sábado, 29 de agosto de 2020

País gramatical

 

Brasil. Terra de muitas orações e pouca sabedoria. Sujeitos que roubam, que matam, que lavam dinheiro em álcool gel e são afastados de seus cargos. Gastam o verbo em campanhas – e gastam a verba onde não deviam quando são eleitos. Desmatam as nossas florestas, mas as provas são inexistentes e os locais, indeterminados. Agentes subordinados que racham seus salários para sustentar seus partidos, enquanto seus chefes racham o bico. Presidente diminutivo que governa em primeira pessoa do singular, no modo imperativo, cercado de adjuntos adnominais sem valor sintático. Usa o pronome possessivo para se perpetuar. Vontade de tacar um objeto direto na boca de quem pergunta. Ministra que fala por metáforas, ministro que enxuga hipérboles. Equipe dos predicados mais sórdidos. Estatísticas pospostas, criando a silepse perfeita de uma dor aguda e uma situação grave. Denúncias de verbos irregulares. Decretos à revelia, com crase e com crise. Cheques pronominais depositados para a esposa. Verbos de ligação que conectam um esquema oblíquo entre uma família, a milícia e as falsas notícias. Planos de governo no modo gerúndio e o saudosismo no pretérito mais que perfeito de uma época das forças ocultas. A população agoniza na voz passiva. A corrupção deveria ser transitiva, mas não é. O país do futuro do presente é este, com todas as regalias garantidas pelos artigos definidos da lei.

 

domingo, 9 de agosto de 2020

Antítese

Definitivamente o Brasil é um país barroco. Reúne em si características tão contrárias e tão distantes e, por incrível que pareça, é essa a distância que compõe seu conjunto. Do clima muito quente ao muito frio. Da fala cantada ao jeito rápido de comer letras no final da frase. Esse país é tão diferente por dentro, que parece que é justamente essa síntese de oposições que melhor o define. Durante a pandemia, essa dualidade se acentuou ainda mais. Acompanhamos por meses e meses as filas nos bancos pelo auxílio emergencial. As dificuldades burocráticas implementadas pelo Governo para se ter direito ao saque mensal de 3 notas de R$ 200. E soubemos, recentemente, que os bilionários se tornaram ainda mais bilionários. Sim, durante a quarentena. Ricos cada vez mais ricos, na saúde e na doença. Moradores de rua morrendo de fome porque as doações acabaram. E os porta-vozes do Facebook compartilhando receitas de pão, ou reclamando que não param de engordar. Enquanto uns se deslocam em trens lotados, outros postam suas lives com um fundo de tela de fazer inveja à Biblioteca Mário de Andrade. Cabines de desinfecção e leitura infravermelha da temperatura corpórea no país campeão dos baixos índices de saneamento básico. Bastou um trimestre para entrarmos na pior recessão da história, com uma população dividida entre as palafitas e a Netflix.

Na política, o Brasil é igualmente barroco. Tão esquerdista e tão extrema-direita, sem a necessidade de um Muro de Berlim para separá-lo. É, em seu paradoxo, o convívio bipolar dos polarizados que torna o Brasil um país possível. Já não há mais espaço para se discutir a presença do Estado na Economia um pouco mais pra lá ou pra cá. Ou se defende os Estados Unidos, ou a China. E ponto final.

Até a Medicina entrou como pano de fundo para essa cisão ideológica. Fomos nos excluindo de nossos antigos grupos para dar lugar à criação de novos guetos. Afinal, estamos em guerra. De um lado do front, os cloroquiners. Do outro, os isolados aguardando a chagada da vacina, com a pouca paciência que lhe resta.

Nesse sentido, o Brasil só se faz cada vez mais transparente em suas contradições. Mesmo que se orgulhe da redução progressiva dos investimentos nas áreas técnicas da saúde, da pesquisa e do conhecimento, conseguiu num esforço hercúleo entrar na reta final para o ranking dos melhores. Em parceria com um laboratório chinês e alguns pesquisadores do mundo inteiro, vem desenvolvendo aquilo que daqui a uns meses pode ser considerado um milagre. É o Brasil brasileiro, pioneiro, líder, ainda que em sua ínfima minoria. Porque, em sua maioria absoluta, reina o Brasil que acredita em outro tipo de milagre. Na terra do em se plantando tudo dá, andam de mãos dadas a ciência e a ignorância. As escolas permanecem fechadas; já os templos religiosos, não. O número de ávidos por saber, que cresce em progressão aritmética, jamais vai conseguir dar conta de se igualar ao número geometricamente progressivo de obscurantistas, negacionistas, terraplanistas, antivacinistas.

Meu maior medo com a eleição do Bolsonaro era ver um país voltar atrás 40 anos. Errei feio. Nossa pátria amada retrocedeu 400 anos. De volta ao passado, fomos parar na Idade Média, época do surgimento do citado neoclassicismo propriamente dito. Aqui de onde estou só vejo trevas. Queima às bruxas e paulada nos médicos e jornalistas. Estão querendo curar a nova Peste Negra com vermífugo. Curandeiros foram recebidos no Palácio, com toda a pompa e circunstância, para divulgar suas receitas caseiras de chá de alho. E, mais recentemente, tapando os olhos para todo e qualquer relatório científico, estenderam o tapete vermelho para os teóricos da aplicação de ozônio no ânus.

Ontem o Brasil registrou a triste marca recorde de 100 mil mortos por covid-19. Mas aqui é terra de sol e chuva, meu caro. Nem deu tempo de ouvir o silêncio do luto. Logo vieram os fogos de artifício para abafar a tristeza que só alguns sentem e percebem: o Palmeiras foi campeão.

Também ontem o país perdeu o publicitário Ênio Mainardi. Amado e odiado na mesma proporção. Alguns profissionais do mercado o consideram um mestre da Propaganda, que deixou um rico e valioso legado e campanhas históricas, como por exemplo a da Tostines (“é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho”, pra quem não se recorda). Contudo, essa maestria toda também será lembrada por suas polêmicas. Mainardi deixava um cachorro solto em sua agência. Juntava sua equipe numa sala vestido somente de cueca. Fazia reuniões com o cliente e colocava um revólver sobre a mesa. Quando entrei na faculdade, Mainardi era uma espécie de inspiração. Porém, anos mais tarde, vi um debate no auditório dessa mesma universidade em que ele foi vaiado. Ele era isso mesmo: a faísca que se soltava dessa junção de opostos. Construiu sua sólida carreira numa das profissões que mais exigem a subversão criativa. Entretanto, passou seus últimos tempos defendendo ideias mais ou menos alinhadas ao conservadorismo do atual governo. Dizem por aí que também minimizou os efeitos da pandemia, concordando com o déspota genocida que tudo não passa de um exagero. Morreu de coronavírus, só pra deixar o assunto ainda mais barroco.

 

domingo, 5 de julho de 2020

Um brinde ao foda-se


Em Publicidade aprendemos que, quando uma mensagem é repetida várias vezes, procura-se ampliar a cobertura e reforçar seu conceito. Entretanto, um dos efeitos negativos é a perda de sua eficácia. A sensação de ver tudo igual, sem alguma novidade ou qualquer atrativo que nos tenha passado despercebido da primeira vez, nos faz virar a página, mudar de canal, apagar o e-mail. O discurso perde sua força e entra na nossa cabeça como um fundo sonoro com o qual já passamos a nos acostumar.

Durante a pandemia, a sociedade se sensibilizou com as falas dos governos locais, da OMS e até do então Ministro da Saúde. A importância do isolamento, o #FiqueEmCasa, lavar as mãos sempre e, mais recentemente, o uso obrigatório de máscaras. Talvez nos primeiros minutos de confinamento alguns cidadãos não estivessem levando a coisa tão a sério. Mas, em seguida, houve uma certa adesão geral e compreensão dos fatos. Tanto é que os índices de isolamento eram relativamente bons.
Só que os pronunciamentos das autoridades foram se reprisando. E, consequentemente, perdendo sua força e credibilidade. Quando se fala que esse é um momento muito importante para adotarmos as medidas preventivas de segurança e seguirmos corretamente as orientações da ciência e da saúde, isso quer dizer que no momento imediatamente anterior não era? Ao ouvirmos diversas vezes, em modo looping, que o pico da pandemia ainda não foi atingido e que a quarentena precisará ser esticada, passa-se a sensação de que alguma coisa está errada. Na cabeça do homem comum, nada diplomado em Medicina ou Matemática, conclui-se que ou deixaram de acertar nos cálculos ou as medidas iniciais não foram corretamente aplicadas. Isso sem falar no atual desgoverno federal, que desobedece a todas as regras sanitárias, provoca os governantes menores e veta artigos de lei, usando critérios meramente pessoais, no sentido de tornar o processo de retomada ainda mais flexível. E mais perigoso.

O fato é que a população meio que ficou de saco cheio. Não só de permanecer trancada por mais de 100 dias, como também de obedecer a comandos baseados no repeteco. No Brasil e no mundo. De Nova York a Nova Iguaçu.

As cenas que vimos nos últimos dias, em que notívagos invadiram e lotaram bares e mesas na calçada, aglomeradíssimos e sem o uso de máscara, são ao mesmo tempo trágicas e patéticas. Esse comportamento burlesco de um povo até então preso em regime domiciliar pode suscitar algumas interpretações. O mais ululante foi a afronta. O tapa na cara aos órgãos fiscalizadores. A onipotência da fala do nosso presidente, agora convertida nas camadas imediatamente abaixo na pirâmide social. Enquanto a classe operária dos entregadores de pizza trabalhava devidamente paramentada com os equipamentos de proteção individual, os emergentes criavam suas leis próprias durante sua efêmera diversão. Tudo junto e misturado. Os garçons e motoboys, mais vulneráveis ao vírus devido à sua condição social, ocupando o mesmo espaço dos novos-ricos que acham que o corona já passou. Uma falsa sensação de imunidade com impunidade. Aquela muvuca poderia ser também entendida como um basta. Um alegórico brinde à apressada carta de alforria, sem nada a se comemorar. Ou talvez, em última análise, a pulsão de morte que também habita no ser humano. Se é para viver o novo normal como um ermitão, um indivíduo incel, se é para abdicar de sua sexualidade e sua forma gregária de convívio, melhor nem viver. Vamos à la playa, morra quem morrer. O neodarwinismo necropolítico está aí para poupar quem tiver a sorte de ser poupado. Fez-se de conta que aquela mesa de bar foi a última ceia dessa quarentena que nunca termina, muito menos com final feliz. Saúde a todos os incompetentes, que não souberam conduzir sua manada. Agora só resta pedir a porção de picanha no réchaud e aguardar a chegada da vacina de Oxford. Enquanto isso, o democrático vírus poderia estar ali circulando livremente entre todos os cuspes impregnados nos copos de cerveja. Seja no pub de Londres, seja na calçada do Leblon. A imagem ridícula do fracasso da Humanidade.


quinta-feira, 2 de julho de 2020

Insônia


Essa noite foi uma noite mal dormida como outra qualquer. Durante a pandemia, difícil ter uma noite tranquila de sono. Só que essa noite não foi igual a todas as outras noites. A insônia me atacou. E durante esses minutos que demoraram uma eternidade pra passar, uma avalanche de pensamentos começou a transbordar em minha cabeça. Fatos que se sobrepunham. Cenas que se atropelavam. Imagens aglutinadas de um ontem com um passado bem remoto. Minha mente saiu dos gafanhotos e foi parar lá no Orkut. Lembrei que a gente classificava os amigos por estrelas. Um deles me deu a nota máxima, até começarmos a trabalhar juntos. E as diferenças começaram a aparecer de modo grosseiro e abrupto. Uma amizade que começou com “sou seu fã” e terminou com “desembucha logo que eu tenho mais o que fazer”.
Lembrei de mais amigos, outros tantos, que eram muito simpáticos e sorridentes quando tínhamos um projeto em comum pra tocar, ou quando precisavam de mim. Hoje me botaram no modo soneca. Desta vez, no Facebook.  
Lembrei de lugares, vários lugares. Bares e restaurantes que tinham tudo pra ser incríveis. Mas não eram. A foto e a descrição do cardápio eram muito mais bonitas e apetitosas do que o prato que me foi servido. O atendimento deixou muito a desejar. Embora eles tivessem adotado a prática chique de cobrar 13% ao invés de 10% como taxa de serviço.
Lembrei de algumas namoradas também. Poucas. Mas com uma sequência recheada de fatos, brigas e desilusões. Muitas. Teve aquela que no começo tudo parecia divino e maravilhoso. E no final a gente já não se suportava mais. Um início marcado por selfies de rosto coladinho. E um epílogo com fotos tiradas a quase um quilômetro de distância. Um início de muito diálogo e um término de muito silêncio. Uma relação que começou com uma admiração profunda pelos meus textos, até culminar com um desprezo total por eles.
Vieram na minha conturbada cabeça outras mulheres. Aquelas que se atrasavam nos nossos encontros, só pra gente ter menos tempo de convívio. Aquelas que me pediram dinheiro. Aquelas que não me pediram nada, mas também não tinham nada a me oferecer. Era pra ser uma noite fantástica. Era pra eu me recordar das trepadas homéricas. Só que a imagem que ficou retida foi eu sendo abandonado num quarto de motel, com a frase “você precisa se tratar”.
A nossa cuca é meio traiçoeira. Parece que faz uma triagem dos flashbacks. Memória seletiva com critérios pra lá de suspeitos. Escolhe o que há de pior. É um filtro ao contrário. Você, tanto quanto eu, sabe como a gente gasta e investe pra alimentar nossas vidas com fragmentos de felicidade. Tempo, dinheiro, esforço, pensamentos positivos, altas expectativas, perfumes e roteiros da Vejinha. E o que sobra disso tudo? A vaga lembrança de um desencontro no metrô causado pela Estação Paulista na Consolação e Estação Consolação na Paulista.
Noite ingrata. Acelerou meu coração com frustrações. Trouxe à tona o desgaste e o desgosto. Não era esse o residual que eu queria. Era pra eu contar carneirinhos, não os pés-na-bunda. Todos dizem que a vida é cheia de prós e contras. Fazendo esse cálculo, o resultado do balanço final deveria ser o equilíbrio de um empate. Mas não. Ficou a sensação de uma derrota de 7 a 1.
E nada do sono aparecer.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Farmácia


Minha mãe tem uma amiga de longa data que é dona de uma farmácia no Centro de São Paulo. Eu mal conheço essa amiga, muito menos a farmácia. Mas quero acreditar, no meu imaginário onírico, que se trata daquelas farmácias tradicionais. Com piso de mármore e prateleiras de madeira escura com portas de vidro. Daquelas em que o farmacêutico tinha que subir numa escada gigante para procurar algum medicamento mais raro. Não essas farmácias de hoje em dia, tudo Nutella. Hoje você entra numa farmácia e, se não fosse a fachada com a logomarca, você nem sabe a diferença entre uma e outra. Tudo muito igual, com a mesma cara. Muito genérico. E eu nem estou me referindo aos medicamentos de preço popular. Hoje você entra numa farmácia, se espreme nos corredores minúsculos pra não esbarrar em nada, e é atendido por uma moça que parece caixa de loja de departamentos. Não importa se você vai pedir um paracetamol ou o quebra-cabeça do Hulk. Se bobear, é até capaz de a farmácia vender esse quebra-cabeça. Ela vai te olhar com uma mecânica frieza e indiferença, vai abrir uma tela de computador, procurar no sistema se o produto encontra-se disponível em estoque e perguntar se você tem algum plano de saúde. Eu tô falando daquelas farmácias legítimas. Farmácia-raiz. Farmácia com ph. Daquelas em que você sente o cheiro de álcool porque atrás do balcão tem os biombos onde clientes tomam injeção. Daquelas em que não existia sistema. O próprio farmacêutico conhecia todos os medicamentos de cor e salteado. O sistema era sua memória. A planilha Excel era uma caneta-tinteiro que ele guardava no bolso de seu avental branco. É esse tipo de botica que reina meu inconsciente imaginário. Onde o dono foi colega de classe do Oswaldo Cruz. Onde tinha um cartaz amarelado do Biotônico Fontoura ao lado de uma balança mecânica com uma espátula vertical metálica embutida para medir sua altura. Numa época em que era impossível pagar suas compras pelo aplicativo ou com cartão de crédito. Era tudo no dinheiro vivo, guardado na gaveta de uma gigantesca caixa registradora que abria e fechava por meio de uma manivela.

Pois bem. Me parece que a amiga da minha mãe tem essa farmácia há muitas décadas. Acho que desde o suicídio do Getúlio Vargas. Provavelmente deve ter tido seu momento de apogeu. Sua glória mercantilista. Mas, com o tempo, acredito que acabou sofrendo o desgaste natural de um comércio bairrista. Por causa da concorrência. Da modernidade invasiva e avassaladora das grandes redes. Anos atrás, minha mãe conversou com essa amiga e soube que ela pretendia passar o ponto pra frente. Creio que o negócio ficou insustentável. A crise do país, o valor do aluguel, a folha de pagamento dos funcionários e suponho o que seja ainda pior: a falta de clientes. Disse minha mãe que ela tentou vender o estabelecimento para alguns grandes conglomerados de drogarias, mas não recebeu nenhuma proposta satisfatória. Eis que, recentemente, minha mãe me conta que soube por terceiros que essa amiga foi obrigada a fechar as portas. Encerrou as atividades de um projeto no qual se dedicou quase sua vida inteira. Entrou em bancarrota porque a conta não fechava. Isso, pelo que se soube, pouquíssimo tempo antes do início da pandemia.

O novo coronavírus é o principal responsável pela recessão mundial. Colocou milhões de trabalhadores nas ruas. Quebrou o pequeno e microempresário. Fez o número de desempregados dobrar aqui no país. Afundou as contas públicas. Botou os fundos emergenciais no negativo. Colocou em colapso vários setores da Economia, exceto um: medicamentos e derivados. Nos últimos meses, nunca houve uma procura tão grande por remédios. Logo nos primeiros dias de quarentena, faltava máscara e álcool gel nas farmácias. A cloroquina, até então vendida sem prescrição médica, sumiu das prateleiras. Sabonete passou a vender que nem água. Qualquer produto com promessas próximas do combate ao novo vírus, como bactericidas em geral, tiveram seus estoques zerados. Vermífugos então, nem se fala. As pessoas entram na loja pra fazer a compra do mês. A farmácia passou a ser o porto seguro da sociedade. O verdadeiro shopping center da cidade, que não precisou passar por um processo rigoroso de reabertura restritiva. Empresários do ramo que dobraram seu faturamento mostraram ser maus empreendedores. Na média, a maioria deles viu seu lucro quintuplicar. É o único segmento de mercado em que os donos estão rindo à toa. Os planos de expansão de seus negócios não param de ser noticiados. Eu vejo na TV o rosto do Sidney Oliveira, proprietário da Ultrafarma, mais do que do Jair Bolsonaro.

Nesse período de isolamento, pude observar e aprender muita coisa, em especial uma: tem gente que é azarada pra caralho.


domingo, 14 de junho de 2020

Trocando a lâmpada


Tem aquela piada que diz o seguinte: “sabe de quantos portugueses precisamos pra trocar uma lâmpada? Cinco. Um para segurar a lâmpada e quatro pra girar a escada”. É uma anedota velha. Talvez nas embarcações de Cabral alguém deve ter achado graça. De tão gasta que ficou, a piada passou por uma série de adaptações e reinvenções. E, só pra contextualizar, já vou avisando: eu sou um desses portugueses.

Minhas habilidades com serviços manuais, pequenos reparos da casa, beiram a zero. Se por acaso queimar a resistência do chuveiro, é capaz de eu tomar banho frio no inverno. Tenho medo de errar, de quebrar, de causar um acidente. Fico com a sensação de que sou um Rei Midas eletrostático: em tudo o que eu encostar vai dar choque. Na teoria eu sou brilhante. Modéstia inclusa, meu acervo de conhecimentos adquiridos nesse mais de meio século é invejável. Em compensação, na prática eu sou uma negação. Pra mim, é difícil até pedir uma pizza. Fico horas tentando fazer a melhor combinação entre sabores. Leio o cardápio de delivery como se estivesse devorando um livro. Quando minha mãe pergunta “e aí, já escolheu?” eu respondo: “calma, tô aqui na pepperone e não dá pra parar de ler. Acho que o gorgonzola da quatro queijos vai matar o gosto do catupiry com requintes de crueldade”. Tem também a questão das minhas ascendências judaicas. Todos sabem que quando você divide os sabores o valor cobrado é pelo mais caro. Se você pedir meia mussarela, meia camarão, vai ser o queijo mais caro da sua vida. Tem que usar um pouco a Matemática Financeira para equilibrar os custos e pedir uma combinação mais ou menos condizente nesse sentido.

Mas eu não vim aqui falar de pizza. Vim falar de lâmpada. Você já deve ter imaginado minha dificuldade em resolver essas coisas. Agora imagina isso numa pandemia. Comércio funcionando de modo restrito. Profissionais técnicos em recesso. E, mesmo os que estão trabalhando, não vou permitir que um terceiro entre na minha casa devido ao fato de eu morar com uma pessoa total grupo de risco. Minha mãe tem 75 anos, pré-diabética e toma remédio pra controlar a pressão. Mais grupo de risco do que isso, só se fosse da MPB. E se Deus me livre eu cair da escada ao tentar fazer as coisas sozinho, não vou poder ir ao hospital. Lá é o foco da Covid. Todas as áreas estão reservadas a pacientes com essa doença. Nenhum médico vai querer sair de sua ensandecida rotina de UTI pra examinar apenas uma costelinha quebrada. Caso isso acontecesse comigo, teria que me tratar com caixas e caixas de Dorflex até que a situação se normalize. Ou seja, no Natal.

Pois bem. Vamos aos fatos. Mais ou menos no começo da pandemia, queimou uma lâmpada do meu quarto de trabalho. Fui deixando porque, assim como você, acreditei que essa quarentena duraria 20 dias e em seguida poderíamos tocar o barco. Os dias passam, a gente tá numa noventena, perto da centena. A coisa foi ficando insustentável. Claro que durante o dia dá pra usar métodos homeopáticos, como por exemplo abrir a janela pra deixar o sol iluminar o ambiente. Deixar a luz acesa do outro quarto mais próximo. Tudo isso. Mas o problema foi se agravando. E minha vista também. Durante a quarentena, creio que ganhei em graus de miopia a mesma coisa que ganhei em quilos. Quem voltar a me ver daqui a algum tempo vai encontrar uma mistura do cantor Péricles com o Mr. Magoo.

Não pense você que é uma troca fácil de lâmpada. Eu não sou tããão desajeitado assim. Se fosse uma estrutura simples, bastava desatarraxar a lâmpada queimada do soquete e substituir por uma nova, fazendo o mesmo procedimento. A lâmpada que estragou estava acoplada a um lustre, que faz parte de um conjunto composto por um ventilador de teto. Olhei, examinei minuciosamente o aparelho, e não encontrei nenhuma abertura aparente no globo (aquela parte de vidro que encobre a lâmpada propriamente dita. Não sei qual é o nome técnico dessa geringonça, mas vou passar a chamar assim). Não restando outra alternativa, fui obrigado a entrar no Google pra consultar algum vídeo tutorial explicativo sobre o tema. Isso mesmo, caro leitor. ENTREI NO GOOGLE PRA VER COMO SE TROCA UMA LÂMPADA. Enquanto você usa seu tempo para ver as lives do seu cantor preferido, ou de algum especialista na área econômica, algum epidemiologista, eu passei o feriado de Corpus Christi aprendendo com um eletricista. E não é que apareceram vários vídeos na busca? Fiquei mais aliviado ao constatar que não sou o único do planeta com essa dificuldade. Na dúvida, assisti a TRÊS VÍDEOS. Afinal, quando o assunto é complexo e envolve os pareceres de profissionais da área acadêmica, é sempre bom consultar uma segunda opinião. Nesse caso, os três foram unânimes ao mostrar travas internas e explicar que bastaria girar o globo para tirá-lo do lugar, trocar a lâmpada e fazer a mesma coisa depois, em sentido contrário.

Tentei seguir as recomendações. Obviamente, não consegui. Comecei a girar o globo do seu suporte e, sem sucesso, ele não se soltou. O conjunto do lustre girou em falso e fiquei com medo daquilo tudo se soltar do teto e cair no chão. Aliás, vou confessar uma coisa. Quando vou a algum lugar com ventilador de teto, tipo uma padaria, e fico olhando fixamente pro aparelho, me dá a impressão de que a velocidade das pás do ventilador aumenta e elas vão adquirindo uma força a tal ponto de se soltarem do teto. Sempre fico achando que aquilo algum dia vai fazer o maior estrago. Que o ventilador vai cair no chão e as pás metálicas vão cortar as cabeças dos clientes. Na dúvida, sempre evito ficar embaixo de um. Na minha casa, eu não quis contar muito com a sorte. Desisti. Putaço. Liguei pro meu irmão pra resolver outros assuntos e, no contexto, comentei sobre meu ensaio sobre a cegueira. Ao contrário de mim, meu irmão tem mais prática com essas coisas. Ele pesquisa. Se não descobre, fuça. Se der errado, tenta de novo de outro jeito. Pesquisa de novo. Tenta de novo, até acertar. Eu não. Tento uma vez. Não consegui, fico uma pistola e vou descarregar minha raiva no Facebook. Entre uma pesquisa e outra, descobrimos que o modelo do meu conjunto lustre+ventilador não tinha nada a ver com os dos três vídeos. Fui abençoado de ter em mãos um modelo único de uma série limitada, cujo encaixe e desencaixe se dá de forma diferente e exclusiva. Em vez de girar pro lado, tem que puxar o globo pra baixo. Claro que meu cagaço aumentou na velocidade das pás. Já imaginei o centro gravitacional da Terra chamando eu, minha escada, os estilhaços do globo, os estilhaços finíssimos da lâmpada queimada e as pás assassinas. Fiquei até imaginando como começaria minha carta de despedida à minha família, a você e a todos os que me acompanham nas redes sociais. Preferi deixar quieto e voltar a ser cego até o ano que vem.

Só que minha teimosia falou mais alto. Eu não podia desistir assim fácil. Fui lá novamente subir a escada e, com a precisão cirúrgica das mãos e dos dedos, pressionei cuidadosamente o globo pra baixo. Consegui! Aquilo pra mim foi a glória. Sensação de policial que desmonta cativeiro de sequestrador e consegue resgatar a vítima das travas e entranhas do lustre. Saí carregando a peça de vidro com a mesma alegria de quem acaba de ter um filho. Até pensei em dar um nome àquele ornamento com cara de joelho: “vai se chamar Gabriel”. Conduzi o rebento até a sala como se fosse meu troféu. Minha emoção pelo feito, sem a ajuda de nenhum parente, vizinho ou técnico em Eletricidade, foi igual ao Romário quando marcou seu milésimo gol. Pra falar a verdade, nem sei se o Romário fez mil gols em sua carreira. Não entendo nada de futebol. Odeio esse ludopédio, acho muito chato. Quem fica correndo na grama atrás de uma bola não é craque, é labrador.

E assim termino essa aventura de isolamento social. Meu quarto tá com lâmpadas novíssimas, iluminadíssimas. Aqui de noite é tão claro como o dia que parece que eu tô na Austrália. Agora as paredes reluzem mais do que as areias de Fernando de Noronha. Em meio a tantas notícias tristes, finalmente um final feliz. E sem o globo pra me atrapalhar.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

Muito o que aprender


Poderia ter sido um grande exercício de aprendizado para a democracia. Poderia ter sido o primeiro passo para a confraternização em tempos tão odiosos. Poderia ter sido, simbolicamente, a representação real da mobilização virtual “somos 70 por cento”. Poderia ter sido o xeque-mate para o pedido de impeachment do nosso presidente. Infelizmente, não foi nada disso.

Existe um conceito aplicado ao comportamento humano, que inclusive foi o mote de uma longeva campanha publicitária da revista Rolling Stone internacional, que disserta sobre a diferença entre “percepção” e “realidade”. Percepção foram os primeiros 15 minutos da manifestação em prol da democracia. Tudo aquilo que queríamos ver e acreditar. Uma caminhada pacífica, contra os abusos de poder e de autoridade de um governo federal nada pacífico. Muito embora os protagonistas deste ato estivessem cagando pra pandemia. Não seguiram protocolo nenhum de distanciamento social. Afinal, o que são 30 mil mortos e meio milhão de infectados? E realidade foi todo o resto. Igual a uma festa. Percepção são as pessoas produzidas, maquiadas, a sensação de que vai ser uma noite inesquecível. Já a realidade compreende a bebedeira, a maquiagem borrada, a música brega, o vômito no chão. E até uma possível briga. Com torcidas organizadas, não dá pra se esperar algo muito diferente. Trajadas de paz e amor, elas cumpriram o papel que sempre desempenharam: torcidas organizadas.

Tenho a impressão de que os movimentos que buscam essa harmonia social, com base no diálogo e não no confronto, jogam esses dizeres da boca pra fora. No fundo, cada um quer alimentar seu próprio dogma. Em tempos tão difíceis, com crises que se acumulam sobre crises, com a necessidade da aceitação do contraditório como forma de compreender melhor essa paranóia toda, o que menos sobra é espaço para a tolerância. Estamos, nas redes sociais, tão divididos quanto os grupos que ocuparam as vias da Av. Paulista. Do lado do MASP, os xiitas do bem. Do lado da FIESP, os xiitas do mal. Há quem ache que as manifestações foram apenas os primeiros vídeos, com gente alegre cantando. E há quem afirme que esses protestos foram apenas os minutos finais, com quebra-quebra e a polícia bombardeando os manifestantes. Ambos estão cegos. Ambos estão errados.

O governo do Estado de São Paulo já determinou que as próximas manifestações ocorrerão em dias diferentes, para evitar o confronto. As pessoas serão revistadas com mais rigor. São algumas medidas paliativas, que podem – ou não – surtir algum efeito. Torço para que funcionem. Apesar de que, me parece, ligaram o foda-se para o coronavírus.

Achar que a polícia, de um lado, andou de mãos dadas e acobertou os bolsonaristas e, de outro lado, atacou desmedidamente os “democratas” é tomar partido. Bobagem pura. Quem acompanhou os vídeos de forma mais completa pôde perceber que a PM ficou na retranca e só avançou à medida que os black blocks de plantão também avançavam. Houve ataques e contra-ataques de parte a parte. Igual a um jogo de futebol. Houve impedimentos, expulsões, penalidades máximas e muita violência. Igual a um jogo de futebol.

Talvez o taco de beisebol tenha sido o estopim dessa barbárie. O comandante da PM, em coletiva de imprensa, admitiu que esse material deveria ter sido apreendido. Mas não dá pra saber. Tá todo mundo com muita raiva. De tudo. De todos. De nós mesmos. Não seja ingênuo a tal ponto de acreditar que aquilo foi um remake do movimento pelas Diretas Já. Não foi. Aquela mixórdia foi nada mais do que um Fla X Flu na capital paulista. Apenas o repeteco da polarização que acompanhamos nas redes sociais. “Com muito orgulho e com muito amor” é só mais uma frase de hino ufanista. Não reflete o verdadeiro sentimento dos hooligans que ali estavam destruindo minha cidade. É só a percepção, e não a realidade.

Pra finalizar: odeio futebol. Não me identifico com torcida alguma. Ainda que estivéssemos livres da pandemia, essa pândega não é pra mim. E deixar de ir às ruas não é covardia. Ou comodismo. Ou abulia de fazer parte da história do nosso país. Não, não é. O que eu sei fazer é escrever. Meu campo de batalha é o papel. Da mesma forma que o ator faz seu protesto num palco. E rezo pra que isso volte a acontecer muito rapidamente. Ou que o pintor manifesta suas angústias numa tela em branco. Isso não me torna pequeno, incapaz. O Word pode até parecer insípido e irrelevante diante de tantas inovações tecnológicas. Mas é nele que, todo dia, eu lapido cada letra, cada palavra. Até que elas tenham a força e a contundência suficientes para provocar, ferir. Eu afio as frases e amolo as pessoas. Por favor, não me chame de ignavo. Estou aqui por recomendações da Organização Mundial de Saúde. Recluso, ermitão, antissocial. A luta vem daqui e é daqui mesmo que deve vir. Não era você que, até ontem, excluía todos os seus amiguinhos do Facebook contrários ao isolamento?



domingo, 31 de maio de 2020

Na dúvida, foda-se

É sabido que as ordens e as atitudes que vêm de quem está no topo são automaticamente replicadas por quem está na base. O famoso "o exemplo vem de cima". Se as autoridades recomendam que se fique em casa, é porque existe um motivo para a reclusão. O problema é, como todos já perceberam faz tempo, que cada um fala e faz uma coisa diferente. Prefeitos e governadores falam em isolamento social, enquanto o presidente vai pra padaria e pro seu cercadinho cumprimentar apoiadores e tirar selfies com populares. Imediatamente após cada aparição pública do nosso representante maior, os índices do fique em casa caem.

Embora estejamos no meio de uma polarização política sem precedentes, é comum se observar que, em todos os campos da humanidade, existem alguns níveis de apoio a uma determinada ideia. Do moderado ao radical. Em relação ao isolamento, há uma pequena parcela bem xiita. Não colocou a cara pra fora de casa durante esse quase-trimestre. Não pega elevador. Só faz compras por delivery e, mesmo assim, evita ao máximo qualquer tipo de contato com o entregador. Lava minuciosamente todo e qualquer item comprado. Do bombom à caixa de sabão em pó. Não recebe nem a família, que dirá amigos e vizinhos. Até o começo do ano, poderíamos supor que se trata de um caso patológico de paranoia antissocial. Hoje, é um comportamento relativamente aceito, ou pelo menos compreensível. É uma minoria, com muito medo de tudo o que está acontecendo. Existe um grupo mais moderado, que estabelece critérios com mais parcimônia e sai somente se for necessário. Ir a um supermercado, a uma farmácia, fazer uma rápida caminhada, tomar todos os cuidados e evitar aglomerações. Não dá pra saber se é um grupo 100% seguro, pois a doença é nova e a cada dia surgem novidades na mídia. E essa segurança deve-se, em parte, à dosagem de cuidados que a pessoa vem tomando. Poderiam restringir suas vidas às lives e aos aplicativos? Poderiam. Afinal, estamos num momento de guerra. Mas eu já ouvi diversos relatos, por exemplo, dos serviços de delivery criados, aperfeiçoados e improvisados na base do fast track. As taxas de entrega são absurdas, o prazo é extremamente longo e muitas mercadorias vêm adulteradas, ou trocadas, ou há itens faltantes no pedido. Enfim, tomar alguma decisão nesse sentido é uma questão de bom senso. E existe, também, o outro extremo radical: a pessoa que não está nem aí pra nada. Vai às ruas sem máscara, aglomera-se com a galera, tira a camiseta em dias de sol. Para eles, a pandemia não existe.

Não vou entrar no mérito sobre as pessoas que saem de casa por uma questão de necessidade. Trabalham na linha de frente da área de saúde. Prestam serviços considerados essenciais. Abrem seu comércio, de modo restrito, para não ir à falência. Vão aos seus empregos porque assim o chefe determinou. Para os demais, ficar ou sair é uma decisão em que pese a consciência. O radical misantropo sente-se injustiçado por estar fazendo não só a parte dele, mas também cobrindo a falta de noção do radical alienado.

Resta saber, principalmente aos dois primeiros grupos: mas e a volta? Está claro que eles estão seguindo as orientações do prefeito e governador, e não do presidente. Chegamos a um impasse. Em São Paulo, até poucos dias atrás falava-se na possibilidade de um lockdown. Uma medida mais drástica para tentar melhorar os índices de isolamento após algumas iniciativas mal-sucedidas. Agora, pouco tempo depois, fala-se na reabertura. Não quero desmerecer as conclusões tiradas por um comitê de contingência, formado por técnicos de diversas áreas. Mas a coisa ficou bem confusa para quem se abastece somente de informações rápidas. Entende-se que esse processo será lento, gradual e cuidadoso. Mas o Estado foi dividido em cinco regiões. O processo de afrouxamento foi dividido em cinco fases, representadas por cores. Quem está, por exemplo na divisa entre a capital e Osasco, ou Diadema, e se essas regiões apresentarem cores diferentes, não sabe o que fazer. A imprensa divulgou, de modo apressado, a abertura dos shoppings. Isso não vai acontecer agora. Estamos na fase embrionária. Mas a sensação de que o comércio está voltando a funcionar já contaminou parte da população. Principalmente os moderados.

E, já que estados e municípios sinalizam recomendações mais permissivas, essa demonstração cai como uma bomba para quem procura se resguardar. Por outro lado, é o cheque em branco para quem não está nem aí. Ontem mesmo eu ouvi, aqui de casa, um vizinho voltando a fazer o que sempre fazia: pancadão. Pagode e música ruim no volume máximo, churrasco e cervejada para os amigos. Um monte de amigos, pelo som da conversa. A gritaria toda até de madrugada foi um bônus. Um sinal de ostentação, não só para minar tudo de solidário que se construiu durante a pandemia, mas para provar para as autoridades que, naquela casa, quem manda é ele. Aquela gritaria não foi só um sinal de desrespeito ao próximo, como também serviu de provocação. O fulano quis mostrar pra todo mundo que está sim descumprindo a quarentena. Já que estamos vivendo num calabouço político e os poderes estão brigando entre si, resta o discurso do ódio e o egoísmo pra se colocar em prática. E daí?

domingo, 24 de maio de 2020

É de chorar


Quando os profissionais de marketing do banco Bradesco solicitaram à sua agência de propaganda um comercial para TV, muito provavelmente o briefing deve ter sido: “quero um filme que faça as pessoas chorarem”. Conseguiram. No momento mais crítico da saúde pública em nosso planeta, não dá pra ficar insensível àquela sequência de imagens de crianças brincando de médico, ao som da música Fascinação, traduzida pelo compositor Armando Louzada e interpretada pela inconfundível voz de Elis Regina.

Claro. Esse comercial é uma obra de ficção. A realidade é um pouquinho diferente. E mais dura. E mais perversa. Nos noticiários que intercalam os 30 segundos de comovente ternura, percebemos a sina diária e suas consequentes dificuldades dos microempreendedores para se conseguir crédito facilitado com as instituições bancárias. Ao contrário do que o Governo Federal prometeu. Não se trata de acusar aqui especificamente o Bradesco, o Itaú, o Santander. Os bancos, como um todo, estão impondo uma série de barreiras e restrições ao crédito a tal ponto de tornar essa tarefa inviável. Não há liquidez no mercado. O dinheiro, portanto, ficou muito mais caro. E, pela lei da oferta e da procura, ganha o privilégio quem puder pagar melhor. Ou, pelo menos, oferecer garantias mais consistentes de zerar suas dívidas e honrar esse triste compromisso. Essa situação surreal não só fere a lógica do sistema como também coloca em xeque o próprio capitalismo. O pequeno empresário solicita um empréstimo mas, para isso, precisa demonstrar que tem caixa para pagar esse empréstimo. Meus senhores, estamos vivendo numa pandemia. Situação de calamidade pública. Não é pedir demais algum tipo de flexibilização, de todas as partes, em todas as esferas da roda econômica. Como é que a manicure, o dono de academia, o dono de um bar, o professor de Inglês conseguem comprovar sua fonte de rendimentos dos últimos dois meses, sendo que esse é justamente o período do início da quarentena e eles foram obrigados a fechar seus estabelecimentos? Que tipo de sentimento verdadeiro os bancos procuram causar quando recusam distribuir esse montante de dinheiro no sentido de não corroborar com uma sociedade ainda mais injusta? Ou o comercial não passa de uma mentirinha, uma brincadeirinha de ninar ao embalo da maior cantora do Brasil?

Senhores profissionais de marketing do Bradesco e de todas as instituições bancárias privadas e públicas desta nação sem noção: vocês conseguiram. Todo esse baixo clero da Economia, que emprega a maior parte dos assalariados, que de fato movimenta a ciranda financeira do nosso arrasado país, está chorando. De tristeza. De desespero. De angústia. De desesperança. Não é nada fácil abrir um sorriso quando não há o que se colocar na mesa pra comer. Aqui ficam meus parabéns. Vocês causaram uma comoção social muito maior do que imaginavam.


sexta-feira, 15 de maio de 2020

Autor brasileiro ganha prêmio de literatura de fantasia

Comemorando um ano do lançamento do primeiro livro de fantasia do escritor brasileiro P.J. Maia, ESPÍRITO PERDIDO (The Missing Spirit), a obra acaba de conquistar o prêmio de “Melhor Livro de Fantasia” no Independent Press Award, em Nova York, uma competição julgada por experts de diversas áreas da indústria literária, incluindo editoras, autores, revisores, diretores de arte e redatores profissionais. Os vencedores de cada categoria são escolhidos a partir de quesitos de excelência no geral.


Este não é o primeiro prêmio conquistado pela obra. Em março deste ano, o livro ESPÍRITO PERDIDO conquistou o “Red Ribbon”, prêmio de Escolha dos Leitores no Wishing Shelf Awards, premiação sediada em Londres e voltada para o público juvenil, onde os títulos são avaliados por grupos de jovens leitores no Reino Unido e na Suécia.
 

Decidido a disputar espaço no mercado global de literatura fantástica de forma independente, o jovem autor brasileiro parece estar dando os primeiros passos na direção certa. O segundo livro da saga já entrou em produção, principalmente, nestes tempos de quarentena, em que todos estão confinados, o autor pretende de forma criativa dar sequencia ao seu trabalho tão bem recebido pelo público e crítica.