quinta-feira, 26 de abril de 2018

Professor bom é professor sujo


Hoje praticamente tudo se aprende por conta própria no Google. O resto nos é ensinado por professores em auditórios tecnológicos, com recursos multimídia e direito a coffee break. Aquele professor vestindo um impecável Armani, microfone de lapela e caneta laser pra apontar em sua apresentação Power Point os principais tópicos do conteúdo de seus conhecimentos técnicos. Tudo muito bonito, muito clean e muito caro.

Mas bom mesmo era o professor de antigamente. Aquele propedeuta que andava com o cabelo bagunçado e cheio de caspa pra evocar Einstein. Usava a camisa polo de todos os dias, que nunca ornava com o sapato gasto e de cadarço, frequentemente desamarrado num pé. Em seu pescoço, estava pendurado o óculos de grau, utilizado somente para leitura. Professor que urrava com a alma, passava todo o exercício do seu saber na base do gogó e ficava rouco pelo menos 1 vez por semana. Circulava sempre com as mãos sujas de giz, que emporcalhavam o avental branco com uma coloração mista de amarelo, laranja e carmim. Um avental levemente amassado, com os bolsos bem cheios, e a gente não sabia se eram preenchidos por questões da prova, calculadora ou a metade sobrante de um pão com mortadela. Aquele sim, era professor de verdade. Que suava, que sangrava e que fazia a gente aprender.


quarta-feira, 18 de abril de 2018

O fim do mundo


Atendimento: Pessoal, acabei de chegar do cliente e peguei um baita briefing. Campanha grande: o fim do mundo. É concorrência.
Criação: Ah, tá... e qual o prazo?
Atendimento: Urgente. Falaram que o mundo vai acabar no dia 23, então precisamos levar as ideias antes pra eles aprovarem... concorrência gigantesca, são mais de 15 agências envolvidas. Já tava tudo fechado, mas aí eu fui lá entregar o job da Guerra da Síria, eles gostaram e deram pra gente essa oportunidade de participar. Tipo uma exceção.
Criação: Sei... e qual a verba?
Atendimento: Não foi definida. Mas por que vocês precisam saber?
Criação: Faz toda diferença. A gente precisa entender se o cliente vai gastar uma caralhada, aí a gente pode pensar num ataque de mísseis aéreos com todas as potências envolvidas. Ou então, se for campanha custo zero, a gente pode bolar uma queda de meteorito.
Atendimento: A gente precisa impressionar. Ideias do caralho. Essa conta é muito importante pra agência. Se vocês acham melhor apresentar propostas bem caras não tem problema. Depois eu ajusto o orçamento na planilha. (...) Só dando um toque: a gente PRECISA ganhar essa porra dessa conta. Perdemos a conta do aquecimento global e vocês viram, né? Todo o departamento de new business foi mandado embora.
Criação: E qual o target?
Atendimento: Olha, o público que vai ser impactado é meio assim tipo... mundo, sabe? Toda a galera. Mas essa campanha vai ser focada pros líderes, formadores de opinião, decisores... Pensa no Trump. Mas tem que ser algo que agrade também aquele outro lá. Baixar Wallassad... Baixar Wassalab... Wasabi... ah, sei lá. E aquele outro também, aquele chinês: King Kong Jun.
Criação: Ele é norte-coreano.
Atendimento: Ah, vocês entenderam.
Criação: E tem algum policy?
Atendimento: Criação livre. Só não pode falar dos concorrentes. Nada de comparar com Marte ou citar Júpiter nas peças. Viu, Kléber?
Atendimento: Ah, outra coisa. Vamos fazer algo bem up to date. Nada de coisa retrô, nada de extinção dos dinossauros, dilúvio, vulcão, isso que vocês apresentaram no job da semana passada. Ah, e vamos levar opções. Mínimo 3. Vocês marcam uma ideia no layout e as outras só faz o key visual. No final, vocês fazem uma defesinha das ideias, pode ser? Por enquanto deixa data, local e horário com marcação nonono. Depois eu passo as informações direitinho e coloco as referências na rede.
Atendimento (saindo da sala, fala baixinho e com sorriso ao mesmo tempo confiante e sarcástico): A gente vai ganhar.
(...)
Criação 1: Alô, é do consultório do Dr. Rogério? Eu tinha uma consulta hoje, mas vou ter que desmarcar... isso... semana que vem? OK, pode ser. Obrigado, tchau tchau.
Criação 2: Pessoal, vocês vão querer do quê? Tô fazendo o pedido agora. Meia portuguesa, meia calabresa tá bom pra todo mundo?

Dia seguinte. 18h55. Chega na sala o diretor de criação. Um hipster gourmetizado. Camisa branca da Dudalina, calça jeans preta, bota Timberland escura, óculos com armação em casco de tartaruga comprado num brechó em Londres, cabelo espetado com gel, barba aparada e brinco de diamante na orelha esquerda. Tem cara de metidinho, afetadinho, antipático. No fundo, é mesmo. Aquela cara de quem está sempre querendo espirrar, sabe?
Diretor de criação: E aí, pessoal? Cês tão criando aquela campanha do fim do mundo? Posso dar uma olhada?
Criação (preocupada): A gente já entregou uns roughs e alinhou as propostas com o atendimento. Estamos trabalhando em conjunto e o pessoal falou que tá tudo OK, que o caminho criativo é esse. Mas se você quiser olhar...
Diretor de criação olha as peças e não esboça a mínima reação. Não faz cara de surpresa, de agrado, não ensaia uma única risada de canto da boca. Sua cara de espirro fica ainda mais acentuada.
Silêncio sepulcral no ambiente. Sons de teclado lá da outra sala parecem tambores. Estagiário tira o fone de ouvido, começa a falar uma frase gritando empolgado e engole a frase no meio. Criação com o cu na mão.
Diretor de criação: Olha, eu não conheço o cliente, mas se eu fosse Deus eu reprovava tudo. Tá tudo muito flat, muito bife na chapa. Sem brilho, sem emoção. Isso aqui, ó: citar o Apocalipse. Bem déjà vu, né não? Redator, falta um conceito, uma ideia bem amarrada. Tá tudo meio solto. Isso aqui da doença de laboratório é até legal, mas cadê o insight criativo? Cadê as premissas? E você, diretor de arte: botar fundo preto pra falar de fim do mundo é beeem clichê. Batido demais. Pessoal, é sério. Se nós formos os últimos a apresentar, o cliente vai dormir. A gente tem que dar show!  Cadê a ação de ativação? Faltou o viral no Facebook. Inventa um lance que pareça fake news, aí na sequência a gente mostra a campanha de verdade. Senti falta disso, um lance meio teaser. Tipo: “prepare-se: o fim está próximo. Sua última chance de pular de paraquedas e beijar na boca a gostosa da sua vizinha”. Sei lá, tô chutando... só uma ideia... mas o caminho é esse...
(...)
Diretor de criação: Bom, tô indo pra academia. Amanhã de manhã eu tenho uma reunião no cliente e chego mais tarde. Me mandem por e-mail. Qualquer coisa, pode me mandar um áudio no Whats.
(...)
Criação: Pessoal, meia muçarela, meia frango com catupiry todo mundo come?

Dia seguinte. 18h55.
Atendimento (esbaforido e empolgado): Criação, acabei de voltar da apresentação. O cliente a-mou as ideias. Ele CHOROU! Muito do caralho. Cês estão de parabéns. Ele só pediu alguns ajustes, eu vou entrar com o pedido. Coisa pouca, bobagem. Aqui eles querem poupar as crianças, os idosos, a população de baixa renda e os cachorrinhos, pra não correr o risco de ficar politicamente incorreto.
Criação: Ué... mas não é O FIM DO MUNDO?
Atendimento: Então... era pra ser... tava tudo alinhado... mas aí entrou o pica das galáxias e resolveu mudar tudo. Não vai ser um fim do mundo global. Eles querem uma coisa meio catástrofes em alguns pontos do planeta. E não pode ser fim geral total porque o contrato de patrocínio com a Nike só se encerra no ano que vem.
(...)
Atendimento: Outra coisa: não podemos falar em “fim do mundo” pra não ficar tão agressivo. Precisamos suavizar um pouco a mensagem. Deixar algo como “o que vem por aí”. Ah, e não podemos usar armas. Nada de canhões, nem armas químicas. E não mostrar gente morrendo. Nem o planeta escurecendo. Algo mais clean, mais subjetivo. De resto, tá aprovado!

Semana seguinte.
Criação: E aí, já temos a resposta da concorrência?
Atendimento: Então... a cliente ACABOU de me mandar um e-mail. Eles decidiram cancelar o job. A verba foi toda alocada pra Copa do Mundo, que passou a ser prioridade. Mas semestre que vem eles vão voltar com o job e eles já prometeram que a gente vai participar do processo. A cliente adorou a agência, a gente conseguiu botar um pé lá dent...
Diretor de criação: Licença, desculpe interromper. Criação, só lembrando: amanhã a gente apresenta o job de ataque terrorista. Cês já começaram a pensar em alguma coisa?
(...)
Criação: Pessoal, o que acham meia escarola, meia atum?


sexta-feira, 9 de março de 2018

DR de hoje


- Amor. Benzinho...
- Quê? Tô dormindo...
- Acorda. Precisamos entrar no chat.
- Que foi?
- Precisamos atualizar nosso status.
- Como assim?
- Isso que você acabou de ouvir. Precisamos reavaliar o CRM.
- Mas o que tá pegando?
- Nossa relação B2B não é mais a mesma. Cê não me prioriza no seu time sheet. Cê não me dá os inputs necessários. Cê não me dá um tratamento customizado.
- Como assim, meu Candy Crush? Você é 360 pra mim. Você é meu foco inspiracional. Sem você eu sou 0 GB.
- Acho que nossa clusterização chegou ao fim.
- Não faça isso, pelamordedeus! Vamos conversar.
- Nosso user experience não tá legal. E tem mais. Soube que seu programa de fidelização não está otimizado. Você vacilou na estratégia de loyalty comigo.
- Quem te disse isso?
- Minha amiga me disse que você viralizou suas táticas de approach e criou um buzz na social media.
- Esse database não confere! O máximo que fiz ontem foi um casual day no bar com os amigos member-get-member.
- Sei... vai desobedecendo as regras de compliance que você vai ver...
- É sério. Eu juro por tudo quanto é sagrado que por você eu sou full service.
- Ah, sei lá... tá tudo meio esquisito... as planilhas não batem... num tá legal.
- Quer fazer um roadmap? A gente redefine o escopo do business intelligence e dá um restart.
- Mas aí precisamos alinhar o core business. Sei não...
- Amore... para com isso... vem cá... deixa eu te dar um beijo... isso... chega mais... vem pra cá...
- Ai, para... assim você me deixa louca... isso... não para... continua... vem... isso...
- Vem cá, benzinho, vou te...
- Ah, não! De jeito nenhum! Pode parar! Back-end, nem pensar!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Adeus ano novo

Era pra ser como a virada de um mês qualquer. Do dia 31 de julho para 1º de agosto. De 31 de outubro para 1º de novembro, véspera de Finados. De 31 de março para 1º de abril, dia da mentira. Mas, especificamente na virada de 31 de dezembro para 1º de janeiro, Dia da Confraternização Universal, período em que a Terra completa seu movimento de translação ao redor do Sol, somos imbuídos pelo desejo de mudança. Acreditamos no poder extraordinário da transformação. Trata-se, na verdade, da transição de um dia qualquer. Um minuto qualquer. Mas não. Nós, seres humanos esclarecidos, somos levados a crer que, a partir deste minúsculo pulo do ponteiro do relógio, seremos outros. Da noite para o dia, iniciaremos uma dieta, entraremos na academia, plantaremos uma árvore. E o mundo, é claro, será outro também.

E assim nasceu o feliz ano novo de 2018. Com chuvas intermitentes e nenhuma providência tomada pela Prefeitura para combater as enchentes e alagamentos. Assim como em 2017. Assim como em 2016. Ou em 1734. Este mais recente rebento do Século 21 trouxe um aumento no preço da passagem de ônibus. Antecipou aquilo que, infelizmente, já vinha ocorrendo nos anos anteriores, só que nos meses seguintes ao primeiro: o suicídio de uma estrela do rock dos anos 90. 2018 chegou chegando com uma série de notícias e reportagens sobre acidentes e atropelamentos causados por rachas. É verdade, meu caro. O homem do terceiro milênio ainda idolatra Vin Diesel e acha que apostar corrida de carrinho é sua prova mais inconteste de supremacia e evolução. O ano veio com político que come gente e política que mata gente. Quer mais? Tem mais, sim senhor. A Organização Mundial de Saúde colocou o Estado de São Paulo inteiro como zona de risco da febre amarela. Isso mesmo. Nós, índios, corremos o risco de morrer de febre, aquela doença que já foi detectada num dos primos primatas de nossa selva.

O que esperar de fevreiro? Não sei. Tirando o Carnaval, não faço a mínima ideia. Só sei que a ceia do último Réveillon continua posta na mesa, exatamente do jeitinho que você deixou.


domingo, 14 de janeiro de 2018

Gato

"O gato subiu no telhado", dito pelo(a):

- Pessimista: "O gato, que já tava velhinho, subiu no telhado de vidro".
- Otimista: "O gato deve ter feito alguma coisa errada, mas ainda bem que tem 7 vidas".
- Político: "No meu governo eu prometo construir 15 mil lares para animais abandonados e 7 mil moradias com telhados revestidos".
- Atriz norte-americana: "Ele abusou sexualmente de mim. No telhado. Odiei, mesmo ele sendo um gato".
- Juiz da Lava-Jato: "Senhor felino, como o senhor explica a reforma do telhado do seu tríplex no Guarujá?".
- Colecionador de grupos de WhatsApp: "Bom diiiia! Boa segunda-feira pra todossss!!! Miau miau ^^ ^^ ^^
- Facebookiano típico: "É inconcebível a sociedade aceitar o fato de um animal mimado e criado em apartamento escalar uma posição de superioridade e abrigar-se no conforto de um telhado, em relação à população carente, que nem tem teto pra se cobrir".
- Hater: "Gatos, vão tomar no cu".
- Maconheiro: "O gato subiu no... no... no... rsssssss".
- Kim Jong-un: "Gatos, olhem pra cá: BUUUUM!".
- Donald Trump (em seu Twitter): "Gatos são imbecis. Vou expulsar todos eles do meu país".
- Dilma Rousseff: "Eu saúdo os gatos. Eles são animais que bebem leite porque são mamíferos... e comem peixe... embora tenham medo de água... e as listras... dos cachorros... quer dizer, dos gatos...".
- Jair Bolsonaro: "Que porra é essa? Não basta eles vadiarem nas ruas, agora inventaram de subir no telhado? Que palhaçada é essa? No meu governo não vai ter essa bagunça não. Carrocinha pra todos eles".
- Carlos Alberto Sardenberg: "A taxa de elevação do gato nos fundos do telhado ultrapassou os índices previstos pelos economistas em relação à taxa dos cachorros, por exemplo".
- Pabllo Vittar: "Não sou gato. Nem gata. Nem cisgato. Apenas um ser humano em busca de escalar a liberdade sobre o telhado".
- Politicamente correto: "O animal costumeiramente perseguido pelo cachorro escondeu-se nas alturas por meio de sua acessibilidade".
- Professor catedrático: "O Felis catus galgou em direção à cobertura residencial de cerâmica".


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Fim de ano

Fim de ano. Época de fazer amiguinhos.

Todo mundo se amando. Todo mundo se abraçando. Mesmo que aquela enorme cesta de Natal que você carrega atrapalhe um pouco a proximidade do movimento.

Confraternização então, nem se fala. Jantar-balada da firma. Almoço da equipe da firma. Happy hour dos amigos do colégio com quem você estudou faz mais de 3 décadas.

Se bobear, teve festa dos vizinhos da rua também. Eu é que não fui convidado.

Falando em rua, é nesse período que começam a pipocar em sua caixa de correios um monte de cartões de Natal. O carteiro deixa o seu naquela caixa. Por motivos óbvios. O entregador de jornal, idem. Sim, ainda somos do tempo em que se lia jornal impresso em papel-jornal. O lixeiro pede sua comissão natalina. Afinal, se não fosse o serviço de sua coleta, estaríamos morando até agora submersos numa montanha de latas de atum e cascas de abacaxi. O funcionário que lê o relógio da luz também quer uma fatia desse bolo. Imagina só: o cara aparece no portão da sua casa uma única vez por mês, faz uma leitura de no máximo 45 segundos, vai embora te deixando um boleto de cobrança de imposto do Governo e ainda quer ganhar caixinha de Natal. O cara da água, idem. Mas não é só de luz, água e lixo que vive o cidadão paulistano. Nessa efeméride, única e tão somente nessa efeméride, brotam os funcionários do recapeamento asfáltico rogando por seu quinhão. Os capinadores da grama da calçada. Acho meio curioso isso: não sabia que minha grama só crescia em dezembro. Melhor mesmo continuar invejando a grama do vizinho, que cresce todos os meses do ano. E os limpadores de bueiro então? Você liga pra Prefeitura na época das enchentes, das festas, nunca tem gente disponível pro serviço. De repente, não mais que de repente, em dezembro aparece uma dúzia deles na sua casa. Certeza que brotaram dos bueiros. Tipo tartarugas ninja multiplicados por 4.

Ainda bem que não teve amigo secreto. Minha torcida para que não houvesse foi quase tão grande quanto minha torcida para ganhar sozinho a Mega da Virada. Não é por nada, não. Respeito quem goste da brincadeira. Mas, única e especificamente no meu caso, não tenho muita sorte com a coisa. Quando tiro alguém que gosto, vou atrás de um presente bem bacana. Ouviram bem, gente? Ir atrás, presente, em pleno mês de dezembro. Shopping mais lotado que o Lollapallooza. Vocês não fazem ideia do sacrifício que é procurar presente bacana nessa época. Entretanto, todavia, a pessoa que me tira não tem lá esse apreço todo por minha pessoa. Na hora de eu desembrulhar os incontáveis lacinhos que circundam a caixa, lá vem um 25 de Março. Que parte do “valor mínimo de 50 reais” a pessoa não entendeu?

Mas voltando. Natal, ano-novo, tudo junto ao mesmo tempo agora. Um monte de mensagens, e-mails, cartões virtuais, posts, gifs. Gente que te adora, ou apenas acha você um cara bacana, ou simplesmente adicionou seu nome numa lista de outras 278 pessoas antes do envio. Mas tudo bem. Houve um esforço, uma dedicação. Tá valendo do mesmo jeito.

Fim de ano. Minha vida recheada de luzes, de cores, estrelas, candelabros, copos de champanhe, feliz ano-novo, chag sameach... ah, mas VOCÊS não comemoram o Natal. Olha, querido, deixa te explicar uma coisa. Você acha que realmente esse negócio de deixar tudo iluminado, as casas e as ruas com luzes brilhantes e piscantes, vem mesmo do Cristianismo?

Fim de ano. Minha vida recheada de panetone, rabanada, nozes, castanhas, lentilhas. Minha vida recheada de peru, que também está recheado. Peru, por sinal, custando quase o mesmo que um iPhone. Na hora em que a moça do caixa pergunta “débito ou crédito?”, dá vontade de responder: “assalto”. E por que falta bacon na cidade, gente? É a nova dieta do Papai Noel? Até no Supermercado Irmãos Dias você encontra bacon. Menos em dezembro. OK, OK, bacon é vida. Mas é o tipo de item que você encontra fácil nos outros meses do ano. Até entendo essa escassez decorrente da lei da oferta e da procura. Mas uma coisa que não entendo é a polêmica que se instaura em relação à uva passa. Nossa, como tem hater de uva passa! Bastou o Afonso Padilha postar um vídeo falando sobre isso que, do mesmo bueiro dos caras da Prefeitura, surgiu essa legião de odiadores da uva passa. Não tem nada de mais com a fruta. É só uma uva que ficou 10 minutos no micro-ondas. Vai me dizer agora que você preferia kiwi dentro do panetone.

Fim de ano. Época de ficar mais gordo. Época de ficar mais pobre. Mas vale muito a pena. Estamos amando a todos.

Em janeiro a gente volta ao normal.


domingo, 15 de outubro de 2017

Parece que foi amanhã

Segundo Albert Einstein, o tempo é uma grandeza relativa. E de acordo com Érico Fuks, é traiçoeira também. Por mais relógios (sim, o relógio voltou a ficar na moda), despertadores e smartphones que a gente tenha, estamos sempre atrasados para alguma coisa. À medida que envelhecemos, o tempo torna-se ainda mais caquético quanto à sua irregularidade. Uma fila de banco que demora uns 40 minutos nos traz a sensação termodinâmica de um semestre. Em compensação, as 24 horas de um feriado mais parecem o tempo de cozimento de um miojo.

Quando acumulamos essa sensação de perdas e de ganhos por um período mais prolongado, aí sim nem parece que o tempo pertence ao nosso planeta. A gente não se conforma quando vê um menino fazer bar-mitzvah, por exemplo. "Nossa, carreguei ele no colo faz uns 5 anos atrás...". Não, não faz. Ele vai completar 13 anos mês que vem. E carregar a Torá no colo também.

Há exatos 6 meses atrás, conheci uma pessoa incrível. Se parece mais, se parece menos, não sei. Ao tempo, eu me refiro. Incrível, com certeza ela é. Vira e mexe a gente relembra alguns momentos marcantes para que eles fiquem guardados em nossa história. Para que não se percam nas nuvens, na cloud, ou fiquem armazenados em algum arquivo morto ou diretório impossível de ser localizado. Essas memórias trazem de volta desde incontidas gargalhadas até aquele sorriso aberto e contemplativo de saudade.

Mas não é só o passado que nos alimenta. Estamos sempre no devir. A gente não pensa só no amanhã, como no depois de amanhã também. Fazemos planos como se o futuro fosse algo muito próximo, uma grandeza iminente que pode desabrochar a qualquer momento.


Obrigado, Paola Raia, por fazer valer a pena cada minutos desses 180 dias passados. Torço muito para que o futuro amanhã seja uma grandeza infinita, onde possam caber todos os nossos planos, as nossas vontades e o nosso amor. Afinal, parece que o mundo ainda não acabou.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Horário de verão

Ainda não se sabe ao certo se neste ano vai haver o horário de verão. Aquele empréstimo compulsório que o povo cede ao Governo. Tiram de nós uma hora do nosso sagrado domingo para devolver só no começo do ano que vem, lá pelos idos de março. Pior: sem juros, sem correção monetária. Descontam da fonte 24 horas e quando devolvem, as mesmas 24 horas, sem um segundinho a mais.

A razão alegada de tal imposição é a economia de energia. Redução do consumo de luz elétrica, ar-condicionado e inseticida de tomada. Motivo justo. Evitemos o desperdício. O problema está na forma como o Governo realiza tal confisco. Adiantam automaticamente todos os computadores, celulares e relógios de rua. Não cabe recurso.

Se esses minutos fossem investidos para melhorias em nosso país, tudo bem. O Governo arrecadaria bilhões de minutos, contabilizados no minutômetro instalado no Centro de São Paulo, e utilizaria a verba para obras públicas de infraestrutura. Investiria esse montante temporal para oferecer agilidade em filas de banco, esperas telefônicas, sinal de wi-fi e filas de caixa de baladas. Na Alemanha é assim. Na Dinamarca é assim. A França está adotando esse modelo. Portugal estuda a implementação dessa prática... pensando bem, não. Na questão de entendimento de piadas, Portugal continua bem devagar.

Não é o que ocorre no Brasil. Aqui é o país do jeitinho. “Só mais um minutinho”, “um minuto de sua atenção”. E continuamos atrasados. Nestas terras tupiniquins, arrecada-se um volume de tempo equivalente à Pré-História para oferecer serviços equivalentes à duração da Semana de Arte Moderna. Isso sem falar nos constantes esquemas de corrupção. Quadrilhas envolvidas no desvio de segundos públicos. Recentemente, foi gravado um vídeo em que um assessor do Governo foi flagrado com 500 mil minutos dentro de um cronômetro, o que acarretou o início da Operação Hora Certa. Todos os dias vemos na TV depoimentos de delação premiada, em que empresários e executivos da Rolex e da Dimep denunciam políticos envolvidos em fraude e lavagem de períodos. Muitos citados foram presos, mas a maioria conseguiu a liberdade porque entrou com recurso de absolvição de banco de horas. Alguns políticos cumprem pena em prisão domiciliar, mas os governos de alguns estados já alegaram que falta relógio de pulso eletrônico para todos os criminosos. Mais recentemente ainda, 51 milhões de centésimos foram encontrados no apartamento de um influente ex-ministro. Se a coisa continuar assim, é provável que nem o Presidente da República escape da punição. Deputados de partidos adversários já falam em impeachment: se comprovada a corrupção, o representante-mor da nação terá de devolver 2 anos e 5 meses de seu mandato aos cofres públicos.

Não sei se o horário de verão vai ser bom ou ruim. Sensação de sair do trabalho com o dia claro, tomar banho gelado sem sofrimento, ver o Jornal Nacional em pleno pôr-do-sol, tudo muito bonito, mas apenas medidas de fachada. Estamos enfrentando uma crise cronológica sem precedentes, como não se via há décadas. Prova disso é que diretor e roteiristas já estão trabalhando numa adaptação para o cinema: A Hora do Pesadelo.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

A bilheteria é para todos

Arte é confronto. É o embate dos contrários. É a forma de expressão que só se intensifica por meio de conflitos e provocações. Nem que sejam meramente internos. Só assim o indivíduo cresce. Só assim a sociedade evolui.

Quem me conhece um pouco melhor sabe que não sou lá muito chegado às terminologias “de esquerda” ou “de direita”. Sob esse ponto de vista, o mundo mudou. Vemos uma série de governos ditos “de um lado” praticando ideologias consideradas “de outro lado”, em todos os territórios do planeta. Políticas conservadoras, práticas ditatoriais, nada têm a ver com essa divisão. Servem tanto para um quanto para outro. Acredito mais na fissão “eficiência de gestão” x “incompetência de gestão”. Esquerda ou direita me parece um julgamento simplista, maniqueísta. Uso raramente, apenas para resumir ou simplificar um conceito de senso comum, quando não quero adentrar em detalhes. Senso comum, diga-se de passagem, que nada tem a ver com bom senso. Procuro observar o mundo, sob a ótica política, mais como um crítico inconformado do que um flanelinha: “mais pra esquerda, vem pra direita, aí tá bom...”.

Dito isso, queria falar um pouco sobre um assunto recente que me chamou a atenção. Não se trata da exposição patrocinada pelo Santander. Que, por sinal, passou pelos mesmos crivos policialescos dos árbitros das redes sociais. Na verdade, trata-se de um boicote feito por parte de uma “elite pensante” em relação ao comparecimento nas salas de cinema para ver “Polícia Federal”. E, posteriormente, a equivocada comemoração para os resultados de bilheteria considerados “pequenos”.

Acho tudo isso uma grande bobagem. Um gesto partidário que beira a infantilidade. Algo tão pueril quanto telefonar para um programa televisivo matinal ou andar na rua carregando um balão vermelho. Em primeiro lugar, pelos números que falam por si. Tá certo que não alcançaram as expectativas megalomaníacas, mas “Polícia Federal” fez, no feriado prolongado, quase meio milhão de pagantes. Foi a maior estreia nacional de 2017.

Mas, aonde quero chegar? Como cinéfilo, apreciador controverso da arte, acho que todo e qualquer filme deve ser visto. Do conservadorismo “direitista” de Clint Eastwood, diretor por sinal muito bem aceito pelos corretores da Sétima Arte, ao panfletarismo proletário “esquerdista” de Ken Loach. Se algumas críticas e publicações anteciparam que Polícia Federal faz um retrato cômico e caricato dos investigadores, coloca o departamento em estado incólume de beatificação, ou peca ao não aprofundar os fatos, a meu ver isso não são argumentos suficientes para a tal greve. Até porque, na miopia de sua raiva, os precursores do “não vou” mal perceberam que, nos últimos anos, vem surgindo uma classe política que não se afirma como “de direita”. São os “ex-esquerda”, que também lutaram contra a ditadura, votaram no Lula lá no começo, mas se decepcionaram com os rumos tomados por algumas lideranças. Talvez não sejam nem de esquerda nem de direita, apenas desnorteados diante de tanta roubalheira e impunidade. O próprio diretor (conforme falado na coletiva de imprensa, eu estava lá) faz parte desse novo nicho.

Cinema é ruptura na forma e no conteúdo mas, na questão dos produtores e realizadores, acredito que eles devem andar bem grudadinhos. Principalmente o cinema brasileiro, que compete com as intensas e covardes estratégias de marketing das majors para que seus blockbusters alcancem o topo das bilheterias. Pensar que meio milhão de brasileiros abriu mão das futilidades e das commodities de consumo dos shoppings para ver o filme, ainda que esta seja a parte ínfima e menos lucrativa de um pacote composto por baldes de pipoca e litros de refrigerante, é um dado que não pode ser desprezado. Estamos assistindo, todos os dias, fora das telonas, à maior investigação político-criminal da história do país. Não podemos nos submeter à arrogância de certos bedéis da arte, que nos orientam a boicotar o filme. Ainda que finalizado de maneira torpe e carregada nas tintas, a Operação Lava Jato provoca um mínimo de interesse a ser discutido.

Por favor, deixem a Paris Filmes lançar seus filmes “de direita”, como o requentado Plano Real. Deixem a Vitrine Filmes lançar seus filmes “de esquerda”. Apesar de suas formas radicais e ideologias obtusas, ou talvez justamente por isso. Fazer campanhas contrárias não é inconformismo, é imbecilidade. Somos bombardeados por quase uma dúzia de estreias toda semana. Ainda que os filmes “de direita” se utilizem das mesmas estratégias comerciais dos filmes de terror ou das franquias de super-heróis, ver um filme brasileiro abraçar seu público não deixa de ser um ato de resistência. Lugar de pessoas é na sala de cinema, desde que não conversem durante a projeção, não usem o celular e não chutem a cadeira da frente. A única pessoa que gosta de sala vazia é o bilheteiro: ele tem menos trabalho para destacar os ingressos. Cinema cheio faz bem, principalmente a nós mesmos, cidadãos contribuintes, pagadores de impostos. Com bilheterias mais gordas, é possível que nosso produto tupiniquim necessite menos da mendicância das leis de incentivo, o atual antibiótico responsável pela sobrevivência da nossa arte.

Se existe hoje o Movimento Brasil Livre, que de liberdade não prega nada, existe também o Movimento Cinema Livre, oculto nas entrelinhas das redes sociais, mas que se vale dos mesmos métodos persuasivos de censura. E é quase tão perigoso quanto. Não é isso que eu quero para o futuro do nosso país. Nem para o presente. Queria mesmo é poder ver abraçados, segurando cartazes ou não, tanto o Kléber Mendonça quanto o Marcelo Antunez, mais o Eugênio, o Adirley, o Bruno, o Caetano, o Marco, os irmãos Salles e muitos outros que, com suas diferenças estéticas e políticas, gritam por suas ideias e fazem sua arte ecoar nas pessoas e não nos vazios. O resto é palhaçada fora das telas.


terça-feira, 25 de julho de 2017

Gestão pública X gestão privada

GESTÃO PRIVADA
A empresa comete uma grande cagada.
Os sócios pensam em 2 saídas.

Plano A:
Abafar o caso, indenizar os possíveis lesados, fazer um recall do produto.
Investir pesado em Propaganda. Comunicação focada em transparência e eficiência.
Modernizar a marca.
Alterar os livros de Contabilidade. Criar operações financeiras fantasmas. Reduzir os prejuízos do livro-caixa.
Valorizar as ações.
Vender a empresa para uma multinacional por uma quantia estratosférica.
Enterrar a marca nacional.
Com a dinheirama da compra, o dono passa o ano em Genebra.

Plano B:
Demitir os funcionários. Deixar de pagar indenizações. Sofrer processos trabalhistas aos montes. Deixar correr esses processos.
Transferir os bens para o nome de outra pessoa.
Sucatear o patrimônio.
Pedir concordata. Tentar o perdão da dívida na Justiça.
Fechar a empresa.
Enquanto o nome da companhia fica sujo na praça, dono foge e passa uma temporada em Genebra.


GESTÃO PÚBLICA
O Governo comete uma grande cagada.
Em discurso, Presidente fala que não existe Plano B.
Deixa a estrutura estatal mastodôntica exatamente como está.
Não corta um centavo dos gastos públicos.
Aumenta as benécies dos parlamentares em troca de favores políticos.
Cria estratégias para abafar as investigações.
Empurra com a barriga as principais reformas legislativas.
Faz um mandato-tampão baseado em emendas.
Troca metade do ministério. A cada 2 meses.
Convoca o melhor Ministro da Economia pra dar um jeito.
Aumento de impostos para cobrir rombos.
Índice de confiança do setor empresarial continua em queda.
Taxa de juros não cai, inflação idem, desemprego sobe. PIB quase zero.
Queda da produção. Queda da produtividade. Mais impostos. Presidente afirma que povo vai entender.
Cai o Ministro da Economia. Cai a Economia.
Em meio à maior crise política do século, Presidente é convocado a participar de conferência mundial sobre sustentabilidade. Em Genebra.