Trabalho escolar para fazer em casa. Pesquisa sobre protozoários.
Anos 50: você pega emprestado o Thesouro da Juventude de sua avó e procura o verbete no índice. Encontra o verbete no último dos 32 volumes da coleção.
Anos 60: você vai até uma biblioteca pública, pega dezenas de livros, pega outros tantos que nada têm a ver com a pesquisa, devora Kant, apaixona-se por Sartre, decora Marx e sai de lá líder do movimento estudantil.
Anos 70: você vai até uma biblioteca pública, participa de um sarau, descobre a maconha, transa com uma riponga na prateleira de Kerouac e sai de lá ator de teatro.
Anos 80: você paga o CDF da classe pra fazer a pesquisa com o dinheiro de sua mesada e passa a tarde modelando seu cabelo com gel antes de ir pro fliperama.
Anos 90: você descobre a existência do Google. Encontra 147.213 resultados para sua busca, gasta 80% do tempo tentando se reconectar à internet por conexão discada, copia e cola o texto da página UOL Ciência e passa o restinho da tarde vendo MTV.
Anos 2000: você cria uma comunidade no Orkut com o tema, recebe 537 comentários, copia e cola a resposta mais longa e prolixa e passa o resto da tarde no chat do ICQ.
Anos 2010: você não só se recusa a fazer a pesquisa como também questiona a existência dos protozoários e cria um grupo no WhatsApp com seus colegas de classe para fazer um motim exigindo a demissão do professor que utiliza métodos arcaicos e discriminatórios para explicar a origem da vida na Terra.
quinta-feira, 7 de julho de 2016
terça-feira, 5 de julho de 2016
Smartphone
Situação: você está sem relógio.
Objetivo: ver as horas pelo seu smartphone.
Ação: tira o celular do bolso. Percebe uma ligação perdida de um número desconhecido. Abre pra ver o horário da ligação. Foi de madrugada, deve ter sido engano ou trote. Começa a receber mensagens de WhatsApp. Entra numa das conversas e responde. pro seu amigo. Ao mesmo tempo, recebe inúmeras outras de um grupo do qual você deveria deixar de participar há tempos. Deleta todas. Bota o grupo no silencioso. Fecha o Whats. É notificado de alteração de itinerário de uma linha de Campinas pelo Moovit. Ignora a mensagem. Recebe outro Whats. Tenta ler a mensagem inteira pela tela inicial. Não consegue, ela se apaga. Entra de novo no aplicativo. Lê na íntegra a mensagem de seu colega de trabalho avisando que vai chegar mais tarde. Responde laconicamente. Recebe uma mensagem da operadora informando de acréscimo do dígito 9 na região de Nossa Senhora das Dores do Montemor. Apaga a mensagem. Entra de novo no Whats. Vasculha sua lista pra se certificar de que ninguém te excluiu ou apagou a foto. Dá uma stalkeada na foto daquela amiga de leve. Volta. Entra no Instagram. Olha as 5 primeiras fotos, e só. Adiciona as 7 pessoas que acabaram de entrar. Sai do Insta. Entra no Facebook. Visualiza as principais notificações do dia. Tenta mandar mensagem pro amigo que não tem Whats. A conexão dá pau. Volta pro Whats, só pra ver se tem alguma novidade. Nada de novidade. Desliga o celular. Guarda no bolso.
Esquece de olhar as horas.
quinta-feira, 23 de junho de 2016
Tempo e espaço
De acordo com a Teoria da Relatividade, tempo e espaço são
uma unidade geométrica unificada e estão profundamente entrelaçados.
A partir desse conceito, muita coisa pode mudar no nosso
cotidiano e nas nossas relações pessoais. Por exemplo: quando sua namorada diz “acho
que é melhor a gente dar um tempo”, talvez ela esteja se referindo a uns 3
quilômetros e 250 metros. Se o tempo dela é um eufemismo para encobrir algo
mais drástico, como “nosso amor acabou”, é sinal de que, no fundo, ele
corresponda a cerca de 4.213.827 quilômetros. Mais ou menos como ir daqui até o
Acre. Ou voltar para 1980.
Entristecido, você recorre ao Tinder, ao POF ou qualquer outro
aplicativo-cardápio. Vasculha as opções disponíveis, até que encontra uma
pessoa praticamente 100% compatível, não fosse por um detalhe: ela é 22
quilômetros e 5 metros mais velha que você.
Mais um exemplo. Vamos supor que finalmente apareça outra
namorada, que vive reclamando de que “você não me dá espaço”. Nessas horas,
muita calma. Faça uma surpresa. Chegue em casa e dê a ela 2 horas e 47 minutos.
Ah, junto com uma caixa de bombons.
Pronto, tudo certo. Então vocês decidem ter filhos. Quando
ele completa 7 quilometrinhos, resolvem viajar de carro pra Poços de Caldas.
Todo mundo um dia na vida vai pra Poços de Caldas. Durante TODO o caminho, seu
belo e formoso garoto pergunta: “falta muito?”. Aí é que a coisa pega. É a
primeira crise séria do casal. Você, o pai autoritário da história, diz: “uns
30 quilômetros, não enche”. Sua esposa, um pouco mais liberal, responde por
cima: “calma, Diego. Daqui a 40 minutos a gente tá chegando”. E o filho mais
uma vez foi o protagonista de um terremoto familiar. É, criança é esperta
mesmo.
Quer mais crise? Outra cena. Imagine aquele frio. Não um
frio qualquer. Um puta frio. Você chega em casa cansado, come qualquer coisa e
se enfia debaixo das cobertas. Sim,
vai direto dormir. A essa altura do campeonato, o sexo só ocorre a cada 680
metros. No meio da madrugada, sensação térmica de uma
caveira chupando Halls extraforte, sua mulher puxa para si toda a lã existente
sobre os lençóis. Aquela imaginária linha de Tordesilhas que divide a cama ao
meio, esquece. Semanas depois, vocês discutem a relação e terminam um
relacionamento de mais de 400 quilômetros de alegrias por causa de 18
minutinhos de cobertor.
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Cochichar não vale
Aqui em São Paulo, num chamado "cinema de arte", a vinheta com aquelas informações de segurança orienta os espectadores a não falar durante a sessão, mas depois o locutor faz uma equivocada ressalva: "cochichar vale". Como assim, cochichar vale? Desde quando?
Sobre esse assunto, sou mais extremista que o Estado Islâmico. Ou berra, ou cala a boca. Ou é preto, ou é branco. Nada de ficar inventando tons de cinza para diminuir o impacto da atitude. Tudo bem que falar alto incomoda muita gente. Chutar a cadeira também. Tossir, idem. Barulho de saco de pipoca, papel de bala, holofote de smartphone, a mesma coisa. Mas tenho certeza de que o cochicho é uma invenção de novo-rico. Aquele povinho que vai ao cinema, ao teatro, ao concerto, quer atrapalhar a sessão o mínimo possível mas não aguenta segurar o comentário até o fim do espetáculo. Um comportamento supostamente delicado, mas tão desrespeitoso e anticivilizatório quanto. Cochichar é tão jeca quanto comer frango de talher. É que nem tomar banho morno.
Imagine duas situações possíveis, totalmente enquadradas no seu dia a dia cinematográfico. Situação 1: você está confortavelmente instalado em sua poltrona, o filme está para começar, o público aparentemente tranquilo. Faltando exatos 14 segundos para o início da sessão, surge uma horda de adolescentes gritando, derrubando pipoca no chão, acendendo smartphone, contando piada, rindo alto. Por um acaso do destino, resolvem se sentar na mesma fileira que você, ocupando-a de cabo a rabo. Antes que o filme de ação se transforme num mercado persa, você emite um sonoro SHHHHHH, tipo freada de ônibus de excursão, saca? Se continuarem a balbúrdia, você troca a onomatopeia implícita na desinência por um ululante SILÊÊÊNCIO, só pra ver se a porra da Geração Y se assusta. Provavelmente, vão continuar chutando o pau da barraca. Aí, você discretamente pega o copo de refrigerante do comparsa ao seu lado, derruba "sem querer" o líquido em sua perna e faz um hipócrita pedido de desculpas.
Situação 2: primeira sessão do dia, 13h30, sala ocupada predominantemente por velhinhas. A maioria, num estágio avançado de surdez. O lugar é o Reserva Cultural, mas poderia ser o Itaú Frei Caneca, o Bristol ou o Cinesesc. Aquilo é metalinguagem pura. Desde o momento em que adentram a sala, as senhorinhas descrevem a dificuldade de enxergar no escuro. Depois, reclamam da dificuldade de descer as íngremes escadas. E, por final, quando se sentam em seus lugares, narram to-das-as-ce-nas do filme em questão. Com direito a reprodução de diálogos, comentários e até um ou outro "não entendi". Você, então, faz a mesma coisa da situação 1: SHHHH. Obviamente, elas não vão ouvir. Pede silêncio. Elas vão achar que é personagem extracampo do filme. Aí, não tem jeito. Num caso irremediável desse, você se vê obrigado a despertar a besta-fera que há dentro de você. Olhe fixamente para elas, faz cara de possuído pelo demônio, tente dar um giro de 180º em seu pescoço, deixe a voz rouca e fale "doce de abóbora" de trás pra frente. Não tem erro: elas não vão dormir por uma semana. Se, mesmo assim, por uma razão inexplicável da natureza o falatório continuar, chegue em casa à noite e reze. Vai por mim. Quando se reza, as coisas acontecem.
Nos dois exemplos acima, a situação é chata, mas contornável, ainda que a duras penas e com uma certa dificuldade e dose de paciência. Você detecta o alvo, mira o alvo e solicita um pingo de silêncio e de cidadania ao alvo. Com o cochicho é diferente. Você não sabe direito de onde ele vem. É aquela massa amorfa de ruídos. É um disparo cometido por autor desconhecido. Parece uma nuvem de pernilongos que paira no ar. E o que dá mais raiva é aquele amontoado incompreensível de sílabas repletas de "p" e de "b". Em vez de pipoca e Halls, os cinemas deviam vender raquete elétrica na entrada. Por uma questão de princípios. E pra tentarmos exterminar essa raça de himenópteros que se acham intelectuais.
Sobre esse assunto, sou mais extremista que o Estado Islâmico. Ou berra, ou cala a boca. Ou é preto, ou é branco. Nada de ficar inventando tons de cinza para diminuir o impacto da atitude. Tudo bem que falar alto incomoda muita gente. Chutar a cadeira também. Tossir, idem. Barulho de saco de pipoca, papel de bala, holofote de smartphone, a mesma coisa. Mas tenho certeza de que o cochicho é uma invenção de novo-rico. Aquele povinho que vai ao cinema, ao teatro, ao concerto, quer atrapalhar a sessão o mínimo possível mas não aguenta segurar o comentário até o fim do espetáculo. Um comportamento supostamente delicado, mas tão desrespeitoso e anticivilizatório quanto. Cochichar é tão jeca quanto comer frango de talher. É que nem tomar banho morno.
Imagine duas situações possíveis, totalmente enquadradas no seu dia a dia cinematográfico. Situação 1: você está confortavelmente instalado em sua poltrona, o filme está para começar, o público aparentemente tranquilo. Faltando exatos 14 segundos para o início da sessão, surge uma horda de adolescentes gritando, derrubando pipoca no chão, acendendo smartphone, contando piada, rindo alto. Por um acaso do destino, resolvem se sentar na mesma fileira que você, ocupando-a de cabo a rabo. Antes que o filme de ação se transforme num mercado persa, você emite um sonoro SHHHHHH, tipo freada de ônibus de excursão, saca? Se continuarem a balbúrdia, você troca a onomatopeia implícita na desinência por um ululante SILÊÊÊNCIO, só pra ver se a porra da Geração Y se assusta. Provavelmente, vão continuar chutando o pau da barraca. Aí, você discretamente pega o copo de refrigerante do comparsa ao seu lado, derruba "sem querer" o líquido em sua perna e faz um hipócrita pedido de desculpas.
Situação 2: primeira sessão do dia, 13h30, sala ocupada predominantemente por velhinhas. A maioria, num estágio avançado de surdez. O lugar é o Reserva Cultural, mas poderia ser o Itaú Frei Caneca, o Bristol ou o Cinesesc. Aquilo é metalinguagem pura. Desde o momento em que adentram a sala, as senhorinhas descrevem a dificuldade de enxergar no escuro. Depois, reclamam da dificuldade de descer as íngremes escadas. E, por final, quando se sentam em seus lugares, narram to-das-as-ce-nas do filme em questão. Com direito a reprodução de diálogos, comentários e até um ou outro "não entendi". Você, então, faz a mesma coisa da situação 1: SHHHH. Obviamente, elas não vão ouvir. Pede silêncio. Elas vão achar que é personagem extracampo do filme. Aí, não tem jeito. Num caso irremediável desse, você se vê obrigado a despertar a besta-fera que há dentro de você. Olhe fixamente para elas, faz cara de possuído pelo demônio, tente dar um giro de 180º em seu pescoço, deixe a voz rouca e fale "doce de abóbora" de trás pra frente. Não tem erro: elas não vão dormir por uma semana. Se, mesmo assim, por uma razão inexplicável da natureza o falatório continuar, chegue em casa à noite e reze. Vai por mim. Quando se reza, as coisas acontecem.
Nos dois exemplos acima, a situação é chata, mas contornável, ainda que a duras penas e com uma certa dificuldade e dose de paciência. Você detecta o alvo, mira o alvo e solicita um pingo de silêncio e de cidadania ao alvo. Com o cochicho é diferente. Você não sabe direito de onde ele vem. É aquela massa amorfa de ruídos. É um disparo cometido por autor desconhecido. Parece uma nuvem de pernilongos que paira no ar. E o que dá mais raiva é aquele amontoado incompreensível de sílabas repletas de "p" e de "b". Em vez de pipoca e Halls, os cinemas deviam vender raquete elétrica na entrada. Por uma questão de princípios. E pra tentarmos exterminar essa raça de himenópteros que se acham intelectuais.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Namorados
Sou mesmo um cara de sorte. No Dia dos Namorados, não vou precisar enfrentar filas de shopping para procurar aquele perfume dito "exclusivo", junto com outras dezenas de namorados procurando exatamente o mesmo perfume, todos eles tão exclusivos quanto eu. Não vou me dar ao trabalho porque, na verdade, nem preciso comprar o presente. Não preciso comprar o presente porque, na verdade, não estou namorando. Logo, o meu não-presente é totalmente dedicado a você, que me bloqueou do WhatsApp e postou fotos no Instagram acompanhada de um sarado, alegando que estava a fim de ficar um tempo sozinha.
Para o próximo Dia dos Namorados, fiz questão de não reservar aquela mesa no bistrô pensando em você, que da última vez reclamou que meu gosto para roupas e para música é péssimo. Portanto, demorei horas para não escolher um filé de Saint Peter com redução de frutas vermelhas e farofa de amêndoas. Logo, nada mais justo fazer um não-brinde ao nosso não-relacionamento e não abrir uma garrafa de Cabernet Sauvignon, safra 2009. Afinal, estamos não-comemorando aquele dia em que você falou que os homens são todos iguais, entretanto, me trocou por um muito mais igual do que eu.
Para a especialíssima data vindoura de 12 de junho, gastei todas as minhas energias para não procurar aquele vestido azul-escuro que você tanto paquerou durante meses na vitrine da loja. Só não sabia eu que, junto com o vestido, você também paquerou o vendedor da loja ao lado, aquele hipster de cabelo milimetricamente desgrenhado, barba delineadamente malfeita e um gibi de tatuagens em sua pele clara. Junto com o vestido, faço questão de não oferecer a você a calcinha preta de renda para a noite de amor que não iremos passar juntos, já que você muito provavelmente vai estar no bar com suas amigas e vai ficar com o primeiro homem que colar na sua mesa. Talvez o segundo.
Estou contando os minutos para não celebrarmos o dia em que não irei te dar nenhuma joia, não irei declamar poesia alguma, muito menos cochichar no seu ouvido palavras de baixo calão. Tudo isso porque você não me ama como nunca me amou antes. É um privilégio não ter você ao meu lado e, consequentemente, não rirmos juntos das piadas batidas, não chorarmos juntos no drama francês, não pedirmos uma pizza num sábado chuvoso, não ficarmos abraçados no sofá até pegarmos no sono. Felizes de nós, que juramos não amar eternamente um ao outro.
Para o próximo Dia dos Namorados, fiz questão de não reservar aquela mesa no bistrô pensando em você, que da última vez reclamou que meu gosto para roupas e para música é péssimo. Portanto, demorei horas para não escolher um filé de Saint Peter com redução de frutas vermelhas e farofa de amêndoas. Logo, nada mais justo fazer um não-brinde ao nosso não-relacionamento e não abrir uma garrafa de Cabernet Sauvignon, safra 2009. Afinal, estamos não-comemorando aquele dia em que você falou que os homens são todos iguais, entretanto, me trocou por um muito mais igual do que eu.
Para a especialíssima data vindoura de 12 de junho, gastei todas as minhas energias para não procurar aquele vestido azul-escuro que você tanto paquerou durante meses na vitrine da loja. Só não sabia eu que, junto com o vestido, você também paquerou o vendedor da loja ao lado, aquele hipster de cabelo milimetricamente desgrenhado, barba delineadamente malfeita e um gibi de tatuagens em sua pele clara. Junto com o vestido, faço questão de não oferecer a você a calcinha preta de renda para a noite de amor que não iremos passar juntos, já que você muito provavelmente vai estar no bar com suas amigas e vai ficar com o primeiro homem que colar na sua mesa. Talvez o segundo.
Estou contando os minutos para não celebrarmos o dia em que não irei te dar nenhuma joia, não irei declamar poesia alguma, muito menos cochichar no seu ouvido palavras de baixo calão. Tudo isso porque você não me ama como nunca me amou antes. É um privilégio não ter você ao meu lado e, consequentemente, não rirmos juntos das piadas batidas, não chorarmos juntos no drama francês, não pedirmos uma pizza num sábado chuvoso, não ficarmos abraçados no sofá até pegarmos no sono. Felizes de nós, que juramos não amar eternamente um ao outro.
quinta-feira, 19 de maio de 2016
MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DE UM E.T. EM VISITA AO BRASIL ou 1001 COISAS PARA SE OBEDECER ANTES DE MORRER ou BRASIL – PAÍS DA DIVERSIDADE E DA TOLERÂNCIA
Tocar apito pode. Bater panela não pode.
Comer mortadela pode. Comer coxinha, não.
Cuspir pode. Bater, nem pensar.
Ler a Veja não pode. Carta Capital, pode. Ou melhor, deve.
Usar vermelho pode. Usar amarelo, não.
Duvivier pode. Porchat, não.
Ouvir Chico, mais do que pode. Ouvir Lobão, tá louco?
Morar em Cuba pode. Morar em Miami não pode.
“Hay que endurecer” pode. “Ordem e progresso”, melhor não.
Vai pra Paulista? Ficar do lado do MASP pode. Do lado da
FIESP, pega mal.
#ForaCunha pode. #ForaDilma, não.
Luís Nassif pode. Sardenberg, não.
Jô Soares pode mais ou menos. Danilo Gentilli, nem a pau.
Bolsa-Família deve. Bolsonaro, evite.
William Bonner não pode. William Waak, muito menos.
Silêncio em Cannes é protesto. Gritar de casa é balbúrdia.
José de Abreu pode. José Serra, nemfu.
Quebrar o Mc Donald’s pode. Quebrar o Brasil, aí é que pode
mesmo.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Dados variáveis
- Pessoal, a partir de hoje vamos adotar aqui na agência um
padrão de customização do nosso material de comunicação. Na parte dos dados
variáveis, aqueles campos personalizados, precisamos pensar num nome que sirva
para a marcação de todas as peças, de todos os nossos clientes. Queria ouvir a
sugestão de vocês.
- Eu sempre uso Fulano de Tal.
- É, mas isso é comum demais. Desvaloriza o cara que tá
recebendo o e-mail. O cliente vem reclamando disso.
- Por que então não usar João Alves?
- O anão do orçamento? Cê tá louco?
- Ah, tá... não sabia... não é da minha época...
- Lá na Pinnick & Partners Worlwide onde eu trabalhava,
a gente sempre usava John Sample.
- Ah, sofisticado demais. Não gera empatia, identificação.
Ninguém aqui no Brasil se chama John Sample.
- Eu acho que tem que ser um nome comum, do povo, pro
cliente entender que a gente tá falando com o público dele. Tipo João da Silva.
- Ah, num sei... capaz do cliente achar que a gente SÓ tá
mandando o e-mail pro João da Silva e o José dos Santos, por exemplo, vai ficar
de fora.
- Por isso mesmo que eu acho que um nome fora do comum, pode
ser estrangeiro mesmo, vai deixar bem claro que a gente não tá falando com
ninguém específico, mas com todo mundo. Sei lá... Adam Smith...
- O Pai da Economia? Então bota Albert Einstein de uma vez!
- Calma, gente...
- Eu acho que tem que ser um nome raro, incomum, não precisa
ser americano, nem europeu, nem o raio que o parta... pode ser brasileiro
mesmo... mas um nome mais difícil, aí a gente não corre o risco de ter alguém
na sala de reunião com esse nome pra encrencar com ele. Algo na linha de
Adherbaldo Franciscus.
- Acho que não. Se o nome for ridículo demais, inusitado
demais, o cliente vai ficar a reunião inteira prestando atenção nele e nem vai
olhar pro resto da peça.
- Ei, ei! Gente, gente! Estamos perpetuando uma atitude
machista do nosso mercado de trabalho. Nunca ninguém pensou num nome de mulher.
E vocês sabem mais do que ninguém que as mulheres estão se emancipando e
ocupando os mais altos cargos numa empresa que antes só era privilégio dos
homens.
- Calma, Martha... não é nada disso... é que, quer queira
quer não, a maioria dos nossos clientes são homens. A gente tentou marcar com
um nome feminino na última campanha e o cliente gongou a peça, lembra disso?
- Eu acho que a gente devia usar o bom e velho Nonono.
- Muito anos 80.
- Eu sempre usei o nome do meu dupla pra marcar as peças:
Érico FUCKS kkkkk
- Pronto, começou o bullying...
- Por que não usar nome de famoso, pra mostrar que é só
marcação de layout? Sílvio Santos, Fernando Henrique, Erasmo Carlos...
- Eu acho que a gente devia usar Adriano Gonzaga.
- Eu iria pruma coisa mais coloquial, pra deixar a
comunicação mais moderna: Beto Keller.
- Acho Diego Savassi bem legal.
- Gosto de Fernando Von Beckenbauer.
- Ricardo Moreira.
- Rodrigo Lopes.
- Eusébio da Paixão! Raquel Pedreira!
- Adilson Bartelli Thiago Pompeu Roberval Taylor Adolfo
Brickman Giancarlo Madeira Raoni Tavares Rogério Villaça Gilson Campos Júlio
César Azevedo Amauri de Souza...
E aquele barulho se formou. 250 nomes, nenhum consenso.
E os dias se passaram. E os meses se passaram. Até que, numa
manhã qualquer, o presidente da agência recebe um e-mail falando que uma
campanha deles entrou para o short list de uma premiação de comunicação
dirigida. O texto da peça começa assim:
“Caro XXXXXXXXXXXXXX, você foi o ganhador da promoção Sorte
em Dobro”.
terça-feira, 12 de abril de 2016
Enquanto durarem os estoques
No último fim de semana, recebi um tabloide de ofertas de um
supermercado e fui pras compras. Chegando lá, vejo que um dos produtos
anunciados estava em falta. Reclamei com a gerente e ela, num tom arrogante,
disse laconicamente: “enquanto durarem os estoques”. Parece que, para o réu,
essa frase é a salvação da lavoura. Ela blinda toda e qualquer eventual queixa
do consumidor nos órgãos competentes. São os nefastos dizeres que protegem a
relação unilateralmente. Parecia que a funcionária blasé apertou aquele botão
da defesa magnética que tinha nos consoles do Atari. Um tipo de escudo
invisível, um tapume mercadológico que esconde as picaretagens e pegadinhas da
publicidade.
Na hora, fiquei puto. Fui atraído por uma coisa que não
existe. Mas, pensando com um pouco mais de frieza, cheguei à conclusão de que
essa frase, de tão genérica e evasiva, acaba não explicando nada e servindo de
muleta para uma série de situações. Acho que também vou adotar essa
insensibilidade jurídica no meu dia a dia, já que o tal supermercado se vê
imune ao proferir tal enunciação.
Textos brilhantes, enquanto durarem os estoques de ideias
criativas.
Ideias criativas, enquanto durarem os estoques de
referências inusitadas.
Referências inusitadas, enquanto durar o estoque de tempo
livre.
Amor incondicional, enquanto durar o estoque de paixonite
aguda.
Simpatia e prestatividade, enquanto durar o estoque de
paciência.
Baladas badaladas, enquanto durar o estoque do saldo
bancário.
Poder de argumentação, enquanto durar o estoque de saliva.
150 abdominais, enquanto durar o estoque de ar nos pulmões.
Sorriso charmoso, enquanto durar o estoque de creme antioxidante.
Programa de índio de madrugada, enquanto durarem os estoques
de psicotrópicos.
Bater panela, enquanto durarem os estoques de panelas.
Socar o inimigo, enquanto durar o estoque de adrenalina.
Críticas contundentes, enquanto durar o estoque de humor
ácido.
Humor ácido, enquanto durarem os estoques de situações
medíocres.
Comer doces, enquanto durar o estoque de ácido clorídrico no
estômago.
Declarações românticas, enquanto durar o estoque de amor
sofrido.
Contestações inflamadas, enquanto durar o estoque de
combustível.
Frases dentro de um mesmo tema... acabou o estoque.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Eu quero
Quero acordar uma hora mais tarde.
Quero queijo brie no restaurante por quilo.
Quero ter um milhão de retweets.
Quero receber o 14º salário.
Quero ficar 10 anos mais jovem.
Quero voltar a fazer stand-up.
Quero menos fofoca na família.
Quero menos fofoca no trabalho.
Quero um novo Presidente pro país.
Quero outono o ano inteiro.
Quero que o dólar volte a 1 X 1 em relação ao Real.
Quero mais likes e menos blocks.
Quero a volta dos bens duráveis.
Quero ser o último entrevistado do Programa do Jô.
Quero o fim da palavra 'gourmet'.
Quero ver um show do Supersuckers no Brasil.
Quero comer a Geisy Arruda. Só comer.
Quero conhecer uma pessoa legal por dia.
Quero o fim da obrigatoriedade do voto.
Quero menos pane no metrô. E menos pânico também.
Quero ficar no máximo 10 minutos na sala de espera do consultório.
Quero que a crítica de Cinema não entre em extinção.
Quero que a corrupção seja considerada um crime hediondo.
Quero ouvir mais 'let's make love' e menos 'let's talk'.
Quero aprender a gostar de cerveja.
Quero voltar a gostar de Chantibon.
Quero ganhar um beijo na boca e, quem sabe, em outras partes duras do meu corpo.
Quero pagar a metade do preço em um ovo de Páscoa e, de tanto querer, já nem sei mais o que quero.
Quero queijo brie no restaurante por quilo.
Quero ter um milhão de retweets.
Quero receber o 14º salário.
Quero ficar 10 anos mais jovem.
Quero voltar a fazer stand-up.
Quero menos fofoca na família.
Quero menos fofoca no trabalho.
Quero um novo Presidente pro país.
Quero outono o ano inteiro.
Quero que o dólar volte a 1 X 1 em relação ao Real.
Quero mais likes e menos blocks.
Quero a volta dos bens duráveis.
Quero ser o último entrevistado do Programa do Jô.
Quero o fim da palavra 'gourmet'.
Quero ver um show do Supersuckers no Brasil.
Quero comer a Geisy Arruda. Só comer.
Quero conhecer uma pessoa legal por dia.
Quero o fim da obrigatoriedade do voto.
Quero menos pane no metrô. E menos pânico também.
Quero ficar no máximo 10 minutos na sala de espera do consultório.
Quero que a crítica de Cinema não entre em extinção.
Quero que a corrupção seja considerada um crime hediondo.
Quero ouvir mais 'let's make love' e menos 'let's talk'.
Quero aprender a gostar de cerveja.
Quero voltar a gostar de Chantibon.
Quero ganhar um beijo na boca e, quem sabe, em outras partes duras do meu corpo.
Quero pagar a metade do preço em um ovo de Páscoa e, de tanto querer, já nem sei mais o que quero.
Apartamento
A crise não tá fácil pra ninguém.
Recebi um encarte de lançamento de um empreendimento imobiliário falando que, ao visitar o stand de vendas, eu ganharia um relógio. Não precisaria comprar nada, nem dar sinal. Era só visitar o local, falar com o corretor e retirar o brinde na saída.
Meu interesse pelo produto era, digamos, mediano. Mas, como era perto de casa e tinha o atrativo do aparato de pulso, lá fui eu. Cheguei lá, comi uns salgadinhos, prestei atenção na maquete como aluno de excursão presta atenção em bicho pré-histórico de museu, fiz algumas perguntas com cara de conteúdo, deixei meus dados de contato e saí com meu presente.
Pensando com um pouco mais de parcimônia, declinei da compra. Mas você sabe como é. Uma vez transmitidos seus contatos a um corretor, ali pra todo o sempre eles ficam. Não só a pessoa que te atendeu diretamente no dia, mas eles repassam seus dados a outros corretores.
Fui recebendo telefonemas, e-mails, spams e SMS de outros empreendimentos. Demonstrei desinteresse em todos. O último veio por WhatsApp. Imaginei se tratar de uma pessoa com mais experiência no ramo - e mais idade. Assim como a pessoa que me atendeu no local. Curioso, abri a foto e me deparei com uma gatíssima, tatuada, cabelos longos, lábios bem delineados. Ainda que sua beleza dividisse opiniões, resolvi responder a mensagem. Parti para metáforas que nada tinham a ver com a opção de compra. Falei da área útil, do playground, da hidromassagem e, quem sabe, do jantar à luz de velas na varanda gourmet. O retorno, é claro, foi nulo.
Pelo menos de uma coisa eu sei. Agora são, exatamente, 16h47.
Recebi um encarte de lançamento de um empreendimento imobiliário falando que, ao visitar o stand de vendas, eu ganharia um relógio. Não precisaria comprar nada, nem dar sinal. Era só visitar o local, falar com o corretor e retirar o brinde na saída.
Meu interesse pelo produto era, digamos, mediano. Mas, como era perto de casa e tinha o atrativo do aparato de pulso, lá fui eu. Cheguei lá, comi uns salgadinhos, prestei atenção na maquete como aluno de excursão presta atenção em bicho pré-histórico de museu, fiz algumas perguntas com cara de conteúdo, deixei meus dados de contato e saí com meu presente.
Pensando com um pouco mais de parcimônia, declinei da compra. Mas você sabe como é. Uma vez transmitidos seus contatos a um corretor, ali pra todo o sempre eles ficam. Não só a pessoa que te atendeu diretamente no dia, mas eles repassam seus dados a outros corretores.
Fui recebendo telefonemas, e-mails, spams e SMS de outros empreendimentos. Demonstrei desinteresse em todos. O último veio por WhatsApp. Imaginei se tratar de uma pessoa com mais experiência no ramo - e mais idade. Assim como a pessoa que me atendeu no local. Curioso, abri a foto e me deparei com uma gatíssima, tatuada, cabelos longos, lábios bem delineados. Ainda que sua beleza dividisse opiniões, resolvi responder a mensagem. Parti para metáforas que nada tinham a ver com a opção de compra. Falei da área útil, do playground, da hidromassagem e, quem sabe, do jantar à luz de velas na varanda gourmet. O retorno, é claro, foi nulo.
Pelo menos de uma coisa eu sei. Agora são, exatamente, 16h47.
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