domingo, 16 de maio de 2021

Encontro

 

- Oi Samantha, tudo bem? Victor aqui. A gente deu match no Tinder agora há pouco e você me passou esse número do zap.

- Boa noite, Victor. Tudo bem, e você?

- Então, queria te conhecer melhor. Vamos marcar um dia?

- Excelente ideia! Eu topo.

- Tava pensando nuns lugares bacanas, bem descolados, cheios de gente bonita. Até dei uma pesquisada e queria passar pra você algumas opções pra ver se você curte.

- Opa! Que homem prestativo. Vamos lá, diga quais lugares.

- Eu tava entre Drogaria São Paulo, Droga Raia e Drogasil.

- Hã??

- É. Esses lugares estão bom-ban-do!

- Victor, você me chama pra te conhecer numa farmácia? Pensei que você ia me chamar prum bar, restaurante... sei lá, topo qualquer coisa. Do jeito que ta difícil encontrar homem interessante, até a falta de criatividade de um Sí Señor eu to aceitando. Eu queria mesmo é conhecer aquele hypado do casal... do porco... sabe? Não sei, se você tá meio sem grana até o Baixo Augusta eu tô dentro. Mas... farmácia?

- Samantha, em que mundo você vive? A gente tá numa pandemia, cara! Hello! Bar e restaurante fechou tudo com essa segunda onda aí.

- Que nada! Outro dia eu passei no Bar do Pedrão e tava mó lotado. Tinha até gente na calçada.

- Aquele da Zona Norte, né? Conheço, ia direto. Quando você passou por lá?

- Ah, sei lá. Tipo umas duas semanas atrás. Não lembro, tava com minhas amigas.

- Então, deixa eu te dizer... passei por lá ontem à noite. Tudo fechado. Aí hoje de manhã fui fazer uns negócios lá perto, e quando desci do carro vi que até tinha um papel colado na porta. Aquela porta de garagem, toda onduladinha, sabe? Tava escrito assim: “Contas de água e luz, favor entregar no 167”.

- Puxa, que triste...

- Então, a gente pode conhecer aquela Droga Raia nova, gigantesca, fica aberta 24 horas. Nem vai ter blitz porque é serviço essencial. E olha... dá pra se divertir bastante... cair na night... escolher uns drinks... vi que lá eles têm álcool gel 70%, pra quem não quer ficar chapadão, mas também servem spray antisséptico. E se quiser algo mais elaborado, lá também tem enxaguante bucal que só de colocar na boca e fazer bochecho já dá barato.

- Eu não tomo álcool.

- Não tem importância! Lá eles vendem também acetona, água oxigenada e merthiolate. Que, vamos combinar... já teve dias melhores, né?

- Victor, eu tava pensando num primeiro encontro diferente. Uma noite especial.

- Ah, então eu sei do que você ta precisando...

- Jura?

- Na Drogasil da rua de cima, se você levar duas caixas de Dorflex recebe na hora um cupom que dá 10% de desconto nas tinturas de cabelo. TODAS! Quer coisa mais especial que isso?

- Ah, não sei... tá muito estranho isso...

- Estranho? Pensa: no bar, qualquer bar... e olha que eu já fui muito do bar... pra você ser atendido precisa esticar a mão até o teto. O garçom sempre finge que não te vê. Ou faz sinal que vai te atender e simplesmente some. Na farmácia não. Assim que você bota os pés vem alguém, em questão de segundos, já perguntando: “Posso te ajudar?”.

- Ainda não me convenceu.

- No bar, ou na balada, geralmente toca música ruim. E sempre tem aquele momento do aniversário coletivo, em que a banda para tudo pra tocar a versão da Xuxa cantando parabéns. Meio ridículo, né? É tudo num som tão alto que você até sai meio surdo. Na farmácia não. É aquele silêncio sepulcral. Questão de respeito. Reparou que quando entramos numa farmácia a gente até fala mais baixo?

- É verdade. Mas sei lá...

- Samantha, Samantha... o bar é tudo meio escurinho, aquela penumbra toda. Eles acham que é moderno essa coisa de Idade das Trevas. Eles acham chique ninguém enxergar nada. Quando vem a conta você acha que deu R$ 80 quando na verdade tá marcado R$ 300. Qual a graça disso? Aí você tem que ficar ligando a lanterna do seu celular, que parece um farolete no meio do breu noturno do Oceano Báltico, e ainda paga mico praquele bando de universitário bebaço da mesa ao lado. Na farmácia é tudo muito claro. Branco total. Transparência total.

- Ah, Victor, tô confusa...

- E quando você passa mal no boteco? É cada um por si e Deus pra todos, certo? Cê tem que ficar torcendo pra não ter fila no banheiro. Caso contrário, chama o Hugo lá mesmo debaixo da mesa. E ainda corre o risco de respingar um pouco do seu vômito no tênis novo do seu crush. Puta roubada, né? Farmácia é outro esquema. Por acaso cê já viu alguém mijando na parede da Ultrafarma? Se por um acaso, Deus me livre, você não se sentir muito bem dentro de uma farmácia, tem uma gôndola inteira de Alka Seltzer que vai te curar pras próximas três gerações.

- Putz...

- Vamos lá, Samantha. É o que temos para o momento. Veja o lado bom das coisas. Na porta da farmácia não tem fila quilométrica com segurança selecionando quem entra pelo tipo de carro que deixou com o manobrista. Não tem aqueles grandalhões te revistando, te apalpando, fazendo cócegas no seu saco e ainda passando aquele detector de metais que mais parece uma lixa de sola do pé. E ainda pede pra você tirar as chaves do seu bolso. Porque, né? Vai que é uma bomba. Vai que eles pensam que no meio da noite você vai levantar seu iPhone pro alto e gritar: “Todo mundo parado! Isso aqui é uma palhaçada! Tô há mais de meia hora esperando! Se o meu cheddar burger e minha Heineken não chegarem em cinco minutos, prometo jogar esse XR no chão e acabar com a festa!”.

- Tá certo, Victor... tá certo. Te entendo perfeitamente. Mas eu queria assim, um lugar mais reservado, pra gente poder conversar à vontade, se conhecer melhor.

- Ótimo! A gente vai direto pra seção de cosméticos da Lancôme. Lá é tudo tão caro que nunca chega uma viva alma. Ainda mais com o dólar agora. A última vez que vi alguém procurando batom naquela seção foi na época em que o Neymar gozava de boa popularidade. A pessoa ficou indignada com o preço absurdo que a atendente falou pra ela. Se não me engano era a Bia Dória, não tenho certeza. Lá é tão vazio que até a Interpol tem dificuldades pra encontrar o local. Vamos lá que vai ser sucesso. Ninguém vai nos incomodar. Sábado que vem, reserva pra dois?

 

domingo, 2 de maio de 2021

Forrest Gump

 

Estou cada vez mais convicto de que a vida nada mais é do que um banco da praça. Ali você se senta como porto seguro para contar todas as suas histórias. Igual ao Forrest Gump. Não importa se são verídicas, se cada detalhe de fato aconteceu. São verdades para o personagem de Tom Hanks.

Quem se senta ao seu lado são a família, os amigos, os colegas, conhecidos e todo o círculo humano que você construiu. Ouvem atentamente seus flashbacks trazidos da memória. Comentam, aconselham, participam. São coadjuvantes da sua existência. Mas, é bom que se diga, muitos deles não estão nem aí para a sua trajetória protagonista. Estão lá para ler um jornal em paz, dar milho aos pombos, esperar o cachorro fazer cocô, aguardar a pessoa de um encontro marcado no Tinder. Ou simplesmente pousaram para descansar. O fato de vocês estarem lado a lado não significa necessariamente uma proximidade. Apenas era naquele momento o único lugar vago.

Durante a pandemia, nossas interações têm se tornado cada vez mais virtuais. É normal. Ou melhor, novo normal. Quem se encontra presencialmente é visto como um criminoso ou, no mínimo, irresponsável. E nas redes sociais tenho observado que esse comportamento fugaz é ainda mais frequente, fazendo com que a analogia seja ainda mais verdadeira. No começo disso tudo, dessa nova era tecnológica, acreditávamos que tínhamos muito o que dizer para centenas de milhares de pessoas. Que poderíamos chegar aos ouvidos do Presidente em apenas seis graus de separação. Ou, metaforicamente falando, que precisaríamos de um coreto e de um megafone para falar com a multidão que criamos ao redor de nós mesmos. Bobagem. Não é nada disso. Talvez no filme até haja essa passagem de um profeta conduzindo seu turbilhão. Na realidade distante das redes sociais, um banquinho de madeira para você expor suas ideias e seus sentimentos é mais do que o suficiente.

E essas pessoas, seus interlocutores, vão e vêm de modo tão natural quanto o voo de um canário. São seus comparsas por questão de efêmeros minutos. Te admiram e te ignoram solenemente na mesma proporção. Alguns vão embora sem sequer se despedir. Lembra daquele seu amigo de infância, com quem você se dava muito bem? Trocava suas íntimas e secretas confidências e, passado o cronômetro da vida, se dá conta de que hoje vocês não têm mais nada a ver? Ou aquele revolucionário colega de faculdade que, com o tempo e a necessidade de ganhar dinheiro, virou casaca? São eles os figurantes passageiros de sua história. Sentam-se e levantam-se para dar lugar ao outro.

Em épocas tão voláteis, líquidas e gasosas como a de hoje, basta uma fagulha para esse vínculo se esvair. Você pode até compreender esse afastamento por causa de divergências e incompatibilidades políticas e ideológicas. Só que esse banquinho da era digital é capaz de promover o distanciamento social até por questões de afinidade. Se as gerações X, Y, Z ou qualquer letra de um alfabeto vindouro mal conseguem ver um vídeo ou ouvir uma música até o final, o que dizer então em relação a suas histórias? Você se tornou chato, obsoleto, cansativo. É hora de elas procuraram outro lugar pra passar seus próximos 15 minutos.

Em compensação, é muito gratificante encontrar indivíduos dados como personagens mortos que reaparecem no banco da sua vida. Pessoas que lá atrás jamais seriam seus coadjuvantes. Ou nem estavam previstas pra entrar nesse roteiro. E de repente, não mais que de repente, chegam chegando e ocupam um lugar de destaque. Te indicam uma vaga de emprego sem você pedir. Te curtem não apenas para fazer número com o joinha. Te curtem de verdade. E daí surge, quem sabe, uma relação bem mais estreita que o espaço do banco.

 

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Fast food

 

- Boa taaarde! Já conhece o esquema da casa?

- Oi... é... tô só dando uma olhadinha...

- Fique à vontade. Aqui você escolhe os ingredientes e a gente vai montando o pedido. Tudo na hora, tudo fresquinho, ingredientes naturais, com baixo teor de sódio e de gorduras saturadas. É só entrar na fila. Qualquer coisa, meu nome é Júlio. Só me chamar que eu atendo você.

- Perfeito! Posso fazer o pedido?

- Claro! Vamos lá. Menino, menina ou cis?

- Oi?

- Primeiro você escolhe: quer menino, menina ou cis? Cis é novidade do cardápio e tá tendo boa aceitação.

- É... sei lá... menino, vai...

- Muito bem... branco, negro, pardo ou amarelo?

- Como?

- Cor de pele. Você pode escolher se quer mais branquinha, mais escura ou um tom intermediário. Temos amarelo também, um ingrediente importado. E infelizmente vermelho tá em falta. Se por acaso você escolher negro, vai demorar um pouquinho mais pra assar, tudo bem?

- Pode ser branco. Ou melhor, pardo. Pega bem escolher pardo hoje em dia. Ao ponto pra bem passado, certo?

- Perfeito... loiro, negro, castanho ou ruivo? O cabelo, no caso.

- Castanho tá ótimo.

- Castanho OK... liso, crespo ou ondulado? Ainda o cabelo.

- Ah, tanto faz. Liso, vai.

- OK... cor dos olhos: pretos, castanhos, azuis, verdes ou cor de mel? Hummm, esse aqui é uma delícia, experimenta.

- Tá bom. Pode ser.

- Olho estrábico por mais um real? Pra dar um charminho? Você pode escolher o esquerdo ou o direito.

- Não, obrigado.

- Qual tamanho? Baixo, mediano ou alto? Aproveita e leva o alto que tá na promoção.

- Não, médio pra mim tá bom.

- Perfeito. Agora vamos aos opcionais, tudo bem? Direita, esquerda, centro ou isentão?

- Não entendi.

- Preferência política. Mais pra direita conservadora, mais pra esquerda, centro ou dispensa esse item?

- Queria algo mais progressista, social-democracia... vocês têm?

- Temos sim, mas é cobrado à parte.

- Então deixa. Vai dire... não, esquerda... não... isentão, pronto!

- OK. Drogas acompanha?

- Hã?

- Se quiser a gente pode acrescentar um pouco de drogas. Maconha, crack, heroína, coca...

- Quero coca! Vocês têm de latinha ou copo?

- Não, no caso eu estava me referindo às drogas. Temos também chá de cogumelo, lança, ácido, doce...

- Doce de sobremesa, quero!

- Não, meu querido. Doce, a droga. Das raves, sabe? A gente tem uma porção de opções. Tem até orégano, se quiser. Quem pede gosta tanto que fala que até vicia.

- Não, de boa. Obrigado.

- Distúrbio psíquico?

- ?

- Tá incluso você adicionar ansiedade, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, déficit de atenção, bipolaridade e até esquizofrenia. Esse no caso só a porção pequena.

- Também dispenso.

- Ótimo! Estamos quase no final do pedido. Pra fechar: coloco brinquinho, tatuagem ou piercing pra dar um up no seu pedido? Pode levar pra casa se quiser, não precisa consumir agora.

- Também não, obrigado.

- Só pra finalizar: quer levar gêmeos, com 50% de desconto na segunda unidade? Aproveita a promoção! Você pode optar por univitel9ino, a gente prepara igualzinho, ou bivitelino, aí você pode trocar até no máximo 3 ingredientes.

- Não, vou levar um só.

- Perfeito! Assim que estiver pronto eu levo na sua mesa. Se quiser acompanhar o preparo pelo vídeo de ultrassom, fique à vontade. Tá aqui sua senha: 342. Só aguardar.

(Rabicho)

- Oi...

- Ooooi... tava bom o seu pedido?

- Sim, sim. Tudo tranquilo, tudo ótimo. Só queria uma informação. É que eu procurei aqui na praça de alimentação e não achei. Por acaso vocês fazem pedido pet pra viagem?

 

domingo, 11 de abril de 2021

Sistema solar

- Bom dia, gente. Tudo bem com vocês? Cês tão me vendo?

- Bom dia, Sol. Sim, aqui dá pra te ver.

- Deixa eu ver se tá todo mundo presente... vou abrir um pouquinho a tela... tá sim. Bom dia, pessoal. Vamos começar a reunião. Queria discutir hoje com vocês a questão do alinhamento, saber se todos vocês estão alinhados, pra gente ver se estamos na mesma página. Infelizmente eu não convidei o Plutão, porque a Diretoria me parece que rebaixou ele e ele tá cumprindo aviso prévio. Semana passada foi bem turbulenta, muitos meteoros entraram na nossa pauta, foi bem difícil... Mas fiquei sabendo que vai nascer mais uma galáxia no nosso sistema...

(Todos) – Uhuu!

- Legal, né? A Via Láctea me disse que tem bastante leite pra amamentar. Ela me mandou um áudio no zap ontem antes de dormir, tá super feliz. Fez o ultrassom e vai ser menina. Então ela vai precisar tirar uns dias de licença e eu queria saber quem é que poderia cobrir ela. Mercúrio, cê que anda sempre tão próximo de mim e me conhece, pode quebrar essa?

- Vixe, Sol. Aqui o negócio tá pegando fogo. Todo dia a gente tem que apagar um incêndio. Né por nada não, mas se acumular função pro nosso lado a gente vai precisar chamar alguém pra ajudar. Hora extra todo dia. É que deu mais ou menos 6 da tarde você já vai se recolher e não acompanha a doideira depois, mas é sério: o pessoal tá varando noite direto. Todo dia eles pedem pizza. Aliás, queria ver depois com você pra quem do Financeiro eu passo as notas pro reembolso. Não é má vontade minha, juro. Bom dia.

- OK, depois a gente vê isso... eu chamei o Deus pra participar também da reunião, não sei se ele vai poder... tá resolvendo uns negócios... mas antes dele chegar eu queria que alguém começasse. Júpiter, pode ser você? Cê que tá há mais tempo na casa, é o líder da turma...

- Bom dia, pessoal! Todo mundo me vendo? É que eu troquei minha máquina, a tela nova tem só 1.236.789”, beeem menor que a da outra máquina. Tô ainda configurando direitinho. Ah, aqui tá tudo de boa. Sem perrengue nenhum. Semana passada foi bem sussa, minha equipe criou só 3.431 montanhas... parece que a demanda caiu bastante... então vamo que vamo. Suave na nave. Por falar em nave, ontem cês ouviram um barulho estranho no céu?

- Eu ouvi! Era tipo 11 da noite. Falei: “Ei, Vênus! Acorda, acorda! Vem ver!”. Ela nem tchuns, continuou dormindo. Eu não quis nem saber: peguei minha automática que deixo debaixo do colchão, peguei minha metranca que deixo na sala, peguei minha pistola que deixo na sala só de reserva, fui procurar meu fuzil na garagem mas tava escuro, aí saí na rua gritando: “Quero ver quem é macho aqui! Tenho corpo de atleta, viu? Seus covardes! Bando de maricas! Vontade de encher a cara de vocês de porrada, isso sim. Enfia essa nave no rabo de vocês!”.

(Risos) – OK, Marte. Sei que você é meio belicoso, perde a paciência de vez em quando, mas não precisava exagerar. Bom, então vamos continuar. Próximo tema é o congel... bom dia, Deus! Tudo bem? Conseguiu resolver aquela pendência?

- Bom diiia! Tuuudo beeem! Resolviii siiim, agora está tudo ceeerto!

- Deus, desculpa atrapalhar... mas acho que seu áudio tá com problema. Tá dando eco aqui. Com vocês também?

- Peraííí... melhorou?

- Agora sim!

- É que eu chamei o técnico na semana passada, mas pelo jeito ele não resolveu direito. Esses caras são tudo uma bosta.

- Então, eu chamei você aqui porque parece... peraí... Desculpe, gente, é que acabou de passar um asteroide... Então, voltando: parece que tá tudo nos conformes, mas deu ruim lá com a Terra e eu queria que você resolvesse com ela os próximos passos.

- Porra, de novo, caralho? Não aguento mais arrumar as cagadas da Terra. Todo dia, todo dia... um monte de gente buzinando na minha orelha: “Deus, me ajude...”. “Deus, me salve e me proteja...”. “Deus isso, Deus aquilo, nhem nhem nhem...”. Já me chamaram de tudo quanto é nome nessa bagaça: Pai do Céu, Todo Poderoso, Senhor, Altíssimo... É pelo amor de Deus, meu Deus do Céu, se Deus quiser, fique com Deus... porra, que inferno! Saco cheio, viu? O que foi que a Terra aprontou desasa vez? Trouxeram os dinossauros de volta? Eu já falei que NÃO É pra brincar de ficar mexendo no DNA, nos genomas, mas não adianta! Parece criança!

- Não, meu caríssimo. Parece que agora é um pouco pior. A Terra tá meio perdida...

- Perdida não! Perdida não! Cês me respeitem! Deus criou essa caralha em seis dias, quando o prazo no orçamento inicial era de 40... Eu avisei, vai dar merda... mas não! Deixa que a gente resolve! Aí deu no que deu! Fiquei ligando DIRETO pra ele no sábado, porque não parou de dar B.O. Mas só caiu na caixa postal. Aposto que deu sexta-feira ele foi pras baladas e no sábado desceu pro litoral... que ele disse que criou... mas sei lá...

- Calma, Terra. Estamos aqui pra resolver. Me explica o que tá havendo. Por que a pandemia fugiu do controle?

- Não fugiu, Sol. É só uma questão de logística. Tá tudo certo. O que houve foi um bug que entrou no sistema...

- Em qual sistema? No meu aqui não deu erro nenhum. Por enquanto! Graças a Deus, que por sinal está aqui nos assistindo. Resolve logo essa parada pra não infectar o MEU sistema com esse vírus. Já passou antivírus? Já sabe se foi um hacker?

- É que esse pessoal de TI é meio lento mesmo. Cê pede uma coisa simples e TUDO eles falam que no mínimo vão demorar três dias.

- Três dias?! Já faz MAIS DE UM ANO que a gente vê isso acontecer e até agora nada! Só piora! Eu quero prazos! Quando é que vocês vão consertar esse troço que já era pra deixar de ter acontecido desde o começo do século passado?

- Fica tranquilo, Sol. A gente resolve. No dia D e na hora H.

- Tranquilo? Tranquilo?? Tem gente morrendo por falta de oxigênio!

- Desculpe atrapalhar, Sol. Mas aqui a gente nunca recebeu esse tal de oxigênio e tá todo mundo de boa. Nunca precisamos dele.

- Tudo bem, Marte. Mas agora a questão é outra.

- Só tô avisando. A gente até se preparou. Vai que a Terra faz uma merda gigantesca e espalha isso aí pra gente. Compramos vários lotes de cloroquina, azitromicina, ivermectina...

- Gente, eu sou uma só! Não dá pra resolver tudo ao mesmo tempo! Eu tenho culpa que o vírus fica toda hora se reproduzindo? É nova variante pra cá, nova cepa pra lá... O pacote antivírus ficou desatualizado e ninguém de vocês aí autorizou a compra da nova versão. Cês acham que é fácil? Ano passado, no meio disso tudo o Deus aí ainda resolveu jogar DE NOVO uma nuvem de gafanhoto, não sei por quê.

- Não bota a culpa em mim, Terra! Eu criei as florestas, vocês foram lá e destruíram. “Passa a boiada, passa a boiada...”. Criei os animais e o que vocês fizeram com eles? Hambúrguer! Criei os peixes e vocês botaram em aquário pra ficar de enfeite. A responsa é sua, Terra! Assume o erro! Agora além de tudo eu tenho que ficar ouvindo de vocês aí “vem logo, meteoro...”. Já tô avisando: eu NÃO VOU fazer a versão 2.0!

- Bom, então é isso, pessoal. Tudo certo e nada resolvido, né? Vamos então deixar essa pauta em aberto pra semana que vem? Cês vão pensando com calma, de cabeça fria, e aí me tragam as respostas. Agora cês me dão licença eu vou participar de uma outra reunião. É um povo de fora, eles vão querer discutir realidades multidimensionais, universos paralelos, tão fazendo uma pesquisa pra saber se o nosso sistema oferece o vale-teletransporte de benefício aos colaboradores, começaram a desenvolver um protótipo de vida por meio de ondas magnéticas no lugar de moléculas de carbono, enfim... depois eu mando pra vocês um ppt na rede com essas novidades. Ah, eles também estão querendo desenvolver um projeto de uma nova forma de reprodução da vida, mas ainda não sabem se isso vai envolver sexo. Boa semana, pessoal!

 

segunda-feira, 5 de abril de 2021

A pureza e a vantagem

 

Para os adeptos da escrita, não deixa de ser trabalhoso o processo de busca pela palavra certa, no lugar certo, na hora certa. Nossa língua, tão rica quanto vasta, felizmente nos oferece um punhado de opções. Eu acesso os sistes de sinônimos mais do que minha conta do Instagram. Estou constantemente à procura de termos e significados que mais se assemelhem ao meu pensamento. Sempre tem uma ou outra palavra que “não cai bem” naquele contexto. Palavras que “soam feio”. Termos que caíram em desuso. Ou não correspondem à fala do público ao qual nos dirigimos. Quando encontramos a palavra considerada ideal, é importante observar também se não foi exaustivamente usada no texto. Enfim, o trabalho da escrita é um exercício, às vezes cansativo, muitas outras glorioso, de pincelar a jóia dentro do vocabulário, assim como faz um escafandrista.

Já que eu falei sobre públicos específicos, voltemos a 1976. E aqui preciso fazer uma explicação para todos aqueles que nasceram depois do suicídio de Kurt Cobain. Não sabem como ligar um toca-discos de vinil. Não fazem ideia do que seja o gesto de Bebeto após marcar um gol, tampouco ouviram falar do grito “É teeetra!” do Galvão Bueno. Voltemos ao futebol. Nesse ano, o meio-campista Gerson, um dos melhores da Seleção tricampeã de 70, foi o garoto-propaganda dos cigarros Vila Rica. Numa suposta entrevista, ele descrevia as características diferenciais do tubete nicotínico e, no final, destacava seu preço inferior aos concorrentes. Nessa época, propaganda de cigarro passava em qualquer horário da programação televisiva e não havia quaisquer restrições ao se vincular o produto a práticas esportivas. Ah, e também os cigarros não tinham preços tabelados. Pois bem. Por ser mais barato, Gerson encerrava dizendo que brasileiro gosta de levar vantagem em tudo. A palavra “vantagem”, em si, em princípio não ofende ninguém. Tem até um significado positivo. Existem programas de vantagens que oferecem milhas em passagens aéreas e ingressos de cinema a cada compra realizada. Tem hoje uma campanha de banco digital que fala sobre a vantagem, fazendo uma analogia ao termo usado no vôlei. Só que, na ocasião da campanha do fumo mais em conta, “levar vantagem” soou pejorativo. Pegou mal. Trouxe à tona o pior do brasileiro: aquele que fura fila, ultrapassa o semáforo vermelho, coisas assim. Pra quem não sabe, a expressão Lei de Gérson veio daí.

Um pouco mais recentemente, coisa de 10 anos atrás, lembro de ter visto numa pizzaria do Shopping Paulista um slogan mais ou menos assim: “É no forno que os amigos se reúnem”. Não lembro com exatidão as palavras. A pizzaria já não existe mais. Fui buscar no Google e não encontrei nada parecido. Mas a frase ia meio que por esse caminho. Talvez, para a extensa maioria, isso não traz nada de mais. A assinatura deixa claro que se trata de um processo artesanal de fabricação da massa redonda – o forno – não deixando dúvidas em relação ao seu preparo. E, é lógico, para um bom apreciador de pizza e vinho, uma reunião de amigos torna o momento ainda mais reconfortante. Só que, dadas as minhas ascendências hebraicas, fiquei meio cismado com a frase. Não sabia se era coisa da minha cabeça, talvez uma encanação excessiva. Quiçá eu tenha “achado pêlo em ovo”, como vários amigos meus gostam de repetir cada vez que discordam de mim nas redes sociais. Por via das dúvidas, resolvi consultar uma amiga, também judia. Na hora, ela fez a mesma associação que eu. Portanto existe sim, e isso constata o fato, a palavra que pode soar perfeita para um e incomodar o outro. Porque vivemos realidades diferentes, temos repertórios de vida diferentes. Tenho plena convicção de que não houve nenhuma maldade no redator que criou essa assinatura. Creio que ele jamais faria parte de um grupo neonazista. Mas talvez, no calor da inspiração, essa referência tenha passado batido.

Pois bem de novo. Dia desses, a jornalista e escritora Cora Rónai publicou na sua página do Facebook um post em que demonstrou se sentir incomodada com o slogan da cerveja Império, que versa sobre a “pureza alemã”. Não vi, por parte dela, nenhuma intenção de revisionismo histórico, ou qualquer tipo de levante para algum tipo de justiça em relação ao combate ao racismo estrutural. Ela expressou que achou a frase mal colocada. E, logicamente, por se tratar de uma figura pública, choveram comentários. Muitos, mas muitos deles, apontando no sentido de que ela estava criando polêmicas desnecessárias. Que deveria apagar a postagem e pedir desculpas (!). Ela mesma reconheceu, por meio de um update, que a expressão denota a qualidade no preparo de uma autêntica cerveja alemã. É como se fosse o ISSO 9000 do fermentado líquido alcoólico. Só que é um pouco complicado debater com admirador cervejeiro. É mais ou menos como tentar encontrar um campo possível aos argumentos com um obtuso fã do Iron Maiden. E se for pra falar sobre a cerveja do Iron, essa tarefa torna-se praticamente impossível. Em boa parte das réplicas, Cora foi rechaçada e, em alguns casos, até desrespeitada. Não faltaram opositores, muitos deles de sobrenomes nórdicos, alegando “choradeira e mimimi”. Isso te lembra alguém?

Nos fins de 2017, foi lançado no Brasil um papel higiênico preto, Personal VIP. O mote da campanha era “Black is beautiful”, uma alusão à frase anti-racista norte-americana. Como não poderia deixar de ser, o material publicitário gerou muitos debates e muita polêmica. Uns achavam que a campanha era racista. Eu, particularmente, não vi problemas. Até porque, entendo, essa frase mais enaltece do que vilipendia a cor negra. Mas não pertenço ao tão difundido “lugar de fala”. Não tenho autoridade e conhecimento de causa suficientes pra lacrar o assunto.

Em relação à cerveja, creio que seria no mínimo plausível os tais participantes ouvirem diversas opiniões, oriundas de várias frentes, para poderem formular melhor sua linha de raciocínio. Ao invés disso, preferiram colar na testa de Cora o selo de qualidade da Império, justificando que essa prática é comum nos demais rótulos de cerveja. Até compreendo. Não vejo qualquer tipo de discriminação quando leio “puro malte”. Ou quando ouço a camionete de bairro gritando “o mais puro creme do milho”. Só que, diante dos vários movimentos ultra-reacionários ascendentes no mundo inteiro, falar de “pureza alemã” pode parecer, no mínimo, algo um tanto esquisito. Já que a Propaganda, essa mesma que vem incorporando a miscigenação de raças, de cores e de credos para mostrar a imagem de suas marcas “plurais”, já que a diversidade étnica e cultural virou o lugar-comum dos comerciais, falar que a casta nobre invadiu nossas terras para disseminar sua eugenia etílica é um risco ao bom senso.

 

domingo, 7 de março de 2021

Réquiem

O Brasil está morrendo. Falência múltipla dos órgãos. Não é uma morte brusca, repentina. Como se tivesse levado um tiro no peito. Como se fosse acometido por um infarto fulminante. Como se tivesse sido atropelado. Na verdade, o Brasil foi atropelado. Ficou parado, distraído, fora da faixa da História. E o mundo passou por cima dele, sem piedade. Nosso país vai falecendo aos poucos. Não de punhalada certeira. Mas de soquinhos no estômago. Golpinhos de canivete.

Na guerra contra o vírus, as baixas são diárias. Não se trata de uma bomba de Hiroshima, ou de um extermínio em massa. Perdemos a batalha dia após dia, sem que um único tiro de revólver seja disparado pelo inimigo. Uma derrota baseada na estratégia de grão em grão. Ficou muito fácil para o vilão se sair vitorioso. As missões de resgate e salvamento nunca chegam. Não temos um comandante. Para o psicopata oligofrênico que nos dirige, a coragem do guerreiro se caracteriza por atravessar o front sem camisa no inverno. Ou andar pelas ruas sem máscara. Todos os outros que se escondem nas trincheiras ou aguardam a chegada de munição, de acordo com o limítrofe, são covardes. Temos aí um exemplo de capitão que promove táticas suicidas, justamente por não oferecer tática nenhuma à sua tropa. Nós, os medrosos, os maricas, estamos apavorados só de assistir a esse crescente genocídio em doses homeopáticas. 

Do ponto de vista econômico, nossa situação é igualmente falimentar. Da mesma maneira, não houve um crack da Bolsa para assassinar de uma só vez todos os investidores. A coisa é paulatina. Comércio fechando as portas um por um. Auxílio emergencial que só tapa buracos. Quando chegar. Caímos 6 posições no ranking das economias mundiais. A inflação volta, as taxas de juros começam a subir novamente, e ninguém em sã consciência acredita mais na prosperidade dessa nação em ruínas. Fracassamos nas relações diplomáticas, perdemos lugar nas negociações internacionais. Não resta ao exterior o mínimo de credibilidade num território que devasta suas riquezas naturais para atender a interesses específicos de curral.

Outro órgão vital que vem definhando por etapas: o meio ambiente. Nunca se devastou tanto de nossas áreas verdes como nos últimos anos. Nosso pulmão padece por asfixia gradual. Árvores são derrubadas, uma por uma. Com decretos aprovados às escuras, com o afrouxamento das leis ambientais, seguimos o rumo do nosso enterro na base do "passa a boiada".

Estão nos matando pela boca. Não só pela fome, mas também pela vontade de nos calar. Uma censura que vem sendo imposta de tiquinho em tiquinho, silvertape por silvertape. Não como na época dos anos de chumbo, em que majores e coronéis invadiam teatros para interromper apresentações e prender atores considerados subversivos. Não como fazia a Solange Hernandes, que cortava cenas do cinema nacional, como era advertido nas cartelas que antecediam a exibição dos filmes. Não como no auge do AI-5, em que grupos organizados invadiam as redações dos jornais e davam um sumiço em seus colunistas, alegando posteriormente um suicídio sem provas. Aqui a coisa é mais lenta, mais branda, mas não menos perigosa. Criam-se medidas para extinguir verbas obtidas por meio da Lei Rouanet previamente destinadas a cidades que cumprirem o isolamento social. Criam-se acordos de "cala-boca" que obrigam professores universitários a não falarem mal do presidente, no exercício de suas funções. É notório que o atraso no repasse de verbas federais aos estados se dá por conta de divergências ideológicas entre seus líderes.

Morre em conta-gotas o país que vem sendo destituído de sua democracia constitucional. Cargos de confiança e de chefia estão sendo militarizados tintim por tintim. Dessa forma, escapa-se da acusação de golpe de estado. É um nome que vem sendo convocado depois de outro, como se fosse uma lista de chamada. Isso sem falar nas constantes ameaças e no risco iminente de voltarmos para a ditadura. "Quem decide o sistema de governo é o Exército". "Se tudo tudo tivesse que depender de mim, não viveríamos neste regime".

O Brasil está morrendo porque temos um sociopata no poder. O discurso de morte está a toda hora em suas falas. "Não sou coveiro". "Fui treinado para matar, não para salvar vidas". "Até quando vão ficar chorando?". Sua obsessão por armas virou um caso patológico muito além de ideologias direitistas. Não é razoável que o país tenha, como prioridade, o aval para que cada cidadão possa ter em sua posse 6 revólveres dentro de casa. 

Mas, principalmente e sobretudo, o país está morrendo por causa de sua nação. Perdemos todas as nossas forças de lutar para a virada do jogo. Não existe uma oposição sólida e consistente que possa fazer frente a essa chacina presidencial. Perdemos nossa vontade de acreditar num futuro melhor, pois isso nos parece ao mesmo tempo risível e utópico diante da crua realidade. Perdemos qualquer sinal de vitalidade e de esperança, já que esse ato heroico exige de nós um esforço hercúleo. Estamos entubados, vítimas da nossa desgraça que nos acometeu por capítulos. Que venha a extrema unção e um enterro ao menos digno.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Já vai tarde

 

É, pois é, 2020... estou aqui ao seu lado, neste hospital lotado, segurando sua mão, conversando com você, e eu só tenho uma coisa a te dizer: quero mais é que você morra.

Sei que você está inconsciente, respirando por aparelhos no seu leito de morte, mas tenho certeza que tá me ouvindo. Te desejo isso, do fundo do meu coração, pelas maldades que você fez. E você aí, intubado, merece esse castigo pelo tanto de pessoas que deixou nos corredores, tossindo, agonizando, à espera de uma vaga. Não tem vergonha na cara não? Só aqui você infectou mais de 7 milhões de pessoas. Matou quase 200 mil, deixando as famílias sofrerem enlutadas por causa desse coronavírus que trouxe da China, dos morcegos, dos tatus, sei lá de onde. Precisava ser tão cruel?

Seu pacto com o demônio começou bem antes da pandemia. Já em janeiro você começou a praticar o mal. Não deu trégua a ninguém, por um segundo sequer. Brincou de fazer chuvas, só que pegou pesado demais. Alagamentos, desmoronamentos, desabrigados em várias regiões do país, como Osasco e Baixada Santista. Resolveu botar um pouquinho de um tal de dietilenoglicol na cerveja da cervejaria mineira Backer, intoxicando várias pessoas e matando algumas delas. Não teve infância não? Parece que seu negócio é mesmo envenenar aquilo que a gente bebe. Botou um treco aí, parece que geosmina, na água do Rio de Janeiro, fazendo com que os cariocas não tivessem outra opção a não ser tomar água suja e fedida, cheirando a esgoto.

Aí depois veio aquilo que a gente já sabe. Ou melhor, não sabe. Ou não sabia. Você deixou todo mundo confuso. Até os médicos, as autoridades máximas da OMS, entraram em contradição. Fala a verdade, você só fez isso pra agradar seu ego. Quis assustar o mundo inteiro: surpresa! Era novidade todo dia, notícias contraditórias. Será que o vírus passa em contato com superfície? É contagioso como o ebola? Por que criança e cachorro não pegam? Se eu ficar com febre e dor de garganta, devo ir pro hospital ou ligar pro médico? Mas e seu eu for pro hospital, será que não corro o risco de pegar ali a doença? Que sacanagem... Até mesmo o renomado dr. Drauzio Varella no começo disse que isso era uma gripezinha. Depois pediu pra tirar esse vídeo do ar porque se arrependeu do que falou. Nem os médicos, doutores catedráticos em tudo, tinham as respostas. Sim, o Drauzio, tá lembrado? Aquele que entrevistou um travesti na prisão para o Fantástico, tomou as dores da solidão do entrevistado e depois virou meme. Bom, pelo menos isso você nos deixou de bom. Nunca se produziram tantos estudos, tantas pesquisas científicas em tão pouco tempo. Começamos a valorizar mais os médicos, os infectologistas e os profissionais de saúde que trabalham na linha de frente, salvando pacientes terminais no meio desse verme desconhecido. Quem diria que um dia o Atila Iamarino se tornaria campeão absoluto de visualizações em seu canal?

Só que eu não tô te elogiando, viu, seu safado? Muitos desses médicos e enfermeiros perderam suas vidas. Os que ficaram precisaram ser afastados por suspeita de contágio ou por estresse. Você deixou o sistema de saúde pública caótico no mundo inteiro. E junto com essa busca desenfreada pela ciência e pelo conhecimento vieram os negacionistas. Vai me dizer que não sabe o que é. São aqueles que acham que a Terra é plana. Que se recusam a tomar vacina. Que acreditam no isolamento vertical. Que desafiam autoridades e não usam máscara nem por decreto. Que vivem falando que a dengue matou mais pessoas, é tudo alarme falso da mídia esquerdopata.

Você é um sádico, 2020. Proibiu as pessoas de se abraçarem, se beijarem. Agora a gente olha cada um na rua que espirra como um suspeito, um inimigo. E não vem com esse papinho de que mesmo à distância estamos próximos um do outro. Bullshit! Você isolou todo mundo. E eu não tô falando só do fato de se ficar em casa, não. Você criou bolhas. Polarizou a sociedade que já estava polarizada. Você dividiu em vez de somar. Nunca vi tanta lacração e tanto cancelamento, na mesma proporção.

Quer que eu continue? Então... Sobre esse lance do confinamento... Você encheu nosso saco com esse papo furado de solidariedade, de se reinventar, ah, agora tá todo mundo se dedicando mais à família, fazendo ginástica em casa, todo mundo aprendeu a fazer pão, home office pra cá, home office pra lá, nhé nhé nhé... tudo conversa pra boi dormir. Você só conseguiu despertar o pior das pessoas. Nunca nos vimos tão egoístas e apavorados. Os casos de ansiedade e depressão cresceram na velocidade da luz. Você foi mais letal que seu bisavô 1918, o ano da gripe espanhola. Você fez um estrago na Economia ainda maior do que seu avô 1929, quando houve a quebradeira da Bolsa. A recessão para os próximos meses vai ser incalculável. E não sou eu que tô falando. São os especialistas do setor. Empresas de tudo quanto é tamanho fecharam suas portas para todo o sempre. A Sony se pirulitou daqui, depois de quase meio século. Vão pra falência principalmente as pequenas, que não conseguiram um bote salva-vidas dos bancos. Restaurantes tiveram que aprender na marra a fazer delivery só pra pagar as contas e manter o mínimo de funcionários. Isso pra quem conseguiu se manter no emprego. Só aqui no Brasil a gente soma 14 milhões de desempregados. Você teve a pachorra de acentuar ainda mais as desigualdades, a fome, a miséria.

2020, você é um verdadeiro filho da puta. Olha só o que você aprontou. Explodiu o porto de Beirute. Criou uma nuvem de gafanhotos. Quer trazer de volta as pragas do Egito, é isso? Tacou fogo no Hospital de Bonsucesso. Por acaso você acha que é Nero? Tenha dó! Pacientes que estavam sendo tratados de Covid morrem na transferência para outro hospital. Muito irônico, você. A pessoa escapa da morte de um jeito e morre de outro. Aliás, você não perdoou o Rio de Janeiro nem um pouco. O que tem contra a Cidade Maravilhosa? Escândalos na Saúde, compra superfaturada de respiradores e equipamentos de proteção, hospitais de campanha que não foram entregues... e as praias lotadas de Copacabana? A corrupção foi tanta que tivemos que impichar o governador Auchwitzel e enviar mandado de prisão domiciliar pro prefeito Crivella, acusado de chefiar o QG da propina. Sim, aquele que no começo da pandemia queria que todo mundo pegasse logo a doença pra criar imunidade de rebanho pra não precisar gastar um centavo com cuidados médicos com a população. Aquele que dava ordens por zapzap pros seus guardiões, para que impedissem a entrada de jornalistas nos hospitais pra fazer cobertura do estado calamitoso desses hospitais e enfermarias.

Você é um lixo, 2020. Simplesmente acabou com a nossa Cultura. Fez um desmonte geral em nome da ideologia. Botou um ministro que fez um pronunciamento com todos os requintes de um vídeo nazista. Depois botou a Regina Duarte. Pois é... a namoradinha do Brasil, lembra? Falou que tinha saudades de cantar uma música da ditadura, deu um piti numa entrevista ao vivo, parou no meio, disse que tinha tanta coisa boa pra falar... pelo jeito não tinha, né? Entre namoro, casamento e divórcio, foram menos de três meses. Se é pra colocar alguém que casa e separa em tempo recorde, seria melhor botar a Gretchen de ministra. Cê sabe quem é. Aquela que um dia foi a rainha do bumbum. E resolveu jogar toda a sua bunda pro seu rosto. Fez um monte de plástica, aplicação de botox... esse ano ela resolveu fazer uma tal de harmonização facial. Um treco aí que você colocou em moda. Até o padre Fábio de Melo você conseguiu convencer a aderir a essa porra. Mas voltando... depois da Regininha, você colocou aí no cargo um galãzinho de Malhação pra cuidar da pasta. Sim, uma pasta. Você reduziu esse ministério a pó. Acabou de vez com a Cinemateca, demitindo funcionários de carreira. Reabriu os cinemas no Dia das Crianças, exibindo uma versão final do diretor de Apocalipse Now. Quem diria... o apocalipse nas telonas... nada mais faria tão sentido nesse momento tão dramático que você promoveu. Você trouxe toda a tristeza para as artes. Esvaziou plateias. Atores de teatro tiveram que fazer suas peças olhando pra cadeiras com balões vermelhos. E quer saber de uma coisa? Eu ODEIO lives! Não aguento mais essa cantoria virtual, cada tenor ocupando 1 centímetro da tela do meu celular. Cadê a emoção? Cadê o calor humano? Você deixou tudo muito plástico, mambembe, improvisado, artificial. Eu quero é a vida de volta!

E na Educação, então? Você deixou os alunos sem aula por praticamente todo esse período. Você privilegiou quem tem internet boa em casa e condições de aprender todo o conteúdo sozinho no quarto. Você criou um vão enorme entre as crianças ricas e as mais pobres. Isso sim é distanciamento. As consequências desse atraso no ensino vão ser sentidas pelos jovens durante a próxima década inteira. Você nomeou para ministro um maçom evangélico que não fez absolutamente nada a não ser adiar a prova do Enem e ficar tuitando o dia inteiro. E com erros de Português! Ele era seu homem de confiança. Um cara que falou que tinha que prender aqueles vagabundos ministros do STF. Depois quis nomear um ministro que deixou de ser sem nunca ter sido, por causa de um currículo mais falsificado que whisky paraguaio. E agora botou lá outro ministro da sua ala religiosa, que acha que bater em criança serve de corretivo.

Você é um traste, 2020. Promoveu o ódio, a intolerância, o preconceito. Achei que tudo isso fosse uma página virada na história. Como fui ingênuo... você matou George Floyd por asfixia, dando início a uma série de manifestações no mundo inteiro como a gente nunca viu nesse século. Vidas negras importam, sabia? Achei que isso serviria de aprendizado. Que nada! Logo depois, na véspera de um feriadão, Dia da Consciência Negra, você me aparece no Carrefour e mata o João Alberto usando o mesmo método. Que vergonha... E ainda por cima tem a cara de pau de falar que no Brasil não existe racismo. Sim, o Carrefour. Não adianta livrar o supermercado da culpa, não. Ele não é réu primário. Já matou cachorro, já escondeu cadáver embaixo de guarda-sol, enfim...

E o que você fez com as crianças, seu bosta? Apertou o botão do elevador de um prédio de luxo lá de Recife só pra se livrar do Miguel, filho da empregada que foi passear com o SEU cachorrinho de estimação. Caiu do 9º andar, morreu na hora. Tinha só 5 anos, coitado. E o adolescente João Pedro, de 14 anos, lá em São Gonçalo? Morreu enquanto estava brincando dentro de sua própria casa. Precisava dar 70 tiros? E as meninas Emily e Rebecca, de 4 e 7 anos, que também morreram enquanto brincavam? Tiros de fuzil numa operação policial! Em Duque de Caxias, esse mesmo Rio de Janeiro que você tanto detesta. Nossa, só de lembrar me dá vontade de chorar... culpa sua, seu ignorante, que não prepara a PM pra proteger e servir a população.

E o que falar das mulheres? Cê não curte muito elas, né, seu babaca? Mais uma vez, batemos recorde de casos de feminicídio. Foram quase 700 durante o ano. Só no Natal foram meia dúzia. Inclusive uma juíza, morta a facadas na frente de suas filhas. Você veio com esse papo de ficar em casa, que é o lugar mais seguro... que nada! Você só fez aumentar o número de ocorrências policiais decorrentes da violência doméstica. Foi agressão atrás de agressão. Foi graças a você que tivemos um número maior de divórcios. Você não poupou ninguém, seu misógino do caralho. Apalpou os seios de uma deputada, em pena sessão na Assembleia! Cometeu assédio sexual com a Dani Calabresa. Você é horrendo. E ainda quis minimizar a questão. Estupro culposo, que porra é essa? Até seu amigo Robinho foi acusado de estupro e, em vez de se desculpar e criar um movimento de conscientização sobre a causa, sabe o que ele fez? Ficou tirando sarro nas redes sociais. Vergonhoso. Você expôs uma vítima ao constrangimento em plena live judicial, como se ELA fosse a culpada por ter se insinuado. Estupro é coisa grave, mas parece que você não se importa muito, não é mesmo? Lembra daquela menina de 10 anos que foi sexualmente violentada pelo próprio tio? Teve que ir escondida no porta-malas do carro até o hospital pra fazer o aborto. Isso porque você é retrógrado, cara. Vive na Idade Média. Ficou lá, na porta do hospital, fazendo protestos e tentando impedir a cirurgia. Se liga! A Argentina acabou de aprovar a lei do aborto. E você aí, continua falando sobre kit gay e mamadeira de piroca.

Bom, nem precisa falar sobre o meio ambiente, né? Você simplesmente fodeu com a natureza. Incêndios florestais na Austrália, incêndio na Flórida, que atingiu quase 4 mil carros... Foi triste ver aquelas imagens de animais mortos, ou feridos... Você esquentou ainda mais o planeta. Tivemos o verão mais quente dos últimos 70 anos. E aqui no Brasil não seria diferente, né, seu testa de catzo? Todas aquelas queimadas no Pantanal. O desmatamento recorde na Amazônia. Você foi uma verdadeira mãe para os madeireiros, posseiros, grileiros. Passou vergonha ao lado de Al Gore, dizendo que quer explorar a Amazônia junto com ele. Que ridículo... Você é motivo de piada no exterior. Vários investidores europeus vão deixar de investir aqui por causa de sua política de abrir as pernas nessa questão. Sabia que muitos estrangeiros começaram a boicotar os produtos que você fabrica? E aquele papelão na reunião ministerial? Diante de tanto desmatamento e tanto descaso com o meio ambiente, você chega e fala: passar a boiada?

Você é sórdido, 2020. Prometeu acabar com a corrupção no país.  Só que, na real, foi um dos mais corruptos da história. O escândalo das rachadinhas, com o Fabrício Queiroz operando essa grana toda. Sabe? Aquele que foi encontrado escondido nos porões da casa de Wassef, o advogado da família de Bolsonaro. Ninguém soube explicar de onde vieram os R$ 89 mil que ele depositou na conta da primeira-dama, Micheque. Teve a loja de chocolate que serviu de fachada para lavagem de dinheiro. E o Gabinete do Ódio, que foi financiado com dinheiro público para divulgar fake news nos grupos de zap? Na cara dura, numa das salas do próprio Palácio do Planalto.

Nem preciso falar muito sobre a Saúde, né, seu calhorda? Nunca tinha ouvido falar em lockdown. Comorbidade e perdigoto viraram palavras tão corriqueiras quanto puta que o pariu. Quase 1 milhão de pessoas já morreram dessa praga. E tem gente que ainda bate de frente com as autoridades. Você vive negando a gravidade da situação. Anda de cavalo no meio da multidão. Dá um rolê de Jet ski. Vai praticar tiro, seu esporte preferido, enquanto os estados e municípios abrem valas comuns para enterrar os mortos. Esquece de usar a máscara, ou faz isso de propósito. Passa a mão no nariz e depois vai cumprimentar um apoiador. Você é um porco, mesmo. Até a ema resolveu te bicar! Patético... Toda hora você arruma treta com os governadores. Boicota as vacinas. Comprou um estoque de milhões de caixas de cloroquina, mesmo que o medicamento não tem comprovação científica! Você está longe de ser um mito. Você é um genocida. Foi um dos mais omissos no combate à pandemia. Trocou de ministro três vezes. O primeiro até que era bom. Profissional da área, entendia do assunto. Mas esse último aqui... pelamor... general na ativa? Reconhecido pela sua logística, mas que não sabe planejar nada? Deixou milhares de testes estragarem nos galpões de um aeroporto. Esqueceu de comprar seringas para as vacinas. Não faz ideia do que seja o SUS. Tenha dó!

Eu ainda queria falar um monte de coisa, seu crápula. Mas sei lá, você já tá morrendo mesmo... Aquela vexatória reunião ministerial, com um monte de baixaria... e eu nem tô me referindo aos palavrões! A demissão do Moro, seu ministro mais forte, por causa das provas que ele tem sobre sua nomeação para a Polícia Federal. Imposto zero para importação de armas... aquela desafinada sanfoneira de Ave Maria... aquele cercadinho de minions, que vinha te aplaudir e bater em jornalista... aquele bando de ultra-reacionários, que vieram vestidos de Ku-Klux-Klan pra atirar fogos de artifício em direção ao prédio do STF... Sara Winter, putz... aliás, o que não faltou foram reaças vestidos de verde-amarelo, né? Querendo o fechamento do Congresso, pedindo a volta do AI5... e você aí, rindo de tudo isso, adorando o movimento... você não presta.

É, tô vendo aqui o monitor do seu leito... seus batimentos cardíacos aumentaram, né? Sabia que você não estava totalmente inconsciente. Mas calma que eu ainda não acabei. Não posso deixar de mencionar as asneiras que você falou, meu caro repugnante 2020. Quase todo dia você ia pro seu curralzinho ou pras redes sociais falar uma merda diferente. Nem consigo me lembrar de todas, porque meu ouvido não é penico. Mas algumas ficaram ecoando aqui na minha cabeça. Gripezinha... e daí?... não sou coveiro... cala a boca... vontade de encher sua boca de porrada... quem é de esquerda toma Tubaína... quem toma refrigerante cor-de-rosa vira boiola... aliás, que fixação essa por refri, hein? Mas, continuando: país de maricas... brasileiro pula em esgoto e não acontece nada... pandemia no finalzinho... tem muito mais, viu?

Bom, sei que falei demais e você não vai conseguir acordar pra consertar todas essas cagadas. Mas não posso deixar de fazer uma homenagem a todos que você levou embora. Logo no comecinho do ano você matou o Neil Peart, o maior baterista do mundo. Aliás, você foi implacável com os bateristas de rock. O que você tem contra eles? Frankie Banali, Lee Kerslake... você também matou o guitarrista Eddie Van Halen, lembra? Ennio Morricone! A lista é grande, seu sádico do caralho. Moraes Moreira, Aldir Blanc, Flávio Migliaccio, Fernando Vanucci, Orlando Duarte, Daniel Azulay, o rei do basquete Kobe Bryant, Pierre Cardin, o pantera-negra Chadwick Boseman, coitado... teve também a Vanusa, Nicette Bruno, Sean Connery, Tom Veiga, mais conhecido como Louro José, Paulinho, vocalista do Roupa Nova, Zé do Caixão, o cartunista Quino, que criou a Mafalda... até o ídolo Maradona você assassinou! Tá certo que ele vinha tendo problemas de saúde, mas enfim, continuando... Cecil Thiré, Rui Chapéu do bilhar, Little Richard, Kirk Douglas, Eduardo Galvão, Paolo Rossi, Rubem Fonseca, o ministro Bebianno, Gilberto Dimenstein, Kenny Rogers, Maria Alice Vergueiro, Rodrigo Rodrigues, aquele simpático jornalista... Terry Jones, do Monty Python, Joel Schumacher, que dirigiu o mais cafona dos Batmans, Ciro Pessoa, ex-Titãs, Leonardo Villar, Sérgio Sant’Anna, Zora Yonara... nem pra Astrologia você deu folga... Tunai, Nelson Leirner, Peter Green, Johnny Nash... I can see clearly now, lembra? Teve o ex-Menudo Anthony Galindo... to vendo aqui, Fábio Guimarães, idealizador de um aplicativo que monitora a Covid-19... sério, cara? Jura que você teve a coragem de fazer isso? Teve Max Von Sydow, juiz Nicolau... bom, esse não vai deixar saudades... Alan Parker, Kelly Preston, enfim, a lista é gigantesca. E isso só mostra o quão mau-caráter você foi.

Pois é, 2020. Seu tempo de vida aqui na Terra foram 366 dias. Mas parece que você viveu uns 107 anos. Isso mesmo, 366. Ainda por cima você foi um ano bissexto, era só o que me faltava! Se pelo menos ainda houvesse o horário de verão, pra você partir pra longe uma hora a menos... mas não! Sua jornada aqui foi longa e interminável. Pelo menos agora posso me despedir de você. Então eu encerro meu longo discurso dizendo: apodreça no Inferno! Saia logo desse leito e vá repousar eternamente no seu túmulo de mármore. Eu não te quero mais! Nem vou festejar a sua passagem com fogos de artifício porque você nos proibiu de comemorar o réveillon. Desencarna logo e dê lugar para seu filho 2021, que certamente vai nos reger com muito mais amor e leveza.

 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Burger King

 

Como publicitário e consumidor de fast-food, não posso deixar de admitir: as campanhas da rede Buger King são do caralho.

 Nos meus mais de 30 anos de profissão, confesso que minha relação com a profissão nunca esteve tão desgostosa. A Propaganda perdeu seu brilho, seu charme, sua irreverência. Tá tudo muito genérico, muito padronizado, muito parecido. 2020 escancarou uma tendência que já vinha se notando nos anos imediatamente anteriores. Parece que todos os clientes estão falando a mesma coisa. O discurso é o mesmo. Começamos a prestar atenção nos anúncios, comerciais e postagens no modo soneca. A gente se esqueceu das marcas, pois todas elas parecem fazer parte de um mesmo pacote. Reparou nas campanhas de banco? Tudo igual. É aquele mesmo tom emocional, milimetricamente calculado para fazer chorar. E para vender a imagem solidária de um dos segmentos de mercado mais perversos durante a pandemia. E as operadoras de celular? Minorias raciais fazendo exatamente as mesmas poses, só pras empresas ficarem bem na fita no que diz respeito à diversidade. O consumidor ficou chato. Eu fiquei mais chato. E a Propaganda deveria trazer aquele frescor. Mas não. Ficou tão chata quanto a gente.

 A Propaganda ficou sem graça, em boa parte pela mudança de processos. Hoje você não consegue vender uma proposta se ela não vier embalada numa apresentação em Power Point com 100 slides. A parte boa, gostosa e divertida de se assistir não ocupa mais do que 20% desse projeto. Tá lá, embutida, tímida, seguida de uma defesa criativa. A Publicidade brasileira virou isso. A necessidade de defender e o medo de atacar. Tudo agora é conceito. Um brinde de fim de festa não pode ser só um brinde se não tiver um conceito. Tudo tem que estar amarrado, linkado e outras palavras que os neomarqueteiros adoram usar. A criatividade cedeu lugar à viralização. Não basta ser um gênio. Tem que ter seguidores, tem que promover o buzz, tem que ter uma historinha por trás. Storytelling, debriefing, benchmark, live marketing, social media, user experience. Novos nomes, novos modos de operar, uma nova realidade que camufla, acoberta e ofusca cada vez mais a essência e a alma do negócio: a boa ideia.

 É por isso que eu vejo o Burger King como um oásis no deserto. Me faz lembrar os áureos anos 70, 80 e parte dos anos 90. Quando a Publicidade brasileira era mundialmente premiada com louvor. Quando o comercial de 30” ficava retido na memória pelo seu aspecto inusitado e não pela insistência de veiculação. Quando a gente ligava a TV só pra ver esses filminhos. Folheava uma revista só pra ver os anúncios. Naquela época eu entendia o sentido da frase que diz que o ótimo é inimigo do bom. Que saudades, que delícia lembrar do embate ideológico e publicitário das campanhas da Folha e do Estadão. Aquilo sim era polarização de verdade, de bom gosto.

 O Burger King trouxe de volta essa ousadia esquecida. Deixou de lado a fobia do erro. Não tem pudor algum em mostrar o anti-appetite appeal. Aprendi na faculdade que, de um modo geral, via de regra, o segundo lugar no ranking de consumo costuma se valer de uma comunicação mais agressiva em comparação com o líder. Faz um certo sentido. As campanhas da Pepsi são mais memoráveis que as da Coca-Cola. A gente quase não guardou nada muito marcante da Nestlé, Unilever, Samsung. O Mc Donald’s, por exemplo, faz belas campanhas eletrônicas e digitais. Assistindo ao preparo de um sanduíche, dá vontade de salivar. Nas redes sociais, usa uma linguagem engraçadinha. Até aportuguesou o nome de suas lojas. Mas nada que fique pra história. Do ponto de vista ético e estético, tudo muito convencional. Já o Burger King foi além. Entrou de cabeça na política ao veicular uma campanha contratando o elenco rejeitado por Bolsonaro nos filmes do Banco do Brasil. Pode ter sido uma estratégia oportunista, mas ao menos serviu para cutucar o estado das coisas e trazer um pouco mais de calor a essa publicidade tão branda, tão morna e tão politicamente correta. Publicou a foto de um sanduíche mofado, esverdeado, que despertou nojo ao invés de fome. Mas ali havia uma grande ideia. Aquilo foi uma provocação, um ataque frontal ao seu principal concorrente e arqui-inimigo de vendas, que usa uma série de conservantes e ingredientes químicos para que seus produtos não envelheçam. E eis que ontem, no intervalo da Retrospectiva 2020, me deparo com a mais recente boa-nova da rede. Vi na TV, aquela geringonça que enfeita a sala. TV aberta, Rede Globo, antigo canal 5. Porque, quando a ideia é genuinamente boa, não importa onde seja transmitida. Na pausa em que se recapitulou esse horrendo 2020, o filme do Burger King mostrou pessoas deglutindo um lanche igualmente horrível, composto por gororobas como jiló, pé de galinha, jaca, miojo e outras descombinações. Foi a melhor comparação simbólica do ano. A degustação desse lixo gastronômico causou ânsia de vômito aos participantes, assim como a pandemia, o uso de máscaras e o “e daí?” causaram essa mesma vontade a nós, telespectadores. Parabéns aos envolvidos. Vocês trouxeram de volta o humor a um segmento de mercado tão anódino ultimamente. É isso que de fato nos chama a atenção: uma ideia ótima no meio de um ano péssimo.

 

domingo, 20 de dezembro de 2020

Aspirador de pó

 

Natal é época de realizar sonhos, fazer pedidos e correr atrás dos objetos de desejo. Sonhos, pedidos e desejos, isso é o que resume a festividade. Se Papai Noel fosse psiquiatra, estaria com seu consultório lotado até a próxima década. Durante os últimos dias do ano, marcado por restrições e contenções de despesas, a gente faz questão de sonhar alto. Pede logo uma TV Ultra HD 8K tamanho Espaço Itaú de Cinema. Ou gasta todo o 13º dando entrada nela. Pede um ar-condicionado, logo agora que faz um calor da porra, que obedece ao dono por comandos de voz. Solicita ao velho barbudinho uma casa conectada, em que todos os aparelhos parecem fazer parte de um grupo de WhatsApp, e com um controle remoto universal você consegue ao mesmo tempo ver o que tem na geladeira, selecionar a função gratinar do micro-ondas e escolher um filme na Netflix.

 

Eu também queria sonhar com uma Ferrari doméstica. Mas estamos em 2020, lembra? Qualquer coisa que vier do saco do Polo Norte já tá de bom tamanho. E tem outra: com os péssimos serviços de delivery observados recentemente, não é bom contar muito com a sorte. Vai que as renas confundem as chaminés e seu pedido vai parar numa fábrica desativada da Mooca. É que nem os especialistas em Economia falam: em época de pandemia, não existe almoço nem frete grátis.

 

Por isso, optei por uma escolha mais módica. Fui até uma loja física e comprei um aspirador de pó. Não quero ter uma casa igual à do Luciano Huck nem acabar com a fome do planeta. Se eu conseguir acabar com minha lordose já fico satisfeito.

 

O aspirador de pó aqui de casa está mais quebrado do que eu após a faxina. Tudo se desmonta. Parece que foi fabricado pela Lego. A alça para transporte manual se soltou da base e está amarrada por um barbante. O tubo plástico se solta a cada arrastada. De tanto ser pressionado em superfícies, o orifício de sucção do cano (esse é o termo técnico; não vá pensar bobagem) se comprimiu. Antes dava pra passar uma bola de tênis por ele. Agora, mal e mal uma bolinha de gude. A vassourinha que se acopla ao cano tem uma quantidade de fios de cabelo igual ao véio de Havan. Descobri que meu aspirador sofre de asma, coitado. Não consegue inalar a poeira por muito tempo sem tossir. Não é um aparelho propriamente pesado. Mas é um inútil. Largado. Não dá a mínima vontade de carregar esse encosto. Numa relação proporcional entre a massa atômica de um corpo que ocupa lugar no espaço e os serviços que ele presta à Humanidade, poderia dizer que adotei o cantor Péricles. Talvez ele até tenha lutado bravamente no combate à sujeira. Logo depois da Segunda Guerra. Acredito que ele tenha sido entregue à nossa casa, lacrado e autografado pelo próprio inventor do aspirador de pó. Ou não. Talvez essa geringonça tenha sido comprada no Mappin, em 10 parcelas de 2,5 milhões de cruzados novos. Não sei. Procurei o manual de instruções para saber sobre a assistência técnica. Estava escrito em aramaico. Fui ver na garantia. Venceu no dia do milésimo gol do Pelé.

 

 

Quero deixar registrado que odeio, com todas as letras, fazer faxina e tirar o pó da casa. Isso me remete aos tempos mais traumáticos da minha adolescência. Não consigo atenuar o desgaste que isso me causa ou minimizar a chatice da tarefa. Não vejo essa função como um substituto ao exercício em academia. Lá na Smart Fit você tem a chance de paquerar as meninas com seus corpos esculturais. Na faxina, o máximo que vai acontecer é você exibir suas banhas e sua camiseta velha do Iron Maiden pros vizinhos. Na academia você se transforma num Vin Diesel. Limpando a casa, você vira um Corcunda de Notre Dame. Na malhação você libera endorfina. No suadouro doméstico você implora por um Dorflex.

 

Mas, já que esse afazer é obrigatório, necessário e inevitável, e durante o isolamento social não tem ninguém que faça por você, o jeito então é sonhar. Com um aspirador prático, potente, fabricado neste milênio. Que limpa, que funciona, que te faz feliz por meia hora. Esse é meu desejo freudiano. Passar o Natal livre do coronavírus, dos ácaros e da escoliose.

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Geração 68

Nasci em 1968. Tenho, portanto, 52 anos. E o conselho que posso dar a vocês, meus amigos, do fundo do meu coração, é: excluam, bloqueiem, deletem, eliminem de todas as formas possíveis as pessoas nascidas nessa data.

 

Sei que pode parecer cruel agir dessa forma com quem fez parte de um período de grandes transformações mundiais. Que nasceu junto com a revolução. Nada disso. Talvez você até tenha trazido no seu imaginário a figura de Godard ou Bertolucci, ícones de uma geração contestadora. Mas, no fundo, é bom lembrar que meu prelúdio de vida coincide com o Ato Institucional número 5.

 

Quem é de 68 ocupa espaço num limbo histórico. Preenche um vácuo tardio demais para a geração hippie e precoce demais para a geração Z. Teve sim a Tropicália, o Jimi Hendrix, a pop art de Andy Warhol, o Cinema Novo, os guerrilheiros e muito mais representações simbólicas e ferozes de uma sociedade inquieta. Mas eu estava cagando nas fraldas, e minha única preocupação era não tropeçar nos fios da Telefunken enquanto engatinhava. Ou engasgar com os gordos farelos da farinha láctea Neston. Meu pipi era subdesenvolvido demais para que eu pudesse participar das orgias, esbórnias e bacanais promovidos pelos ripongas e seu estilo de vida flower power. Morria de inveja. Sei apenas de ouvir falar que o sexo era algo corriqueiro e, para se conseguir, nem era necessário postar selfie de biquinho no Tinder. Vivi tardiamente essa experiência louvatória a Jim Morrison. A viagem delirante enquanto se ouvia a voz rouca de Janis Joplin. Hoje a rouquidão com a qual temos de nos conformar é do MC Guime. Ouvia relatos e mais relatos de como era bom tudo aquilo. Maconha, incenso e Deep Purple, tudo junto e misturado. Dava pra ver no semblante dos adeptos à dieta macrobiótica (os pais do vegetarianismo, portanto, avós do veganismo) como eles foram felizes. Hoje é meio difícil perguntar a eles. Qualquer coisa. Sua memória se esfacelou com os chás de cogumelo. Outros fizeram viagem de ácido e nunca mais voltaram. Talvez ainda haja algum remanescente razoavelmente sóbrio, frequentador assíduo do Café Piu Piu no Bexiga, que possa nos rechear de mais histórias bacanas. Aquela reunião de amigos na casa do mais endinheirado, que acabou de voltar dos Estados Unidos e trouxe o Paranoid, do Black Sabbath. Nos anos 70, não dava pra ouvir disco nacional. Eram lançados com dois anos de atraso, o vinil era flácido, a capa molenga, faltavam encartes e as fotos eram trocadas por causa da censura. O jeito era então botar a bolacha pra tocar na Pioneer enquanto se bebia um copo de cuba libre e se beijava a sósia da Rita Lee. Quem viveu, viveu. Viagens a lugares desérticos, todo mundo hospedado na casa de todo mundo por vários dias, luaus intermináveis, pedir carona na estrada rumo a algum canto em que estava rolando um festival. Woodstock pra mim era só o nome de personagem de desenho animado.

 

Também já era maduro demais pra me deleitar com o que veio depois. Entrei na fase de precisar estudar, trabalhar, ganhar dinheiro. Confesso que nunca na vida assisti a um episódio de Chaves. Conheço a figura por causa das camisetas, dos memes e da coleção de bonecos do Mc Donald’s que se esgotou em questão de horas. Mas não faço ideia de quais sejam seus bordões. Uma vez quase briguei com um amigo porque não entendi uma frase que ele comentou, fazendo uma apologia ao seriado. Não sei do que se trata os Cavaleiros do Zodíaco, embora identifique uma música irritante de fundo. Devo ter assistido, em toda a minha vida, no máximo meia hora de Castelo Rá Tim Bum. Jamais assisti a Malhação. Quando frequentava os shows de stand up com mais regularidade, sempre tinha um momento de branco total pra mim. Praticamente todos os comediantes, em algum momento de seu show, falam em hadouken. Não sei o que isso significa. A maioria da plateia ri. Menos eu.

 

Em compensação, eu também jorro informações baseadas no meu referencial que não dizem respeito a ninguém. Nas poucas vezes em que me apresentei contando piadas, falava sobre um tiozinho que ficava numa banqueta nas ruas do Centro da cidade, em frente à porta de algum puteiro, anunciando que o show de strip tease estava começando exatamente naquele horário. Durante praticamente 24 horas por dia. Como seria possível uma performance de nudez começar ininterruptamente? Ou nunca acabar? Seria ali o palco do Dia da Marmota? Haveria a presença do Bill Murray na plateia? E o que dizer de outros performáticos da região, que ficavam eternamente anunciando seus shows sem nunca apresentarem o espetáculo ao público? Prometiam engolir facas, atravessar argolas pegando fogo, e o máximo que nos presenteavam era com a imitação de um miado esganiçado. Nesse mesmo núcleo do burgo em que vivo, passou batida a referência aos cabeleireiros, que colavam em suas vitrines as fotos de artistas e galãs impressos em alguma revista da editora Manchete, onde exibiam seus exuberantes penteados feitos à base de laquê. Por falar em cabeleiras esvoaçantes, sou de um período vazio em que era legal curtir metal-farofa. Aquelas bandas misóginas, cujos integrantes vestiam botas com salto plataforma e uma calça listrada bem apertada, parecendo uma zebra. Lá nesse mesmo Centro eu ia ao Mappin. Mas não era pra tomar o chá das cinco na cobertura (hoje chamada de rooftop), pois na minha época isso já não existia mais. Quando eu subia de elevador, não era pra saborear as iguarias paulistanas. Era pra pagar conta mesmo. Tinha um andar inteiro, talvez chamado de ala dos pobres, dedicado exclusivamente à abertura de crediários para que os clientes pudessem parcelar seu Velotrol comprado em 12 suaves prestações. Nem tão suaves assim. Existia no primeiro andar o sonho de consumo, que se confrontava no quinto pavilhão com o choque de realidade. Os fregueses eram mal tratados, vistos como caloteiros (hoje, inadimplentes). Eu ficava horas ali esperando minha mãe receber o carnê da dívida recém-adquirida. Daria tempo de comprar todos os faqueiros e jogos de toalha Santista expostos na loja.

 

Havia também outras lojas de departamento sobre as quais nunca a geração iPhone ouviu falar, como Sears, Mesbla, Dillard’s, Arapuã, Ducal, JumboEletro (joint venture dos supermercados Jumbo com a Eletroradiobraz). Mas a que mais me chamava a atenção eram as Lojas Americanas, que sobrevive até hoje. Lá se vendia a melhor batata frita do país, feita num quiosque e oferecida dentro de um saquinho branco igual ao de pipoca de cinema de rua. Essa rede de lojas também era conhecida pelo seu atrativo em não oferecer um esquema máximo de segurança. Era muito fácil furtar nas Americanas. Nunca fiz isso. Mas tenho conhecidos do clube do qual era sócio, alguns deles também nascidos em 68, que eram craques nisso. Indivíduos bem endinheirados, por sinal. Tinham apartamento no Guarujá, iam todo ano pra Disney, entretanto, batiam uma punheta quando conseguiam embolsar um tablete de Kri. Essa loja era um convite aberto ao crime. Pena que, na pirâmide social, quem o cometia era justamente quem menos precisava cometer.