domingo, 31 de maio de 2020

Na dúvida, foda-se

É sabido que as ordens e as atitudes que vêm de quem está no topo são automaticamente replicadas por quem está na base. O famoso "o exemplo vem de cima". Se as autoridades recomendam que se fique em casa, é porque existe um motivo para a reclusão. O problema é, como todos já perceberam faz tempo, que cada um fala e faz uma coisa diferente. Prefeitos e governadores falam em isolamento social, enquanto o presidente vai pra padaria e pro seu cercadinho cumprimentar apoiadores e tirar selfies com populares. Imediatamente após cada aparição pública do nosso representante maior, os índices do fique em casa caem.

Embora estejamos no meio de uma polarização política sem precedentes, é comum se observar que, em todos os campos da humanidade, existem alguns níveis de apoio a uma determinada ideia. Do moderado ao radical. Em relação ao isolamento, há uma pequena parcela bem xiita. Não colocou a cara pra fora de casa durante esse quase-trimestre. Não pega elevador. Só faz compras por delivery e, mesmo assim, evita ao máximo qualquer tipo de contato com o entregador. Lava minuciosamente todo e qualquer item comprado. Do bombom à caixa de sabão em pó. Não recebe nem a família, que dirá amigos e vizinhos. Até o começo do ano, poderíamos supor que se trata de um caso patológico de paranoia antissocial. Hoje, é um comportamento relativamente aceito, ou pelo menos compreensível. É uma minoria, com muito medo de tudo o que está acontecendo. Existe um grupo mais moderado, que estabelece critérios com mais parcimônia e sai somente se for necessário. Ir a um supermercado, a uma farmácia, fazer uma rápida caminhada, tomar todos os cuidados e evitar aglomerações. Não dá pra saber se é um grupo 100% seguro, pois a doença é nova e a cada dia surgem novidades na mídia. E essa segurança deve-se, em parte, à dosagem de cuidados que a pessoa vem tomando. Poderiam restringir suas vidas às lives e aos aplicativos? Poderiam. Afinal, estamos num momento de guerra. Mas eu já ouvi diversos relatos, por exemplo, dos serviços de delivery criados, aperfeiçoados e improvisados na base do fast track. As taxas de entrega são absurdas, o prazo é extremamente longo e muitas mercadorias vêm adulteradas, ou trocadas, ou há itens faltantes no pedido. Enfim, tomar alguma decisão nesse sentido é uma questão de bom senso. E existe, também, o outro extremo radical: a pessoa que não está nem aí pra nada. Vai às ruas sem máscara, aglomera-se com a galera, tira a camiseta em dias de sol. Para eles, a pandemia não existe.

Não vou entrar no mérito sobre as pessoas que saem de casa por uma questão de necessidade. Trabalham na linha de frente da área de saúde. Prestam serviços considerados essenciais. Abrem seu comércio, de modo restrito, para não ir à falência. Vão aos seus empregos porque assim o chefe determinou. Para os demais, ficar ou sair é uma decisão em que pese a consciência. O radical misantropo sente-se injustiçado por estar fazendo não só a parte dele, mas também cobrindo a falta de noção do radical alienado.

Resta saber, principalmente aos dois primeiros grupos: mas e a volta? Está claro que eles estão seguindo as orientações do prefeito e governador, e não do presidente. Chegamos a um impasse. Em São Paulo, até poucos dias atrás falava-se na possibilidade de um lockdown. Uma medida mais drástica para tentar melhorar os índices de isolamento após algumas iniciativas mal-sucedidas. Agora, pouco tempo depois, fala-se na reabertura. Não quero desmerecer as conclusões tiradas por um comitê de contingência, formado por técnicos de diversas áreas. Mas a coisa ficou bem confusa para quem se abastece somente de informações rápidas. Entende-se que esse processo será lento, gradual e cuidadoso. Mas o Estado foi dividido em cinco regiões. O processo de afrouxamento foi dividido em cinco fases, representadas por cores. Quem está, por exemplo na divisa entre a capital e Osasco, ou Diadema, e se essas regiões apresentarem cores diferentes, não sabe o que fazer. A imprensa divulgou, de modo apressado, a abertura dos shoppings. Isso não vai acontecer agora. Estamos na fase embrionária. Mas a sensação de que o comércio está voltando a funcionar já contaminou parte da população. Principalmente os moderados.

E, já que estados e municípios sinalizam recomendações mais permissivas, essa demonstração cai como uma bomba para quem procura se resguardar. Por outro lado, é o cheque em branco para quem não está nem aí. Ontem mesmo eu ouvi, aqui de casa, um vizinho voltando a fazer o que sempre fazia: pancadão. Pagode e música ruim no volume máximo, churrasco e cervejada para os amigos. Um monte de amigos, pelo som da conversa. A gritaria toda até de madrugada foi um bônus. Um sinal de ostentação, não só para minar tudo de solidário que se construiu durante a pandemia, mas para provar para as autoridades que, naquela casa, quem manda é ele. Aquela gritaria não foi só um sinal de desrespeito ao próximo, como também serviu de provocação. O fulano quis mostrar pra todo mundo que está sim descumprindo a quarentena. Já que estamos vivendo num calabouço político e os poderes estão brigando entre si, resta o discurso do ódio e o egoísmo pra se colocar em prática. E daí?

domingo, 24 de maio de 2020

É de chorar


Quando os profissionais de marketing do banco Bradesco solicitaram à sua agência de propaganda um comercial para TV, muito provavelmente o briefing deve ter sido: “quero um filme que faça as pessoas chorarem”. Conseguiram. No momento mais crítico da saúde pública em nosso planeta, não dá pra ficar insensível àquela sequência de imagens de crianças brincando de médico, ao som da música Fascinação, traduzida pelo compositor Armando Louzada e interpretada pela inconfundível voz de Elis Regina.

Claro. Esse comercial é uma obra de ficção. A realidade é um pouquinho diferente. E mais dura. E mais perversa. Nos noticiários que intercalam os 30 segundos de comovente ternura, percebemos a sina diária e suas consequentes dificuldades dos microempreendedores para se conseguir crédito facilitado com as instituições bancárias. Ao contrário do que o Governo Federal prometeu. Não se trata de acusar aqui especificamente o Bradesco, o Itaú, o Santander. Os bancos, como um todo, estão impondo uma série de barreiras e restrições ao crédito a tal ponto de tornar essa tarefa inviável. Não há liquidez no mercado. O dinheiro, portanto, ficou muito mais caro. E, pela lei da oferta e da procura, ganha o privilégio quem puder pagar melhor. Ou, pelo menos, oferecer garantias mais consistentes de zerar suas dívidas e honrar esse triste compromisso. Essa situação surreal não só fere a lógica do sistema como também coloca em xeque o próprio capitalismo. O pequeno empresário solicita um empréstimo mas, para isso, precisa demonstrar que tem caixa para pagar esse empréstimo. Meus senhores, estamos vivendo numa pandemia. Situação de calamidade pública. Não é pedir demais algum tipo de flexibilização, de todas as partes, em todas as esferas da roda econômica. Como é que a manicure, o dono de academia, o dono de um bar, o professor de Inglês conseguem comprovar sua fonte de rendimentos dos últimos dois meses, sendo que esse é justamente o período do início da quarentena e eles foram obrigados a fechar seus estabelecimentos? Que tipo de sentimento verdadeiro os bancos procuram causar quando recusam distribuir esse montante de dinheiro no sentido de não corroborar com uma sociedade ainda mais injusta? Ou o comercial não passa de uma mentirinha, uma brincadeirinha de ninar ao embalo da maior cantora do Brasil?

Senhores profissionais de marketing do Bradesco e de todas as instituições bancárias privadas e públicas desta nação sem noção: vocês conseguiram. Todo esse baixo clero da Economia, que emprega a maior parte dos assalariados, que de fato movimenta a ciranda financeira do nosso arrasado país, está chorando. De tristeza. De desespero. De angústia. De desesperança. Não é nada fácil abrir um sorriso quando não há o que se colocar na mesa pra comer. Aqui ficam meus parabéns. Vocês causaram uma comoção social muito maior do que imaginavam.


sexta-feira, 15 de maio de 2020

Autor brasileiro ganha prêmio de literatura de fantasia

Comemorando um ano do lançamento do primeiro livro de fantasia do escritor brasileiro P.J. Maia, ESPÍRITO PERDIDO (The Missing Spirit), a obra acaba de conquistar o prêmio de “Melhor Livro de Fantasia” no Independent Press Award, em Nova York, uma competição julgada por experts de diversas áreas da indústria literária, incluindo editoras, autores, revisores, diretores de arte e redatores profissionais. Os vencedores de cada categoria são escolhidos a partir de quesitos de excelência no geral.


Este não é o primeiro prêmio conquistado pela obra. Em março deste ano, o livro ESPÍRITO PERDIDO conquistou o “Red Ribbon”, prêmio de Escolha dos Leitores no Wishing Shelf Awards, premiação sediada em Londres e voltada para o público juvenil, onde os títulos são avaliados por grupos de jovens leitores no Reino Unido e na Suécia.
 

Decidido a disputar espaço no mercado global de literatura fantástica de forma independente, o jovem autor brasileiro parece estar dando os primeiros passos na direção certa. O segundo livro da saga já entrou em produção, principalmente, nestes tempos de quarentena, em que todos estão confinados, o autor pretende de forma criativa dar sequencia ao seu trabalho tão bem recebido pelo público e crítica.

sábado, 9 de maio de 2020

Pode ser

Pode ser que a quarentena se prolongue até o fim de junho. Enquanto os índices de isolamento caírem, não há outra alternativa viável.
Pode ser que os Estados e municípios decretem lockdown. A capacidade de atendimento dos hospitais da rede pública e da rede privada está chegando ao limite. E a inauguração de novos leitos, com todos os equipamentos e profissionais necessários, não está acompanhando a velocidade da chegada de novos infectados.
Pode ser que o lockdown não seja suficiente para conter o vírus. Em Nova York, o prefeito declarou que as pessoas estão se contaminando em casa.
Pode ser que o Brasil se torne o epicentro mundial do coronavírus. Alguns especialistas já apontam essa tendência.
Pode ser que a curva epidêmica atinja picos mais altos e uma largura mais extensa do que a apresentada em gráficos. Isso depende não só das medidas preventivas adotadas no presente, como também de outros fatores, como comportamento e possível mutação do vírus, números mais precisos de subnotificações e comportamento da sociedade como um todo.
Pode ser que a Economia consiga respirar aliviada algum sinal de crescimento somente em 2022.
Pode ser que pulemos o estágio da recessão e entremos direto na depressão.
Já que estamos falando em depressão, pode ser que esse estado das coisas traga consequências psicológicas traumáticas às pessoas e que o índice de suicídios aumente vertiginosamente.
Pode ser que o covid-19 seja apenas um "ensaio geral". Um renomado pesquisador da USP alerta para o fato de que ainda está por vir um vírus ainda pior, com consequências mais trágicas e devastadoras. Diversos infectologistas não descartam a possibilidade de ficarmos suscetíveis a novas pandemias.
Pode ser que os níveis de violência aumentem numa escala insustentável. Só na capital de São Paulo, existe uma projeção (otimista) de que haverá um acréscimo de 1 milhão de desempregados. Pessoas que precisam botar comida na mesa de suas famílias.
Pode ser que o Estado, em todas as suas esferas, zere o fundo de reserva e, sem qualquer previsão de retomada, não tenha caixa algum para uma próxima e eventual situação de calamidade pública.
Pode ser que o Brasil fique ainda mais isolado do mundo. E que a sociedade fique ainda mais dividida e fragmentada.
Pode ser que todas as petições requisitando a abertura de inquéritos para o processo de impeachment sejam engavetadas.
Pode ser que o nosso presidente, percebendo suas limitações de poder dentro das instituições democráticas, resolva aplicar um golpe de estado. Seria, para alguns analistas políticos, um "golpe dentro do golpe", visto que ele já ocupa um cargo de chefe de Estado.
Pode ser que o novo normal enterre para sempre o antigo normal, e que alguns hábitos e práticas nunca mais voltem a existir.

Pode ser tudo isso. Ou muito mais. Ou não. A gente não tem certeza de nada. Seguimos convivendo com essa sensação de impotência. Mas veja só. Já se passaram quase dois meses. E estamos aqui. Eu escrevendo, você lendo, o mundo reagindo. Com razão, sem razão, mas com emoção. E no meio desse desequilíbrio do ecossistema, causado por um bichinho trilhões de vezes menor, é que vem uma impressão trilhões de vezes maior. Um insight, um feeling. Uma coceira contagiante, sem qualquer embasamento científico. Mas com toda a potência de sensação meramente intuitiva: estamos sobrevivendo. E se a gente conseguiu chegar até aqui, nada mais é capaz de nos derrubar.

Feliz Dia das Mães. E #FiqueEmCasa


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Os signos e a quarentena

ÁRIES: seu tempo é agora. Leia um livro, faça exercícios, coloque seus filmes em dia, arrume a casa, tire o pó debaixo da cama, faça uma live e organize um grupo de financiamento coletivo para ajudar quem passa por dificuldades neste momento.

TOURO: essa fase vai passar. Com certeza vai passar. Tem que passar. Ninguém pode te convencer do contrário. E, quando passar, tudo tem que voltar exatamente como era antes.

GÊMEOS: que isolamento, que nada. O importante é conectar pessoas. Estar entre amigos. Fazer novas amizades. Que seja nas áreas de circulação dos prédios, nas ruas, nos parques. Tomando todos os cuidados, é claro. Se for pra ficar em casa, nada melhor do que criar comunidades nas redes sociais, criar grupos de jogos virtuais, organizar lives coletivas.

CÂNCER: que momento maravilhoso para ficar mais perto da família. Cuidar dos entes queridos. Época de reflexão para trazer o passado de volta. Folhear o álbum de fotos da formatura. Postar #tbt nas redes sociais. O problema é conter a emoção. Mas, até aí, tudo bem. Você tem o seu travesseiro, onde pode chorar durante suas 14 horas diárias de sono.

LEÃO: bem que você falou pra todo mundo que esse momento iria ser grave. Em suas postagens escritas em caixa alta você já vinha advertindo as pessoas. Mas vamos sair dessa. Principalmente você. Porque você se cuida. Você se protege. E é você quem passa as corretas orientações a todas as pessoas ao seu redor. É graças a você que a gente vai estar imune e preparado para um mundo melhor.

VIRGEM: conviver com a quarentena é fácil. Basta acordar todos os dias às 7h da manhã, fazer sua higiene pessoal, tomar seu café e começar a colocar as coisas em ordem. Do lado esquerdo da mesa, você cria uma lista para agendar e organizar suas tarefas. Do lado direito, você deixa seu smartphone ligado para acompanhar as notícias, as mensagens e as conversas. Muito importante lavar as mãos. Use água e sabão, enxágue por 40 segundos e não se esqueça de lavar os punhos, o dorso das mãos e todas as juntas dos dedos.

LIBRA: difícil dizer se o isolamento deve ser vertical ou total. Todos têm suas razões. A gente não pode deixar as pessoas morrerem, mas também não pode se esquecer da Economia. Difícil também ter uma opinião formada sobre o uso de máscaras. Ela protege as pessoas mas, se estiver mal lavada, pode servir de foco de contágio. Ainda é cedo demais pra afirmar se o uso da cloroquina é bom ou ruim. É fato que o medicamento já salvou vidas, mas o uso indiscriminado pode trazer complicações ainda maiores.

ESCORPIÃO: bem que você falou que o mundo iria acabar bem mais cedo do que a gente imagina. Talvez a gente até sobreviva a tudo isso. Mas, se acontecer, é imperativo que você descubra quem foi o filho da puta que trouxe essa merda de doença pra cá pro Brasil, corra atrás desse pulha e rogue uma praga para que ele morra com requintes de crueldade e passe a Eternidade nos calabouços do Inferno.

SAGITÁRIO: que merda essa quarentena, né minha filha? Não poder sair de casa, ficar trancafiado, não poder circular pelas ruas, pelas avenidas, pelo mundo. Sensação de prisão domiciliar. Você não vê a hora desse pesadelo acabar para poder voltar pra academia, bater perna em shopping, ir ao cinema, frequentar a casa de todos os seus amigos. Enquanto isso, nesse seu presídio de segurança máxima, é possível anotar pensamentos, divagações, reflexões sobre a vida. Ou então, fazer um bolo para 12 pessoas.

CAPRICÓRNIO: não adianta tentar fazer o que não pode. Vamos ser práticos. Nada de sair por aí fazendo as coisas a torto e a direito. Antes de arrumar sua estante que nem um doido, é preciso perguntar para você mesmo: por que arrumar? Você algum dia vai ler de novo todos esses livros? Tudo no seu devido tempo. Se a quarentena acabar amanhã, que seja amanhã o dia de voltar à normalidade. Se acabar daqui a 1 mês, controle sua ansiedade.

AQUÁRIO: isolamento? De boa. Um dia como outro qualquer. Não dá pra entender essa obsessão toda de encontrar pessoas, abraçar pessoas. Na hora de pintar um quadro, escrever um livro, compor uma música, você não precisa de pessoas. Todo mundo tá falando como é difícil lidar com esse momento, e como será a volta. Isso pouco importa. Você tá preocupado é como vai estar o mundo em 2022.

PEIXES: já que você tá em casa sem fazer nada, é uma ótima oportunidade para se livrar de todas as suas tranqueiras. A palavra de ordem é: lixo. Jogue fora tudo aquilo que não presta, que você não usa mais ou que te faz mal. Ou então, doe. Faça uma boa ação, tem muita gente precisando. Menos é mais. Esse é o momento de você entrar em contato com o seu "eu" interior. É nesse corpo e alma que você vai encontrar toda a profundidade que merece.

terça-feira, 21 de abril de 2020

No RH


- Cassandra? Prazer, Elisabete. Sou a gestora de RH aqui da W Corp. Aceita um café, uma água?
- Oi, tudo bem? Não, obrigada.
- Então, eu tenho boas notícias. Você foi aprovada na primeira fase do processo seletivo.
- Puxa, que ótimo!
- Super, né? A gente ainda tá acertando uns detalhes, logo mais eu te envio um invite pra participar da segunda fase, que vai ser uma dinâmica de grupo. Mas antes disso, eu precisava fazer umas perguntinhas, pode ser?
- Sim, claro!
- Então, Cassandra... como você pode ver, o Brasil está passando por um novo momento. Dentro dessa nova realidade, a gente precisou adequar a estrutura aqui do departamento e acrescentamos algumas questões para verificar se o candidato se encaixa no perfil da empresa, dentro desse panorama. Lembrando que não existe resposta certa nem resposta errada. É mais pra conhecer seu perfil mesmo. Tudo bem?
- Opa, vamos lá!
- Cassandra, você já contraiu o COVID-19?
- Não!
- Tem algum parente que foi contagiado pelo novo coronavírus?
- Também não.
- Se por acaso a W Corp recebesse um lote de testes rápidos para aplicar a seus colaboradores, você se submeteria a fazer o teste?
- Perfeitamente!
- E se por ventura a W Corp precisasse ajustar seu sistema de trabalho para essa nova realidade, como medidas de adoção de férias coletivas, home office ou redução da jornada de trabalho, você aceitaria?
- Sim... fazer o que, né?
- (Anotando)... só mais um momentinho... próxima pergunta: você é a favor do AI-5?
- Oi??
- Você é contra ou a favor da volta do Ato Institucional número 5, que entre outras coisas implementa a censura e o controle dos órgãos de imprensa?
- Claro que não!
- (Balbuciando enquanto anota) postura radical... OK... próxima pergunta: você é contra ou a favor do fechamento do Congresso Nacional, mesmo não tendo votado nos candidatos que venceram as últimas eleições?
- Sério isso?
- É sim ou não. Lembrando, Cassandra... que no dia a dia aqui da empresa vão surgir situações novas a cada momento, e você vai precisar tomar decisões rápidas. Aqui o que menos tem é rotina.
- Tá... então eu sou contra!
- (Falando baixinho enquanto anota) comportamento agressivo... outra pergunta: você é contra ou a favor da intervenção militar?
- Absolutamente contra!
- (Sussurrando e anotando) OK... subversão patológica...
- Não, pera! Veja bem: eu sou contra o regime militar, mas sou a favor do Exército atuar em casos extremos.
- (Baixinho) Falta de clareza... OK... ah, aqui, outra pergunta: se o seu chefe ou superior imediato apresentasse algum sintoma do coronavírus, como tosse ou espirro, mesmo não sendo confirmada a doença, e ele viesse te cumprimentar após tossir ou esfregar o nariz esticando a mão pra você, o que você faria?
- Eu nem chegaria perto!
- (Baixinho) Insubordinação... OK...
- Não, quer dizer... errr... depende do contexto, né?
- (Baixinho) Falta de posicionamento...
- Não! O que eu quis dizer é que eu seguiria as normas... mostraria o cotovelo!
- (Falando baixinho cada sílaba que anota) In-ci-ta-ção à... vi-o-lên...
- Um momentinho, Elisabete. Isso faz parte do processo? Eu estudei, fiz o teste, passei, vou pra segunda fase... mas essas questões de cunho ideológico... meio desnecessário...
- Dona Cassandra, eu vou explicar. Nossa avaliação segue rigorosamente o protocolo e os padrões dos testes aplicados pelas maiores empresas do mundo inteiro. Google, Oracle, Unilever, General Foods... se a senhora não está contente, tudo bem. Tem mais de 400 pessoas que se candidataram a essa vaga. Inclusive gente com Doutorado em Oxford. A senhora é que sabe. Lá fora tem gente fazendo uma enorme fila pra ganhar os 600 reais do Governo. Aqui a gente testa nossos candidatos até mesmo em situações-limite. Pra extrair o melhor de cada um. Somos uma empresa séria. Ou a senhora acha que conseguiria o emprego imitando um gato?
- (Conformada) Não, tá bom... tá certo... vamos lá...
- Última pergunta: você já deu o furo?


sábado, 18 de abril de 2020

Não existe grupo de risco


Falar em isolamento vertical a essa altura do campeonato é como pedir a volta do Fusca. Talvez essa estratégia fizesse algum sentido lá no comecinho do ano, na mesma época em que o dr. Drauzio Varella postou um vídeo falando que o coronavírus é uma gripezinha. Hoje, tendo em vista as estatísticas alarmantes e a experiência da Europa, principalmente Itália e Espanha, é provado pela ciência precisa do A + B que essa medida, ultrapassada e démodé, não é eficaz na atual conjuntura catastrófica.

Longe de mim querer ser mais um dos milhares de especialistas que espocam por aí nas redes sociais e nos canais de entretenimento. Mas existem argumentos, amplamente divulgados, que refutam esse tipo de confinamento tão frágil quanto o porte físico do novo Ministro da Saúde. Os defensores incondicionais desse tipo de isolamento pela metade acreditam que é suficiente deixar os velhinhos em casa, fazendo tricô, conversando com seus gatinhos e jogando bingo on-line com seus amigos, enquanto os fortões e destemidos possam sair às ruas, enfrentar o caos e abrir suas portas do comércio para salvar a Economia. Pois bem. Em primeiro lugar, é bem provável mesmo que esses heróis da sociedade, desbravadores do perigo iminente, não peguem o COVID-19. Ou, se pegarem, o máximo que vai acontecer é uma tosse ou um espirro. Uma gripezinha, conforme creem eles. O problema é que existem os tais transmissores assintomáticos, que contraem a doença, não manifestam suas características e são o carro-forte do vírus para que se propague pelo resto do ambiente. Esses hercúleos salvadores da pátria podem até não morrer. Mas certamente carregam consigo a bomba-relógio capaz de matar.

Outra questão é que, analisadas minuciosamente as estatísticas, já não dá mais pra se falar em grupo de risco. No Brasil, 25% dos óbitos foram de pessoas abaixo de 60 anos, sem doenças pré-existentes ou sem apresentar um quadro de comorbidades. Ou seja, de cada quatro indivíduos que bateram as botas, um deles é tão jovem, saudável e resistente quanto eu. Ou quanto você.

O isolamento total e irrestrito não serve apenas para acabar com essa discriminação de quem deve ou não deve ficar em casa. Ele é a maneira mais eficiente, até agora conhecida, de contribuir com o tão falado achatamento da curva. Pelo conceito de “curva” entende-se que, mais cedo ou mais tarde, todos nós seremos contaminados pelo vírus. O que ele promove é fazer com que o sistema de saúde não fique sobrecarregado no momento de pico. Situação em toda a sociedade precise ser atendida ao mesmo tempo. E você já está careca de saber: não há leitos, não há médicos, não há medicamentos, muito menos equipamentos para fazer tudo ao mesmo tempo agora. Afastar você do ambiente social não significa, em última instância e numa perspectiva mais pessimista, te proteger do vírus. Significa que as autoridades médicas estão te dando o recado de que vão te atender sim, só que mais tarde. Portanto, falar em isolamento vertical, horizontal ou diagonal é uma discussão inócua. Não se trata de “quem”. Trata-se de “quando”.

Por isso, meu caro, antes de sair por aí pra fazer aquela caminhada gostosa na Praça Pôr do Sol, participar de carreatas na Av. Paulista, chamar os amigos para um churras, dar aquele abraço apertado no dono do Bar do Seu Zé, ir até a feira e apertar a mão da tia do tomate (junto com o tomate), ou simplesmente agir como se nada estivesse acontecendo, pense duas vezes. Controle sua ansiedade causada pelo ócio e pelas milhares de informações falsas das redes sociais. Talvez você saia mesmo incólume dessa pandemia. Torço muito. Talvez a cloroquina ou o vermífugo resolvam seu eventual problema. Talvez não. Existe uma probabilidade, mesmo que ínfima, de você ficar agonizando em sua casa porque não há mais leitos nem respiradores disponíveis para te salvar. E você pode, Deus me livre e me guarde, ficar com a sensação de se afogar a seco. Por mais de uma semana. Quem fala isso não sou eu, são as pessoas que se curaram da doença. E existe uma probabilidade, mais ínfima ainda, de você não estar vivo para ler meu próximo texto. Não há grupo de risco. Há situação de risco.


sexta-feira, 17 de abril de 2020

Não é metáfora


Falar que demitir o Mandetta agora é como sair de um carro em movimento é fazer o mau uso da metáfora. Pois não se trata de uma metáfora. Trata-se de um eufemismo. A coisa é muito pior.

Nelson Teich assume o Ministério da Saúde no momento em que o Brasil ainda nem atingiu o pico do contágio do coronavírus. E já encontra pela frente todo tipo possível de problemas. O fundo emergencial foi zerado. Não há mais de onde tirar dinheiro. Todos os recursos se esgotaram. As reservas cambiais já estão comprometidas. Não há qualquer possibilidade de se recorrer ao FMI para pedir empréstimos, pois a fonte secou no mundo inteiro. Não há qualquer chance de se pensar em uma nova carga tributária; a população está desempregada e as empresas estão renegociando suas dívidas. Ou estão falindo. A única saída imaginável para sanar os gastos que vêm pela frente seria, como o Gabinete do Ódio mencionou, fabricar dinheiro. O que, dependendo da quantidade de papel-moeda fictícia a ser impresso, seria o pontapé inicial de uma hiperinflação. Isso num momento em não só a futura recessão global é dada como certa, mas alguns já até falam em depressão. As conseqüências econômicas da pandemia farão o crack de 1929 parecer um jogo de pôquer. Quanto mais se estica o período de quarentena, maior será a destruição da Economia. Isso é fato. Mas não há outra coisa a ser feita. Como se não bastasse, a construção de hospitais de campanha, o aumento do número de leitos, a importação de equipamentos atingiram seu nível máximo. Os profissionais de saúde estão trabalhando no seu limite. Todos os esforços para reduzir os efeitos do COVID-19 estão caminhando em velocidade máxima. Apenas para ficarmos no mesmo campo semântico da metáfora supracitada. Só que o máximo é pouco. Toda essa corrente em torno de um único objetivo mostra-se insuficiente para diminuir as estatísticas. O que vem por aí é ainda mais grave. Por enquanto, estamos ainda assistindo a um trailer. O filme de terror propriamente dito vai começar a ser exibido daqui a mais ou menos duas semanas.

Essa conta não bate. Nem em reais, nem em dólares. Os investimentos mundiais, realizados em escalas estratosféricas, já não servem mais para salvar vidas, apenas para diminuir o número de mortes. Para que os médicos, lá na frente, não tenham que escolher quem será desintubado na base do par ou ímpar. Como nenhum profeta poderia imaginar, estamos enfrentando um novo tipo de malthusianismo: enquanto a quantidade de remédios cresce em progressão aritmética, a quantidade de doentes cresce em progressão geométrica.

Esse é o quadro otimista que Nelson Teich tem pela frente. Ainda dá pra piorar. O novo ministro precisa equacionar a distribuição desses parcos recursos para todos os Estados afetados pela doença. Precisa acompanhar, segundo a segundo, as orientações da OMS, anunciadas na velocidade galopante de um locutor de jóquei. Precisa de resultados imediatos para poder dimensionar o tamanho do isolamento, tanto na questão do tempo quanto do espaço.

Como se não bastasse, o recém-contratado tem como chefe um lunático. Um líder de Estado que faz questão de contrariar e desobedecer a todas as recomendações da qualquer entidade idônea de saúde. Um ignóbil motivo de chacota na imprensa internacional. Considerado o pior presidente do mundo inteiro no combate ao novo coronavírus. O energúmeno está andando na contramão (apenas para manter a metáfora automobilística). Sai às ruas, cumprimentando populares depois de esfregar o nariz com as mãos, levando e trazendo o vírus como se estivesse brincando de passa-ou-repassa. Bolsonaro não está em campanha, mas age como se estivesse. Visita farmácias e padarias, sem ter uma palavra sequer pra dizer. Faz isso de pirraça. Apenas para provar para si mesmo a onipotência de seu físico de atleta. O Messias acha que é Deus.

Resta saber se, daqui pra frente, esse alinhamento, balanceamento e recauchutagem entre ministro e presidente é algo matematicamente possível. Porque o discurso do primeiro e a atitude do segundo são diametralmente contraditórios. Não, o Brasil não é um carro em movimento. É um carro desgovernado. Tentando subir a escalada do pico e ao mesmo tempo descendo a ladeira da Economia. Um veículo de segunda mão, sem freios e com a marcha à ré engatada.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

A novela continua


- Alô, Flávia? É o Leandro, da Futuro Brasil Marketing de Conteúdo. Pode falar?
- Sim, sou eu. Pois não?
- Então, quem me indicou foi o Braz, grande brother meu. Parece que vocês trabalharam juntos na A2 Work. Seguinte, tô precisando de redator pra pegar um freela. Cê ta disponível?
- Sim, sim... dependendo das condições...
- A parada é bem maneira. A gente vai aproveitar esse momento coronavírus, essa parada toda, pra fazer uns informativos, conteúdo com dicas de prevenção, pílulas nas redes sociais. Topa?
- Então, vai depender da verba e do prazo.
- Prazo a gente negocia. É urgente, mas eu dou um jeito de segurar as pontas. Você NÃO precisa vir pra agência. É trabalho remoto, home Office mesmo.
- Sim, até porque, né? Quarentena. Ordem do governador.
- Beleza. Então, a gente ainda precisa ajustas uns lances, mas daria pra você adiantar um orçamento? São mais ou menos 20 peças. Coisa rápida, texto curtinho.
- Olha, se for coisa básica, que não precisa de muita pesquisa, meu valor é de 2 mil reais. Menos não posso fazer.
- Sei... OK... bom, vou falar com o pessoal aqui, qualquer coisa te retorno, OK?

(15 minutos depois...)
- Flávia? É o Leandro. Então, falei aqui com o diretor de criação, que falou com o gestor da área, que falou com o Financeiro, e a gente ta com um problema de verba, então teria que ser um pouco menos...
- Menos quanto?
- Me passaram 500 reais. Mas eu acho que consigo 600. É coisa boba, o Braz me falou que você tira de letra. Gente boníssima esse Braz.
- Bom, sei lá...
- Você não vai se arrepender. E esse é o primeiro job. Tem muita coisa pintando aqui na casa, se rolar você pega outros, aí a gente consegue negociar um valor maior. Esquema de parceria mesmo.
- OK. Vou confiar em você.
- Ótimo! Cê vai curtir. O cliente é legal, tem um trabalho bem maneiro na rua. É um lance meio educativo, dando um toque pras pessoas não saírem de casa, lavarem as mãos direitinho, essa parada toda. Pode atacar pelo lado emocional, fique à vontade. Um lance que pega na veia, sabe? Vou te passar por e-mail o briefing com tudo direitoinho. Se você puder me mandar amanhã, pelo menos a primeira parte pra gente começar a dar uma olhada antes de ir pra layout...

(No dia seguinte...)
- Alô, Flávia? Graaande Flávia. É o Leandro. Então recebemos seu e-mail. Show! Sensacional! O pessoal aqui AMOU seu texto. Única coisa: esse lance aqui. A palavra coronavírus. Eles querem que tira. Essa coisa de falar de doença, pode ficar meio triste, meio pesado, pra baixo...
- Ué, mas o job NÃO É sobre coronavírus?
- Sim, mas eles preferem ir prum caminho mais sutil. Teria como você tentar uma segunda opção?

(2 horas depois...)
- Flávia? Leandro. Então, o pessoal curtiu essa nova proposta. Só tem uma coisa: quando você fala “fica em casa”. Acharam meio impositivo, autoritário.
- Cara... é o que você falou ONTEM por telefone. É o que tá no briefing!
- Esquece ontem, esquece briefing. A diretoria entrou na parada desse job e eles estão fazendo um novo direcionamento. Imagina só o cara lendo isso e alguém mandando ele ficar em casa. Fere com a liberdade de escolha. Com o direito de ir e vir. E não é toda cidade que vai ficar em quarentena. Essa campanha é nível nacional. Quebra essa, vai...

(1 hora depois...)
- Flávia? Leandro de novo kkkk. Então, acho que estamos no caminho. Mais uma coisa: quando você fala em álcool gel. A agência aqui não pega conta de bebidas alcoólicas. Um dos sócios é evangélico, o outro é muçulmano, então já viu... a gente não pode EM HIPÓTESE ALGUMA mencionar álcool, cerveja ou qualquer outra bebida no nosso material de comunicação. Tenta achar um sinônimo.
- Difícil, viu...
- É, eu sei que é difícil. Essa época de isolamento não ta fácil pra ninguém. Mas vai passar. E depois que passar esse corre a gente quem sabe podia marcar de bater um papo, ir prum barzinho, trocar uma idéia...
- Isso é uma cantada?
- Não, de jeito nenhum. Para com isso! Mais pra gente se conhecer, pra eu ver um pouco do seu material, seu portifa, por onde você já trabalhou, se manja de redes sociais... puro networking, nada mais!

(15 dias depois...)
- Alô, Leandro? É a Flávia redatora. Então, queria saber sobre o pagamento daquele freela.
- Graaande Flávia! Não morre mais, ia te ligar AGORA! Então, passei sua nota pro Financeiro, mas eles falaram que não podem aceitar do jeito que tá. Eles são meio chatinhos mesmo. Quando você fala “serviços prestados”, precisa especificar o tipo de trabalho, a quantidade de peças criadas, a quantidade de laudas, o nome do cliente e o nome do projeto. Senão eles não aceitam. Teria como fazer uma carta de correção e me mandar? Aí eu encaminho IMEDIATAMENTE pra eles.

(1 mês depois...)
- Alô, Leandro? Flávia. E aí?
- Flavinha, Flavinha... tudo bem contigo? Comigo, maravilhosamente bem. Melhor agora. Mas me diga: e aí o quê?
- O PAGAMENTO!
- Ah, sim... veja bem... encaminhei sua nota pro Vinícius... grande Vinicão... que deu uma olhada, aprovou e pá... aí ele enviou pro chefe dele, o Robson, que é o pica do Financeiro... agora tá na mão dele...

(2 meses depois...)
- Leandro? Flávia...
- “No momento todos os ramais estão ocupados. Por favor, aguarde um de nossos atendentes...” kkkk te peguei! Flavinha coração, diga lá...
- Coração o cacete! Quero saber da minha grana.
- Cê num vai acreditar. Eles decidiram que NÃO Vão te pagar. O job foi CANCELADO! Kkkk A gente foi mandando as versões, os caminhos criativos, era um tal de aprova-reprova, daí a pandemia passou! E o cliente decidiu cancelar a porra toda. Brasileiro não é sério mesmo... mas vem cá: tô aqui com um job de influenza. Te interessa?


segunda-feira, 6 de abril de 2020

Muita teoria e pouca prática


Durante esse estranho período que mistura ócio e desespero, alguns especialistas recomendam que a gente não pare de colocar em prática hábitos salutares. Já que ir pra academia virou uma questão de risco, onde você pode encontrar inimigos muito mais fortes, poderosos e resistentes do que seu marombado instrutor, a orientação é pra usar a criatividade e fazer exercícios físicos em casa. Afastar os móveis da sala e fazer umas flexões de braço ou alongamento, por exemplo. OK, entendi a proposta. De boas intenções, o Inferno ta cheio. Só que o médico de telejornais não tem noção da dificuldade que é esse tipo de isolamento de mobílias. No caso específico, em que minha residência seja a questão. Aqui é um acúmulo de tranqueira. A tal nível de deixar um coreano assustado. Só o fato de eu arrastar um pouco a mesa de centro, puxar pro lado as cadeiras e retirar o que tem em cima delas JÁ É o exercício. Sábado passado tentei fazer uma faxina na sala. Meio que na onda do povo que anda falando pra gente dispensar a diarista e fazermos nós mesmos a limpeza. Aliás, quem vem dando esse tipo de dica são os mais preguiçosos, já reparou? Mas enfim, uni o útil ao desagradável. Durante a tarefa, meu convívio com a lordose foi tão intenso que acabei adicionando ela no meu Facebook. Primeiro precisei pegar o aspirador de pó. Um trambolhão que estava se desmontando todo. Parecia que foi fabricado pela Lego. Acho que minha mãe deve ter comprado numa promoção. Da Mesbla. Ou da Arapuã, talvez. Depois de reconstituir o Frankenstein, tirei o pó debaixo dos tapetes, dos móveis e de um pufe. Achei debaixo dele um aparelho de telefone fixo da época do Plano Cruzado.

Outra prática que os especialistas nos recomendam é manter uma alimentação saudável e equilibrada. Falar é fácil. Para essas apresentadoras dos programas vespertinos de TV, casadas com donos de startup ou com o próprio dono da TV onde ela apresenta o programa, é bem tranqüilo pedir pro piloto do helicóptero dar um pulinho no supermercado e comprar quinoa. Aliás, jamais poderia imaginar que um dia voltaria a assistir a programas à tarde em TV aberta. A última vez que liguei o aparelho às 3 da tarde estava passando Lagoa Azul. Isso depois do Miguel Falabella juntar as mãos e fazer o sinal da oração. Aí vêm essas recauchutadas me mandando comer brócolis. Aqui é clima de guerra, comadre. A comida mais saudável que tem na despensa é um pacote de Ruffles. Salsicha é que nem cocô do Bolsonaro: dia sim, dia não. Tô deixando pra comer o Miojo sabor galinha caipira na ceia de Páscoa. Se é que a Páscoa não vai ser adiada. Que mané cenoura e beterraba, minha filha. Se eu sair de casa, capaz de todo o bando de vírus atrás do poste perceber minha movimentação e me atacar. Ou então, corro o risco de ser atropelado. Pelo único carro que vai passar na rua durante o dia inteiro. Prefiro ficar recluso, eu e minha caixa de Bis. Outro dia achei uma lata de atum. O invólucro metálico estava bem estufado. Parecia camisa de gordo quando sai de um rodízio.  Desconfio que quem estava morando na lata nem eram mais os peixes. Acho que aquela embalagem virou um albergue de botulismo. Sei lá. Fui procurar a data de validade. Venceu no dia do impeachment da Dilma. Abri a lata. Até o gato da vizinha teve ânsia de vômito. Ontem fui abrir a geladeira. Só tinha água num jarro de vidro da minha avó, copo com um fundinho de requeijão e pilha. Quase comi a pilha.

Se a prática anda bem escassa, já não se pode dizer o mesmo da teoria. Elas pululam nas redes sociais igual às pulgas no colchão do meu quarto. É uma mais bizarra que a outra. Tem gente acreditando que é coisa de alienígena, que usou os terráqueos como para pesquisas científicas. Outros acham que é coisa do Satanás. Grande parte dessas teorias culpa os chineses por esse pandemônio. Umas dizem que o corona é cria de laboratório, e que essa nova espécie seria levada aos Estados Unidos pra disseminar a população inimiga. Outras falam que é pra valorizar as ações da soja local no mercado mundial. Ou para estimular a economia interna, como foi o caso da construção de hospitais em tempo recorde. Uns dizem que o desmoronamento de um hotel que servia de abrigo para os infectados foi uma ação orquestrada pelo governo. Tem muita, mas muita gente relacionando o vírus aos hábitos alimentares do povo mandarim. Que o fato de eles comerem animais, digamos, exóticos, fez com que a doença se alastrasse pelo mundo. Não entendi direito a associação. Até ontem você aí comia yakissoba feito na rua e tava tudo certo. Ou vai me dizer que foi hipnotizado pelo cheiro de fritura do óleo de gergelim? Acho um pouco complicado propagar hipóteses precipitadas. Já tivemos um exemplo da família real, um dos três patetas filhos do presidente, que fez uma declaração que deixou as relações entre os países bem estremecidas. Sem provas, fica difícil validar esses fluxos paranóicos de pensamento. A Fox News andou divulgando vídeos que comprovam uma relação de causa e efeito entre a doença e os chineses. Mas também, né? Fox News. Foram eles que anunciaram o teste positivo do Bolsonaro. Eles são a parcela da mídia mais reacionária do mundo. Pra eles, Paulo Maluf é um bolchevique. Eu confio mais nas notícias narradas pelo Marcelo Adnet do que qualquer noticiário dessa emissora. Vamos aguardar um pouco mais. Em casa. Trancafiados em nossas loucuras.