quarta-feira, 12 de outubro de 2022
Palavras
sexta-feira, 16 de setembro de 2022
Desaparecidos
Depois de uma meteórica passagem pelos cinemas brasileiros, chega ao streaming esta produção francesa. Seu rápido desaparecimento dos circuitos de telona se justifica. É mais um típico filme B, daqueles que recheiam os catálogos das distribuidoras, mas não encontram um diferencial potente nem um público cativo pra se desovarem.
Na trama, a mediana Olga Kurylenko vive Alice, uma cientista forense que inventou uma técnica de restauração de cadáveres danificados. Ela visita a Coreia do Sul para participar de uma conferência e recebe um pedido da polícia do país para realizar uma autópsia em uma vítima encontrada em um rio. Jin Ho, o detetive responsável pelo caso, descobre pelo resultado da autópsia que o corpo está relacionado a um sindicato de tráfico de órgãos.
Sem grandes inspirações, o filme traça o famigerado caminho de suspense e mistério para se chegar a uma solução. E tudo fica calcado nas mesmices e nos clichês, reforçando a sensação de que se trata de apenas mais um subproduto do gênero.
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
Os Ossos da Saudade
De acordo com a sinopse, “Os Ossos da Saudade” é um filme sobre a ausência, narrado a partir das vivências de pessoas que experimentam sentimentos de falta e distância, espalhados por Brasil, Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde. Brasileiros e estrangeiros atravessados pela saudade, que, de alguma forma, carregam o Brasil em seus baús interiores.
Trata-se, portanto, de um registro mais intimista, menos didático e cartesiano, que foge um pouco do convencional estilo "talking heads" de documentar. Tanto é que, em muitas passagens, o protagonista é filmado de costas, ou nem mesmo aparece em cena. Ponto para o diretor mineiro Marcos Pimentel.
O problema é que esse excesso de subjetivismo corre o risco de cair em armadilhas. No conjunto da obra, Os Ossos da Saudade tem um pouco a cara de filme feito para ganhar prêmios em festivais. Claro, existe um cuidado estético, um precioso rigor formal. Mas, em muitos momentos, esse preciosismo se confunde com um certo cinema-fórmula de circuitos alternativos.
Corre à boca pequena, entre os críticos e profissionais de Cinema, o comentário de que, quando existe uma crise criativa por parte dos realizadores, basta filmar a correnteza dos rios e mares. Claro, trata-se de uma observação pejorativa e simplória. Mas, os olhos de quem assiste ao filme do outro lado da tela, fica um pouco difícil encontrar um significado plausível para estabelecer uma relação, mínima que seja, entre esses devaneios estilísticos e a proposta de se falar sobre saudade e memória. Não é exatamente uma enganação. Mas fica o gosto de um certo hermetismo.
Ainda assim, feito o reparo, Os Ossos da Saudade é um bom filme. Traz um retrato bem temperado de lentes que buscam espaços vazios, ruínas geográficas, vozes solitárias que procuram compreender algo que ficou no pretérito de suas vidas.
O Próximo Passo
Este novo filme de Cédric Klapisch poderia muito bem se chamar De Volta ao Albergue. Lançado no circuito brasileiro imediatamente após seu filme anterior, De Volta à Borgonha, o diretor retoma algumas características que marcaram seus primeiros trabalhos, notadamente Albergue Espanhol, e que foram mais ou menos abandonados no penúltimo filme.
Na primeira cena, temos a impressão de nos depararmos com um majestoso tributo à dança, algo peculiar na filmografia de Carlos Saura, por exemplo. Mas o anticlímax aparece logo em seguida. Elise, uma jovem e promissora bailarina clássica, se machuca em uma apresentação após flagrar a traição do namorado. Essa ruptura do tornozelo serve também de metáfora para a quebra do ritmo que o diretor impõe ao seu trabalho. Dali em diante, surgem situações que nada lembram a beleza coreográfica de um baile: laudos médicos, conflitos pessoais e, principalmente, a busca pela resposta sobre um novo rumo na vida da personagem, algo que inspira o título.
É nesse momento que Klapisch volta às suas origens e mescla o individualismo existencialista de seus personagens com o coletivismo do convívio em grupo. Em Albergue Espanhol, essa marca era muito gritante Aqui, um pouco mais sutil. O retiro de Elise, que coincide com um espaço de ensaios de um grupo mais jovem, é a prova disso. É no intercâmbio das relações pessoais que o diretor encontra sua força e a medida certa para fazer um filme simples e ao mesmo tempo denso.
terça-feira, 23 de agosto de 2022
O cu do Imperador
Pela primeira vez na nossa história o povo brasileiro poderá ver o ânus de Dom Pedro I. Trata-se de uma homenagem ao Imperador pelos 200 anos de independência da república tupiniquim. A exibição em público dessa partícula final do intestino encerrará os rituais comemorativos e, para isso, foi totalmente embalsamada em formol e guardada num recipiente à prova de todo e qualquer tipo de contaminação.
Embora o pedaço proctal esteja blindado, contando com uma equipe de segurança 24 horas por dia, pouco se sabe ao certo o motivo pelo qual será ostentado à população. Por que não os olhos de Dom Pedro? O fígado? A grande mídia, muito mais preocupada em preparar debates presidenciais, pouco noticiou o assunto. O porta-voz do Governo, mais uma vez, não se pronunciou. O que sobrou então foram apenas hipóteses e conjecturas de estudiosos e formadores de opinião.
Leviano Hang Loose, proprietário de uma importante rede do varejo, apoiador confesso do atual Presidente, declarou em seus grupos de WhatsApp que a analogia é evidente e cristalina. Estamos, afinal de contas, celebrando a independência do país verde-amarelo. E, como todos sabem, o ânus é um órgão independente e autônomo. Adepto ao neoliberalismo, trabalha a hora que quer. Faz jornada extra e não reivindica por mais direitos. A vontade de ir ao banheiro, reparem, nada tem a ver com os avisos dos neurônios. Não existe um condicionamento físico dos pulmões para tal ato. Alongamentos musculares antes da descarga fecal podem, literalmente, induzir que tudo vai dar merda.
Já outras facções menos alinhadas ao regime tendem a discordar. Jacques Gordini, cientista político que se autoexilou do país, entende se tratar de uma atitude homofóbica e carregada de machismo estrutural. De acordo com o ex-BBB, isso representa uma apologia velada e preconceituosa à discriminação de gênero, já que os gays, homossexuais e transexuais gostam de dar o cu. Pelo menos a maioria deles.
Essa percepção, contudo, não é unânime. O analista político Celso Arquibancada acha que existe uma correlação com o atual momento de Bolsonaro, que está com o cu na mão caso perca as eleições. Por outro lado seu companheiro de mesa, Dulcídio Orquidi, entende que quem está com o cu na mão é justamente o Lula, que vem perdendo pontos nas pesquisas eleitorais e vê a diferença de intenções de votos reduzir a cada novo levantamento.
Nem todos, contudo, enxergam o viés político nesse ato simbólico. Perguntada sobre o tema, a estilista da periferia e influenciadora digital Ludmilla von Thiesse retrucou: "O que tem a ver o cu com as calças?".
O fato é que, no próximo dia 7 de setembro, o Brasil inteiro vai assistir ao escatológico desfile do esfíncter real - e retal. Como se fosse um exame de colonoscopia ao vivo. Qual o significado desse mumificado produtor de bosta? Fica aqui a pergunta. Nosso país está suficientemente chafurdado no lodaçal de merda, com uma classe trabalhadora sem trabalho e sem comida. E uma classe política sem classe e sem caráter. Mas que não se envergonha de mostrar, pro mundo inteiro, o cu do nosso imperador.
sexta-feira, 19 de agosto de 2022
Luta pela Liberdade
O diretor Zhang Yimou se consagrou por fazer filmes de artes marciais e dinastias imperiais. Desta vez, abandona esse campo e se propõe a fazer uma obra de espionagem. Representante da China ao Oscar 2021, Luta pela Liberdade se passa no estado de Manchukuo, um lugar controlado pelo governo, na década de 1930. Quatro agentes especiais do Partido Comunista retornam à China depois de receber treinamento na União Soviética. Juntos, eles embarcam em uma missão secreta com o codinome "Utrennya". Depois de serem dedurados por um traidor, a equipe é ameaçada de morte por todos os lados.
Com seu preciosismo técnico, Zhang traz um trabalho cuidadoso e com uma beleza própria. Nada tão reluzente e escarlatino quanto Lanternas Vermelhas. Ou meticulosamente sorumbático quanto Shadow. Aqui é o branco da neve que dá o tom cromático, um recurso natural até então pouco explorado pelo diretor.
Embora caprichado na forma, Luta pela Liberdade resvala em uma trama complexa, muitas vezes confusa, que exige uma atenção especial. Oscila entre o denso e o desordenado. Tem lá seus méritos mas, se comparado a obras-primas mais remotas, trata-se de um filme menor.
De Volta à Borgonha
Recentemente, as salas de cinema brasileiras acolheram o francês Lola e Seus Irmãos, que disseca as relações familiares entre parentes que se reencontram. Agora é a vez de Cédric Klapisch dar a sua versão sobre o que une - e separa - um trio de irmãos que, com suas semelhanças e diferenças, se veem obrigados a se ver novamente.
A comparação entre Lola e De Volta à Borgonha para por aí. As brigas, os conflitos de interesse e a ausência de um deles fazem parte do repertório de ambos. Mas em De Volta existe todo um aparato estético, quase noveleiro, que se diferencia do anterior.
Estamos falando de uma família que herda a vinícola de seu pai, recém-falecido. Esse pano de fundo serve de prato cheio para exibir cenas de paisagens campestres e processos de fabricação do vinho. Tudo muito lindo, nítido, com uma luz forte para realçar os detalhes e dar ao filme um tom quase National Geographic.
Entretanto, Klapisch tem o dom de fazer sua obra escapar de um comercial de restaurante da alta gastronomia. Ainda bem. No meio de tanto primor bucólico, o diretor encontra espaço para mostrar um clã endividado e pouco experiente para exercer sua função de patrões. É nesse âmbito que Klapisch se sai melhor, deixando seu requinte etílico apenas como atrativo superficial para debruçar sobre o que sabe fazer de melhor: captar as relações humanas, sem cair em clichês ou diálogos forçados e atuações falsas.
Nesse sentido, De Volta à Borgonha parece ser um retrato mais maduro se comparado aos sucessos Albergue Espanhol e Bonecas Russas, onde tudo parecia uma folha de rascunho, um grande teatro de improviso recheado de boas intenções e sequências espertinhas.
sábado, 30 de julho de 2022
Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída
Não são poucos os filmes que se aproveitam oportunisticamente de transcrever para as telas best-sellers literários e provam ser verdadeiros fiascos, como é o caso da saga Crepúsculo e da trilogia 50 Tons de Cinza. Eu, Christiane F., está um pouco acima dessa régua. O que não quer dizer muita coisa. Fez até um certo burburinho à época de seu lançamento mas, revisto 40 anos depois, em cópia remasterizada para marcar essa edição comemorativa, deixa claro por que caiu no ostracismo.
O longa, que retrata uma juventude sem rumos, até poderia ser elencado como um dos ícones da década, não fosse outro problema: a eclosão de cineastas magistrais como Herzog, Wenders e Fassbinder. Não tem como competir.
O filme se passa na virada dos anos 70 para os anos 80. Um constatado limbo histórico. O movimento hippie já não tinha mais o poder de mobilizar multidões de jovens egressos de Woodstock. E a era disco, junto com o punk e o new wave, ainda sibilavam notas embrionárias do que viriam a ser anos mais tarde. Não é à toa que o personagem mais representativo do filme não é a drogada adolescente, mas o camaleônico David Bowie, interpretando a si mesmo, durante um show que ocorreu de verdade em Berlim.
Eu, Christiane F., situa-se perfeitamente nesse vácuo social. Traz à tona famílias desestruturadas e uma horda de jovens que trocaram a revolução estudantil por um tipo de experimentação mais efêmera e individual: a heroína. Moleques que, atordoados pelos efeitos alucinógenos, não sabem exatamente qual seu papel na sociedade: onde estão e para onde vão. Tanto é que boa parte é filmada dentro de estações de trem, em que aparecem vagões em trânsito, indo e vindo sem que o espectador saiba seu destino.
Do ponto de vista estético, o diretor Uli Edel mergulha fundo no universo das drogas. Algumas cenas de jovens se picando podem até ser chocantes para um público mais sensível e menos iniciado, mesmo nos dias atuais. É agulha, seringa e sangue pra tudo quanto é lado. Talvez essa provocação, que resulta numa possível sensação mais aflitiva, seja uma maneira de Edel mostrar seu viés ideológico contrário a esse modus vivendi. Mas isso é apenas uma hipótese.
Se por um lado o diretor se aprofunda na primeira metade do subtítulo, por outro deixa muito a desejar na segunda fatia. Quase não há cenas de prostituição. A parte em que Christiane F. masturba um cliente dentro do carro é filmada do lado de fora do para-brisa, a metros e metros de distância. A cena do casal de namorados se despindo é feita de modo apressado, sem nenhum tipo de nuance e com um apelo sexual muito mais sugerido do que explícito. Sugere-se que o filme foi feito pra incomodar mas, na realidade, traz significantes muito mais presbiterianos, dando a entender que, na alma, Eu, Christiane F. é um produto pudico e recatado. Ou essa solução serviu de artifício para encobrir a falta de intimidade do diretor em filmar a sexualidade dos personagens.
Não foram poucos os diretores que se debruçaram nessa temática lost boys, cada um à sua forma autoral. Em Kids, Larry Clark explora suas crias quase de modo ejaculatório, como se fosse um voyeur querendo ser o protagonista de todo aquele bacanal regado a psicotrópicos. Já Gus Van Sant praticamente abençoa e venera seus rebentos da era grunge em Paranoid Park, mostrando que o ser humano é bom e desencanado por natureza. Bruno Dumont faz exatamente o contrário. Em seu longa de estreia, A Vida de Jesus, planta a sementinha de um olhar menos generoso (e posteriormente mais caricato), trazendo analogias concretas para defender sua tese de que o indivíduo é, literalmente, fruto de uma deformidade social. Comparado a eles, Uli Edel concretiza um registro meramente morno e apático da juventude alemã.
Eu, Christiane F., enquadra-se na tríade sexo, drogas e rock and roll das festas e dos rolês. Mas parece ser meio que um convidado deslocado dessa patuscada. Sobre as drogas, enfia a agulha mas não atinge a veia. Lança um olhar apenas epidérmico. Na questão do sexo, parece usar preservativo duplo, de tão asséptico e distante que se posiciona. Já o rock and roll parece surgir de modo mais orgânico. A cena dos jovens roubando uma loja ao som de Heroes é o momento mais genuíno e emblemático. Afinal, quem são os heróis dessa sociedade letárgica e moribunda?
quinta-feira, 16 de junho de 2022
Armadilha Explosiva
Quando se pensa em filmes franceses de ação, nos vêm à cabeça as megaproduções capitaneadas por Luc Besson. Armadilha Francesa é, de fato, produzido pela equipe do cineasta. Só que aqui não rolam cenários futuristas, assassinos de aluguel ou perseguições de carros. A relação do filme com automóvel é diferente.
Tudo se passa num estacionamento de prédio residencial. Fred tenta ligar seu carro de manhã e não consegue. Sai do veículo e quem se incumbe disso é sua companheira Sonia. Ao fazer isso, Sonia ativa uma bomba-relógio escondida no motor, que inicia a contagem regressiva de 30 minutos até o momento da explosão.
O cenário está todo ali. Um casal, dois filhos pequenos dentro do carro e uma equipe de colegas de profissão de Sonia, especialista em desarmar minas. Essa delimitação de espaço quase minimalista, entretanto, não tira o suspense. Pelo contrário. O diretor e roteirista Vanya Peirani-Vignes mostra-se habilidoso em criar tensão suficiente com poucos recursos e dimensões cênicas mais contidas. Aqui neste caso, menos é mais.
sábado, 11 de junho de 2022
Um Dia para Sempre
Está comprovado que o forte dos alemães não é a comédia. Eles até tentam, mas o resultado fica meio duro, calcado em fórmulas já feitas.
Um Dia para Sempre conta a história de Zazie, que recebe um convite para o casamento de seu melhor amigo Philipp com sua arquirrival Franziska. Contrária à ideia, ela tenta salvar o amigo e sabotar o matrimônio. Por causa de um loop temporal, isso acontece repetidamente, todos os dias.
Essa modinha do universo paralelo, metaverso, conseguiu chegar ao cinema germânico. Não se restringe mais aos heróis da Marvel. Na prática, é como se Zazie estivesse enfrentando a mesma situação em infinitos mundos diferentes e simultâneos.
Mas o filme não se debruça nas teorias da Física Quântica. Ele mais parece um repeteco do clássico O Feitiço do Tempo. Até mesmo no close do relógio tocando na hora de acordar.
Lançado para aproveitar o Dia dos Namorados, o filme tem gosto de bombom Caribe. Não é exatamente ruim. Mas é sempre o último a sair da caixa.
