terça-feira, 30 de junho de 2020

Farmácia


Minha mãe tem uma amiga de longa data que é dona de uma farmácia no Centro de São Paulo. Eu mal conheço essa amiga, muito menos a farmácia. Mas quero acreditar, no meu imaginário onírico, que se trata daquelas farmácias tradicionais. Com piso de mármore e prateleiras de madeira escura com portas de vidro. Daquelas em que o farmacêutico tinha que subir numa escada gigante para procurar algum medicamento mais raro. Não essas farmácias de hoje em dia, tudo Nutella. Hoje você entra numa farmácia e, se não fosse a fachada com a logomarca, você nem sabe a diferença entre uma e outra. Tudo muito igual, com a mesma cara. Muito genérico. E eu nem estou me referindo aos medicamentos de preço popular. Hoje você entra numa farmácia, se espreme nos corredores minúsculos pra não esbarrar em nada, e é atendido por uma moça que parece caixa de loja de departamentos. Não importa se você vai pedir um paracetamol ou o quebra-cabeça do Hulk. Se bobear, é até capaz de a farmácia vender esse quebra-cabeça. Ela vai te olhar com uma mecânica frieza e indiferença, vai abrir uma tela de computador, procurar no sistema se o produto encontra-se disponível em estoque e perguntar se você tem algum plano de saúde. Eu tô falando daquelas farmácias legítimas. Farmácia-raiz. Farmácia com ph. Daquelas em que você sente o cheiro de álcool porque atrás do balcão tem os biombos onde clientes tomam injeção. Daquelas em que não existia sistema. O próprio farmacêutico conhecia todos os medicamentos de cor e salteado. O sistema era sua memória. A planilha Excel era uma caneta-tinteiro que ele guardava no bolso de seu avental branco. É esse tipo de botica que reina meu inconsciente imaginário. Onde o dono foi colega de classe do Oswaldo Cruz. Onde tinha um cartaz amarelado do Biotônico Fontoura ao lado de uma balança mecânica com uma espátula vertical metálica embutida para medir sua altura. Numa época em que era impossível pagar suas compras pelo aplicativo ou com cartão de crédito. Era tudo no dinheiro vivo, guardado na gaveta de uma gigantesca caixa registradora que abria e fechava por meio de uma manivela.

Pois bem. Me parece que a amiga da minha mãe tem essa farmácia há muitas décadas. Acho que desde o suicídio do Getúlio Vargas. Provavelmente deve ter tido seu momento de apogeu. Sua glória mercantilista. Mas, com o tempo, acredito que acabou sofrendo o desgaste natural de um comércio bairrista. Por causa da concorrência. Da modernidade invasiva e avassaladora das grandes redes. Anos atrás, minha mãe conversou com essa amiga e soube que ela pretendia passar o ponto pra frente. Creio que o negócio ficou insustentável. A crise do país, o valor do aluguel, a folha de pagamento dos funcionários e suponho o que seja ainda pior: a falta de clientes. Disse minha mãe que ela tentou vender o estabelecimento para alguns grandes conglomerados de drogarias, mas não recebeu nenhuma proposta satisfatória. Eis que, recentemente, minha mãe me conta que soube por terceiros que essa amiga foi obrigada a fechar as portas. Encerrou as atividades de um projeto no qual se dedicou quase sua vida inteira. Entrou em bancarrota porque a conta não fechava. Isso, pelo que se soube, pouquíssimo tempo antes do início da pandemia.

O novo coronavírus é o principal responsável pela recessão mundial. Colocou milhões de trabalhadores nas ruas. Quebrou o pequeno e microempresário. Fez o número de desempregados dobrar aqui no país. Afundou as contas públicas. Botou os fundos emergenciais no negativo. Colocou em colapso vários setores da Economia, exceto um: medicamentos e derivados. Nos últimos meses, nunca houve uma procura tão grande por remédios. Logo nos primeiros dias de quarentena, faltava máscara e álcool gel nas farmácias. A cloroquina, até então vendida sem prescrição médica, sumiu das prateleiras. Sabonete passou a vender que nem água. Qualquer produto com promessas próximas do combate ao novo vírus, como bactericidas em geral, tiveram seus estoques zerados. Vermífugos então, nem se fala. As pessoas entram na loja pra fazer a compra do mês. A farmácia passou a ser o porto seguro da sociedade. O verdadeiro shopping center da cidade, que não precisou passar por um processo rigoroso de reabertura restritiva. Empresários do ramo que dobraram seu faturamento mostraram ser maus empreendedores. Na média, a maioria deles viu seu lucro quintuplicar. É o único segmento de mercado em que os donos estão rindo à toa. Os planos de expansão de seus negócios não param de ser noticiados. Eu vejo na TV o rosto do Sidney Oliveira, proprietário da Ultrafarma, mais do que do Jair Bolsonaro.

Nesse período de isolamento, pude observar e aprender muita coisa, em especial uma: tem gente que é azarada pra caralho.


domingo, 14 de junho de 2020

Trocando a lâmpada


Tem aquela piada que diz o seguinte: “sabe de quantos portugueses precisamos pra trocar uma lâmpada? Cinco. Um para segurar a lâmpada e quatro pra girar a escada”. É uma anedota velha. Talvez nas embarcações de Cabral alguém deve ter achado graça. De tão gasta que ficou, a piada passou por uma série de adaptações e reinvenções. E, só pra contextualizar, já vou avisando: eu sou um desses portugueses.

Minhas habilidades com serviços manuais, pequenos reparos da casa, beiram a zero. Se por acaso queimar a resistência do chuveiro, é capaz de eu tomar banho frio no inverno. Tenho medo de errar, de quebrar, de causar um acidente. Fico com a sensação de que sou um Rei Midas eletrostático: em tudo o que eu encostar vai dar choque. Na teoria eu sou brilhante. Modéstia inclusa, meu acervo de conhecimentos adquiridos nesse mais de meio século é invejável. Em compensação, na prática eu sou uma negação. Pra mim, é difícil até pedir uma pizza. Fico horas tentando fazer a melhor combinação entre sabores. Leio o cardápio de delivery como se estivesse devorando um livro. Quando minha mãe pergunta “e aí, já escolheu?” eu respondo: “calma, tô aqui na pepperone e não dá pra parar de ler. Acho que o gorgonzola da quatro queijos vai matar o gosto do catupiry com requintes de crueldade”. Tem também a questão das minhas ascendências judaicas. Todos sabem que quando você divide os sabores o valor cobrado é pelo mais caro. Se você pedir meia mussarela, meia camarão, vai ser o queijo mais caro da sua vida. Tem que usar um pouco a Matemática Financeira para equilibrar os custos e pedir uma combinação mais ou menos condizente nesse sentido.

Mas eu não vim aqui falar de pizza. Vim falar de lâmpada. Você já deve ter imaginado minha dificuldade em resolver essas coisas. Agora imagina isso numa pandemia. Comércio funcionando de modo restrito. Profissionais técnicos em recesso. E, mesmo os que estão trabalhando, não vou permitir que um terceiro entre na minha casa devido ao fato de eu morar com uma pessoa total grupo de risco. Minha mãe tem 75 anos, pré-diabética e toma remédio pra controlar a pressão. Mais grupo de risco do que isso, só se fosse da MPB. E se Deus me livre eu cair da escada ao tentar fazer as coisas sozinho, não vou poder ir ao hospital. Lá é o foco da Covid. Todas as áreas estão reservadas a pacientes com essa doença. Nenhum médico vai querer sair de sua ensandecida rotina de UTI pra examinar apenas uma costelinha quebrada. Caso isso acontecesse comigo, teria que me tratar com caixas e caixas de Dorflex até que a situação se normalize. Ou seja, no Natal.

Pois bem. Vamos aos fatos. Mais ou menos no começo da pandemia, queimou uma lâmpada do meu quarto de trabalho. Fui deixando porque, assim como você, acreditei que essa quarentena duraria 20 dias e em seguida poderíamos tocar o barco. Os dias passam, a gente tá numa noventena, perto da centena. A coisa foi ficando insustentável. Claro que durante o dia dá pra usar métodos homeopáticos, como por exemplo abrir a janela pra deixar o sol iluminar o ambiente. Deixar a luz acesa do outro quarto mais próximo. Tudo isso. Mas o problema foi se agravando. E minha vista também. Durante a quarentena, creio que ganhei em graus de miopia a mesma coisa que ganhei em quilos. Quem voltar a me ver daqui a algum tempo vai encontrar uma mistura do cantor Péricles com o Mr. Magoo.

Não pense você que é uma troca fácil de lâmpada. Eu não sou tããão desajeitado assim. Se fosse uma estrutura simples, bastava desatarraxar a lâmpada queimada do soquete e substituir por uma nova, fazendo o mesmo procedimento. A lâmpada que estragou estava acoplada a um lustre, que faz parte de um conjunto composto por um ventilador de teto. Olhei, examinei minuciosamente o aparelho, e não encontrei nenhuma abertura aparente no globo (aquela parte de vidro que encobre a lâmpada propriamente dita. Não sei qual é o nome técnico dessa geringonça, mas vou passar a chamar assim). Não restando outra alternativa, fui obrigado a entrar no Google pra consultar algum vídeo tutorial explicativo sobre o tema. Isso mesmo, caro leitor. ENTREI NO GOOGLE PRA VER COMO SE TROCA UMA LÂMPADA. Enquanto você usa seu tempo para ver as lives do seu cantor preferido, ou de algum especialista na área econômica, algum epidemiologista, eu passei o feriado de Corpus Christi aprendendo com um eletricista. E não é que apareceram vários vídeos na busca? Fiquei mais aliviado ao constatar que não sou o único do planeta com essa dificuldade. Na dúvida, assisti a TRÊS VÍDEOS. Afinal, quando o assunto é complexo e envolve os pareceres de profissionais da área acadêmica, é sempre bom consultar uma segunda opinião. Nesse caso, os três foram unânimes ao mostrar travas internas e explicar que bastaria girar o globo para tirá-lo do lugar, trocar a lâmpada e fazer a mesma coisa depois, em sentido contrário.

Tentei seguir as recomendações. Obviamente, não consegui. Comecei a girar o globo do seu suporte e, sem sucesso, ele não se soltou. O conjunto do lustre girou em falso e fiquei com medo daquilo tudo se soltar do teto e cair no chão. Aliás, vou confessar uma coisa. Quando vou a algum lugar com ventilador de teto, tipo uma padaria, e fico olhando fixamente pro aparelho, me dá a impressão de que a velocidade das pás do ventilador aumenta e elas vão adquirindo uma força a tal ponto de se soltarem do teto. Sempre fico achando que aquilo algum dia vai fazer o maior estrago. Que o ventilador vai cair no chão e as pás metálicas vão cortar as cabeças dos clientes. Na dúvida, sempre evito ficar embaixo de um. Na minha casa, eu não quis contar muito com a sorte. Desisti. Putaço. Liguei pro meu irmão pra resolver outros assuntos e, no contexto, comentei sobre meu ensaio sobre a cegueira. Ao contrário de mim, meu irmão tem mais prática com essas coisas. Ele pesquisa. Se não descobre, fuça. Se der errado, tenta de novo de outro jeito. Pesquisa de novo. Tenta de novo, até acertar. Eu não. Tento uma vez. Não consegui, fico uma pistola e vou descarregar minha raiva no Facebook. Entre uma pesquisa e outra, descobrimos que o modelo do meu conjunto lustre+ventilador não tinha nada a ver com os dos três vídeos. Fui abençoado de ter em mãos um modelo único de uma série limitada, cujo encaixe e desencaixe se dá de forma diferente e exclusiva. Em vez de girar pro lado, tem que puxar o globo pra baixo. Claro que meu cagaço aumentou na velocidade das pás. Já imaginei o centro gravitacional da Terra chamando eu, minha escada, os estilhaços do globo, os estilhaços finíssimos da lâmpada queimada e as pás assassinas. Fiquei até imaginando como começaria minha carta de despedida à minha família, a você e a todos os que me acompanham nas redes sociais. Preferi deixar quieto e voltar a ser cego até o ano que vem.

Só que minha teimosia falou mais alto. Eu não podia desistir assim fácil. Fui lá novamente subir a escada e, com a precisão cirúrgica das mãos e dos dedos, pressionei cuidadosamente o globo pra baixo. Consegui! Aquilo pra mim foi a glória. Sensação de policial que desmonta cativeiro de sequestrador e consegue resgatar a vítima das travas e entranhas do lustre. Saí carregando a peça de vidro com a mesma alegria de quem acaba de ter um filho. Até pensei em dar um nome àquele ornamento com cara de joelho: “vai se chamar Gabriel”. Conduzi o rebento até a sala como se fosse meu troféu. Minha emoção pelo feito, sem a ajuda de nenhum parente, vizinho ou técnico em Eletricidade, foi igual ao Romário quando marcou seu milésimo gol. Pra falar a verdade, nem sei se o Romário fez mil gols em sua carreira. Não entendo nada de futebol. Odeio esse ludopédio, acho muito chato. Quem fica correndo na grama atrás de uma bola não é craque, é labrador.

E assim termino essa aventura de isolamento social. Meu quarto tá com lâmpadas novíssimas, iluminadíssimas. Aqui de noite é tão claro como o dia que parece que eu tô na Austrália. Agora as paredes reluzem mais do que as areias de Fernando de Noronha. Em meio a tantas notícias tristes, finalmente um final feliz. E sem o globo pra me atrapalhar.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

Muito o que aprender


Poderia ter sido um grande exercício de aprendizado para a democracia. Poderia ter sido o primeiro passo para a confraternização em tempos tão odiosos. Poderia ter sido, simbolicamente, a representação real da mobilização virtual “somos 70 por cento”. Poderia ter sido o xeque-mate para o pedido de impeachment do nosso presidente. Infelizmente, não foi nada disso.

Existe um conceito aplicado ao comportamento humano, que inclusive foi o mote de uma longeva campanha publicitária da revista Rolling Stone internacional, que disserta sobre a diferença entre “percepção” e “realidade”. Percepção foram os primeiros 15 minutos da manifestação em prol da democracia. Tudo aquilo que queríamos ver e acreditar. Uma caminhada pacífica, contra os abusos de poder e de autoridade de um governo federal nada pacífico. Muito embora os protagonistas deste ato estivessem cagando pra pandemia. Não seguiram protocolo nenhum de distanciamento social. Afinal, o que são 30 mil mortos e meio milhão de infectados? E realidade foi todo o resto. Igual a uma festa. Percepção são as pessoas produzidas, maquiadas, a sensação de que vai ser uma noite inesquecível. Já a realidade compreende a bebedeira, a maquiagem borrada, a música brega, o vômito no chão. E até uma possível briga. Com torcidas organizadas, não dá pra se esperar algo muito diferente. Trajadas de paz e amor, elas cumpriram o papel que sempre desempenharam: torcidas organizadas.

Tenho a impressão de que os movimentos que buscam essa harmonia social, com base no diálogo e não no confronto, jogam esses dizeres da boca pra fora. No fundo, cada um quer alimentar seu próprio dogma. Em tempos tão difíceis, com crises que se acumulam sobre crises, com a necessidade da aceitação do contraditório como forma de compreender melhor essa paranóia toda, o que menos sobra é espaço para a tolerância. Estamos, nas redes sociais, tão divididos quanto os grupos que ocuparam as vias da Av. Paulista. Do lado do MASP, os xiitas do bem. Do lado da FIESP, os xiitas do mal. Há quem ache que as manifestações foram apenas os primeiros vídeos, com gente alegre cantando. E há quem afirme que esses protestos foram apenas os minutos finais, com quebra-quebra e a polícia bombardeando os manifestantes. Ambos estão cegos. Ambos estão errados.

O governo do Estado de São Paulo já determinou que as próximas manifestações ocorrerão em dias diferentes, para evitar o confronto. As pessoas serão revistadas com mais rigor. São algumas medidas paliativas, que podem – ou não – surtir algum efeito. Torço para que funcionem. Apesar de que, me parece, ligaram o foda-se para o coronavírus.

Achar que a polícia, de um lado, andou de mãos dadas e acobertou os bolsonaristas e, de outro lado, atacou desmedidamente os “democratas” é tomar partido. Bobagem pura. Quem acompanhou os vídeos de forma mais completa pôde perceber que a PM ficou na retranca e só avançou à medida que os black blocks de plantão também avançavam. Houve ataques e contra-ataques de parte a parte. Igual a um jogo de futebol. Houve impedimentos, expulsões, penalidades máximas e muita violência. Igual a um jogo de futebol.

Talvez o taco de beisebol tenha sido o estopim dessa barbárie. O comandante da PM, em coletiva de imprensa, admitiu que esse material deveria ter sido apreendido. Mas não dá pra saber. Tá todo mundo com muita raiva. De tudo. De todos. De nós mesmos. Não seja ingênuo a tal ponto de acreditar que aquilo foi um remake do movimento pelas Diretas Já. Não foi. Aquela mixórdia foi nada mais do que um Fla X Flu na capital paulista. Apenas o repeteco da polarização que acompanhamos nas redes sociais. “Com muito orgulho e com muito amor” é só mais uma frase de hino ufanista. Não reflete o verdadeiro sentimento dos hooligans que ali estavam destruindo minha cidade. É só a percepção, e não a realidade.

Pra finalizar: odeio futebol. Não me identifico com torcida alguma. Ainda que estivéssemos livres da pandemia, essa pândega não é pra mim. E deixar de ir às ruas não é covardia. Ou comodismo. Ou abulia de fazer parte da história do nosso país. Não, não é. O que eu sei fazer é escrever. Meu campo de batalha é o papel. Da mesma forma que o ator faz seu protesto num palco. E rezo pra que isso volte a acontecer muito rapidamente. Ou que o pintor manifesta suas angústias numa tela em branco. Isso não me torna pequeno, incapaz. O Word pode até parecer insípido e irrelevante diante de tantas inovações tecnológicas. Mas é nele que, todo dia, eu lapido cada letra, cada palavra. Até que elas tenham a força e a contundência suficientes para provocar, ferir. Eu afio as frases e amolo as pessoas. Por favor, não me chame de ignavo. Estou aqui por recomendações da Organização Mundial de Saúde. Recluso, ermitão, antissocial. A luta vem daqui e é daqui mesmo que deve vir. Não era você que, até ontem, excluía todos os seus amiguinhos do Facebook contrários ao isolamento?



domingo, 31 de maio de 2020

Na dúvida, foda-se

É sabido que as ordens e as atitudes que vêm de quem está no topo são automaticamente replicadas por quem está na base. O famoso "o exemplo vem de cima". Se as autoridades recomendam que se fique em casa, é porque existe um motivo para a reclusão. O problema é, como todos já perceberam faz tempo, que cada um fala e faz uma coisa diferente. Prefeitos e governadores falam em isolamento social, enquanto o presidente vai pra padaria e pro seu cercadinho cumprimentar apoiadores e tirar selfies com populares. Imediatamente após cada aparição pública do nosso representante maior, os índices do fique em casa caem.

Embora estejamos no meio de uma polarização política sem precedentes, é comum se observar que, em todos os campos da humanidade, existem alguns níveis de apoio a uma determinada ideia. Do moderado ao radical. Em relação ao isolamento, há uma pequena parcela bem xiita. Não colocou a cara pra fora de casa durante esse quase-trimestre. Não pega elevador. Só faz compras por delivery e, mesmo assim, evita ao máximo qualquer tipo de contato com o entregador. Lava minuciosamente todo e qualquer item comprado. Do bombom à caixa de sabão em pó. Não recebe nem a família, que dirá amigos e vizinhos. Até o começo do ano, poderíamos supor que se trata de um caso patológico de paranoia antissocial. Hoje, é um comportamento relativamente aceito, ou pelo menos compreensível. É uma minoria, com muito medo de tudo o que está acontecendo. Existe um grupo mais moderado, que estabelece critérios com mais parcimônia e sai somente se for necessário. Ir a um supermercado, a uma farmácia, fazer uma rápida caminhada, tomar todos os cuidados e evitar aglomerações. Não dá pra saber se é um grupo 100% seguro, pois a doença é nova e a cada dia surgem novidades na mídia. E essa segurança deve-se, em parte, à dosagem de cuidados que a pessoa vem tomando. Poderiam restringir suas vidas às lives e aos aplicativos? Poderiam. Afinal, estamos num momento de guerra. Mas eu já ouvi diversos relatos, por exemplo, dos serviços de delivery criados, aperfeiçoados e improvisados na base do fast track. As taxas de entrega são absurdas, o prazo é extremamente longo e muitas mercadorias vêm adulteradas, ou trocadas, ou há itens faltantes no pedido. Enfim, tomar alguma decisão nesse sentido é uma questão de bom senso. E existe, também, o outro extremo radical: a pessoa que não está nem aí pra nada. Vai às ruas sem máscara, aglomera-se com a galera, tira a camiseta em dias de sol. Para eles, a pandemia não existe.

Não vou entrar no mérito sobre as pessoas que saem de casa por uma questão de necessidade. Trabalham na linha de frente da área de saúde. Prestam serviços considerados essenciais. Abrem seu comércio, de modo restrito, para não ir à falência. Vão aos seus empregos porque assim o chefe determinou. Para os demais, ficar ou sair é uma decisão em que pese a consciência. O radical misantropo sente-se injustiçado por estar fazendo não só a parte dele, mas também cobrindo a falta de noção do radical alienado.

Resta saber, principalmente aos dois primeiros grupos: mas e a volta? Está claro que eles estão seguindo as orientações do prefeito e governador, e não do presidente. Chegamos a um impasse. Em São Paulo, até poucos dias atrás falava-se na possibilidade de um lockdown. Uma medida mais drástica para tentar melhorar os índices de isolamento após algumas iniciativas mal-sucedidas. Agora, pouco tempo depois, fala-se na reabertura. Não quero desmerecer as conclusões tiradas por um comitê de contingência, formado por técnicos de diversas áreas. Mas a coisa ficou bem confusa para quem se abastece somente de informações rápidas. Entende-se que esse processo será lento, gradual e cuidadoso. Mas o Estado foi dividido em cinco regiões. O processo de afrouxamento foi dividido em cinco fases, representadas por cores. Quem está, por exemplo na divisa entre a capital e Osasco, ou Diadema, e se essas regiões apresentarem cores diferentes, não sabe o que fazer. A imprensa divulgou, de modo apressado, a abertura dos shoppings. Isso não vai acontecer agora. Estamos na fase embrionária. Mas a sensação de que o comércio está voltando a funcionar já contaminou parte da população. Principalmente os moderados.

E, já que estados e municípios sinalizam recomendações mais permissivas, essa demonstração cai como uma bomba para quem procura se resguardar. Por outro lado, é o cheque em branco para quem não está nem aí. Ontem mesmo eu ouvi, aqui de casa, um vizinho voltando a fazer o que sempre fazia: pancadão. Pagode e música ruim no volume máximo, churrasco e cervejada para os amigos. Um monte de amigos, pelo som da conversa. A gritaria toda até de madrugada foi um bônus. Um sinal de ostentação, não só para minar tudo de solidário que se construiu durante a pandemia, mas para provar para as autoridades que, naquela casa, quem manda é ele. Aquela gritaria não foi só um sinal de desrespeito ao próximo, como também serviu de provocação. O fulano quis mostrar pra todo mundo que está sim descumprindo a quarentena. Já que estamos vivendo num calabouço político e os poderes estão brigando entre si, resta o discurso do ódio e o egoísmo pra se colocar em prática. E daí?

domingo, 24 de maio de 2020

É de chorar


Quando os profissionais de marketing do banco Bradesco solicitaram à sua agência de propaganda um comercial para TV, muito provavelmente o briefing deve ter sido: “quero um filme que faça as pessoas chorarem”. Conseguiram. No momento mais crítico da saúde pública em nosso planeta, não dá pra ficar insensível àquela sequência de imagens de crianças brincando de médico, ao som da música Fascinação, traduzida pelo compositor Armando Louzada e interpretada pela inconfundível voz de Elis Regina.

Claro. Esse comercial é uma obra de ficção. A realidade é um pouquinho diferente. E mais dura. E mais perversa. Nos noticiários que intercalam os 30 segundos de comovente ternura, percebemos a sina diária e suas consequentes dificuldades dos microempreendedores para se conseguir crédito facilitado com as instituições bancárias. Ao contrário do que o Governo Federal prometeu. Não se trata de acusar aqui especificamente o Bradesco, o Itaú, o Santander. Os bancos, como um todo, estão impondo uma série de barreiras e restrições ao crédito a tal ponto de tornar essa tarefa inviável. Não há liquidez no mercado. O dinheiro, portanto, ficou muito mais caro. E, pela lei da oferta e da procura, ganha o privilégio quem puder pagar melhor. Ou, pelo menos, oferecer garantias mais consistentes de zerar suas dívidas e honrar esse triste compromisso. Essa situação surreal não só fere a lógica do sistema como também coloca em xeque o próprio capitalismo. O pequeno empresário solicita um empréstimo mas, para isso, precisa demonstrar que tem caixa para pagar esse empréstimo. Meus senhores, estamos vivendo numa pandemia. Situação de calamidade pública. Não é pedir demais algum tipo de flexibilização, de todas as partes, em todas as esferas da roda econômica. Como é que a manicure, o dono de academia, o dono de um bar, o professor de Inglês conseguem comprovar sua fonte de rendimentos dos últimos dois meses, sendo que esse é justamente o período do início da quarentena e eles foram obrigados a fechar seus estabelecimentos? Que tipo de sentimento verdadeiro os bancos procuram causar quando recusam distribuir esse montante de dinheiro no sentido de não corroborar com uma sociedade ainda mais injusta? Ou o comercial não passa de uma mentirinha, uma brincadeirinha de ninar ao embalo da maior cantora do Brasil?

Senhores profissionais de marketing do Bradesco e de todas as instituições bancárias privadas e públicas desta nação sem noção: vocês conseguiram. Todo esse baixo clero da Economia, que emprega a maior parte dos assalariados, que de fato movimenta a ciranda financeira do nosso arrasado país, está chorando. De tristeza. De desespero. De angústia. De desesperança. Não é nada fácil abrir um sorriso quando não há o que se colocar na mesa pra comer. Aqui ficam meus parabéns. Vocês causaram uma comoção social muito maior do que imaginavam.


sexta-feira, 15 de maio de 2020

Autor brasileiro ganha prêmio de literatura de fantasia

Comemorando um ano do lançamento do primeiro livro de fantasia do escritor brasileiro P.J. Maia, ESPÍRITO PERDIDO (The Missing Spirit), a obra acaba de conquistar o prêmio de “Melhor Livro de Fantasia” no Independent Press Award, em Nova York, uma competição julgada por experts de diversas áreas da indústria literária, incluindo editoras, autores, revisores, diretores de arte e redatores profissionais. Os vencedores de cada categoria são escolhidos a partir de quesitos de excelência no geral.


Este não é o primeiro prêmio conquistado pela obra. Em março deste ano, o livro ESPÍRITO PERDIDO conquistou o “Red Ribbon”, prêmio de Escolha dos Leitores no Wishing Shelf Awards, premiação sediada em Londres e voltada para o público juvenil, onde os títulos são avaliados por grupos de jovens leitores no Reino Unido e na Suécia.
 

Decidido a disputar espaço no mercado global de literatura fantástica de forma independente, o jovem autor brasileiro parece estar dando os primeiros passos na direção certa. O segundo livro da saga já entrou em produção, principalmente, nestes tempos de quarentena, em que todos estão confinados, o autor pretende de forma criativa dar sequencia ao seu trabalho tão bem recebido pelo público e crítica.

sábado, 9 de maio de 2020

Pode ser

Pode ser que a quarentena se prolongue até o fim de junho. Enquanto os índices de isolamento caírem, não há outra alternativa viável.
Pode ser que os Estados e municípios decretem lockdown. A capacidade de atendimento dos hospitais da rede pública e da rede privada está chegando ao limite. E a inauguração de novos leitos, com todos os equipamentos e profissionais necessários, não está acompanhando a velocidade da chegada de novos infectados.
Pode ser que o lockdown não seja suficiente para conter o vírus. Em Nova York, o prefeito declarou que as pessoas estão se contaminando em casa.
Pode ser que o Brasil se torne o epicentro mundial do coronavírus. Alguns especialistas já apontam essa tendência.
Pode ser que a curva epidêmica atinja picos mais altos e uma largura mais extensa do que a apresentada em gráficos. Isso depende não só das medidas preventivas adotadas no presente, como também de outros fatores, como comportamento e possível mutação do vírus, números mais precisos de subnotificações e comportamento da sociedade como um todo.
Pode ser que a Economia consiga respirar aliviada algum sinal de crescimento somente em 2022.
Pode ser que pulemos o estágio da recessão e entremos direto na depressão.
Já que estamos falando em depressão, pode ser que esse estado das coisas traga consequências psicológicas traumáticas às pessoas e que o índice de suicídios aumente vertiginosamente.
Pode ser que o covid-19 seja apenas um "ensaio geral". Um renomado pesquisador da USP alerta para o fato de que ainda está por vir um vírus ainda pior, com consequências mais trágicas e devastadoras. Diversos infectologistas não descartam a possibilidade de ficarmos suscetíveis a novas pandemias.
Pode ser que os níveis de violência aumentem numa escala insustentável. Só na capital de São Paulo, existe uma projeção (otimista) de que haverá um acréscimo de 1 milhão de desempregados. Pessoas que precisam botar comida na mesa de suas famílias.
Pode ser que o Estado, em todas as suas esferas, zere o fundo de reserva e, sem qualquer previsão de retomada, não tenha caixa algum para uma próxima e eventual situação de calamidade pública.
Pode ser que o Brasil fique ainda mais isolado do mundo. E que a sociedade fique ainda mais dividida e fragmentada.
Pode ser que todas as petições requisitando a abertura de inquéritos para o processo de impeachment sejam engavetadas.
Pode ser que o nosso presidente, percebendo suas limitações de poder dentro das instituições democráticas, resolva aplicar um golpe de estado. Seria, para alguns analistas políticos, um "golpe dentro do golpe", visto que ele já ocupa um cargo de chefe de Estado.
Pode ser que o novo normal enterre para sempre o antigo normal, e que alguns hábitos e práticas nunca mais voltem a existir.

Pode ser tudo isso. Ou muito mais. Ou não. A gente não tem certeza de nada. Seguimos convivendo com essa sensação de impotência. Mas veja só. Já se passaram quase dois meses. E estamos aqui. Eu escrevendo, você lendo, o mundo reagindo. Com razão, sem razão, mas com emoção. E no meio desse desequilíbrio do ecossistema, causado por um bichinho trilhões de vezes menor, é que vem uma impressão trilhões de vezes maior. Um insight, um feeling. Uma coceira contagiante, sem qualquer embasamento científico. Mas com toda a potência de sensação meramente intuitiva: estamos sobrevivendo. E se a gente conseguiu chegar até aqui, nada mais é capaz de nos derrubar.

Feliz Dia das Mães. E #FiqueEmCasa


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Os signos e a quarentena

ÁRIES: seu tempo é agora. Leia um livro, faça exercícios, coloque seus filmes em dia, arrume a casa, tire o pó debaixo da cama, faça uma live e organize um grupo de financiamento coletivo para ajudar quem passa por dificuldades neste momento.

TOURO: essa fase vai passar. Com certeza vai passar. Tem que passar. Ninguém pode te convencer do contrário. E, quando passar, tudo tem que voltar exatamente como era antes.

GÊMEOS: que isolamento, que nada. O importante é conectar pessoas. Estar entre amigos. Fazer novas amizades. Que seja nas áreas de circulação dos prédios, nas ruas, nos parques. Tomando todos os cuidados, é claro. Se for pra ficar em casa, nada melhor do que criar comunidades nas redes sociais, criar grupos de jogos virtuais, organizar lives coletivas.

CÂNCER: que momento maravilhoso para ficar mais perto da família. Cuidar dos entes queridos. Época de reflexão para trazer o passado de volta. Folhear o álbum de fotos da formatura. Postar #tbt nas redes sociais. O problema é conter a emoção. Mas, até aí, tudo bem. Você tem o seu travesseiro, onde pode chorar durante suas 14 horas diárias de sono.

LEÃO: bem que você falou pra todo mundo que esse momento iria ser grave. Em suas postagens escritas em caixa alta você já vinha advertindo as pessoas. Mas vamos sair dessa. Principalmente você. Porque você se cuida. Você se protege. E é você quem passa as corretas orientações a todas as pessoas ao seu redor. É graças a você que a gente vai estar imune e preparado para um mundo melhor.

VIRGEM: conviver com a quarentena é fácil. Basta acordar todos os dias às 7h da manhã, fazer sua higiene pessoal, tomar seu café e começar a colocar as coisas em ordem. Do lado esquerdo da mesa, você cria uma lista para agendar e organizar suas tarefas. Do lado direito, você deixa seu smartphone ligado para acompanhar as notícias, as mensagens e as conversas. Muito importante lavar as mãos. Use água e sabão, enxágue por 40 segundos e não se esqueça de lavar os punhos, o dorso das mãos e todas as juntas dos dedos.

LIBRA: difícil dizer se o isolamento deve ser vertical ou total. Todos têm suas razões. A gente não pode deixar as pessoas morrerem, mas também não pode se esquecer da Economia. Difícil também ter uma opinião formada sobre o uso de máscaras. Ela protege as pessoas mas, se estiver mal lavada, pode servir de foco de contágio. Ainda é cedo demais pra afirmar se o uso da cloroquina é bom ou ruim. É fato que o medicamento já salvou vidas, mas o uso indiscriminado pode trazer complicações ainda maiores.

ESCORPIÃO: bem que você falou que o mundo iria acabar bem mais cedo do que a gente imagina. Talvez a gente até sobreviva a tudo isso. Mas, se acontecer, é imperativo que você descubra quem foi o filho da puta que trouxe essa merda de doença pra cá pro Brasil, corra atrás desse pulha e rogue uma praga para que ele morra com requintes de crueldade e passe a Eternidade nos calabouços do Inferno.

SAGITÁRIO: que merda essa quarentena, né minha filha? Não poder sair de casa, ficar trancafiado, não poder circular pelas ruas, pelas avenidas, pelo mundo. Sensação de prisão domiciliar. Você não vê a hora desse pesadelo acabar para poder voltar pra academia, bater perna em shopping, ir ao cinema, frequentar a casa de todos os seus amigos. Enquanto isso, nesse seu presídio de segurança máxima, é possível anotar pensamentos, divagações, reflexões sobre a vida. Ou então, fazer um bolo para 12 pessoas.

CAPRICÓRNIO: não adianta tentar fazer o que não pode. Vamos ser práticos. Nada de sair por aí fazendo as coisas a torto e a direito. Antes de arrumar sua estante que nem um doido, é preciso perguntar para você mesmo: por que arrumar? Você algum dia vai ler de novo todos esses livros? Tudo no seu devido tempo. Se a quarentena acabar amanhã, que seja amanhã o dia de voltar à normalidade. Se acabar daqui a 1 mês, controle sua ansiedade.

AQUÁRIO: isolamento? De boa. Um dia como outro qualquer. Não dá pra entender essa obsessão toda de encontrar pessoas, abraçar pessoas. Na hora de pintar um quadro, escrever um livro, compor uma música, você não precisa de pessoas. Todo mundo tá falando como é difícil lidar com esse momento, e como será a volta. Isso pouco importa. Você tá preocupado é como vai estar o mundo em 2022.

PEIXES: já que você tá em casa sem fazer nada, é uma ótima oportunidade para se livrar de todas as suas tranqueiras. A palavra de ordem é: lixo. Jogue fora tudo aquilo que não presta, que você não usa mais ou que te faz mal. Ou então, doe. Faça uma boa ação, tem muita gente precisando. Menos é mais. Esse é o momento de você entrar em contato com o seu "eu" interior. É nesse corpo e alma que você vai encontrar toda a profundidade que merece.

terça-feira, 21 de abril de 2020

No RH


- Cassandra? Prazer, Elisabete. Sou a gestora de RH aqui da W Corp. Aceita um café, uma água?
- Oi, tudo bem? Não, obrigada.
- Então, eu tenho boas notícias. Você foi aprovada na primeira fase do processo seletivo.
- Puxa, que ótimo!
- Super, né? A gente ainda tá acertando uns detalhes, logo mais eu te envio um invite pra participar da segunda fase, que vai ser uma dinâmica de grupo. Mas antes disso, eu precisava fazer umas perguntinhas, pode ser?
- Sim, claro!
- Então, Cassandra... como você pode ver, o Brasil está passando por um novo momento. Dentro dessa nova realidade, a gente precisou adequar a estrutura aqui do departamento e acrescentamos algumas questões para verificar se o candidato se encaixa no perfil da empresa, dentro desse panorama. Lembrando que não existe resposta certa nem resposta errada. É mais pra conhecer seu perfil mesmo. Tudo bem?
- Opa, vamos lá!
- Cassandra, você já contraiu o COVID-19?
- Não!
- Tem algum parente que foi contagiado pelo novo coronavírus?
- Também não.
- Se por acaso a W Corp recebesse um lote de testes rápidos para aplicar a seus colaboradores, você se submeteria a fazer o teste?
- Perfeitamente!
- E se por ventura a W Corp precisasse ajustar seu sistema de trabalho para essa nova realidade, como medidas de adoção de férias coletivas, home office ou redução da jornada de trabalho, você aceitaria?
- Sim... fazer o que, né?
- (Anotando)... só mais um momentinho... próxima pergunta: você é a favor do AI-5?
- Oi??
- Você é contra ou a favor da volta do Ato Institucional número 5, que entre outras coisas implementa a censura e o controle dos órgãos de imprensa?
- Claro que não!
- (Balbuciando enquanto anota) postura radical... OK... próxima pergunta: você é contra ou a favor do fechamento do Congresso Nacional, mesmo não tendo votado nos candidatos que venceram as últimas eleições?
- Sério isso?
- É sim ou não. Lembrando, Cassandra... que no dia a dia aqui da empresa vão surgir situações novas a cada momento, e você vai precisar tomar decisões rápidas. Aqui o que menos tem é rotina.
- Tá... então eu sou contra!
- (Falando baixinho enquanto anota) comportamento agressivo... outra pergunta: você é contra ou a favor da intervenção militar?
- Absolutamente contra!
- (Sussurrando e anotando) OK... subversão patológica...
- Não, pera! Veja bem: eu sou contra o regime militar, mas sou a favor do Exército atuar em casos extremos.
- (Baixinho) Falta de clareza... OK... ah, aqui, outra pergunta: se o seu chefe ou superior imediato apresentasse algum sintoma do coronavírus, como tosse ou espirro, mesmo não sendo confirmada a doença, e ele viesse te cumprimentar após tossir ou esfregar o nariz esticando a mão pra você, o que você faria?
- Eu nem chegaria perto!
- (Baixinho) Insubordinação... OK...
- Não, quer dizer... errr... depende do contexto, né?
- (Baixinho) Falta de posicionamento...
- Não! O que eu quis dizer é que eu seguiria as normas... mostraria o cotovelo!
- (Falando baixinho cada sílaba que anota) In-ci-ta-ção à... vi-o-lên...
- Um momentinho, Elisabete. Isso faz parte do processo? Eu estudei, fiz o teste, passei, vou pra segunda fase... mas essas questões de cunho ideológico... meio desnecessário...
- Dona Cassandra, eu vou explicar. Nossa avaliação segue rigorosamente o protocolo e os padrões dos testes aplicados pelas maiores empresas do mundo inteiro. Google, Oracle, Unilever, General Foods... se a senhora não está contente, tudo bem. Tem mais de 400 pessoas que se candidataram a essa vaga. Inclusive gente com Doutorado em Oxford. A senhora é que sabe. Lá fora tem gente fazendo uma enorme fila pra ganhar os 600 reais do Governo. Aqui a gente testa nossos candidatos até mesmo em situações-limite. Pra extrair o melhor de cada um. Somos uma empresa séria. Ou a senhora acha que conseguiria o emprego imitando um gato?
- (Conformada) Não, tá bom... tá certo... vamos lá...
- Última pergunta: você já deu o furo?


sábado, 18 de abril de 2020

Não existe grupo de risco


Falar em isolamento vertical a essa altura do campeonato é como pedir a volta do Fusca. Talvez essa estratégia fizesse algum sentido lá no comecinho do ano, na mesma época em que o dr. Drauzio Varella postou um vídeo falando que o coronavírus é uma gripezinha. Hoje, tendo em vista as estatísticas alarmantes e a experiência da Europa, principalmente Itália e Espanha, é provado pela ciência precisa do A + B que essa medida, ultrapassada e démodé, não é eficaz na atual conjuntura catastrófica.

Longe de mim querer ser mais um dos milhares de especialistas que espocam por aí nas redes sociais e nos canais de entretenimento. Mas existem argumentos, amplamente divulgados, que refutam esse tipo de confinamento tão frágil quanto o porte físico do novo Ministro da Saúde. Os defensores incondicionais desse tipo de isolamento pela metade acreditam que é suficiente deixar os velhinhos em casa, fazendo tricô, conversando com seus gatinhos e jogando bingo on-line com seus amigos, enquanto os fortões e destemidos possam sair às ruas, enfrentar o caos e abrir suas portas do comércio para salvar a Economia. Pois bem. Em primeiro lugar, é bem provável mesmo que esses heróis da sociedade, desbravadores do perigo iminente, não peguem o COVID-19. Ou, se pegarem, o máximo que vai acontecer é uma tosse ou um espirro. Uma gripezinha, conforme creem eles. O problema é que existem os tais transmissores assintomáticos, que contraem a doença, não manifestam suas características e são o carro-forte do vírus para que se propague pelo resto do ambiente. Esses hercúleos salvadores da pátria podem até não morrer. Mas certamente carregam consigo a bomba-relógio capaz de matar.

Outra questão é que, analisadas minuciosamente as estatísticas, já não dá mais pra se falar em grupo de risco. No Brasil, 25% dos óbitos foram de pessoas abaixo de 60 anos, sem doenças pré-existentes ou sem apresentar um quadro de comorbidades. Ou seja, de cada quatro indivíduos que bateram as botas, um deles é tão jovem, saudável e resistente quanto eu. Ou quanto você.

O isolamento total e irrestrito não serve apenas para acabar com essa discriminação de quem deve ou não deve ficar em casa. Ele é a maneira mais eficiente, até agora conhecida, de contribuir com o tão falado achatamento da curva. Pelo conceito de “curva” entende-se que, mais cedo ou mais tarde, todos nós seremos contaminados pelo vírus. O que ele promove é fazer com que o sistema de saúde não fique sobrecarregado no momento de pico. Situação em toda a sociedade precise ser atendida ao mesmo tempo. E você já está careca de saber: não há leitos, não há médicos, não há medicamentos, muito menos equipamentos para fazer tudo ao mesmo tempo agora. Afastar você do ambiente social não significa, em última instância e numa perspectiva mais pessimista, te proteger do vírus. Significa que as autoridades médicas estão te dando o recado de que vão te atender sim, só que mais tarde. Portanto, falar em isolamento vertical, horizontal ou diagonal é uma discussão inócua. Não se trata de “quem”. Trata-se de “quando”.

Por isso, meu caro, antes de sair por aí pra fazer aquela caminhada gostosa na Praça Pôr do Sol, participar de carreatas na Av. Paulista, chamar os amigos para um churras, dar aquele abraço apertado no dono do Bar do Seu Zé, ir até a feira e apertar a mão da tia do tomate (junto com o tomate), ou simplesmente agir como se nada estivesse acontecendo, pense duas vezes. Controle sua ansiedade causada pelo ócio e pelas milhares de informações falsas das redes sociais. Talvez você saia mesmo incólume dessa pandemia. Torço muito. Talvez a cloroquina ou o vermífugo resolvam seu eventual problema. Talvez não. Existe uma probabilidade, mesmo que ínfima, de você ficar agonizando em sua casa porque não há mais leitos nem respiradores disponíveis para te salvar. E você pode, Deus me livre e me guarde, ficar com a sensação de se afogar a seco. Por mais de uma semana. Quem fala isso não sou eu, são as pessoas que se curaram da doença. E existe uma probabilidade, mais ínfima ainda, de você não estar vivo para ler meu próximo texto. Não há grupo de risco. Há situação de risco.