terça-feira, 23 de agosto de 2022

O cu do Imperador

Pela primeira vez na nossa história o povo brasileiro poderá ver o ânus de Dom Pedro I. Trata-se de uma homenagem ao Imperador pelos 200 anos de independência da república tupiniquim. A exibição em público dessa partícula final do intestino encerrará os rituais comemorativos e, para isso, foi totalmente embalsamada em formol e guardada num recipiente à prova de todo e qualquer tipo de contaminação.

Embora o pedaço proctal esteja blindado, contando com uma equipe de segurança 24 horas por dia, pouco se sabe ao certo o motivo pelo qual será ostentado à população. Por que não os olhos de Dom Pedro? O fígado? A grande mídia, muito mais preocupada em preparar debates presidenciais, pouco noticiou o assunto. O porta-voz do Governo, mais uma vez, não se pronunciou. O que sobrou então foram apenas hipóteses e conjecturas de estudiosos e formadores de opinião.

Leviano Hang Loose, proprietário de uma importante rede do varejo, apoiador confesso do atual Presidente, declarou em seus grupos de WhatsApp que a analogia é evidente e cristalina. Estamos, afinal de contas, celebrando a independência do país verde-amarelo. E, como todos sabem, o ânus é um órgão independente e autônomo. Adepto ao neoliberalismo, trabalha a hora que quer. Faz jornada extra e não reivindica por mais direitos. A vontade de ir ao banheiro, reparem, nada tem a ver com os avisos dos neurônios. Não existe um condicionamento físico dos pulmões para tal ato. Alongamentos musculares antes da descarga fecal podem, literalmente, induzir que tudo vai dar merda.

Já outras facções menos alinhadas ao regime tendem a discordar. Jacques Gordini, cientista político que se autoexilou do país, entende se tratar de uma atitude homofóbica e carregada de machismo estrutural. De acordo com o ex-BBB, isso representa uma apologia velada e preconceituosa à discriminação de gênero, já que os gays, homossexuais e transexuais gostam de dar o cu. Pelo menos a maioria deles.

Essa percepção, contudo, não é unânime. O analista político Celso Arquibancada acha que existe uma correlação com o atual momento de Bolsonaro, que está com o cu na mão caso perca as eleições. Por outro lado seu companheiro de mesa, Dulcídio Orquidi, entende que quem está com o cu na mão é justamente o Lula, que vem perdendo pontos nas pesquisas eleitorais e vê a diferença de intenções de votos reduzir a cada novo levantamento.

Nem todos, contudo, enxergam o viés político nesse ato simbólico. Perguntada sobre o tema, a estilista da periferia e influenciadora digital Ludmilla von Thiesse retrucou: "O que tem a ver o cu com as calças?".

O fato é que, no próximo dia 7 de setembro, o Brasil inteiro vai assistir ao escatológico desfile do esfíncter real - e retal. Como se fosse um exame de colonoscopia ao vivo. Qual o significado desse mumificado produtor de bosta? Fica aqui a pergunta. Nosso país está suficientemente chafurdado no lodaçal de merda, com uma classe trabalhadora sem trabalho e sem comida. E uma classe política sem classe e sem caráter. Mas que não se envergonha de mostrar, pro mundo inteiro, o cu do nosso imperador.


sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Luta pela Liberdade

O diretor Zhang Yimou se consagrou por fazer filmes de artes marciais e dinastias imperiais. Desta vez, abandona esse campo e se propõe a fazer uma obra de espionagem. Representante da China ao Oscar 2021, Luta pela Liberdade se passa no estado de Manchukuo, um lugar controlado pelo governo, na década de 1930. Quatro agentes especiais do Partido Comunista retornam à China depois de receber treinamento na União Soviética. Juntos, eles embarcam em uma missão secreta com o codinome "Utrennya". Depois de serem dedurados por um traidor, a equipe é ameaçada de morte por todos os lados.

Com seu preciosismo técnico, Zhang traz um trabalho cuidadoso e com uma beleza própria. Nada tão reluzente e escarlatino quanto Lanternas Vermelhas. Ou meticulosamente sorumbático quanto Shadow. Aqui é o branco da neve que dá o tom cromático, um recurso natural até então pouco explorado pelo diretor.

Embora caprichado na forma, Luta pela Liberdade resvala em uma trama complexa, muitas vezes confusa, que exige uma atenção especial. Oscila entre o denso e o desordenado. Tem lá seus méritos mas, se comparado a obras-primas mais remotas, trata-se de um filme menor. 


De Volta à Borgonha

Recentemente, as salas de cinema brasileiras acolheram o francês Lola e Seus Irmãos, que disseca as relações familiares entre parentes que se reencontram. Agora é a vez de Cédric Klapisch dar a sua versão sobre o que une - e separa - um trio de irmãos que, com suas semelhanças e diferenças, se veem obrigados a se ver novamente.

A comparação entre Lola e De Volta à Borgonha para por aí. As brigas, os conflitos de interesse e a ausência de um deles fazem parte do repertório de ambos. Mas em De Volta existe todo um aparato estético, quase noveleiro, que se diferencia do anterior.

Estamos falando de uma família que herda a vinícola de seu pai, recém-falecido. Esse pano de fundo serve de prato cheio para exibir cenas de paisagens campestres e processos de fabricação do vinho. Tudo muito lindo, nítido, com uma luz forte para realçar os detalhes e dar ao filme um tom quase National Geographic. 

Entretanto, Klapisch tem o dom de fazer sua obra escapar de um comercial de restaurante da alta gastronomia. Ainda bem. No meio de tanto primor bucólico, o diretor encontra espaço para mostrar um clã endividado e pouco experiente para exercer sua função de patrões. É nesse âmbito que Klapisch se sai melhor, deixando seu requinte etílico apenas como atrativo superficial para debruçar sobre o que sabe fazer de melhor: captar as relações humanas, sem cair em clichês ou diálogos forçados e atuações falsas.

Nesse sentido, De Volta à Borgonha parece ser um retrato mais maduro se comparado aos sucessos Albergue Espanhol e Bonecas Russas, onde tudo parecia uma folha de rascunho, um grande teatro de improviso recheado de boas intenções e sequências espertinhas. 


sábado, 30 de julho de 2022

Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída

Não são poucos os filmes que se aproveitam oportunisticamente de transcrever para as telas best-sellers literários e provam ser verdadeiros fiascos, como é o caso da saga Crepúsculo e da trilogia 50 Tons de Cinza. Eu, Christiane F., está um pouco acima dessa régua. O que não quer dizer muita coisa. Fez até um certo burburinho à época de seu lançamento mas, revisto 40 anos depois, em cópia remasterizada para marcar essa edição comemorativa, deixa claro por que caiu no ostracismo. 

O longa, que retrata uma juventude sem rumos, até poderia ser elencado como um dos ícones da década, não fosse outro problema: a eclosão de cineastas magistrais como Herzog, Wenders e Fassbinder. Não tem como competir.

O filme se passa na virada dos anos 70 para os anos 80. Um constatado limbo histórico. O movimento hippie já não tinha mais o poder de mobilizar multidões de jovens egressos de Woodstock. E a era disco, junto com o punk e o new wave, ainda sibilavam notas embrionárias do que viriam a ser anos mais tarde. Não é à toa que o personagem mais representativo do filme não é a drogada adolescente, mas o camaleônico David Bowie, interpretando a si mesmo, durante um show que ocorreu de verdade em Berlim. 

Eu, Christiane F., situa-se perfeitamente nesse vácuo social. Traz à tona famílias desestruturadas e uma horda de jovens que trocaram a revolução estudantil por um tipo de experimentação mais efêmera e individual: a heroína. Moleques que, atordoados pelos efeitos alucinógenos, não sabem exatamente qual seu papel na sociedade: onde estão e para onde vão. Tanto é que boa parte é filmada dentro de estações de trem, em que aparecem vagões em trânsito, indo e vindo sem que o espectador saiba seu destino.

Do ponto de vista estético, o diretor Uli Edel mergulha fundo no universo das drogas. Algumas cenas de jovens se picando podem até ser chocantes para um público mais sensível e menos iniciado, mesmo nos dias atuais. É agulha, seringa e sangue pra tudo quanto é lado. Talvez essa provocação, que resulta numa possível sensação mais aflitiva, seja uma maneira de Edel mostrar seu viés ideológico contrário a esse modus vivendi. Mas isso é apenas uma hipótese.

Se por um lado o diretor se aprofunda na primeira metade do subtítulo, por outro deixa muito a desejar na segunda fatia. Quase não há cenas de prostituição. A parte em que Christiane F. masturba um cliente dentro do carro é filmada do lado de fora do para-brisa, a metros e metros de distância. A cena do casal de namorados se despindo é feita de modo apressado, sem nenhum tipo de nuance e com um apelo sexual muito mais sugerido do que explícito. Sugere-se que o filme foi feito pra incomodar mas, na realidade, traz significantes muito mais presbiterianos, dando a entender que, na alma, Eu, Christiane F. é um produto pudico e recatado. Ou essa solução serviu de artifício para encobrir a falta de intimidade do diretor em filmar a sexualidade dos personagens.

Não foram poucos os diretores que se debruçaram nessa temática lost boys, cada um à sua forma autoral. Em Kids, Larry Clark explora suas crias quase de modo ejaculatório, como se fosse um voyeur querendo ser o protagonista de todo aquele bacanal regado a psicotrópicos. Já Gus Van Sant praticamente abençoa e venera seus rebentos da era grunge em Paranoid Park, mostrando que o ser humano é bom e desencanado por natureza. Bruno Dumont faz exatamente o contrário. Em seu longa de estreia, A Vida de Jesus, planta a sementinha de um olhar menos generoso (e posteriormente mais caricato), trazendo analogias concretas para defender sua tese de que o indivíduo é, literalmente, fruto de uma deformidade social. Comparado a eles, Uli Edel concretiza um registro meramente morno e apático da juventude alemã. 

Eu, Christiane F., enquadra-se na tríade sexo, drogas e rock and roll das festas e dos rolês. Mas parece ser meio que um convidado deslocado dessa patuscada. Sobre as drogas, enfia a agulha mas não atinge a veia. Lança um olhar apenas epidérmico. Na questão do sexo, parece usar preservativo duplo, de tão asséptico e distante que se posiciona. Já o rock and roll parece surgir de modo mais orgânico. A cena dos jovens roubando uma loja ao som de Heroes é o momento mais genuíno e emblemático. Afinal, quem são os heróis dessa sociedade letárgica e moribunda?


quinta-feira, 16 de junho de 2022

Armadilha Explosiva

Quando se pensa em filmes franceses de ação, nos vêm à cabeça as megaproduções capitaneadas por Luc Besson. Armadilha Francesa é, de fato, produzido pela equipe do cineasta. Só que aqui não rolam cenários futuristas, assassinos de aluguel ou perseguições de carros. A relação do filme com automóvel é diferente.

Tudo se passa num estacionamento de prédio residencial. Fred tenta ligar seu carro de manhã e não consegue. Sai do veículo e quem se incumbe disso é sua companheira Sonia. Ao fazer isso, Sonia ativa uma bomba-relógio escondida no motor, que inicia a contagem regressiva de 30 minutos até o momento da explosão.

O cenário está todo ali. Um casal, dois filhos pequenos dentro do carro e uma equipe de colegas de profissão de Sonia, especialista em desarmar minas. Essa delimitação de espaço quase minimalista, entretanto, não tira o suspense. Pelo contrário. O diretor e roteirista Vanya Peirani-Vignes mostra-se habilidoso em criar tensão suficiente com poucos recursos e dimensões cênicas mais contidas. Aqui neste caso, menos é mais.


sábado, 11 de junho de 2022

Um Dia para Sempre

Está comprovado que o forte dos alemães não é a comédia. Eles até tentam, mas o resultado fica meio duro, calcado em fórmulas já feitas. 

Um Dia para Sempre conta a história de Zazie, que recebe um convite para o casamento de seu melhor amigo Philipp com sua arquirrival Franziska. Contrária à ideia, ela tenta salvar o amigo e sabotar o matrimônio. Por causa de um loop temporal, isso acontece repetidamente, todos os dias.

Essa modinha do universo paralelo, metaverso, conseguiu chegar ao cinema germânico. Não se restringe mais aos heróis da Marvel. Na prática, é como se Zazie estivesse enfrentando a mesma situação em infinitos mundos diferentes e simultâneos.

Mas o filme não se debruça nas teorias da Física Quântica. Ele mais parece um repeteco do clássico O Feitiço do Tempo. Até mesmo no close do relógio tocando na hora de acordar.

Lançado para aproveitar o Dia dos Namorados, o filme tem gosto de bombom Caribe. Não é exatamente ruim. Mas é sempre o último a sair da caixa.


sexta-feira, 3 de junho de 2022

Tempos pastelões

Domingo passado, um visitante do Museu do Louvre atirou uma torta no quadro da Monalisa. Não me atualizei sobre a notícia, mas me parece que não dá ainda pra saber ao certo as motivações do infrator: se foi um surto psicótico, uma vontade efêmera e midiática de ter sua fama por 15 minutos ou uma manifestação autêntica de protesto à arte exibida.

Arte não foi exatamente o que vimos na última Virada Cultural, aqui em São Paulo e longe de Paris. Tumultos, roubos, furtos, arrastões, brigas e apresentações interrompidas marcaram o fim de semana que supostamente deveria ser o palco de confraternizações. Isso não é exatamente uma novidade. A gente não consegue esquecer, nos primórdios do evento, a pancadaria ocorrida durante o show dos Racionais MCs, na Praça da Sé. Mas a indigesta Virada de 2022 teve ingredientes extras que não podem deixar de ser mencionados, o que contribuiu drasticamente para o fiasco. Em primeiro lugar, a pandemia. Criou-se um falso testemunho na cabeça da população de que a doença foi embora. Não é verdade. A disseminação do vírus, é fato, está controlada. Mas não consigo imaginar, por mais que eu torcesse para que isso finalmente voltasse a acontecer, um pingo de segurança num amontoado de cerca de 10 mil pessoas sem máscara. Segurança foi uma palavra bem em falta na patuscada que adentrou a madrugada paulistana. Os principais tabloides noticiaram que faltou policiamento para conter atos de vandalismo ou agressões físicas. Soma-se a isso o reflexo da dispersão dos dependentes de crack por todo o centro da cidade, após uma apressada, atabalhoada e violenta ação da Prefeitura de intervenção na Cracolândia. E, já que o assunto é Prefeito, não dá pra tecer muitos elogios a Ricardo Nunes. O alcaide em questão quase não está fazendo nada no sentido de oferecer melhorias pra metrópole. Vejo o sujeito como um Celso Pitta, versão 2.2. Mais um vice que assume o comando principal do cargo na história republicana brasileira. Prefeito-tampão. Se a atuação dele é pífia e irrelevante no âmbito do transporte público, habitação, escolas municipais, segurança pública, reforma e manutenção de vias e logradouros, que dirá então em áreas tão historicamente adjacentes quanto Artes e Cultura? Por mais controverso que fosse, o falecido Bruno Covas ao menos tinha livre trânsito e exercia franco diálogo com lideranças artísticas. Nunes, nesse sentido, é quase tão opaco quanto Regina Duarte, só que sem dar escândalos ou pitis. E não podemos deixar de falar, é evidente, da recessão econômica. Estamos passando por uma sucessão bélica. Ligação em série de uma guerra biológica, seguida por uma guerra nuclear. A consequência disso, obviamente, é o alastramento da miséria. Não dá para figurar, portanto, um cenário tranquilo na hora de se assistir ao show da Luísa Sonza.

Mas calma que tem mais. Estamos em ano eleitoral. A polarização não só não deixou de existir, como temos a sensação de que se acirrou ainda mais. Na família, no trabalho, nas redes sociais. Não seria diferente num evento artístico, né? Pelas atrações anunciadas, a Virada teve mais a cara dos hinos e das hashtags "Lula lá" e "Fora Bolsonaro". Mas temos também o outro lado. O discurso armamentista de quem ocupa o alto comando deve ter incentivado facções mais radicais, nem tão abertas a uma saudável troca de ideias após goles de cerveja e cachaça.

Sinceramente? Eu estava torcendo para que tivesse acontecido um episódio bem retrô, típico dos nossos tempos. Que os embates ideológicos e as manifestações de protesto à arte fossem mais leves e mais cômicas. Que as brigas fossem de mentirinha, com direito a sopapos e tortas na cara. Igual à maneira como o maluquinho do Louvre se defrontou diante de algo que não gostou. Queria que voltássemos aos tempos cinematográficos do Gordo e o Magro, dos Trapalhões, dos Três Patetas. Falta um pouco ao seio de nossa sociedade esse revival grotesco, jocoso, patético. Instantes de ódio repentino, mas que no final tudo acabava em chantili. Mais bolo e menos bala, por favor. Chega de pregações de ódio contaminando nosso sangue. Chega de censurar a mamadeira de piroca e liberar a venda de pistola. O resultado disso você já sabe. Com o preço do leite, do trigo, dos ovos, sai mais em conta interagir com a arte carregando um trezoitão.


quinta-feira, 2 de junho de 2022

Está Tudo Bem

 Não se deixe levar pelo estado de espírito que o título do filme sugere. Contém ironia. Aqui, estamos falando de um personagem de 85 anos, magistralmente interpretado por André Dussollier, que sofre um AVC e, durante sua internação após o acidente, pede pras filhas o ajudarem em seu suicídio.

Esse novo trabalho de François Ozon mergulha fundo nas relações humanas. Não se trata, portanto, de uma apologia ou levantamento de discussões e polêmicas sobre a eutanásia. Claro, algumas questões burocráticas são expostas, como a necessidade de se fazer uma viagem à Suíça para o descanso eterno premeditado. Mas o miolo diz muito mais sobre o convívio familiar e as indagações dialéticas do ser humano. Vida e morte são servidos no mesmo prato, assim como o amor e o ódio. Faz parte da nossa natureza.


segunda-feira, 2 de maio de 2022

Coronel Mostarda

Deixe de lado por enquanto a supremacia da pastelaria Yokoyama ou da lanchonete A Chapa, verdadeiros ícones pioneiros surgidos nas redondezas da Aclimação e Cambuci. Aqui, vou me dedicar a relatar minha experiência (palavrinha da moda, eu sei) em outro império da zona Sul paulistana: a papelaria Momotaro.

Hoje reduzida a uma portinhola de garagem, com uma abatida fachada de parede, essa loja marcou minha infância e adolescência. Principalmente a segunda fase, período em que passei a estudar num colégio estadual logo abaixo do venerado estabelecimento. 

Nos anos 80, a Momotaro era um dos meus preferidos parques de diversões. Na época ainda não existia a nababesca Ri Happy, mas a proposta e concepção de loja, guardadas as devidas proporções, eram parecidas. Tinha um pouco de tudo: material escolar, presentes, artigos importados, brinquedos... mais ou menos que nem as Lojas Mel, só que com uma diferença: nesta última você entra, se perde, avista de tudo mas não encontra nada. A Momotaro tinha um clima mais caseiro, familiar. Era grande e aconchegante ao mesmo tempo. 

Familiar não era só o tratamento dado aos fregueses. A loja pertencia a uma família mesmo. Tinha a matriarca, durona sem ser austera, que conhecia as prateleiras e corredores do introito ao cabo. A filha, simpática, que sabia embrulhar presentes como ninguém. Papel pra cá, fita pra lá, tudo se envolvia numa dança bonita de se ver. E com uma leveza e agilidade, como se estivéssemos assistindo a um espetáculo butô com o tema de origami. Se a memória não me falha, o pai ou o tio cuidava do caixa. E, é claro, fazia as contas de cabeça. Me parece que um irmão também ajudava na loja. Ah, tinha também o avô, um centenário ancião que vigiava o estacionamento. Sim, a Momotaro tinha estacionamento próprio nos seus áureos anos. Meus amigos do colégio abaixo onde estudei, típico de adolescente, jogavam pedras em direção ao telhado metálico do abrigo de carros, com o único objetivo de assustar o velhinho. 

A Momotaro me supria em tudo o que precisava pra me tornar um aluno melhor: régua, transferidor, borracha, cola plástica, compasso, caneta esferográfica, lápis de cor, normógrafo e quetais. Mas foi naquela loja, nos idos da década de 80, que comprei aquilo que faz uma criança passar para a fase adulta: o caderno universitário. Sair com um desses debaixo do braço é o que faz a diferença entre um menino e um homem. Estava mais do que na hora de aposentar os caderninhos de brochura, um de cada matéria escolar, caprichosamente encapados pela minha mãe com um plástico quadriculado. O livreto acadêmico tinha o imponente formato A4. E reunia, por meio de divisórias, espaço para se escrever sobre todas as matérias ensinadas. Num único compilado de papel. Caminhar pelas redondezas do colégio com um caderno desses era tão revolucionário e magistral quanto mascar chicletes, fumar escondido, usar gel no cabelo, tomar Coca-Cola sem ser no almoço de domingo ou andar de patins. Isso sem falar nas capas. Eu já não tinha mais idade pra fazer propaganda de graça exibindo o logotipo da Editora Melhoramentos. Era preciso ostentar uma imagem que tivesse mais a ver comigo. Um surfista pegando onda. Uma tatuagem bem acabada de um dragão. A língua dos Rolling Stones. Era na Momotaro que eu vivi a transição estética entre a Turma da Mônica e o Andy Warhol. E eu sofria por antecipação. A cada virada de ano eu ficava tentando imaginar qual seria a capa da vez desses opúsculos. Tratava-se de um fenômeno tão aguardado quanto tentar adivinhar qual vai ser a capa do novo disco do Foo Fighters. E foi nesses gigantescos e universais cadernos que eu aprendi a escrever e reescrever a história da minha vida. Entre vários rabiscos, rascunhos e garatujas, fui errando e acertando as equações do segundo grau. Foi nas linhas pautadas que copiei a fórmula das reações inorgânicas. Inspirado no Simbolismo, usei as linhas pautadas como chão para escrever minhas primeiras linhas poéticas. Arranquei a folha presa pelo espiral de alumínio na lateral do livreto e entreguei para o primeiro amor da minha vida. Não fui correspondido.

A Momotaro teve um papel fundamental no meu desenvolvimento escolar. Mas não foi só nos estudos que ela foi importante pra mim. Vivi tempos de inflação alta, em que os estabelecimentos remarcavam os preços de seus produtos duas vezes ao dia. Mas, antes disso, lembro que ainda era possível juntar dinheiro em casa, nos cofrinhos em formato de porco, sem ter de recorrer ao overnight. E foi juntando as mesadas que ganhava da minha avó, de cruzeiro em cruzeiro, que abracei esse montante de cédulas e adquiri, por esforço próprio, o objeto de desejo da minha família: o jogo Detetive. Ah, como era bonito abrir aquele tabuleiro decorado, que simulava a planta baixa de uma casa onde havia ocorrido um misterioso assassinato. Cada suspeito tinha o nome de uma cor que, por sinal, era a mesma do pião que conduzia os jogadores até o centro do espetáculo. Dona Violeta, quem diria... uma senhora tão frágil e simpática. Ou até mesmo o erudito Senhor Black. E o que dizer então das armas? Réplicas perfeitas em miniatura dos mais diversos objetos cortantes, pontiagudos ou atiradores. Faca, revólver, candelabro...

Hoje, dentro do meu ônibus em direção ao Terminal Amaral Gurgel, passo quase todo dia pela Momotaro e percebo que ali reside uma vaga lembrança do que essa dinastia dos papeis já foi. Não sei qual é mais estreito e decadente: a loja ou o boteco ao lado. Tempos difíceis. Passamos um biênio trancafiados por causa da pandemia, e o comércio fechado. Passado o susto, vem uma inflação galopante, em parte impulsionada por uma guerra no leste europeu. E, antes mesmo da Covid, ou da Guerra da Ucrânia, as pessoas já estavam deixando de consumir esses derivados da madeira. Tudo é pelo e-book, pelo site, pelo grupo de zap. Por mais tecnológica que seja, a família Momotaro não se rendeu à venda de chips de celular. Seriam só mais um em um milhão. Prefiro guardar na memória esse império do passado com a mesma clareza e vivacidade que guardo os versos de Augusto dos Anjos. Não sei mais quantos deles ainda estão vivos. Mas tenho plena convicção de que quem matou parte dessa antológica família não foi o vírus, nem a inflação, muito menos os modernos recursos digitais. Foi o Coronel Mostarda, com uma chave inglesa, na sala de estar.


Klondike - A Guerra na Ucrânia

Em 2014, no momento em que começa a Guerra em Donbas, o casal de ucranianos Irka e Tolik vive na região da fronteira entre seu país e a Rússia. Ela está grávida e eles fazem planos para o futuro. Nesta primeira cena, uma grande explosão ocorre no local e destrói a casa onde moram, dando o tom dramático para o resto do filme. Irka se recusa a abandonar sua casa, mesmo quando seu vilarejo é tomado pelas forças armadas. Tudo fica ainda mais complicado quando um avião civil é abatido e cai na região.

A Guerra da Ucrânia, assunto bastante atual, serve de fio condutor ao filme. Mas não é nela que a diretora Maryna Er Gorbach se debruça. Os destroços da cidade, acompanhados por ruidosos estampidos de bombas o tempo todo, fazem o papel de um metrônomo, um marcapasso para as relações pessoais que se degringolam em progressão geométrica. De um início supostamente feliz do casal vamos acompanhando um comportamento que beira o primitivo. Prova-se, aí, que a guerra tem o poder de destruir não só os bens materiais de uma sociedade.

É possível notar uma certa obsessão da realizadora para se alcançar esse retrato cru e primal do ser humano. O resultado, porém, ultrapassa um pouco as fronteiras, ficando no limite entre a economia dos signos e o exagero das interpretações. Um pouco menos de pólvora atingiria o alvo com a mesma precisão.