É sabido que as ordens e as atitudes que vêm de quem está no topo são automaticamente replicadas por quem está na base. O famoso "o exemplo vem de cima". Se as autoridades recomendam que se fique em casa, é porque existe um motivo para a reclusão. O problema é, como todos já perceberam faz tempo, que cada um fala e faz uma coisa diferente. Prefeitos e governadores falam em isolamento social, enquanto o presidente vai pra padaria e pro seu cercadinho cumprimentar apoiadores e tirar selfies com populares. Imediatamente após cada aparição pública do nosso representante maior, os índices do fique em casa caem.
Embora estejamos no meio de uma polarização política sem precedentes, é comum se observar que, em todos os campos da humanidade, existem alguns níveis de apoio a uma determinada ideia. Do moderado ao radical. Em relação ao isolamento, há uma pequena parcela bem xiita. Não colocou a cara pra fora de casa durante esse quase-trimestre. Não pega elevador. Só faz compras por delivery e, mesmo assim, evita ao máximo qualquer tipo de contato com o entregador. Lava minuciosamente todo e qualquer item comprado. Do bombom à caixa de sabão em pó. Não recebe nem a família, que dirá amigos e vizinhos. Até o começo do ano, poderíamos supor que se trata de um caso patológico de paranoia antissocial. Hoje, é um comportamento relativamente aceito, ou pelo menos compreensível. É uma minoria, com muito medo de tudo o que está acontecendo. Existe um grupo mais moderado, que estabelece critérios com mais parcimônia e sai somente se for necessário. Ir a um supermercado, a uma farmácia, fazer uma rápida caminhada, tomar todos os cuidados e evitar aglomerações. Não dá pra saber se é um grupo 100% seguro, pois a doença é nova e a cada dia surgem novidades na mídia. E essa segurança deve-se, em parte, à dosagem de cuidados que a pessoa vem tomando. Poderiam restringir suas vidas às lives e aos aplicativos? Poderiam. Afinal, estamos num momento de guerra. Mas eu já ouvi diversos relatos, por exemplo, dos serviços de delivery criados, aperfeiçoados e improvisados na base do fast track. As taxas de entrega são absurdas, o prazo é extremamente longo e muitas mercadorias vêm adulteradas, ou trocadas, ou há itens faltantes no pedido. Enfim, tomar alguma decisão nesse sentido é uma questão de bom senso. E existe, também, o outro extremo radical: a pessoa que não está nem aí pra nada. Vai às ruas sem máscara, aglomera-se com a galera, tira a camiseta em dias de sol. Para eles, a pandemia não existe.
Não vou entrar no mérito sobre as pessoas que saem de casa por uma questão de necessidade. Trabalham na linha de frente da área de saúde. Prestam serviços considerados essenciais. Abrem seu comércio, de modo restrito, para não ir à falência. Vão aos seus empregos porque assim o chefe determinou. Para os demais, ficar ou sair é uma decisão em que pese a consciência. O radical misantropo sente-se injustiçado por estar fazendo não só a parte dele, mas também cobrindo a falta de noção do radical alienado.
Resta saber, principalmente aos dois primeiros grupos: mas e a volta? Está claro que eles estão seguindo as orientações do prefeito e governador, e não do presidente. Chegamos a um impasse. Em São Paulo, até poucos dias atrás falava-se na possibilidade de um lockdown. Uma medida mais drástica para tentar melhorar os índices de isolamento após algumas iniciativas mal-sucedidas. Agora, pouco tempo depois, fala-se na reabertura. Não quero desmerecer as conclusões tiradas por um comitê de contingência, formado por técnicos de diversas áreas. Mas a coisa ficou bem confusa para quem se abastece somente de informações rápidas. Entende-se que esse processo será lento, gradual e cuidadoso. Mas o Estado foi dividido em cinco regiões. O processo de afrouxamento foi dividido em cinco fases, representadas por cores. Quem está, por exemplo na divisa entre a capital e Osasco, ou Diadema, e se essas regiões apresentarem cores diferentes, não sabe o que fazer. A imprensa divulgou, de modo apressado, a abertura dos shoppings. Isso não vai acontecer agora. Estamos na fase embrionária. Mas a sensação de que o comércio está voltando a funcionar já contaminou parte da população. Principalmente os moderados.
E, já que estados e municípios sinalizam recomendações mais permissivas, essa demonstração cai como uma bomba para quem procura se resguardar. Por outro lado, é o cheque em branco para quem não está nem aí. Ontem mesmo eu ouvi, aqui de casa, um vizinho voltando a fazer o que sempre fazia: pancadão. Pagode e música ruim no volume máximo, churrasco e cervejada para os amigos. Um monte de amigos, pelo som da conversa. A gritaria toda até de madrugada foi um bônus. Um sinal de ostentação, não só para minar tudo de solidário que se construiu durante a pandemia, mas para provar para as autoridades que, naquela casa, quem manda é ele. Aquela gritaria não foi só um sinal de desrespeito ao próximo, como também serviu de provocação. O fulano quis mostrar pra todo mundo que está sim descumprindo a quarentena. Já que estamos vivendo num calabouço político e os poderes estão brigando entre si, resta o discurso do ódio e o egoísmo pra se colocar em prática. E daí?
domingo, 31 de maio de 2020
domingo, 24 de maio de 2020
É de chorar
Quando os profissionais de marketing do banco Bradesco
solicitaram à sua agência de propaganda um comercial para TV, muito
provavelmente o briefing deve ter sido: “quero um filme que faça as pessoas
chorarem”. Conseguiram. No momento mais crítico da saúde pública em nosso
planeta, não dá pra ficar insensível àquela sequência de imagens de crianças
brincando de médico, ao som da música Fascinação, traduzida pelo compositor
Armando Louzada e interpretada pela inconfundível voz de Elis Regina.
Claro. Esse comercial é uma obra de ficção. A realidade é um
pouquinho diferente. E mais dura. E mais perversa. Nos noticiários que
intercalam os 30 segundos de comovente ternura, percebemos a sina diária e suas
consequentes dificuldades dos microempreendedores para se conseguir crédito facilitado
com as instituições bancárias. Ao contrário do que o Governo Federal prometeu.
Não se trata de acusar aqui especificamente o Bradesco, o Itaú, o Santander. Os
bancos, como um todo, estão impondo uma série de barreiras e restrições ao
crédito a tal ponto de tornar essa tarefa inviável. Não há liquidez no mercado.
O dinheiro, portanto, ficou muito mais caro. E, pela lei da oferta e da
procura, ganha o privilégio quem puder pagar melhor. Ou, pelo menos, oferecer
garantias mais consistentes de zerar suas dívidas e honrar esse triste
compromisso. Essa situação surreal não só fere a lógica do sistema como também
coloca em xeque o próprio capitalismo. O pequeno empresário solicita um
empréstimo mas, para isso, precisa demonstrar que tem caixa para pagar esse
empréstimo. Meus senhores, estamos vivendo numa pandemia. Situação de
calamidade pública. Não é pedir demais algum tipo de flexibilização, de todas
as partes, em todas as esferas da roda econômica. Como é que a manicure, o dono
de academia, o dono de um bar, o professor de Inglês conseguem comprovar sua
fonte de rendimentos dos últimos dois meses, sendo que esse é justamente o
período do início da quarentena e eles foram obrigados a fechar seus
estabelecimentos? Que tipo de sentimento verdadeiro os bancos procuram causar
quando recusam distribuir esse montante de dinheiro no sentido de não
corroborar com uma sociedade ainda mais injusta? Ou o comercial não passa de
uma mentirinha, uma brincadeirinha de ninar ao embalo da maior cantora do
Brasil?
Senhores profissionais de marketing do Bradesco e de todas
as instituições bancárias privadas e públicas desta nação sem noção: vocês
conseguiram. Todo esse baixo clero da Economia, que emprega a maior parte dos
assalariados, que de fato movimenta a ciranda financeira do nosso arrasado
país, está chorando. De tristeza. De desespero. De angústia. De desesperança.
Não é nada fácil abrir um sorriso quando não há o que se colocar na mesa pra
comer. Aqui ficam meus parabéns. Vocês causaram uma comoção social muito maior
do que imaginavam.
sexta-feira, 15 de maio de 2020
Autor brasileiro ganha prêmio de literatura de fantasia
Comemorando um ano do lançamento do primeiro livro de fantasia do escritor brasileiro P.J. Maia, ESPÍRITO PERDIDO (The Missing Spirit), a obra acaba de conquistar o prêmio de “Melhor Livro de Fantasia” no Independent Press Award, em Nova York, uma competição julgada por experts de diversas áreas da indústria literária, incluindo editoras, autores, revisores, diretores de arte e redatores profissionais. Os vencedores de cada categoria são escolhidos a partir de quesitos de excelência no geral.
Este não é o primeiro prêmio conquistado pela obra. Em março deste ano, o livro ESPÍRITO PERDIDO conquistou o “Red Ribbon”, prêmio de Escolha dos Leitores no Wishing Shelf Awards, premiação sediada em Londres e voltada para o público juvenil, onde os títulos são avaliados por grupos de jovens leitores no Reino Unido e na Suécia.
Este não é o primeiro prêmio conquistado pela obra. Em março deste ano, o livro ESPÍRITO PERDIDO conquistou o “Red Ribbon”, prêmio de Escolha dos Leitores no Wishing Shelf Awards, premiação sediada em Londres e voltada para o público juvenil, onde os títulos são avaliados por grupos de jovens leitores no Reino Unido e na Suécia.
Decidido a disputar espaço no mercado global de literatura fantástica de forma independente, o jovem autor brasileiro parece estar dando os primeiros passos na direção certa. O segundo livro da saga já entrou em produção, principalmente, nestes tempos de quarentena, em que todos estão confinados, o autor pretende de forma criativa dar sequencia ao seu trabalho tão bem recebido pelo público e crítica.
sábado, 9 de maio de 2020
Pode ser
Pode ser que a quarentena se prolongue até o fim de junho. Enquanto os índices de isolamento caírem, não há outra alternativa viável.
Pode ser que os Estados e municípios decretem lockdown. A capacidade de atendimento dos hospitais da rede pública e da rede privada está chegando ao limite. E a inauguração de novos leitos, com todos os equipamentos e profissionais necessários, não está acompanhando a velocidade da chegada de novos infectados.
Pode ser que o lockdown não seja suficiente para conter o vírus. Em Nova York, o prefeito declarou que as pessoas estão se contaminando em casa.
Pode ser que o Brasil se torne o epicentro mundial do coronavírus. Alguns especialistas já apontam essa tendência.
Pode ser que a curva epidêmica atinja picos mais altos e uma largura mais extensa do que a apresentada em gráficos. Isso depende não só das medidas preventivas adotadas no presente, como também de outros fatores, como comportamento e possível mutação do vírus, números mais precisos de subnotificações e comportamento da sociedade como um todo.
Pode ser que a Economia consiga respirar aliviada algum sinal de crescimento somente em 2022.
Pode ser que pulemos o estágio da recessão e entremos direto na depressão.
Já que estamos falando em depressão, pode ser que esse estado das coisas traga consequências psicológicas traumáticas às pessoas e que o índice de suicídios aumente vertiginosamente.
Pode ser que o covid-19 seja apenas um "ensaio geral". Um renomado pesquisador da USP alerta para o fato de que ainda está por vir um vírus ainda pior, com consequências mais trágicas e devastadoras. Diversos infectologistas não descartam a possibilidade de ficarmos suscetíveis a novas pandemias.
Pode ser que os níveis de violência aumentem numa escala insustentável. Só na capital de São Paulo, existe uma projeção (otimista) de que haverá um acréscimo de 1 milhão de desempregados. Pessoas que precisam botar comida na mesa de suas famílias.
Pode ser que o Estado, em todas as suas esferas, zere o fundo de reserva e, sem qualquer previsão de retomada, não tenha caixa algum para uma próxima e eventual situação de calamidade pública.
Pode ser que o Brasil fique ainda mais isolado do mundo. E que a sociedade fique ainda mais dividida e fragmentada.
Pode ser que todas as petições requisitando a abertura de inquéritos para o processo de impeachment sejam engavetadas.
Pode ser que o nosso presidente, percebendo suas limitações de poder dentro das instituições democráticas, resolva aplicar um golpe de estado. Seria, para alguns analistas políticos, um "golpe dentro do golpe", visto que ele já ocupa um cargo de chefe de Estado.
Pode ser que o novo normal enterre para sempre o antigo normal, e que alguns hábitos e práticas nunca mais voltem a existir.
Pode ser tudo isso. Ou muito mais. Ou não. A gente não tem certeza de nada. Seguimos convivendo com essa sensação de impotência. Mas veja só. Já se passaram quase dois meses. E estamos aqui. Eu escrevendo, você lendo, o mundo reagindo. Com razão, sem razão, mas com emoção. E no meio desse desequilíbrio do ecossistema, causado por um bichinho trilhões de vezes menor, é que vem uma impressão trilhões de vezes maior. Um insight, um feeling. Uma coceira contagiante, sem qualquer embasamento científico. Mas com toda a potência de sensação meramente intuitiva: estamos sobrevivendo. E se a gente conseguiu chegar até aqui, nada mais é capaz de nos derrubar.
Feliz Dia das Mães. E #FiqueEmCasa
Pode ser que os Estados e municípios decretem lockdown. A capacidade de atendimento dos hospitais da rede pública e da rede privada está chegando ao limite. E a inauguração de novos leitos, com todos os equipamentos e profissionais necessários, não está acompanhando a velocidade da chegada de novos infectados.
Pode ser que o lockdown não seja suficiente para conter o vírus. Em Nova York, o prefeito declarou que as pessoas estão se contaminando em casa.
Pode ser que o Brasil se torne o epicentro mundial do coronavírus. Alguns especialistas já apontam essa tendência.
Pode ser que a curva epidêmica atinja picos mais altos e uma largura mais extensa do que a apresentada em gráficos. Isso depende não só das medidas preventivas adotadas no presente, como também de outros fatores, como comportamento e possível mutação do vírus, números mais precisos de subnotificações e comportamento da sociedade como um todo.
Pode ser que a Economia consiga respirar aliviada algum sinal de crescimento somente em 2022.
Pode ser que pulemos o estágio da recessão e entremos direto na depressão.
Já que estamos falando em depressão, pode ser que esse estado das coisas traga consequências psicológicas traumáticas às pessoas e que o índice de suicídios aumente vertiginosamente.
Pode ser que o covid-19 seja apenas um "ensaio geral". Um renomado pesquisador da USP alerta para o fato de que ainda está por vir um vírus ainda pior, com consequências mais trágicas e devastadoras. Diversos infectologistas não descartam a possibilidade de ficarmos suscetíveis a novas pandemias.
Pode ser que os níveis de violência aumentem numa escala insustentável. Só na capital de São Paulo, existe uma projeção (otimista) de que haverá um acréscimo de 1 milhão de desempregados. Pessoas que precisam botar comida na mesa de suas famílias.
Pode ser que o Estado, em todas as suas esferas, zere o fundo de reserva e, sem qualquer previsão de retomada, não tenha caixa algum para uma próxima e eventual situação de calamidade pública.
Pode ser que o Brasil fique ainda mais isolado do mundo. E que a sociedade fique ainda mais dividida e fragmentada.
Pode ser que todas as petições requisitando a abertura de inquéritos para o processo de impeachment sejam engavetadas.
Pode ser que o nosso presidente, percebendo suas limitações de poder dentro das instituições democráticas, resolva aplicar um golpe de estado. Seria, para alguns analistas políticos, um "golpe dentro do golpe", visto que ele já ocupa um cargo de chefe de Estado.
Pode ser que o novo normal enterre para sempre o antigo normal, e que alguns hábitos e práticas nunca mais voltem a existir.
Pode ser tudo isso. Ou muito mais. Ou não. A gente não tem certeza de nada. Seguimos convivendo com essa sensação de impotência. Mas veja só. Já se passaram quase dois meses. E estamos aqui. Eu escrevendo, você lendo, o mundo reagindo. Com razão, sem razão, mas com emoção. E no meio desse desequilíbrio do ecossistema, causado por um bichinho trilhões de vezes menor, é que vem uma impressão trilhões de vezes maior. Um insight, um feeling. Uma coceira contagiante, sem qualquer embasamento científico. Mas com toda a potência de sensação meramente intuitiva: estamos sobrevivendo. E se a gente conseguiu chegar até aqui, nada mais é capaz de nos derrubar.
Feliz Dia das Mães. E #FiqueEmCasa
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Os signos e a quarentena
ÁRIES: seu tempo é agora. Leia um livro, faça exercícios, coloque seus filmes em dia, arrume a casa, tire o pó debaixo da cama, faça uma live e organize um grupo de financiamento coletivo para ajudar quem passa por dificuldades neste momento.
TOURO: essa fase vai passar. Com certeza vai passar. Tem que passar. Ninguém pode te convencer do contrário. E, quando passar, tudo tem que voltar exatamente como era antes.
GÊMEOS: que isolamento, que nada. O importante é conectar pessoas. Estar entre amigos. Fazer novas amizades. Que seja nas áreas de circulação dos prédios, nas ruas, nos parques. Tomando todos os cuidados, é claro. Se for pra ficar em casa, nada melhor do que criar comunidades nas redes sociais, criar grupos de jogos virtuais, organizar lives coletivas.
CÂNCER: que momento maravilhoso para ficar mais perto da família. Cuidar dos entes queridos. Época de reflexão para trazer o passado de volta. Folhear o álbum de fotos da formatura. Postar #tbt nas redes sociais. O problema é conter a emoção. Mas, até aí, tudo bem. Você tem o seu travesseiro, onde pode chorar durante suas 14 horas diárias de sono.
LEÃO: bem que você falou pra todo mundo que esse momento iria ser grave. Em suas postagens escritas em caixa alta você já vinha advertindo as pessoas. Mas vamos sair dessa. Principalmente você. Porque você se cuida. Você se protege. E é você quem passa as corretas orientações a todas as pessoas ao seu redor. É graças a você que a gente vai estar imune e preparado para um mundo melhor.
VIRGEM: conviver com a quarentena é fácil. Basta acordar todos os dias às 7h da manhã, fazer sua higiene pessoal, tomar seu café e começar a colocar as coisas em ordem. Do lado esquerdo da mesa, você cria uma lista para agendar e organizar suas tarefas. Do lado direito, você deixa seu smartphone ligado para acompanhar as notícias, as mensagens e as conversas. Muito importante lavar as mãos. Use água e sabão, enxágue por 40 segundos e não se esqueça de lavar os punhos, o dorso das mãos e todas as juntas dos dedos.
LIBRA: difícil dizer se o isolamento deve ser vertical ou total. Todos têm suas razões. A gente não pode deixar as pessoas morrerem, mas também não pode se esquecer da Economia. Difícil também ter uma opinião formada sobre o uso de máscaras. Ela protege as pessoas mas, se estiver mal lavada, pode servir de foco de contágio. Ainda é cedo demais pra afirmar se o uso da cloroquina é bom ou ruim. É fato que o medicamento já salvou vidas, mas o uso indiscriminado pode trazer complicações ainda maiores.
ESCORPIÃO: bem que você falou que o mundo iria acabar bem mais cedo do que a gente imagina. Talvez a gente até sobreviva a tudo isso. Mas, se acontecer, é imperativo que você descubra quem foi o filho da puta que trouxe essa merda de doença pra cá pro Brasil, corra atrás desse pulha e rogue uma praga para que ele morra com requintes de crueldade e passe a Eternidade nos calabouços do Inferno.
SAGITÁRIO: que merda essa quarentena, né minha filha? Não poder sair de casa, ficar trancafiado, não poder circular pelas ruas, pelas avenidas, pelo mundo. Sensação de prisão domiciliar. Você não vê a hora desse pesadelo acabar para poder voltar pra academia, bater perna em shopping, ir ao cinema, frequentar a casa de todos os seus amigos. Enquanto isso, nesse seu presídio de segurança máxima, é possível anotar pensamentos, divagações, reflexões sobre a vida. Ou então, fazer um bolo para 12 pessoas.
CAPRICÓRNIO: não adianta tentar fazer o que não pode. Vamos ser práticos. Nada de sair por aí fazendo as coisas a torto e a direito. Antes de arrumar sua estante que nem um doido, é preciso perguntar para você mesmo: por que arrumar? Você algum dia vai ler de novo todos esses livros? Tudo no seu devido tempo. Se a quarentena acabar amanhã, que seja amanhã o dia de voltar à normalidade. Se acabar daqui a 1 mês, controle sua ansiedade.
AQUÁRIO: isolamento? De boa. Um dia como outro qualquer. Não dá pra entender essa obsessão toda de encontrar pessoas, abraçar pessoas. Na hora de pintar um quadro, escrever um livro, compor uma música, você não precisa de pessoas. Todo mundo tá falando como é difícil lidar com esse momento, e como será a volta. Isso pouco importa. Você tá preocupado é como vai estar o mundo em 2022.
PEIXES: já que você tá em casa sem fazer nada, é uma ótima oportunidade para se livrar de todas as suas tranqueiras. A palavra de ordem é: lixo. Jogue fora tudo aquilo que não presta, que você não usa mais ou que te faz mal. Ou então, doe. Faça uma boa ação, tem muita gente precisando. Menos é mais. Esse é o momento de você entrar em contato com o seu "eu" interior. É nesse corpo e alma que você vai encontrar toda a profundidade que merece.
TOURO: essa fase vai passar. Com certeza vai passar. Tem que passar. Ninguém pode te convencer do contrário. E, quando passar, tudo tem que voltar exatamente como era antes.
GÊMEOS: que isolamento, que nada. O importante é conectar pessoas. Estar entre amigos. Fazer novas amizades. Que seja nas áreas de circulação dos prédios, nas ruas, nos parques. Tomando todos os cuidados, é claro. Se for pra ficar em casa, nada melhor do que criar comunidades nas redes sociais, criar grupos de jogos virtuais, organizar lives coletivas.
CÂNCER: que momento maravilhoso para ficar mais perto da família. Cuidar dos entes queridos. Época de reflexão para trazer o passado de volta. Folhear o álbum de fotos da formatura. Postar #tbt nas redes sociais. O problema é conter a emoção. Mas, até aí, tudo bem. Você tem o seu travesseiro, onde pode chorar durante suas 14 horas diárias de sono.
LEÃO: bem que você falou pra todo mundo que esse momento iria ser grave. Em suas postagens escritas em caixa alta você já vinha advertindo as pessoas. Mas vamos sair dessa. Principalmente você. Porque você se cuida. Você se protege. E é você quem passa as corretas orientações a todas as pessoas ao seu redor. É graças a você que a gente vai estar imune e preparado para um mundo melhor.
VIRGEM: conviver com a quarentena é fácil. Basta acordar todos os dias às 7h da manhã, fazer sua higiene pessoal, tomar seu café e começar a colocar as coisas em ordem. Do lado esquerdo da mesa, você cria uma lista para agendar e organizar suas tarefas. Do lado direito, você deixa seu smartphone ligado para acompanhar as notícias, as mensagens e as conversas. Muito importante lavar as mãos. Use água e sabão, enxágue por 40 segundos e não se esqueça de lavar os punhos, o dorso das mãos e todas as juntas dos dedos.
LIBRA: difícil dizer se o isolamento deve ser vertical ou total. Todos têm suas razões. A gente não pode deixar as pessoas morrerem, mas também não pode se esquecer da Economia. Difícil também ter uma opinião formada sobre o uso de máscaras. Ela protege as pessoas mas, se estiver mal lavada, pode servir de foco de contágio. Ainda é cedo demais pra afirmar se o uso da cloroquina é bom ou ruim. É fato que o medicamento já salvou vidas, mas o uso indiscriminado pode trazer complicações ainda maiores.
ESCORPIÃO: bem que você falou que o mundo iria acabar bem mais cedo do que a gente imagina. Talvez a gente até sobreviva a tudo isso. Mas, se acontecer, é imperativo que você descubra quem foi o filho da puta que trouxe essa merda de doença pra cá pro Brasil, corra atrás desse pulha e rogue uma praga para que ele morra com requintes de crueldade e passe a Eternidade nos calabouços do Inferno.
SAGITÁRIO: que merda essa quarentena, né minha filha? Não poder sair de casa, ficar trancafiado, não poder circular pelas ruas, pelas avenidas, pelo mundo. Sensação de prisão domiciliar. Você não vê a hora desse pesadelo acabar para poder voltar pra academia, bater perna em shopping, ir ao cinema, frequentar a casa de todos os seus amigos. Enquanto isso, nesse seu presídio de segurança máxima, é possível anotar pensamentos, divagações, reflexões sobre a vida. Ou então, fazer um bolo para 12 pessoas.
CAPRICÓRNIO: não adianta tentar fazer o que não pode. Vamos ser práticos. Nada de sair por aí fazendo as coisas a torto e a direito. Antes de arrumar sua estante que nem um doido, é preciso perguntar para você mesmo: por que arrumar? Você algum dia vai ler de novo todos esses livros? Tudo no seu devido tempo. Se a quarentena acabar amanhã, que seja amanhã o dia de voltar à normalidade. Se acabar daqui a 1 mês, controle sua ansiedade.
AQUÁRIO: isolamento? De boa. Um dia como outro qualquer. Não dá pra entender essa obsessão toda de encontrar pessoas, abraçar pessoas. Na hora de pintar um quadro, escrever um livro, compor uma música, você não precisa de pessoas. Todo mundo tá falando como é difícil lidar com esse momento, e como será a volta. Isso pouco importa. Você tá preocupado é como vai estar o mundo em 2022.
PEIXES: já que você tá em casa sem fazer nada, é uma ótima oportunidade para se livrar de todas as suas tranqueiras. A palavra de ordem é: lixo. Jogue fora tudo aquilo que não presta, que você não usa mais ou que te faz mal. Ou então, doe. Faça uma boa ação, tem muita gente precisando. Menos é mais. Esse é o momento de você entrar em contato com o seu "eu" interior. É nesse corpo e alma que você vai encontrar toda a profundidade que merece.
terça-feira, 21 de abril de 2020
No RH
- Cassandra? Prazer, Elisabete. Sou a gestora de RH aqui da
W Corp. Aceita um café, uma água?
- Oi, tudo bem? Não, obrigada.
- Então, eu tenho boas notícias. Você foi aprovada na
primeira fase do processo seletivo.
- Puxa, que ótimo!
- Super, né? A gente ainda tá acertando uns detalhes, logo
mais eu te envio um invite pra participar da segunda fase, que vai ser uma
dinâmica de grupo. Mas antes disso, eu precisava fazer umas perguntinhas, pode
ser?
- Sim, claro!
- Então, Cassandra... como você pode ver, o Brasil está
passando por um novo momento. Dentro dessa nova realidade, a gente precisou
adequar a estrutura aqui do departamento e acrescentamos algumas questões para
verificar se o candidato se encaixa no perfil da empresa, dentro desse
panorama. Lembrando que não existe resposta certa nem resposta errada. É mais
pra conhecer seu perfil mesmo. Tudo bem?
- Opa, vamos lá!
- Cassandra, você já contraiu o COVID-19?
- Não!
- Tem algum parente que foi contagiado pelo novo
coronavírus?
- Também não.
- Se por acaso a W Corp recebesse um lote de testes rápidos
para aplicar a seus colaboradores, você se submeteria a fazer o teste?
- Perfeitamente!
- E se por ventura a W Corp precisasse ajustar seu sistema
de trabalho para essa nova realidade, como medidas de adoção de férias
coletivas, home office ou redução da jornada de trabalho, você aceitaria?
- Sim... fazer o que, né?
- (Anotando)... só mais um momentinho... próxima pergunta: você
é a favor do AI-5?
- Oi??
- Você é contra ou a favor da volta do Ato Institucional
número 5, que entre outras coisas implementa a censura e o controle dos órgãos
de imprensa?
- Claro que não!
- (Balbuciando enquanto anota) postura radical... OK...
próxima pergunta: você é contra ou a favor do fechamento do Congresso Nacional,
mesmo não tendo votado nos candidatos que venceram as últimas eleições?
- Sério isso?
- É sim ou não. Lembrando, Cassandra... que no dia a dia aqui
da empresa vão surgir situações novas a cada momento, e você vai precisar tomar
decisões rápidas. Aqui o que menos tem é rotina.
- Tá... então eu sou contra!
- (Falando baixinho enquanto anota) comportamento
agressivo... outra pergunta: você é contra ou a favor da intervenção militar?
- Absolutamente contra!
- (Sussurrando e anotando) OK... subversão patológica...
- Não, pera! Veja bem: eu sou contra o regime militar, mas
sou a favor do Exército atuar em casos extremos.
- (Baixinho) Falta de clareza... OK... ah, aqui, outra
pergunta: se o seu chefe ou superior imediato apresentasse algum sintoma do
coronavírus, como tosse ou espirro, mesmo não sendo confirmada a doença, e ele
viesse te cumprimentar após tossir ou esfregar o nariz esticando a mão pra você,
o que você faria?
- Eu nem chegaria perto!
- (Baixinho) Insubordinação... OK...
- Não, quer dizer... errr... depende do contexto, né?
- (Baixinho) Falta de posicionamento...
- Não! O que eu quis dizer é que eu seguiria as normas...
mostraria o cotovelo!
- (Falando baixinho cada sílaba que anota) In-ci-ta-ção à...
vi-o-lên...
- Um momentinho, Elisabete. Isso faz parte do processo? Eu
estudei, fiz o teste, passei, vou pra segunda fase... mas essas questões de
cunho ideológico... meio desnecessário...
- Dona Cassandra, eu vou explicar. Nossa avaliação segue
rigorosamente o protocolo e os padrões dos testes aplicados pelas maiores empresas
do mundo inteiro. Google, Oracle, Unilever, General Foods... se a senhora não
está contente, tudo bem. Tem mais de 400 pessoas que se candidataram a essa
vaga. Inclusive gente com Doutorado em Oxford. A senhora é que sabe. Lá fora
tem gente fazendo uma enorme fila pra ganhar os 600 reais do Governo. Aqui a
gente testa nossos candidatos até mesmo em situações-limite. Pra extrair o
melhor de cada um. Somos uma empresa séria. Ou a senhora acha que conseguiria o
emprego imitando um gato?
- (Conformada) Não, tá bom... tá certo... vamos lá...
- Última pergunta: você já deu o furo?
sábado, 18 de abril de 2020
Não existe grupo de risco
Falar em isolamento vertical a essa altura do campeonato é
como pedir a volta do Fusca. Talvez essa estratégia fizesse algum sentido lá no
comecinho do ano, na mesma época em que o dr. Drauzio Varella postou um vídeo
falando que o coronavírus é uma gripezinha. Hoje, tendo em vista as
estatísticas alarmantes e a experiência da Europa, principalmente Itália e
Espanha, é provado pela ciência precisa do A + B que essa medida, ultrapassada
e démodé, não é eficaz na atual conjuntura catastrófica.
Longe de mim querer ser mais um dos milhares de
especialistas que espocam por aí nas redes sociais e nos canais de
entretenimento. Mas existem argumentos, amplamente divulgados, que refutam esse
tipo de confinamento tão frágil quanto o porte físico do novo Ministro da
Saúde. Os defensores incondicionais desse tipo de isolamento pela metade
acreditam que é suficiente deixar os velhinhos em casa, fazendo tricô,
conversando com seus gatinhos e jogando bingo on-line com seus amigos, enquanto
os fortões e destemidos possam sair às ruas, enfrentar o caos e abrir suas
portas do comércio para salvar a Economia. Pois bem. Em primeiro lugar, é bem
provável mesmo que esses heróis da sociedade, desbravadores do perigo iminente,
não peguem o COVID-19. Ou, se pegarem, o máximo que vai acontecer é uma tosse
ou um espirro. Uma gripezinha, conforme creem eles. O problema é que existem os
tais transmissores assintomáticos, que contraem a doença, não manifestam suas
características e são o carro-forte do vírus para que se propague pelo resto do
ambiente. Esses hercúleos salvadores da pátria podem até não morrer. Mas
certamente carregam consigo a bomba-relógio capaz de matar.
Outra questão é que, analisadas minuciosamente as
estatísticas, já não dá mais pra se falar em grupo de risco. No Brasil, 25% dos
óbitos foram de pessoas abaixo de 60 anos, sem doenças pré-existentes ou sem
apresentar um quadro de comorbidades. Ou seja, de cada quatro indivíduos que
bateram as botas, um deles é tão jovem, saudável e resistente quanto eu. Ou
quanto você.
O isolamento total e irrestrito não serve apenas para acabar
com essa discriminação de quem deve ou não deve ficar em casa. Ele é a maneira
mais eficiente, até agora conhecida, de contribuir com o tão falado achatamento
da curva. Pelo conceito de “curva” entende-se que, mais cedo ou mais tarde,
todos nós seremos contaminados pelo vírus. O que ele promove é fazer com que o
sistema de saúde não fique sobrecarregado no momento de pico. Situação em toda
a sociedade precise ser atendida ao mesmo tempo. E você já está careca de
saber: não há leitos, não há médicos, não há medicamentos, muito menos
equipamentos para fazer tudo ao mesmo tempo agora. Afastar você do ambiente
social não significa, em última instância e numa perspectiva mais pessimista,
te proteger do vírus. Significa que as autoridades médicas estão te dando o
recado de que vão te atender sim, só que mais tarde. Portanto, falar em
isolamento vertical, horizontal ou diagonal é uma discussão inócua. Não se
trata de “quem”. Trata-se de “quando”.
Por isso, meu caro, antes de sair por aí pra fazer aquela
caminhada gostosa na Praça Pôr do Sol, participar de carreatas na Av. Paulista,
chamar os amigos para um churras, dar aquele abraço apertado no dono do Bar do
Seu Zé, ir até a feira e apertar a mão da tia do tomate (junto com o tomate),
ou simplesmente agir como se nada estivesse acontecendo, pense duas vezes.
Controle sua ansiedade causada pelo ócio e pelas milhares de informações falsas
das redes sociais. Talvez você saia mesmo incólume dessa pandemia. Torço muito.
Talvez a cloroquina ou o vermífugo resolvam seu eventual problema. Talvez não.
Existe uma probabilidade, mesmo que ínfima, de você ficar agonizando em sua
casa porque não há mais leitos nem respiradores disponíveis para te salvar. E
você pode, Deus me livre e me guarde, ficar com a sensação de se afogar a seco.
Por mais de uma semana. Quem fala isso não sou eu, são as pessoas que se
curaram da doença. E existe uma probabilidade, mais ínfima ainda, de você não
estar vivo para ler meu próximo texto. Não há grupo de risco. Há situação de
risco.
sexta-feira, 17 de abril de 2020
Não é metáfora
Falar que demitir o Mandetta agora é como sair de um carro
em movimento é fazer o mau uso da metáfora. Pois não se trata de uma metáfora.
Trata-se de um eufemismo. A coisa é muito pior.
Nelson Teich assume o Ministério da Saúde no momento em que
o Brasil ainda nem atingiu o pico do contágio do coronavírus. E já encontra
pela frente todo tipo possível de problemas. O fundo emergencial foi zerado.
Não há mais de onde tirar dinheiro. Todos os recursos se esgotaram. As reservas
cambiais já estão comprometidas. Não há qualquer possibilidade de se recorrer
ao FMI para pedir empréstimos, pois a fonte secou no mundo inteiro. Não há
qualquer chance de se pensar em uma nova carga tributária; a população está
desempregada e as empresas estão renegociando suas dívidas. Ou estão falindo. A
única saída imaginável para sanar os gastos que vêm pela frente seria, como o
Gabinete do Ódio mencionou, fabricar dinheiro. O que, dependendo da quantidade
de papel-moeda fictícia a ser impresso, seria o pontapé inicial de uma
hiperinflação. Isso num momento em não só a futura recessão global é dada como
certa, mas alguns já até falam em depressão. As conseqüências econômicas da
pandemia farão o crack de 1929 parecer um jogo de pôquer. Quanto mais se estica
o período de quarentena, maior será a destruição da Economia. Isso é fato. Mas
não há outra coisa a ser feita. Como se não bastasse, a construção de hospitais
de campanha, o aumento do número de leitos, a importação de equipamentos
atingiram seu nível máximo. Os profissionais de saúde estão trabalhando no seu
limite. Todos os esforços para reduzir os efeitos do COVID-19 estão caminhando
em velocidade máxima. Apenas para ficarmos no mesmo campo semântico da metáfora
supracitada. Só que o máximo é pouco. Toda essa corrente em torno de um único
objetivo mostra-se insuficiente para diminuir as estatísticas. O que vem por aí
é ainda mais grave. Por enquanto, estamos ainda assistindo a um trailer. O
filme de terror propriamente dito vai começar a ser exibido daqui a mais ou
menos duas semanas.
Essa conta não bate. Nem em reais, nem em dólares. Os
investimentos mundiais, realizados em escalas estratosféricas, já não servem
mais para salvar vidas, apenas para diminuir o número de mortes. Para que os
médicos, lá na frente, não tenham que escolher quem será desintubado na base do
par ou ímpar. Como nenhum profeta poderia imaginar, estamos enfrentando um novo
tipo de malthusianismo: enquanto a quantidade de remédios cresce em progressão
aritmética, a quantidade de doentes cresce em progressão geométrica.
Esse é o quadro otimista que Nelson Teich tem pela frente. Ainda
dá pra piorar. O novo ministro precisa equacionar a distribuição desses parcos
recursos para todos os Estados afetados pela doença. Precisa acompanhar,
segundo a segundo, as orientações da OMS, anunciadas na velocidade galopante de
um locutor de jóquei. Precisa de resultados imediatos para poder dimensionar o
tamanho do isolamento, tanto na questão do tempo quanto do espaço.
Como se não bastasse, o recém-contratado tem como chefe um
lunático. Um líder de Estado que faz questão de contrariar e desobedecer a
todas as recomendações da qualquer entidade idônea de saúde. Um ignóbil motivo
de chacota na imprensa internacional. Considerado o pior presidente do mundo
inteiro no combate ao novo coronavírus. O energúmeno está andando na contramão
(apenas para manter a metáfora automobilística). Sai às ruas, cumprimentando
populares depois de esfregar o nariz com as mãos, levando e trazendo o vírus
como se estivesse brincando de passa-ou-repassa. Bolsonaro não está em campanha,
mas age como se estivesse. Visita farmácias e padarias, sem ter uma palavra
sequer pra dizer. Faz isso de pirraça. Apenas para provar para si mesmo a
onipotência de seu físico de atleta. O Messias acha que é Deus.
Resta saber se, daqui pra frente, esse alinhamento,
balanceamento e recauchutagem entre ministro e presidente é algo
matematicamente possível. Porque o discurso do primeiro e a atitude do segundo
são diametralmente contraditórios. Não, o Brasil não é um carro em movimento. É
um carro desgovernado. Tentando subir a escalada do pico e ao mesmo tempo
descendo a ladeira da Economia. Um veículo de segunda mão, sem freios e com a
marcha à ré engatada.
quinta-feira, 9 de abril de 2020
A novela continua
- Alô, Flávia? É o Leandro, da Futuro Brasil Marketing de
Conteúdo. Pode falar?
- Sim, sou eu. Pois não?
- Então, quem me indicou foi o Braz, grande brother meu.
Parece que vocês trabalharam juntos na A2 Work. Seguinte, tô precisando de
redator pra pegar um freela. Cê ta disponível?
- Sim, sim... dependendo das condições...
- A parada é bem maneira. A gente vai aproveitar esse
momento coronavírus, essa parada toda, pra fazer uns informativos, conteúdo com
dicas de prevenção, pílulas nas redes sociais. Topa?
- Então, vai depender da verba e do prazo.
- Prazo a gente negocia. É urgente, mas eu dou um jeito de
segurar as pontas. Você NÃO precisa vir pra agência. É trabalho remoto, home Office
mesmo.
- Sim, até porque, né? Quarentena. Ordem do governador.
- Beleza. Então, a gente ainda precisa ajustas uns lances,
mas daria pra você adiantar um orçamento? São mais ou menos 20 peças. Coisa
rápida, texto curtinho.
- Olha, se for coisa básica, que não precisa de muita
pesquisa, meu valor é de 2 mil reais. Menos não posso fazer.
- Sei... OK... bom, vou falar com o pessoal aqui, qualquer
coisa te retorno, OK?
(15 minutos depois...)
- Flávia? É o Leandro. Então, falei aqui com o diretor de
criação, que falou com o gestor da área, que falou com o Financeiro, e a gente ta
com um problema de verba, então teria que ser um pouco menos...
- Menos quanto?
- Me passaram 500 reais. Mas eu acho que consigo 600. É coisa
boba, o Braz me falou que você tira de letra. Gente boníssima esse Braz.
- Bom, sei lá...
- Você não vai se arrepender. E esse é o primeiro job. Tem
muita coisa pintando aqui na casa, se rolar você pega outros, aí a gente
consegue negociar um valor maior. Esquema de parceria mesmo.
- OK. Vou confiar em você.
- Ótimo! Cê vai curtir. O cliente é legal, tem um trabalho
bem maneiro na rua. É um lance meio educativo, dando um toque pras pessoas não
saírem de casa, lavarem as mãos direitinho, essa parada toda. Pode atacar pelo lado
emocional, fique à vontade. Um lance que pega na veia, sabe? Vou te passar por
e-mail o briefing com tudo direitoinho. Se você puder me mandar amanhã, pelo
menos a primeira parte pra gente começar a dar uma olhada antes de ir pra
layout...
(No dia seguinte...)
- Alô, Flávia? Graaande Flávia. É o Leandro. Então recebemos
seu e-mail. Show! Sensacional! O pessoal aqui AMOU seu texto. Única coisa: esse
lance aqui. A palavra coronavírus. Eles querem que tira. Essa coisa de falar de
doença, pode ficar meio triste, meio pesado, pra baixo...
- Ué, mas o job NÃO É sobre coronavírus?
- Sim, mas eles preferem ir prum caminho mais sutil. Teria
como você tentar uma segunda opção?
(2 horas depois...)
- Flávia? Leandro. Então, o pessoal curtiu essa nova
proposta. Só tem uma coisa: quando você fala “fica em casa”. Acharam meio
impositivo, autoritário.
- Cara... é o que você falou ONTEM por telefone. É o que tá no
briefing!
- Esquece ontem, esquece briefing. A diretoria entrou na
parada desse job e eles estão fazendo um novo direcionamento. Imagina só o cara
lendo isso e alguém mandando ele ficar em casa. Fere com a liberdade de
escolha. Com o direito de ir e vir. E não é toda cidade que vai ficar em
quarentena. Essa campanha é nível nacional. Quebra essa, vai...
(1 hora depois...)
- Flávia? Leandro de novo kkkk. Então, acho que estamos no
caminho. Mais uma coisa: quando você fala em álcool gel. A agência aqui não
pega conta de bebidas alcoólicas. Um dos sócios é evangélico, o outro é
muçulmano, então já viu... a gente não pode EM HIPÓTESE ALGUMA mencionar
álcool, cerveja ou qualquer outra bebida no nosso material de comunicação. Tenta
achar um sinônimo.
- Difícil, viu...
- É, eu sei que é difícil. Essa época de isolamento não ta fácil
pra ninguém. Mas vai passar. E depois que passar esse corre a gente quem sabe
podia marcar de bater um papo, ir prum barzinho, trocar uma idéia...
- Isso é uma cantada?
- Não, de jeito nenhum. Para com isso! Mais pra gente se
conhecer, pra eu ver um pouco do seu material, seu portifa, por onde você já
trabalhou, se manja de redes sociais... puro networking, nada mais!
(15 dias depois...)
- Alô, Leandro? É a Flávia redatora. Então, queria saber
sobre o pagamento daquele freela.
- Graaande Flávia! Não morre mais, ia te ligar AGORA! Então,
passei sua nota pro Financeiro, mas eles falaram que não podem aceitar do jeito
que tá. Eles são meio chatinhos mesmo. Quando você fala “serviços prestados”,
precisa especificar o tipo de trabalho, a quantidade de peças criadas, a
quantidade de laudas, o nome do cliente e o nome do projeto. Senão eles não
aceitam. Teria como fazer uma carta de correção e me mandar? Aí eu encaminho
IMEDIATAMENTE pra eles.
(1 mês depois...)
- Alô, Leandro? Flávia. E aí?
- Flavinha, Flavinha... tudo bem contigo? Comigo,
maravilhosamente bem. Melhor agora. Mas me diga: e aí o quê?
- O PAGAMENTO!
- Ah, sim... veja bem... encaminhei sua nota pro Vinícius...
grande Vinicão... que deu uma olhada, aprovou e pá... aí ele enviou pro chefe
dele, o Robson, que é o pica do Financeiro... agora tá na mão dele...
(2 meses depois...)
- Leandro? Flávia...
- “No momento todos os ramais estão ocupados. Por favor,
aguarde um de nossos atendentes...” kkkk te peguei! Flavinha coração, diga
lá...
- Coração o cacete! Quero saber da minha grana.
- Cê num vai acreditar. Eles decidiram que NÃO Vão te pagar.
O job foi CANCELADO! Kkkk A gente foi mandando as versões, os caminhos
criativos, era um tal de aprova-reprova, daí a pandemia passou! E o cliente
decidiu cancelar a porra toda. Brasileiro não é sério mesmo... mas vem cá: tô
aqui com um job de influenza. Te interessa?
segunda-feira, 6 de abril de 2020
Muita teoria e pouca prática
Durante esse estranho período que mistura ócio e desespero,
alguns especialistas recomendam que a gente não pare de colocar em prática hábitos
salutares. Já que ir pra academia virou uma questão de risco, onde você pode
encontrar inimigos muito mais fortes, poderosos e resistentes do que seu
marombado instrutor, a orientação é pra usar a criatividade e fazer exercícios
físicos em casa. Afastar os móveis da sala e fazer umas flexões de braço ou
alongamento, por exemplo. OK, entendi a proposta. De boas intenções, o Inferno
ta cheio. Só que o médico de telejornais não tem noção da dificuldade que é
esse tipo de isolamento de mobílias. No caso específico, em que minha
residência seja a questão. Aqui é um acúmulo de tranqueira. A tal nível de
deixar um coreano assustado. Só o fato de eu arrastar um pouco a mesa de
centro, puxar pro lado as cadeiras e retirar o que tem em cima delas JÁ É o
exercício. Sábado passado tentei fazer uma faxina na sala. Meio que na onda do
povo que anda falando pra gente dispensar a diarista e fazermos nós mesmos a
limpeza. Aliás, quem vem dando esse tipo de dica são os mais preguiçosos, já
reparou? Mas enfim, uni o útil ao desagradável. Durante a tarefa, meu convívio
com a lordose foi tão intenso que acabei adicionando ela no meu Facebook. Primeiro
precisei pegar o aspirador de pó. Um trambolhão que estava se desmontando todo.
Parecia que foi fabricado pela Lego. Acho que minha mãe deve ter comprado numa
promoção. Da Mesbla. Ou da Arapuã, talvez. Depois de reconstituir o
Frankenstein, tirei o pó debaixo dos tapetes, dos móveis e de um pufe. Achei
debaixo dele um aparelho de telefone fixo da época do Plano Cruzado.
Outra prática que os especialistas nos recomendam é manter
uma alimentação saudável e equilibrada. Falar é fácil. Para essas
apresentadoras dos programas vespertinos de TV, casadas com donos de startup ou
com o próprio dono da TV onde ela apresenta o programa, é bem tranqüilo pedir
pro piloto do helicóptero dar um pulinho no supermercado e comprar quinoa.
Aliás, jamais poderia imaginar que um dia voltaria a assistir a programas à
tarde em TV aberta. A última vez que liguei o aparelho às 3 da tarde estava
passando Lagoa Azul. Isso depois do Miguel Falabella juntar as mãos e fazer o
sinal da oração. Aí vêm essas recauchutadas me mandando comer brócolis. Aqui é
clima de guerra, comadre. A comida mais saudável que tem na despensa é um
pacote de Ruffles. Salsicha é que nem cocô do Bolsonaro: dia sim, dia não. Tô
deixando pra comer o Miojo sabor galinha caipira na ceia de Páscoa. Se é que a
Páscoa não vai ser adiada. Que mané cenoura e beterraba, minha filha. Se eu
sair de casa, capaz de todo o bando de vírus atrás do poste perceber minha movimentação
e me atacar. Ou então, corro o risco de ser atropelado. Pelo único carro que
vai passar na rua durante o dia inteiro. Prefiro ficar recluso, eu e minha
caixa de Bis. Outro dia achei uma lata de atum. O invólucro metálico estava bem
estufado. Parecia camisa de gordo quando sai de um rodízio. Desconfio que quem estava morando na lata nem
eram mais os peixes. Acho que aquela embalagem virou um albergue de botulismo.
Sei lá. Fui procurar a data de validade. Venceu no dia do impeachment da Dilma.
Abri a lata. Até o gato da vizinha teve ânsia de vômito. Ontem fui abrir a
geladeira. Só tinha água num jarro de vidro da minha avó, copo com um fundinho
de requeijão e pilha. Quase comi a pilha.
Se a prática anda bem escassa, já não se pode dizer o mesmo
da teoria. Elas pululam nas redes sociais igual às pulgas no colchão do meu
quarto. É uma mais bizarra que a outra. Tem gente acreditando que é coisa de
alienígena, que usou os terráqueos como para pesquisas científicas. Outros
acham que é coisa do Satanás. Grande parte dessas teorias culpa os chineses por
esse pandemônio. Umas dizem que o corona é cria de laboratório, e que essa nova
espécie seria levada aos Estados Unidos pra disseminar a população inimiga.
Outras falam que é pra valorizar as ações da soja local no mercado mundial. Ou
para estimular a economia interna, como foi o caso da construção de hospitais
em tempo recorde. Uns dizem que o desmoronamento de um hotel que servia de
abrigo para os infectados foi uma ação orquestrada pelo governo. Tem muita, mas
muita gente relacionando o vírus aos hábitos alimentares do povo mandarim. Que
o fato de eles comerem animais, digamos, exóticos, fez com que a doença se
alastrasse pelo mundo. Não entendi direito a associação. Até ontem você aí
comia yakissoba feito na rua e tava tudo certo. Ou vai me dizer que foi
hipnotizado pelo cheiro de fritura do óleo de gergelim? Acho um pouco
complicado propagar hipóteses precipitadas. Já tivemos um exemplo da família
real, um dos três patetas filhos do presidente, que fez uma declaração que
deixou as relações entre os países bem estremecidas. Sem provas, fica difícil
validar esses fluxos paranóicos de pensamento. A Fox News andou divulgando
vídeos que comprovam uma relação de causa e efeito entre a doença e os
chineses. Mas também, né? Fox News. Foram eles que anunciaram o teste positivo
do Bolsonaro. Eles são a parcela da mídia mais reacionária do mundo. Pra eles,
Paulo Maluf é um bolchevique. Eu confio mais nas notícias narradas pelo Marcelo
Adnet do que qualquer noticiário dessa emissora. Vamos aguardar um pouco mais.
Em casa. Trancafiados em nossas loucuras.
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