todos os seus bens (geladeira, móveis, colchões, computador, tudo) por causa da inundação em sua sala. Perdeu em minutos o que demorou a vida inteira para construir. Os pingos d’água caindo sobre a cara desolada da vizinha, cercada pela solidariedade dos outros vizinhos, foi uma cena indescritível. Um gesto que simboliza toda a vergonha da incompetência do engenheiro das obras da casa ao lado e da omissão da Prefeitura. Sei que essa angústia minha parece redundante e inócua para resolver os problemas da cidade, mas escrevo mais por uma questão de desabafo. A água está batendo na nossa bunda. Do jeito que as coisas vão indo empurradas com a barriga de esquistossomose, é bem capaz que no verão do ano que vem, o apocalíptico ano de 2012, pouco antes de o mundo acabar, a gente consiga fazer nossa última refeição de modo digno, cantando e dançando sobre a balsa.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Great Place to Work
Recentemente, foi criado um meteórico blog, arrancado do ar no dia seguinte, que expunha um espaço aberto para que internautas anônimos fizessem suas avaliações sobre os principais diretores de criação do país. A brincadeira acabou de forma abrupta por causa do nível de qualidade dos comentários, em sua maioria vazios, ofensivos e que pouco demonstravam julgar as características profissionais dessa linha de frente das grandes agências. Mas não dá para tapar o sol com a peneira. Algumas verdades foram ditas, ainda que de maneira truculenta e rasteira.
Essa desmistificação de alguns ícones do mercado me chamou a atenção para ressuscitar uma pesquisa inédita do fim do ano passado, realizada pelo instituto Great Place to Work, especialista em ambientes de trabalho. Não sei exatamente quais foram os critérios e a metodologia da pesquisa, Só sei que foi adotada por profissionais que interagem com a área de Recursos Humanos e teve como principal universo os funcionários e colaboradores efetivados nessas agências. Entraram na base de avaliação agências com no mínimo 3 anos de mercado, 30 colaboradores permanentes, e credenciadas por alguma instituição representativa (CENP, ABAP, ABEMD, etc.).
O resultado foi uma grande surpresa para todo mundo. Na época, fiz uma espécie de quiz com as pessoas da agência onde eu trabalhava. Os palpites iam pro aparentemente óbvio, que levavam em conta a projeção no mercado das agências consideradas mais criativas: Almap, F/Nazca, Talent, África, e por aí vai. Todos erraram. Se fosse um volante de loteria esportiva, eu diria que aquele ranking foi uma grande zebra do primeiro ao último colocado. Das agências que conseguem conciliar faturamento, criatividade e best place to work, só a Fischer/Fala entrou.
Esse resultado espantoso serve como indicador para as agências reverem seus conceitos e suas posturas no mercado. Primeiro, o ranking evidenciou uma tendência: muitas agências below-the-line, de comunicação integrada, marketing interativo e afins: Bullet, New Style, E/Ou, Netza, F/Biz, Biruta, entre outras. Isso denota que não é pelo fato de que a verba total destinada ao advetising convencional esteja diminuindo progressivamente que faz com que as empresas que comem pelas beiradas tenham que entrar de maneira predatória. Essas 15 agências provam que é possível oferecer qualidade de vida mesmo quando o core business não é (ou pelo menos não era até uns 10 anos atrás) dos mais almejados quando se ingressa na profissão: o anúncio de página dupla, o comercial de 1 minuto no Fantástico, o outdoor com aplique banido pelo nosso alcaide e sua Lei Cidade Limpa.
Que o ranking de faturamento não andava necessariamente junto com o ranking de prêmios e estatuetas, isso já podia ser constatado há algumas décadas. No decorrer dos tempos, algumas megagências líderes em arrecadação mostraram-se criativamente acomodadas, caretas, com uma estrutura pesada e um alinhamento com marcas que não permite alçar altos voos, tendo que se submeter aos policies rígidos e engessados de seus clientes robóticos. Mas a grande novidade agora é que a criatividade nem sempre está alinhada ao prazer de trabalhar. Como explicar a ausência das agências que um dia foram sonho de consumo? Eu corro o risco de lançar algumas hipóteses. Os pesquisados pelo RH optaram pelo trabalho harmônico em equipe ao invés da competitividade das duplas. Assim como no futebol ou em outras profissões de grande visibilidade e vida profissional curta, os altos salários tornaram-se uma realidade para os esmeraldas do mercado e um mito para a grande massa de obra que está começando ou que ainda não encontrou uma grande oportunidade de mostrar seu valor. Muitos recém-nascidos submetem-se ao trabalho semiescravo em troca de estar numa agência de grife. É sabido que a carga horária nas agências tidas e projetadas como criativas é quase desumana. O que chega a ser um contrassenso, pois o publicitário precisa de referências externas tanto quanto oxigênio. Não bastasse a carga horária massuda, todos sabem que o stress impera nas empresas que fazem de tudo em busca de uma grande ideia. Alguns bem-aventurados pagam esse preço alto para se manter colocados nessas agências. Mas, graças a essa pesquisa, nota-se que uma boa parte está desiludida ou cansada desse discurso moderno e irreverente mas que, na prática, pouco difere do feudalismo medieval.
Mas também não vamos generalizar. Existem agências tradicionalmente criativas que ainda valorizam o sangue humano. Empresas que entendem que seu maior patrimônio são as pessoas, e que oferecer a elas condições dignas de trabalho só faz aumentar a produtividade e a inspiração. O que não quer dizer que dá para se levar a sério tudo quanto é medida paliativa. Desde que o computador mostrou ser um grande vilão à saúde humana, algumas agências passaram a contar com serviços de massagem e shiatsu, instalaram mesas de bilhar e de pebolim, puffs, lounge, o diabo. Mas essa parafernália toda é só um disfarce, um aparato estético para agradar visitas e impressionar clientes. Dessas agências best to work, algumas até podem ter lá o seu recanto do lazer, porque afinal de contas ninguém é de ferro. Mas entraram no ranking porque provavelmente têm muito mais a oferecer para sua equipe. Chegaram low profile, mas foram chegando. E ficaram. E tomara que continuem agradando cada vez mais seus colaboradores. E que as demais sigam esse modelo para pensarem criativamente como poderão, quem sabe um dia, voltar a ser uma das melhores agências para se trabalhar.
Essa desmistificação de alguns ícones do mercado me chamou a atenção para ressuscitar uma pesquisa inédita do fim do ano passado, realizada pelo instituto Great Place to Work, especialista em ambientes de trabalho. Não sei exatamente quais foram os critérios e a metodologia da pesquisa, Só sei que foi adotada por profissionais que interagem com a área de Recursos Humanos e teve como principal universo os funcionários e colaboradores efetivados nessas agências. Entraram na base de avaliação agências com no mínimo 3 anos de mercado, 30 colaboradores permanentes, e credenciadas por alguma instituição representativa (CENP, ABAP, ABEMD, etc.).
O resultado foi uma grande surpresa para todo mundo. Na época, fiz uma espécie de quiz com as pessoas da agência onde eu trabalhava. Os palpites iam pro aparentemente óbvio, que levavam em conta a projeção no mercado das agências consideradas mais criativas: Almap, F/Nazca, Talent, África, e por aí vai. Todos erraram. Se fosse um volante de loteria esportiva, eu diria que aquele ranking foi uma grande zebra do primeiro ao último colocado. Das agências que conseguem conciliar faturamento, criatividade e best place to work, só a Fischer/Fala entrou.
Esse resultado espantoso serve como indicador para as agências reverem seus conceitos e suas posturas no mercado. Primeiro, o ranking evidenciou uma tendência: muitas agências below-the-line, de comunicação integrada, marketing interativo e afins: Bullet, New Style, E/Ou, Netza, F/Biz, Biruta, entre outras. Isso denota que não é pelo fato de que a verba total destinada ao advetising convencional esteja diminuindo progressivamente que faz com que as empresas que comem pelas beiradas tenham que entrar de maneira predatória. Essas 15 agências provam que é possível oferecer qualidade de vida mesmo quando o core business não é (ou pelo menos não era até uns 10 anos atrás) dos mais almejados quando se ingressa na profissão: o anúncio de página dupla, o comercial de 1 minuto no Fantástico, o outdoor com aplique banido pelo nosso alcaide e sua Lei Cidade Limpa.
Que o ranking de faturamento não andava necessariamente junto com o ranking de prêmios e estatuetas, isso já podia ser constatado há algumas décadas. No decorrer dos tempos, algumas megagências líderes em arrecadação mostraram-se criativamente acomodadas, caretas, com uma estrutura pesada e um alinhamento com marcas que não permite alçar altos voos, tendo que se submeter aos policies rígidos e engessados de seus clientes robóticos. Mas a grande novidade agora é que a criatividade nem sempre está alinhada ao prazer de trabalhar. Como explicar a ausência das agências que um dia foram sonho de consumo? Eu corro o risco de lançar algumas hipóteses. Os pesquisados pelo RH optaram pelo trabalho harmônico em equipe ao invés da competitividade das duplas. Assim como no futebol ou em outras profissões de grande visibilidade e vida profissional curta, os altos salários tornaram-se uma realidade para os esmeraldas do mercado e um mito para a grande massa de obra que está começando ou que ainda não encontrou uma grande oportunidade de mostrar seu valor. Muitos recém-nascidos submetem-se ao trabalho semiescravo em troca de estar numa agência de grife. É sabido que a carga horária nas agências tidas e projetadas como criativas é quase desumana. O que chega a ser um contrassenso, pois o publicitário precisa de referências externas tanto quanto oxigênio. Não bastasse a carga horária massuda, todos sabem que o stress impera nas empresas que fazem de tudo em busca de uma grande ideia. Alguns bem-aventurados pagam esse preço alto para se manter colocados nessas agências. Mas, graças a essa pesquisa, nota-se que uma boa parte está desiludida ou cansada desse discurso moderno e irreverente mas que, na prática, pouco difere do feudalismo medieval.
Mas também não vamos generalizar. Existem agências tradicionalmente criativas que ainda valorizam o sangue humano. Empresas que entendem que seu maior patrimônio são as pessoas, e que oferecer a elas condições dignas de trabalho só faz aumentar a produtividade e a inspiração. O que não quer dizer que dá para se levar a sério tudo quanto é medida paliativa. Desde que o computador mostrou ser um grande vilão à saúde humana, algumas agências passaram a contar com serviços de massagem e shiatsu, instalaram mesas de bilhar e de pebolim, puffs, lounge, o diabo. Mas essa parafernália toda é só um disfarce, um aparato estético para agradar visitas e impressionar clientes. Dessas agências best to work, algumas até podem ter lá o seu recanto do lazer, porque afinal de contas ninguém é de ferro. Mas entraram no ranking porque provavelmente têm muito mais a oferecer para sua equipe. Chegaram low profile, mas foram chegando. E ficaram. E tomara que continuem agradando cada vez mais seus colaboradores. E que as demais sigam esse modelo para pensarem criativamente como poderão, quem sabe um dia, voltar a ser uma das melhores agências para se trabalhar.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Oscar, a rede social
O cinema não deve acrescentar, deve subtrair. Pelo menos é o que eu penso e espero de um bom filme. Um filme consegue ser definitivo quando eu entro na sala com certezas e saio com dúvidas. Quando ele desconstrói ao invés de revigorar. Filmes que provocam, que incomodam, não são apenas aqueles que tocam em temas polêmicos ou mostram cenas ditas “fortes” sem pudor. São aqueles que, de alguma maneira, me consomem aos poucos com uma certa intensidade e insistência. Como se fossem uma cefaleia. Entro na sala com um organograma mais ou menos encaixadinho e saio dela com o quebra-cabeça todo desmontado. E olha que não é fácil desmontar um quebra-cabeça. Não basta apenas criar um roteiro todo confuso, hermético e onírico, como em A Origem, e sugerir desfechos múltiplos. Às vezes, a complexidade à qual me refiro está na pureza da simplicidade, como é o caso do macaco de olhos vermelhos do Tio Boonme, que Pode Recordar suas Vidas Passadas. O bom cinema não precisa me jogar na cara a minha profunda ignorância em solucionar epílogos mirabolantes. Eu não sou o Sherlock Holmes da Sétima Arte. Claro que o cinema de emboscada pode ser muito bom, às vezes uma obra-prima, como é o caso de boa parte dos trabalhos do Kubrick ou do Lynch. Mas eu me identifico mais com os filmes que me fazem repensar os valores de vida, os conceitos sobre a arte, sobre planos e espaços, sobre a linguagem, sobre o código. Filmes que, ao invés de me edificarem, me mutilam, que fazem me sentir bem pequenininho pra entender esse caótico mundo que nos assola.
Dito isso, volto a reforçar, com uma certa redundância, que a cerimônia do Oscar em nada me atrai ou me empolga. Além da premiação em si ser um porre, de tão demorada e enfadonha que é, já faz alguns anos que me desligo de torcer ou acompanhar a celebração dos favoritos indicados. Primeiro, porque é claro que o Oscar fica muitos passos atrás de outros festivais mais sérios e plurais, como Cannes, Berlim, Veneza. Estes (ainda) conseguem trazer um pouco daquele cinema que eu coloquei no começo do texto, talvez por aceitar melhor o corpo crítico e compor um quadro mais heterogêneo nas fases pré-seletivas. Mas a mediocridade do Oscar está mais em todo esse glamour, essa cafonice de estender tapete vermelho, discutir quem é que tá bem vestido ou não para a entrega da estatueta. Isso não tem nada a ver com cinema. Fora essa babaquice toda, os filmes candidatos ao mais aclamado prêmio mundial até que são razoáveis, bons, assistíveis. O problema deles é que, na maioria dos casos, não são filmes suficientemente fortes para ficar retidos na memória. Passada a euforia, voltam a figurar apenas nos arquivos do imdb.
Creio que a explicação dessa seleção de filmes voláteis, efêmeros, facilmente esquecíveis, esteja no processo como um todo, mas recai principalmente nos nomes. Tirando alguns exemplos raros de diretores queridinhos da América que se inspiram no próprio cinema para fazer sua obra, como Clint Eastwood, os irmãos Coen e mais algum outro caso que não me ocorre no momento, os demais indicam e são indicados pelo coleguismo, tudo na base do QI e da política da boa amizade. O Oscar nada mais é do que uma versão reduzida e estilizada do Facebook, um compêndio cinematográfico de uma rede social. Só falta os integrantes da Academia darem seus votos clicando no botão “curtir”. E os nomes em voga ultimamente têm claros indícios de que frequentaram a mesma escola e foram pré-aprovados pelo mesmo Concílio de Trento: Darren Aronofsky, Christopher Nolan, David Fincher, Sam Mendes, e por aí vai. Assim como a cerimônia, esses diretores abusam de seu cinema-desfile, em que pecar por excesso não é pecado, mas sim uma virtude. Trata-se do novo cinema de firulas, de malabarismos cênicos, câmeras rodopiantes, roteiros vertiginosos. Um tipo de cinema que vangloria o rococó do mise en scéne disfarçado de filme-problema. A Academia tem caído nas armadilhas desses truqueiros e seus filmes afetadinhos, onde tudo parece artisticamente belo e irretocável, onde não há espaço para as impurezas e as imperfeições da arte que imita a vida. Já se foi o tempo do cinema em perspectiva, que usa o próprio cinema como matéria-prima. Hoje parece que todos esses jovens cineastas vieram de uma geração espontânea, com suas regras e seus estilos determinantes. Acabou o cinema-conjunto, pensado como unidade e exercitado como uma somatória. Hoje os filmes que recebem os holofotes do Oscar (até talvez por uma questão de facilitar a premiação) são aqueles divididinhos, filmes pensados e realizados por camadas, onde fica fácil enxergar quando termina o trabalho de um profissional e começa o do outro. Essa celebração por categorias, se não chega a ser criminosa, no mínimo quebra o paradigma estrutural do cinema no que diz respeito à sua coerência. Um ator não está ali nas telas necessariamente para traduzir as intenções do diretor, que conduz sua câmera a serviço de uma ideia. Para um ator levar pra casa o prêmio, ele tem que se entregar fisicamente ao papel, mudar a voz, perder vários quilos, quebrar a unha do dedo do pé, esborcinar-se para exibir a dificuldade e a sofreguidão de estar em cena, ao invés de simplesmente... estar em cena. Entre outras fragilidades, o Oscar contempla meramente o resultado estético, o imediatismo do impacto. Valores menos contemplativos e mais substanciais dificilmente são colocados em questão. Isso pra mim não é simplicidade, é simplismo. Filmes candidatos ao Oscar são bonitinhos, mas ordinários. Nada me acrescentam. E pior: nada me subtraem.
Dito isso, volto a reforçar, com uma certa redundância, que a cerimônia do Oscar em nada me atrai ou me empolga. Além da premiação em si ser um porre, de tão demorada e enfadonha que é, já faz alguns anos que me desligo de torcer ou acompanhar a celebração dos favoritos indicados. Primeiro, porque é claro que o Oscar fica muitos passos atrás de outros festivais mais sérios e plurais, como Cannes, Berlim, Veneza. Estes (ainda) conseguem trazer um pouco daquele cinema que eu coloquei no começo do texto, talvez por aceitar melhor o corpo crítico e compor um quadro mais heterogêneo nas fases pré-seletivas. Mas a mediocridade do Oscar está mais em todo esse glamour, essa cafonice de estender tapete vermelho, discutir quem é que tá bem vestido ou não para a entrega da estatueta. Isso não tem nada a ver com cinema. Fora essa babaquice toda, os filmes candidatos ao mais aclamado prêmio mundial até que são razoáveis, bons, assistíveis. O problema deles é que, na maioria dos casos, não são filmes suficientemente fortes para ficar retidos na memória. Passada a euforia, voltam a figurar apenas nos arquivos do imdb.
Creio que a explicação dessa seleção de filmes voláteis, efêmeros, facilmente esquecíveis, esteja no processo como um todo, mas recai principalmente nos nomes. Tirando alguns exemplos raros de diretores queridinhos da América que se inspiram no próprio cinema para fazer sua obra, como Clint Eastwood, os irmãos Coen e mais algum outro caso que não me ocorre no momento, os demais indicam e são indicados pelo coleguismo, tudo na base do QI e da política da boa amizade. O Oscar nada mais é do que uma versão reduzida e estilizada do Facebook, um compêndio cinematográfico de uma rede social. Só falta os integrantes da Academia darem seus votos clicando no botão “curtir”. E os nomes em voga ultimamente têm claros indícios de que frequentaram a mesma escola e foram pré-aprovados pelo mesmo Concílio de Trento: Darren Aronofsky, Christopher Nolan, David Fincher, Sam Mendes, e por aí vai. Assim como a cerimônia, esses diretores abusam de seu cinema-desfile, em que pecar por excesso não é pecado, mas sim uma virtude. Trata-se do novo cinema de firulas, de malabarismos cênicos, câmeras rodopiantes, roteiros vertiginosos. Um tipo de cinema que vangloria o rococó do mise en scéne disfarçado de filme-problema. A Academia tem caído nas armadilhas desses truqueiros e seus filmes afetadinhos, onde tudo parece artisticamente belo e irretocável, onde não há espaço para as impurezas e as imperfeições da arte que imita a vida. Já se foi o tempo do cinema em perspectiva, que usa o próprio cinema como matéria-prima. Hoje parece que todos esses jovens cineastas vieram de uma geração espontânea, com suas regras e seus estilos determinantes. Acabou o cinema-conjunto, pensado como unidade e exercitado como uma somatória. Hoje os filmes que recebem os holofotes do Oscar (até talvez por uma questão de facilitar a premiação) são aqueles divididinhos, filmes pensados e realizados por camadas, onde fica fácil enxergar quando termina o trabalho de um profissional e começa o do outro. Essa celebração por categorias, se não chega a ser criminosa, no mínimo quebra o paradigma estrutural do cinema no que diz respeito à sua coerência. Um ator não está ali nas telas necessariamente para traduzir as intenções do diretor, que conduz sua câmera a serviço de uma ideia. Para um ator levar pra casa o prêmio, ele tem que se entregar fisicamente ao papel, mudar a voz, perder vários quilos, quebrar a unha do dedo do pé, esborcinar-se para exibir a dificuldade e a sofreguidão de estar em cena, ao invés de simplesmente... estar em cena. Entre outras fragilidades, o Oscar contempla meramente o resultado estético, o imediatismo do impacto. Valores menos contemplativos e mais substanciais dificilmente são colocados em questão. Isso pra mim não é simplicidade, é simplismo. Filmes candidatos ao Oscar são bonitinhos, mas ordinários. Nada me acrescentam. E pior: nada me subtraem.
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