domingo, 29 de março de 2020

A sinuca de Mandetta


Não há dúvidas: Luiz Henrique Mandetta é o presidente em exercício do Brasil. É ele quem tem a incumbência de articular medidas de controle da disseminação do coronavírus. E carrega o fardo de não deixar o país cair no abismo de gráficos desastrosos.

Como político, tem um passado questionável, ligado a forças e interesses conservadores. Mas, como Ministro da Saúde, é inegável seu empenho 24 horas por dia em pensar e oferecer as melhores soluções possíveis e viáveis diante de um quadro ao mesmo tempo incerto e assustador. Muito mais preocupado em elucidar questões técnicas do que cair em emaranhados discursivos políticos, o ministro apresenta equações em sintonia com as orientações da Organização Mundial da Saúde e todos os governantes do mundo inteiro que adotaram essa linha de conduta. As barreiras e dificuldades são imensas. Desde a implementação de leitos em hospitais públicos em tempo recorde, até a liberação de verbas trilhardárias para multiplicar a estrutura do sistema de saúde no Brasil, coisa inimaginável de ser concretizada em épocas mais brandas. Seu maior empecilho, porém, é de outra ordem: Jair Bolsonaro.

É notório que existe uma queda de braço entre o ministro e o presidente. O primeiro ganhou os holofotes da mídia por sua competência em trazer informações à população em tempos de ponto de interrogação na cabeça. Já o segundo parece continuar em campanha eleitoral. Sai às ruas, cumprimenta e abraça comerciantes, contrariando as recomendações mundiais e colocando à prova sua tão propalada onipotência. Como se nada tivesse acontecido. A pandemia é um exagero da mídia, e Bolsonaro coloca-se despido de qualquer medida protetiva para mostrar, com seu heroísmo deslumbrado, que meros perdigotos não serão capazes de matar o corpo de atleta de um capitão que sobreviveu a uma facada.

O problema, entretanto, é que Mandetta está em linha com os governadores, com o Congresso, com qualquer tipo de autoridade com o mínimo de zelo e inteligência. Já Bolsonaro continua se amparando num texto de Trump que só passou em sua cabeça. E, com isso, isolou-se no poder. Bolsonarto tornou-se um tirano de si mesmo. E, enciumado com as repercussões, braveja recriminar seus súditos que pensam o contrário.

Após o pronunciamento pra lá de absurdo do presidente em cadeia nacional, na semana passada, ficou claro que as linhas de governo não se conversam. Mandetta, ao invés de manter a rigidez de sua postura ética para que a sociedade como um todo tome as providências drásticas e amargas necessárias, pegou bem mais leve. Em coletiva de imprensa, afirmou que a quarentena foi precipitada. Defendeu, sem defender, o isolamento vertical (aplicado somente a idosos, pessoas dos grupos de risco ou pessoas que apresentem algum sintoma da famigerada gripezinha). Tanto é que, nas redes sociais, foi apelidado de ministro-sabonete. Nessa época em que o sabão, o detergente e o álcool gel são artigos de luxo e de extrema necessidade, tal alcunha viria a cair bem. Não foi o caso. Passou-se a impressão de que o ministro falou conforme as conveniências e aderências das circunstâncias.

Mandetta se vê numa sinuca de bico. Se seguir as orientações médicas do planeta inteiro, vai bater de frente com Bolsonaro. Se fizer o contrário, vai de fato levar a saúde pública do país a uma irremediável situação de colapso. Então, o pulso-firme começa a desenhar um posicionamento meio de carta-coringa. Ele não pode ser o pivô de uma desestabilização do governo. Mas também não pode ceder aos ímpetos lunáticos desse déspota imbecilizado que nos preside. Um trunfo ele tem. Se demitido, o Brasil não possui um nome à altura para ocupar o cargo. Médicos competentes é o que não falta. Dr. Drauzio Varella seria um deles. Mas o Brasil fragmentado de hoje precisaria muito mais do que um doutor nas ciências. É necessário ter a virulência que o cargo exige num momento crítico como este e ao mesmo tempo fingir subserviência ao fascista desvairado pra não corroer o Estado de vez. Por enquanto, essas sabonetadas têm dado certo. Bolsonaro se vê num compulsório confinamento político, enquanto Mandetta e sua trupe de apoiadores atuam de forma a parecer que vivemos um parlamentarismo brando e temporário. Resta saber qual será o prazo de validade deste medicamento paliativo.


sábado, 28 de março de 2020

Meu perfil no Tinder

Antes da quarentena:
Sou alegre, divertido, amo a natureza, adoro praias, parques, viagens, encontrar os amigos, abraçar pessoas, sair pra conversar num bar. Sou amante das artes, adoro ir ao cinema, teatro, shows e exposições. Adoro cozinhar, sempre busco receitas novas e criativas. Se você gostou ou se identificou com meu perfil, vamos marcar de bater um papo descontraído e ver o que rola. Casadas e enroladas, por favor X.

Depois da quarentena:
Sou solitário, passo quase o dia inteiro na cama. Estou à procura de alguém porque não aguento mais ficar ouvindo os noticiários. Sou introvertido e meu quadro clínico está entre a ansiedade e a depressão. Adoro ficar em casa vendo Netflix e estourando uma pipoca. Sou caseiro e organizado, já arrumei minha estante umas 4 vezes. Sou higiênico, lavo minhas mãos 52 vezes por dia. Adoro passar o dia compartilhando memes e postando minhas fotos de 2 anos atrás, quando eu podia sair pro barzinho - e era 10 quilos mais magro. Adoro cozinhar, sempre tento fazer algo improvisado com o Miojo e a salsicha que sobraram. Se você gostou ou se identificou com meu perfil, vamos trocar zap pra ficar horas conversando e quem sabe trocar nudes. Infectadas e pessoas do grupo de risco, por favor X.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Rotina na quarentena


Acordar – 6h
Tomar banho, escovar os dentes, tomar café, olhar no relógio – 6h40
Fazer alongamento, ligar o computador, ver as tarefas do dia, apagar os memes dos grupos de zap, olhar no relógio – 6h50
Limpar a casa, arrumar a estante, dar uma volta com o cachorro (de máscara e luva), cumprimentar os vizinhos de longe, voltar pra casa, olhar no relógio – 8h10
Fazer as tarefas do dia, enviar por e-mail, receber as alterações, fazer as alterações, aguardar aprovação, olhar por relógio – 9h
Subir no telhado, trocar todas as telhas quebradas, pensar na vida lá do alto, escorregar, ralar a mão, fazer um curativo, olhar pro relógio – 10h05
Receber e-mails, dar o toque final nas alterações, entrar no Facebook, ver 300 posts falando a mesma coisa, bloquear bolsominions, olhar pro relógio – 10h55
Ir ao banheiro lavar as mãos do jeito que a OMS recomenda – 11h10
Ir pra cozinha preparar o almoço. Descascar 10 batatas, fazer arroz, limpar o peixe, lavar alface, botar o peixe com as batatas e tomates pra assar, tirar do forno, olhar no relógio – 11h50
Almoçar, assistir TV enquanto almoça, ver o Dória tretar com o Bozo, emendar com Globo Esporte, descobrir que não tem Globo Esporte, preparar uma sobremesa, olhar pro relógio – 12h55
Tirar um cochilo, ter pesadelo, sonhar que o mundo tá acabando, sonhar que as prateleiras dos supermercados estão vazias, acordar assustado, olhar pro relógio – 13h15
Voltar pro trabalho, receber as tarefas, mandar mensagem pro coordenador das tarefas, fazer um call, digitar, diagramar, criar apresentação em Power Point, enviar, olhar pro relógio – 14h40
Ler mensagens de zap, apagar tudo, ver stories do Insta, pegar um livro, ler Crime e Castigo do início ao fim, olhar pro relógio – 17h
Ir pra TV, clicar na Netflix, assistir O Irlandês, olhar pro relógio – 17h30
Fazer ginástica na sala, levar o cachorro de novo pra passear, dar a volta no quarteirão, dar uma esticadinha até a Av. Paulista, voltar, olhar pro relógio – 18h30
Tomar outro banho, lavar a cabeça, fazer a barba, cortar as unhas, experimentar todas as roupas guardadas pra ver se ainda servem, perceber que engordou 5 quilos, ir pra cozinha preparar o jantar, olhar pro relógio – 19h
Fazer um risoto de arroz negro e salmão no papel alumínio, olhar pro relógio – 19h40
Ver TV enquanto come, reparar que as notícias são as mesmas da tarde, emendar com alguma reprise de novela, ligar pros pais, falar pra eles que não está infectado, olhar pro relógio 20h25
Lavar roupa, passar roupa, engomar camisa, olhar pro relógio – 21h
Começar a ficar com sono, ir pro computador e descobrir que não está com sono – 21h15
Ficar na net, entrar no Youtube, sair do Youtube, entrar no Mercado Livre, entrar no PornTube, ver vídeos de todas as categorias e ir pra cama achando que já é de madrugada – 23h


quarta-feira, 25 de março de 2020

Deu ruim


O pronunciamento do presidente da República, Jair Bolsonaro, foi equivocado em diversos aspectos. Inconsequente ao incitar a quebra da quarentena, ou confinamento em massa em suas próprias palavras, desobedecendo às recomendações da OMS. Temerário ao sugerir que as escolas e o comércio em shoppings não permaneçam fechados, contrariando as táticas de conter os focos de disseminação do vírus e, com isso, retardar os efeitos da proliferação até que o nosso sistema de saúde ofereça a estrutura necessária para enfrentar esse pandemônio. Perverso ao colocar a Economia em primeiro lugar, à frente da questão de saúde pública, muito embora saibamos que as falências generalizadas trarão efeitos colaterais igualmente letais ao país. E prepotente, ao se colocar incólume às ameaças, graças a seu corpo de atleta.

De resto, o tom do discurso foi mais do que previsível. E velho. Enquanto as autoridades médicas – e os governadores dos Estados – estão tomando providências à medida que os fatos se desenrolam, reciclando seus conhecimentos e se adequando às novas perspectivas, nosso chefe da nação continua teclando a mesma ladainha de sempre. Gripezinha, exagero da mídia, problema da China. Para os especialistas, o hoje é diferente do amanhã. Para Bolsonaro, não. Os números até podem aumentar em progressão geométrica. Mas o discurso do beócio é sempre o mesmo, calcado em suas convicções toscas. O hoje é igual ao ontem, que é exatamente idêntico a 1964. O único momento da história do país que desconstruiu essa narrativa progressista de crescimento foi entre 2003 e 2016. Bolsonaro é tão simplório em suas atitudes, e confiante de que isso seja um mérito, que confunde cadeia de TV nacional com Twitter. Com seu cinismo de praxe, usou parte do tempo ao qual tem direito como mandatário para lavar roupa suja e atacar, indiretamente, a Rede Globo e seu médico que entrevista e abraça travesti assassino, o dr. Drauzio Varella.

Mas o que me espanta de verdade não é esse palavreado monocórdico e repetitivo, como se o áudio do aparelho estivesse sintonizando uma estação de rádio com músicas tocando no modo looping. Ou mesmo as esperadas reações entre meus amigos de inconformismo, indignação e panelaços mentais individuais. Me chama muito a atenção em particular os apelos que passaram a eclodir em suas postagens. Em tons extremos e definitivos, um considerável contingente da minha horda de amigos, conhecidos, familiares e seguidores das redes sociais solicitou que os bolsominions, os direitistas ou simplesmente quem ainda apoia o presidente se autodelete do rol de amizades do autor da publicação. Aí eu já acho que a coisa perde um pouco o sentido. Claro, não dá para conviver com alguém que emporcalha nossa página com fake news, argumentos suspeitos ou posições ideológicas diametralmente contrárias. Mas o clamor em linguagem de ameaça, em tempos de confinamento social, é no mínimo perigoso e igualmente violento. Existem diferentes motivações que fizeram o eleitor optar por Bolsonaro. Desde uma fé cega e incondicional ao mito, até a percepção de que ele foi a única via possível para aniquilar o peso político do PT. Muitos eleitores do Bozo, hoje, estão arrependidos ou fazem o chamado “apoio crítico”, reconhecendo falhas e exageros, porém, em sintonia com sua política econômica neoliberal. E outra: se os extremistas continuam invadindo a página dos meus queridos, alguma coisa está errada na lógica matemática dessa ferramenta. Pois o Facebook consiste no paradoxo de agregar pessoas, criando-se uma rede, e selecionar por meios algorítmicos as possibilidades de interação. Ou seja, do ponto de vista prático, é o próprio Face que cuida para que suas ideias e opiniões sejam vistas pelos mesmos amigos e seguidores. Falar em bloquear pessoas com pontos de vista contrários é ratificar e intensificar esse movimento de criação de bolhas e redomas sociais, trazendo o indivíduo ao confinamento de sua zona de conforto que nada tem a ver com a ameaça do vírus.

Eu sinceramente acho que a catástrofe não está lá fora, nas ruas e nos supermercados, com os vermes à espreita só esperando o momento certo de nos atacar. A pandemia real está aqui dentro do conforto dos nossos lares. No início, prometemos pra nós mesmos que, passada a quarentena, voltaríamos a nos beijar e abraçar muito. Até agora, deu o contrário. Estamos com um cagaço da porra. De contrair o corona, de perder o emprego, de zerar nossas economias domésticas e não encontrar qualquer tipo de auxílio do sistema financeiro em progressiva bancarrota. Pra completar, o porta-voz do nosso Brasil é um vomitório de asneiras. Estamos ociosos e ansiosos. Intranquilos a cada vez que ligamos o noticiário. Tudo isso só está nos levando ao abismo da neurastenia. Saramago foi profético em parte. Assim que nos curarmos da cegueira, continuaremos míopes. E cada vez mais hostis. As conseqüências do pronunciamento de Bolsonaro são incalculáveis, pois projetam para o futuro exatamente o que fizemos no passado. Voltamos às briguinhas de colégio de 2018. Pra mim, já deu.


segunda-feira, 23 de março de 2020

Começam as contradições


Alguns chefes de governo, autoridades e especialistas médicos estão recomendando para a sociedade não entrar em pânico. Nada mais justo. Se já é difícil controlar a pandemia em condições normais de temperatura e pressão, imagina num calamitoso estado de histeria coletiva. Nesse momento, a calma e a tranqüilidade são artigos tão essenciais quanto o álcool gel.

Para seguirmos nossas vidas de maneira mais ou menos segura, ou pelo menos com a insanidade controlada, basta obedecermos às recomendações dos profissionais que estão a toda hora, em todas as mídias. Em primeiro lugar, é muito importante lavar as mãos. Usamos essa orientação como se fosse um mantra. Só que mão é um conceito muito vago. Aí vem o update: lavar por 40 segundos a mão, as unhas, as juntas dos dedos e o pulso. E o vírus não escolhe só as mãos pra se instalar. Ele pode aparecer atrás da orelha, ou nos vincos das narinas, no umbigo e em qualquer reentrância sobre a qual você não costuma dar conta. E os recados médicos vão ganhando força e amplitude. Afinal, esses profissionais também estão aprendendo tanto quanto a gente. Eles nunca enfrentaram uma situação assim. Aí vem o update do update: a disseminação de posts falando pra tirar a barba. Ela é foco de bactérias (muito embora, como o próprio nome diz, o coronaVÍRUS não seja uma bactéria. Mas tudo bem. O importante são os hábitos higiênicos). E todo aquele feminismo de não depilar a perna ou deixar crescer os pelos das axilas cai por terra. Vamos juntos combater a proliferação desse malvado. Vamos procurar dentro de nós aquele mais recôndito orifício que a gente não ensaboa desde a greve dos caminhoneiros. Vamos raspar tudo quanto é pelo de contágio, eliminar nossos cabelos e tirar um selfie do novo look que parece que estamos entrando numa sessão de quimioterapia, mas NÃO VAMOS ENTRAR EM PÂNICO.

E as novidades continuam aparecendo. Não basta lavar as mãos ou usar álcool gel. A roupa que você usa pode estar contaminada, caso tenha encostado em outro foco infeccioso. Estudos recentes mostram que o corona não é um vírus de inverno. Ele resiste ao calor, à água, sobrevive no ar e pode ficar alojado em superfícies por um período ainda desconhecido, mas já se fala que alguns deles pretendem usar a Lei do Usucapião pra se instalarem permanentemente na sua bolsa ou mochila. Ou seja, quando você chega em casa (nem deveria ter saído), a primeira coisa a se fazer é tirar os sapatos. Se não tiver nenhum vizinho olhando, tire toda a roupa e coloque direto na máquina. Sem falar com ninguém, vá direto ao chuveiro. Isso vale pra hoje. Capaz de amanhã uma equipe de sanitaristas vestidos de uniforme da NASA e capacete espacial dar banho em você usando um esguicho de agentes químicos. Lavar as roupas guardadas é bom também. Nunca se sabe se aquele  vestido que você usou no casamento de sua prima que hoje está com 50 anos está infectado. Medidas de precaução. Hoje você joga uma ducha no seu Nike, amanhã você taca fogo no seu guarda-roupas inteiro, mas NÃO VAMOS ENTRAR EM PÂNICO.

Supermercado é outro fenômeno a ser estudado. Roga-se para as pessoas evitarem as aglomerações e se dirigirem a locais públicos somente em casos de extrema necessidade.  Tentemos entender a lógica. Com exceção dos hindus, ninguém vive de luz. Se um freguês vai ao supermercado e lota seu carrinho de compras, isso quer dizer que ele vai diminuir a freqüência de voltar ao estabelecimento, seguindo as recomendações. Só que, em tempos de zumbilândia, carrinho cheio virou sinônimo de egoísmo. De ostentação. Colocar 2 rolos de papel higiênico na cestinha significa que o próximo da fila vai ficar sem. Mas não vamos falar de cocô. Vamos falar de comida. Durante essa quarentena de 20 dias, que pode durar 1 mês, ou quem sabe esticar até as Olimpíadas, as pessoas estão em casa sem nada pra fazer. E com o cu na mão porque não sabem como vai ser amanhã. Se ainda vão ter emprego. É a ociosidade que estimula a ansiedade. E, na maioria dos casos, pessoas ansiosas tendem a comer mais. Está rolando um vídeo nas redes sociais em que, dentro de um supermercado abarrotado de gente, um sósia do cantor Péricles tem um ataque de fúria, sobe num carrinho e começa a gritar com as pessoas. Ele fala pro povo ir pra casa, pra não entupir o carrinho de mercadorias. Seu discurso até que faz sentido. O problema é aquela imagem, a cena típica do Apocalipse. As pessoas não sabem, então, se devem se munir de estoque pra evitar o contato físico ou se devem ser solidárias e viver como sobreviventes de Auschwitz, mas NÃO VAMOS ENTRAR EM PÂNICO.

Ah, tem também o movimento pra parar o Brasil. Sim, frear completamente. Numa realidade em que PIB zero virou uma projeção otimista. Num desses vídeos que o amigo do vizinho nos encaminha em grupos de WhatsApp, e a gente acaba clicando por falta do que fazer, o Marcos Mion faz um apelo sério pra sociedade. Começa falando calmamente sobre os cuidados que devemos tomar, mas depois vai aumentando seu volume de voz. Num surto de empolgação, grita para as pessoas não saírem de casa. Parece que a única maneira de as pessoas entenderem o recado é pelo modo berro. Frases apelativas e ululantes que nos fazem parecer idiotas. O apresentador tratando seus seguidores como se eles fossem os piores clipes do mundo. E aí, meus caros, temos médicos aprendizes, políticos oportunistas, consumidores ensandecidos e celebridades esquecidas que nos entopem de informações novas e diferentes a cada dia, mas NÃO VAMOS ENTRAR EM PÂNICO.


O fim ou o recomeço?

Que lição divina estão querendo dar pra Humanidade? Qual o aprendizado que carregaremos após isso tudo? É o fim dos tempos, ou só mais uma gripezinha que se tornará cada vez mais constante pra mostrar que o Homem não cuida bem de sua casa chamada planeta? Nesse clima que mistura Copa do Mundo com Apocalipse, passamos a adotar comportamentos e conviver com situações que jamais poderíamos imaginar, e tenho certeza de que não estávamos preparados para elas. Mas, e aí? Essa reclusão vai ser capaz de mudar a chavinha do nosso cérebro? Vamos parar pra pensar em outras possibilidades de convívio? Passado o surto, seremos pessoas melhores? Ou daqui a 1 mês vai voltar tudo do jeito que era antes? Repara que, de uns poucos dias pra cá, em esquema de terapia de choque, tivemos de forçosamente encarar uma outra perspectiva, como se estivéssemos em outro mundo, numa realidade paralela em que não pedimos licença pra entrar.

#tamojunto é ficar bem separado.
- As ruas estão sem trânsito nenhum. E ficamos tristes por isso.
- As autoridades proibiram o baile funk.
- Em vez de planos de aceleração do crescimento, criou-se um movimento pra parar o Brasil.
- Beijos e abraços estão proibidos, mas cotovelada pode.
- As pessoas estão reclamando de ficar em casa sem fazer nada.
- Isolamento virou uma forma de demonstrar calor humano.
- Álcool gel e máscara viraram objetos de ostentação.
- Os shoppings estão às moscas e os supermercados estão lotados.
- Papel higiênico virou artigo de luxo - e objeto de briga. A comunidade alheia está mais preocupada com o quanto você caga do que com o que você come.

Por quê? Até quando? Eu não nasci para viver isso.

domingo, 8 de março de 2020

Dia da Mulher

No ano passado, enviei por WhatsApp, para algumas mulheres com as quais mais convivo nos últimos tempos, uma lacônica mensagem desejando um feliz Dia da Mulher. A maioria me respondeu de maneira igualmente objetiva, retribuindo o carinho e a lembrança. Mas teve algumas, bem poucas por sinal, cuja reação foi, digamos, menos receptiva. Apareceu na minha tela o VV azul, ou seja, a pessoa recebeu a mensagem, leu e a ignorou.

Pois bem. Sempre que publico alguma mensagem no Facebook, o mais fascinante (e em alguns casos desgastante, diga-se de passagem), aquilo que me faz querer continuar a brincadeira, é a imprevisibilidade. Eu jamais sei a reação de cada um. E elas podem ser várias. Claro, como eu sou um apaixonado pela escrita, tenho em mente aquilo que quero causar, e isso é tudo muito calculado. Mas, diante de uma biodiversidade tão complexa, de um universo tão abrangente e diferente em suas partes, fica um pouco mais difícil esperar por uma reação em uníssono. Isso todo dia, em todo e qualquer post. De macarronada a Bolsonaro. Pois quem está agindo, reagindo e interagindo são pessoas das mais diversas formações, convicções, repertórios, experiências de vida, maneiras de pensar o mundo.

Com o Dia da Mulher não poderia ser diferente. A maioria delas, suponho eu, achou bacana a iniciativa. O fato de elas serem lembradas. Já a minoria que me deixou no vácuo (e continuo aqui trabalhando no campo das hipóteses) provavelmente deve achar que a criação de uma data como essa reforça ainda mais o machismo social. Não existe um "dia da mulher" que não sejam todos os dias do ano. A maioria deve achar que tudo bem. Elas sabem que mãe é mãe todo dia, pai é pai todo dia, e mesmo assim aceitam de boa a comemoração e, não só isso, vão às lojas comprar presentes. Algumas delas, talvez, devem achar que não se deve comemorar uma ocasião enquanto não houver de fato a igualdade. Já outras pensam que a estipulação desse dia é um marco fundamental para deixar registrado na história a luta e as conquistas alcançadas, ainda que isso tenha uma aspecto de martirização. Assim como o feriado de Tiradentes. Algumas mulheres devem achar que dar uma lembrança no dia 8 de março é como dar espelhinho pra índio. Mulher não quer saber de flores, nem de caixa de bombons. Mulher quer salários compatíveis com os dos homens. Quer exercer cada vez mais cargos de liderança. Quer o reconhecimento pelo seu valor, meritocrático mesmo, e não ter de ouvir em papinhos de corredor "foi promovida porque deu pro chefe".

Ouvir de mim um "feliz Dia da Mulher", para as minhas amigas, talvez tenha sido algo a calhar. Me colocou num patamar acima de quem simplesmente não escreveu nada. Mas, para a minoria (e sinto-me bastante compreensivo quanto a isso), talvez isso soa meio hipócrita. Não dá para emitir qualquer tipo de felicitação num país campeão mundial de feminicídio. Uma terra que registra um caso de abuso, agressão ou estupro a cada hora. Em que a violência doméstica mata mais do que os latrocínios. Isso sem falar nos índices absurdos de assédio, e seus incontáveis relatos de homem que passa a mão na bunda, ou qualquer outro gesto obsceno, e a coisa fica por isso mesmo. Está incutida na mente da população que mulher que sai de minissaia é pra provocar. Que vivemos na sociedade do fiu-fiu e do tomara-que-caia.

Um "feliz Dia da Mulher" pode ser tão vazio e impessoal, algo mercantilista como o "Feliz Natal" ou "Feliz Páscoa", quanto trazer consigo todo o peso e a importância da conquista do voto feminino, do incêndio na fábrica de sutiãs. A resposta para essa equação vai estar sempre na cabeça do interlocutor. Talvez a sociedade de hoje esteja mais tolerante e perceba que, de felicidade em felicidade, podemos construir um mundo melhor. Outras, ainda que em menor escala, devem achar que, enquanto não houver um país mais justo e mais tolerante, impossível existir qualquer tipo de alegria num dia como hoje.

Eu sinceramente não sei. A única coisa que sei é que não vou conseguir agradar a todos e a todas. Bom, muitos de vocês já me conhecem. Sabem que eu prefiro correr riscos ao invés de me manter calado. Portanto, aqui vai. Só pra manter a emoção da imprevisibilidade, ainda que sob o risco de ser xingado, deletado ou o pior: ignorado. FELIZ DIA DA MULHER.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

A maldição das senhas

Para pra pensar. Se bobear, você deve ter no mínimo umas 257 senhas rodeando sua vida. Quem um dia falou que a internet é um universo livre merece ir pra forca. Nos dias atuais, somos obrigados a andar com uma quantidade de chaves de acesso que nos faz parecer carcereiros de presídio de segurança máxima.

Vamos tentar numerar algumas. Você tem sua senha do cartão do banco. A senha do internet banking, que deve ser diferente do cartão. A senha do aplicativo do banco, que deve ser diferente de ambas. Do cartão do vale-alimentação. A do seu e-mail principal. Do e-mail alternativo. Do e-mail que você só criou pra poder participar de promoção. Do Facebook. Do Tinder. Do WhatsApp quando você acessa de outro dispositivo, pra não cair no golpe em que o Sérgio Moro caiu. Do site da Prefeitura. Da rede interna da empresa onde você trabalha. Estou tão acostumado a digitar senha pra tudo que teve um dia em que eu fui no prédio de um amigo meu e, quando fui teclar o número do apartamento, comecei a digitar uma dessas senhas.

Antes de mais nada, queria falar do primo escroto da senha: o login. Eu ainda tenho sorte de ter nascido com um nome relativamente incomum. Abençoados eternamente sejam meus pais. Mas e no caso da Maria? Do Paulo? Tiago? Rodrigo? A Tatiana, por exemplo, nunca será Tatiana pro resto da vida. Ela é Tatiana1984 no Gmail, t.bernardes no escritório, Tati_barraqueira no Twitter, Tati_Fogosa no Tinder, @thaaatyyy no Instagram e no Linkedin ela nem faz mais ideia porque não entra lá desde 2006. Perdemos nosso RG no mundo virtual. Nosso DNA é composto por uma sequência aleatória de letras e números que nunca ninguém ousou imaginar. Para termos acesso ao nosso saldo bancário, ao e-mail com os resultados do exame ou simplesmente para podermos participar de uma promoção da Nestlé, precisamos ter a criatividade do Jacson Pollock num universo surreal do Salvador Dalí.

Cadastro então, nem se fala. Aquilo é um cu. Se eu pudesse, cortava a mão do programador que desenvolve essa jossa. Depois de enforcar o internet livre. Antes de começar a preencher um formulário, desmarque todos os seus compromissos. Tipo, deixe de ir ao cinema, pois você vai perder a sessão. Estou me referindo ao Irlandês, ou qualquer filme do Lav Diaz. Meu pessimismo é tão grande que antes de começar eu já adivinho que a qualquer hora vai aparecer na tela uma frase em vermelho alegando que eu esqueci ou escrevi errado alguma coisa. E eu acerto SEMPRE. O cadastro não toma partido; é apolítico. Ele invade a esquerda, a direita e o centrão da tela. Existem aqueles campos obrigatórios, marcados com asterisco, que correspondem a mais ou menos 99,7% do formulário. Nome, e-mail, celular, telefone alternativo, RG, CPF, endereço, data de nascimento, senha, confirmação da senha, etc. E aí vem o único campo com preenchimento facultativo, "deixe aqui seu comentário". Que é o único que dá vontade de escrever: VÁ PRA PUTA QUE O PARIU. Depois você precisa ticar o quadradinho "li e concordo com os termos do Regulamento". Só que ninguém lê um Regulamento de 48 artigos, 153 incisos e um único Parágrafo Único. Depois você deve ticar outro quadradinho dizendo "eu não sou um robô". Às vezes pode dar errado. Aí você procura na tela algum lugar em que possa dizer "juro que não sou um robô". Pode dar errado de novo. Nessa hora, mentalmente você digitaria com seus neurônios "JURO POR DEUS, PELA MORTE DA MINHA MÃE E POR TUDO O QUE É MAIS SAGRADO NESSA TERRA QUE EU NÃO SOU UM ROBÔ. E VÁ PRA PUTA QUE O PARIU, ANTES QUE EU ME ESQUEÇA". Depois, você precisa decifrar umas letras tortas, que parecem ter sido escritas pelo Zeca Pagodinho depois de sua oitava garrafa de cerveja, coladas entre si como se fossem sardinhas enlatadas, e ainda mergulhadas num aquário de pontinhos pretos. Passada a fase Sherlock Holmes para você provar que você é você mesmo, vem um tipo de um quebra-cabeça em que você precisa arrastar imagens esquartejadas e colocá-las no local exato da tela. Se errar, deve voltar a preencher o cadastro desde o início.

Retornemos às senhas. Elas foram criadas, pelo que sempre nos informam, para garantir a nossa segurança. As instituições públicas e privadas incutiram na nossa mente que existe um Dick Vigarista de tocaia, junto com seu cachorro Mutley, de binóculo observando lá de longe tudo o que a gente faz. A senha, portanto, seria uma maneira de dificultar um pouquinho mais a atividade desses gatunos de plantão. Só que elas servem muito mais pra nos dar a SENSAÇÃO de segurança do que a segurança propriamente dita. Hacker que é hacker vai conseguir invadir sua conta. É que nem alarme antifurto residencial ou veicular. O bandido legítimo conhece técnicas apuradíssimas de burlar esse sistema. O dispositivo de segurança, portanto, costuma recair sobre a vítima, que é o dono do equipamento. O alarme que dispara sem querer. Seu carro parar do nada no meio da Marginal porque uma falha acionou o corta-gasolina. E por aí vai.

Criar senhas exige que você seja um especialista em diversas disciplinas. Você precisa ter a matemática do Bill Gates, a paciência do Buda e a bola de cristal do Walter Mercado. Nem o Russell Crowe, no papel principal do filme Uma Mente Brilhante, que enxerga sequências numéricas lógicas o tempo todo, conseguiria criar senha de primeira aqui no Brasil. Não bastasse isso, os estudiosos recomendam que você troque sua senha a cada três meses. Agora multiplica isso por 257 (a quantidade de senhas que eu citei no começo do texto, e você provavelmente esqueceu). Ou você cria um padrão, estipulando pra você mesmo uma lógica que é só sua, ou será aquela pessoa que empaca as filas de supermercado. Que, invariavelmente, costuma ser a pessoa da minha frente. E você ainda precisa respeitar as diversas restrições. Senha de banco não pode ter número sequencial, não pode ter número "fácil" (tipo 01012020), nem números repetidos em seguida, nem data de aniversário. Já as senhas pra todo o resto que você faz na vida são as chamadas senhas alfanuméricas. Elas devem ter, obrigatoriamente, um mínimo de 8 caracteres, letras maiúsculas, letras minúsculas, números, caracteres especiais e nada me tira da cabeça que o Governo aprova ainda esse ano a obrigatoriedade das letras do alfabeto hebraico e cirílico. Feito isso, aparece na tela um bastão azul e vermelho indicando se você está grávid... ops, quer dizer, o nível de segurança da sua senha. Quanto mais complexa, mais difícil a ação dos terroristas virtuais. E mais fácil de você esquecer.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Muito otimismo


Caro diário,

Prometi a todos – e principalmente a mim mesmo – que eu começaria 2020 com uma nova vibe. Todo mundo fala que esse ano é o da mudança, da renovação, de um novo ciclo. Pois bem. Vou obedecer cegamente aos astrólogos do Google, aos físicos do Facebook, e acreditar que, a partir da meia-noite e um minuto do 1º de janeiro de 2020, tudo, absolutamente tudo vai ser diferente. Até porque muitos amigos estavam me achando reclamão, ranzinza.

De fato, esse ano começou ótimo. Quase entramos numa Terceira Guerra Mundial. Não dizem por aí que a guerra estimula a produtividade, faz a economia crescer? Então. Os drones do Donald mataram um líder iraniano considerado terrorista. Em troca, o país derrubou um avião ucraniano “por engano”. Quem não se confunde de vez em quando? Liga pro número errado, usa meias com pares trocados, morde um pedaço de pizza portuguesa achando que é de peito de peru, atira sem querer num inocente achando que é bandido. Normaaal.

E já que estamos falando no Trump, certeza que ele vai ser o melhor presidente da história. Aquele rosto de bronzeamento artificial no micro-ondas propôs um revolucionário acordo de paz entre israelenses e palestinos... sem os palestinos! Essa coisa de querer agradar a todo mundo é muito isentão pra mim. Bom mesmo é ter atitude. É que nem propor uma inovadora negociação entre banqueiros e inadimplentes, favorecendo somente os banqueiros. Trump é tão foda que até escapou do impeachment. E você sabe por que, né? É pra depois nenhum Spike Lee querer filmar “Democracy in Vertigo” usando verbas públicas. Deixa o cara trabalhar em paz, pô!

2020 está sendo supimpa. Nesses 180 dias de janeiro já pudemos aprender a sutil diferença entre etilenoglicol e dietilenoglicol sem precisar pagar o olho da cara com as aulas de Química do cursinho Anglo. Tudo é uma questão de higiene. Se a cervejaria Belorizontina tivesse usado sabonete Dove pra lavar os reservatórios da cerveja Backer, o produto ficaria inacessível. Trata-se, portanto, de uma medida de inclusão social. Se morreram algumas pessoas envenenadas, faz parte. É o custo do progresso. Você não quer tomar Itaipava ou Glacial a vida inteira, certo? Deixa então o pessoal criar suas receitas artesanais. Aproveitando o assunto da higiene, tem a questão da água no Rio de Janeiro. Ela tá com esse cheiro e gosto esquisito por causa dos produtos adicionados para torná-la ainda mais limpa. É uma água que vem do esgoto, manja? Então precisa passar por um processo de purificação. Que nem água de piscina. Tem cloro pra cacete, pra acabar com todas as bactérias daquele povo que mergulha só pra fazer xixi. Eu confio 100% na Cedae, que diz que a água é limpa. E pra deixar ela ainda mais limpa, resolveram botar junto detergente. Detergente de graça, saindo das torneiras! Não sei por que carioca reclama tanto.

E, por falar em Belo Horizonte, estou plenamente convicto de que aqueles desmoronamentos e inundações pegaram todo mundo de calça curta. NUNCA chove em janeiro neste país. Não tinha como se planejar, fiscalizar obras clandestinas, construir piscinões, alertar a população sobre as áreas de risco, nada disso. Aquilo foi uma surpresa pra todos. É que nem festa-surpresa de aniversário. No dia em que você fica mais velho um sujeito te chama no canto, conta uma história qualquer pra disfarçar, te leva pra outro canto e aí a turma toda começa a cantar parabéns. IMPOSSÍVEL adivinhar.

E por falar em Guerra Mundial, estou dando pulos de alegria que integrantes do Governo estão trazendo de volta o nazismo. Um lance meio vintage, sabe? Essa coisa de avanço tecnológico o tempo todo cansa um pouco. A gente precisa recuperar valores que a História fez questão de enterrar. Eu acredito piamente no Roberto Alvim. Ele foi vítima de uma conspiração de seus assessores. Não tinha como prever que trechos do seu discurso foram extraídos das falas de Goebbels. É muita informação na internet, não tem como dar conta de tudo. Tem que analisar o contexto. Alvim não é nazi. O cabelo repartido, a roupa com cara de farda e a música de Wagner ao fundo serviram de meros adereços cênicos. E mesmo se fosse, qual o problema? Se Jojo Rabbit pode brincar com o tema e ainda concorrer a Oscar, por que nosso perseguido secretário não pode fazer uma brincadeirinha de leve? Foi exonerado injustamente. Culpa dos Beatles, que introduziram o rock satânico na juventude perdida. Tenho certeza de que a letra de “Help” fala sobre um pedido de socorro ao Belzebu. “Yellow Submarine” é uma metáfora ao meio de transporte público usado pelo Capiroto. Agora quem entra no lugar dele é a Regina Duarte. A eterna namoradinha do Brasil, mesmo já sendo avó. Com o Sinhozinho Malta mandando nela o tempo todo, e tendo como diretriz filtrar o marxismo cultural da mente endiabrada das pessoas, a Cultura finalmente vai entrar nos trilhos.

Este ano tá sendo do caralho pro Brasil. Mais do caralho ainda no resto do mundo. O brexit finalmente foi aprovado e a Inglaterra saiu da união europeia. Por uma questão de identidade própria. Os britânicos têm suas raízes, sua tradição. Não dá pra ficar misturando tudo. Você nunca ouviu falar da pontualidade italiana. Nem do chá das cinco em Portugal. Imagina se a França resolve criar seu Sex Pistols! Melhor deixar assim: cada um no seu square.

E a China, então? Agora uma boa parte da população resolveu andar de máscara justamente pra gente não se confundir. Chinês é tudo igual. Se já é difícil diferenciar um trio, imagina dois bilhões de gêmeos univitelinos. Pelo menos com máscara a gente consegue saber quem está e quem não está infectado pelo vírus. E ainda evita sentir o cheiro do bafo deles. Fica tranquilo: NÃO é uma epidemia. Ninguém se lembra mais das duchas Corona, um banho de alegria num mundo de água quente. A cantora Corona e seu único hit “Rhythm of the Night” logo caíram no esquecimento. O mesmo vai acontecer com essa virosinha de nada.

Estou muito, muito feliz com 2020. E vou ficar ainda mais feliz quando começar o Carnaval. Já se sabe que São Paulo é o destino preferido dos brasileiros para o feriado, superando Rio e Salvador. Eu não vejo a hora de adentrar nas micaretas que duram o mês inteiro. Meu corpo está em pândega. Só de ver a foto do ano passado, do bloco Unidos do Baixo Augusta ocupando a Consolação inteira, aquilo já me excita. Uma quantidade de pessoas equivalente à população do Canadá. Calor humano de verdade. Pessoas se amontoando, um encosta-encosta de peles suadas, arrastões, roubo de celulares, tudo muito orgânico. Vamos combinar: é BEM fácil roubar celular nesses aglomerados de gente. O povo dá muito mole. É que a alegria contagiante é maior do que a necessidade da posse de bens de consumo. Eu, por exemplo. Se fosse um trombadinha, poderia furtar uma quantidade de aparelhos que me permitisse criar a filial da Samsung. Bailinho de Juventus não tá com nada. Eu quero mesmo é fazer parte da história. Ver de perto as brigas de rua, as depredações no metrô, sentir o cheiro amalgamático de pinga curtida com vômito, desviar das poças de mijo.  Preciso quebrar paradigmas de querer sempre ouvir rock. O negócio aqui é o samba. “Mother”, do Pink Floyd, é titica perto da letra do enredo da Nenê de Vila Matilde. E daí que o Brasil é campeão mundial de feminicídio? Tudo invenção da Globo. Afinal, menina que sai na rua fantasiada de odalisca quer mesmo é que alguém passe a mão na bunda dela. Talvez seja um pirata, que no final da festa, pegando a Linha Lilás em direção ao Capão Redondo, esteja mais pra Jack Sparrow. Ou Marilyn Manson, de tão borrada que vai estar sua maquiagem. Não importa. O Carnaval deste ano vai ser épico. Bem como o resto do ano. Assim eu quero acreditar. Pra mim não existe essa de copo meio vazio. Em 2020 o copo vai estar sempre meio cheio. Nem que seja de água de esgoto com detergente.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Bad Boys Para Sempre

A terceira parte da franquia tem cara e gosto de encerramento. Nem tão vazio e melancólico quanto um fim de festa. Mas pensar em uma continuação a partir daqui pode fazer transbordar um copo cheio.

É mais um filme tipicamente norte-americano de dupla policial. Um deles sangue-nos-olhos querendo fazer justiça e outro que não vê a hora de se aposentar. Geralmente, a diferença etária faz esse contraponto. Aqui, não. Ambos já passaram dos 50. Um deles, notadamente fora de forma. O outro, achando que ainda pode encher os bandidos de porrada e depois exibir seus músculos. E a câmera não faz questão nenhuma de esconder esses atributos físicos de um dos atores mais bem pagos de Hollywood.

Já não temos mais Michael Bay, que dirigiu o prólogo de maneira bem visceral e parecia ser promissor. Quem cuida agora do ofício é a dupla belga Bilall Fallah e Adil El Arbi. Até a primeira metade, parece ser um filme genérico feito por encomenda. Mas depois, ganha seu brilho próprio. Menos violento que o progenitor, porém mais cômico que ele. Bay não fez falta.

O segundo filme é do começo dos anos 2000, mas Bad Boys Para Sempre traz muito mais do primeiro, de um quarto de século atrás. A aura é anos 90. As matizes são anos 90. A música que toca na casa noturna é uma versão repaginada de Rhythm of the Night. O cinema estadunidense pede essa volta noventista, como se fosse a indústria em flashback.

Só que 25 anos se passaram. Praticamente uma geração que nunca ouviu falar em conexão discada e acha que Nirvana é um clássico do rock. O filme tenta se aproximar desse público millennial mostrando exatamente o envelhecimento dessa década. Smith e Lawrence estão exageradamente fora de seu tempo. E o filme escancara essas personas esmaecidas de maneira habilmente risível. Insiste, ainda que no exercício da metalinguagem, nos elementos que traduzem essa falta de frescor. O refrão da música-tema cantado pela nova geração. A obesidade de Lawrence. É como se Fallah/Arbi estivessem contando uma piada duas vezes. Só Seinfeld tem autoridade pra fazer isso.


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