segunda-feira, 2 de maio de 2022

Coronel Mostarda

Deixe de lado por enquanto a supremacia da pastelaria Yokoyama ou da lanchonete A Chapa, verdadeiros ícones pioneiros surgidos nas redondezas da Aclimação e Cambuci. Aqui, vou me dedicar a relatar minha experiência (palavrinha da moda, eu sei) em outro império da zona Sul paulistana: a papelaria Momotaro.

Hoje reduzida a uma portinhola de garagem, com uma abatida fachada de parede, essa loja marcou minha infância e adolescência. Principalmente a segunda fase, período em que passei a estudar num colégio estadual logo abaixo do venerado estabelecimento. 

Nos anos 80, a Momotaro era um dos meus preferidos parques de diversões. Na época ainda não existia a nababesca Ri Happy, mas a proposta e concepção de loja, guardadas as devidas proporções, eram parecidas. Tinha um pouco de tudo: material escolar, presentes, artigos importados, brinquedos... mais ou menos que nem as Lojas Mel, só que com uma diferença: nesta última você entra, se perde, avista de tudo mas não encontra nada. A Momotaro tinha um clima mais caseiro, familiar. Era grande e aconchegante ao mesmo tempo. 

Familiar não era só o tratamento dado aos fregueses. A loja pertencia a uma família mesmo. Tinha a matriarca, durona sem ser austera, que conhecia as prateleiras e corredores do introito ao cabo. A filha, simpática, que sabia embrulhar presentes como ninguém. Papel pra cá, fita pra lá, tudo se envolvia numa dança bonita de se ver. E com uma leveza e agilidade, como se estivéssemos assistindo a um espetáculo butô com o tema de origami. Se a memória não me falha, o pai ou o tio cuidava do caixa. E, é claro, fazia as contas de cabeça. Me parece que um irmão também ajudava na loja. Ah, tinha também o avô, um centenário ancião que vigiava o estacionamento. Sim, a Momotaro tinha estacionamento próprio nos seus áureos anos. Meus amigos do colégio abaixo onde estudei, típico de adolescente, jogavam pedras em direção ao telhado metálico do abrigo de carros, com o único objetivo de assustar o velhinho. 

A Momotaro me supria em tudo o que precisava pra me tornar um aluno melhor: régua, transferidor, borracha, cola plástica, compasso, caneta esferográfica, lápis de cor, normógrafo e quetais. Mas foi naquela loja, nos idos da década de 80, que comprei aquilo que faz uma criança passar para a fase adulta: o caderno universitário. Sair com um desses debaixo do braço é o que faz a diferença entre um menino e um homem. Estava mais do que na hora de aposentar os caderninhos de brochura, um de cada matéria escolar, caprichosamente encapados pela minha mãe com um plástico quadriculado. O livreto acadêmico tinha o imponente formato A4. E reunia, por meio de divisórias, espaço para se escrever sobre todas as matérias ensinadas. Num único compilado de papel. Caminhar pelas redondezas do colégio com um caderno desses era tão revolucionário e magistral quanto mascar chicletes, fumar escondido, usar gel no cabelo, tomar Coca-Cola sem ser no almoço de domingo ou andar de patins. Isso sem falar nas capas. Eu já não tinha mais idade pra fazer propaganda de graça exibindo o logotipo da Editora Melhoramentos. Era preciso ostentar uma imagem que tivesse mais a ver comigo. Um surfista pegando onda. Uma tatuagem bem acabada de um dragão. A língua dos Rolling Stones. Era na Momotaro que eu vivi a transição estética entre a Turma da Mônica e o Andy Warhol. E eu sofria por antecipação. A cada virada de ano eu ficava tentando imaginar qual seria a capa da vez desses opúsculos. Tratava-se de um fenômeno tão aguardado quanto tentar adivinhar qual vai ser a capa do novo disco do Foo Fighters. E foi nesses gigantescos e universais cadernos que eu aprendi a escrever e reescrever a história da minha vida. Entre vários rabiscos, rascunhos e garatujas, fui errando e acertando as equações do segundo grau. Foi nas linhas pautadas que copiei a fórmula das reações inorgânicas. Inspirado no Simbolismo, usei as linhas pautadas como chão para escrever minhas primeiras linhas poéticas. Arranquei a folha presa pelo espiral de alumínio na lateral do livreto e entreguei para o primeiro amor da minha vida. Não fui correspondido.

A Momotaro teve um papel fundamental no meu desenvolvimento escolar. Mas não foi só nos estudos que ela foi importante pra mim. Vivi tempos de inflação alta, em que os estabelecimentos remarcavam os preços de seus produtos duas vezes ao dia. Mas, antes disso, lembro que ainda era possível juntar dinheiro em casa, nos cofrinhos em formato de porco, sem ter de recorrer ao overnight. E foi juntando as mesadas que ganhava da minha avó, de cruzeiro em cruzeiro, que abracei esse montante de cédulas e adquiri, por esforço próprio, o objeto de desejo da minha família: o jogo Detetive. Ah, como era bonito abrir aquele tabuleiro decorado, que simulava a planta baixa de uma casa onde havia ocorrido um misterioso assassinato. Cada suspeito tinha o nome de uma cor que, por sinal, era a mesma do pião que conduzia os jogadores até o centro do espetáculo. Dona Violeta, quem diria... uma senhora tão frágil e simpática. Ou até mesmo o erudito Senhor Black. E o que dizer então das armas? Réplicas perfeitas em miniatura dos mais diversos objetos cortantes, pontiagudos ou atiradores. Faca, revólver, candelabro...

Hoje, dentro do meu ônibus em direção ao Terminal Amaral Gurgel, passo quase todo dia pela Momotaro e percebo que ali reside uma vaga lembrança do que essa dinastia dos papeis já foi. Não sei qual é mais estreito e decadente: a loja ou o boteco ao lado. Tempos difíceis. Passamos um biênio trancafiados por causa da pandemia, e o comércio fechado. Passado o susto, vem uma inflação galopante, em parte impulsionada por uma guerra no leste europeu. E, antes mesmo da Covid, ou da Guerra da Ucrânia, as pessoas já estavam deixando de consumir esses derivados da madeira. Tudo é pelo e-book, pelo site, pelo grupo de zap. Por mais tecnológica que seja, a família Momotaro não se rendeu à venda de chips de celular. Seriam só mais um em um milhão. Prefiro guardar na memória esse império do passado com a mesma clareza e vivacidade que guardo os versos de Augusto dos Anjos. Não sei mais quantos deles ainda estão vivos. Mas tenho plena convicção de que quem matou parte dessa antológica família não foi o vírus, nem a inflação, muito menos os modernos recursos digitais. Foi o Coronel Mostarda, com uma chave inglesa, na sala de estar.


Klondike - A Guerra na Ucrânia

Em 2014, no momento em que começa a Guerra em Donbas, o casal de ucranianos Irka e Tolik vive na região da fronteira entre seu país e a Rússia. Ela está grávida e eles fazem planos para o futuro. Nesta primeira cena, uma grande explosão ocorre no local e destrói a casa onde moram, dando o tom dramático para o resto do filme. Irka se recusa a abandonar sua casa, mesmo quando seu vilarejo é tomado pelas forças armadas. Tudo fica ainda mais complicado quando um avião civil é abatido e cai na região.

A Guerra da Ucrânia, assunto bastante atual, serve de fio condutor ao filme. Mas não é nela que a diretora Maryna Er Gorbach se debruça. Os destroços da cidade, acompanhados por ruidosos estampidos de bombas o tempo todo, fazem o papel de um metrônomo, um marcapasso para as relações pessoais que se degringolam em progressão geométrica. De um início supostamente feliz do casal vamos acompanhando um comportamento que beira o primitivo. Prova-se, aí, que a guerra tem o poder de destruir não só os bens materiais de uma sociedade.

É possível notar uma certa obsessão da realizadora para se alcançar esse retrato cru e primal do ser humano. O resultado, porém, ultrapassa um pouco as fronteiras, ficando no limite entre a economia dos signos e o exagero das interpretações. Um pouco menos de pólvora atingiria o alvo com a mesma precisão.


domingo, 24 de abril de 2022

Como Matar a Besta

Primeiro filme do projeto Sessão Vitrine de 2022. Nesta coprodução Brasil/Argentina, a jovem Emilia chega a uma cidade religiosa na fronteira entre esses dois países, em busca pelo seu irmão desaparecido. Ela se hospeda na casa de sua Tia Inés, próxima a floresta onde supostamente uma perigosa besta apareceu na semana anterior. Segundo a crença popular entre os moradores da região, a besta é o espírito de um homem mau que toma a forma de diferentes animais. 

Com um ritmo lento e sem dar explicações mais didáticas, o longa mergulha no universo mitológico e nas angústias pessoais. Existe um clima de mistério que nunca se resolve - o que talvez seja um mérito do filme. Os protagonistas ocupam um lugar de cena e somem com a mesma facilidade, como se eles mesmos fossem a reencarnação de sonhos curtos. 

A riqueza dramatúrgica desse ambiente bucólico e onírico, entretanto, pode ser um viés. Trata-se de um conjunto de imagens para trazer reflexões ou disfarçar as lacunas? Tudo é muito hermético e introspectivo demais, dando ao filme uma cara de mosaico, de coletânea subjetiva.


sexta-feira, 15 de abril de 2022

O Pacto

O veterano Bille August mais uma vez mergulha no universo das relações misteriosas. Aqui ele traz a literatura como pano de fundo para expor metalinguisticamente sua obra. Cada cena é como se fosse uma página, repleta de construções frasais. O núcleo da história é composto por Karen Blixen, no auge de sua fama e prestes a ganhar o Prêmio Nobel de literatura. Retornando à Dinamarca em ruínas depois de uma aventura na África, acometida pela sífilis e tendo perdido o amor de sua vida, ela se reinventou publicando vários best-sellers. Um dia, propõe um pacto a um poeta de 30 anos, prometendo a ele o estrelato literário e exigindo em troca sua obediência incondicional.

Preciso na construção de cenas e na evolução dos personagens, o filme entretanto carece um pouco de abusos dramáticos. Percebe-se um notável rigor formal, mas o resultado é meio morno diante dessa mise-en-scène mais cartesiana. 


quarta-feira, 9 de março de 2022

Fabian - O Mundo Está Acabando

Jakob Fabian trabalha no departamento de publicidade de uma fábrica de cigarros de Berlim durante o dia e vagueia por bares, bordéis e estúdios de arte com seu amigo rico Labude à noite. Quando Fabian conhece Cornelia, apaixona-se por ela e deixa de lado sua atitude pessimista. Mas logo depois é demitido, enquanto Cornelia faz carreira como atriz graças ao seu chefe e admirador.

Dirigido por Dominik Graf, o filme perambula por diversos estilos e estéticas. Começa com uma trilha de rock pesado, mesmo se passando em 1931. Traz referências ao cinema mudo e ao film noir, com locução em off reiterando as imagens mostradas. É como se a história do personagem acompanhasse, em paralelo, a história do próprio cinema.

Mas essa riqueza em variedades formais não deixa muito clara a intenção do autor. O filme mais parece uma colcha de retalhos e traz uma sensação de obra confusa, que vagueia pelas escolas cinematográficas assim como o protagonista vagueia por sua cidade decadente procurando dar um sentido à vida. 


quinta-feira, 3 de março de 2022

No Ritmo da Vida

Falta um pouco de ritmo a esse longa-metragem de estreia do diretor Phil Connell. Como obra debutante, é natural se esperar uma ou outra pisadela.

Começa com o protagonista Russell levando um pé na bunda de seu namorado. Para dar um novo rumo à sua vida, deixa a cidade e vai para o campo morar com sua avó doente Margaret, que resiste à ideia de parar num lar de idosos. Lá, Russell inicia um novo projeto como drag queen em uma boate local. 

Embora com um argumento simples, o filme cria diversas oportunidades para explorar os dramas do personagem e suas relações conflituosas. Mas tudo fica nas boas intenções. De um modo geral, as atuações são muito duras, posadas. Connell não encontrou o timing para fazer os cortes certos e deixar as falas mais orgânicas. 

Apesar do retrato morno e insosso, No Ritmo da Vida encontra, talvez sem querer, uma potência além dos diálogos. A escolha do repertório musical supera as fraquezas do roteiro. A textura neogótica, os graves dançantes do clima soturno de uma balada, a excelência dos decibéis colocam cada música no pedestal do protagonismo. É a trilha sonora que faz o filme vibrar um pouco mais.


domingo, 27 de fevereiro de 2022

Adeus, Idiotas

 Se você leu em algum lugar que Adeus, Idiotas se trata de uma comédia, aqui valem algumas ressalvas. A frase que dá nome ao título foi extraída de um trecho do vídeo que registra a declaração de suicídio de um dos protagonistas, num momento em que ele desconta sua raiva e tristeza com o mundo e com a sociedade. 

Claro, existem várias situações tragicômicas. Cabeçada na parede, sobrenome pronunciado incorretamente, prateleira despencando. Algo trazido das comédias de erros e dos vaudeville teatrais. Mas o longa de Albert Dupontel vai além. Debruça com mais intensidade nas improváveis relações humanas criadas a partir de situações ao mesmo tempo tristes e insólitas. Tudo gira em torno de uma cabeleireira que descobre ter adquirido uma doença autoimune. Com poucos meses de vida, decide ir atrás de seu filho que não vê desde que engravidou, aos 15 anos, e o deixou para adoção. Encontra por acaso numa repartição pública um técnico em sistemas de segurança, dispensado pelo seu chefe de liderar o projeto, perseguido pela polícia por acharem que se trata de um terrorista. Junta-se a eles um cego encarregado de cuidar dos arquivos do governo.

É nessa jornada coletiva de buscas particulares que Adeus, Idiotas encontra espaço para diluir suas amargas ironias. O simples acaso cede lugar a um registro contundente da superlativização de fracassos individuais. O filme coloca uma lente de aumento no cidadão comum, invisível, e extrai dele a potência da transformação. 


Passagem Secreta

Difícil imaginar como Passagem Secreta possa ter sido bem recebido no último Festival de Tiradentes. Talvez tenha sido apenas uma enganosa estratégia de marketing para sua divulgação. O evento costuma abraçar trabalhos mais autorais, com amplo espaço para experimentalismos e exercícios estéticos fora do convencional. Não é o caso deste longa dirigido por Rodrigo Grota, que percorre um caminho bem didático em sua narrativa. Uma escolha perigosa, justamente por tentar alcançar terrenos mais seguros.

A história fala de Alice, que precisou se mudar para uma cidade pequena e, ao chegar, começa a morar com o tio. Lá, acaba fazendo um novo grupo de amigos e encontra um portal mágico em um parque de diversões. Ao invadir o parque em uma brincadeira para salvar um colega, Alice descobre segredos sobre sua identidade.

Embora tenha como inspiração o universo imaginativo, Passagem Secreta carece de soluções criativas. Tudo é muito duro, esquemático, gerando pouca graça e interesse. Fica muito clara a dificuldade em dirigir o elenco mirim, que olha para a câmera com suas frases decoradas como se estivesse num teste de comercial para a TV. Derivações de Crônicas de Nárnia e Castelo Rá Rim Bum podem até ser bem-vindas, mas é preciso tomar um certo cuidado. Passagem Secreta prova que existe um grande abismo entre o roteiro bem intencionado e a realização de uma obra. Aqui, a sensação que fica é de uma cópia genérica de D.P.A.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Calem a boca

 São Paulo, 9 de fevereiro de 2022.

Repetindo: maior metrópole da América Latina, dia 9 do segundo mês do 21º ano do terceiro milênio. Brasil.

Entra para os trending topics um podcaster, do qual nunca ouvi falar, que, em seu programa de entrevistas, comenta sobre a necessidade de existência de um partido nazista no país. Pouco depois, se retratou. Pediu desculpas, alegando estar bêbado. Mas o estrago já estava feito.

O influencer em questão parecia se justificar rebatendo que, na forma, o programete não tinha grandes pretensões políticas ou acadêmicas. Aquele episódio foi, de acordo com suas palavras, fruto de uns idiotas falando bobagem. Como se fosse uma conversa de bar. Com esse clima "solto", de descontração. E você já sabe: em papo de bar, bebe-se. Pra caralho. Para o alvo deste assunto, o tom ébrio do colóquio informal poderia servir de salvo-conduto para o vale-tudo. Neste botequim familiar pode se falar o que quiser. Só que tem uma diferença: ao contrário do minúsculo reduto pé-pra-fora de azulejos brancos na parede, o podcast concentra milhares de ouvintes. E anunciantes que pagam caro para que suas marcas sejam ali expostas.

Talvez para Bruno Aiub, pivô dessa unânime discórdia, o Brasil esteja mesmo politicamente mal representado. É preciso que a legislação em vigor reconheça a legitimidade de um partido nazista. Não que ele seja. pelo amor dos meus filhinhos. Não que ele saia por aí matando judeus, roubando seus ouros e colocando as vítimas dentro de uma câmera de gás. De jeito nenhum. Ele apenas quis demonstrar que essa terra de ninguém precisa urgentemente dar vazão a vozes oriundas do inferno. Só assim teremos, de fato, uma nação plural. Um país composto por partidos e coligações políticas que representem, por exemplo, em absoluta legalidade, as castas milicianas. Ou os membros da Ku Klux Klan. A volta dos integralistas. Talvez, quem sabe, os líderes das seitas que promoveram mundo afora o suicídio coletivo. Sim, o Congresso Nacional carece de uma diversidade religiosa diante de sua maioria terrivelmente evangélica. É preciso trazer esses gurus do além para romper a hegemonia pouco salutar à democracia. Que o STF dê a eles o direito de pleitear um cargo aos poderes Legislativo e Executivo. Cabe à sociedade decidir, por livre arbítrio, se essas pústulas ambulantes são dignas e merecedoras de ocupar uma cadeira na Casa do Povo.

Por falar em guru, não me espanta nem um pouco o fato de que o Brasil desses desajustados medievais tenha decretado luto oficial em homenagem ao "pensador" que acreditava na Terra plana e na apologia ao comunismo nas letras das músicas dos Beatles. Faz todo sentido. Só mesmo essas ideias conspiratórias para regar a mentalidade de quem acredita que o genocídio parlamentar seja algo possível.

Volto a repetir, quantas vezes forem necessárias. Não se trata de opinião. De ponto de vista. De troca de ideias por meio de confronto. Não encaro como "tudo bem" um cidadão favorável ao fechamento do Congresso, embora ele mesmo não vá lá pessoalmente e atire bombas e fogos de artifício à instituição. Não aceito negacionistas se recusarem a tomar vacina, vestir máscara ou apresentar passaporte vacinal em prol de um suposto "direito de ir e vir". Não vejo como "normal" o indivíduo que corrobora com a proliferação de grupos de extermínio e de intolerância racial, mesmo que eles próprios não façam parte dessas seitas. Eles não são iguais a mim, apenas navegando em sentidos opostos. São inferiores, bastante inferiores.

Triste do país que se calou para as mais de 600 mil mortes. Que trouxe de volta o conservadorismo e o retrocesso em praticamente todas as suas áreas e competências. Que acabou de aprovar uma redução drástica no teto de patrocínio da Lei Rouanet. Um país que, entretanto, deu voz a esses energúmenos que pipocam por aí nas suas bolhas sociais. Não é à toa que o digital influencer carregue o apelido de um regime de governo pra lá de obsoleto. Ele, assim como os demais ratos de esgoto que emergiram nesse lodaçal de ideias estapafúrdias, merecem somente cair no esquecimento. A gente não precisa desse Absolutismo ideológico.


terça-feira, 16 de novembro de 2021

Engravidei

Dias atrás, uma amiga me disse que dar match em aplicativo de relacionamento é que nem engravidar: quanto mais se tenta, menos se consegue.

Achei a comparação perfeita. Isso traduz muito de como são as coisas. Existem pessoas que nascem com o fiofó virado pra lua. Casais abençoados com trigêmeos inesperados. Em contrapartida, pessoas que não conseguem usufruir do direito divino de perpetuar a espécie. Recorrem a mecanismos in vitro pra poderem procriar. Acho meio que maldade do Criador. Um pouco de bullying do todo-poderoso, que decide na base do sorteio quem vai semear a Humanidade.

Tá certo que o desespero, o nervosismo e os cálculos matemáticos atrapalham um pouco a inseminação. Tudo seria muito mais fácil e maravilhoso se ocorresse com naturalidade, espontaneidade, deixando o improviso roubar o lugar do roteiro. O mesmo ocorre num primeiro encontro entre dois seres desconhecidos. 

Me veio à cabeça uma música dos anos 80. Não sei o seu título. Composta por Chico, interpretada por Bethânia e parodiada por Didi Mocó. Pela letra, supõe-se tratar de uma prostituta à procura de seu futuro marido. Entre seus clientes, cabe a ela escolher o par ideal. Dar um like em quem tem o potencial de fazê-la feliz pra sempre. Na fila do coito matrimonial, encontram-se candidatos ao cargo. Ouço mentalmente a música "Vou tirar você desse lugar", de Odair José. Visualizo uma espécie de Tinder de bordel. Pretendentes dispostos a oferecer à messalina um punhado de flores e de mentiras. O primeiro é um playboy. Traz joias e dinheiro. O segundo é um ogro bebaço. E o terceiro é um nada.

Nada é uma palavra que vem fazendo muito sentido pra mim. Tenho me identificado bastante ultimamente com o vazio existencial. Nada mudou. Nada consta. Nosso país é um nada. Nada temos a ganhar, muito menos a perder. Isso me fere a medula. E, assim como os poseurs de aplicativos, ou os fregueses do sexo pago, também apelei à possibilidade de um happy ending por meio de algoritmos. Fiquei quase um biênio trancafiado, encarcerado em mim mesmo. Acho pouco digno, mas muito justo buscar a redenção nem que seja com um cêntimo de gozo e de alegria. Voltei ao app como quem tenta a sorte do eterno amor com um bilhete da Mega Sena.

Para a concubina versada pelo líder Trapalhão, foram necessários apenas três concorrentes. No meu caso, enumerar uns 57 seria um número considerado razoável. Não por excesso de exigências criteriosas de minha parte. Talvez por azar mesmo. Ou por pura demonstração sádica do Altíssimo. Conheci mulheres legais, claro. Mas foi contundente a quantidade de roubadas nas quais me deparei. Num desses encontros furados, recebi no dia seguinte o presente de uma mensagem por WhatsApp com 14 desaforos, contadinhos. A pessoinha fez questão de me detonar, parte a parte, citando tudo quanto é característica minha que a incomodou numa primeira e única impressão. Meu último date não foi tão escroto assim. Mas esteve longe, quilômetros adiante de ser perfeito. Naquela praça de alimentação de um supermercado popular, a condessa em questão falou tudo sobre ela e dispensou a parte de me ouvir. De nada adiantou meu olhar atento, ornado pela minha melhor roupa e meu mais caro perfume. Nosso encontro durou menos do que uma partida de pinball. Após alguns minutos de monólogo a dois, ela olhou no relógio. Como se estivesse, literalmente, cronometrando a peleja. Ao se despedir, minha cara de consternação foi tão grande que até deve ter assustado a moça do caixa do Extra. Quase que o segurança fala "fica, vai ter bolo". Não ficou. Assustada, apressada e decepcionada, ela disse não.

Fico pensando o que seria necessário extrair de mim para que pudesse nascer um relacionamento de proveta. Outro dia uma ex-futura parceira romântica me enviou mensagem mandando eu primeiro resolver minha vida e, após me tornar verdadeiramente livre e feliz, aí sim poderia convidá-la a tomar um café. Minha sensação é mais ou menos essa. Não posso sair de casa levando menos do que a perfeição. Devo oferecer às moçoilas solteiras meu máximo, mesmo sabendo que esse máximo nunca será o suficiente. 

Porém existe o acaso, né? Talvez num momento de distração de Jeová eu tenha burlado as regras do fracasso. Ou uma coisa levou a outra. Se aquele instantâneo encontro tivesse durado um pouco mais, nada do que vem a seguir teria acontecido. Graças a Deus aquilo foi curto e grosso. Deu a oportunidade de arriscar um segundo jogo na loteria. Foi a melhor coisa que me aconteceu.

A história que fecha essa escrita quebrou todos os protocolos. Nosso tête-à-tête se deu por meio de uma live virtual. Estávamos de pijama, sem nos preocuparmos com as exigências e o dress code que regem as boas práticas. Embora distantes por questões circunstanciais, fomos o mais verdadeiro possível. Não nos preocupamos em exibir nossas virtudes em tom de ostentação. Joguei claramente meus medos, minhas angústias, minhas fraquezas. Não tive qualquer preconceito em mostrar a pessoa normal que sou. Levei a radiografia das minhas fraturas expostas. E não fui apedrejado com 14 difamações por causa disso.

E foi assim, imperfeitos que somos, que passei a enxergar a pessoa incrível que estava a descobrir. Com sua voz de menina, seu sorriso fácil e sua sagacidade fora dos padrões que me encantei. E passei a admirar cada vez mais. E sinto, ainda que infimamente, que sou suficientemente capaz de fazê-la, com minhas inseguranças e apesar delas, uma pessoa melhor. A felicidade fecundou entre nós.

A essa musa misteriosa sou eternamente grato. Quero cultivar cada instante desse rebento recém-nascido que nem nome ainda tem. Se depender de mim, nosso infinito será bastante fértil, amamentado por tudo aquilo que aprendi. E, é claro, com a ajuda de um pote de Häagen-Dazs de macadâmia enquanto a gente assiste a qualquer coisa na Netflix.