terça-feira, 30 de setembro de 2014

Mulheres

No meio da penumbra desértica estava ela, a mais bela. A mais divina. Reluzente, dona de uma inteligência rara e de um sorriso provocador. Desfilava em close suas curvas salientes e enigmáticas. Tinha admiradores de montão, desde os amigos mais antigos até as vítimas efêmeras de súbitos encontros. Sem sombra de dúvidas, ela fazia o coração acelerar. Podia escolher o homem que quisesse, na hora que bem entendesse. E, como num rapto, escolheu a mim. Decidiu, por critérios mais do que misteriosos, que eu seria a sua perfeita combinação algorítmica. E assim nós, o casal apaixonado, eu deslumbrado, unimos nossas mãos e fizemos juras de amor eterno. Mas a eternidade é um conceito vago e difícil de se concretizar. Aos poucos, ela foi se revelando mais interesseira do que interessante. Numa progressão geométrica, foi exigindo roupas caras e joias raras. Mais raras do que sua inteligência. Ela queria o luxo da vida. Carro do ano, saldo opulento em conta bancária, viagens por todos os cantos do planeta. Ela queria conhecer o mundo, mas não queria conhecer quem estava ali ao seu lado. Por conta de suas exigências tão altas quanto seu QI e pelo desprezo que começou a alimentar pela minha simplicidade, meu ego foi desinflando, até chegar ao mais raso nível geológico. Fui me sentindo prostrado. Chafurdado. Diante dessa desilusão arrebatadora como um pesadelo neo-realista, terminei.
A outra apareceu tão de repente quanto a mudança das estações. Apaixonou-se por mim sem eu precisar fazer o mínimo esforço. Dedicava a mim cada segundo de sua vida. Colocou-me no mais alto pedestal imaginável. Fazia elogios inspiradíssimos, fazia bolos, fazia poesias. Os bolos, confesso, eram mais saborosos do que as poesias. Elevou a minha autoestima aos patamares do Olimpo. Jurou que eu era seu primeiro verdadeiro amor. Ela, sim, fazia-me sentir a última bolacha do pacote. Mas eu não estava preparado para ser o primeiro, tampouco o último. E, com medo de tanta louvação, terminei.
A última mulher desta história apareceu no seu devido tempo: nem tão rápida e arrebatadora como uma lava vulcânica, nem devagar demais como se estivesse roendo pelas beiradas e fazendo reconhecimento de território. Simplesmente ela surgiu. Olhou pra mim e viu nada tão extraordinário nem tão irrisório. Apenas conseguiu me ver, me enxergar de verdade, na minha real dimensão. Sentiu por mim um sentimento tão natural que no começo até estranhei. Não estava deslumbrada, muito menos rigorosa em suas demandas. Ela foi me descobrindo aos poucos, decifrando o que existe de mais autêntico em mim. E esse seu jeito de ser, espontâneo, cativante e curioso como um pesquisador me encantou. Não me idolatrava, não me pisoteava. Foi a única que conseguiu perceber que a soma, o conjunto, é muito maior e mais profundo do que um mais um. Nesse sentido plural de enxergar a vida e aparar as nossas diferenças fomos nos aproximando na incalculável velocidade certeira e verídica do amor. Sem taquicardias, nem flacidez. E foi com ela, a mais completa e translúcida das mulheres que conheci, que resolvi ficar.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Bolo

Dia 1:
- Benzinhooo... amore...
- Oi, gata... fala...
- Queria que você me fizesse um bolo.
- Oi?
- É... acordei com uma vontaaade de comer bolo... ah, faz pra mim, vai... eu sei que você gosta de entrar na cozinha... por favor...
- Tudo bem, gata. Claro que faço. O que você não me pede chorando que eu não faço sorrindo? Que sabor?
- Ah, sei lá... usa sua imaginação. Desde que seja feito com gosto, com vontade, qualquer sabor tá valendo. Só queria que você me fizesse um bolo.
Marcos, o “benzinho” protagonista desta história, não hesita em atender o pedido da sua musa amada. Mesmo batendo uma sensação que mistura orgulho e pressão, pra ele não seria problema algum mostrar a ela seu talento culinário. Fazer o bolo seria uma maneira subliminar de impressioná-la, mesmo por meio de um submisso afazer. Poderia ser qualquer bolo. Mas Marcos entendeu o recado como um pedido especial. Seria o bolo para apagar eventuais desavenças do passado. Seria a concretização do amor que ele sentia por ela. Seria a prova mais do que cabal de que o coração dela só tinha lugar pra ele, mais ninguém. Por isso, tinha que ser um PUTA bolo, inesquecível na sua forma e no seu sabor. E a entrega da chave deste sonho tinha um nome: morango.
Marcos vai até o supermercado mais caro do bairro, escolhe as frutas mais frescas e mais belas. Morangos reluzentes, escarlatinos, mais vermelhos do que qualquer pedaço de carne sendo cortado na seção de açougue ao lado. Muda de fileira, escolhe o melhor creme de leite da gôndola. Daqueles importados, o triplo do preço de um similar nacional. Embalagem parruda, sofisticada, cheia de dizeres em Inglês. E continua suas compras seguindo essa proposta ostensiva.
Chegando em casa, Marcos arregaça as mangas, estala os dedos, coloca todos os ingredientes e recipientes sobre a mesa da cozinha e começa a delinear seu quadro artístico. Momento solitário de jorrar nas telas das formas toda a sua criatividade, com direito a respingos e tudo. Na verdade, essa obra dá um trabalho da porra. Mas imagine você, leitor, num registro comparativo, que o melhor bolo de morango das cercanias está sendo elaborado como num filme, com direito a closes, cortes rápidos e muita luz branca e direta sobre a mão na massa. Marcos se sentia o Robert de Niro, o Lawrence Olivier deste filme. Espalhou seu capricho obsessivo em cada etapa do processo culinário. Com uma precisão suíça, cronometrou cada instante de espera, da massa no forno, do creme na geladeira, quente e frio se produzindo para bailar num contraste mágico. E, esbanjando sua arrogância de autor, Marcos deu um toque magistral no epílogo de sua arte: adicionou sementes moídas de cardamomo e folhinhas picadas de hortelã na massa, só pra dar um aspecto especial à exclusiva iguaria e mostrar que ele é único no mundo.
- O que achou, amore?
Ela experimenta um pedaço da torta, faz aquele gesto palatal com a língua percorrendo todos os cantos internos da boca, procurando a exatidão orgástica do sabor. Não encontrou.
- Benhê... obrigada, mas... sabe o que é? Eu esperava uma coisa mais simples. Achei isso aqui muito, sei lá, muito rococó, cheio de detalhes, de firulas. Sou mais adepta à simplicidade, à praticidade, sacou? Tipo, bolo de fubá, bolo de chuva, bolo que lembra a infância, sabe? Eu vi que você teve o maior trabalhão, caprichou em cada detalhe, muuuuito obrigada, mas... ai, só de olhar esse monte de recheio, esse monte de creme que engorda eu fiquei enjoada. Nada pessoal, eu te adoro. Mas acho que tem momentos na vida que pra agradar basta um pequeno gesto, uma coisa mais... assim... simples... sabe?

Dia 2:
- Benzinhooo... amore...
- Oi...
- Faz uma música pra mim?
- ??
- É, eu sei que você gosta de compor e toca violão bem pra caramba... você bem que podia fazer uma música pra mim...
Simplicidade. Objetividade. Nada de opus 45, adagio, andante, allegro ma non tropo. Ela quer uma música, não uma orquestra. Rock básico, quatro por quatro. Sem virtuoses. Som pra agradar aos delicados tímpanos dela, não para servir de partitura em filarmônicas. Ela pede a crueza minimalista de um Sex Pistols com a sedução romântica de um Brian Ferry. Sem invencionices. Música direto ao ponto, como uma flecha de Cupido direto ao coraçãozinho dela.
- Gata, acabei. Veja o que você acha. Até gravei em CD.
Ela bota os fones de ouvido, dá um play, cheia de expectativas. E se essa brincadeira virar um hit? E se o nome dela circular em todas as rádios? Abre um sorrisão e, no silêncio do ambiente e na melodia acústica e abafada dos fones, esse sorriso vai murchando à medida que a música se desenvolve em seus ouvidos.


Dia 3:
- E aí, Rafa, belê?
- Marcããão! Quanto tempo, manooo! E aí, tudo em riba?
- E aí, tranquilo? Firmeza?
- Sussa, e você?
- Hmmm, mais ou menos, cara...
- O que houve? Contaí.
- A minha mina... ela me pediu uma música, aí eu criei. No começo foi difícil, mas depois não parei mais. Mostrei pra ela e... decepção total.
- Sério? Por quê?
- Ah, sei lá... Ela disse que esperava algo mais. Achou tudo muito batido, muito repetitivo, muito basicão demais. Faltou tempero, faltou inspiração. Nas palavras dela, claro. Ela imaginava uma coisa mais grandiosa, mais criativa. Ela queria uma música com M maiúsculo... nas palavras dela... com uma letra pra fazer pensar, fazer refletir... uma rima pra fazer chorar... e com acordes mais bem trabalhados... enfim, ela não curtiu muito.
- Pô, cara, que mal... fico triste por você... mas será mesmo que essa música que você fez não tá com nada? Pô, te conheço há mó tempão, eu sei do seu talento. Cantaí pra eu ver.
- Ah, não...
- Cantaí, pô...
- Tá, OK. Mas só o refrão, pode ser?
- Belê.
- “She loves you yeah yeah yeah... she loves you yeah yeah yeah...”.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Pontos

No começo ela parecia um ponto. O sinal gráfico mais cortante e repentino do discurso. O encerramento justo e lógico de sua maneira de se expressar ao mundo. Aquele rotundo percevejo cintilava a coerência de seu raciocínio cartesiano e de sua postura comportamental inequívoca. Um ponto obsessivo-compulsivo, virginiano, que organiza a mixórdia cerebral e a faz caber numa frase. Apenas um ponto, seco, escuro, pragmático. Uma dardejante e certeira partícula de infinito fincada no espaço mais milimétrico do papel. Vi nela o mais perfeito microcosmo que divide simetricamente o começo, o meio e o fim.

Mas aí vieram as vírgulas. Rabiscos tortos que oferecem pausas mais ansiosas e apressadas. Curvilíneas nesgas de tinta que abreviam, ofegantes, aquilo que ela desejava expor. Lascas impressas que interrompem continuadamente o prazer de existir. Eram vultos que iam e vinham, efêmeros, lancinantes, ululantes. Entre vírgulas ela estava presa.

Foi na inquietude deste desespero claustrofóbico que descobri nela as reticências. As dúvidas no lugar das certezas. As divagações, elucubrações, devaneios. Pontos equidistantes metralhados que refletiam seu aspecto mais dialético de enxergar a vida. Como um rastro, uma mancha uniforme solta no papel, as reticências mostravam sua fragilidade diante do universo. E isso a tornava mais interessante. Bolotinhas ínfimas, suaves como a brisa, revoavam sobre seu mistério. Ah, o mistério...
Atraído por ela, demonstrei minhas mais sinceras vontades. Parece que ela gostou. Mas, como foices sedentas de sangue, vieram as interrogações. Condição humana inevitável de querer descobrir o futuro, controlar o mundo. O que será de nós? Medo inerente do desconhecido. Quem é ela de verdade? O que ela quer de mim? Como um freio sobre o andar natural da linguagem, o mais retorcido dos elementos gráficos encharcou o livro de nossa história com empecilhos. Estamos fazendo a coisa certa? E se acabar?

Guerra é guerra. Sentimo-nos obrigados a esconder nossas fraquezas e convocamos a mais poderosa e afiada de nossas armas: o ponto de exclamação. Espadas reluzentes que bradam nossas convicções. Juntos erguemos nosso totem hercúleo, o ícone másculo do nosso convívio apaixonado, para afirmar categoricamente o que nos une.

E foi com a força de nossos elos amalgamados que, olhando um para o outro, fixamente, furtivamente, construímos a nossa harmônica composição gráfica: os dois pontos. Símbolo das expectativas do gozo de uma oração. Preparador físico da apoteose frasal. Como numa relação simbiótica, estes pingos estelares limparam toda a sujeira escrita pra deixar somente o melhor pro final. E, como dois olhos negros, esta somatória de caracteres viveu feliz para sempre nas incertezas do texto.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Santos

São Paulo. Santo André. São José dos Campos. Santa Tereza. Santa Bárbara d'Oeste. Santa Rita do Passa Quatro. São Sebastião. Santos. São Vicente. Parque São Domingos. Parque São Jorge. Bom Jesus da Lapa. São Caetano. São Bernardo do Campo. São Joaquim. São Judas. Santa Edwiges. Santa Eulália. São Roque. Águas de São Pedro. São Matheus. Parque São Lucas. Jardim Santo Antônio. Av. São João. Santa Catarina. São Tomé das Letras. Av. São Gualter.
É praticamente impossível ser ateu em algum lugar deste país.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Voo

Senhores passageiros, bom dia. Aqui é a comandanta da tripulação. Estamos sobrevoando a cidade de São Paulo... cidade pela qual tenho o maior orgulho, o maior respeito... cidade que me deu oportunidades, o terceiro maior PIB do país graças ao nosso governo. O tempo está bom e não apresenta nebulosidades nem está sujeito a instabilidades.
E por falar em instabilidades, eu gostaria de reforçar que estamos vivendo o período de maior estabilidade da história do nosso país. (pausa) Venho recebendo muitas críticas da oposição, mas eles se esquecem de que o nosso governo acabou com a miséria das refeições nos voos domésticos e passou a servir refeições de qualidade, balanceadas e nutritivas a todas as famílias de passageiros. Nós tivemos a coragem de enfrentar a resistência da elite e passamos a oferecer baldeações gratuitas entre os aeroportos com um único bilhete, durante o intervalo de 3 horas. (aplausos da primeira fila da tripulação) Triplicamos o número de voos fretados e quadruplicamos a nossa frota aérea. Modernizamos os aeroportos e acabamos com a sujeira dos sanitários. No nosso governo, pudemos implementar a igualdade: cada passageiro passou a ter direito a uma vaga para suas bagagens. Tudo isso graças à nossa capacidade, a nossa competência e o apoio da tripulação. Mas é preciso fazer mais, muito mais. Queremos oferecer serviços de voo executivo a toda a classe econômica. Sei que o percurso é difícil, com muitas nuvens e muitos urubus no meio do caminho, mas nada disso atinge a minha pessoa. A oposição vai lançar drones como obstáculo ao nosso crescimento. A mídia vai atribuir nossos avanços ao acidente aéreo que ocorreu com nosso companheiro. Não vou me intimidar com mentiras. Meu governo baseia-se na transparência, na vontade de mudar a trajetória deste avião. Queremos alcançar a Lua. Queremos subir adiante, fortalecer as relações diplomáticas com outros planetas, exportar nosso combustível aditivado para outras galáxias. Na nossa viagem, vamos dar continuidade aos avanços tecnológicos... rumo ao desenvolvimento... tecno... desen... tecnologia... desenvolvimento... do DESENVOLVIMENTO!! Tenham todos uma boa viagem. Muito obrigada.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Eleições

Como preparar um candidato para as eleições:
- Faça uma cara bem séria. Você não está aqui pra brincadeira. Mostre que você tem compromisso com a ética. Transmita seriedade, segurança, confiança ao seu eleitor.
- Hmmm, melhor não... Muito sério vai ficar sisudo demais. Ninguém quer mais um cara carrancudo e chato no poder. Abra um sorriso. Mostre que você é amigo do povo. O sorriso aberto passa simpatia, proximidade, como se você fosse praticamente da família do eleitor.
- Então faça uma cara séria, com olhar firme e fixo, pra passar seriedade, mas sem ficar com os músculos duros demais. Relaxe o pescoço. Mova um pouco os lábios pra cima, como se estivesse querendo abrir um sorriso. Mas não sorria demais, senão vão achar que você tá tirando sarro da cara do eleitor. Nem muito sério, nem muito sorridente.
- Use um terno com gravata. Político é uma profissão de respeito e deve passar respeito pro eleitor. Ninguém acredita mais nos políticos. Já um candidato bem vestido é visto com outros olhos. Passa a sensação de segurança. Quem cuida da cidade, do país, precisa antes de tudo cuidar da própria imagem.
- Acho que não. Use roupas mais leves, do dia a dia. Uma camisa polo tá de bom tamanho. Ternos muito caros dão a ideia de ostentação. Político de gravata é só mais um no meio de tantos. Já as roupas mais informais passam a sensação de proximidade, calor humano. Dá um aspecto mais moderno, jovial. O eleitor se identifica mais. Além disso, passa a impressão de ser mais novo.
- Vamos fazer o seguinte. Na hora de gravar o programa e dar entrevistas, use terno e gravata. Ao visitar um bairro da periferia, tire o paletó e deixe a gravata. Coloque o paletó de novo se for dar palestra em universidade. A não ser que a maioria dos estudantes presentes seja de calouros, aí você tira o paletó. Nos comícios, use só camisa, sem gravata. Desabotoe os botões de cima. E se chover, use o paletó de guarda-chuva.
- Abuse dos gestos. Use bastante as mãos, os braços, pra mostrar que você é articulado. Muitas vezes a TV pode estar no “mudo” no horário eleitoral. E com os gestos a pessoa entende suas propostas mesmo sem ouvi-las. Além disso, você vai atender a parcela de deficientes auditivos. Aponte para o eleitor pra mostrar que você está falando diretamente com ele, e não com a massa toda. Ele deve se sentir único, exclusivo, especial.
- De jeito nenhum. Apontar para o eleitor é sinal de autoritarismo, de comando unilateral de voz. O povo quer diálogo. Muito gestual passa insegurança. Seja firme, contido, econômico nos gestos. Menos é mais. Em vez de levantar as mãos, levante propostas.
- Algo por aí. Levante o braço e baixe rapidamente. Na dúvida, use só uma das mãos. Reparou que os melhores atores não precisam das duas mãos? Use mas não use, seja rápido nos gestos, com uma das mãos, como se estivesse tirando par ou ímpar, ou jokenpô.
- Você é um cara que superou obstáculos e passou por dificuldades. E está aí, firme e forte. Não vai me chorar diante da TV. Ninguém quer um candidato frouxo. Seja firme, esconda suas lágrimas, mostre toda a sua força, garra e coragem de vencer.
- Nada disso. Política é razão, mas também é emoção. Tente comover seu eleitorado, mostrando que também sofre com os problemas do país. Assim como eles. Abuse do tom emocional no discurso. Os brutos também amam. Entregue-se de coração nessa cmapanha pra passar naturalidade.
- Chore então apenas pelo olho esquerdo, OK?
- Você tem muita história pra contar. Fale bastante do seu passado, das suas lutas e conquistas. Mostre que você tem experiência. Convença o eleitor que você é um candidato capacitado e preparado para enfrentar os desafios.
- Na na ni na não. Político muito experiente, muito antigo, passa a ideia de coisa velha. O povo quer é inovação. Eles esperam a renovação das pessoas que vão ocupar os cargos. Seja autêntico, mostre que você é diferente de tudo o que está aí e que veio pra trazer frescor, ideias novas. Se falar muito do passado, vai sempre ter alguém que vai entrar no Google pra investigar sua vida, isso não é bom.
- É por aí. Você não é um ancião nem um bebezinho. Se perguntarem sobre a Ditadura, por exemplo, fale que você sofreu muito, participou das lutas, mas era novo demais pra estar lá presente. Fale que você é um dos fundadores do partido, mas faz parte de uma nova geração. Uma nova geração de fundadores do partido. Entendeu?
- Use palavras mais difíceis nos discursos. Você é, antes de tudo, um especialista. Mostre seu conhecimento técnico do assunto, sua experiência, sua vivência na área pública. Cuidado com os erros de Português. Ninguém mais quer um analfabeto no poder. Além disso, quanto mais difícil você falar, menores as chances do adversário discordar de você.
- Mas eu discordo. Se você falar rebuscado demais vai ficar pedante. E se o eleitor não entender o que você fala não vai votar em você. Seja simples, direto, objetivo. O povo tem que se identificar com você. Ele quer ver o seu espelho lá no poder. Uma pessoa que fala a mesma língua, portanto, entende dos mesmos problemas.
- Seja culto, mas não prolixo. Transmita conhecimentos sem ser pernóstico. Seja simples sem ser vulgar. Seja direto sem ser raso. Agora é com você. Boa sorte, estamos do seu lado nestas eleições.
E lá vamos nós votar em candidatos-sabonete. Sabonete neutro.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Frases

Frases que você provavelmente NUNCA vai ouvir:
- É melhor a gente dar um tempo. O problema não sou eu, é você. Eu até que sou bem resolvido, mas você é um pé no saco.
- Carlos, benzinho, adoooro quando você peida debaixo das cobertas. Faz de novo.
- Seu prato já está chegando. Não faço ideia de quanto tempo vai demorar, não fui à cozinha pra ver, nem lembro o que você pediu, mas tô falando isso só pra você parar de me encher o saco.
- Cortou o cabelo, amor? Ficou uma bosta. Melhor a gente pedir uma pizza que eu não quero sair com você assim.
- Prometo construir mais creches, mais escolas e mais hospitais, e sei que só vou conseguir cumprir no máximo 15% das minhas promessas porque são inviáveis ou fogem da minha alçada administrativa.
- Quer levar mais alguma coisa? Tá precisando de uma camisa, cinto, gravata, ou qualquer treco pra deixar encostado no armário? Compra aí, eu preciso vender mais do que a Sabrina pra aumentar minha comissão e poder comprar um iPhone.
- Não, eu não tô bão. Eu tô é bêbado, e tenho plena consciência de que meus reflexos diminuem consideravelmente se estiver ao volante.
- Não, eu não tô com dor de cabeça. Só não quero transar e tô com sono. Além disso, você trepa mal.
- É verdade, Pedro, seu time é MUITO melhor do que o meu. O meu só ganha partida quando o juiz rouba, e corre o risco de ser rebaixado. Só torço pra ele por uma questão hereditária.
- Dá uma ajuda, moço. Por favor. Eu preciso gastar em pinga e comprar crack. Essas crianças de colo nem são minhas.
- Se é meia ou inteira? Inteira. Eu te mostrei meu RG, carteirinha de estudante e comprovante de matrícula só pra você me conhecer melhor.
- Podem conversar à vontade aí atrás. Sei que é um filme do Godard que exige a máxima concentração, mas não ligo pra tagarelice e adorei quando você falou pro seu namorado que não tá entendendo nada.
- Eu tenho o pau pequeno.
- Tô cagando se a senhora tem mais de 65 anos. Entrei primeiro no ônibus e não tô a fim de ficar em pé. E não adianta olhar feio porque vou fingir que tô dormindo.
- Xiii, o assunto chegou. Então, “assunto”, preciso te dizer umas coisas. O pessoal aqui da firma fala mal de você direto porque...
- Joca, apesar de sermos amigos há mais de 10 anos e eu saber que você ensaiou durante 6 meses, achei a peça um lixo e a sua atuação medíocre. Só vim aqui na noite de estreia por causa do coquetel.
- Ao persistirem os sintomas, é melhor se benzer.
- Por favor, me conte mais sobre suas ex-namoradas.
- Ma... ma’m... oi... o filme não é muito bom porra nenhuma... minha mulher dormiu no meio... eu só vou passar porque aqui no SBT só passa merda...
- Sim, Bernadete, você demorou. Pra caralho. É a terceira cerveja que pedi. Isso sem contar os 20 minutos tentando achar uma vaga na rua.
- Não, não vamos marcar um almoço. Eu te encontrei aqui no shopping por acaso, foi só isso. Provavelmente nunca mais vou te ver na vida. Mas eu te sigo no Facebook.
- Aaah, desliga vocêêê... – Tá bom, tchau (plinc).


terça-feira, 10 de junho de 2014

Panaceia



Ele sofria de crise de ansiedade. Ela sofria de crise de depressão. Ele tinha transtorno obsessivo-compulsivo. Ela tinha transtorno afetivo sazonal. Ele, delírio persecutório. Ela, ablutomania.
Cada um no aconchego neurótico de seu lar, tomavam regularmente medicamentos para controlar suas manias, suas fobias e suas arritmias. Com suas diferentes posologias e patologias, procuravam o bem-estar por meio de drágeas e de cápsulas. O que conta, acima de tudo, é o perfeito encaixe à sociedade, da maneira mais equilibrada e sedada possível.
Calmantes. Tranquilizantes. Corticosteroides. Anti-inflamatórios. Antidepressivos. Ansiolíticos. Antiagregantes plaquetários. Anti-hipertensivos. Antiespasmódicos. Procinéticos. Cefalosporinas. Cardiotônicos digitálicos.
Soluções aquosas. Soluções químicas. Soluções salinas. Soluções diluídas. Soluções fracionadas. Soluções para seus problemas ácidos e nada básicos.
Até que, em vez de tomar comprimidos, um dia ele e ela resolveram tomar uma atitude. E pensaram fora da bula. Mudaram a titulação de suas dosagens diárias de felicidade. Estava claro como a caligrafia médica que a extirpação de suas angústias e o gozo máximo de suas vidas não eram vendidos em caixas ou blisters.
Essa vontade incontida de transformar seus mundos dopados foi maior que os frascos. Ele abandonou suas amitriptilinas. Ela, seus benzodiazepínicos. E passaram a acreditar mais no efeito placebo do amor-próprio. A melhor endorfina do universo.
Encontraram-se pelo acaso que as ciências biológicas não dão conta de explicar. Estavam, tanto ele quanto ela, mais reluzentes e menos anestesiados. E foi justamente por isso que um trouxe a energia aminoácida do outro. A paixão veio sem marcar consulta.
Passaram a sentir mútuos e sincronizados batimentos taquicárdicos, tremulações musculares e ruborizações epidérmicas, mas isso não era distúrbio nenhum. Instantes depois trocaram salivas e trocaram whatsapps. Meses depois, trocaram alianças. E, na doença e na doença, viveram felizes para sempre, até que a morte os prescreva.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Pai e filho


-       Já tão cedo, filho?
-       Já, pai. Era pra eu chegar mais tarde. Bem mais tarde. Mas deu merda.
-       Se divertiu bastante?
-       Nada... quer dizer, tive lá meus momentos de glória, mas no geral a coisa tava bem embaçada.
-       Embaçada?
-       Miada... quer dizer... sabe quando você espera uma puta festa? E você acha que vai ser o protagonista dela? E se dá conta de que aquilo tudo, aquela fantasia toda, é tudo a ostentação da decadência? E que você não aproveitou nem metade do que poderia aproveitar? Puta palhaçada...
-       Sei como é. Mas enfim, me conta...
-       Conta o quê?
-       O que você está fazendo aqui tão cedo, com essa cara de porre?
-       De porre? Você sabe que eu quase não bebo.
-       ...
-       Tô meio chateado, meio puto, meio pra baixo... tava no lugar errado e na hora errada, foi isso.
-       Por isso que você chegou aqui agora, sozinho?
-       Foi.
-       ...
-       Não devia pegar aquele atalho. Devia fazer o caminho que sempre faço. E outra: era pra eu ter ido embora faz tempo, o pessoal é que ficou insistindo pra que eu ficasse um pouco mais.
-       Que pessoal?
-       Da firma. A gente foi prum barzinho lá perto. E você sabe como é bêbado, né? Perde a noção do tempo, do espaço... “fica mais um pouco, a saideira, nhé nhé nhé”... Saí mais tarde de lá, cheguei mais cedo aqui.
(O pai começa a ficar preocupado e demonstra um interesse ainda maior) – Quer falar sobre isso?
(O filho quase começa a chorar. Com a voz meio engasgada, continua o assunto) – Não, não quero. Mas foi isso. Entrei numa rua escura... tinha tomado umas duas breja, e olha que eu nem bebo! Entrei numa rua escura, em direção ao meu carro, fui pegar a chave do bolso, tava meio breaco, meio lerdo, dificuldade de raciocínio, não percebi o movimento, aí o moleque veio pra cima de mim.
-       ??
-       Isso mesmo. Tava nervoso e tremendo o filho da puta. Pediu a chave do carro, queria que eu fosse junto, não sabia se ia no volante ou na carona, foi tudo muito confuso...
-       ...
-       Aí ele desistiu, começou a falar gíria, tava noiado o bostinha...
-       Mas o que ele queria de verdade?
-       EU NÃO SEI! Hoje em dia esses bandidos não são muito claros. (Com voz ensaiada, em tom de desprezo) “A bolsa ou a vida”... Lembra dessa frase manjada? Pelo menos ali tinha um objetivo muito claro, muito específico. Hoje você fica meio sem entender se o carinha quer sua grana, seu carro, seu celular, se vai fazer sequestro-relâmpago pra dar rolê em caixa eletrônico... uma bosta.
-       Uma bosta.
-       E com tanta tecnologia, rastreador, qualquer gesto em falso o neguinho acha que é reação. Às vezes eles atiram só porque acham que você tem cara de trouxa. A raiva é tão grande que mesmo você entregando tudo eles atiram pra matar. Sabem que não vai acontecer nada com eles...
-       Mas você entregou o que eles pediram?
-       Claro! Eles não, ELE. Preto safado, filho duma égua. Tava tão cheirado que nem prestou atenção direito no que eu tava fazendo. Achou que eu ia tirar uma arma do bolso, pode? Deu um tiro, depois mais dois pra garantir. E cá estou eu, na companhia do senhor.
-       Nem sei o que dizer, meu filho. Tô morrendo de saudades de todos vocês, mas por outro lado eu queria que você ficasse muito mais lá.
-       “Lá”, tsã... LÁ tá uma merda, pai. Cê nem faz ideia de como aquele mundinho tá ruim. Piorou muito...
-       E como tá a mãe?
-       Arrasada, né... pra ela o mundo acabou. Primeiro você, agora eu, ela tá BEM sem chão...
-       E como foi o enterro? Tinha muita gente?
-       Enterro nada. Preferi fazer que nem o senhor: cremado! Sem burocracia, sem taxa de manutenção, sem aquela encheção de saco que foi o enterro da vó. Não quero nem ocupar espaço nesse mundo de merda que eu deixo pra trás. Joguem minhas cinzas ao mar, perto de uma árvore, na Galeria do Rock, na puta que pariu.
-       Tava cheio?
-       Olha, sabe como é, né? Rolou aquela comoção geral, Facebook, post atrás de post e o caralho... até saiu notinha na imprensa... mais por causa do lance da violência urbana do que pelo legado que deixo. Foi um chororô virtual que o senhor não faz ideia. Mas no crematório mesmo, cheeeeio, cheio, não tava. Tava o tio, a família, alguns parentes que a gente só encontra em ocasiões especiais, mas poucos amigos, pouca gente. Tudo meio em cima da hora, vai ver o pessoal não foi por causa dos compromissos, da correria, sei lá... Mas também, foda-se. Até porque aquilo é uma salinha pra choro, não um buffet de bar-mitzvah.
Risos.
-       E a namorada?
-       Tô namorando não, terminei. Não sei se ela ficou sabendo disso tudo. Se bem que eu acho que morri pra ela faz tempo. Caguei pra ela.
-       Mas me conta: você tava envolvido com drogas?
-       Que pergunta, pai! Eu até dei uns tapas de vez em quando, uma cheiradinha básica, doce uma vez numa rave, mas eu não era disso não. Olha, o lance do trombadinha no carro foi ACIDENTE! Ele quis a grana, se desesperou e PIMBA! Tem nada a ver com acerto de contas. Nunca fui muito chegado a drogas. Na facu me ofereciam direto...
-       E você era feliz?
-       Que pergunta... mas tá certo, agora a gente tem todo o tempo do mundo pra conversar. Pode perguntar o que quiser.
-       Filho, aqui o conceito de tempo e espaço é um pouco diferente. Não existe “esperar um tempão” ou “eternidade”. Passamos pra outra dimensão, com outras grandezas, err... matemáticas, cósmicas, sei lá. Também não sei se a gente vai conseguir se ver direto. Capaz de um de nós desaparecer. Mas você tem razão, podemos conversar sobre tudo aquilo que não conversamos enquanto a gente vivia.
-       Putz, você não tem noção de como eu me arrependo disso. Sempre achei que era melhor não tocar no assunto, que teríamos um dia só pra botar a conversa em dia, mas no fundo eu sabia que esse dia nunca ia chegar. Acho que era medo, insegurança, sei lá...
-       A gente brigava muito também.
-       É, a gente brigava muito. Você é muito difícil e eu tenho um gênio filho da puta, fala sério...
-       É, mas agora a gente pode fazer a coisa diferente. Então me conta, por que você terminou o namoro?
-       Terminei porque a gente pensava diferente sobre muitas coisas. O relacionamento estava murchando, ela era muito ciumenta. Só pra você ter uma ideia, teve um dia que ela...

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Regimes de governo 2

Lendo e relendo o blog, achei este texto e resolvi dar uma pequena atualizada.

Capitalismo político: você tinha 6 vacas mas, depois de 4 anos no poder, aumentou seu patrimônio para 11.950 vacas.
Capitalismo compulsório: a cada vaca vendida ou comprada, você deve pagar 0,39% de contribuição bovina provisória. Vamos acabar com a febre aftosa do país.
Capitalismo tributário: você tem 870 vacas, mas só declara 11.
Capitalismo orwelliano: você tem 4 vacas que, no momento, estão confinadas na fazenda de um reality show esperando convite pra posar nuas pra revista Globo Rural.
Capitalismo sustentável: você tem 1 vaca, só que tem que esconder do Ibama porque o peido dela polui o ar.
Capitalismo aplicativo: você tem 3 vacas. 2 delas lhe enviaram solicitação para jogar Candy Crush.
Capitalismo instagramiano: você tem 3 vacas: uma sépia, uma sem cabeça e outra fora de foco.
Capitalismo smartphoniano: você acessa 1 vaca de 114 funções e não sabe o que fazer com ela.
Capitalismo vintage: você tem 2 vacas. Que, apenas por uma questão de coincidência, seu pelo é preto-e-branco.
Capitalismo alfandegário: você comprou 3 vacas pelo ebay: uma veio com 3 patas, uma não dá leite e outra ficou bloqueada na cerca.
Capitalismo virtual: você tem um ícone de um quadrúpede malhado em sua máquina. Crie um avatar de rosto, baixe o aplicativo que forneça leite, faça o download pago de escolha de raças e pronto: imagine que isso seja uma vaca.
Capitalismo Lula: você tem 408 vacas, mas jura que não sabia de nada.
Capitalismo selfie: eu tenho a vaca mais bonita do mundo. Quer ver? Quer curtir? Quer compartilhar?
Capitalismo bullying: você tem 2 vacas que todo dia voltam chorando pra casa porque são chamadas de putas.
Capitalismo Four Square: você tem 4 vacas que, no momento, estão na Starbucks do Shopping Eldorado.
Capitalismo classe-média: você tem 5 vacas que marcaram viagem pra Buenos Aires pela CVC nas férias de fim de ano.
Capitalismo novo-rico: você tem 4 vacas que produzem muzzarela de búfala.
Capitalismo feminista: você tem 6 vacas. Todas elas querem tomar o lugar do touro na Festa do Peão de Barretos.

Capitalismo politicamente correto: você tem 6 ruminantes bovinos veganos provedores de leite.
Capitalismo emergente: você tem 1 vaca. Que será a presidente da Feira de Agronegócios deste ano.
Capitalismo folclórico: você tem um trio de vacas que, antes de dormir, cantam “Boi, boi, boi... boi da cara preta...”

Capitalismo linguístico: você tem 10 vacas que reivindicam no Congresso a extinção do termo “a vaca foi pro brejo”.
Capitalismo selvagem: você tem 5 vacas. Com este patrimônio, já dá pra abrir uma microempresa de rodízio de carnes.

Capitalismo azarado: você tem apenas 1 vaca. E consegue pisar na merda dela todo dia.
Capitalismo nerd: você tem 5 X 10 -1 + (4 X 60 – 3) - 2 mamíferos artiodáctilos, com par de chifres não ramificados, ocos e permanentes, do gênero Bos taurus, sitos em pastos rupestres.
Capitalismo qualificado: você tem 17 vacas. Todas elas foram furtadas da Cow Parade da Av. Paulista.
Capitalismo petrolífero: com base num laudo inconsistente e equivocado, você pagou R$ 80 milhões por uma vaca obsoleta que não produz leite, tem carne dura e não vai dar couro.

Capitalismo funcionário público: você tem 6 vacas. Faz quase 2 meses que elas pararam de dar leite porque reivindicam aumento de 50% no vale-pasto.
Capitalismo afrodescendente: você tem 4 vacas, brancas, com 30% do corpo manchado de pintas escuras graças ao sistema de cotas.
Capitalismo industrial: você tem 15 mil caixinhas de leite longa-vida e nunca viu uma vaca.
Capitalismo fashion: você tem 2 vacas. Uma delas veste o sino Prada e outra tem piercing nas tetas.